Horóscopo para os que estão Vivos – Sagitário – Thiago de Mello

SAGITÁRIO

21 de novembro a 20 de dezembro


Tenho uma grande notícia, Sagitário:

em pleno meio-dia de inverno,

o ranço da rotina te queimando,

festejarás inesperadamente

o descobrimento de algo

que talvez te seja amargo,

mas que abrirá em tua vida

um caminho diferente e seguramente luminoso.

Reconheço que Júpiter

entre abril e maio

te deitará armadilha coloridas.

Mas confio no teu desprendimento.

Se te livras delas

(e o pior é que elas estarão à luz do sol),

experimentará a delícia extrema

de cantar de alegria,

e esse teu canto será repartido.

Convém que consigas (para contemplá-lo

largamente

e guardar no teu peito

a força do seu profundo ensinamento)

o primeiro selo emitido, com todas as cores

do arco-íris humano,

pela República de Guiné-Bissau,

radiosa no poder do seu povo,

que se ergue para o mundo,

no momento em que a aurora,

tanto tempo escondida,

retorna e redime as praças lusitanas.

Vejo para breve

uma perigosa conjugação com Vênus.

Te direi que contra o influxo

traiçoeiro de Vênus

a melhor coisa que existe

ainda é a carícia fabulária

do canto do uyrapurú,

o pássaro pequenino que domina,

com o seu canto,

as florestas altas do meu Amazonas.

Como sei que não é fácil,

trata de encontrar um sucedâneo,

e, se possível, dentro do teu peito.

E basta de tomar tantas notas

e ler todas as letras dos compêndios

para a definição da cultura,

a famosa cultura burguesa ocidental,

que cada dia mais apodrece

como um sapo seco.

Melhor é que trates de fazer música:

organiza a tua gente

e arma o teu conjunto regional

de sabor popular,

para solo de flauta e violão

e, quando for conveniente,

com acompanhamento de rifle.


Em “A Canção do Amor Armado”

Thiago de Mello

Editora Civilização Brasileira

2a. edição – 4/1978

Grupo de seis empresas controla mercado global de transgênicos

 Publicado originalmente em Repórter Brasil

Ação das transnacionais é norteada pela política do fato consumado na introdução de produtos, pressão sobre os agricultores e influência direta sobre os órgãos públicos

Basta dar uma olhada na lista de cultivos geneticamente modificados já liberados para plantio comercial em território brasileiro pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) – cinco tipos de soja, 18 de milho e 12 de algodão, além de uma de feijão – para se ter a noção exata de que o clube dos transgênicos é para pouquíssimos sócios. Com exceção da nacional Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), todos os cultivos liberados até hoje no Brasil utilizam tecnologia transgênica e defensivos agrícolas produzidos pelas seis grandes empresas transnacionais que também lideram o setor de transgenia em nível global: Monsanto (Estados Unidos), Syngenta (Suíça), Dupont (EUA), Basf (Alemanha), Bayer (Alemanha) e Dow (EUA).

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Embrapa já tem alimentos transgênicos liberados

O monopólio praticado pelas transnacionais no mercado agrícola brasileiro se reproduz em todo o mundo. Um relatório divulgado em março pelo Grupo ETC, organização socioambientalista internacional que atua no setor de biotecnologia e monitora o mercado de transgênicos, revela que as seis maiores empresas, apelidadas de “Gene Giants” (Gigantes da Genética), controlam atualmente 59,8% do mercado mundial de sementes comerciais e 76,1% do mercado de agroquímicos, além de serem responsáveis por 76% de todo o investimento privado no setor.

Infográfico: Transgênicos liberados no BrasilBaixe os dados em uma tabela com as propriedades de cada transgênico

A concentração de mercado, por si só, já seria passível de críticas, mas ambientalistas, associações de defesa do consumidor e adversários dos transgênicos em geral também repudiam severamente os métodos utilizados ao longo dos anos pelas Gene Giants para consolidar seu monopólio. Nos países onde atuam, a ação das empresas transnacionais, ainda hoje, é norteada pela política do fato consumado na introdução de seus produtos (com práticas como a distribuição ilegal de sementes ou a contaminação deliberada de lavouras convencionais), a pressão sobre os agricultores para a adoção da tecnologia transgênica e dos produtos químicos agrícolas a ela associados e a influência direta sobre os órgãos nacionais do poder público responsáveis por deliberar sobre a liberação de organismos geneticamente modificados.

Os agricultores hoje no Brasil estão submetidos aos interesses dessas transnacionais

“No Brasil, essas transnacionais compraram praticamente todas as pequenas e médias empresas de sementes, além de dominarem a cadeia agroalimentar desde a produção de sementes, agroquímicos e agrotóxicos até a parte de logística, transporte e exportação. Os agricultores hoje no Brasil estão submetidos aos interesses dessas transnacionais. Isso é um problema grave para um país que quer ter soberania alimentar e condições melhores de produção para garantir alimentos de qualidade à população”, diz Darci Frigo, advogado da organização socioambientalista Terra de Direitos. Nesses dez anos de reinado transgênico no país, diz Frigo, a perda da diversidade alimentar já é realidade: “Essas empresas vêm homogeneizando a dieta com poucos produtos. Basicamente, aqueles produtos que interessam a elas do ponto de vista da aplicação de determinados agrotóxicos ou outros insumos, com a chamada venda casada”.

Um dos métodos utilizados pelas transnacionais, diz Frigo, é cooptar cooperativas agropecuárias para fazer a distribuição das suas sementes e, à medida que as empresas de sementes vão sendo compradas e o mercado dominado, colocar à venda apenas a semente com a qual terão mais lucro: “Aqui no Brasil, muitas vezes, os agricultores iam comprar as sementes convencionais e não as encontravam mais, ou as encontravam em quantidades muito pequenas, o que os obrigava a, não tendo outra opção, comprar as sementes que, por exemplo, a Monsanto impunha no mercado. Então, essa imposição do pacote tecnológico, a imposição da transgenia, se deu a ferro e fogo. Quando os agricultores se deram conta, haviam entrado em um caminho sem volta”.

A captura dos agricultores é também apontada pelo pesquisador Paulo Brack, professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): “Se você falar com um agricultor gaúcho sobre a opção de não plantar transgênicos, ele simplesmente vai te dizer que não existe mais semente convencional. O mercado foi tomado pelas sementes transgênicas. Hoje, ele está dominado, e você não tem nem mais a alternativa de plantar culturas convencionais. Isso é um escândalo, porque vai contra a economia do próprio agricultor, que perde a possibilidade de fazer a sua própria semente e tem de pagar royalties para as empresas. O círculo está se fechando, e o governo deveria resguardar, no mínimo, a possibilidade de produção de sementes convencionais e sementes crioulas”, diz.

Capa do DVD do filme

Influência
Talvez as mais conhecidas peças de denúncia sobre os métodos utilizados pelas gigantes do setor de transgenia, o livro e o filme “O mundo segundo a Monsanto”, ambos da francesa Marie-Monique Robin, relatam a trajetória histórica da empresa estadunidense, desde o seu envolvimento nas pesquisas sobre a bomba atômica (que acabou jogada sobre os civis japoneses nos anos 1940) e a criação do agente laranja (utilizado para matar civis na guerra do Vietnã nos anos 1960) até sua chegada à tecnologia transgênica e ao novo papel de “empresa agrícola” nos anos 1990.

Durante todas essas décadas, relata Robin, a Monsanto jamais deixou de exercer forte influência sobre os agentes públicos que ocupavam postos em órgãos de estratégica importância como, por exemplo, a agência que regula o mercado de alimentos, drogas e produtos químicos nos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês). Livro e filme têm também uma parte especialmente dedicada à América do Sul, onde mostram os métodos utilizados pela Monsanto para introduzir ilegalmente a soja transgênica RR na lavouras do estado brasileiro do Rio Grande do Sul.

No Brasil, o método básico de ação das Gene Giants para consolidar a posição de seus produtos no mercado também alia a pressão sobre os agricultores à tentativa de influenciar setores estratégicos da administração pública: “Há uma influência muito grande no direcionamento da pesquisa e também no âmbito do Congresso Nacional e do financiamento das campanhas eleitorais. Isso determina que os temas de interesse das empresas de biotecnologia acabem entrando na lógica do parlamento. A bancada ruralista presta serviço à transgenia, apesar de os agricultores serem dominados pelo cartel formado por essas empresas, porque os parlamentares recebem apoio para suas campanhas eleitorais”, diz Darci Frigo.

