A Desigualdade Não é Inevitável – Joseph E. Stiglitz

Tomei conhecimento deste artigo do Economista Joseph E. Stiglitz em consulta ao blog do Ladislau Dowbor – Crise e Oportunidade. Como o texto estava em inglês resolvi traduzi-lo e postar aqui no dialogosessenciais.com.

Sempre se discutiu nos meios acadêmicos se é da natureza do capitalismo, ao criar seus necessários capitalistas, criar automaticamente seus necessários assalariados e, com o passar do tempo, a segregação econômica e social. Discutia-se se o sucesso do capitalismo e do crescimento de renda implicariam na distribuição automática e equânime dos seus frutos (trickle down economics). Embora Stiglitz, neste artigo, defenda a tese de que o aumento da desigualdade observado não é um fruto automático e inevitável do capitalismo, são tantos os ajustes que devem ser feitos para que o capitalismo possa funcionar para todos, todo o tempo, que devemos questionar se estes ajustes – políticos, regulatórios, sociais e econômicos – são factíveis. Parece uma luta com armas desiguais, fadada ao fracasso. Leia e tire suas próprias conclusões.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

A desigualdade não é inevitável
Por Joseph E. STIGLITZ
Uma tendência insidiosa se desenvolveu ao longo destes últimos trinta anos. Um país que experimentou um crescimento distributivo após a Segunda Guerra Mundial começou a esgarçar-se, tanto assim que, quando a Grande Recessão o atingiu no final de 2007, já não se podia ignorar as fissuras que vieram a definir o cenário econômico norte-americano. Como é que esta “brilhante cidade sobre a colina” se tornar o país avançado com maior nível de desigualdade?

Uma parte da discussão extraordinária posta em movimento pelo oportuno, importante livro de Thomas Piketty, “Capital do Século XXI”, concentrou-se na idéia de que os grandes extremos de riqueza e renda são inerentes ao capitalismo. Neste sentido, deveríamos ver as décadas após a Segunda Guerra Mundial – um período de desigualdade caindo rapidamente – como uma aberração.

Esta é realmente uma leitura superficial do trabalho do Sr. Piketty, que fornece um contexto institucional para a compreensão do aprofundamento da desigualdade ao longo do tempo. Infelizmente, essa parte de sua análise recebeu relativamente menos atenção do que os aspectos de aparência mais fatalista.

Durante metade do ano passado, The Great Divide, uma série do The New York Times para a qual eu trabalhei como moderador, apresentou também uma vasta gama de exemplos que minam a noção de que existam quaisquer leis verdadeiramente fundamentais do capitalismo. A dinâmica do capitalismo imperial do século 19 não é aplicável nas democracias do século 21. Nós não precisamos ter tanta desigualdade na América.

A nossa marca atual do capitalismo é um simulacro de capitalismo. Para se ter uma prova disto basta voltar para a nossa resposta à Grande Recessão, onde nós socializamos as perdas, assim como nós privatizamos os ganhos. A concorrência perfeita deve levar os lucros a zero, pelo menos teoricamente, mas temos monopólios e oligopólios obtendo persistentemente elevados lucros. Presidentes de empresas apreciam rendimentos que são, em média, 295 vezes maior do que o trabalhador típico, uma proporção muito mais elevada do que no passado, sem qualquer evidência de um aumento proporcional na produtividade.

Se não foram as leis inexoráveis ​​da economia que levaram à grande divisão da América, o que foi? Resposta simples: as nossas políticas e nossa política. As pessoas se cansam de ouvir falar de histórias de sucesso escandinavas, mas o fato é que a Suécia, Finlândia e Noruega todos conseguiram ter crescimento na renda per capita igual ou mais rápido do que os Estados Unidos e com muito maior igualdade.

