Horóscopos para os que estão vivos – Aquário – 21/1 a 20/2

Aos nascidos sob a ternura de Aquário
está destinado um grande serviço
à causa da alegria geral.
São assim os seres de Aquário,
o coração cheio de navios,
avançam de perfil, iluminados.
A partir das primeiras chuvas de inverno,
belezas imprevistas surgirão nas ruas,
construídas pelas mãos aquarianas,
e uma inesperada flama
arderá no teu peito fatigado.
Os homens de ciência se aproximarão perigosamente
ao grande descobrimento que o mundo ainda espera.
Vejo intensos espasmos de medo
aos pâncreas dos poderosos.

Tuas virtudes secretas
estarão em maior evidéncia e poderio
durante a primavera.
O teu instante supremo coincidirá
com a colheita das framboesas.
Aproveita teu momento,
antes que Urânio te esconda das estrelas.
Anima-te, companheiro,
lança ao mar a rosa murcha
que levas na lapela
e recomeça a cantar,
Os braços abertos,
essa canção de amor
que escondes no teu peito;
porque tens vergonha de mostá-la,
ou porventura medo.

E não te esqueças de que, sozinho,
jamais chegará ao outro lado do mar.

 

Um Neruda por semana # 5 – Os advogados do dólar

Inferno americano, pão nosso
empapado em veneno, há outra
língua em tua pérfida fogueira: 
é o advogado nativo 
da companhia estrangeira. 
É ele que arrebita os grilhões  
da escravidão em sua pátria, 
e passeia desdenhoso 
com a casta dos gerentes 
a mirar com ar supremo 
nossas bandeiras andrajosas. 

Quando chegam de Nova York 
as vanguardas imperiais, 
engenheiros, calculistas, 
agrimensores, peritos, 
e medem terra conquistada, 
estanho, petróleo, bananas, 
nitrato, cobre, manganês, 
açúcar, ferro, borracha, terra, 
adianta-se um anão obscuro, 
com um sorriso amarelo, 
e aconselha com suavidade 
aos invasores recentes: 

Não é preciso pagar tanto 
a estes nativos, seria 
um crime, meus senhores, elevar 
estes salários. Não convém.
Estes pobres-diabos, estes mestiços, 
iriam só embriagar-se 
com tanto dinheiro. Pelo amor de Deus! 
São uns primitivos, quase 
umas feras, conheço esta cambada. 
Não paguem tanto dinheiro. 

É adotado. Põem-lhe 
libré. Veste como gringo, 
cospe como gringo. Dança 
como gringo, e vai subindo. 
Tem automóvel, uísque, imprensa, 
é eleito juiz e deputado, 
é condecorado, é ministro, 
e é ouvido no Governo. 
Sabe ele quem é subornável. 
Sabe ele quem é subornado. 
Ele lambe, unta, condecora, 
afaga, sorri, ameaça. 
E assim se esvaziam pelos portos 
as repúblicas dessangradas. 

Onde mora, perguntareis, 
este vírus, este advogado, 
este fermento do detrito, 
este duro piolho sangüíneo, 
engordado de nosso sangue? 
Mora nas baixas regiões 
equatoriais, o Brasil, 
mas sua morada é também 
o cinturão central da América. 
Podereis encontrá-lo na escarpada 
altura de Chuquicamata. 
Onde cheira riqueza sobe 
os montes, cruza abismos, 
com as receitas de seu código 
para roubar a terra nossa. 

Podereis achá-lo em Puerto Limón, 
na Ciudad Trujillo, em Iquique, 
em Caracas, Maracaibo, 
em Antofagasta, em Honduras, 
encarcerando nosso irmão, 
acusando seu compatriota, 
despedindo peões, abrindo 
portas de juízes e abastados, 
comprando imprensa, dirigindo 
a polícia, o pau, o rifle 
contra sua família esquecida. 

Pavoneando-se, vestido 
de smoking, nas recepções, 
inaugurando monumentos, 
com esta frase: Meus senhores, 
a pátria, antes da vida, 
é a nossa mãe, é o nosso chão, 
vamos defender a ordena fazendo 
novos presídios, novos cárceres. 

E morre glorioso, “o patriota”, 
senador, patrício, eminente, 
condecorado pelo papa, 
ilustre, próspero, temido, 
enquanto a trágica ralé 
de nossos mortos, os que fundiram 
a mão no cobre, arranharam 
a terra profunda e severa, 
morrem batidos e esquecidos, 
postos às pressas 
em seus caixões funerários: 
um nome, um número na cruz 
que o vento sacode, matando 
até a cifra dos heróis.

Construindo utopias reais

Entrevista com Erik Olin Wright publicada em Carta Maior.

Natalia Aruguete e Bárbara Schijman – Página/12 (tradução: Cepat)

Seu último livro, ‘Construyendo utopías reales’, leva consigo uma contradição intrínseca. Poderia explicá-la?

A palavra “utopia” usualmente se refere a uma espécie de fantasia do lugar perfeito. Portanto, se alguém quer criticar uma proposta, pode dizer: “isso é utópico”. É uma forma de desestimular uma ideia sem discuti-la, é como dizer: “isto é impossível”. “Real” significa que algo pode acontecer. O que faço é unir “real” e “utópico” como uma provocação. Supõe nos forçar a pensar simultaneamente a respeito de quais valores nos importam, quais são nossas aspirações para um mundo humanitário verdadeiramente justo e conservar esses valores sempre à frente de nosso trabalho analítico e teórico.

O dueto “real/utópico” implica em pensar a respeito do tipo de mundo que gostaríamos de ter, trabalhar para construir alternativas no mundo e nos mover nessa direção. Utopias, no sentido de pensar alternativas às instituições dominantes que encarnam nossas mais profundas aspirações por um mundo justo e humano. Real, no sentido de alternativas que podem ser construídas no mundo assim como ele é, que também prefiguram o mundo como pode ser e ajudam a nos mover nessa direção. Na versão inglesa, a primeira palavra do título de meu livro não é “construir”, mas, sim, “visualizar” (conceber). Construir ou imaginar não é o mesmo que visualizar ou conceber.

Visualizar compreende a ideia de imaginar o que realmente pode ocorrer.
Em que sentido seu propósito é provocar o leitor?

No sentido de que o título obriga a pensar o que significa esta ideia do utópico e o real. São termos que, assim apresentados, podem parecer contraditórios. Quero que as pessoas pensem acerca dessa tensão. Se você é um realista e se esquece da utopia, então fica envolvido somente nas políticas pragmáticas, que perdem qualquer outra visão. Se você é um utópico sem ser realista, então cria projetos de fantasia que nunca podem acontecer.

E neste mundo que você imagina, sim, é possível a utopia se concretizar?

Claro que pode. É uma combinação impossível, mas essa é a natureza do problema e queremos que as pessoas pensem constantemente sobre as implicações morais dos projetos políticos que perseguem e sobre a necessidade prática de fazer algo no mundo. Quando digo que se trata de uma provocação, simplesmente me refiro a forçar as pessoas a pensar sobre essas coisas.

Por que concebe que as utopias reais são, ao mesmo tempo, um objetivo e uma estratégia?

Mais recentemente, acrescentei que na realidade se trata de uma meta, um processo e uma estratégia. De maneira que há três tipos de “palavras” envolvidas. Uma meta alude àquilo que alguém procura conquistar, por exemplo, quais tipos de instituições novas você tenta construir. Uma estratégia se refere à forma como encarar o problema da mudança social. A velha forma da visão revolucionária tinha a ver com o viver um mundo de dominação, opressão e exploração; o que precisamos fazer é destruir essas instituições e construir novas. Refiro-me a esta ideia como a estratégia de destruir. É o velho ideal revolucionário: destruir o sistema e construir um alternativo. A ideia da real utopia como uma estratégia é nos propor construir uma alternativa agora, onde podemos, nos espaços e nichos da sociedade. Pensemos quais aspectos desse mundo alternativo realmente podemos construir agora, e então coloquemos essas peças juntas e as alarguemos de maneira que nos movamos para nossos objetivos. Neste sentido, falo de estratégia; e me refiro a erodir o capitalismo a partir da construção de alternativas.

Poderia nos dar um exemplo desta estratégia?

