Mídia agrícola: planta notícias para colher crises

Cavacos ou ossos do ofício é uma expressão que alude a situações difíceis ou desagradáveis pela qual temos que passar ao executar nosso trabalho. O acompanhamento diário da mídia “agrícola” – aquela que vive de plantar notícias e cultivar crises – é um destes cavacos. Como leitor, ouvinte e telespectador assíduo dos meios de comunicação de massa observo a clara segmentação praticada:

Para os “Homer Simpsons”, Jornal Nacional, jornal O Globo, CBN; para os empresários e agregados ao mundo econômico-financeiro, jornal Valor Econômico. Para os dotados de inteligência abaixo da média, notícias e informações simplistas, superficiais e maniqueístas, para o pessoal do mundo da economia e finanças, informações com um viés claro, mas com articulistas do mundo acadêmico e empresarial, permitindo-se debate de ideias e posicionamentos menos alinhados com a linha editorial dominante.

Para aqueles, as Miriams Leitões, os Sardenbergs, os Jabores, os Constatinos e outros menos votados, da vida. Para o pesoal da comunidade de negócios, alguns artigos e entrevistas interessantes, vez em quando.

Esta longa introdução serve para registrar as posições de dois economistas, da escola de pensamento dominante, entrevistados pelo Valor Econômico. Você nunca vai ouvir, ler ou ver estas opiniões repetidas e “marteladas” diariamente na mídia “agrícola”. Não lhes interessa divulgar que existem opiniões divergentes do mantra “golpista” e da ideologia neoliberal simplista modelo três neurônios: 1) redução dos gastos públicos/redução do tamanho do Estado/redução da carga tributária, 2) redução da inflação com taxa de juros e 3) rendição incondicional ao deus-mercado.

Não há hoje opção à recriação da CPMF”.

Ilan Goldfajn – economista-chefe do Itaú Unibanco.

O quadro fiscal é grave e exige discernimento. O governo vem sendo acusado de repetir as chamadas “pedaladas fiscais” em 2015 – ao deixar de pagar parte da conta subsídios -, mas o fato é que não há como pagar o estoque de subsídios em um período curto”.

“Exigir que o governo resolva esse problema do passado rapidamente não dá. Tem que sentar como adulto e colocar no papel como vai ser devolvido”.

Mansueto de Almeida – eeconomista do IPEA, assessor econômico da campanha de Aécio Neves.

Decisão do Supremo barra arranjo na Câmara

Notícia do dia: Decisão do STF suspende o rito estabelecido por Cunha para processo de impeachment da Presidente da República na Câmara.

Foram , na verdade, duas decisões em resposta a petições separadas. Uma, do ministro Teori Zavaski e, outra, da ministra Rosa Weber, em petições de mandados de segurança dos deputados Wadih Damous (PT/RJ) e Rubens Pereira e Silva Junior (PB do B/MA).

Todas as decisões em mandados de segurança, em se tratando de decisão liminar, de natureza cautelar, são, por definição, provisórias. Neste momento, não se está definindo o mérito da ação que será discutido mais tarde, no plenário do STF, se for o caso.

O que é importante na decisão dos dois ministros do Supremo é o reconhecimento de que este tema não deve ser objeto de decisão exclusiva do Congresso atropelando a Constituição pois, como afirmaram nas suas decisões, há dúvidas sobre a legalidade das regras adotadas e tendo em vista a magnitude institucional, por se tratar de processo contra a presidente da República, deve ser suspenso.

Assim, a meu ver, são, sim, decisões que atrapalham os planos golpistas urdidos  em conluio entre o presidente da Câmara e os líderes do golpe, com representantes em todos os partidos de oposição e, especialmente, no PSDB, DEM, Solidariedade, PPS e parte do PMDB comandado pelo presidente da Câmara.

O arranjo, o conluio, ou que nome se queira ao golpe para o golpe, seria uma espécie de tramoia para contornar a necessidade de dois terços dos votos dos deputados (342 votos) para abertura do processo de impeachment. Como a oposição sabe que não tem esta quantidade de votos, arquitetou um plano diabólico: o presidente da Câmara recusaria todos os pedidos de impeachment e algum deputado recorreria desta decisão. A decisão final seria levada ao plenário da Câmara onde necessitaria de maioria simples, somente, para aprovar o requerimento de abertura do processo de impeachment.

É óbvio, é cristalino, de fácil entendimento, que as decisões do Supremo  atrapalham o indecente plano diabólico do presidente da Câmara e seus associados da oposição, mancomunados no mesmo ideal de golpear a Constituição e afastar a presidente eleita.

Tanto é assim, que os senadores da oposição mais diretamente envolvidos com a maracutaia golpista estavam transtornados na sessão de hoje no Senado, “cuspindo marimbondos”.

Como foi observado em parágrafo anterior, mandados de segurança são decisões preliminares. De acordo com a legislação brasileira, conceder-se-á mandado  de segurança para proteger direito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, sempre que, ilegalmente ou com abuso de poder, qualquer pessoa física ou jurídica sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-lo por parte de autoridade, seja de que categoria for e sejam quais forem as funções que exerça.

Para que sejam concedidos os mandados de segurança têm que estar presentes, entre outros requisitos, o “periculum in mora” (perigo da demora) – por isso as decisões sobre mandados têm que ser rápidas. Não adiantaria um mandado de segurança depois que o Congresso tivesse tomado a decisão de impedir a presidente da República a partir de um rito nitidamente ilegal – e o “fumus boni iuris” (fumaça/indício de bom direito) que, portanto, por ser um direito, deve ser protegido.

Reveladora foi a reação do site G1, da reacionária Globo que, procurando menosprezar as decisões, destacou que estás são provisórias – grande novidade, todas as decisões em mandados de segurança o são – e que os pedidos de mandados foram feitos por parlamentares governistas. Vale a pena avisá-los que se trata de proteção à direito líquido e certo e cujo respeito é, portanto, fundamental nas democracias dignas deste nome.

Assim, as decisões deveriam ter sido objeto de comemoração e comprovação de fortalecimento da democracia, a merecer editorial nos grandes jornais “democratas” do país. E, não, um simples assunto de mesquinhez e esperteza política.

Editorial elogioso à decisão do Supremo. Esqueça. Não foi o que ocorreu. Além desta matéria no G1, os jornais da Globo apresentaram teor semelhante: indisfarçável decepção.

Mais curiosa ainda é a opinião de Cristiana Lobo, comentarista da Globo News – uma espécie de Sardenberg do comentário político. Segundo a brilhante comentarista, “quem ganhou mesmo com as decisões do Supremo foi Eduardo Cunha. O poder está com ele. Para o governo foi uma vitória de Pirro, com tempo para se esgotar”.

Entenderam o raciocínio torto?

A expressão vitória de Pirro é normalmente usada para expressar uma conquista cujo esforço tenha sido penoso demais e, assim, não compensaria.

Continuando a tortura das palavras praticada pela brilhante comentarista: “só quando Cunha tomar sua decisão vamos ver quem ganhou mesmo: se foi o governo ou se foi ele. Nesse instante quem ganhou foi ele”.

E estes comentaristas ainda são regiamente remunerados … Será que eles têm chefe? São avaliados? E diretores, existem? As decisões são tomadas na “cadeia de comando”, como foram as decisões do exército norte-americano de bombardear o hospital dos Médicos Sem Fronteiras em Kunduz. Ou não tem comando?

Elite Reacionária: Reage Contra a História

Blog Cidadania & Cultura

mulher-esnobe-1LINCOLN SECCO, 46 anos, é professor livre-docente de história na USP e autor de “História do PT” (Ateliê Editorial). Publicou (FSP, 04/10/15) boa análise sobre a conjuntura política brasileira. Compartilho-a abaixo.

