O novo normal e o cemitério das nações

Por Saul Leblon, no site Carta Maior:

(também publicado pelo Miro, em seu blog).

A ideia de que o Brasil não tem mais jeito é poderosa, conta com avalistas de peso.
Interesses antipopulares, em qualquer época, acalentam esse horizonte sem ponto de fuga, onde se possa acuar qualquer iniciativa que desafie a lógica conservadora.

Essa por exemplo: dar a Moro o que é de Moro; e devolver à sociedade brasileira a prerrogativa de organizar o seu desenvolvimento, recapacitar suas empreiteiras, resgatar projetos estratégicos, descongestionar o futuro, o investimento, o emprego e a renda.

‘Não, não, não , isso não pode, é pênalti’, apita o bandeirinha José Serra.

Do camarote cativo que lhe concede o jornalismo isento, o tucano crocita como se fora ave de outra cepa.

Não há esperança, insiste, os dedos longos estendidos como bisturis a lancetar o futuro.

‘No governo Jango, o Brasil ao menos estava dividido’, recorda, testemunha ocular daquele golpe.

‘Hoje a rejeição é total’, constata agora do outro lado da mesa, onde passou a ocupar o papel de embaixador da Chevron nesse tratado de Viena em gestação, no qual preconiza transformar poços do pré-sal em reparações de guerra servidas aos mercados.

Quando? Assim que a saturação do ‘consenso’ virar outra coisa.

Talvez aquela que os editoriais de março de 1964 exprimiam em garrafais exclamativas, do tipo ’Basta!’; ‘Fora!’

Serra viveu aquilo; ele sabe que consensos são construções transitórias.

Não raro postiças.

Caso da rendição incondicional que se exige hoje da sociedade, em agendas que magnificam os desafios da nação para desmantelá-la.

Os imperativos de ontem, assim como os ajustes e hoje, viram fumaça porém quando o futuro ganha a largueza de uma outra lógica, que redefine a correlação de forças e a alocação dos recursos, pavimenta pactos e linhas de passagem para destravar o desenvolvimento.

O economicismo veta (‘não, não há saída antes de piorar’).

Mas o economicismo é a soberba da razão e não o motor da história.

Política é economia concentrada.

Os exclamativos alardeados em 1964 demonizavam os conflitos do desenvolvimento como ameaças à democracia.

Dados coletados pelo Ibope então mas não divulgados (e hoje armazenados na Unicamp), mostravam uma realidade distinta da ira consensual sentenciada pelas aves de agouro da época.

Nos dias 20 e 30 de março de 1964, quando a democracia já era tangida ao matadouro pelos seus paladinos, pesquisadores constatavam nas ruas que 59% dos brasileiros apoiavam as medidas anunciadas pelo Presidente João Goulart para enfrentar a crise.

Uma parte delas seria oficializada na famosa sexta-feira, 13 de março.

Em comício na Central do Brasil, ‘Jango’ assinaria então vários decretos que expropriavam terras às margens das rodovias para a reforma agrária, nacionalizavam refinarias, sinalizavam a reforma urbana, fiscal e educacional.

Tudo o que era demonizado pelo jogral golpista como se fora a voz da sociedade era apoiado pela parcela majoritária da população.

Estamos falando de 1964 ou de 2015?

Dos dois.

Um aparato midiático interliga os calendários com a mesma determinação de ocultar elementos da encruzilhada econômica, exacerbar adversidades, manipular o debate e interditar as reformas requeridas nas transições de ciclo de desenvolvimento.

Foi assim que se modelou a opinião pública para o golpe em 64, mesmo contra o discernimento majoritário da população sobre as ‘reformas de base’.

O martelete da corrupção e do comunismo imobilizou esse discernimento.

Em grande medida foi assim também que se logrou convencer o governo reeleito em 2014 de que nada mais restava do que renunciar ao seu programa para adotar o do adversário.

Caso contrário, um meteoro atingiria o país para desintegrá-lo.

Um pouco como a fatalidade crocitada por Serra, que não informa o que nos reserva o day after de seu vaticínio.

Mas há pistas.

Siga o dinheiro.