Um exemplo disto é proporcionado pelas empresas recuperadas. Também quero pensar acerca das utopias reais como um processo, porque nesse processo de construção de alternativas as próprias pessoas que se envolvem estão experimentando uma forma de solidariedade, igualdade e democracia que deseja ver no mundo. A luta por um mundo alternativo, quando está sendo construído, é também um processo que se adverte em sua própria vida. De maneira tal, que qualquer um que tenha se envolvido em lutas pela justiça social sabe que quando se trabalha com outros ativistas, tem-se uma sensação de fazer parte de algo mais importante que tão só a si mesmo. Sente-se conectado – isso é a solidariedade -, em uma relação igualitária com outras pessoas e empoderado para construir uma democracia viva e não somente trabalhar pela democracia.

Acredita que o mundo está preparado para caminhar nesse sentido?

Não, o mundo não está preparado, nós devemos preparar o mundo. As alternativas são criadas por seres humanos que se reúnem e decidem… Nós últimos tempos, trabalhei em uma lista de utopias reais. As primeiras que localizei são as cooperativas de trabalho, que incluem as “empresas recuperadas” como uma forma de cooperar. É uma forma de converter uma empresa capitalista em uma cooperativa gerida por seus trabalhadores.
Há duas formas diferentes nas quais se formam as cooperativas. Uma forma é quando um grupo de pessoas se junta e decide começar um negócio com a lógica de cooperativa, mas a partir de bases capitalistas convencionais. Então, os próprios trabalhadores administram uma empresa democraticamente e tomam suas próprias decisões. Outro modo se dá quando os trabalhadores transformam uma empresa capitalista existente em uma cooperativa.

Acredita que é possível ampliar o trabalho cooperativo?

A Argentina é um dos lugares no qual o desenvolvimento do trabalho cooperativo é ativo através de suas empresas recuperadas. Atualmente, há 350 empresas recuperadas no país. Cerca da metade destas empresas foram constituídas após a crise, foram inventadas, por assim dizer, na crise, mas continuaram. Madygraf era uma grande empresa de impressão pertencente a uma corporação multinacional; a corporação multinacional sofreu um processo de desinvestimento (esvaziamento) e se pensou em seu fechamento, no ano passado. Os trabalhadores a assumiram e a estão gerindo com êxito.

Não há nenhum país no qual o desenvolvimento das cooperativas de trabalho esteja no centro da economia, sempre está nas margens. Essa é a forma como as coisas acontecem: na margem. Porém, seu potencial é realmente considerável e – eu argumentaria e especularia um pouco – o potencial das cooperativas de trabalho aumentará e não diminuirá nas próximas décadas. Em parte, isso se deve ao fato de que a nova tecnologia do século XXI (computadores, internet e outros processos digitais) é mais barata que a velha tecnologia.

Que diferença isso produziu no passado?

O capital intensivo requerido para que uma empresa de impressão seja exitosa é mais barato agora que há trinta anos. O sistema econômico industrial que conhecemos tinha economias de grande escala: se você era um gigante, podia produzir muito mais economicamente que se fosse pequeno. Isso é cada vez menos certo. E na medida em que é menos verdadeiro, torna-se mais fácil – em princípio, ainda que não sempre na prática – para os próprios trabalhadores de uma empresa em particular dirigi-la, porque não tem 10.000 trabalhadores, mas, ao contrário, apenas algumas centenas. De tal modo que, atualmente, é possível ter algumas centenas de trabalhadores organizando a produção industrial. Esse é um tamanho prático para ter um autogerenciamento e estar organizados democraticamente.

Acredita que é possível que as utopias se tornem realidade, quando quem governa é um partido de direita?

Estou desenvolvendo uma perspectiva sobre o problema de como transformar as sociedades capitalistas. Acredito que o traço mais notável da situação política atual é que em todas as partes, na Argentina, nos Estados Unidos, naIslândia, está ocorrendo o que chamamos de “volatilidade política”.

Como define a volatilidade política?

Trata-se mais de movimentos rápidos, da esquerda para a direita ou da esquerda para o centro, do que a consolidação de uma coalizão política com uma base forte e segura que persiga, com o tempo, uma agenda política particular. Por exemplo, na Islândia, um país pequeno que teve uma crise financeira catastrófica em 2008, uma coalizão de esquerda eleita após o colapso da economia fez um trabalho muito bom restaurando a estabilidade econômica. Abandonaram a Europa e os bancos, recusaram-se a pagar os bancos, nacionalizaram todos os bancos, puseram os banqueiros na prisão, mas perderam a eleição seguinte. Ou seja, assim que as coisas melhoraram, um partido de centro-direita disse: “Agora que estamos fora da crise, podemos dirigir melhor a economia”. Uma volatilidade extrema.

Nesse caso, o que você acredita que ocorre entre a agenda política e as principais preocupações do público?

Tem a ver, acredito, com um aumento generalizado da desconfiança para com os políticos e a política. Um cinismo ampliado por parte dos eleitores, que não acreditam em ninguém; aceitam mentiras e enganos constantemente. Sendo assim, sua ação política é fundamentalmente negativa, é um voto contra o partido no poder.

Por que você considera que isso ocorre?

Não tenho uma resposta firme sobre a razão pela qual há tanto cinismo neste período, parece algo generalizado: ocorre nos Estados Unidos, na Grécia, na França, na Islândia e na Argentina. E dado que é um fenômeno geral, não é possível responder olhando os detalhes de alguns países em particular. Não são os detalhes da “corrupção do governo de Lula” o que explica o cinismo brasileiro, porque se encontra cinismo por todas as partes. Acredito que a sensação geral de risco e incerteza acerca do futuro, sem uma visão política muito credível sobre o que fazer a respeito, é parte do assunto.

Estamos atravessando um período de mudanças globais tremendas, além do mais. Quando se pensa nos últimos 25 anos: o fim da União Soviética, o aumento do terrorismo islâmico, uma crise global atrás de outra, a emergência da China como um ator dominante na economia mundial, o aquecimento global; todas estas questões estão criando um grande sentimento de instabilidade, incerteza e imprevisibilidade, sem nenhuma força política que faça uma descrição credível do que é possível fazer para empurrar as coisas ou que, de algum modo, melhore a vida das pessoas. Parte de tudo isto é ideológico. Parte de tudo isto é neoliberalismo.

Seguindo sua ideia da volatilidade, você acredita que os valores e as utopias mudam com o passar do tempo?

Acredito que é mais fácil dizer que sim, que é claro que as coisas mudam. Contudo, acredito que há certos valores que as pessoas guardam em seu coração, por assim dizer, que não mudam muito. As circunstâncias em que as sociedades vivem mudam e, por isso, podem ter mais ou menos esperança de que esses valores encontrem um lugar. Há muitos estudos sobre os “valores pós-materiais”, o pós-materialismo, uma ideia muito na moda nos últimos 25 anos. A ideia central é que na medida em que os países se tornaram mais ricos e prósperos, as pessoas passaram a estar menos preocupadas com questões vinculadas aos valores e mais preocupadas com temas como o estilo de vida, a identidade, a orientação sexual e todos esses tipos de visões. Porém, não estou convencido acerca disso, porque o sentimento de insegurança econômica tem caminhado de mãos dadas com uma maior prosperidade, sendo assim, as pessoas ainda estão preocupadas com os problemas econômicos diários.

Como quais?

A estabilidade de seus trabalhos, o futuro de seus filhos e todas essas questões. Por isso, não compro essa noção de que estamos na era do pós-materialismo, que é o que provavelmente se poderia se falar nos países ricos e que, muitas vezes, é vista como forma de entender a vida social das classes médias. No entanto, acredito que as pessoas de classe média estão muito preocupadas com as questões econômicas. As pessoas não votam de um modo sensato, podem ter ilusões, podem votar mais por razões materiais do que por razões de identidade.

Como analisa o comportamento da esquerda, neste cenário?

A esquerda tem uma longa tradição de divisões, muito mais que a direita. É mais fácil para a direita se reunir ao redor de uma única figura política ou de um único programa político, ao passo que a esquerda se rompe em todos os tipos de grupos. Em parte, isto é assim porque a tarefa da esquerda é mais complexa.

Em que sentido, mais complexa?

Se o propósito central de seu movimento político tem a ver com transformações para um mundo mais justo, igualitário e democrático, essa é uma agenda verdadeiramente árdua. Por conseguinte, a razão pela qual acredito que a esquerda tende a se fragmentar é simplesmente porque as tarefas de um movimento político como o seu são complicadas. Ao mesmo tempo, é certo também que a esquerda esteve atada a uma história embananada e difícil. Também é certo que a esquerda, diante da ausência de um amplo movimento de base popular, não tem uma relação fácil com seu eleitorado natural.