“Desde que os escândalos de 2005 jogaram o governo Lula no canto do ringue, cresceu infrene a mobilização dos setores médios contra ele. Mas, apesar do desgosto com a aproximação dos mais pobres aos seus espaços de sociabilidade exclusiva, protestos como o “Cansei” se esvaziaram rapidamente.

Hoje, entretanto, é nítido que o portão do zoológico se abriu, e a subcultura da extrema direita levou a agressões de todo tipo. O líder do MST não pode ir ao aeroporto, e mesmo policiais militares se sentem à vontade para intimidar professores de uma escola de Sorocaba por discutirem publicamente a obra “Vigiar e Punir”, de Foucault. Há ainda os que conseguiram associar a política de mobilidade urbana da…

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A quem interessa o capitalismo selvagem?

Não é assunto novo a discussão sobre o papel da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo no financiamento do golpe de 1964 e na sustentação da ditadura. Existe farto material em livros, blogs, nos documentos das Comissões da Verdade e, até mesmo, em reportagens publicadas nos “jornalões”.

Quem tiver interesse, por favor, pesquise.

O que eu quero enfatizar, neste artigo, é a comunicação esperta da FIESP com a qual ela tenta fazer o público acreditar que os legítimos interesses de toda a sociedade  são iguais aos interesses – nem sempre explícitos e legítimos – da FIESP. Não são.

Ocorre com a FIESP o mesmo engodo que ocorre com os grandes grupos da mídia e diversos políticos: muitas vezes seus interesses particulares são divergentes dos interesses de toda sociedade.

Ocorreu no golpe de 1964 e na sustentação da ditadura que se seguiu ao golpe, como ocorre hoje. Estes grupos proprietários de grande soma de recursos – obtidos legitimamente, em determinadas situações, ou fruto de subvenções, “planejamentos tributários” ou, até mesmo, pura sonegação – financiam campanhas eleitorais, dominam os meios de comunicação e moldam a opinião  pública aos seus interesses.

A linha de comunicação da FIESP sob a presidência de Paulo Skaf – empresário e candidato a governador duplamente mal-sucedido – é falar em nome de toda a sociedade, como se tivéssemos, nós, os eleitores, votado no presidente e demais diretores da FIESP. Ora, se nenhum partido político está apto a falar em nome de toda a sociedade, baseado em qual mandato pode a FIESP ou a grande mídia empresarial falar em nome todos. Quem os nomeou porta-vozes dos nossos sonhos, angústias e interesses?.

Eles estão do lado de lá, correndo atrás de produtividade, arrocho nos salários, isenções tributárias e lucros sem impostos e nós, do lado de cá, lutando pela felicidade, a nossa e a do próximo. Os interesses, só em determinadas situações, muito específicas, são comuns. Mas, repito, isto não dá a estes grupos de lobby – e é exatamente isto o que a CNI, FIESP e FIRJAN são: meros grupos de lobby – o direito de falar em nosso nome.

Conheci a CNI por dentro e posso testemunhar, na ocasião, sua ineficiência na aplicação dos recursos que recebe. O mesmo ocorria com outras entidades que recebem nossos recursos públicos – FIESP, FIRJAN e o sistema S. Tenho notícias, embora não possa testemunhar, que estas entidades não são os melhores exemplos de eficiência e que, portanto, não têm credibilidade para fornecer receitas de eficiência para ninguém.

Minha avaliação baseia-se em experiência de atuação profissional em grandes grupos empresariais – Ambev, Vale -, na própria CNI e em órgãos da Administração Pública Direta Municipal (Secretaria da Fazenda) e Federal (IPEA – Coordenação de Administração).

Espalhar patos infláveis no canteiro central da Esplanada dos Ministérios como fez a FIESP pode ser jocoso, mas não ajuda no desenvolvimento do país, nem contribui para um debate sério e profundo sobre a carga tributária. Não são somente os interesses exclusivos dos empresários que contam. Há que ser levada em conta a situação da grande maioria da população do Brasil, que é assalariada e que produz, com sua mão de obra e seus conhecimentos, a riqueza do país. Não basta, portanto, cortar os gastos sociais que amparam os que mais necessitam, em nome do mantra neoliberal.

Nas entrevistas à Rede Globo, com repercussão nos  jornalões, o Sr. Paulo Skaf, presidente da FIESP, declarou:

“A sociedade está cansada de pagar o pato”. Esta frase mais enconde do que mostra. Deveria ser reescrita para apresentar o seu verdadeiro sentido, que seria o seguinte:

Nós, da elite empresarial, não queremos que o Congresso analise e aprove um projeto de aumento de tributos, especialmente de um tributo que não pode ser sonegado, como é o caso da nova CPMF”.

Outra declaração deste mesmo senhor merece igual reparo:

“O governo tem um tamanho maior que deveria ter, gasta mais e mal, não tem eficiência, cheio de burocracia, engessamentos, não presta um bom serviço público e mesmo arrecadando falta dinheiro”. Ora, mesmo que sejam verdadeiras as palavras do Sr. Skaf, trata-se de alguém pregando para os outros o que não pratica em casa. Trata-se do roto falando do esfarrapado. Substitua no texto a palavra “governo” pela palavra “FIESP” e o texto continuará fazendo todo o sentido e será, também, verdadeiro.

Um país não é desenvolvido somente pela qualidade dos seus governos. Um país desenvolvido depende, também, talvez em maior proporção, da qualidade e compromisso com a responsabilidade social de seus empresários.

Com empresários retrógrados e ancorados no passado é possível constuir um capitalismo selvagem, mas torna-se impossível contribuir para a construção de uma nação próspera, desenvolvida, livre e justa.

Simples assim.

Por um Brasil justo e democrático

Um grupo de entidades listadas abaixo preparou um estudo intitulado “Por um Brasil justo e democrático”, em dois volumes.

A recepção da grande mídia ao estudo sério e competente foi, como sempre, de descaso e de desqualificação.

Em 6 de outubro, Plataforma Política Social publicou uma nota de esclarecimento explicando como foi preparado o estudo. Ora, a grande mídia, manipuladora da opinião pública sabe que o estudo é sério e foi preparado por um grande número de acadêmicos e profissionais com sólida formação acadêmica, no Brasil e no exterior.

Paulo Martins

Leia, abaixo, a nota de esclarecimento e, a seguir, o “link” para acesso aos Volumes I e II, do estudo:
Nota conjunta das entidades que organizaram o documento “Por um Brasil Justo e Democrático”
OUTUBRO 6, 2015
Em respeito aos inúmeros acadêmicos cientistas e intelectuais independentes que aceitaram o convite para participar de forma plural e suprapartidária da elaboração do documento “Um Brasil Justo e Democrático”, vimos expressar nosso estranhamento com a visão deturpada que vem sendo atribuída à sua autoria no âmbito dos meios de comunicação em geral.

A participação da Fundação Perseu Abramo como uma das articuladoras desse esforço coletivo não sustenta a simplificação de se tratar tal documento como partidário, o que ele não é. Essa simplificação presta-se para interditar o debate pela desqualificação dos atores.

A motivação de discutir o modelo de sociedade e oferecer alternativas ao debate plural e democrático de ideias teve como ponto de partida a reflexão acumulada nos últimos anos pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, Rede Desenvolvimentista, Brasil Debate e Plataforma Política Social – Caminhos para o Desenvolvimento, que participaram da organização do documento em conjunto com organizações da sociedade civil como o Le Monde Diplomatique Brasil e o Fórum 21. Muitos dos intelectuais que cooperaram para a elaboração do documento – pertencentes a diversas universidades, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil – contribuíram para a reflexão fomentada por esses núcleos.

