Quem soltou os bichos e o medo de enfrentá-los, por Fernando Brito

Mais um artigo que vai direto ao ponto, do sempre lúcido Fernando Brito, publicado no site tijolaco.com.br.

Solto o bicho do individualismo sem ética ou compaixão, sobra a lei do mais forte, são esquecidas as regras básicas de convivência humana, rasga-se a Constituição, se joga no lixo 54 milhões de votos, se nega a existência de valores civilizatórios básicos. Os sinais de trânsito existem para organizar o trânsito. Simples e óbvio. Mas, neste país que sonha em voltar a ser uma república bananeira, começando a trama para derrubar uma presidente eleita no minuto seguinte à divulgação do resultado da eleição, tudo tem que ser explicado de novo.

Motocicletas andando em calçadas exclusivas de pedestres está cada vez mais “normal” no Rio de Janeiro. Sentar em lugar reservado para idosos e deficientes no metrô e fingir que está dormindo é “normal”. Acelerar o carro em cima de um pedestre e acionar a buzina quando o sinal está amarelo é comum.

Seu Carlos, um senhor que trabalhava como secretário da Palong – Associação de Ongs – foi atropelado e morto quando atravessava uma rua próxima ao seu local de trabalho. Uma jovem, ao volante, mas distraída pelo celular, ultrapassou o sinal vermelho e matou o Sr. Carlos. Alguém pode perguntar o que isso tem a ver com o assunto do artigo. Mais uma vez, simples e óbvio: os valores básicos da convivência humana viraram lixo descartável. Vale tudo. Basta arranjar uma justificativa qualquer, um argumento desconexo qualquer, juntar um monte de preconceitos, jogar um kg de ambição e malandragem, espalhar na internet, replicar nos meios de comunicação cúmplices e está pronto o retrocesso e a volta às trevas.

Os canalhas perderam a vergonha e ficaram ousados. Mas, o que me deixa mais perplexo é que eles invertem os valores e se acham no direito de ultrapassar sinais vermelhos, andar de moto nas calçadas, matar pedestres. Para eles parece que a espécie humana começou quando eles nasceram. Aproveitam-se das conquistas civilizatórias dos antepassados, mas se consideram titulares só de direitos. Retiram, consomem, dilapidam o patrimônio da humanidade e acham que não tem nenhum dever relacionado ao bem comum. Tomam vacinas, usam remédios para curar suas doenças, são atendidos em pronto-socorros públicos e se apropriam da força de trabalho do seu semelhante para enriquecer e ter acesso aos bens gerados pelo conhecimento coletivo, financiado pelo Estado com os recursos de todos. Mesmo assim, dizem abominar a interferência do Estado em suas vidas e não reconhecem o valor do trabalho dos que varrem o lixo que eles teimam em jogar nas ruas, não reconhecem o trabalho  dos diversos profissionais auxiliares da área médica que, mesmo sem serem médicos, formam a equipe que lhes salva a vida. Porque, ao final de tudo, embora se achem donos do mundo e invencíveis, ficam doentes e são mortais iguais a todo mundo. Vão, quando morrem, para o mesmo lugar que vão as ralés, batalhadores, comunistas, bolivarianos, lulistas, frentistas, caixas de supermercados, plantonistas de UTI, cuidadores de idosos, voluntários do Instituto do Câncer, motoristas de ônibus, camelôs, garis, catadores de latas de alumínio.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

Leia, a seguir, o artigo do Fernando Brito:

Quem soltou os bichos e o medo de enfrentá-los
3 de julho de 2015 | 18:00 Autor: Fernando Brito

Quando li a matéria sobre as ofensas racistas recebidas pela apresentadora do tempo da Globo Maria Júlia Coutinho, lembrei-me de outro jornalista, o velho companheiro Carlos Alberto de Oliveira, o Caó da lei que há 26 anos leva seu nome, de quanto avançamos e de quanto estamos retrocedendo em matéria de ódio, racial, entre outros.
Não é que o preconceito, a brutalidade, a intolerância tenham deixado de existir nestas quase três décadas: apenas tornaram-se vergonhosas e, sendo vergonhosas, encolheram-se e se reproduziam muito pouco, até que rebrotaram com o apavorante vigor de cogumelos venenosos.
Um dia, quando se escrever, distantes, a história deste país, estranhamente o marco temporal do renascimento desta onda de racismo, de preconceito, do “direito” de afirmar por quaisquer palavras e atos, não importa o que eles firam a alguém ou ao convívio de todos, estará bem assinalado nas “jornadas de junho”, tão idolatradas por uma esquerda que não percebeu que estava, em sua inorganicidade e radicalismo vazio, libertando forças sombrias, que não ousavam mostrar a cara abertamente fazia muito tempo.
De uma hora para outra, “descobriram” que o nosso país de carências acumuladas em meio milênio era, de uma hora para outra, “uma merda” e deveria deixar de sê-lo num estalar de dedos, quem sabe, talvez, com o algum dinheiro que se economizasse não fazendo uma Copa de Futebol…
A direita deitou e rolou, com as moças bem vestidas portanto seus cartazes em defesa da saúde “padrão Fifa”, da escola “padrão Fifa” e dos 20 centavos do ônibus que talvez não tome nunca.
Deu-se uma cara “boazinha” aos grupos que, agora, destilam ódio, agressões, discriminação.
Quando aceitaram o “blacbloquismo” aceitaram a perda de limites que leva, hoje, a agressões como esta, os adesivos obscenos com a presidenta, as ameaças ao filho do Noblat pela camisa vermelha, as agressões a Guido Mantega num hospital ou num restaurante, a humilhação de um pobre haitiano…
Soltaram, quase que literamente, os bichos…
Os “lulus” se tornaram em rottweillers.
A platéia sanguinária que o Jornal Nacional formou se volta contra uma profissional que, pessoalmente, não tem nada com isso.
Diante deste quadro selvagem, o governo se acoelha, com um ministro da Justiça que quer ficar para não fazer.
Todas as leis anti-discriminatórias que as lutas políticas da esquerda conseguiram aprovar e estão aí para serem aplicadas.
Quando quiserem fazê-lo talvez já não adiante.
A ousadia, no Brasil de hoje, parece ser privilégio dos canalhas.”

Uma resposta para “Quem soltou os bichos e o medo de enfrentá-los, por Fernando Brito

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s