A bancada ruralista presta serviço à transgenia porque os parlamentares recebem apoio para suas campanhas eleitorais

Segundo o dirigente da Terra de Direitos, é tanta a força das gigantes da transgenia no Brasil atualmente que elas até mesmo reduziram sua propaganda: “As empresas abandonaram o discurso de que transgênico diminui o uso de agrotóxicos porque já estabeleceram seu domínio sobre os agricultores e o mercado, e agora ninguém mais vai discutir essa diminuição. As autoridades não questionam e o Ministério da Agricultura não se estrutura para fazer uma real fiscalização do que acontece no terreno. É grande a influência dessas empresas por meio da pressão sobre os parlamentares ou por meio das ações de cooptação dos órgãos responsáveis pela fiscalização, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para liberar agrotóxicos, ou a CTNBio, para liberar transgênicos”, diz Frigo.

iTunes transgênico
Mais recentemente, setores antitransgênicos manifestaram seu repúdio à iniciativa de algumas empresas transnacionais que anunciaram o compartilhamento gratuito de tecnologias relativas a seus produtos para pesquisadores de países em desenvolvimento. Nos Estados Unidos, um acordo inicialmente elaborado pela Monsanto, e agora posto em prática pela General Electric (GE), promete liberar aos agricultores informações técnicas sobre diversos produtos da empresa que já tiveram suas patentes expiradas: “Com isso, querem fazer que uma prática monopolista pareça um ato de caridade”, diz o relatório do Grupo ETC.

A medida de maior impacto, no entanto, foi anunciada em janeiro pela Syngenta. A transnacional suíça lançou na internet o que define como uma “plataforma de compartilhamento de inovação na agricultura”, onde disponibiliza gratuitamente para pesquisadores algumas técnicas e características genéticas de suas sementes patenteadas. Ironicamente batizada pelo movimento socioambientalista como o “iTunes dos Transgênicos”, o site da Syngenta é definido pelo Grupo ETC ao mesmo tempo como “uma tentativa de imposição de transferência tecnológica para o Sul” e “uma jogada concebida expressamente para acalmar o movimento contra o patenteamento de plantas que ganha força na Europa”.

Briga por royalties
No que diz respeito a patentes, o poder de persuasão das empresas que controlam o setor de transgênicos também tem seus limites. Absoluta no mercado brasileiro de soja transgênica, a Monsanto mantém há anos uma complicada relação com os produtores do grão no país por conta da cobrança de royalties relativos à sua tecnologia RR. Em junho deste ano, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), motivada por uma ação da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja-MT), determinou que a empresa suspendesse a cobrança de royalties, considerada indevida. A decisão obrigou a Monsanto a fazer um acordo com os produtores brasileiros para o ressarcimento de R$ 212 milhões cobrados indevidamente nas safras 2010/2011 e 2011/2012.

Plantação de soja da Monsanto. Empresa terá de ressarcir produtores por cobranças indevidas (Foto: Divulgação)

Diretor técnico da Aprosoja-MT, Nery Ribas afirma que, se dependesse das poucas informações transmitidas aos produtores pela Monsanto ao longo de todos esses anos de relação, a cobrança indevida não teria sido percebida: “Antes, a dificuldade em obter informações era muito grande, mas, com a contratação de consultorias especializadas, conseguimos demonstrar que a patente havia vencido em agosto de 2010. Ou seja, já havia sido cobrado indevidamente em duas safras”, diz.

Aquilo que nos foi indevidamente cobrado, a Monsanto vai ter de pagar em dobro

A Aprosoja-MT liderou então um movimento pelo fim da cobrança dos royalties que acabou tendo efeitos em todo o Brasil: “Entramos com a ação e ganhamos em todas as instâncias. A Monsanto reconheceu o erro e estendeu esse benefício para todo o país. Já não cobrou os royalties nessa última safra [2012/2013] e, depois de muita discussão, chegamos a um acordo. Aquilo que nos foi indevidamente cobrado, vão ter de pagar em dobro. A legislação brasileira é muito clara: cobrou indevidamente, tem de pagar em dobro”, diz Ribas.

O acordo será efetivado na comercialização da nova tecnologia transgênica para soja desenvolvida pela Monsanto no Brasil, conhecida como Intacta: “O que temos para receber, relativo a esses dois anos, nos vai ser pago em forma de bônus no uso da nova tecnologia. Por quatro anos, a Monsanto concederá um bônus que o produtor poderá utilizar na aplicação da tecnologia. Em vez de R$ 115 por hectare, que é o preço dos royalties já definido pela Monsanto para a Intacta, serão cobrados R$ 96,50. Ou seja, haverá R$ 18,50 a menos por hectare durante quatro anos”, diz o dirigente da Aprosoja.

Nery Ribas diz que o cultivo de transgênicos “tem suas desvantagens, e uma delas é a obrigação de pagamento de royalties” às empresas detentoras da tecnologia: “Não somos contra a tecnologia e não somos de maneira nenhuma contra pagar pela tecnologia, mas desde que seja bom, justo e interessante para os dois lados. O que vinha ocorrendo é que o monopólio de uma única empresa sobre a inovação tecnológica fez que ela cobrasse um preço que nunca foi discutido pelos produtores. A Monsanto chegava, determinava o valor e pronto. Não se discutia valor, forma de cobrança etc. Nunca se discutiu isso, e o produtor, pela utilização dos benefícios, nunca questionou e sempre pagou, mas sempre reconhecendo que era muito caro”, diz.

Agricultores franceses temem o oligopólio das sementes

Publicado originalmente em:

15 juin 2015 / Lorène Lavocat et Anaïs Cramm (Reporterre)

Durante séculos, os agricultores têm utilizado suas próprias sementes, criando uma extraordinária biodiversidade. Hoje, essa riqueza está ameaçada pela ganância de algumas multinacionais. Sua arma? Direitos de propriedade intelectual. Diante dessa ameaça, os agricultores exigem que as sementes permaneçam o que sempre foram:

“Eles estão tentando aproveitar todas as plantas que existem no planeta! “Guy Kastler não esconde sua indignação ou preocupação. “Eles” são a indústria de sementes. Monsanto, Pioneer, Syngenta. Um punhado de corporações multinacionais que controlam o mercado de sementes hoje … e o futuro da nossa agricultura.

“Eles nos obrigam a cumprir leis que proíbem as sementes que os agricultores reproduzem em seus campos, para substituí-las por alguns gênios ( Genes ? ) sintéticos marcados com o selo de sua propriedade intelectual”, diz ele.

Sindicalista experiente e um membro fundador da Rede de Cultivadores de Sementes, ele defende os direitos dos agricultores, em especial de cultivar, replantar e trocar sementes. Uma prática milenar questionada depois de quase 50 anos devido ao aumento dos direitos de propriedade intelectual (DPI).

Originalmente criados para evitar a falsificação e proteger os inventores industriais, como os direitos do autor, esses direitos de propriedade intelectual têm gradualmente investido no mundo agrícola. Com um argumento reiterado em 1998 por uma diretiva europeia: “A investigação e o desenvolvimento exigem uma quantidade considerável de investimentos de alto risco que somente a proteção legal eficaz pode torná-los rentáveis.

“À força de patentes e certificados de variedades vegetais, empresas de sementes foram capazes de se apropriar de variedades colhidas nos campos dos agricultores. E, então, reivindicar royalties. É uma aberração, de acordo com Ananda Guillet, a Associação Kokopelli: “As sementes, como qualquer ser vivo, não pertençem a ninguém e a todos, ao mesmo tempo; não pode haver direito à propriedade! ”  Com seu esforço de seleção, os agricultores criaram muitas variedades de milho, cada uma adequada a um tipo de solo (“terroir”).

                                    As indústrias podem patentear  o que já existe

Uma expropriação que se acelera hoje através de um novo tipo de patente “sobre os personagens nativos.” Até agora, apenas as novas variedades poderiam ser objeto de um título de propriedade. Agora, “os fabricantes podem patentear o que já existe”, diz Guy Kastler.

Em 2013, como Colombo descobriu a América, a empresa Syngenta “encontra” uma pimenta jamaicana resistente a uma praga, a mosca branca. No laboratório, graças a marcadores moleculares, os pesquisadores puderam identificar a sequência genética que permitia à planta sobreviver aos ataques do inseto … e patentearam. Problema … muitos agricultores já produziam pimentas resistentes.

“Parece um pouco surreal, mas agora a Syngenta poderia procurá-los e pedir-lhes para pagar taxas de licenciamento”, diz Emilie Lapprand, advogado da Rede de Agricultores de Sementes.

“Eles dizem, ‘esta planta resiste a tais insetos, eu encontrei a sequência genética que permite que ela faça isso, pois todas as plantas que são resistentes a esse inseto pertencem a mim'”, diz Guy Kastler.

“Todas as sementes devem ser livres de direitos e reprodutíveis”, insiste Ananda Guillet. Associação Kokopelli tem vendido por quase vinte anos sementes para agricultores, independentemente de quaisquer direitos de propriedade. “Somos um pouco anarquista, nos recusamos a qualquer regulamentação, mesmo as que pedem que os OGM (Organismos Geneticamente Modificados) sejam proibidos. “Para Ananda Guillet, sementes, como software livre, devem estar no domínio público e acessível a todos.