Nosso intuito nesta nota é restabelecer a veracidade deste processo e sua relevância na construção de um projeto alternativo para o Brasil.

Brasil Debate
Centro Internacional Celso Furtado de Políticas Para o Desenvolvimento
Fórum 21
Fundação Perseu Abramo
Le Monde Diplomatique Brasil
Plataforma Política Social
Rede Desenvolvimentista

Publicado em Plataforma Política Social
SETEMBRO 28, 2015
Estamos encaminhando a versão em PDF do documento “Por um Brasil Justo e Democrático”, composto por dois volumes: Mudar para sair da crise – Alternativas para o Brasil voltar a crescer (Vol. I); e, O Brasil que queremos – Subsídios para um projeto de desenvolvimento nacional (Vol. II).

A iniciativa é um convite para o debate amplo, plural e suprapartidário com movimentos sociais, sindicatos, partidos políticos, organizações da sociedade civil e personalidades do campo progressista mobilizados pela defesa da democracia, da legalidade, dos direitos sociais e civis e pela mudança dos rumos da política econômica.

CLIQUE AQUI para baixar o PDF do Volume I
CLIQUE AQUI para baixar o PDF do Volume II

Brasil Debate
Centro Internacional Celso Furtado de Políticas Para o Desenvolvimento
Fundação Perseu Abramo
Fórum 21
Le Monde Diplomatique Brasil
Plataforma Política Social
Rede Desenvolvimentista

Velha Matriz Macroeconômica X Nova Matriz Macroeconômica: Quais Resultados São Melhores?

Blog Cidadania & Cultura

Taxa de Inflação - IPCARealinhamento dos Preços RelativosA taxa de inflação se manteve sob controle (abaixo do teto do regime de meta) de 2005 a 2014. Foi o período da Nova Matriz Macroeconômica. Em 2015, quando voltou-se à Velha Matriz Macroeconômica, com choque tarifário (preços administrados) e preços de combustíveis acompanhando a volatilidade especulativa da taxa de câmbio, para alegria dos acionistas (minoritários) especuladores com ações da Petrobras, os idolatras do Livre-Mercado voltam ao surrado argumento da defasagem temporal. Em 2002, os problemas correntes eram devido ao futuro (Primeiro Governo Lula); em 2015, os problemas correntes são devido ao passado (Primeiro Governo Dilma). Haja coerência mental…

Eduardo Campos (Valor, 01/10/15) apresenta o diagnóstico dos economistas neoliberais: “a política monetária brasileira foi excessivamente frouxa durante os anos 2012 e 2013, quando perdurou a experiência da chamada “nova matriz macroeconômica”, e isso teve claras implicações inflacionárias”. A avaliação consta de estudo do professor titular licenciado…

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O Paradoxo e a Insensatez

Por  José Luis Fiori, em Outras Palavras

“Uma vez me perguntaram se o Estado brasileiro é muito grande. Respondi assim: “Eu vou lhe dar o telefone da minha empregada, porque você está perguntando isto para mim, um cara que fez pós-doutorado, trabalha num lugar com ar-condicionado, com vista para o Cristo Redentor.
Eu não dependo em nada do Estado, com exceção de segurança. Nesse condomínio social, eu moro na cobertura. Você tem que perguntar a quem precisa do Estado.”

Luiz G. Schymura, Valor Economico, 07/08/2015

Duas coisas ficaram mais claras nas últimas semanas, com relação à tal da “crise brasileira”. De um lado, o despudor golpista, e de outro, a natureza ultraliberal do seu projeto para o Brasil. Do ponto de vista político, ficou claro que dá absolutamente no mesmo o motivo dos que propõem um impeachment, o fundamental é sua decisão prévia de derrubar uma presidente da República eleita por 54,5 milhões de brasileiros há menos de um ano, o que caracteriza um projeto claramente golpista e antidemocrático e, o que pior, conduzido por lideranças medíocres e de discutível estatura moral.

Talvez, por isto mesmo, nas últimas semanas, a imprensa escalou um grupo expressivo de economistas liberais, para formular as ideias e projetos do que seria o governo nascido do golpe. Sem nenhuma surpresa: quase todos repetem as mesmas fórmulas, com distintas linguagens. Todos consideram que é preciso primeiro resolver a “crise política”, para depois poder resolver a “crise econômica”; e uma vez “resolvida” a crise política, todos propõem a mesma coisa, em síntese: “menos estado e menos política”.

Não interessa muito o detalhamento aqui das suas sugestões técnicas. O que importa é que suas premissas e conclusões são as mesmas que a utopia liberal repete desde o século XVIII, sem jamais alcançá-las ou comprová-las, como é o caso de sua crença na racionalidade utilitária do homo economicus, na superioridade dos “mercados desregulados”, na existência de mercados “competitivos globais”, e na sua fé cega na necessidade e possibilidade de despolitizar e reduzir ao mínimo a intervenção do Estado na vida econômica. É muito difícil para estes ideólogos que sonham com o “limbo”, entender que não existe vida econômica sem política e sem estado. É muito difícil para eles compreender ou aceitar que as duas “crises brasileiras” são duas faces de um conjunto de conflitos e disputas econômicas cruzadas, cuja solução tem que passar inevitavelmente pela política e pelo estado. Não se trata de uma disputa que possa ser resolvida através de uma fórmula técnica de validez universal. Por isto, é uma falácia dizer que existe uma luta e uma incompatibilidade entre a “aritmética econômica” e o “voluntarismo político”. Existem várias “aritméticas econômicas” para explicar um mesmo déficit fiscal, por exemplo, todas só parcialmente verdadeiras. Parece muito difícil para os economistas em geral, e em particular para os economistas liberais, aceitarem que a economia envolve relações sociais de poder, que a economia é também uma estratégia de luta pelo poder do estado, que pode estar mais voltado para o “pessoal da cobertura”, mas também pode ser inclinado na direção dos menos favorecidos pelas alturas.
Agora bem, na conjuntura atual, como entender o encontro e a colaboração destes economistas liberais com os políticos golpistas?

O francês, Pierre Rosanvallon, dá uma pista (1), ao fazer uma anátomo-patologia lógica do liberalismo da “escola fisiocrática” francesa, liderada por François Quesnay. Ela parte da proposta fisiocrático/liberal de redução radical da política à economia, e da transformação de todos os governos em máquinas puramente administrativas e despolitizadas, fiéis à ordem natural dos mercados. E mostra como e por que este projeto de despolitização radical da economia e do estado leva à necessidade implacável de um “tirano” ou “déspota esclarecido” que entenda a natureza nefasta da política e do estado, mantenha-se “neutro”, e promova a supressão despótica da política, criando as condições indispensáveis para a realização da “grande utopia liberal”, dos mercados livres e desregulados. Foi o que Rosanvallon chamou de “paradoxo fisiocrata”, ou seja: a defesa da necessidade de um “tirano liberal” que “adormecesse” as paixões e os interesses políticos e, se possível, os eliminasse.