Ou as entrevistas do ex-presidente do BC, no governo Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga

Cogitado para comandar a economia em qualquer governo conservador, sua receita –reiterada no Valor, na semana passada, é tão peremptória quanto os imperativos de 64.

O país precisa de uma faxina econômica – ‘como a que fizemos em 1999’, diz ele.

O que eles fizeram em 1999?

Lançaram as fundações daquilo que debitam agora exclusivamente à lista de pecados de Lula e Dilma.

Valorizaram a moeda artificialmente para criar a pretensa bonança do Real forte, com base em importações baratas.

Essa foi a pré-compra da reeleição.

Perto disso, os R$ 200 mil do deputado Ronivon foi troco de pinga.

A desindustrialização alçou voo aí para não mais aterrissar.

A decolagem abriu um buraco nas contas externas equivalente a 4,3% do PIB no ano seguinte ao da reeleição.

A purga veio na forma de uma maxidesvalorização que se pretendia ‘controlada´ em 8%.

Isso era o que se dizia em 1º de janeiro de 1999.

No dia 29 ela já havia batido em 60% (fatiando assim o poder de compra da famílias assalariadas).

A taxa de juro foi calibrada então para segurar o rebote dos preços desprovidos da âncora dos importados.

Armínio deu ao mercado financeiro local e global uma Selic real (acima da inflação) de 22% . Hoje está perto de 8% e Serra, distraído, diz que isso é uma calamidade.

É mesmo, mas o passado a relativiza.

O salário mínimo (ajustado p/ efeito de comparação aos preços de 2011) despencaria de R$ 414 reais em 1990 para R$ 287 reais após a purga.

Juros em alta, dívida pública em escalada sideral, salários pelo ralo.

Foi isso que ‘fizemos’ em 1999.

O país só escapou do precipício porque havia um vento à favor no mercado mundial.

O dólar forte levaria os EUA às compras; a fome chinesa por commodities ganhava corpo; os saldos comerciais incentivariam a América Latina a importar manufaturados do Brasil.

Esse mundo acabou.

E o que começou será fortemente modelado por aquilo que a China anuncia como sendo o seu ‘novo normal’.

A saber: esgotamento do ciclo puxado por taxas de investimento de 45% do PIB (Brasil, 17,5%) e menor demanda por matérias primas.

Não só.

A transição chinesa vem se fundir à longa convalescença da desordem neoliberal inaugurada em 2008 e sem prazo para acabar.

Os impactos já são palpáveis.

A anemia do comércio mundial emparedou as economias emergentes, tirou o canal de recuperação da Europa e rebateu nas vendas da China.

A resposta de Pequim adicionou lava vulcânica à fervura com uma desvalorização cambial que pode contagiar o mundo.

Só na semana passada, o rublo sofreu uma depreciação de 5,3%; o peso colombiano, de 4,1%, o peso mexicano, 3,2% e a lira turca, quase 3%.

Em contrapartida, o dólar valorizado derrubou as exportações norte-americanas em quase 3% no 1ºsemestre.

E as importações não escaparam de uma retração de 2,2% evidenciando (ademais do fator petróleo) o calcanhar de Aquiles que impede Obama de ser um Roosevelt : a corrosão estrutural do poder de compra das famílias assalariadas e da classe média antes afluente.

O maior mercado capitalista do planeta arfa com os pulmões do consumo comprometidos.

Obama paga a fatura de quatro décadas de ventos neoliberais em que a pujança econômica se dissociou da oferta de empregos de qualidade, realocados com a indústria para o desfrute dos custos asiáticos.

No momento em que o dínamo chinês patina, o mundo percebe as estreitas interações do metabolismo capitalista, agora desprovido de qualquer ponto de apoio dinâmico.

Tudo o que é sólido se desmancha no ar.

Na semana passada, a indústria chinesa crescia ao ritmo mais baixo desde 2009; a dos EUA, no mais baixo dos últimos dois anos.

A correia sino-americana que puxava o mundo travou.

Entre 15% e 20% do faturamento global das múltis dos EUA ocorrem na China (e Japão). Se essa endogamia entra em litígio, o que sobra?

O ‘novo normal’.