A direita, por sua parte, sim, possui uma relação fácil com seu eleitorado, que são, em sua maioria, os segmentos ricos e poderosos da sociedade. Portanto, a questão financeira e organizacional na direita é um assunto simples: políticos extremamente abastados com redes de pessoas endinheiradas para financiar e apoiar um movimento de direita, enquanto que um movimento de esquerda precisa trabalhar através de movimentos sociais e operários para ter uma base popular.

Quais os tipos de estratégias você considera importante implementar contra o capitalismo?

Há muitas fontes de sofrimento no mundo, muitos problemas na vida das pessoas, observamos a pobreza e a insegurança em meio à abundância. A primeira pergunta é: como diagnosticar as causas destes problemas? Na minha perspectiva, a causa fundamental de muitas destas questões é a natureza capitalista da economia. Com isto, refiro-me ao domínio da vida econômica por parte das empresas capitalistas e o capital. Algumas pessoas identificam o capitalismo com os mercados, de fato, é muitas vezes uma espécie de companheiro de trabalho para o capitalismo.
Acredita que não são diretamente identificáveis?
Eu não me oponho aos mercados. Oponho-me aos mercados que se organizam em torno dos centros concentrados de poder, que é a forma como funcionam os mercados capitalistas. Sendo assim, sou anticapitalista no sentido de identificar instituições e estruturas particulares como os condutores mais fundamentais de toda uma série de problemas. É muito difícil se opor a um sistema, é mais fácil se opor a políticas concretas. Nestes dias, estou escrevendo: Como ser anticapitalista no século XXI?

E como acredita que pode se concretizar o ser anticapitalista?

O problema é: como ser um verdadeiro anticapitalista, dado a enormidade do sistema que se está tentando substituir? E é daí que provém essa lista das quatro estratégias históricas. Estas são as quatro estratégias que haviam sido adotadas por pessoas que compartilham este ponto de vista: os movimentos revolucionários, a democracia social progressiva, algum tipo de movimento de pequenos agricultores na fronteira dos Estados Unidos, no século XIX, procurando escapar do capitalismo ao se converter em agricultores autossuficientes no Oeste, etc. E esta ideia de procurar construir alternativas dentro do próprio capitalismo, erodindo o capitalismo como forma de pensar estratégias, é um pouco o modo como o próprio capitalismo surgiu nas sociedades pré-capitalistas.

Como descreveria o surgimento do capitalismo?

Quando se pensa em quinhentos anos atrás, não aconteceu que um grupo de comerciantes, banqueiros e artesãos se sentaram ao redor da mesa e disseram: “odiamos o feudalismo, como podemos destruí-lo?”. Construíram alternativas ao feudalismo nas cidades, em pequenos espaços, onde puderam, e depois expandiram esses espaços e o fizeram em colaboração com segmentos da classe feudal, que considerou vantajoso permitir que o capitalismo surgisse e se desenvolvesse, apesar do fato de que durante o longo prazo de seu surgimento e desenvolvimento minaria as bases do feudalismo. Sendo assim, minha visão a favor de transformar o capitalismo tem esse caráter. A ideia de “utopias reais” combina esforços para resolver problemas dentro do capitalismo e neutralizar os danos com o esforço de erodir o capitalismo mediante a construção de alternativas.

Argentina: aumento de até 600% na conta de luz

Isso é muito bom. É o que nos faz crer a reportagem de correspondente do jornal O Globo na Argentina, com esta manchete.

O teor da reportagem é extremamente favorável ao presidente argentino, como tudo que tem sido publicado ou transmitido pelo conglomerado Organizações Globo a respeito do novo governo de “lá”.

Quem pensa que a mídia comercial só se interessa pelo lado negativo de tudo? Isto é somente “cá”.

Quando a grande mídia comercial quer, ela sabe dar um tom positivo e otimista, mesmo nas situações mais desfavoráveis, como parece ser o caso do aumento de 200 a 600% nas contas de luz na Argentina.

Na matéria, a correspondente global enfatiza somente a “parte cheia do copo”, ou seja, o impacto positivo nas contas do governo argentino com a eliminação do subsídio. Nenhuma análise  um pouco mais aprofundada sobre os possíveis impactos inflacionários da medida ou efeitos no emprego e na situação das famílias e das empresas a serem afetadas pelos aumentos estratosféricos.

Energia elétrica é bem de primeira necessidade. A oferta deste bem não pode ser deixada nas mãos de monopólios sem regulação pois, normalmente, em cada região, os consumidores não podem escolher o seu fornecedor de energia elétrica. Os preços da energia elétrica não podem ser formados em mercados manipulados, especulativos e viciados.

Segundo a jornalista, trata-se do “primeiro passo de Macri para acabar com a política de subsídios ao setor elétrico aplicada nos quase 13 anos de kirchnerismo”. Futuramente, as contas de água e gás também deverão sofrer ajuste à realidade de mercado. Este é o jargão que eles usam quando querem dar uma conotação positiva para decisões polêmicas, tomadas por governos amigos.

Não estou discutindo, neste momento, o cerne das medidas do governo argentino. Não tenho informações suficientemente detalhadas e profundas para analisar a situação do sistema elétrico argentino. Sei que os apagões são constantes há muitos anos na Argentina. O setor foi privatizado e as empresas privadas monopolistas fornecedoras não foram capazes de solucionar o problema. Acesse o artigo  intitulado “Argentina: Apagón cuestiona las privatizações” publicado em http://www.ipsnoticias.net, em 1999, após as rodadas de privatizações na Argentina. Como poderão observar os problemas de energia da Argentina não foram resolvidos com privatização e aumento das tarifas.

O que estou discutindo é que, como o novo governo argentino é a “menina dos olhos” da grande mídia comercial, esta cortesã do Mercado consegue dar um tom positivo e de aprovação mesmo nas piores situações. Quando lhe interessa, ela sabe fazer.

Por outro lado, no caso do Brasil, os fatos que poderiam receber tratamento neutro e justo, são distorcidos para ajustarem-se à reportagem que deverá ter, sempre, tratamento reprovador e negativo, previamente decidido nas reuniões de pauta. Os textos, as entrevistas e declarações que servem de recheio dos artigos e reportagens visam apenas provar a tese previamente definida. Não importa o conteúdo. Vivem de venda de manchetes.

Assusta a falta de compostura configurada nas manchetes de jornais e revistas, e nas chamadas dos telejornais da mídia comercial. Eles sabem que a grande maioria dos brasileiros não lê seus artigos. Basta a manchete para formarem sua opinião.

Luís Nassif apresentou, em artigo publicado na Carta Maior, seu diagnóstico sobre a doença que nos assola:

É inacreditável como o mundo politico e jornalístico despregou-se totalmente do mundo real. Parecem vaqueiros bêbados e armados em saloons do Velho Oeste, atirando em qualquer sombra que passe pela porta. É tão grande o vácuo de ideias, que a institucionalidade se rege, agora, pelas manchetes de jornais.

E o oportunismo dos jornais, de abrir espaço para qualquer asneira, praticamente matou os filtros que poderiam permitir um mínimo de racionalidade nas discussões políticas e econômicas.

Só nos resta discutir, questionar, desmascarar …

Foto: geradores à venda nas lojas de eletrodomésticos na Argentina

Sobre velhos e velhacos, por Guilherme Boulos

 

Kim, da “Folha” é um garoto da ordem. Expressa, de forma confusa, os anseios de uma classe média sem projeto nem visão de país, que –sentindo-se insegura– busca apoio nas bengalas do conservadorismo

Por Guilherme Boulos, em Outras Palavras.

Kim, da “Folha” é um garoto da ordem. Expressa, de forma confusa, os anseios de uma classe média sem projeto nem visão de país, que –sentindo-se insegura– busca apoio nas bengalas do conservadorismo.

Por Guilherme Boulos

Quando questionado por sustentar ideais de igualdade e justiça social aos 70 anos de idade, o saudoso Plínio de Arruda Sampaio (1930-2014) respondeu: “Ficar velho não é virar velhaco”. Há pessoas que, mesmo velhas, permanecem jovens de espírito. Abertas para o novo. E há outros que, mesmo jovens, carregam os medos e preconceitos das velhas gerações. Jovens, mas com o espírito de velhos rançosos. É o caso de Kim Kataguiri, que lidera o MBL (Movimento Brasil Livre) e tornou-se agora colunista da Folha.

Não é exatamente uma surpresa a Folha tê-lo contratado. A maior parte de seus colunistas é liberal em economia e politicamente conservadora, assim como sua linha editorial. Neste quesito, Kim estará à vontade.