No século XX, a experiência mais conhecida deste projeto ultraliberal, foi a da ditadura de Augusto Pinochet, no Chile, que foi chamada pelo economista americano, Paul Samuelson, de “fascismo de mercado”. Pinochet foi — por excelência — a figura do “tirano” sonhado pelos fisiocratas: primitivo, quase troglodita, dedicou-se quase inteiramente à eliminação dos seus adversários e de toda a atividade política dissidente, e entregou o governo de fato a um grupo de economistas ultraliberais que puderam fazer o que quiseram durante quase duas décadas. No Brasil não faltam — neste momento — os candidatos com as mesmas características e os economistas sempre rápidos em propor, e dispostos a levar até as últimas consequências, o seu projeto de “redução radical do Estado” e, se for possível, de toda atividade política capaz de perturbar a tranquilidade dos seus modelos matemáticos e dos seus cálculos contábeis. Neste sentido, não está errado dizer que os dois lados deste mesmo projeto são cúmplices e compartem a mesma e gigantesca insensatez, ao supor que seu projeto golpista e ultraliberal não encontrará resistência e, no limite, não provocará uma rebelião ou enfrentamento civil, de grandes proporções, como nunca houve antes no Brasil. Porque não é necessário dizer que tanto os lideres golpistas quanto seus economistas de plantão olham para o mundo como se ele fosse uma “enorme cobertura”, segundo a tipologia sugerida pelo Sr. Luiz Schymura, um raro economista liberal que entende e aceita a natureza contraditória dos mercados e do capitalismo, e a origem democrática do atual déficit publico brasileiro.


[1] P. Rosanvallon, Le liberalisme économique. Histoire de l´idée de marché, Editions Seuil, Paris, 1988

Pecuaristas, grileiros e a PEC 215/2000

A PEC 215/2000, em andamento na Câmara, pretende retirar do poder Executivo, e transferir para o Congresso, o poder de demarcar terras indígenas, de quilombolas e zonas de conservação ambiental.

Este projeto de emenda constitucional representa entregar a chave do galinheiro nas mãos da raposa.

Explico.

Embora se trate de demarcação de novas terras a partir de propostas de demarcação enviadas pela FUNAI – Fundação Nacional do Índio, a medida colocará nas mãos dos pecuaristas e grileiros (*) as decisões sobre as demarcações, tendo em vista o poder de lobby destes grupos no Congresso. É excessivo o número de deputados e senadores eleitos com recursos “doados” por grandes grupos do agro-negócio, pecuaristas e grileiros, representando virtual compra de votos.

A tramitação do projeto se insere neste contexto e as consequências são previsíveis: ratificação tácita das situações de invasão e grilagem de terras indígenas praticadas no passado e o estímulo a novas invasões e grilagens.

O relator do projeto de alteração da Constituição Federal é o tristemente famoso deputado Osmar Serraglio (PMDB – PR). Este deputado já se manifestou favoravelmente em seu parecer, que deverá ser submetido à apreciação da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara Federal.

Atualmente as demarcações são realizadas a partir de estudos realizados pela FUNAI e decretos editados pelo Ministério da Justiça.

Notícias veiculadas pela imprensa informam que cerca de 150 índios e quilombolas passaram a noite de segunda-feira (5/10) em vigília na sala da CCJ da Câmara para protestar contra o projeto. Protestaram também contra mortes violentas de índios em conflitos.

As luzes do plenário foram apagadas e os aparelhos de condicionamento de ar foram desligados. Isto não alterou a disposição dos manifestantes, que mantiveram a ocupação.

Leia abaixo texto de Luîs Indriunas sobre grilagem, publicado em: ambiente.hsw.uol.com.br.

A grilagem de terra é um crime grave praticado ainda em grande escala no interior do Brasil, principalmente na Amazônia. Os grileiros, nome dado a esses criminosos, são alguns dos principais responsáveis pelo desmatamento das florestas tropicais.
A grilagem nada mais é que a apropriação indevida de terras públicas, através da falsificação de documentos. Várias são os interesses para a existência dessa prática: especulação imobiliária, venda de recursos naturais do local (principalmente madeira), lavagem de dinheiro e até captação de recursos financeiros.
Por que grilagem?
O termo grilagem vem de um antigo macete dos falsificadores. Para dar aspecto de velho aos documentos criados por eles, os falsários deixavam os papéis em gavetas com insetos como o grilo. Com a ação dos animais, os papéis ganhavam a coloração amarelada com aspecto de gastos.
Um estudo feito pelo governo federal em 1999 para a Comissão Parlamentar de Inquérito da Grilagem apontava 100 milhões de hectares de terras griladas, a maioria no Pará. A princípio, estes números podem ter diminuído um pouco já que grandes fraudes foram anuladas, mas um levantamento de 2006, feito por institutos de pesquisas e organizações não-governamentais, mostraram que 30 milhões de hectares ainda eram grilados no Pará, o que equivale a 23% do território paraense. A razão para Estados como Amazonas e Pará serem os grandes alvos dos grileiros é o grande número de terras públicas. Só no Pará, as terras pertencentes aos governos federal e estadual representam cerca de 70% da área, entre assentamentos, reservas indígenas, unidades de conservação e áreas militares.

Foto – créditos: mdig.com.br

Acordo Comercial Trans-Pacífico

Após quase oito anos de negociações doze países da região do Pacífico – EUA, Canadá, México, Japão, Malásia, Cingapura, Austrália, Vietnam, Brunei, Chile e Peru- chegaram a um acordo chamado TPP – Trans-Pacific Partnership (Parceria Trans-Pacífico), que visa a redução de barreiras ao comércio de bens e serviços e fixação de regras comerciais para as relações comerciais entre as nações participantes.

Executivos do governo norte-americano entendem que o acordo permitirá aos seus parceiros construirem uma barreira contra a crescente influência econômica da China na região e permitir que EUA e seus aliados possam definir os padrões de comércio na região do Pacífico, diminuindo a influência da China.

O longo texto do acordo só estará disponível em, provavelmente, um mês. Entretanto, sindicalistas, ambientalistas e ativistas liberais argumentam que o acordo beneficia somente os grandes grupos empresariais multinacionais em prejuízo dos trabalhadores e do meio ambiente.

O acordo deverá ser tema da campanha presidencial norte-americana e deverá sofrer forte campanha contrária do lobby da indústria automobilística dos EUA. A necessária ratificação do acordo pelo Congresso norte-americano não deverá ser tranquila.

Joseph Stiglitz e Adam Hersh escreveram um artigo para o Project Syndicate intitulado “The Trans-Pacific Free-Trade Charade”. Neste artigo eles afirmam que o maior acordo regional sobre comércio e investimentos já negociado não é o que parece. Segundo os autores, este é um acordo para administrar as relações de comércio e investimento dos seus membros – e fazer isto em benefício dos mais poderosos lobbies de negócios de cada país participante.

Não se engane, dizem os autores: é evidente, a partir dos principais assuntos pendentes, sobre os quais os negociadores continuavam discutindo três dias atrás, que o TPP não é sobre comércio “livre”. A Nova Zelândia, por exemplo, ameaçou não entrar no acordo por causa da posição do Canadá e dos EUA em relação aos produtos agropecuários. A Austrália não estava satisfeita sobre como os EUA e o México transacionam açúcar. Os EUA não aprovavam a forma como o Japão administra o comércio de arroz.

Segundo os autores a agenda do TPP é, na verdade, contra o livre comércio.

Stiglitz e Hersh comentam, a partir de versões do texto em negociação que vazaram, que o acordo aumentaria os direitos de propriedade intelectual dos grandes grupos da indústria farmacêutica, por exemplo. Em suas opiniões, as provisões do acordo restringiriam a competição aberta e aumentariam os preços dos medicamentos para os consumidores nos EUA e ao redor do mundo.

O acordo administraria o comércio de produtos farmacêuticos por meio de uma série regras que permitiria a manutenção dos seus monopólios sobre as patentes de remédios infinitamente, impedindo que genéricos mais baratos possam ser produzidos e bloqueando o acesso ao mercado de competidores de “biosimilares”.