Para lutar contra a erosão da biodiversidade, os agricultores criaram um centro de conservação de variedades antigas, como aqui na fazenda de Roc em Lot-et-Garonne.

Uma alegação que deixa cético Guy Kastler. “Todos gritam liberdade, liberdade! Mas o mercado livre é a ditadura corporativa, sem regras e sem barreiras, sem soberania alimentar. “Ao contrário de Kokopelli, as Redes de Cultivadores de Sementes reivindicam direitos dos agricultores sobre as suas sementes. “No mundo real, a semente livre não existe”, disse Kastler.

“Sem cultivo não pode existir co-evolução com o grupo humano; por natureza, se você deixar uma planta livre, ela torna-se selvagem.”

“O patrimônio comum da humanidade tornou-se patrimônio comum das produtoras de sementes”

Se as sementes não são livres, elas poderiam, pelo menos, serem comuns? Desde os anos 1980, elas são reconhecidas como “recursos genéticos” e como patrimônio comum da humanidade. Um desenvolvimento esperado é impedir que se tornem propriedade de algum.

O problema, de fato, é que o patrimônio comum dá “acesso a esses recursos às farmacêuticas e empresas de sementes (de países ricos), sem que estes últimos sejam obrigados, de qualquer forma, para redistribuir uma parte dos benefícios que poderiam obter” diz Frédéric Thomas, um pesquisador no INRA.

O argumento de “o que é teu é meu” jogou a favor das multinacionais, cujos recursos são muito maiores que os recursos dos pequenos agricultores. “O patrimônio comum da humanidade tornou-se patrimônio comum das indústrias sementeiras”, concluiu Guy Kastler.

Em 2001, o Tratado Internacional sobre os Recursos para a Alimentação e a Agricultura (ITPGRFA) finalmente reconhece aos agricultores e comunidades indígenas o direito de “proteger seus conhecimentos tradicionais, participar das decisões nacionais em matéria de recursos e de conservação, cultivar e trocar suas sementes”. Cobrar de cada Estado que faça cumprir estas novas regras … que muitas vezes são relegadas ao arquivo.

Fazer das sementes um bem comum

Em vez de herança comum, os defensores dos direitos dos agricultores  preferem falar de “commons” ou de bens comuns. “Um bem comum é um bem considerado como um benefício para todos,  a que todos devem ter acesso”, disse o economista Laurent Cordonnier. Como a água ou a saúde, as sementes podem se enquadrar nesta definição.

A troca de know-how, para a divisão ou a formação de mutirões em certas atividades, participar em programas de pesquisa, manter ou selecionar novas variedades adaptadas localmente … Para muitos agricultores organizar-se coletivamente para gerenciar a semente se tornou uma necessidade. Esta administração conjunta muitas vezes toma a forma de “Casa de sementes”.

Para gerir coletivamente as suas reservas de sementes, os agricultores estão organizados na casa de sementes . Uma ideia importada do Brasil, que cresce na França, como aqui no Perigord

No início de 2000, Bertrand Lassaigne, camponês de Perigord camponês, foi ao Brasil em busca de variedades de milho. Lá, ele descobriu as Casas de Sementes criollas, onde os agricultores se uniram para compartilhar e preservar suas sementes. Ele levou a idéia em sua bagagem e a espalhou na França. “O termo refere-se a uma organização coletiva de gestão de sementes dos agricultores”, disse Remy Lebrun, de Agrobio Perigord.

Dentro de uma dessas casas, a associação organiza a preservação e a multiplicação de variedades de milho. Cada ano, pequenas quantidades de sementes são entregues aos agricultores. Eles semeam, colhem e devolvem uma parte à Casa.

Para muitos movimentos de agricultores, a única maneira de lhes preservar uma privatização perigosa para a humanidade é a de confiar a gestão às próprias comunidades rurais. Um conjunto de regras decidido coletivamente, também chamado de direitos de utilização, permitiria regular o acesso a esses recursos. Quem gerencia o estoque de sementes, quais são as condições de troca, o que fazer contra plantas invasoras … Assim, mesmo que as sementes não pertençam a ninguém, impossibilitaria o seu uso sem o respeito de um certo número de práticas, definidas pela comunidade que as preservará. Só elas poderiam decidir se suas sementes são livres ou não.

Se fosse realmente aplicado, o ITPGRFA seria um primeiro passo tímido em relação a este conceito de commons. Mas os movimentos de agricultores e horticultores não têm, felizmente, que esperar pelo governo. Por quase 20 anos eles se organizam, fora do marco legal, para realizar trocas, multiplicar e espalhar suas sementes. E, assim, liberar a biodiversidade.

Tradução: Paulo Martins

Paulo Leminski

Paulo Leminski faleceu em 07 de junho de 1989. No domingo passado fez, portanto, 26 anos de sua morte. Sua obra, no entanto, continua viva. Vamos publicar, vez em quando, alguns poemas de Caprichos e Relachos, livro publicado pela Editora Brasiliense, em 1983.

Aí vão os primeiros:

……………………………………………………………………………………….

confira

 

tudo que respira

conspira

………………………………………………………………………………………

en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas

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quem come o teu trabalho como eu como este

gomo ou dou este gole?

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nada foi

feito o sonhado

mas foi bem-vindo

feito tudo

fosse lindo

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Emprego e Questões Sociais no Mundo

Blog Cidadania & Cultura

Perda salarial globalAssis Moreira (Valor, 19/05/15) informa que o déficit de demanda global alcança US$ 3,7 trilhões, por causa do impacto do desemprego e dos salários baixos sobre consumo, investimentos e receita pública, avalia a Organização Internacional do Trabalho (OIT). No relatório “Emprego e Questões Sociais no Mundo“, a entidade aponta uma profunda mutação no trabalho, em período em que a economia mundial não cria empregos suficientes.

A organização estima que o desemprego atingia 201 milhões de pessoas no mundo em 2014, ou 30 milhões a mais do que antes do início da crise financeira global, em 2008. Nesse cenário, criar empregos para mais de 40 milhões de pessoas que chegam cada ano ao mercado de trabalho é um verdadeiro desafio.

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Juros altos e o aumento da desigualdade

Como na lenda do Minotauro, juros são tributo imposto à sociedade brasileira pelos mais ricos. Como eles paralisam país e o tornam mais desigual. Por que é possível vencê-los

Por Célio Turino

Há décadas o povo brasileiro é submetido ao intrincado percurso dos juros altos. Como se nós estivéssemos em um labirinto e dele não mais pudéssemos sair, desorientados, fomos levados a crer que a única alternativa para combater a inflação seria o pagamento de elevadas (estratosféricas!) taxas de juro público (SELIC). Esta crença tornou-se uma religião, um dogma indiscutível, do qual ninguém pode divergir. Diariamente somos massacrados por análises econômicas, seja por meios de comunicação, estudos acadêmicos (os que ganham destaque, é claro), relatórios de consultorias, análises de mercado. Enfim, todos os agentes do terrível monstro que habita o labirinto em que nos jogaram. Quando alguém ousa desafiá-lo ou pensar diferente, logo é triturado por um cruel minotauro, ou então defenestrado e relegado ao esquecimento. A força deste dogma é tanta que pensamos que o que estamos pensando é verdade. E assim, nos rendemos ao deus mercado, de modo que o Brasil é o país que mais paga juros reais no mundo e isto há décadas!

Em Creta, o povo era obrigado a entregar suas virgens para serem comidas pelo minotauro; no Brasil, entregamos nossas vidas e futuro. Segundo dados do Banco Central, no início do Plano Real a dívida interna brasileira era de R$ 153 bilhões (valores atualizados), o que equivalia a 30% do PIB; em 2015 a dívida é de aproximadamente R$ 4 trilhões (isso mesmo), ou 63% do PIB. No mesmo período pagamos, em valores atualizados pelo INPC, um total de R$ 2,9 trilhões! Mas se a dívida pública brasileira era de R$ 153 bilhões e no período de 20 anos pagamos (repetindo) R$ 2,9 trilhões (exatamente e não incluindo 2015, quando pagaremos mais R$ 300 bilhões), como explicar que estamos devendo R$ 4 trilhões?

No artigo anterior, preferi usar dados da dívida líquida (R$ 2,4 trilhões) para demonstrar, a partir dos argumentos do governo, que o aumento da SELIC, praticado pelo Banco Central (13,25%), não só neutralizará os efeitos do ajuste fiscal, como vai piorar a relação dívida/PIB ao final de 2015. Mas, agora precisamos analisar a dívida pública tal qual ela é, por isso os dados de dívida bruta. Este é mais um exemplo da enganação e desorientação que tem sido praticada pelo labirinto dos juros altos. A diferença entre dívida líquida e bruta está no cálculo entre o que o país deve e o que tem a receber. Por exemplo, o país possui US$ 372 bilhões em reservas internacionais, quase tudo em títulos do tesouro dos Estados Unidos; mas o governo dos EUA paga juro de 1% ao ano, o mesmo acontece com créditos do BNDES, com juros entre 5 e 6%, mas cujo dinheiro é captado pelo governo a juro de 13,25%. Seria a mesma coisa que a pessoa pagar juro de cheque especial para aplicar o dinheiro na caderneta de poupança. A conta não fecha, pois pagamos juros de 13,25% para receber 1%, no máximo 6%, por isso o indicador correto para apurar o endividamento de um país tem que ser sobre a dívida bruta e não líquida.