Talvez a surpresa de muitos seja por conta de seu despreparo, mais do que por sua posição política. Difusor de piadas machistas, com discurso repleto de argumentos rasos e com uma prepotência própria de quem ainda não recebeu a notícia, Kim não está qualificado sequer como uma voz coerente da direita.

Mas o que de fato surpreende é ver Kim e seu MBL tratados por alguns como representantes do “novo”, do autêntico espírito de revolta da juventude contra a velha política. Na verdade, eles são precisamente o contrário disso.

Há uma percepção cada vez mais ampla de que estamos vivenciando a crise de uma época. De que este sistema político é incapaz de representar as maiorias. De que este modelo econômico só atende aos interesses privilegiados do 1%. Daí uma série de movimentos que nasceram nos últimos anos com ojeriza à velha política e clamando por transformações profundas.

Como o movimento Ocuppy Wall Street, lançado em Nova York (EUA), que reuniu milhares de pessoas numa ocupação permanente em Manhattan, depois estendida com protestos em várias cidades norte-americanas, contra a ganância desmedida da elite financeira.

Como o 15M, quando o povo indignado espanhol tomou as ruas e praças contra as políticas liberais de austeridade, os despejos em massa por conta das hipotecas “subprime” (segunda linha) e a corrupção da “porta giratória”. Dessa energia nasceu o Podemos.

Como também as grandes lutas dos estudantes chilenos por reformas do ensino, que levaram multidões de jovens às ruas contra o modelo liberal-privatista de educação, herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Esses ventos também chegaram por aqui: as ocupações de escolas em São Paulo, as lutas contra o aumento das tarifas de transporte e as batalhas cotidianas pelo direito à cidade, nos centros e periferias urbanos, espalhadas pelo Brasil.

Poderíamos falar dos jovens do Ocupe Estelita, em Recife, que se insurgiram contra a especulação imobiliária e a apropriação privada do espaço público. Da resistência negra, no Capão ou em Ferguson (Missouri, nos EUA), que expressa a revolta da juventude contra o extermínio policial. Ou ainda da bela luta das mulheres –as mesmas que Kim comparou a “miojo”– contra os projetos retrógrados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Aí está o novo. Por esses ares passa o legítimo sentimento de repulsa à velha política, aos seus representantes e privilégios. Defender os mecanismos sociais que produzem desigualdades, a ideologia meritocrática e a repressão a quem luta é o que há de mais velho. É o programa da ordem, sempre a postos para prestar seus serviços à Casa Grande.

Kim é isso: um garoto da ordem. Ergueu-se no rescaldo da crise do petismo, expressando de forma confusa os anseios de uma classe média sem projeto nem visão de país, que –sentindo-se insegura– busca apoio nas bengalas do conservadorismo. As crises fazem surgir o novo, mas também dão roupa nova ao velho.

Quando questionado por sustentar ideais de igualdade e justiça social aos 70 anos de idade, o saudoso Plínio de Arruda Sampaio (1930-2014) respondeu: “Ficar velho não é virar velhaco”. Há pessoas que, mesmo velhas, permanecem jovens de espírito. Abertas para o novo. E há outros que, mesmo jovens, carregam os medos e preconceitos das velhas gerações. Jovens, mas com o espírito de velhos rançosos. É o caso de Kim Kataguiri, que lidera o MBL (Movimento Brasil Livre) e tornou-se agora colunista da Folha.

Não é exatamente uma surpresa a Folha tê-lo contratado. A maior parte de seus colunistas é liberal em economia e politicamente conservadora, assim como sua linha editorial. Neste quesito, Kim estará à vontade.

Talvez a surpresa de muitos seja por conta de seu despreparo, mais do que por sua posição política. Difusor de piadas machistas, com discurso repleto de argumentos rasos e com uma prepotência própria de quem ainda não recebeu a notícia, Kim não está qualificado sequer como uma voz coerente da direita.

Mas o que de fato surpreende é ver Kim e seu MBL tratados por alguns como representantes do “novo”, do autêntico espírito de revolta da juventude contra a velha política. Na verdade, eles são precisamente o contrário disso.

Há uma percepção cada vez mais ampla de que estamos vivenciando a crise de uma época. De que este sistema político é incapaz de representar as maiorias. De que este modelo econômico só atende aos interesses privilegiados do 1%. Daí uma série de movimentos que nasceram nos últimos anos com ojeriza à velha política e clamando por transformações profundas.

Como o movimento Ocuppy Wall Street, lançado em Nova York (EUA), que reuniu milhares de pessoas numa ocupação permanente em Manhattan, depois estendida com protestos em várias cidades norte-americanas, contra a ganância desmedida da elite financeira.

Como o 15M, quando o povo indignado espanhol tomou as ruas e praças contra as políticas liberais de austeridade, os despejos em massa por conta das hipotecas “subprime” (segunda linha) e a corrupção da “porta giratória”. Dessa energia nasceu o Podemos.

Como também as grandes lutas dos estudantes chilenos por reformas do ensino, que levaram multidões de jovens às ruas contra o modelo liberal-privatista de educação, herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Esses ventos também chegaram por aqui: as ocupações de escolas em São Paulo, as lutas contra o aumento das tarifas de transporte e as batalhas cotidianas pelo direito à cidade, nos centros e periferias urbanos, espalhadas pelo Brasil.

Poderíamos falar dos jovens do Ocupe Estelita, em Recife, que se insurgiram contra a especulação imobiliária e a apropriação privada do espaço público. Da resistência negra, no Capão ou em Ferguson (Missouri, nos EUA), que expressa a revolta da juventude contra o extermínio policial. Ou ainda da bela luta das mulheres –as mesmas que Kim comparou a “miojo”– contra os projetos retrógrados do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Aí está o novo. Por esses ares passa o legítimo sentimento de repulsa à velha política, aos seus representantes e privilégios. Defender os mecanismos sociais que produzem desigualdades, a ideologia meritocrática e a repressão a quem luta é o que há de mais velho. É o programa da ordem, sempre a postos para prestar seus serviços à Casa Grande.

Kim é isso: um garoto da ordem. Ergueu-se no rescaldo da crise do petismo, expressando de forma confusa os anseios de uma classe média sem projeto nem visão de país, que –sentindo-se insegura– busca apoio nas bengalas do conservadorismo. As crises fazem surgir o novo, mas também dão roupa nova ao velho.

Um Neruda por semana # 4

As terras e os homens – Pablo Neruda, em Canto Geral

Velhos latifundiários incrustados
na terra como ossos
de pavorosos animais,
supersticiosos herdeiros
da encomenda, imperadores
duma terra escura, fechada
com ódio e arame farpado.

Entre as cercas o estame
do ser humano foi afogado,
o menino foi enterrado vivo,
negou-se-lhe o pão e a letra,
foi marcado como inquilino
e condenado aos currais.
Pobre peão infortunado
entre as sarças, amarrado
à não-existência, à sombra
das pradarias selvagens.

Sem livro foste carne inerme,
e em seguida insensato esqueleto,
comprado de uma vida a outra,
rechaçado na porta branca
sem outro amor que uma guitarra
despedaçara em sua tristeza
e o baile apenas aceso
como rajada molhada.

Não foi porém só nos campos
a ferida do homem. Mais longe,
mais perto, mais fundo cravaram:
na cidade, junto ao palácio,
cresceu o cortiço leproso,
pululante de porcaria,
com a sua acusadora gangrena.

Eu vi nos agros recantos
de Talcahuano, nas encharcadas
cinzas dos morros,
ferver as pétalas imundas
da pobreza, a maçaroca
de corações degradados,
a pústula aberta na sombra
do entardecer submarino,
a cicatriz dos farrapos,
e a substância envelhecida
do homem hirsuto e espancado.

Eu entrei nas casas profundas,
como covas de ratos, úmidas
de salitre e de sal apodrecido,
vi seres famintos se arrastarem,
obscuridades desdentadas,
que procuravam me sorrir
através do ar amaldiçoado.

Me atravessaram as dores
de meu povo, se enredaram em mim
como aramados em minh’alma:
me crisparam o coração:
saí a gritar pelos caminhos,
saí a chorar envolto em fumo,
toquei as portas e me feriram
como facas espinhosas,
chamei os rostos impassíveis
que antes adorei como estrelas
e me mostraram seu vazio.
E então me fiz soldado:
número obscuro, regimento,
ordem de punhos combatentes,
sistema da inteligência,
fibra do tempo inumerável,
árvore armada, indestrutível
caminho do homem na terra.

E vi quantos éramos, quantos
estavam a meu lado, não eram
ninguém, eram todos os homens,
não tinham rosto, eram povo,
eram metal, eram caminhos.
E caminhei com os mesmos passos
da primavera pelo mundo.