Igualmente preocupante é a forma dos EUA lidarem com a questão do comércio de produtos da indústria do fumo; os termos do acordo parecem impedir que regras destinadas a reduzir os riscos e problemas de saúde pública causados pelo fumo sejam implementadas em prejuízo dos negócios dos grandes fabricantes de cigarros.

Concluindo: para os autores o acordo trans-Pacífico produziu um acordo de comércio “administrado” e, não, de livre comércio.

Agrotóxicos: Conheça o ‘tempero’ mais usado por brasileiros

Em todas as regiões do país são encontradas amostras de resíduos tóxicos em concentrações acima do recomendável, seja nas plantações, no solo, nas águas ou nos peixes.

Por Daniel Boa Nova
Do Hypeness / Página do MST

Imagine que um amigo convida você para almoçar na casa dele. Na mais saudável das intenções, a proposta é um menu leve. Digamos que uma salada de entrada e batatas recheadas no prato principal. Você possivelmente toparia o convite, não? E se ele dissesse que usaria veneno no tempero?

É isso que acontece na casa de uma pessoa qualquer como eu, você e esse amigo fictício. E também nos restaurantes de esquina, buffets por quilo e praças de alimentação. Pode lavar as folhas, deixar a cenoura no vinagre e esfregar cada pepino com bucha. Se na lavoura eles receberam agrotóxicos, ainda estarão contaminados. Quem diz isso não é o Hypeness, é a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

O Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Se todos os defensivos agrícolas utilizados por ano em nosso país fossem divididos pela população, daria um galão de 5,2 litros para cada brasileiro. Vai um aí na janta?

Foi no pós-2a Guerra que o uso de agrotóxicos passou a ser disseminado, com o crescimento exponencial da agricultura industrial. A chamada Revolução Verde levou uma série de inovações ao campo para aumentar a produção agrícola. Entre elas, a substituição da mão-de-obra humana pela mecanizada, o advento de sementes geneticamente modificadas e o uso de adubos químicos e venenos para pragas. O objetivo declarado até poderia ser nobre: combater a fome. Porém, cinquenta anos depois, além dos impactos sociais causados pelo êxodo rural, as consequências para o meio ambiente e para a saúde das pessoas evidenciam que esse modo de produzir pautado apenas na quantidade e não na qualidade está ultrapassado.

No ano passado, a Embrapa deixou disponível na internet um estudo realizado por seus pesquisadores entre os anos de 1992 e 2011. O objetivo do levantamento era traçar um panorama sobre a contaminação ambiental causada pelos agrotóxicos no Brasil. E o cenário é assustador: em todas as regiões do país são encontradas amostras de resíduos tóxicos em concentrações acima do recomendável, seja nas plantações, no solo, nas águas ou nos peixes. Isso porque não foram avaliados os impactos sobre a carne, ovos e leite, que indiretamente também trazem agrotóxicos para a mesa.

Muito se fala sobre como o Brasil disputa a liderança no mercado mundial de soja. O que não se fala tanto é sobre como essa cultura lidera o uso de defensivos agrícolas no país. Um bastante aplicado para limpar terrenos antes do cultivo é o herbicida 2,4-D. Trata-se de um dos componentes do agente laranja, utilizado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. O herbicida é proibido em países como a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, em vários estados do Canadá e os Estados Unidos vêm discutindo o seu banimento também. Aqui é liberado. E ele é apenas um.

Em nosso país temos mais de 400 tipos de agrotóxicos registrados. Entre eles, pelo menos 14 venenos proibidos no resto do mundo acabam sendo desovados por aqui e têm permissão para o comércio. Na União Europeia e Estados Unidos, são considerados lixos tóxicos. No Brasil manuseamos, respiramos, bebemos e comemos. Alguns a gente até proíbe, mas a venda e o uso ilegal correm soltos pelo campo frente a uma fiscalização falha. E, das substâncias permitidas, em inúmeros casos são aplicadas quantidades acima dos limites aceitáveis. Até porque há um mito entre produtores rurais de que, quanto maiores as doses, mais tempo a lavoura fica livre de pragas. Mas parece que esse controle se tornou ele próprio a maior praga. Porque os impactos na saúde pública são evidentes.

A cada 90 minutos, um brasileiro é envenenado em decorrência do uso de agrotóxicos no país. E isso são apenas os casos notificados ao sistema de saúde. É uma epidemia de intoxicações agudas, com direito a dores de cabeça, vômitos, infecção urinária, alergias. O uso de agrotóxicos é uma prática tão deliberada, inconsequente e sem controle que chegamos ao absurdo de episódios como esse, onde um avião simplesmente despejou sua carga do inseticida engeo pleno em cima de uma escola, hospitalizando funcionários e dezenas de crianças. Aliás, a prática da pulverização aérea foi proibida pela União Europeia lá em 2009, dada sua baixa eficiência e riscos ambientais. Por aqui, apesar da pressão dos movimentos sociais, a discussão sobre proibição da pulverização aérea está nesse nível aqui.

Ainda sobre os impactos que o uso massivo de agrotóxicos têm sobre a saúde, eles vão além do mal estar. Especialistas apontam uma relação direta entre o acúmulo de agrotóxicos no organismo e o desenvolvimento de câncer de mama, fígado e testículos. Uma contradição quando se pensa que o consumo de frutas e legumes é exatamente uma das atividades saudáveis recomendadas para ajudar a prevenir o surgimento de tumores malignos. Há pouco tempo, uma pesquisa realizada no município de Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso, mostrou que havia resíduos de agrotóxicos no leite materno de todas as mulheres examinadas. Todas, 100%. A mesma cidade é apontada como ícone do desenvolvimento trazido pelo agronegócio, como mostrou essa reportagem que foi à TV.

Agora, nem eu e nem você somos obrigados a ingerir produtos contaminados por agrotóxicos. A alternativa está bem ao nosso alcance: optar pelo consumo de alimentos provenientes da agricultura orgânica. Além de serem isentos de adubos químicos e venenos para pragas, eles também não contêm remédios veterinários, hormônios e organismos geneticamente modificados. Quando se trata de alimentos orgânicos processados, nada de corantes, aromatizantes e conservantes sintéticos. É um modo de produzir que respeita os ciclos da natureza e estabelece formatos de trabalho colaborativos, valorizando a qualidade de vida de quem produz, de quem vende e de todos que consumimos.

Muito se diz sobre os alimentos orgânicos serem mais caros do que os demais. É uma meia-verdade. Nos supermercados e mesmo nos sacolões, talvez possa ser. Até porque ainda não temos por aqui um varejista como o Whole Foods Market, que desde os anos 80 vende somente comida orgânica. A rede começou com apenas 19 pessoas trabalhando, e hoje já são mais de 50 mil colaboradores em suas lojas pelos Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Com seu capital aberto, a empresa é uma prova de que a agricultura orgânica não é inimiga do business. Um exemplo de como é possível vender com escala e obter lucros sem ser nocivo ao meio ambiente e às pessoas.

Olhando para a nossa realidade, a maneira mais fácil de encontrar orgânicos a preços acessíveis é comprando direto do produtor. E com isso não estamos dizendo que é preciso fazer uma viagem à roça cada vez que a geladeira esvaziar. Hoje já são mais de 300 feiras orgânicas espalhadas pelo Brasil, onde é possível encontrar de tudo a preços justos e sem riscos à saúde. Fizemos até uma matéria mostrando algumas. Uma simples busca por “orgânicos” no Google ou Facebook também traz vários resultados de produtores vendendo os mais diversos insumos, alguns provavelmente localizados perto de você.

