OS FAVORITOS – Pablo Neruda

Em relação à matéria distorcida do jornal O Globo sobre declaração do ex-presidente do Uruguai, José Mujica, só me resta publicar uma frase atribuída a Bernard Shaw e “republicar” o poema Os Favoritos, publicado neste blog em 26/02/2015, que presta homenagem a certo tipo de jornalista e, por que não, a certo tipo de jornalismo.

I learned long ago, never to wrestle with a pig. You get dirty, and besides, the pig likes it.

George Bernard Shaw

Tradução livre:

Eu aprendi há muito tempo a não me atracar com um PIG. Você se suja todo e, o que é pior, o PIG gosta.

Publicamos, a seguir, uma singela homenagem àqueles seletos profissionais da mídia em cujas cabeças  se encaixa, à perfeição, a carapuça. No Brasil de hoje eles têm nome, sobrenome, fama, coluna nos jornais e nas revistas e tempo nas estações de rádio, TV e em sites. Não ficam desempregados e são regiamente pagos pelos seus serviços.
Espero que vocês leiam não como um incentivo à violência mas, antes, quase como lamento, como uma constatação de que aqui, em nossa latino-américa, a história e a dor se repetem. Basta contrariar interesses e tentar girar a roda de baixo para cima. E espero que aqueles em quem a carapuça cabe à perfeição, percebam que estamos todos atentos e vacinados em relação aos seus desejos malévolos e palavras falsamente suaves travestidas de interesse pelo “bem comum”; tão seguras e tão simplistas, quanto equivocadas.
Com a palavra, Pablo Neruda.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

OS FAVORITOS / Pablo Neruda

No espesso queijo cardão
da tirania amanhece
outro verme: o favorito.

É o covardão arrendado
para louvar as mãos sujas.

É orador ou jornalista.

Acorda rápido em palácio

e mastiga com entusiasmo

as dejeções do soberano,

elucubrando longamente sobre seus gestos, enturvando

a água e pescando seus peixes

na laguna purulenta.
Vamos chamá-lo Darío Poblete,

ou Jorge Delano “Coke”.
(Dá na mesma, poderia ter

outro nome, existiu quando

Machado caluniava Mella, depois de tê-lo assassinado.)

Ali Poblete teria escrito
sobre os “Vis inimigos”
do “Péricles de Havana”.

Mais tarde Poblete beijava

as ferraduras de Trujillo,
a cavalgadura de Moríñigo,

o ânus de Gabriel González.
Foi o mesmo ontem, recém-saído

da guerrilha, alugado
para mentir, para ocultar

execuções e saques,
e hoje, erguendo sua pena
covarde sobre os tormentos
de Pisagua, sobre a dor
de milhares de homens e mulheres.

Sempre o tirano em nossa negra
geografia martirizada
achou um bacharel lamacento

que repartisse a mentira
e dissesse: El Sereníssimo,
el Constructor, el Gran Repúblico que nos gobierna, e deslizasse pela tinta emputecida
suas garras negras de ladrão.

Quando o queijo é consumido
e o tirano cai no inferno,
o Poblete desaparece,
o Delano “Coke” se esfuma,
o verme torna ao esterco,

esperando a roda infame
que afasta e traz as tiranias,
para aparecer sorridente
com um novo discurso escrito

para o déspota que desponta.
Por isso, povo, antes de ninguém,

pega o verme, rompe sua alma
e que seu líquido esmagado,
sua escura matéria viscosa
seja a última escritura,
a despedida de uma tinta
que limparemos da terra.