A China cresce menos, o comércio global encolhe, os EUA patinam , a Europa desidrata, o mundo emergente regride e a guerra cambial se impõe.

Pergunta aos Armínios e Levys:

–Esse miserável mundo novo recomenda a adoção de uma ajuste baseado em arrocho fiscal, esfarelamento do poder de compra interno, desemprego, juros recessivos e retração do investimento público?

Como ‘fizemos’ em 1999?

E se não der certo agora no mundo contraído de 2015?

Como de fato já não deu o lacto purga de Levy. Esse que acentuou a recessão, elevou a inflação, derrubou a receita fiscal e vitaminou o déficit público que se pretendia reduzir.

Arroche-se ainda mais –‘como fizemos em 1999’, insiste o perseverante Armínio no seu parlatório no Valor.

Até?

Até emergir o milagre da contração expansiva. Essa fé ortodoxa na ressurreição que sanciona catástrofes sociais e humanas em nome de um equilíbrio endógeno que o capitalismo simplesmente não pode satisfazer.

Há oito anos a população grega espera pelo milagre. Seu metabolismo econômico e social em carne viva suporta a salmoura de ajustes sucessivos.

Igual terapêutica prescreve-se agora para uma economia brasileira pecadora, ‘envenenada’ pela criação ‘voluntarista’ –dizem FHC, Armínio, Aécio e assemelhados…– de 20 milhões de empregos em 12 anos, ademais das pressões de um mercado de massa de 100 milhões de pessoas.

Esse Brasil não cabe no orçamento.

É o que sibila o cerco à Constituição de 1988.

O recado que unifica as redações mostra que o tanquinho de areia de Kim Catupiry é coisa séria: despesas obrigatórias consagradas pela Carta Cidadã proclamada pelo digno brasileiro Ulysses Guimarães estão na alça de mira de uma curetagem conservadora

Com que finalidade?

‘Transformar direitos universais em serviços pagos’, adverte a professora Marilena Chauí em suas aulas públicas.

Ou para dizer a mesma coisa em uma chave política: abortar exemplarmente a ousadia de se construir uma democracia social na sétima maior economia do planeta e principal referência da luta pelo desenvolvimento, depois da China.

Passados seis meses da festejada terapia, impôs-se ao governo, felizmente, a constatação de que o aperto no crédito e no investimento –com corte de gastos e elevação de juros, jogou a economia num buraco mais fundo do que já se encontrava.

O fracasso favorece a retificação de curso?

Em parte sim.

Mas o país só se libertará da lógica conservadora, de fato, se as fileiras progressistas conseguirem superar sectarismos e hesitações para promover uma verdadeira repactuação democrática do futuro brasileiro.

Não se trata de um jogo do tipo o vencedor leva tudo.

É uma negociação.

Implica desenhar linhas de passagem ordenadas por metas, concessões, salvaguardas e escalonamentos de perdas e ganhos.

As opções são duas: crise permanente à moda grega; ou o desassombro de politizar as escolhas do desenvolvimento.

A pá de cal jogada por Serra não é uma fatalidade, mas um ingrediente do acirramento da luta de classes.

Na margem do rio em que ele se encontra interessa dizer, à moda Thatcher, ‘there is no alternative’.

Há. Mas precisa ser pavimentada com a construção dos sujeitos dotados de força e consentimento para renegociar alternativas.

Erra o tucano ao não conceder à Presidenta Dilma uma base de apoio histórica.

Ela existe, objetivamente; mas aguarda a agenda que lhe dará a identidade subjetiva que a ação política requer.

O colapso da receita ortodoxa abre a oportunidade para esse resgate.

Precisa ser acionado, porém, antes que o país, seu povo e o desenvolvimento sejam mastigados pelo miserável mundo novo esboçado no novo normal do capitalismo.

Passa da hora de uma agenda que fale ao futuro de toda a sociedade.
Que dê a Moro o que é de Moro.

E à democracia a prerrogativa de contrapor o investimento à ruína.

Devolver à sociedade o comando do seu destino era como Celso Furtado definia a essência do desenvolvimento.

É preciso ir à essência para escapar aos coveiros que recusam ao Brasil outro destino que não o cemitério das nações.

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