Outras iniciativas que devem ser apoiadas e multiplicadas são as dos hortões urbanos. Que, além de gerarem alimentos saudáveis, também contribuem para o cinza das cidades se tornar mais verde. Recentemente visitamos um incrível no meio de São Paulo. Aliás, também podemos cultivar alimentos em nossas próprias residências. Dentro de casa ninguém vai jogar agrotóxico, concorda? Hortaliças e temperos são alguns exemplos do que pode ser plantado facilmente em pequenos vasos para suprir a demanda doméstica. Quem sabe fazendo isso você não toma gosto pela coisa e chega ao nível dessa família norte-americana, que a 15 minutos do centro de Los Angeles produz toneladas de alimentos orgânicos no próprio quintal.

O cultivo de orgânicos dentro de cooperativas familiares poderia suprir a todos com alimentos de qualidade a preços justos. Seria uma questão de organizar a produção e o escoamento de forma mais descentralizada. Tanto que a própria ONU incentiva o desenvolvimento dessas práticas. Mas, no Brasil, de um lado estão os grandes interesses econômicos do agronegócio e, do outro, as questões ambientais e de saúde pública. Evidências científicas alarmantes nem sempre são decisivas frente à contribuição que certos grupos dão ao nosso PIB. Apesar de algumas iniciativas localizadas do poder público serem muito bem-vindas, esperar que o governo solucione todo esse embate pode ser esperar tempo demais.
Claro que para haver mudanças é importante atuar politicamente em relação ao tema, cobrando dos 3 poderes as medidas que queremos, fazendo petições, organizando protestos e não votando nos representantes que vão contra nossos valores. Entretanto, de forma bem pragmática, podemos no dia a dia tomar decisões que pressionem os grupos econômicos a mudarem de rota. Quanto mais gente consumindo orgânicos, mais mau negócio o uso de agrotóxicos se torna. Só que para isso é preciso uma postura mais pró-ativa e crítica na hora de ir às compras. Não basta chegar no local mais próximo e pegar o item mais barato possível, achando que com uma lavadinha vai ficar tudo bem. Temos que ser sinceros com nós mesmos para ter uma vida com mais qualidade.

Agrotóxicos não são uma necessidade inevitável. É possível levar comida para cada mesa brasileira sem agredir o meio ambiente e nem causar danos à saúde dos trabalhadores rurais e de nós mesmos. Ar puro, águas limpas, terras férteis e alimentos de qualidade. A gente tem direito a tudo isso.

E esse é um dos motivos pelos quais apostamos na ideia de que o futuro é mesmo um retorno ao campo. Não da forma como nossas gerações passadas fizeram. O futuro é poder unir tecnologia com natureza e usufruir dos dois com equilíbrio. Muita gente já decidiu largar a cidade em busca de mais qualidade de vida, mas se esse não for um sonho seu, não é preciso ser tão radical. Basta se reaproximar da natureza reativando hábitos sábios que nossos antepassados deixaram: plantar, para comer bem.

Uma varanda num apartamento já é espaço suficiente para produzir alguns alimentos básicos para uma família e evitar servir veneno como acompanhamento das refeições para as pessoas que ama. Vendo desse ponto de vista, qual o trabalho de regar alguns vazinhos todos os dias?

Publicado no Portal EcoDebate, 07/04/2015

Afeganistão: MSF exige explicações após ataques aéreos mortais atingirem hospital em Kunduz

03/10/2015

Doze profissionais e ao menos sete pacientes, incluindo três crianças, foram mortos; 37 pessoas foram feridas, incluindo 19 profissionais

Afeganistão
A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) condena fortemente o terrível bombardeio aéreo de seu hospital em Kunduz, no Afeganistão. Doze profissionais e ao menos sete pacientes, incluindo três crianças, foram mortos; 37 pessoas foram feridas, incluindo 19 profissionais. Esse ataque constitui uma violação grave do direito internacional humanitário.

No momento, todos os indícios apontam para o fato de que o bombardeio foi realizado por forças de coalizão internacional. MSF exige uma explicação completa e transparente da coalizão em relação às suas atividades de bombardeio aéreo em Kunduz na madrugada deste sábado, 3 de outubro. MSF pede também uma investigação independente sobre o ataque para garantir a máxima transparência e responsabilização.

“Esse ataque é abominável e uma grave violação do direito internacional humanitário”, disse Meinie Nicolai, presidente de MSF na Bélgica. “Nós exigimos total transparência por parte das forças de coalizão. Não podemos aceitar que essa terrível perda de vidas seja simplesmente descartada como ‘danos colaterais’.”

Das 2h08 até as 3h15 do horário local de hoje, o hospital de trauma de MSF em Kunduz foi atingido por uma série de bombardeios aéreos em intervalos aproximados de 15 minutos. O prédio central do hospital, comportando a unidade de terapia intensiva, as salas de emergência e a ala de fisioterapia, foi repetidamente atingido de modo muito preciso durante cada ataque aéreo, enquanto outros prédios ao redor da instalação ficaram, praticamente, intocados.

“As bombas caíram e, então, nós ouvimos o avião sobrevoando em volta”, disse Heman Nagarathnam, coordenadora-geral dos programas de MSF no norte do Afeganistão. “Houve uma pausa e depois mais bombas caíram. Isso aconteceu repetidas vezes. Quando eu consegui sair do escritório, o principal prédio do hospital estava envolto em chamas. As pessoas que tinham condições de se mover correram rapidamente para os dois bunkers do prédio em busca de segurança. Mas os pacientes que eram incapazes de escapar queimaram até a morte, enquanto estavam deitados em seus leitos.”

O bombardeio foi realizado mesmo após MSF ter enviado, repetidas vezes nos últimos meses, as coordenadas geográficas de seu hospital de trauma para os militares afegãos e da coalizão e oficiais civis. A comunicação mais recente foi feita na terça-feira, dia 29 de setembro, a fim de evitar que o hospital fosse atingido. Como uma prática rotineira de MSF em zonas de conflito, a organização comunicou a localização exata da instalação a todas as partes em conflito.

Após os ataques, a equipe de MSF tentou desesperadamente salvar a vida de seus colegas e pacientes feridos, improvisando um centro cirúrgico em uma sala não danificada. Alguns dos pacientes mais gravemente feridos foram transferidos para um hospital em Puli Khumri, a duas horas de carro.

“Além de resultar na morte de nossos colegas e pacientes, esse ataque cortou o acesso da população de Kunduz a cuidados de trauma urgentes, em uma época em que esses serviços são extremamente necessários”, disse Meinie Nicolai. “Mais uma vez, pedimos a todas as partes beligerantes que respeitem civis, instalações de saúde e profissionais médicos, de acordo com o direito internacional humanitário.”

Desde que confrontos eclodiram na segunda-feira, 28 de setembro, MSF tratou 394 feridos. No momento do ataque aéreo, havia 105 pacientes e seus acompanhantes no hospital, junto a mais de 80 profissionais nacionais e internacionais de MSF. A organização expressa suas sinceras condolências às famílias e aos amigos de seus profissionais e pacientes que perderam suas vidas tragicamente neste ataque.

O hospital de MSF é a única instalação do tipo em toda a região nordeste do Afeganistão. Há quatro anos, o hospital tem oferecido cuidados de trauma vitais. Em 2014, mais de 22 mil pacientes receberam cuidados na instalação e mais de 5.900 cirurgias foram realizadas ali. MSF trata todas as pessoas de acordo com suas necessidades médicas e não faz distinção com base em etnia, religião ou filiação política.