Outro dogma que, nestas dimensões e extensão de tempo só é praticado no Brasil, é de que somente com juros altos poderemos conter a inflação. O juro alto pode ser utilizado em determinadas ocasiões e por tempo limitado, mas ele só detém a inflação quando há excesso de demanda. Inflação é o aumento continuado e generalizado de preços dos bens e serviços e acontece por quatro causas:

Demanda – quando as pessoas querem comprar mais produtos, em velocidade superior àquela em que são produzidos;
Custos – quando aumentam os custos de produção, seja por escassez ou variação de preços de mercado (a variação no preço da energia elétrica, como está acontecendo agora, por exemplo);
Inercial – resultante da sensação de que é necessário aumentar os preços porque os preços irão aumentar, gerando uma “bola de neve” e indexações de custos;
Estrutural – falta de eficiência na Infraestrutura;

Para continuar a leitura, acesse o artigo:

Contra a oligarquia financeira, sejamos Teseu e Ariadne, em

outraspalavras.net

 

A dívida pública é uma piada – Thomas Piketty

“A dívida pública é uma piada! A verdadeira dívida é a dívida do capital natural”.

02 de junho de 2015 / Entrevista com Thomas Piketty

  • Entrevista por Hervé Kempf para o site Reporterre. Ao tempo que o desemprego atingiu um recorde mostrando a ineficácia da política neoliberal, o economista Thomas Piketty recorda que a desigualdade está no centro do mal-estar atual. Ele atacou os crescimentistas (croissancistes) (1). E apela a uma revisão do pensamento econômico para levar em consideração “o capital natural”.

Reporterre: Que ideia principal inspirou seu livro Capital do século XXI?

Thomas PikettyMeu trabalho desconstrói a visão ideológica de que o crescimento traria o declinio espontâneo da desigualdade. O ponto de partida desta pesquisa é ter estendido em uma escala sem precedentes a coleta de dados históricos dos rendimentos e dos patrimônios. No século XIX, os economistas colocavam muito mais ênfase na distribuição de renda do que tem sido o caso a partir do meio do século XX. Mas, no século XIX, havia muito poucos dados. E até recentemente, este trabalho não tinha sido realizado de forma sistemática, como fizemos, em várias dezenas de países em mais de um século. Isso muda muito a perspectiva.

Na década de 1950 e 1960, dominou uma visão muito otimista, expressa em especial pelo economista Kuznets, que uma redução espontânea da desigualdade estava ocorrendo em estágios avançados do desenvolvimento industrial. Kuznets tinha, de fato, encontrado em 1950, uma redução em comparação com 1910.

Esta foi, de fato, relacionada com a Primeira Guerra Mundial e a crise da década de 1930. Kuznets estava ciente. Mas na atmosfera da Guerra Fria, havia a necessidade de encontrar conclusões otimistas para explicar – especialmente para os países em desenvolvimento: “Não se tornem comunistas! O crescimento e a redução de desigualdade andam de mãos dadas, é só esperar”.

Mas, nos Estados Unidos e nos países desenvolvidos, as desigualdades relativas aos níves de renda estão agora muito elevadas, equivalentes às que Kuznets havia medido em 1910. O meu trabalho decompôs estas evoluções, tomando como tema central o fato de que não há nenhuma lei econômica inexorável que conduza quer à redução das desigualdades, ou ao seu declínio. Há um século, os países europeus eram mais igualitários do que os Estados Unidos. Hoje é o oposto. Não há determinismo econômico.
Reporterre: Você mostra a importância da classe média. É ela que permite a aceitação do aumento na desigualdade?

Thomas Piketty – O desenvolvimento desta “classe média patrimonial” é sem dúvida a maior transformação em um século. Os 50% mais pobres da população nunca tiveram patrimônio e não têm quase nada hoje. Os 10% mais ricos que, há um século, tinham tudo, 90% ou mais dos ativos, possuem hoje apenas 60% na Europa e 70% nos EUA. Este continua a ser um nível muito alto. A diferença é que agora você tem 40% da população que observaram sua situação se transformar no século: este grupo central possuia nos anos 1970 mais de 30% do patrimônio total. Mas isso tende a se reduzir e que estão mais próximos de 25% hoje. Ao tempo que os 10% mais ricos continuam a ver o aumento de sua riqueza.

Reporterre: O fato de que este bloco central vê a sua situação piorar, isto explica o aumento nas tensões sociais?

Thomas Piketty – Sim. Pode haver um questionamento geral do nosso pacto social, enquanto muitos membros da classe média patrimonial tem a sensação de perda, os mais ricos conseguem tirar proveito dos mecanismos de solidariedade. O risco é que grupos se voltem cada vez para soluções mais egoístas, deixando de ser possível cobrar dos mais ricos. Um dos desenvolvimentos mais preocupantes é a necessidade das sociedades modernas de dar sentido às desigualdades como uma maneira de tentar

Reporterre: …legitimar

Thomas Piketty –… justificar a herança ou a captura de rendas, ou o poder, simplesmente. Quando os dirigentes de empresas recebem dez milhões de euros por ano, eles a justificam em nome da produtividade. Os vencedores explicam aos perdedores que tudo isso é do interesse público. Exceto que é difícil encontrar qualquer evidência de que faz sentido pagar aos dirigentes de empresas 10 milhões de euros em vez de um milhão.

Hoje, o discurso de estigmatização dos perdedores do sistema é muito mais violento que era há um século. Pelo menos, antes, ninguém teve o mau gosto de explicar que as domésticas ou os pobres eram pobres por causa de sua falta de mérito ou virtude. Eles eram pobres porque era assim.

Reporterre: Foi a ordem social. 

  Thomas Piketty – A ordem social que se justifica pela necessidade de ter uma classe que pudesse se concentrar em outra coisa que não a sobrevivência, e se envolver em atividades artísticas ou militar ou outras. Eu não estou dizendo que esta justificação era boa, mas colocar a pressão psicológica sobre os perdedores.

Reporterre: Estes perdedores, essa classe média central, pode dobrar-se à  lógica da extrema direita?

Thomas Piketty – Claro. Este é o risco principal e teme-se o regresso à Europa do egoísmo nacional. Quando não podemos resolver os problemas sociais de forma adequada, é tentador colocar a culpa em outro lugar: os trabalhadores imigrantes de outros países, os gregos preguiçosos, etc. Reporterre: Um aspecto importante de seu trabalho diz respeito ao “crescimento” da economia. Você lembrou que as elevadas taxas de crescimento de cerca de 5% ao ano são historicamente excepcionais.

Thomas PikettyNós devemos nos acostumar a um crescimento estrutural lento. Mesmo manter 1 ou 2% ao ano implica inventar fontes de energia que, por enquanto, não existem.

Reporterre: Sem energia abundante, não há possibilidade de crescimento de 1 ou 2%?

Thomas Piketty – Haverá um momento em que não será mais possível. Desde a Revolução Industrial, 1700-2015, o crescimento global foi de 1,6% por ano, metade dos quais para o crescimento da população (0,8%) e metade (0,8%) para PIB (produto interno bruto) per capita. Isto pode parecer ridiculamente baixo para aqueles que pensam que não pode ser felizes sem um retorno ao boom no crescimento pós segunda guerra (2) de 5% ao ano. Mas o crescimento de 1,6% ao ano durante esses três séculos multiplicou dez vezes a população e o nível de vida médio, porque quando é cumulativo, é realmente um crescimento enorme. E a população mundial aumentou de 600 milhões em 1.700 para 7 bilhões hoje.

Poderíamos ser mais do que 70 bilhões em três séculos? Não é certo que isto seja desejável ou possível. Quanto ao padrão de vida, um aumento de dez vezes é uma abstração.

A revolução industrial no século XIX aumentou a taxa de crescimento que foi muito próximo a 0% nas sociedades agrárias pré-industriais para 1 ou 2% ao ano. Isto é extremamente rápido. E só em fases de reconstrução acelerada após guerras ou recuperação acelerada de um país em relação a outros que foram a 5% ao ano ou mais.

Reporterre: Os políticos responsáveis, a maioria de seus colegas economistas, os jornalistas econômicos, todos ainda na esperança de um crescimento de 2 ou 3% ao ano, alguns até mesmo sonham com 6 ou 7% da China.

Thomas PikettyO discurso de dizer que sem o retorno a 4 ou 5% de crescimento ao ano, não há felicidade possível é um absurdo, dada a história de crescimento.