Problemas da terceirização, um exemplo prático da Volkswagen

nissan-fabrica-rezende_06   A imagem principal, em preto e branco, refere-se a linha de montagem de uma montadora de carros norte-americana no início do século passado. A imagem inserida no blog e as imagens do vídeo referem-se a linha de montagem de carros atual. Como pode ser observado a produção quase toda dominada por robôs, restando poucos empregados. Uma parte dos empregados deslocados da linha de produção conseguiu emprego como terceirizado e executa um trabalho em condições muito mais precárias do que os empregados efetivos. Isto fica claro neste vídeo. Publicado em Carta Capital. https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=UXmDdbqxoQg

BANCADA RURALISTA AMEAÇA DIREITO DOS CONSUMIDORES

Sustentabilidade e Democracia

images_transgenicos

Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

A irresponsabilidade do arranjo conservador formado no Congresso Nacional parece sem limites, sem nenhuma preocupação com a estabilidade democrática ou com os direitos fundamentais dos cidadãos e cidadãs. Todos os dias somos bombardeados por alguma ação absurda nos nobres Parlamentares na defesa dos interesses do poder econômico e em detrimento da maioria da população.

A chegada de Eduardo Cunha ao comando da Câmara abriu as porteiras para um passeio de preconceitos e ressentimentos sociais, além de interesses de grupos econômicos, por meio de projetos de Lei absurdos, e por uma onda Golpista que ultrapassa o ataque ao Governo, elegendo os eleitores, de forma indiscriminada, como alvos.

A nova obra irresponsável da Câmara foi a aprovação de Projeto de Lei nº 4048/2088, de autoria do Deputado Luiz Carlos Heinze (PP/RS), um dos vários membros do Partido Progressista na Operação…

Ver o post original 501 mais palavras

Por um novo consenso global

Um dos primeiros artigos deste blog foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos, fruto de consenso em favor da solidariedade internacional e da supressão das diferentes formas de desigualdade, no pós segunda guerra mundial.

Artigo de Ian Buruma, que eu traduzo abaixo, destaca a necessidade da volta da aspiração por um mundo mais justo e solidário, do ponto de vista social,  econômico e político. Em sua opinião devemos, como ponto de partida, lembrar por que o consenso de 1945 foi necessário. O mundo estava em frangalhos. Como parece estar atualmente.

Ao traduzir, fiz algumas supressões no texto que não alteram seu conteúdo e os argumentos. Ao final do texto traduzido existe um link para acesso ao texto original em inglês.

NOVA YORK – Em 8 de maio de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial na Europa terminou oficialmente, grande parte do mundo estava em ruínas. Mas, se a capacidade humana para destruição conhece poucos limites, a capacidade de começar de novo é notável. Talvez por isso a humanidade tenha conseguido sobreviver.
Sem dúvida, milhões de pessoas famintas e exaustas no fim da guerra nada poderiam fazer, além de sobreviver.

Mas, ao mesmo tempo, uma onda de idealismo varreu os destroços e criou um senso coletivo  determinante para construir um mundo mais justo, pacífico e seguro.

Homens e mulheres não arriscaram suas vidas para,  simplesmente, voltar aos velhos tempos de privilégios de classe e privação social. Eles queriam melhores condições de moradia e educação e cuidados de saúde gratuitos para todos.

Demandas similares foram ouvidas por toda a Europa, onde a resistência anti-nazista ou anti-fascista foi muitas vezes liderada por esquerdistas, ou mesmo comunistas; enquanto os conservadores do pré-guerra foram frequentemente contaminados pela colaboração com regimes fascistas. Falou-se de revolução em países como a França, Itália e Grécia. Isso não aconteceu, porque nem os aliados ocidentais, nem a União Soviética apoiaram. Stalin contentava-se com um império na Europa Oriental.