MSF é uma organização médico-humanitária internacional e começou a trabalhar no Afeganistão em 1980. MSF inaugurou o centro de trauma de Kunduz em agosto de 2011 para oferecer cuidados médicos e cirúrgicos gratuitos e de qualidade a vítimas de traumas, como acidentes de trânsito, assim como àquelas com ferimentos derivados do conflito, como estilhaços de bombas e ferimentos a bala. No Afeganistão, MSF apoia o Ministério da Saúde no hospital de Ahmad Sha Baba, no leste de Cabul, na maternidade de Dasht-e-Barchi, no oeste de Cabul, e no hospital de Boost, em Lashkar Gah, na província de Helmand. Em Khost, no leste do país, MSF opera um hospital-maternidade. A organização conta apenas com financiamento privado para a realização de seu trabalho no Afeganistão e não aceita recursos de nenhum governo.

Afeganistão: profissionais de MSF são mortos e hospital da organização é parcialmente destruído em Kunduz

Afeganistão

É com profunda tristeza que a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) confirma, até o momento, a morte de nove de seus profissionais e sete pacientes da unidade de terapia intensiva durante o bombardeio, iniciado às 2h10 deste sábado, 3 de outubro, ao hospital de MSF em Kunduz, no Afeganistão. Segundo as últimas informações, 37 pessoas foram gravemente feridas durante o bombardeio; dessas, 19 são profissionais de MSF. Alguns dos pacientes mais gravemente feridos estão sendo transferidos para estabilização em um hospital em Puli Khumri, que fica a duas horas de carro de Kunduz. Há muitos pacientes e profissionais que permanecem desaparecidos. Os números continuam aumentando na medida em que apuramos as consequências desse bombardeio terrível.
MSF condena fortemente o ato contra seu hospital em Kunduz que estava lotado de profissionais e de pacientes. MSF esclarece que todas as partes em conflito, incluindo em Cabul e em Washington, foram claramente informadas sobre a localização precisa (coordenadas geográficas) das instalações da organização – hospital, dormitório dos profissionais, escritório e uma unidade de estabilização ambulatorial em Chardara (no noroeste de Kunduz). Como MSF faz em todos os contextos de conflitos armados, essas localizações precisas foram comunicadas a todas as partes beligerantes em diversas ocasiões ao longo dos últimos meses, mais recentemente em 29 de setembro.
O bombardeio durou mais de 30 minutos após oficiais militares americanos e afegãos em Cabul e em Washington serem primeiramente informados sobre o ataque. MSF busca urgentemente esclarecer exatamente o que houve e como esse evento terrível pode ter acontecido.
“Estamos profundamente chocados com o ataque, a morte de nossos profissionais e pacientes e as duras consequências que ele infligiu sobre os cuidados de saúde em Kunduz”, diz Bart Janssens, diretor de operações de MSF. “Ainda não temos os dados finais acerca das mortes, mas nossa equipe médica está prestando primeiros-socorros e tratando os pacientes e os profissionais de MSF feridos, além de buscar os desaparecidos. Nós fazemos um apelo a todas as partes em conflito que respeitem a segurança dos profissionais e das instalações de saúde.”
Desde que confrontos eclodiram na segunda-feira, 28 de setembro, MSF tratou 394 feridos. Quando o ataque aéreo aconteceu, tínhamos 105 pacientes e seus acompanhantes no hospital, e mais de 80 profissionais nacionais e internacionais de MSF presentes.
O hospital de MSF em Kunduz é a única instalação do tipo em toda a região nordeste do Afeganistão, oferecendo cuidados de trauma vitais. Os médicos de MSF tratam todas as pessoas de acordo com suas necessidades médicas e não fazem distinção com base em etnia, religião ou filiação política.
MSF começou a atuar no Afeganistão em 1980. Em Kunduz, assim como no restante do país, o pessoal internacional trabalha junto ao nacional para garantir a melhor qualidade de tratamento. MSF apoia o Ministério da Saúde no hospital de Ahmad Sha Baba, no leste de Cabul, na maternidade de Dasht-e-Barchi, no oeste de Cabul, e no hospital de Boost, em Lashkar Gah, na província de Helmand. Em Khost, no leste do país, MSF opera um hospital-maternidade. A organização conta apenas com financiamento privado para a realização de seu trabalho no Afeganistão e não aceita recursos de nenhum governo.
Informações atualizadas em 03/10/2015, às 11h20
– See more at: http://www.msf.org.br/noticias/afeganistao-nove-profissionais-de-msf-sao-mortos-e-hospital-parcialmente-destruido-em-kunduz#.dpuf

Ataque a hospital do MSF

The Huffigton Post, canal de notícias e agregador de blogs, publicou notícia sobre o ataque ao hospital dos Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão. Leia a notícia:

CABUL, 03 de outubro (Reuters) – Um ataque aéreo atingiu um hospital dirigido pelos Medecins Sans Frontieres na cidade afegã de Kunduz, no sábado, matando várias pessoas. O porta-voz das forças militares dos EUA chamou o incidente de possíveis “danos colaterais” na batalha para expulsar os insurgentes do Taliban.

Pelo menos 19 pessoas morreram no ataque, de acordo com Medecins Sans Frontieres, incluindo 12 funcionários, quatro pacientes adultos e três crianças.

Equipe do MSF telefonou para as autoridades militares da OTAN em Cabul e em Washington após o ataque, porém bombas continuaram a ser lançadas perto do centro médico por quase uma hora, um funcionário da organização humanitária informou.

Pelo menos 37 pessoas ficaram feridas e muitos pacientes e membros da equipe ainda estão desaparecidos, acrescentou.

Os EUA prometeram investigar o incidente.

Sem comentários.

Manipulação Midiática : Reincidência

Em artigo intitulado Carga Negativa, publicado hoje no Jornal O Globo, Paulo Nogueira Batista Jr. afirma estar horrorizado e estarrecido com o que ele chamou de “imensa carga de negatividade na imprensa, nos meios de comunicação e nas conversas”.

Como exemplo ele menciona a matéria de uma página inteira publicada em um grande jornal de São Paulo sobre o filme Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Na matéria, o crítico “entendeu o filme como um panfleto da era Lula” e considera algumas das personagens principais como peças de propaganda governista.

Segundo Paulo Nogueira, “a violenta disputa política em curso no país está contaminando tudo, absolutamente tudo. É o que acontece, de forma nítida, com o noticiário econômico. Não há dúvida de que a situação é muito precária e vai continuar precária por algum tempo. Mas há aspectos positivos que recebem pouca ou nenhuma atenção”.

“Um exemplo: o forte ajustamento das contas externas em 2015. Durante muitos anos, o Brasil acumulou grave problema de sobrevalorização da moeda nacional. A moeda forte prejudicou muito a indústria do país e foi gerando um desequilíbrio crescente e perigoso nas contas externas do país.

Agora, a depreciação do real, combinada com a retração da demanda interna, está produzindo uma correção rápida do desequilíbrio externo, diminuindo nossa vulnerabilidade. E a depreciação cambial vai ajudar a tirar a economia da recessão, estimulando exportações e setores que competem com importações”.

Paulo Nogueira conclui seu artigo comentando o noticiário sobre as contas públicas:

“Sobre as contas públicas, aliás, o que se afirma e escreve envolve frequentemente exageros monumentais. “Caos”, “descalabro”, “tragédia fiscal” são algumas das expressões repetidas incessantemente em artigos, reportagens e entrevistas. O Brasil tem, sim, um problema fiscal, agravado pela crise política. Mas há quem compare o Brasil à Grécia! Quem o faz não tem a mais remota ideia do que foi a calamitosa irresponsabilidade dos governos gregos no período que antecedeu à crise internacional de 2008”.

Paulo Nogueira Batista Jr. é doutor em economia e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (banco dos BRICS), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal.