Preto 45: façam suas apostas (*)

Em matérias publicadas na edição de hoje, o jornal O Globo inventa polêmica sobre uma nota do Banco Central de cinco linhas e confunde seus incautos leitores.

As matérias misturam nota do presidente do Banco Central sobre estudo do FMI relativo ao crescimento da economia global, decisão do COPOM , posições compradas e vendidas dos operadores do cassino financeiro e desejos dos consultores-profetas (vendedores de profecias auto-realizáveis).

As matérias do O Globo acusam o presidente do BC, Alexandre Tombini, de fazer comentários que “levam o mercado a rever a alta da Selic”.

Ora, ora, ora …

O tal mercado, este bicho onipotente, onisciente e onipresente, associado com a mídia interesseira e os tais economistas ortodoxos, sequestrou o Banco Central do Brasil.

Só pode ser isso.

O mercado já havia decidido que alta dos juros na reunião do COPOM desta quarta-feira – 20/01/2016 – seria de 0,5 ponto percentual.

Todos os principais operadores do cassino financeiro já haviam feito suas apostas e só estavam aguardando chegar a quarta-feira para o COPOM confirmar a decisão que eles, operadores do cassino e consultores-profetas, já haviam tomado.

Então, apareceu o relatório do FMI e o recado do presidente do Banco Central (nota de cinco linhas). Para mim, pareceu um aviso aos jogadores: vão com calma em suas apostas! Neste caso, eles, os operadores do cassino, deveriam agradecer em vez de criticar.

“BC dá sinais contraditórios sobre juros”. Contraditórios com o que, caras-pálidas?

“BC muda de opinião em dia de encontro do COPOM” – Míriam Leitão

O Banco Central mudou a opinião que os oráculos da mídia interesseira diziam que o Banco Central tinha. Rs …

Leia  as notícias dos jornalões interesseiros:

“Nota polêmica do BC – Comentário de Tombini sobre relatório do FMI provoca dúvidas em relação à alta de juros hoje”.

Economistas e agentes de mercado financeiro consideraram “estranha”, “inadequada” e “sem propósito” a nota. Para eles, o comunicado sinalizou uma clara mudança de postura do BC em relação à elevação dos juros. Até ontem pela manhã, a expectativa do mercado era de uma alta de 0,5 ponto percentual da Selic, que está em 14,25% ao ano”.

Ora, dane-se a expectativa de mercado. Estes jogadores entram em crise de abstinência na falta de qualquer 0,25% de aumento na taxa de juros. São viciados e não têm vergonha de admitir!

A reclamação dos “bookmakers” é que o Banco Central aparentemente deu um sinal de que não vai obedecer, desta vez, o que o mercado já havia decidido (precificado, no jargão deles).

“Se o BC não elevar os juros, ficará parecendo que houve influência política na decisão. Se a Selic não subir, vai pegar muito mal”, comentou o estrategista-chefe de um banco estrangeiro.

E os jogadores do cassino vão perder dinheiro, acrescento. Tombini não devia ter avisado. Deveria deixar todos ficarem do lado perdedor da mesa de jogo.

“Esse Banco Central tem sido tão confuso em sua comunicação, que agora ficou difícil prever o que o BC vai fazer”, reclamou um sócio de empresa de consultoria e professor de economia da PUC-Rio.

É, companheiros de roleta, se continuar assim, vai ficar mais difícil ganhar dinheiro fácil!

(*) Referência à taxa de juros de 45% fixada pelo Banco Central quando Armínio Fraga era o seu presidente e Fernando Henrique Cardoso era o presidente da república. Esta taxa vigorou no período de 05 a 24/03/1999.

 

 

Uma história dos povos árabes

Fernando Costa mantém um excelente blog, com artigos técnicos e culturais de alta qualidade. Vale a pena consultá-lo em 

https: //fernandonogueiracosta.wordpress.com

Fernando apresenta em seu blog o livro “Uma História dos Povos Árabes”, de Albert Hourani.  Leia, abaixo, o artigo.

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra a explosiva situação do Oriente Médio, com os intermináveis conflitos entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã-Iraque, a guerra do Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo islâmico. Desde a Segunda Guerra, os árabes estão no centro das questões mais turbulentas de nossa época. No entanto, deles e de sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e lamentável que Uma história dos povos árabes vem sanar e meu curso Economia no Cinema, no primeiro semestre letivo de 2016, tentará remediar para os alunos do IE-UNICAMP.

Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, escreveu um livro de leitura obrigatória não apenas para os interessados nas raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm curiosidade por uma cultura de extraordinária riqueza, cuja importância em termos mundiais só tende a aumentar. Reproduzo a Parte I – A Criação de um Mundo (Séculos VII-X) – abaixo.

No início do século VII, surgiu às margens dos grandes impérios, o Bizantino e o Sassânida, um movimento religioso que dominou a metade ocidental do mundo. Em Meca, cidade da Arábia Ocidental, Maomé começou a convocar homens e mulheres à reforma e à submissão à vontade de Deus, expressa no que ele e seus seguidores aceitavam como mensagens divinas a ele reveladas e mais tarde incorporadas num livro, o Corão.

Em nome da nova religião – o Islã –, exércitos recrutados entre os habitantes da Arábia conquistaram os países vizinhos e fundaram um novo Império, o Califado, que incluiu grande parte do território do Império Bizantino e todo o Sassânida, e estendeu-se da Ásia Central até a Espanha. O centro de poder passou da Arábia para Damasco, na Síria, sob os califas omíadas, e depois para Bagdá, no Iraque, sob os abácidas.

No século X, o Califado desmoronou, e surgiram califados rivais no Egito e na Espanha, mas a unidade social e cultural que se desenvolvera em seu interior continuou. Grande parte da população tornara-se muçulmana (ou seja, seguidores da religião do Islã), embora continuasse havendo comunidades judaicas e cristãs.

A língua árabe difundira-se e tornara-se o veículo de uma cultura que incorporava elementos das tradições dos povos absorvidos no mundo muçulmano, e manifestava-se na literatura e em sistemas de lei, teologia e espiritualidade. Dentro dos diferentes ambientes físicos, as sociedades muçulmanas desenvolveram instituições e formas distintas. As ligações estabelecidas entre países da bacia do Mediterrâneo e do oceano Índico criaram um sistema de comércio único, trazendo mudanças na agricultura e nos ofícios, proporcionando a base para o surgimento de grandes cidades, com uma civilização urbana expressa em edificações de um característico estilo islâmico.

Um Novo Poder em um Velho Mundo: O Mundo Em Que Os Árabes Surgiram
O mundo de Ibn Khaldun devia parecer eterno para a maioria dos que o compunham, mas ele próprio sabia que esse mundo havia substituído um anterior. Setecentos anos antes de seu tempo, os países que ele conhecia tinham tido uma face diferente, sob o domínio das “duas maiores potências da época”.

Durante muitos séculos, os países da bacia do Mediterrâneo tinham feito parte do Império Romano. Uma zona rural colonizada produzia grãos, frutas, vinho e azeite, e o comércio se efetuava ao longo de rotas marítimas pacíficas; nas grandes cidades, uma classe abastada, de origem variada, partilhava da cultura grega e latina do Império.

A partir do quarto século da era cristã, o centro do poder imperial mudara-se para leste. Constantinopla substituíra Roma como a capital; ali, o imperador era o foco da lealdade e o símbolo da coesão.

Mais tarde, surgira o que se chamou de “divisão horizontal“, que iria permanecer, sob outras formas, até o nosso tempo. Na Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e norte da Itália, governavam reis bárbaros, embora ainda houvesse um senso de pertinência ao Império Romano. O sul da Itália, a Sicília, o norte da costa africana, o Egito, a Síria, a Anatólia e a Grécia permaneciam sob o governo imperial direto de Constantinopla.

Nessa forma encolhida, o Império era mais grego que romano. (Em suas fases posteriores, é mais comumente chamado de “bizantino” que de romano, segundo o antigo nome de Constantinopla, Bizâncio.) O imperador governava por meio de funcionários de língua grega; as grandes cidades do Mediterrâneo Oriental, Antióquia, na Síria, e Alexandria, no Egito, eram centros de cultura grega, e forneciam membros das elites locais para o serviço imperial.

Outra mudança, mais profunda, ocorrera. O Império tornara-se cristão, não apenas por decreto formal do soberano, mas por conversão em diferentes níveis. A maioria da população era cristã, embora filósofos pagãos ensinassem na escola de Atenas até o século VI, comunidades judaicas vivessem nas cidades, e lembranças de deuses pagãos ainda rondassem os templos transformados em igrejas.