Mas mesmo Charles de Gaulle, teve que aceitar comunistas em seu primeiro governo pós-guerra e concordou em nacionalizar indústrias e bancos. A guinada para a esquerda e para os estados de bem-estar social ocorreu em toda a Europa Ocidental. Era parte do consenso em 1945.
Um tipo diferente de revolução estava ocorrendo em ex-colônias da Europa e na Ásia, onde os povos nativos não tinham vontade de ser governados, mais uma vez, pelas potências ocidentais. Vietnamitas, indonésios, filipinos, birmaneses, indianos e malaios queriam sua liberdade também.
Essas aspirações foram muitas vezes expressas nas Nações Unidas, fundada em 1945. A ONU, como o sonho da unidade europeia, também era parte do consenso de 1945. Por um curto período de tempo, muitas pessoas proeminentes – Albert Einstein, por exemplo – acreditavam que apenas um governo mundial seria capaz de assegurar a paz global.
Este sonho desvaneceu-se rapidamente quando a Guerra Fria dividiu o mundo em dois blocos hostis. Mas, em alguns aspectos, o consenso de 1945, foi reforçado, no Ocidente, pela política da Guerra Fria. O comunismo, ainda envolto em uma folha de louro de anti-fascismo, teve um grande apelo emocional e intelectual, não somente no chamado Terceiro Mundo, mas também na Europa Ocidental. A social-democracia, com sua promessa de maior igualdade e de oportunidades para todos, serviu como um antídoto ideológico. Os social-democratas foram, de fato, em sua maioria, ferozmente anti-comunistas.
Hoje, 70 anos mais tarde, a maior parte do consenso de 1945 não sobrevive. Poucas pessoas parecem ter grande entusiasmo pela ONU. O sonho europeu está em crise. E o estado de bem-estar social do pós-guerra está sendo corroído, mais e mais, a cada dia.

A degeneração começou durante a década de 1980, sob Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Os neoliberais atacaram os programas de assistência e os interesses de sindicatos. Os cidadãos, pensava-se, tinham de se tornar mais auto-suficientes; os programas de bem-estar do governo estavam tornando todos preguiçosos e dependentes. Nas famosas palavras de Thatcher, não havia tal coisa como “sociedade”, apenas as famílias e indivíduos que deveriam tomar conta de si mesmos.
Mas o consenso de 1945 sofreu um golpe muito maior com o colapso do império soviético, a outra grande tirania do século XX. Em 1989, parecia que o legado negro da II Guerra Mundial, a escravização da Europa Oriental, tinha finalmente acabado. E, em muitos aspectos, realmente acabou. Mas muito mais entrou em colapso junto com o modelo soviético. A social-democracia perdeu sua raison d’être como um antídoto para o comunismo. Todas as formas de ideologia de esquerda – na verdade, tudo o que cheirasse a idealismo coletivo – passou a ser visto como o utopismo equivocado que só poderia conduzir ao Gulag.
O neoliberalismo preencheu o vácuo, criando uma vasta riqueza para algumas pessoas, mas à custa do ideal de igualdade que tinha emergido da Segunda Guerra Mundial. A recepção extraordinária  ao livro “Capital no século XXI”, de Thomas Piketty, mostra como as profundas consequências do colapso da esquerda se fizeram sentir.
Nos últimos anos, outras ideologias também surgiram para preencher a necessidade humana de ideais coletivos. A ascensão do populismo de direita reflete anseios de comunidades nacionais puras que mantêm imigrantes e das minorias fora revivido. E, perversamente, neo-conservadores americanos têm transformado o internacionalismo da velha esquerda, procurando impor uma ordem mundial democrática pelo uso da força militar norte-americana.
A resposta a estes desenvolvimentos alarmantes não é a nostalgia. Nós não podemos simplesmente voltar ao passado. Muita coisa mudou. Mas uma nova aspiração a igualdade social e econômica, e de solidariedade internacional, é extremamente necessária. Ela não pode ser a mesma do consenso de 1945, mas faríamos bem, neste aniversário, em lembrar, como ponto de partida, por que o consenso de 1945 foi necessário.

Ian Buruma é professor de Democracia e Direitos Humanos, e de Jornalismo no Bard College. Ele é autor de inúmeros livros, incluindo Murder in Amsterdam: The Death of Theo Van Gogh and the Limits of Tolerance e, mais recentemente, Year Zero: A History of 1945.