Paulo Nogueira Batista Jr. explicitou o que estamos, todos os que não se deixam manipular pela grande mídia, pensando: a mídia nacional perdeu a vergonha e a noção de ridículo.

Qual a novidade? A grande mídia é reincidente. Apoiou a ditadura em todos os aspectos e, muitos anos depois, veio a público pedir desculpas pelos seus erros do passado.

Daqui a 20 anos, no fundo do poço de suas audiências ou vendas de jornais e revistas, eles (a grande mídia) vão substituir os Bonners, os Mervais, os Sardenbegs, as Tacanhedes, as Leitões, por outros “inocentes inúteis” que lerão texto do Kamel pedindo desculpas aos seus leitores, telespectadores e clientes pelos erros e manipulações das duas últimas décadas. Será tarde demais.

Poluição e Acidificação dos Oceanos

Impacto da acidificação dos oceanos é observado em fauna microscópica de ambientes recifais.

Experimento no mesocosmo do Coral Vivo simulou as previsões do IPCC para os próximos anos e resultado está publicado na Springer.

Quais serão os efeitos do processo de acidificação dos oceanos no futuro? Uma pesquisa que acaba de ser publicada na revista científica Coral Reefs, da Editora Springer, avaliou como será a elevação dos níveis de acidez sobre a meiofauna do Parque Municipal Marinho do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA). Ela é composta por alta diversidade de animais marinhos, como crustáceos, poliquetas, tardigrádos e moluscos que medem menos de 1 milímetro e ocorrem em abundância associados às algas ou sedimentos. Tem papel importante na cadeia alimentar e apresenta rápida resposta às mudanças no ambiente.

Para simular as previsões de acidificação seguindo os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), os pesquisadores utilizaram o mesocosmo marinho do Coral Vivo – um sistema experimental com dezesseis tanques que recebem continuamente a água de um recife de coral. Foram coletadas 36 amostras de uma comunidade de meiofauna do Recife de Fora, que foram distribuídas nesses tanques e expostas aos tratamentos de acidificação por 15 e 30 dias. Atualmente, o pH dos oceanos está em torno de 8.1, e o experimento reduziu o pH da água do mar em 0.3, 0.6 e 0.9, por meio de injeção de gás carbônico de forma controlada.

Foram contabilizados 20.371 organismos da meiofauna nesse estudo. Como o ciclo de vida deles é curto, os pesquisadores puderam observar também os efeitos da acidificação nos descendentes gerados durante o experimento. Apesar de os indivíduos adultos de algumas espécies de poliquetas e crustáceos não sofrerem fortes impactos, os juvenis tiveram alta mortalidade associada à redução do pH.

“Percebemos que os organismos adultos parecem conseguir lidar mais facilmente com a acidificação. Entretanto, futuramente, poderá haver uma mudança na dinâmica dessas populações porque a fisiologia dos juvenis é muito mais sensível”, explica a bióloga Visnu Sarmento, doutoranda da Universidade Federal de Pernambuco, e membro da Rede de Pesquisas Coral Vivo, que conta com o patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e o copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque.

De acordo com os pesquisadores, os resultados desse experimento no mesocosmo corroboram sugestões anteriores de que a acidificação dos oceanos induz mudanças importantes nas comunidades do fundo do mar. “Considerando a importância da meiofauna na cadeia alimentar nos ecossistemas de recifes de coral, os resultados apresentados por esse estudo demonstram que o funcionamento desses ambientes está seriamente ameaçado pela acidificação dos oceanos”, avalia Visnu. Cabe destacar que os organismos da meiofauna consomem microalgas e bactérias, por exemplo, e, por sua vez, servem de alimento para animais maiores, como peixes e camarões, por exemplo.

Aproximadamente, 30% de todo CO₂ emitido para a atmosfera pelas atividades humanas têm sido absorvido pelos oceanos. A pesquisadora Visnu Sarmento destaca que essa captação de CO₂ ajuda a moderar as mudanças climáticas, porém, quando o dióxido de carbono dissolve-se no oceano, reduz o pH e causa mudanças na bioquímica do oceano. Essa mudança, frequentemente chamada de acidificação dos oceanos, já está ocorrendo e é esperado que se intensifique no futuro.

O que é um mesocosmo marinho?

O mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo, patrocinado pela Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental, funciona como uma “máquina do tempo”. Resumidamente, ele é um sistema experimental projetado para simular os impactos futuros das mudanças climáticas e da poluição costeira, com uso de tanques e aquários que recebem um fluxo contínuo de água do mar diretamente de um recife de coral do Sul da Bahia. Ele foi projetado para manter as características físico-químicas da água do mar, e, assim, buscar resultados mais realistas. Ele é capaz de simular até três cenários futuros de aumento de temperatura ou de acidificação dos oceanos, de forma isolada ou combinados, de acordo com as previsões do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

Sobre o Projeto Coral Vivo

O Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Ele faz parte da Rede Biomar, junto com os projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Tamar. Todos patrocinados pela Petrobras, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN) e pelo Instituto Coral Vivo (ICV). Mais informações na página http://www.facebook.com/CoralVivo e no site http://www.coralvivo.org.br.

Colaboração de Tatyane Larrubia, in EcoDebate, 02/10/2015




Pec da Bengala

A PEC da Bengala ampliou a idade – de 70 para 75 anos – de aposentadoria dos ministros de tribunais superiores. O objetivo, como ficou claro, foi impedir que a presidente Dilma Roussef pudesse indicar ministros para o Supremo Tribunal Federal para ocupar as vagas que seriam abertas com a aposentadoria compulsória aos 70 anos de diversos ministros deste tribunal.

Agora, a Câmara dos Deputados está votando a extensão da PEC da Bengala a todo o funcionalismo público.

Entendo que esta medida é prejudicial à gestão e às finanças públicas: haverá afunilamento das promoções e, com isso, os servidores públicos concursados mais jovens levarão muito mais tempo para chegarem ao topo de suas carreiras e para alcançarem cargos de direção e assessoramento.

As vagas para novos concursos públicos seriam reduzidas, aumentando a idade média dos servidores públicos ativos.

A necessária oxigenação, que permitiria aos órgãos públicos incorporarem novas técnicas e processos de trabalho e gestão da coisa pública, seria interrompida.

Os custos com abono de permanência pagos aos servidores públicos com tempo de contribuição para aposentadoria, mas que optam por continuar trabalhando após os 70 anos, certamente aumentariam.

Talvez por este motivo a proposta do governo federal de interromper o pagamento de novos abonos de permanência.

Fica uma lição: decisões casuísticas como a PEC da Bengala, que não foi discutida nem analisada com cuidado, traz efeitos nefastos para toda a sociedade.

Ampliação do Afrouxamento Monetário Europeu?

O desemprego na zona do euro situou-se em torno de 11%, no mês de agosto passado. Trata-se, obviamente, de uma média, em alguns países os índices são muito maiores e, em outros, menores.

O nível de preços voltou à deflação em setembro (0,1%, comparado com setembro de 2014), refletindo a fraqueza da economia.

Com a desaceleração dos mercados emergentes (China, em especial) e o fortalecimento do euro frente ao dólar, continuam os temores de que  a economia da zona do euro enfrente situação similar à enfrentada pela economia japonesa há anos: deflação e baixo crescimento.

O Banco Central Europa (BCE) anunciou em janeiro deste ano e vem implementando um programa de afrouxamento monetário de 60 bilhões de euros por mês, com o objetivo de aproximar a inflação da meta de cerca de 2% a.a.

Há possibilidade de ampliação do programa de afrouxamento monetário europeu. Com isso, espera-se a desvalorização do euro, com impacto negativo nas exportações dos países emergentes para o mercado europeu no curto prazo.