A quem interessa o capitalismo selvagem?

Não é assunto novo a discussão sobre o papel da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo no financiamento do golpe de 1964 e na sustentação da ditadura. Existe farto material em livros, blogs, nos documentos das Comissões da Verdade e, até mesmo, em reportagens publicadas nos “jornalões”.

Quem tiver interesse, por favor, pesquise.

O que eu quero enfatizar, neste artigo, é a comunicação esperta da FIESP com a qual ela tenta fazer o público acreditar que os legítimos interesses de toda a sociedade  são iguais aos interesses – nem sempre explícitos e legítimos – da FIESP. Não são.

Ocorre com a FIESP o mesmo engodo que ocorre com os grandes grupos da mídia e diversos políticos: muitas vezes seus interesses particulares são divergentes dos interesses de toda sociedade.

Ocorreu no golpe de 1964 e na sustentação da ditadura que se seguiu ao golpe, como ocorre hoje. Estes grupos proprietários de grande soma de recursos – obtidos legitimamente, em determinadas situações, ou fruto de subvenções, “planejamentos tributários” ou, até mesmo, pura sonegação – financiam campanhas eleitorais, dominam os meios de comunicação e moldam a opinião  pública aos seus interesses.

A linha de comunicação da FIESP sob a presidência de Paulo Skaf – empresário e candidato a governador duplamente mal-sucedido – é falar em nome de toda a sociedade, como se tivéssemos, nós, os eleitores, votado no presidente e demais diretores da FIESP. Ora, se nenhum partido político está apto a falar em nome de toda a sociedade, baseado em qual mandato pode a FIESP ou a grande mídia empresarial falar em nome todos. Quem os nomeou porta-vozes dos nossos sonhos, angústias e interesses?.

Eles estão do lado de lá, correndo atrás de produtividade, arrocho nos salários, isenções tributárias e lucros sem impostos e nós, do lado de cá, lutando pela felicidade, a nossa e a do próximo. Os interesses, só em determinadas situações, muito específicas, são comuns. Mas, repito, isto não dá a estes grupos de lobby – e é exatamente isto o que a CNI, FIESP e FIRJAN são: meros grupos de lobby – o direito de falar em nosso nome.

Conheci a CNI por dentro e posso testemunhar, na ocasião, sua ineficiência na aplicação dos recursos que recebe. O mesmo ocorria com outras entidades que recebem nossos recursos públicos – FIESP, FIRJAN e o sistema S. Tenho notícias, embora não possa testemunhar, que estas entidades não são os melhores exemplos de eficiência e que, portanto, não têm credibilidade para fornecer receitas de eficiência para ninguém.

Minha avaliação baseia-se em experiência de atuação profissional em grandes grupos empresariais – Ambev, Vale -, na própria CNI e em órgãos da Administração Pública Direta Municipal (Secretaria da Fazenda) e Federal (IPEA – Coordenação de Administração).

Espalhar patos infláveis no canteiro central da Esplanada dos Ministérios como fez a FIESP pode ser jocoso, mas não ajuda no desenvolvimento do país, nem contribui para um debate sério e profundo sobre a carga tributária. Não são somente os interesses exclusivos dos empresários que contam. Há que ser levada em conta a situação da grande maioria da população do Brasil, que é assalariada e que produz, com sua mão de obra e seus conhecimentos, a riqueza do país. Não basta, portanto, cortar os gastos sociais que amparam os que mais necessitam, em nome do mantra neoliberal.

Nas entrevistas à Rede Globo, com repercussão nos  jornalões, o Sr. Paulo Skaf, presidente da FIESP, declarou:

“A sociedade está cansada de pagar o pato”. Esta frase mais enconde do que mostra. Deveria ser reescrita para apresentar o seu verdadeiro sentido, que seria o seguinte:

Nós, da elite empresarial, não queremos que o Congresso analise e aprove um projeto de aumento de tributos, especialmente de um tributo que não pode ser sonegado, como é o caso da nova CPMF”.

Outra declaração deste mesmo senhor merece igual reparo:

“O governo tem um tamanho maior que deveria ter, gasta mais e mal, não tem eficiência, cheio de burocracia, engessamentos, não presta um bom serviço público e mesmo arrecadando falta dinheiro”. Ora, mesmo que sejam verdadeiras as palavras do Sr. Skaf, trata-se de alguém pregando para os outros o que não pratica em casa. Trata-se do roto falando do esfarrapado. Substitua no texto a palavra “governo” pela palavra “FIESP” e o texto continuará fazendo todo o sentido e será, também, verdadeiro.

Um país não é desenvolvido somente pela qualidade dos seus governos. Um país desenvolvido depende, também, talvez em maior proporção, da qualidade e compromisso com a responsabilidade social de seus empresários.

Com empresários retrógrados e ancorados no passado é possível constuir um capitalismo selvagem, mas torna-se impossível contribuir para a construção de uma nação próspera, desenvolvida, livre e justa.

Simples assim.

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