Read more at http://www.project-syndicate.org/commentary/1945-welfare-state-retreat-by-ian-buruma-2015-05#iY1zIeMOixBbi71s.99

Deputado surta ao ver notas de dólar

Hoje, na Câmara federal, manifestantes jogaram notas falsas de dólar no Plenário.

Os deputados estavam votando destaques referentes a duas medidas provisórias. O deputado Heráclito Fortes, do PSB – PI discursava e proferia diversas asneiras. Até aí, nada de estranho. O interessante foi ouvi-lo declarar, com deprimente sinceridade:

“NÃO CONCORDO COM AS NOTAS FALSAS DE DÓLAR JOGADAS AQUI, SERIA BOM QUE ELAS FOSSEM VERDADEIRAS …”

Ninguém me contou; eu vi e ouvi.

Ninguém riu. Os senhores deputados se levam a sério …

Nós, por outro lado, aumentamos nossa vergonha alheia.

Desespero político: o verdadeiro motivo das execuções na Indonésia

Joko Widodo é o presidente da Indonésia responsável pelo assassinato por fuzilamento de seres humanos.

Elizabeth Pisani, do The New Yorker, publicou um artigo em 1o. de maio passado intitulado “Widodo’s Desperate Executions”. Sua tese é que a decisão de Widodo vem de uma posição de extrema fraqueza política. Pisani explica o pano de fundo político da Indonésia e analisa a carreira política de Widodo. Segundo ela, Widodo é um fala mansa,  modesto ex-vendedor de móveis, com uma carreira política de sucesso desenvolvida fora do centro principal de poder e escolhido por 53% dos eleitores. Estes eleitores aparentemente sinalizaram que eles queriam se verem livres da velha elite que controlou a política e o poder na Indonésia desde a sua independência.

A Indonésia não é um país simples de ser governado. Tem 250 milhões de habitantes, cerca de 300 grupos étnicos e fala cerca de 600 línguas. A confusão política também não é simples de ser administrada.

Widodo lidera uma coalizão minoritária no parlamento nacional. Sendo um político de fora de Jakarta e não pertencente à elite política, não tem vida fácil com a oposição.

Widodo é considerado um marionete nas mãos da ex-presidente Megawati Sukarnoputri, a filha do primeiro presidente da Indonésia,  Sukarno. Ela sempre coloca o presidente Widodo em dificuldades, em verdadeiras saias-justas.

Para recuperar sua credibilidade, Widodo escolheu caminhos fáceis, que dependem somente de decisões do Poder Executivo. A execução de traficantes internacionais de drogas é um destes.

Nos últimos 15 anos antes da posse de Widodo, 7 estrangeiros foram executados. No governo de Widodo, em menos de 2 anos, 20, sendo 18 estrangeiros. Os assassinatos gozam de surpreendente apoio popular: 86% da população apoia as execuções.

A verdade é que o uso de drogas não chega a ser um problema na Indonésia e o número de pessoas que experimentaram drogas é muitíssimo menor do que o apresentado em outros países.

Existem diversas formas de enfrentar a catástrofe das drogas. Assassinar traficantes internacionais que já estavam presos há mais de 10 anos, além de não ser eficaz para reduzir o consumo de drogas, é desumano.

Segundo o artigo, condenados à pena de morte relataram casos de solicitação de propinas por autoridades na Indonésia para aplicação de sentenças mais suaves. O brasileiro Rodrigo Gularte, executado pelo governo da Indonésia na semana passada e enterrado hoje no Paraná, foi diagnosticado sofrer de esquizofrenia. Ninguém demandou que Rodrigo fosse solto. Todos solicitaram clemência e tratamento psiquiátrico. Não custava nada adiar a execução e enviar o doente para tratamento. Conheço animais mais bem tratados.