O cristianismo dera uma nova dimensão à lealdade prestada ao imperador e um novo esquema de unidade para as culturas locais de seus súditos. As ideias e as imagens cristãs eram expressas nas línguas literárias das várias regiões do Império, e também no grego das cidades: armênio na Anatólia Oriental, siríaco na Síria, copta no Egito. Os túmulos de santos e outros locais de peregrinação podiam preservar, em forma cristã, as crenças e as práticas imemoriais de cada região.

As instituições politicamente autônomas das cidades gregas haviam desaparecido com a expansão da burocracia imperial, mas os bispos proporcionavam liderança local. Quando o imperador deixou Roma, o bispo da cidade, o papa, pôde exercer sua autoridade de uma maneira que seria impossível para os patriarcas e os bispos das cidades orientais romanas; embora estes estivessem estreitamente ligados ao governo imperial, ainda podiam expressar sentimentos locais e defender interesses locais.

O eremita ou o santo milagreiro, também, vivendo na periferia da cidade ou em regiões colonizadas na Anatólia ou na Síria, podia atuar como árbitro de disputas ou porta-voz da população local, e o monge no deserto egípcio dava exemplo de uma sociedade que diferia da do mundo secular urbano. Além da Igreja Ortodoxa oficial, surgiram outras, que diferiam dela em doutrina e prática, e davam expressão às lealdades e oposições à autoridade central daqueles de outra língua que não o grego.

As principais diferenças doutrinárias referiam-se à natureza de Cristo. O Concílio da Calcedônia, em 451, definira a segunda pessoa da Trindade como tendo duas naturezas, divina e humana. Essa era a formulação aceita pelo corpo principal da Igreja, no Oriente e no Ocidente, e defendida pelo governo imperial.

Só depois, aos poucos, e sobretudo em relação à questão da autoridade, foi que se deu a divisão entre a Igreja nos territórios bizantinos, a Igreja Ortodoxa Oriental, com seus patriarcas como chefes do sacerdócio, e os da Europa Ocidental, que aceitavam a autoridade suprema do papa em Roma.

Algumas comunidades, porém, sustentavam que Cristo tinha uma única natureza, composta de duas. Esta, a doutrina monofisista, era sustentada:

pela Igreja armênia na Anatólia,
pela maioria dos cristãos egípcios (conhecidos como “coptas“, do nome antigo do Egito) e
por muitos dos cristãos nativos, de língua siríaca, da Síria (conhecidos como ortodoxos sírios, ou “jacobitas“, do nome de seu mais destacado teólogo).
Outros faziam uma divisão ainda mais precisa entre as duas naturezas, a fim de manter a total humanidade de Jesus, e achavam que a Palavra de Deus estava no homem Jesus desde sua concepção. Essa era a doutrina daqueles comumente conhecidos como nestorianos, nome derivado do de um pensador identificado com a doutrina. A Igreja deles foi mais importante entre os cristãos do Iraque, além da fronteira oriental do Império Bizantino.

No século vii, surgiu mais um grupo, como resultado de uma tentativa de acordo entre a posição ortodoxa e a monofisista: os monoteletas, que defendiam que Cristo tinha duas naturezas, mas uma só vontade.

A leste do Império Bizantino, do outro lado do rio Eufrates, havia outro grande Império, o dos sassânidas, cujo domínio se estendia sobre o que é hoje o Irã e o Iraque, e entrava pela Ásia Central adentro. A terra hoje chamada de Irã ou Pérsia continha várias regiões de grande cultura, e cidades antigas habitadas por diferentes grupos étnicos, separadas umas das outras por estepes ou desertos, sem grandes rios para oferecer-lhes comunicações fáceis.

De tempos em tempos, tinham sido unidas por dinastias fortes e duradouras; a última fora a dos sassânidas, cujo poder original se assentava nos povos de língua persa do sul do Irã. Era um Estado familiar, governado por intermédio de uma hierarquia de funcionários, que tentou proporcionar uma base sólida de unidade e lealdade, revivendo a antiga religião do Irã, tradicionalmente associada com o mestre Zoroastro. Para essa religião, o universo era um campo de batalha, abaixo do Deus supremo, entre bons e maus espíritos; o bem venceria, mas homens e mulheres de virtude e pureza ritual podiam apressar a vitória.

Depois que Alexandre, o Grande, conquistou o Irã em 334-33 a.C., fazendo com que este estabelecesse ligações mais estreitas com o mundo do Mediterrâneo Oriental, as ideias do mundo grego avançaram para o Oriente, enquanto as de um mestre do Irã, Mani, que tentara incorporar todos os profetas e mestres em um único sistema religioso (conhecido como maniqueísmo), avançaram para o Ocidente.

Sob os sassânidas, a doutrina associada a Zoroastro foi revivida em moldes filosóficos, com mais ênfase no dualismo de bem e mal, e tendo uma classe sacerdotal e um culto formal; ficou conhecida como mazdaísmo ou zoroastrismo. Como Igreja do Estado, o mazdaísmo defendia o poder do soberano, visto como um rei justo, que preservava a harmonia entre as diferentes classes da sociedade.

A capital sassânida não ficava no planalto do Irã, mas em Ctesifonte, na fértil e populosa área do Irã Central, irrigada pelos rios Tigre e Eufrates. Além de zoroastrianos e seguidores de Mani, o Iraque tinha os cristãos da Igreja nestoriana, que eram importantes no serviço público. Essa área era também o principal centro do ensino religioso judaico, e um refúgio para filósofos pagãos e cientistas médicos das cidades gregas do mundo mediterrâneo.

Várias formas da língua persa ali disseminavam-se; a forma escrita usada na época é conhecida como pálavi. Também disseminado estava o aramaico, uma língua semita ligada ao hebraico e ao árabe, e corrente em todo o Oriente Médio na época; uma de suas formas é conhecida como siríaco.

Os dois impérios incluíam as principais regiões de cultura e civilização da metade ocidental do mundo. Porém, mais ao sul, dos dois lados do mar Vermelho, havia duas outras sociedades com tradições de poder e cultura organizados, mantidos pela agricultura e o comércio entre o oceano Índico e o Mediterrâneo.

Uma delas era a Etiópia, um reino antigo, que tinha o cristianismo em sua forma copta como religião oficial. A outra era o Iêmen, no sudoeste da Arábia, uma terra de férteis vales montanheses e ponto de trânsito do comércio de longa distância. A certa altura, seus pequenos estados locais haviam sido incorporados em um reino maior, que enfraquecera quando o comércio declinara no início da era cristã, mas revivera depois.

O Iêmen tinha sua própria língua, diferente do árabe falado em outras partes da Arábia, e sua própria religião: uma multiplicidade de deuses, servidos por sacerdotes em templos que eram locais de peregrinação, oferendas votivas e prece privada (mas não comunal), além de ser também centros de grande riqueza.

Nos séculos seguintes, influências cristãs e judaicas vieram da Síria, pelas rotas comerciais, ou do outro lado do mar, da Etiópia. No século VI, um núcleo de cristianismo fora destruído por um rei atraído para o judaísmo, mas invasões originárias da Etiópia haviam restaurado certa influência cristã; tanto os bizantinos como os sassânidas envolveram-se nesses acontecimentos.

Entre os grandes impérios do norte e os reinos do mar Vermelho, ficavam terras de uma espécie diferente. A maior parte da península Arábica era estepe ou deserto, com oásis isolados contendo água suficiente para cultivo regular. Os habitantes falavam vários dialetos do árabe e seguiam diferentes estilos de vida. Alguns eram nômades criadores de camelos, carneiros ou cabras, dependendo dos escassos recursos de água do deserto; eram tradicionalmente conhecidos como “beduínos“. Outros eram agricultores estabelecidos, cuidando de suas safras ou palmeiras nos oásis, ou então comerciantes e artesãos em pequenos vilarejos que sediavam feiras. Outros ainda combinavam mais de um meio de vida.

O equilíbrio entre povos nômades e sedentários era precário. Embora fossem uma minoria da população, eram os nômades dos camelos, móveis e armados, que, juntamente com os mercadores das aldeias, dominavam os lavradores e os artesãos. O ethos característico deles – coragem, hospitalidade, lealdade à família e orgulho dos ancestrais – também predominava. Não eram controlados por um poder de coerção estável, mas liderados por chefes que pertenciam a famílias em torno das quais se reuniam grupos de seguidores mais ou menos constantes, manifestando sua coesão e lealdade no idioma da ancestralidade comum: tais grupos são em geral chamados de tribos.