Então, por que a América tem escolhido estas políticas de promoção da desigualdade? Parte da resposta é que, como a Segunda Guerra Mundial está desbotada na memória, também está a solidariedade que a guerra tinha engendrado. Como a América triunfou na Guerra Fria, não parece existir um concorrente viável para o nosso modelo econômico. Sem essa concorrência internacional, nós não tínhamos mais que mostrar que o nosso sistema poderia favorecer a maioria dos nossos cidadãos.

Ideologia e interesses nefastamente combinados. Alguns aprenderam a lição errada a partir do colapso do sistema soviético. O pêndulo oscilou de demasiado governo lá, para muito pouco aqui. Interesses corporativos atuaram para se livrar dos regulamentos, mesmo quando os referidos regulamentos tinham sido feitos para proteger e melhorar o nosso ambiente, nossa segurança, nossa saúde e a da própria economia.

Mas essa ideologia era hipócrita. Os banqueiros, entre os maiores defensores da economia do laissez-faire, estavam muito dispostos a aceitar centenas de bilhões de dólares de ajuda do governo, o que tem sido uma característica recorrente da economia global desde o início da era Thatcher-Reagan de mercados “livres” e desregulamentação.

O sistema político americano está dominado pelo dinheiro. A desigualdade econômica se traduz em desigualdade política e desigualdade política gera o aumento da desigualdade econômica. De fato, como ele reconhece, o argumento do Sr. Piketty repousa sobre a capacidade dos titulares de riqueza em manter a sua taxa de retorno elevado em relação ao crescimento econômico após os impostos. Como eles fazem isso? Ditando as regras do jogo para garantir este resultado; isto é, através da política.

Como resultado, aumento no bem-estar das corporações e redução no bem-estar dos pobres. O Congresso mantém subsídios para fazendeiros ricos, enquanto nós cortamos o suporte nutricional para os necessitados. Foram dadas centenas de bilhões de dólares às empresas farmacêuticos e limitados os benefícios do Medicaid. Os bancos que tornaram possível a crise financeira global obtiveram bilhões enquanto uma ninharia foi para os proprietários de imóveis e para as vítimas de práticas predatórias de empréstimos destes mesmos bancos. Esta última decisão foi particularmente tola. Havia alternativas à decisão de despejar dinheiro nos bancos e esperar que circulassem através de um aumento dos empréstimos. Poderíamos ter ajudado os proprietários de imóveis que estavam afundando e as vítimas de comportamentos predatórios diretamente. Isto não só teria ajudado a economia, como nos teria colocado no caminho da recuperação robusta.

Nossas divisões são profundas. Segregação econômica e geográfica parecem ter imunizado aqueles no topo em relação aos problemas das pessoas abaixo. Como os reis de antigamente, eles passaram a perceber suas posições privilegiadas essencialmente como um direito natural. Como explicar as recentes declarações do capitalista de risco Tom Perkins, que sugeriu que a crítica do 1 por cento era semelhante ao fascismo nazista, ou aquelas que vêm do titã de private equity Stephen A. Schwarzman, que comparou o pedido de que o capital financeiro pague impostos na mesma taxa daqueles que trabalham para sobreviver, à invasão da Polônia por Hitler.

A nossa economia, nossa democracia e da nossa sociedade têm pago por essas desigualdades flagrantes. O verdadeiro teste de uma economia não é o quanto de riqueza seus príncipes podem acumular em paraísos fiscais, mas quão bem o cidadão típico está – ainda mais na América, onde a nossa auto-imagem está enraizada na nossa pretensão de ser a grande sociedade de classe média. Mas os rendimentos medianos estão mais baixos do que há um quarto de século atrás. O crescimento foi para as mãos dos detentores de riqueza muito, muito superiores, cuja participação quase quadruplicou desde 1980. O dinheiro que era para ter se irradiado para baixo (trickled down) evaporou-se no clima ameno das Ilhas Cayman.

Com quase um quarto das crianças americanas menores de 5 vivendo na pobreza, e com a América a fazer tão pouco para os seus pobres, as privações de uma geração estão sendo projetadas na próxima. É claro que nenhum país jamais chegou perto de proporcionar a plena igualdade de oportunidades. Mas por que é na América, um dos países avançados, onde as perspectivas de vida do jovem são as mais fortemente determinadas pela renda e educação de seus pais?