O governo da Austrália chamou as execuções de crueis e desnecessárias pois os dois prisioneiros australianos já estavam regenerados após 10 anos de prisão. O embaixador australiano foi chamado à Austrália para consultas com o seu governo. Trata-se, infelizmente, de mero gesto simbólico.

Widodo nem se abala. Ele é fraco politicamente e precisa desesperadamente mostrar-se forte a seus eleitores. O método escolhido, insisto, é cruel e desumano, digno de um Hitler disfarçado.

Hitler também teve apoio popular e colaboração para seus crimes em determinado período. Deu no que deu.

Acho que é desnecessário argumentar que a pena de 10 anos de prisão mais execução por fuzilamento foi desproporcional ao crime praticado – tentativa de entrar na Indonésia com 6 kg de cocaína. Como foi preso, não consumou seu crime nem causou mal a ninguém. Não estou defendendo traficantes, estou registrando a crueldade da sentença. Repito o argumento de Norberto Bobbio em artigo publicado neste blog sob o título de “Contra a pena de morte”:

“O Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional. Também ele tem o dever de se defender. Mas é muito mais forte do que o indivíduo singular e, por isso, não tem necessidade de tirar a vida desse indivíduo para se defender. O Estado tem o privilégio e o benefício do monopólio da força. Deve sentir toda a responsabilidade desse privilégio e desse beneficio”.

Resta continuarmos protestando e apoiar o trabalho contra as penas de morte que Angelita Muxfeldt, prima do Rodrigo, pretende desenvolver.

Nesta noite está fazendo uma bela lua cheia. Fotografei e colei  a imagem neste post para lembrar que nos resta um pouco de humanidade. Para alguns,  infelizmente, o assassinato de pessoas por motivos fúteis, é apenas mais uma notícia. Fato que se torna corriqueiro, como a mudança da lua lá fora. O fundo preto significa o luto pela morte do humanismo. Força, Angelita.

 

 

Câmara aprova projeto que desobriga símbolo da transgenia em rótulos de produtos

Continua avançando no Congresso o Projeto de Lei 4148/08, que elimina a obrigatoriedade de se colocar no rótulo dos produtos o símbolo de transgenia. Aproveitando-se da maré conservadora no Congresso, os congressistas avançam suas agendas de retrocesso, em velocidade e devastação dignas de um tsunami, atendendo aos interesses de lobistas financiadores de campanhas eleitorais. É direito do consumidor ter a informação clara e completa, para tomar a decisão que quiser. Retirar informações não traz qualquer benefício aos consumidores. O projeto vai para o Senado.  Publicamos, abaixo, texto publicado no Ecodebate sobre a votação do trabalho na Câmara.

Ecodebate

A discussão sobre o tema foi intensa entre deputados favoráveis e contrários à medida. Texto seguirá para o Senado.

O Plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (28) o Projeto de Lei 4148/08, do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), que acaba com a exigência do símbolo da transgenia nos rótulos dos produtos com organismos geneticamente modificados (OGM), como óleo de soja, fubá e outros produtos derivados.

A matéria, aprovada com 320 votos a 135, na forma de uma emenda do deputado Valdir Colatto (PMDB-SC), deve ser votada ainda pelo Senado.

O texto disciplina as informações que devem constar nas embalagens para informar sobre a presença de ingredientes transgênicos nos alimentos. Na prática, o projeto revoga o Decreto 4.680/03, que já regulamenta o assunto.

Heinze afirmou que a mudança do projeto não omite a informação sobre a existência de produtos transgênicos. “Acho que o Brasil pode adotar a legislação como outros países do mundo. O transgênico é um produto seguro”, afirmou. Segundo ele, não existe informação sobre transgênicos nas regras de rotulagem estabelecidas no Mercosul, na Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e na Organização das Nações Unidas (ONU).

De acordo com o texto aprovado, nos rótulos de embalagens para consumo final de alimentos e ingredientes alimentares destinados ao consumo humano ou animal deverá ser informada ao consumidor a presença de elementos transgênicos em índice superior a 1% de sua composição final, se detectada em análise específica.