Reporterre: No entanto, você usou o termo “forte crescimento” em um artigo assinado com economistas alemães e ingleses.

Thomas Piketty – Para mim, 1 ou 2%, é um crescimento alto! Sobre uma geração, é um muito, muito forte crescimento!

Em 30 anos, o crescimento de 1% ou 1,5% ao ano significa um aumento de um terço ou metade da atividade econômica a cada geração. Este é um ritmo de renovação da sociedade extremamente rápido. De modo que todo mundo tem um lugar em uma sociedade que se renova a este ritmo, precisamos de um sistema de educação, de qualificação, acesso ao mercado de trabalho altamente desenvolvidos. Não tem nada a ver com uma sociedade pré-industrial ou, de uma geração para a próxima, a sociedade se reproduz de forma quase idêntica.

Mas por outro lado, a idéia de que não é possível o crescimento também parece perigoso. É um processo que, reproduzido ao longo de gerações, é muito assustador, não haverá mais a humanidade.

Esta capacidade de crescimento demográgico reduzido a zero ou a níveis negativos restaura a importância da riqueza acumulada. Isso nos remete a uma sociedade de herdeiros que a França experimentou agudamente no século XIX devido à estagnação da população.

Reporterre: Será que faz sentido continuar a falar sobre o crescimento do PIB quando a economia tem um enorme impacto sobre o meio ambiente?

Thomas PikettyCompatibilizar melhor o capital natural é uma questão central. A degradação do capital natural é um risco muito mais grave do que qualquer outra coisa. Esta é a verdadeira dívida. A “dívida pública”, com a qual enchem nossos ouvidos, é uma piada! É um puro jogo contábil: uma parte da população paga impostos para se pagar juros a uma outra parte da população. Mas isso não é dívida com o planeta Marte!

As dívidas públicas, no passado, já tínhamos em 200% do PIB em 1945 e a inflação  as varreu. Estas foram, também, o que permitiu à França e à Alemanha investirem, nos anos 50-60, no financiamento de infraestrutura e do sistema educacional. Se tivéssemos de pagar essas dívidas com os superávits primários – como hoje demandamos que a Grécia faça – ainda estaria por fazer.

Assim, a dívida pública é um falso problema, porque os patrimônios financeiros, imobiliários e comerciais pertencentes às famílias cresceram muito mais fortemente do que tem aumentado a dívida pública. Este aumento de mercado é muito mais importante do que a dívida pública, que pode ser eliminada com uma canetada.

No entanto, um aumento de 2 ° C da temperatura do planeta em 50 anos não é mais um jogo contábil! E nós não temos nada em mãos para resolver o problema do custo imposto ao capital natural.

Reporterre: Um PIB que não integra o capital natural, isso faz sentido?

Thomas Piketty – O PIB não faz sentido. Eu sempre uso o conceito de Receita Nacional para mudar do PIB à renda nacional, você deve subtrair a depreciação do capital. Se um desastre destruiu o seu país, e todo o país está ocupado na reparação do que foi destruído, você pode acabar com um PIB extraordinariamente alto, enquanto a renda nacional é muito baixa.

Leve em conta o que foi destruído, reconheça o capital natural. Contabilizar o que foi produzido sem deduzir o que foi destruído é estúpido.

Reporterre: Por que não há mais trabalho nas Contas Nacionais para desenvolver esta contabilidade do capital natural?

Thomas Piketty – Tentamos expandir a base de dados do capital mundial do carbono, com o pessoal do IDDRI (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais), entre outros. Mas você está certo, por enquanto, não é estudado. Nossas categorias de análise permanecem profundamente marcadas pelo boom pós-guerra e pelo ideal do crescimento infinito.

Reporterre: O capital é muito poderoso, ele detem um grande poder político, ele tem os meios de comunicação. Não estamos em uma situação sem saída?

Thomas Piketty – Tendências passadas sugerem que as coisas podem mudar mais rápido do que imaginamos. A história das desigualdades, dos rendimentos, do patrimônio, do imposto, é cheia de surpresas. O que emerge de tudo isso é perfeitamente aberto e há sempre vários futuros possíveis. Depois, há diferentes maneiras para chegar, mais ou menos rápido, mais ou menos justo, mais ou menos caro.

Tradução: Paulo Martins

Notas do tradutor:

  1. Crescimentistas/desenvolvimentistas = croissancistes.
  2. Trente glorieuses – gloriosos Anos Trinta – período de alto crescimento econômico de 1945 a 1975

Maioridade penal: é necessário discutir

Janio: Propostas sobre maioridade penal dividem-se entre péssimas e menos ruins

Por Janio de Freitas

Escolas da prisão

Na Folha

Enfim, algum debate.

É muito expressivo da índole deste país generoso, sensível, emotivo, que na ocasião de decisões sobre o sistema eleitoral, a reeleição, o dinheiro do poder econômico nas eleições, o que suscite o debate seja a idade em que menores carentes, se criminosos, devam ser punidos judicialmente.

Por qualquer ângulo de abordagem, o assunto é complicadíssimo. O Brasil não demonstra capacidade, e duvido que tenha ao menos vontade real, para algo mais do que retirar meninos das vias do crime e entregá-los ao ambiente recluso em que preservam ou agravam sua perdição. Para trazê-la de volta à liberdade.

Mas o clamor do medo que provocam, mesmo onde é mais incitado pelo sensacionalismo do que fundado, merece a defesa e a tranquilidade reclamadas. Nas propostas já apresentadas com tal finalidade, a meu ver só se consegue distinguir as péssimas das menos ruins. Todas muito parecidas na sua superficialidade, todas simplórias diante de um problema complexo. A de Aécio Neves, que se limita a triplicar a pena do aliciador de menores para o crime, destina-se até a outro problema. Ou supõe que adolescentes da marginalidade não ajam por si mesmos.

Prender mais cedo ou mais tarde, por menos ou por mais tempo, nada melhorou até agora e nada vai melhorar. É mera antecipação ou protelação. Reduz-se a idade para o recolhimento ou se espera mais pelo retorno às ruas do recolhido — mais ressentido, mais experiente, e com menos possibilidades, porque já adulto, de encontrar um encaminhamento diferente para a vida.

Não confio nas “soluções” apresentadas e, como sempre, não tenho uma proposta formulada. Mas tenho uma convicção. Em qualquer idade penal e com qualquer tempo de recolhimento, haverá apenas castigo inútil, senão agravador, caso não haja ligação rígida e persistente do recolhimento com o ensino. Inclusive como condição, segundo os resultados, para a volta à liberdade.

A Constituição responsabiliza o Estado pelo ensino. Logo, responsabiliza-o também por sua falta. É o caso de cobrar dos governos federal, estadual e municipal que se coordenem para proporcionar o ensino que devem aos menores delinquentes recolhidos. É preciso começar pelo Estado, não porque tenha polícia, esta obsessão brasileira contra e a favor, mas por ter meios e obrigação de proporcionar aos meninos e adolescentes desviados pelo crime a oportunidade de sair da punição diferentes, como seres, do que entraram.

O recolhimento hoje, e como será com as propostas que só se ocupam de idade e prisão, é escola de crime. Para ser a favor da sociedade como todo, o recolhimento precisa ser escola para a vida livre.

Crimes ambientais

Tivemos, na semana passada, um fim de semana chuvoso no Rio de Janeiro, limitando um pouco as opções de lazer ao ar livre. Quando a chuva parou, um bem-te-vi fazia a festa, lá na ponta de um galho. Peguei a câmera e tirei algumas fotos . Logo após, apareceu um mico-estrela. Este mico estava em uma árvore bem próxima e não se incomodava com a minha presença. Quando eu apontava a máquina, parecia que ele posava para a foto. Ao sair do condomínio, recebemos informativos da administração do condomínio e um, em especial, me deixou pensando sobre o que algumas pessoas têm na cabeça. O texto relatava uma denúncia de funcionário do condomínio que presenciou um vizinho portando uma arma de ar comprimido para abater os micos-estrela.

Trata-se, evidentemente, de crime ambiental. O condomínio está situado na Mata Atlântica e os verdadeiros invasores são os moradores que compraram lotes, arrancaram árvores e construíram casas contribuindo, assim, para o desequilíbrio ambiental.

Não temos o direito de decidir quem vive e quem morre, exterminando os animais que não nos interessam para preservar as espécies que mais nos agradam.

Já imaginou se todos resolvem, cada um por si, ‘reequilibrar” a natureza exterminando determinadas espécies de animais que não lhes agradam?

Cine debate com a exibição do filme “A lei da água” – Fundação Casa de Rui Barbosa – 10 de junho – 14 hs – entrada franca

Cine debate com a exibição do filme “A lei da água”

Clique na foto para ampliarA Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) realiza, no dia 10 de junho, um cine debate com a exibição do filme “A lei da água”, documentário que aborda o novo Código Florestal, a crise hídrica e a preservação das florestas no Brasil.Ao final da projeção, ocorrerá uma mesa de discussões com a presença de Katiane Silva, doutora em Antropologia Social, Mariana M. Vale (Instituto de Biologia/UFRJ), Samuel Braun, militante ecologista, Marco Tobón, (Antropologia/Unicamp) e Edgardo Brigatti (Instituto de Física/UFRJ). O evento acontece na sala de cursos da FCRB a partir das 14 horas, a entrada é gratuita.

