Juros altos e o aumento da desigualdade

Como na lenda do Minotauro, juros são tributo imposto à sociedade brasileira pelos mais ricos. Como eles paralisam país e o tornam mais desigual. Por que é possível vencê-los

Por Célio Turino

Há décadas o povo brasileiro é submetido ao intrincado percurso dos juros altos. Como se nós estivéssemos em um labirinto e dele não mais pudéssemos sair, desorientados, fomos levados a crer que a única alternativa para combater a inflação seria o pagamento de elevadas (estratosféricas!) taxas de juro público (SELIC). Esta crença tornou-se uma religião, um dogma indiscutível, do qual ninguém pode divergir. Diariamente somos massacrados por análises econômicas, seja por meios de comunicação, estudos acadêmicos (os que ganham destaque, é claro), relatórios de consultorias, análises de mercado. Enfim, todos os agentes do terrível monstro que habita o labirinto em que nos jogaram. Quando alguém ousa desafiá-lo ou pensar diferente, logo é triturado por um cruel minotauro, ou então defenestrado e relegado ao esquecimento. A força deste dogma é tanta que pensamos que o que estamos pensando é verdade. E assim, nos rendemos ao deus mercado, de modo que o Brasil é o país que mais paga juros reais no mundo e isto há décadas!

Em Creta, o povo era obrigado a entregar suas virgens para serem comidas pelo minotauro; no Brasil, entregamos nossas vidas e futuro. Segundo dados do Banco Central, no início do Plano Real a dívida interna brasileira era de R$ 153 bilhões (valores atualizados), o que equivalia a 30% do PIB; em 2015 a dívida é de aproximadamente R$ 4 trilhões (isso mesmo), ou 63% do PIB. No mesmo período pagamos, em valores atualizados pelo INPC, um total de R$ 2,9 trilhões! Mas se a dívida pública brasileira era de R$ 153 bilhões e no período de 20 anos pagamos (repetindo) R$ 2,9 trilhões (exatamente e não incluindo 2015, quando pagaremos mais R$ 300 bilhões), como explicar que estamos devendo R$ 4 trilhões?

No artigo anterior, preferi usar dados da dívida líquida (R$ 2,4 trilhões) para demonstrar, a partir dos argumentos do governo, que o aumento da SELIC, praticado pelo Banco Central (13,25%), não só neutralizará os efeitos do ajuste fiscal, como vai piorar a relação dívida/PIB ao final de 2015. Mas, agora precisamos analisar a dívida pública tal qual ela é, por isso os dados de dívida bruta. Este é mais um exemplo da enganação e desorientação que tem sido praticada pelo labirinto dos juros altos. A diferença entre dívida líquida e bruta está no cálculo entre o que o país deve e o que tem a receber. Por exemplo, o país possui US$ 372 bilhões em reservas internacionais, quase tudo em títulos do tesouro dos Estados Unidos; mas o governo dos EUA paga juro de 1% ao ano, o mesmo acontece com créditos do BNDES, com juros entre 5 e 6%, mas cujo dinheiro é captado pelo governo a juro de 13,25%. Seria a mesma coisa que a pessoa pagar juro de cheque especial para aplicar o dinheiro na caderneta de poupança. A conta não fecha, pois pagamos juros de 13,25% para receber 1%, no máximo 6%, por isso o indicador correto para apurar o endividamento de um país tem que ser sobre a dívida bruta e não líquida.

Outro dogma que, nestas dimensões e extensão de tempo só é praticado no Brasil, é de que somente com juros altos poderemos conter a inflação. O juro alto pode ser utilizado em determinadas ocasiões e por tempo limitado, mas ele só detém a inflação quando há excesso de demanda. Inflação é o aumento continuado e generalizado de preços dos bens e serviços e acontece por quatro causas:

Demanda – quando as pessoas querem comprar mais produtos, em velocidade superior àquela em que são produzidos;
Custos – quando aumentam os custos de produção, seja por escassez ou variação de preços de mercado (a variação no preço da energia elétrica, como está acontecendo agora, por exemplo);
Inercial – resultante da sensação de que é necessário aumentar os preços porque os preços irão aumentar, gerando uma “bola de neve” e indexações de custos;
Estrutural – falta de eficiência na Infraestrutura;

Para continuar a leitura, acesse o artigo:

Contra a oligarquia financeira, sejamos Teseu e Ariadne, em

outraspalavras.net

 

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