O poder dos chefes tribais era exercido a partir dos oásis, onde mantinham estreitas ligações com os mercadores que organizavam o comércio através do território controlado pela tribo. Nos oásis, porém, outras famílias podiam estabelecer um tipo diferente de poder, pela força da religião.

A religião dos pastores e dos agricultores parece não ter tido uma forma clara. Julgava-se que deuses locais, identificados com objetos no céu, se incorporavam em pedras, árvores e outras coisas naturais; acreditava-se que bons e maus espíritos corriam o mundo em forma de animais; adivinhos afirmavam falar com a língua de um saber sobrenatural.

Sugeriu-se, com base em práticas modernas no sul da Arábia, que eles achavam que os deuses habitavam um santuário, um haram, um lugar ou aldeia separados do conflito tribal, que funcionava como centro de peregrinação, sacrifício, encontro e arbitragem, e era supervisionado por uma família sob a proteção de uma tribo vizinha. Essa família podia obter poder ou influência fazendo hábil uso do prestígio religioso, de seu papel de árbitro em disputas tribais e de suas oportunidades de comércio.

Por todo o Oriente Próximo, muita coisa estava mudando no século VI e início do VII. O império Bizantino e o Sassânida empenhavam-se em longas guerras, que se estenderam, com intervalos, de 540 a 629. Guerras travadas sobretudo na Síria e no Iraque; em uma ocasião, os exércitos sassânidas chegaram até o Mediterrâneo, ocupando as grandes cidades de Antióquia e Alexandria, além da cidade santa de Jerusalém, mas na década de 620 foram repelidos pelo imperador Heráclio I.

Por algum tempo, o domínio sassânida ampliou-se até o sudoeste da Arábia, onde o Reino do Iêmen perdera muito de seu antigo poder devido às invasões da Etiópia e a um declínio da agricultura. As sociedades organizadas governadas pelos impérios fervilhavam de interrogações sobre o sentido da vida e a maneira correta de vivê-la, expressas nos idiomas das grandes religiões.

O poder e a influência dos impérios afetaram partes da península Arábica, e por muitos anos os pastores árabes nômades do norte e do centro da península vinham se mudando para o campo da área hoje chamada de Crescente Fértil: o interior da Síria, a região a oeste do Eufrates no baixo Iraque e aquela entre o Eufrates e o Tigre (a Jazira) eram de população em grande parte árabe.

Eles trouxeram consigo seu ethos e suas formas de organização social. Alguns de seus chefes tribais exerciam a liderança com base em aldeias nos oásis, e eram usados pelos governos imperiais para manter outros nômades longe das terras ocupadas e para recolher impostos. Puderam, assim, criar unidades políticas mais estáveis, como a dos lakhmidas, com a capital em Hira, em uma região onde os sassânidas não exerciam controle direto, e a dos gassânidas, em uma região semelhante do Império Bizantino.

O povo desses estados adquiriu conhecimento político e militar, e abriu-se a ideias e crenças vindas das terras imperiais; Hira era um centro cristão. Por via desses estados, do Iêmen, e também dos mercadores que trafegavam pelas rotas comerciais, começou a entrar na Arábia um certo conhecimento do mundo externo e de sua cultura, além de alguns colonos de lá procedentes. Eram artesãos judeus, mercadores e cultivadores dos oásis do Hedjaz na Arábia Ocidental, e monges e convertidos cristãos na Arábia Central

O livro “Uma História dos Povos Árabes”, de autoria de Albert Hourani (704 páginas), lançado em 21/08/2006 pela Companhia de Bolso, narra a explosiva situação do Oriente Médio, com os intermináveis conflitos entre israelenses, palestinos e seus vizinhos, a guerra Irã-Iraque, a guerra do Golfo, o fortalecimento do fundamentalismo islâmico. Desde a Segunda Guerra, os árabes estão no centro das questões mais turbulentas de nossa época. No entanto, deles e de sua história sabemos muito pouco. É esta lacuna grave e lamentável que Uma história dos povos árabes vem sanar e meu curso Economia no Cinema, no primeiro semestre letivo de 2016, tentará remediar para os alunos do IE-UNICAMP.

Albert Hourani, durante décadas professor em Oxford, escreveu um livro de leitura obrigatória não apenas para os interessados nas raízes da atual crise internacional, mas para todos aqueles que têm curiosidade por uma cultura de extraordinária riqueza, cuja importância em termos mundiais só tende a aumentar. Reproduzo a Parte I – A Criação de um Mundo (Séculos VII-X) – abaixo.

No início do século VII, surgiu às margens dos grandes impérios, o Bizantino e o Sassânida, um movimento religioso que dominou a metade ocidental do mundo. Em Meca, cidade da Arábia Ocidental, Maomé começou a convocar homens e mulheres à reforma e à submissão à vontade de Deus, expressa no que ele e seus seguidores aceitavam como mensagens divinas a ele reveladas e mais tarde incorporadas num livro, o Corão.

Em nome da nova religião – o Islã –, exércitos recrutados entre os habitantes da Arábia conquistaram os países vizinhos e fundaram um novo Império, o Califado, que incluiu grande parte do território do Império Bizantino e todo o Sassânida, e estendeu-se da Ásia Central até a Espanha. O centro de poder passou da Arábia para Damasco, na Síria, sob os califas omíadas, e depois para Bagdá, no Iraque, sob os abácidas.

No século X, o Califado desmoronou, e surgiram califados rivais no Egito e na Espanha, mas a unidade social e cultural que se desenvolvera em seu interior continuou. Grande parte da população tornara-se muçulmana (ou seja, seguidores da religião do Islã), embora continuasse havendo comunidades judaicas e cristãs.

A língua árabe difundira-se e tornara-se o veículo de uma cultura que incorporava elementos das tradições dos povos absorvidos no mundo muçulmano, e manifestava-se na literatura e em sistemas de lei, teologia e espiritualidade. Dentro dos diferentes ambientes físicos, as sociedades muçulmanas desenvolveram instituições e formas distintas. As ligações estabelecidas entre países da bacia do Mediterrâneo e do oceano Índico criaram um sistema de comércio único, trazendo mudanças na agricultura e nos ofícios, proporcionando a base para o surgimento de grandes cidades, com uma civilização urbana expressa em edificações de um característico estilo islâmico.

Um Novo Poder em um Velho Mundo: O Mundo Em Que Os Árabes Surgiram
O mundo de Ibn Khaldun devia parecer eterno para a maioria dos que o compunham, mas ele próprio sabia que esse mundo havia substituído um anterior. Setecentos anos antes de seu tempo, os países que ele conhecia tinham tido uma face diferente, sob o domínio das “duas maiores potências da época”.

Durante muitos séculos, os países da bacia do Mediterrâneo tinham feito parte do Império Romano. Uma zona rural colonizada produzia grãos, frutas, vinho e azeite, e o comércio se efetuava ao longo de rotas marítimas pacíficas; nas grandes cidades, uma classe abastada, de origem variada, partilhava da cultura grega e latina do Império.

A partir do quarto século da era cristã, o centro do poder imperial mudara-se para leste. Constantinopla substituíra Roma como a capital; ali, o imperador era o foco da lealdade e o símbolo da coesão.

Mais tarde, surgira o que se chamou de “divisão horizontal“, que iria permanecer, sob outras formas, até o nosso tempo. Na Alemanha, Inglaterra, França, Espanha e norte da Itália, governavam reis bárbaros, embora ainda houvesse um senso de pertinência ao Império Romano. O sul da Itália, a Sicília, o norte da costa africana, o Egito, a Síria, a Anatólia e a Grécia permaneciam sob o governo imperial direto de Constantinopla.

Nessa forma encolhida, o Império era mais grego que romano. (Em suas fases posteriores, é mais comumente chamado de “bizantino” que de romano, segundo o antigo nome de Constantinopla, Bizâncio.) O imperador governava por meio de funcionários de língua grega; as grandes cidades do Mediterrâneo Oriental, Antióquia, na Síria, e Alexandria, no Egito, eram centros de cultura grega, e forneciam membros das elites locais para o serviço imperial.

Outra mudança, mais profunda, ocorrera. O Império tornara-se cristão, não apenas por decreto formal do soberano, mas por conversão em diferentes níveis. A maioria da população era cristã, embora filósofos pagãos ensinassem na escola de Atenas até o século VI, comunidades judaicas vivessem nas cidades, e lembranças de deuses pagãos ainda rondassem os templos transformados em igrejas.