:: Sobre o documentário:
O filme mostra a importância das florestas para a conservação dos recursos hídricos no Brasil e problematiza o impacto do novo Código Florestal, aprovado pelo no Congresso em 2012, nesse ecossistema e na vida dos brasileiros. A qualidade e a quantidade de água que temos disponível estão diretamente relacionadas à legislação ambiental: um conjunto de normas que define, entre outros pontos, quais áreas de uma propriedade rural devem ser mantidas com a vegetação nativa, cultivadas ou restauradas.

As opiniões diversas e os exemplos práticos reforçam o tema central do documentário: a relação delicada entre a preservação das florestas, a produção de alimentos e a saúde dos nossos recursos hídricos. O filme dá voz a agricultores e especialistas, apresenta técnicas agrícolas sustentáveis bem sucedidas e casos onde a degradação ambiental exacerbada impede a continuidade de qualquer tipo de cultivo ou criação de animais.

Conta ainda com a colaboração de cientistas e parlamentares que apoiam a Ação Direta de Inconstitucionalidade do novo Código Florestal no Supremo Tribunal Federal, e assume um compromisso com a sociedade brasileira ao mostrar como a lei ambiental afeta a vida de cada cidadão.

:: Ficha técnica “A lei da água”:
documentário, Brasil, 2014, 78′
Produção: Cinedelia, em coprodução com O2 Filmes
Direção: André D’Elia
https://aleidaaguafilme.wordpress.com

O voto e a reforma política

Menos de 2 anos após o golpe militar de 1o. de abril de 1964, o poeta Thiago de Mello escreveu este poema. O que ocorreu depois todos sabem: a ditadura durou 21 anos. Temos somente 30 anos de democracia e a Câmara dos Deputados sob a presidência de Eduardo Cunha segue em sua agenda oportunista, votando novas regras para as eleições que representam verdadeiro retrocesso no processo político.

A coincidência de mandatos, com a realização de eleições de 4 em 4 anos, uma das propostas na mesa, é um destes retrocessos. Outro retrocesso é a eliminação da obrigatoriedade de votar. Não se aprende a votar conscientemente deixando de votar. Não se fortalece uma democracia eliminando oportunidades de consulta popular. Voto é direito e dever de cidadania.

A falta de eleições e a não obrigatoriedade do voto reforçam a alienação, enfraquecem a educação política e ajudam a destruir a democracia.

Quando é instalada uma ditadura e se perde o direito ao voto é que se percebe a importância deste dever cívico. Nas palavras de Thiago de Mello, “o voto, … era um direito e era um dever sagrado”.

CANÇÃO DO AMOR ARMADO

THIAGO DE MELLO

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história que vem, que vai ficar.
foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando – sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma – de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repende não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.

Só porque não tem mais o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre a sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
agora sim que é sagrado:
cada qual tenha a sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo – um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

Rio, 6 de fevereiro de 1966

The Mind Managers – manipuladores da informação

Em 1979 eu li um livro que aborda um tema muito atual no Brasil. O título deste livro, escrito em 1973, por Herbert I. Schiller, é The Mind Managers. O livro analisa os meios pelos quais a informação é controlada e manipulada nos Estados Unidos. Publico, em seguida, resumo dos principais pontos publicado em 9 de maio de 2013 , por Ronald R. Rodgers, no blog mmc6660.wordpress.com, da turma de MMC6660 – Mass Communication & Society, da Faculdade de Jornalismo, da Universidade da Flórida.

Há no texto um link para a entrevista do autor Dr. Schiller concedida em 1997 a Ronald Rodgers.

Segundo Schiller, os profissionais da comunicação dos Estados Unidos estruturam o conteúdo com base em cinco mitos:

1 – O mito do individualismo e da escolha pessoal

2- O mito da neutralidade 

3- O  mito da natureza humana imutável

4- O mito da inexistência de conflito social (luta de classes)

5- O mito do pluralismo da midia

Para formatar as consciências são usadas duas técnicas:

1- fragmentação (ou focalização) como forma de comunicação

2- imediatismo da informação

Nestes tempos de manipulação midiática sem pudor, o livro está muito atual e sua releitura faz-se necessária, nos Estados Unidos e aqui.

Excerpts from The Mind Managers by Herbert I. Schiller
Posted on May 9, 2013 by Ronald R. Rodgers

“In their passion to dominate, to mold others to their patterns and their way of life, the invaders desire to know how those they have invaded apprehend reality – but only so they can dominate the latter more effectively.” – Paulo Freire, Pedagogy of the Oppressed, 1971

Mind managers

Excerpts from The Mind Managers by Herbert I. Schiller – a book that analyzes the ways in which information is controlled and manipulated in the United States.

1997 Interview with Dr. Schiller: http://www.youtube.com/watch?v=G7vpqXGW9sE

Five Myths That Structure Content.

1. The Myth of Individualism and Personal Choice

Manipulation’s  greatest triumph, most observable in the United States, is to have taken advantage of the special historical circumstances of Western development to perpetrate as truth a definition of freedom cast in individualistic term.

This enables the concept to serve a double function. It protects the ownership of productive private property while simultaneously offering itself as the guardian of the individual’s well-being, suggesting, if not insisting, that the latter is unattainable without the existence of the former.

  1. Upon this central construct an entire scaffolding of manipulation is erected.
    […]

There is evidence enough to argue that the sovereign individual’s rights are a myth, and that society and the individual are inseparable.

 2. The Myth of Neutrality

For manipulation to be most effective, evidence of its presence should be nonexistent.
When the manipulated believe things are the way they are naturally and inevitably, manipulation is successful.
In short, manipulation requires a false reality that is a continuous denial of its existence.
It is essential, therefore, that people who are being manipulated believe in the neutrality of their key social institutions.
They must believe that government, the media, education, and science are
beyond the clash of conflicting social interests.

[…]

3. The Myth of Unchanging Humane Nature

Human expectations can be the lubricant of social change.
When human expectations are low, passivity prevails.
There can, of course, be various kinds of images in anyone’s mind concerning political, social, economic, and personal realities
The common denominator of all such imagery, however, is the view people have of human nature. What human nature is seen to be ultimately affects the way human beings behave, not because they must act as they do but because they believe they are expected to act that way.
[…]

It is to prevent social action (and it is immaterial whether the intent is articulated or not) that so much publicity and attention are devoted to every pessimistic appraisal of human potential.
If we are doomed forever by our inheritance, there is not much to be done about it.
But there is a good reason and a good market for undervaluing human capability. An entrenched social system depends on keeping the popular and, especially, the ‘enlightened’ mind unsure and doubtful about its human prospects.
Among the mind manipulators, human nature doesn’t change and neither does the world.
[…]

4. The Myth of the Absence of Social Conflict

Concentrating on the blemishes of revolutionary societies is but one side – the international side – of mind management’s undertakings to veil from the public the realities of domination and exploitation.
Consciousness controllers, in their presentation of the domestic scene, deny absolutely the presence of social conflict. On the face of it, this seems an impossible task. After all, violence is ‘as American as apple pie.’ Not only in fact but in fantasy: in films, on TV, and over the radio, the daily quota of violent scenarios offered the public is staggering. How is this carnival of conflict reconcilable with the media managers’ intent to present an image of social harmony?
The contradiction is easily resolved. As presented by the national message-making apparatus, conflict is almost always an individual matter, in its manifestations and in its origin.
The social roots of conflict just do not exist for the cultural-information managers. True, there are ‘good guys’ and ‘bad guys’, but, except for such ritualized situations as westerns, which are recognized as scenarios of the past, role identification is divorced from significant social categories.
[…]

Elite control requires omission or distortion of social reality.
[…]

5. The Myth of Media Pluralism

Personal choice exercised in an environment of cultural-informational diversity is the image, circulated worldwide, of the condition of life in America.
This view is also internalized in the belief structure of a large majority of Americans, which makes them particularly susceptible to thoroughgoing manipulation.
It is, therefore, one of the central myths upon which mind management flourishes.
Choice and diversity, though separate concepts, are in fact inseparable; choice is unattainable in any real sense without diversity. If real options are nonexistent, choosing is either meaningless or manipulative. It is manipulative when accompanied by the illusion that choice is meaningful.
[…]

———-

Two Techniques That Shape Consciousness

  1. Fragmentation as a Form of Communication

Myths are used to dominate people.
When they are inserted unobtrusively into popular consciousness, as they are by the cultural-informational apparatus, their strength is great because most individuals remain unaware that they have been manipulated.
The process of control is made still more effective by the special form in which the myth is transmitted. The technique of transmission can in itself add an extra dimension to the manipulative process.
What we find, in fact, is that the form of the communication, as developed in market economies, and in the United States in particular, is an actual embodiment of consciousness control. This is most readily observed in the technique of information dissemination, used pervasively in America, which we shall term fragmentation.
[…]

Fragmentation, or focalization, is the dominant – indeed, the exclusive – format for information and news distribution in North America. Radio and television news is characterized by the machine-gun-like recitation of numerous unrelated items.
Newspapers are multipaged assemblages of materials set down almost randomly, or in keeping with arcane rules of journalism. Magazines deliberately break up articles, running the bulk of the text in the back of the issue, so that readers must turn several pages of advertising copy to continue reading.
[…]

One of the methods of science that is validly transferable to human affairs is the ecological imperative of recognizing inter-relatedness. When the totality of a social issue is deliberately evaded, and random bits pertaining to it are offered as ‘information’, the results are guaranteed: at best, incomprehension; ignorance, apathy, and indifference for the most part.

