Outro primeiro de abril?

A vantagem, única talvez, de estar próximo de fazer 63 anos, é que eu posso dar meu testemunho do que significa romper a normalidade democrática e derrubar um presidente eleito. A vida de Jânio Quadros, eleito em voto popular, foi infernizada desde o início do seu governo, levando-o à renúncia “tática”. Esta tática não funcionou. O povo não o reconduziu ao poder como ele esperava.  A campanha para não deixar o vice-presidente eleito João Goulart assumir começou no mesmo instante da renúncia de Jânio e foi perpetrada pelas mesmas forças (“ocultas”) que tramavam para impedir o governo Jânio. João Goulart foi obrigado a “engolir” uma mudança do regime político: de presidencialismo para parlamentarismo. Foi o primeiro golpe, único possível naquele momento em face da reação de Leonel Brizola, então Governador do Rio Grande do Sul. Qual o papel da mídia empresarial, dos grandes grupos empresariais e da igreja conservadora ? Forneceram recursos financeiros, manipularam as informações e se associaram aos Estados Unidos para fomentar e praticar o golpe de 01 de abril de 1964. Falo de memória, sem consultar nenhuma fonte. Falo de memória e relembrando meus estudos de história, de política e de economia: no Brasil e no exterior. O enredo deste samba já vi desfilar no Brasil, no Chile de Salvador Allende, na Bolívia, no Paraguai, na América Central, no mundo todo. Da última vez que nos metemos nesta enrascada, foram necessários 25 anos de luta e muitas famílias esfaceladas, muitas vidas destruídas para reconquistar a tal liberdade prometida na marcha.

Começa de forma pura e inocente. A mídia empresarial é especialista em empacotar belas campanhas de marketing: “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” é um excelente bordão. Tem tudo nele: Tradição (Deus), Família e Propriedade (Liberdade) = TFP. Um senhor de 63 anos como eu deve estar, na avaliação dos mais jovens, com a cabeça cheia de teias de aranha, não é mesmo? Trata-se de um duelo geracional ? Óbvio que não. Trata-se do básico: formação humanista e política. Meninos e meninas eu já vi e posso lhes assegurar: a seguir neste rumo em favor da repetição da história de 1964, vamos cair no conto do primeiro de abril novamente.

Na famosa marcha de apoio à ditadura, disfarçada de marcha para Deus, Família e Liberdade, tinha um montão de gente nas ruas, como podem atestar a foto e o texto abaixo. O vazio político, ” o ovo da serpente”, a geleia geral política que enfrentamos hoje foram chocados nesses 25 anos de ditadura que resultou da idiotice coletiva de 1963 e 1964.

Aos rentistas, a alguns empresários e aos especuladores “lhes encantam” salário mínimo congelado, mão de obra farta e faminta (disponibilidade de mão de obra desempregada e barata), juros de 20% ao mês, liberdade para desenvolver negócios escusos.

Deixo uma pergunta no ar: Vamos todos em transe, zumbis dos “FACIBOOKS” (assim mesmo “i”, revisor),  mãos estendidas, repetir idiotices históricas ? 

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

A seguir texto de Sérgio Lamarão, publicado no site http://cpdoc.fgv.br, da série de documentos referentes à trajetória política de João Goulart.
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Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro, em comemoração pela vitória do Golpe, no dia 02 de abril de 1964. Movimento surgido em março de 1964 e que consistiu numa série de manifestações, ou “marchas”, organizadas principalmente por setores do clero e por entidades femininas em resposta ao comício realizado no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964, durante o qual o presidente João Goulart anunciou seu programa de reformas de base. Congregou segmentos da classe média, temerosos do “perigo comunista” e favoráveis à deposição do presidente da República.

A primeira dessas manifestações ocorreu em São Paulo, a 19 de março, no dia de São José, padroeiro da família. O principal articulador da marcha foi o deputado Antônio Sílvio da Cunha Bueno, apoiado pelo governador Ademar de Barros, que se fez representar no trabalho de convocação por sua mulher, Leonor de Barros.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade, no Rio de Janeiro, em comemoração pela vitória do Golpe, no dia 02 de abril de 1964. Preparada com o auxílio da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), da União Cívica Feminina, da Fraterna Amizade Urbana e Rural, entre outras entidades, a marcha paulista recebeu também o apoio da Federação e do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo. A marcha contou com a participação de cerca de trezentas mil pessoas, entre as quais Auro de Moura Andrade, presidente do Senado, e Carlos Lacerda, governador do estado da Guanabara. Durante o trajeto, que saiu da praça da República e terminou na praça da Sé com a celebração da missa “pela salvação da democracia”. Na ocasião, foi distribuído o Manifesto ao povo do Brasil, convocando a população a reagir contra Goulart.

A iniciativa da Marcha da Família repetiu-se em outras capitais, mas já após a derrubada de Goulart pelos militares em 31 de março, o que as tornou conhecidas como “marchas da vitória”. A marcha do Rio de Janeiro, articulada pela Camde, levou às ruas cerca de um milhão de pessoas no dia 2 de abril de 1964.

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