A redação do projeto deixa de lado a necessidade, imposta pelo decreto, de o consumidor ser informado sobre a espécie doadora do gene no local reservado para a identificação dos ingredientes.

A informação escrita sobre a presença de transgênicos deverá atender ao tamanho mínimo da letra definido no Regulamento Técnico de Rotulagem Geral de Alimentos Embalados, que é de 1 mm.

Sem transgênicos

Além do fim do símbolo que identifica os produtos com transgênicos, no caso dos alimentos que não contenham OGM, o projeto mantém regra do atual decreto que permite o uso da rotulagem “livre de transgênicos”.

Destaque do PT aprovado pelos deputados retirou do texto a condição de que esses produtos sem transgenia somente poderiam usar essa rotulagem se não houvesse similares transgênicos no mercado brasileiro.

O texto continua a exigir, entretanto, a comprovação de total ausência de transgênicos por meio de análise específica, o que pode dificultar o exercício desse direito pelos agricultores familiares, que teriam de pagar a análise para poder usar a expressão.

Polêmica em Plenário

A discussão sobre o tema foi intensa e não houve consenso entre os parlamentares, em especial entre os principais partidos da base aliada do governo, PT e PMDB.

Para o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), o projeto de lei cassa, na prática, o direito de o consumidor saber se há ou não transgênicos. “É correto sonegar ao consumidor essa informação? Está certo tirar o direito de saber se tem ou não transgênicos?”, questionou.

Já o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) defendeu a medida e lembrou que a Lei de Biossegurança (11.105/05), que regulamentou o uso de transgênicos, completou dez anos neste mês. “Disseram que os transgênicos poderiam causar câncer. Agora renovam a linguagem.”

O líder do PV, deputado Sarney Filho (MA), disse que o projeto é um retrocesso na legislação atual. “O texto mexe naquilo que está dando certo. O agronegócio está dando um tiro no pé. Por que retroagir?”, questionou. Segundo ele, o texto não acrescenta nada sobre a transgenia, só retira informações.

Já o deputado Domingos Sávio (PSDB-MG) lembrou que 90% da soja e do milho comercializados no Brasil têm organismos transgênicos em sua composição e, dessa forma, toda a cadeia produtiva desses produtos, como carne e leite. “O projeto é excelente, garantimos o direito do consumidor ser informado”, disse.

Opiniões divergentes

O deputado Ivan Valente (Psol-SP) afirmou que, enquanto outros países proíbem completamente o uso de alimentos transgênicos, no Brasil se busca “desobrigar a rotulagem dos transgênicos e excluir o símbolo de identificação”. Ivan Valente ressaltou que não existe consenso se os transgênicos fazem ou não mal à saúde.

Para o deputado Bohn Gass (PT-RS), era necessário manter o símbolo da transgenia nos produtos. “Qualquer mudança vai prejudicar o consumidor.”

O deputado Moroni Torgan (DEM-CE), no entanto, criticou a rotulagem diferente para a transgenia. “Por que a diferença entre corante, conservante, agrotóxico e transgênico na embalagem? Se é para colocar letra grande para transgênicos, por que estão usando dois pesos e duas medidas?”, questionou.

Na opinião do deputado Padre João (PT-MG), a proposta só beneficia as grandes multinacionais do setor agropecuário que vendem sementes transgênicas. “Não podemos ficar a serviço das grandes empresas, devemos ter respeito ao consumidor”, disse.

O deputado Delegado Edson Moreira (PTN-MG) respondeu ao deputado Padre João que a hóstia, usada no rito católico, também é feita com trigo transgênico.

Íntegra da proposta: PL-4148/2008

Reportagem – Eduardo Piovesan e Tiago Miranda
Edição – Pierre Triboli

Informações da Agência Câmara Notícias, publicadas pelo Portal EcoDebate, 29/04/2015