  1. Immediacy of Information

Closely associated with fragmentation and, in fact, a necessary element in its operation, is “immediacy.”
This here-and-now quality helps increase the manipulatory power of the informational system.
That the information is evanescent, with hardly any enduring structure, also
undermines understanding.
Still, instantaneousness – the reporting of events as soon after their occurrence as possible – is one of the most revered principles of American journalism.
Those social systems that do not provide instantaneous information are regarded either as hopelessly backward and inefficient or – a much more serious charge – as socially delinquent.
[…]

The technology that permits and facilitates immediacy of information is not at issue. It exists and could, under different conditions, be useful.
What is of concern is the present social system’s utilization of the techniques of rapid communications delivery to blur or eradicate meaning while claiming that such speed enables understanding and enlightenment.
[…]

It is easy to imagine electronic formats that would use instantaneousness as a supplement to the construction of meaningful contexts.
It is not so easy to believe that immediacy, as a manipulative device, will be abandoned while it serves mind managers by effectively preventing popular comprehension and understanding.
Passivity: The Ultimate Objective of Mind Management

The content and form of American communications – the myths and means of transmitting them – are devoted to manipulation.
When successfully employed, as they invariably are, the result is individual passivity, a state of inertia that precludes action.
This, indeed, is the condition for which the media and the system-at-large energetically strive, because passivity assures the maintenance of the status quo.
Passivity feeds upon itself, destroying the capacity for social action that might change the conditions that presently limit human fulfillment.

Preconceito e desinformação – O ‘clamor’ alimentado pela imprensa

Luciano Martins Costa, publica no Observatório da Imprensa, texto que ilustra muito bem o papel dos meios de comunicação na formação do preconceito e da desinformação. Trata-se de assunto importante, um dos motivos da existência deste blog. Publico abaixo o artigo e as emissoras de rádio e horários de apresentação do programa do Luciano nas estações de rádio no Rio, Brasília, Belo Horizonte e Joinville.

“Muito frequentemente, leitores de jornais questionam este observador sobre as razões pelas quais a mídia tradicional do Brasil perdeu diversidade e adotou nos últimos anos um viés tão radicalmente conservador e tão homogêneo que chega a se caracterizar como um verdadeiro partido político. A resposta nunca é simples, mas a própria imprensa oferece exemplos que ajudam a entender como se deu esse processo de perda de qualidade e degeneração da atividade jornalística.

Por exemplo, sabe-se que a imprensa, como sistema, tem um alinhamento automático com o campo ideológico que se denomina “liberal”, no que se refere às questões da economia, o que corresponde a escolhas que devem ser qualificadas como reacionárias no campo social. Reacionárias porque reagem vigorosamente a qualquer intervenção direta do Estado no sentido de corrigir as perversidades do sistema capitalista para produzir um mínimo de equanimidade nas oportunidades de promoção social dos indivíduos.

Assim, esse conjunto de empresas que catalisa pensadores e ativistas como instrumentos de influência e poder vive essa contradição que, de certa forma, reproduz as discrepâncias do próprio sistema capitalista. Por exemplo, a imprensa precisa se apresentar como uma espécie de farol da modernidade, porque isso justifica sua existência, mas se comporta mais frequentemente como uma lanterna na popa, mais apta a iluminar o passado, reescrevendo a História, do que ajudando a entender o que vem pela frente.

Numa sociedade complexa como a brasileira, onde a dinâmica das relações sociais e de negócios não encontra no campo político uma representação correlata, as escolhas da imprensa acabam por distorcer o equilíbrio entre as opções ideológicas, dando maior peso às alternativas conservadoras.

Isso fica muito claro quando notamos que a mídia tradicional despreza certos protagonistas da cena política, por considerá-los menos qualificados, mas se vale deles como a “mão do gato” para alcançar determinados propósitos.

Na terça-feira (2/6), por exemplo, registre-se como, novamente, os jornais dão grande destaque, sem o devido senso crítico, a iniciativas dos líderes do Congresso Nacional, que estão empenhados em fazer aprovar uma série de propostas que produzem retrocessos em conquistas sociais importantes da democracia brasileira.

Negação do contraditório

Estimulados pela constante exibição nas primeiras páginas dos jornais e pelo tempo que lhes é destinado nos noticiários do rádio e da televisão, o senador Renan Calheiros e o deputado Eduardo Cunha mantêm um aceso conflito com o poder Executivo, dando curso a mudanças em questões há muito acomodadas no quadro legal.

A proposta da redução da maioridade penal entra em pauta nesse contexto de confrontação, e em seguida é colocado na agenda um projeto que altera o equilíbrio dos poderes, transferindo para o Parlamento funções de gestão das empresas estatais.

Nessa linha de iniciativas, aguarda na fila um projeto de lei que pretende transformar em letra morta o sistema de controle da circulação de armas de fogo, restrição que é apontada por especialistas como uma das principais causas da redução de mortes violentas no país nas duas últimas décadas.

Propostas como essas avançam e conquistam a opinião de cidadãos pouco educados politicamente, justamente porque a imprensa não faz o trabalho de elucidar problemas complexos que preocupam a sociedade.

A desinformação, produzida pela prática das aleivosias e da meia-verdade na rotina da mídia, resulta em opiniões radicais sobre questões sociais, como a defesa do encarceramento de adolescentes e o apoio crescente à pena de morte. Por trás de tudo, como justificativa para esses retrocessos, acena-se com o que se denomina de “clamor popular”.

O tal “clamor” nasce quase sempre do mau jornalismo, como no caso de um jovem acusado do assassinato do médico Jaime Gold, no Rio de Janeiro, e que se demonstrou ser inocente.

Em editorial no qual apoia veladamente a proposta de mudança na regra da maioridade penal, o Globo se refere a uma suposta “rigidez paternalista” do Estatuto da Criança e do Adolescente e afirma que há “um compreensível clamor por mudanças, ideologias à parte”. Com esses argumentos, defende a consulta popular porque o assunto seria “de fácil compreensão geral”.

Primeiro, a expressão “ideologias à parte” é uma negação do contraditório, fundamento da sociedade moderna. Segundo, o que o jornal qualifica de “clamor por mudanças” é apenas o resultado da ação cotidiana da própria imprensa em sua pregação reacionária. Terceiro, a “fácil compreensão” é o efeito do noticiário que criminaliza crianças e adolescentes negros e pardos, aos quais é negada qualquer oportunidade de inclusão social”.

Saneamento básico x atraso escolar

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Estudos apontam que crianças com acesso a saneamento básico chegam a ter um aproveitamento de 20% maior no rendimento escolar

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou, em julho de 2014, que a população brasileira atingiu 202,7 milhões de habitantes. Do total de crianças, com idade entre 7 e 14 anos, 97% estão na escola. Mas, de que forma a falta de saneamento básico no Brasil atinge diretamente o rendimento escolar, o aprendizado e a frequência escolar dessas crianças?

De acordo com dados do Instituto Trata Brasil, crianças com acesso a saneamento básico chegam a ter um aproveitamento de 20% no rendimento escolar. Um estudo do mesmo Instituto, de 2011, mostrou que 50% das internações por diarreias ocorreram em crianças com até cinco anos. Exatamente na faixa etária quando a criança precisa ter a saúde mais preservada e, principalmente, a atividade cerebral está em desenvolvimento. Segundo vários pediatras, inclusive alguns deles embaixadores do instituto, as diarreias constantes desidratam as crianças, e com isso pode haver comprometimento da capacidade de aprendizado escolar para a vida toda.

Para o presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, a falta de saneamento básico está ligada diretamente com a performance escolar da criança, uma vez que o aprendizado está totalmente conectado à saúde. “Todo cidadão tem direito a água limpa e esgoto tratado. São princípios básicos do desenvolvimento do ser humano. Quando deixamos de oferecer o saneamento básico (água e coleta e tratamento dos esgotos), as crianças são as primeiras a sentirem”, afirma Édison.

