Economia: nem tudo é o que parece

Alguns se informam sobre economia pelas manchetes de jornais e das revistas semanais sensacionalistas, e pelos programas de rádio e TV.

Outros acompanham opiniões de leigos que se metem a dar opinião sobre o que não sabem nas redes sociais e em artigos de jornais e revistas. Pensam que estão informados e saem por aí compartilhando sua ignorância.

Peço perdão pelo comentário cáustico, mas não estou dando conta de tanta baboseira que ouço e leio. Não dá para fechar os olhos e tapar os ouvidos: o bombardeio midiático já contaminou muita gente. Estamos cercados por comentários estafúrdios sobre tudo, especialmente sobre economia.

Jornalistas de rádio e TV, membros de grupos de manifestantes, políticos, estão todos participando da mesma geléia geral que se transformou a análise econômica. Todos são cúmplices do processo de desinformação e de divulgação de soluções mirabolantes baseadas em diagnóstico falsos. São charlatães da análise econômica. Vendem peixe estragado como se fosse pescado hoje. Pintam suas guelras para enganar os trouxas. E os trouxas comem este peixe, gostam e saem por aí recomendando o cozinheiro e o restaurante. Uns de boa-fé, outros por falcatrua.

Um dos objetivos deste blog é postar artigos que ajudem a clarear um pouco a cena atual, separando o peixe podre do peixe próprio para consumo. O artigo do Bernardo Guimarães, doutor em Economia, explica a diferença entre câmbio real e câmbio nominal. É importante, pois os noticiários não explicam e, com suas notícias superficiais espalham pânico e desinformação.

Paulo Martins

Leia o artigo:

A taxa de câmbio nos diz quão caros são os produtos importados em relação aos produtos brasileiros. O dólar está custando cerca de R$ 4, batendo recordes. Nunca foram precisos tantos reais para comprar um dólar. Podemos então dizer que os preços nos Estados Unidos estão no nível mais alto da história para nós brasileiros?

A resposta é não. Para comparar o valor real do câmbio em 2 pontos do tempo, precisamos considerar a inflação.

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Por exemplo, há 25 anos, em 21/09/1990, o dólar custava o equivalente a R$ 0.0000298, mas isso não significa que os produtos importados estavam muito baratos, pois na época, o montante de 81,96 cruzeiros (o equivalente a R$ 0.0000298 hoje) tinha algum valor.

Da mesma maneira, nos Estados Unidos, um dólar em 2002 comprava um pouco mais que um dólar compra hoje. A inflação do dólar, apesar de pequena se comparada à inflação do real, também precisa ser levada em conta.

Como exemplo, em 28/10/2002, um dólar valia de R$ 3,74. Considerando a inflação do Real, temos que R$ 3,74 em outubro de 2002 valiam o mesmo que R$ 8,38 hoje. Mas 1 dólar de outubro de 2002 vale US$ 1,32 hoje. Assim, em 28/10/2002, a taxa de câmbio equivalia a 8,38 reais de hoje por 1,32 dólares de hoje — ou seja, R$ 6,37 por dólar considerando os valores de hoje dessas moedas.

O gráfico desse post mostra a evolução da taxa de câmbio observada desde que o câmbio começou a flutuar, em 1999. A linha verde (câmbio nominal) considera o valor que o dólar e o real tinham em cada ponto do tempo e é a taxa que estava no jornal naquele dia. A linha azul (câmbio real) atualiza a taxa de câmbio da época de acordo com as inflações do real e do dólar.

Quando consideramos a inflação, percebemos que, em termos reais, o dólar já foi bem mais caro. Sim, nunca chegou a custar R$ 4, mas isso comprava um belo carro em 1990.

Ainda assim, desde o final de 2004, o dólar nunca esteve tão valorizado perante ao real, mesmo considerando a inflação no período. Assim como o Índice Bovespa, o valor em dólar da nossa moeda está no nível mais baixo em mais de 10 anos.

Dados:

– Câmbio: peguei o dia 28 de cada mês (se não era dia útil, peguei logo antes ou depois). Inflação: IPCA para o Brasil e a CPI oficial dos Estado.

Publicado na Folha de São Paulo

Professor de economia da EESP-FGV, Bernardo Guimarães é autor do recém-lançado “A Riqueza da Nação no Século 21”.

Formado em Engenharia de Produção pela USP, fez mestrado em Economia pela Universidade de São Paulo e doutorado em Economia pela Yale University. Foi professor na London School of Economics.

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