Entre as histórias mais comoventes em The Great Divide foram as que retrataram as frustrações dos jovens, que anseiam entrar na nossa classe média que está encolhendo. Crescentes prestações e rendimentos decrescentes resultaram em encargos da dívida maiores. Aqueles com apenas um diploma do ensino médio viram os seus rendimentos diminuírem em 13 por cento ao longo dos últimos 35 anos.

Onde a justiça está em causa, há também uma divisão bocejando. Nos olhos do resto do mundo e uma parte significativa da sua própria população, o encarceramento em massa está definindo a América – um país, vale a pena repetir, com cerca de 5 por cento da população do mundo, mas em torno de um quarto dos prisioneiros do mundo.

Justiça tornou-se uma mercadoria, acessível para poucos. Enquanto executivos de Wall Street usaram seus caríssimos advogados para garantir que as suas fileiras não fossem responsabilizadas pelos erros que a crise em 2008 tão graficamente revelou, os bancos cometeram abuso contra o nosso sistema legal ao executar hipotecas e expulsar pessoas, algumas das quais nem mesmo tinham dívida.

Mais de meio século atrás, a América liderou o caminho na defesa da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pelas Nações Unidas em 1948. Hoje, o acesso aos cuidados de saúde é um dos direitos mais universalmente aceitos, pelo menos nos países avançados. América, apesar da implementação do Affordable Care Act, é a exceção. Tornou-se um país com grandes divisões no acesso aos cuidados de saúde, expectativa de vida e estado de saúde.

Ao contrário do alívio que muitos sentiram quando a Suprema Corte não derrubou o Affordable Care Act, as implicações da decisão para o Medicaid não foram totalmente apreciadas. O objetivo da Obamacare – para garantir que todos os americanos tenham acesso a cuidados de saúde – foi frustrado: 24 estados não implementaram o programa Medicaid expandido, que seria o meio pelo qual o Obamacare deveria cumprir a sua promessa para alguns dos mais pobres.

Não precisamos apenas de uma nova guerra contra a pobreza, mas a guerra para proteger a classe média. As soluções para estes problemas não devem ser resultantes de remendos. Longe disso. Fazendo mercados agir como mercados seria um bom lugar para começar. Temos que acabar com a sociedade rentista em torno da qual gravitamos, em que os ricos obtêm lucros através da manipulação do sistema.

O problema da desigualdade não é tanto uma questão técnica da economia. É realmente um problema de prática política. Assegurando que aqueles no topo pagarão a sua parte justa de impostos – eliminar os privilégios especiais dos especuladores, de corporações e dos ricos – é, ao mesmo tempo, pragmático e justo. Nós não estão adotando uma política da inveja se nós revertermos a política de ganância. A desigualdade não é apenas sobre o teto da taxa marginal de tributos, mas também sobre o acesso dos nossos filhos ao alimento e ao direito à justiça para todos. Se nós gastássemos mais em educação, saúde e infra-estrutura, isto iria fortalecer nossa economia, agora e no futuro. Só porque você já ouviu isso antes, não significa que não devemos tentar novamente.

Localizamos a fonte subjacente do problema: as desigualdades na política e as políticas que têm mercantilizado e corrompido nossa democracia. Somente cidadãos engajados podem lutar para restaurar uma América mais justa, e eles podem fazer isso somente se eles entenderem as profundidades e dimensões do desafio. Não é tarde demais para restaurar a nossa posição no mundo e recuperar o nosso sentido de quem somos como nação. Alargamento e aprofundamento da desigualdade não são impulsionados por leis econômicas imutáveis, mas por leis que nós mesmos escrevemos.
Este é o último artigo no The Great Divide.
THE GREAT DIVIDE

Jun 27, 2014
Inequality Is Not Inevitable
By JOSEPH E. STIGLITZ

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