No ano passado, o Instituto apresentou outros estudos, que mostraram os benefícios da universalização do saneamento básico no país. Um capítulo inteiro, destinado a educação, apresentou que a universalização do acesso à coleta de esgoto e água tratada traria uma redução de 6,8% no atraso escolar dos alunos que vivem em regiões sem saneamento.

Para Guilherme Girol, um dos diretores da SANOVA – Inovação em Saneamento, empresa que fornece soluções especializadas em sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário, presente há seis anos no mercado brasileiro, são vários os desafios a serem enfrentados em várias regiões do Brasil. “Faltam políticas públicas por parte dos governantes e maior eficiência na elaboração e execução de projetos e obras, principalmente. Em relação aos projetos, é necessário que as empresas busquem ferramentas de otimização (softwares) para a elaboração dos mesmos. Estes, além de projetarem a infraestrutura necessária para atender as demandas de água e esgoto, conseguem simular condições futuras, como por exemplo, o crescimento populacional e o impacto que isso irá acarretar no projeto”.

Historicamente, as regiões do Nordeste e Norte ainda estão atrasadas no que se refere aos serviços de coleta e tratamento dos esgotos. A região Norte é a mais preocupante, onde grandes cidades não coletam e tão pouco, tratam o esgoto. Essa realidade além de impactar no rendimento escolar, exerce impacto negativo em outras áreas como no turismo e até mesmo na valorização ambiental. O Sul é uma região que também apresenta indicadores alarmantes na coleta e tratamento de esgotos. Exceto o Paraná, que apresenta dados melhores, Santa Catarina e Rio Grande do Sul ainda estão distantes do cenário ideal. Já as regiões do Centro-Oeste e Sudeste apresentam os melhores índices, mas ainda têm desafios pela frente. Cidades aonde a universalização do saneamento já chegou, como é o caso de Limeira e Franca, ambas no estado de São Paulo, e Uberlândia em Minas Gerais, os índices de internações por doenças de veiculação hídrica são menores, a taxa de desempenho escolar é considerável e a valorização ambiental é assegurada.

É importante salientar que quando se fala em saneamento, logo costuma-se lembrar dos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Mas o conceito é formado também por drenagem urbana e os resíduos sólidos, compondo assim os quatro pilares do saneamento básico. Atualmente, o setor no país está custeando uma conta onerosa, devido à ausência do investimento que o setor deixou de receber por cerca de 30 anos, com a extinção do Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANASA), criado na década de 1970 e extinto na década seguinte. Este atraso está sendo revertido, de forma lenta, com ações voltadas principalmente para a ampliação das redes de esgotamento sanitário.

  • Colaboração de Ariana Moreira, para o Portal EcoDebate, 26/05/2015

Ben Bernanke e o declínio da classe média

Embora pareça uma conversa entre o pessoal do topo da pirâmide social, este artigo é interessante para ilustrar dois fenômenos modernos perversos, que ocorrem nos  países com as economias de mercado mais avançadas: a crescente financeirização da vida, que sufoca os outros setores da economia, e a crescente desigualdade de renda nesses países. Um fenômeno como  consequência natural do outro. Para uma elite tupiniquim que adora copiar modelos e comportamentos, tudo muito bem. Para os demais mortais, tudo muito mal.

Para leitura do texto original em inglês, escrito por Michael Roberts, veja o artigo intitulado “Ben Bernanke and the decline of the middle-class”, publicado neste blog em 30/05/2015.

Tradutor: Paulo Martins – dialogosessenciais.com

“Ben Bernanke e o declínio da classe média

O ex-presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, tornou-se recentemente conselheiro para Citadel, uma empresa de gestão de fundos de hedge e para a PIMCO, o maior fundo de bônus do mundo. Isso fará com que Ben Bernanke um homem muito rico, em vez de apenas rico.

Até agora ele ganhava talvez, apenas, US $ 1 milhão por ano em salário base, acrescido dos rendimentos dos direitos de livros publicados e ainda mais a partir de taxas de palestras. Mas agora ele vai estar na faixa de centenas de milhões.

A porta giratória entre cargos públicos e trabalho para grandes instituições financeiras é a realidade do mundo sob o capitalismo global moderno. Não é de admirar, o Fed, o FMI, o Banco Mundial, o BCE etc, instituições supostamente independentes, operam para garantir o bem-estar das principais empresas financeiras e continuamente a prever o sucesso das economias capitalistas. Na verdade, estritamente falando, o Federal Reserve dos EUA não é independente, uma vez que foi criado e ainda é ‘propriedade’ pelos principais bancos de Wall Street.

Então, juntamente com o dinheiro, os gostos de Ben Bernanke, Hank Paulson, Tim Geithner, Alan Greenspan transitam entre Wall Street e Washington DC perfeitamente porque os coloca no centro da ação: estabelecer a estratégia financeira da maior potência imperial e influenciar o curso dos mercados financeiros mundiais.

Assim, o capital financeiro absorve todas as pessoas brilhantes e inteligentes, não para fazer “serviço público” para a maioria dos norte-americanos ou em outro lugar, mas para cumprir os objetivos do capital, com rica recompensa ao fazê-lo.

Os políticos e os meios de comunicação americanos referem-se continuamente à “classe média” em seus comentários e relatórios quando eles realmente querem dizer o que costumávamos chamar de “classe trabalhadora”. A classe trabalhadora “eram” pessoas que trabalhavam em fábricas, escritórios e lojas e não têm qualificações profissionais para se tornarem advogados, médicos, gerentes e outros executivos – sendo este último o termo original para a classe média. O abandono do termo, “classe trabalhadora”, foi deliberado. Foi para esconder a natureza de classe do capitalismo moderno entre quem detém os meios de produção ou que planeiam a estratégia do capital, como Ben Bernanke, e aqueles que vendem sua força de trabalho para ganhar a vida com nenhum poder sobre o seu próprio destino. Foi também para convencer as pessoas de trabalho que já não havia qualquer desigualdade ou divisão de classe na sociedade moderna. Estamos todos de classe média agora.

Mas essa cortina de fumaça ideológica está começando a trabalhar de forma menos eficaz em mascarar a realidade. Enquanto as elites financeiras nos Estados Unidos e Europa continuam a prosperar neste mundo pós-Grande Recessão, os agregados familiares médios americanos ou europeus estão lutando. Nos últimos 25 anos, o rendimento anual do agregado familiar mediano dos EUA ainda é pouco menos de 52 mil dólares. E desde que a crise financeira atingiu, há seis anos, a “recuperação” econômica ainda precisa se traduzir em rendimentos mais elevados para esta família americana “típica”. Após o ajuste para a inflação, a mediana da renda familiar nos EUA ainda é 8% inferior ao que era antes da recessão, 9% menor do que em seu pico em 1999 e essencialmente inalterada desde o fim da administração Reagan em 1992.

Tome a geração nascida em 1970. Em idade adulta, esses americanos ganhavam mais que seus pais, aqueles que nasceram em 1950. Mas seus ganhos estagnaram nos anos 2000, quando eles estavam em seus 30 anos. Agora com 40 anos, seus ganhos ficaram para trás em comparação aos dos seus pais na mesma fase de suas vidas.

E o foco na renda mediana  não mostra a grande disparidade de rendimentos que produzem esta  mediana. Em 1970, 55% dos rendimentos dos EUA recebido pelos domicílios na faixa de 60% da distribuição de renda. Mais da metade dos domicílios estavam na “camada intermediária” das famílias (aqueles que ganham entre dois terços e duas vezes a renda média). Em 2013, ambos os números haviam caído para cerca de 45%. Em um relatório de 2012, pesquisadores do PEW (nota do tradutor: centro de pesquisa norte-americano) chamavam a  década de 2000 “a década perdida da classe média.”

Sociedade norte-americana, após o curto período de igualdade entre os anos 1950 a 1970, foi polarizando apenas na maneira que Marx havia previsto entre uma elite rica extrema, centrada em torno da propriedade e da gestão de grandes corporações, principalmente em finanças, e no resto de nós.

Em um trabalho inédito recente, Simon Mohun, professor emérito da QMC (nota do tradutor: Queen Mary College, Universidade de Londres), Londres, analisou cuidadosamente os dados de renda pessoal dos EUA sobre uma base de classe (ClassStructure1918to2011wmf (1)). Mohun descobriu que os gestores que têm renda não-trabalho suficiente para que eles não precisem de trabalho não eram mais do que 2% dos assalariados de renda, tendo diminuído de 4% em 1920s. Esta é a classe capitalista-gerencial real. O 1%, ou até mesmo com mais precisão, o topo 0,1% dos domicílios, dão as cartas. A próxima camada, como Ben Bernanke, vivem disso, traçando  planos estratégicos para eles (agora apenas 2% a). A próxima camada trabalho para eles e lhes dá suporte (isto é cerca de 14% – a classe média real e esta faixa tem diminuido). Depois, há o resto de nós”.