O cristianismo dera uma nova dimensão à lealdade prestada ao imperador e um novo esquema de unidade para as culturas locais de seus súditos. As ideias e as imagens cristãs eram expressas nas línguas literárias das várias regiões do Império, e também no grego das cidades: armênio na Anatólia Oriental, siríaco na Síria, copta no Egito. Os túmulos de santos e outros locais de peregrinação podiam preservar, em forma cristã, as crenças e as práticas imemoriais de cada região.

As instituições politicamente autônomas das cidades gregas haviam desaparecido com a expansão da burocracia imperial, mas os bispos proporcionavam liderança local. Quando o imperador deixou Roma, o bispo da cidade, o papa, pôde exercer sua autoridade de uma maneira que seria impossível para os patriarcas e os bispos das cidades orientais romanas; embora estes estivessem estreitamente ligados ao governo imperial, ainda podiam expressar sentimentos locais e defender interesses locais.

O eremita ou o santo milagreiro, também, vivendo na periferia da cidade ou em regiões colonizadas na Anatólia ou na Síria, podia atuar como árbitro de disputas ou porta-voz da população local, e o monge no deserto egípcio dava exemplo de uma sociedade que diferia da do mundo secular urbano. Além da Igreja Ortodoxa oficial, surgiram outras, que diferiam dela em doutrina e prática, e davam expressão às lealdades e oposições à autoridade central daqueles de outra língua que não o grego.

As principais diferenças doutrinárias referiam-se à natureza de Cristo. O Concílio da Calcedônia, em 451, definira a segunda pessoa da Trindade como tendo duas naturezas, divina e humana. Essa era a formulação aceita pelo corpo principal da Igreja, no Oriente e no Ocidente, e defendida pelo governo imperial.

Só depois, aos poucos, e sobretudo em relação à questão da autoridade, foi que se deu a divisão entre a Igreja nos territórios bizantinos, a Igreja Ortodoxa Oriental, com seus patriarcas como chefes do sacerdócio, e os da Europa Ocidental, que aceitavam a autoridade suprema do papa em Roma.

Algumas comunidades, porém, sustentavam que Cristo tinha uma única natureza, composta de duas. Esta, a doutrina monofisista, era sustentada:

pela Igreja armênia na Anatólia,
pela maioria dos cristãos egípcios (conhecidos como “coptas“, do nome antigo do Egito) e
por muitos dos cristãos nativos, de língua siríaca, da Síria (conhecidos como ortodoxos sírios, ou “jacobitas“, do nome de seu mais destacado teólogo).
Outros faziam uma divisão ainda mais precisa entre as duas naturezas, a fim de manter a total humanidade de Jesus, e achavam que a Palavra de Deus estava no homem Jesus desde sua concepção. Essa era a doutrina daqueles comumente conhecidos como nestorianos, nome derivado do de um pensador identificado com a doutrina. A Igreja deles foi mais importante entre os cristãos do Iraque, além da fronteira oriental do Império Bizantino.

No século vii, surgiu mais um grupo, como resultado de uma tentativa de acordo entre a posição ortodoxa e a monofisista: os monoteletas, que defendiam que Cristo tinha duas naturezas, mas uma só vontade.

A leste do Império Bizantino, do outro lado do rio Eufrates, havia outro grande Império, o dos sassânidas, cujo domínio se estendia sobre o que é hoje o Irã e o Iraque, e entrava pela Ásia Central adentro. A terra hoje chamada de Irã ou Pérsia continha várias regiões de grande cultura, e cidades antigas habitadas por diferentes grupos étnicos, separadas umas das outras por estepes ou desertos, sem grandes rios para oferecer-lhes comunicações fáceis.

De tempos em tempos, tinham sido unidas por dinastias fortes e duradouras; a última fora a dos sassânidas, cujo poder original se assentava nos povos de língua persa do sul do Irã. Era um Estado familiar, governado por intermédio de uma hierarquia de funcionários, que tentou proporcionar uma base sólida de unidade e lealdade, revivendo a antiga religião do Irã, tradicionalmente associada com o mestre Zoroastro. Para essa religião, o universo era um campo de batalha, abaixo do Deus supremo, entre bons e maus espíritos; o bem venceria, mas homens e mulheres de virtude e pureza ritual podiam apressar a vitória.

Depois que Alexandre, o Grande, conquistou o Irã em 334-33 a.C., fazendo com que este estabelecesse ligações mais estreitas com o mundo do Mediterrâneo Oriental, as ideias do mundo grego avançaram para o Oriente, enquanto as de um mestre do Irã, Mani, que tentara incorporar todos os profetas e mestres em um único sistema religioso (conhecido como maniqueísmo), avançaram para o Ocidente.

Sob os sassânidas, a doutrina associada a Zoroastro foi revivida em moldes filosóficos, com mais ênfase no dualismo de bem e mal, e tendo uma classe sacerdotal e um culto formal; ficou conhecida como mazdaísmo ou zoroastrismo. Como Igreja do Estado, o mazdaísmo defendia o poder do soberano, visto como um rei justo, que preservava a harmonia entre as diferentes classes da sociedade.

A capital sassânida não ficava no planalto do Irã, mas em Ctesifonte, na fértil e populosa área do Irã Central, irrigada pelos rios Tigre e Eufrates. Além de zoroastrianos e seguidores de Mani, o Iraque tinha os cristãos da Igreja nestoriana, que eram importantes no serviço público. Essa área era também o principal centro do ensino religioso judaico, e um refúgio para filósofos pagãos e cientistas médicos das cidades gregas do mundo mediterrâneo.

Várias formas da língua persa ali disseminavam-se; a forma escrita usada na época é conhecida como pálavi. Também disseminado estava o aramaico, uma língua semita ligada ao hebraico e ao árabe, e corrente em todo o Oriente Médio na época; uma de suas formas é conhecida como siríaco.

Os dois impérios incluíam as principais regiões de cultura e civilização da metade ocidental do mundo. Porém, mais ao sul, dos dois lados do mar Vermelho, havia duas outras sociedades com tradições de poder e cultura organizados, mantidos pela agricultura e o comércio entre o oceano Índico e o Mediterrâneo.

Uma delas era a Etiópia, um reino antigo, que tinha o cristianismo em sua forma copta como religião oficial. A outra era o Iêmen, no sudoeste da Arábia, uma terra de férteis vales montanheses e ponto de trânsito do comércio de longa distância. A certa altura, seus pequenos estados locais haviam sido incorporados em um reino maior, que enfraquecera quando o comércio declinara no início da era cristã, mas revivera depois.

O Iêmen tinha sua própria língua, diferente do árabe falado em outras partes da Arábia, e sua própria religião: uma multiplicidade de deuses, servidos por sacerdotes em templos que eram locais de peregrinação, oferendas votivas e prece privada (mas não comunal), além de ser também centros de grande riqueza.

Nos séculos seguintes, influências cristãs e judaicas vieram da Síria, pelas rotas comerciais, ou do outro lado do mar, da Etiópia. No século VI, um núcleo de cristianismo fora destruído por um rei atraído para o judaísmo, mas invasões originárias da Etiópia haviam restaurado certa influência cristã; tanto os bizantinos como os sassânidas envolveram-se nesses acontecimentos.

Entre os grandes impérios do norte e os reinos do mar Vermelho, ficavam terras de uma espécie diferente. A maior parte da península Arábica era estepe ou deserto, com oásis isolados contendo água suficiente para cultivo regular. Os habitantes falavam vários dialetos do árabe e seguiam diferentes estilos de vida. Alguns eram nômades criadores de camelos, carneiros ou cabras, dependendo dos escassos recursos de água do deserto; eram tradicionalmente conhecidos como “beduínos“. Outros eram agricultores estabelecidos, cuidando de suas safras ou palmeiras nos oásis, ou então comerciantes e artesãos em pequenos vilarejos que sediavam feiras. Outros ainda combinavam mais de um meio de vida.

O equilíbrio entre povos nômades e sedentários era precário. Embora fossem uma minoria da população, eram os nômades dos camelos, móveis e armados, que, juntamente com os mercadores das aldeias, dominavam os lavradores e os artesãos. O ethos característico deles – coragem, hospitalidade, lealdade à família e orgulho dos ancestrais – também predominava. Não eram controlados por um poder de coerção estável, mas liderados por chefes que pertenciam a famílias em torno das quais se reuniam grupos de seguidores mais ou menos constantes, manifestando sua coesão e lealdade no idioma da ancestralidade comum: tais grupos são em geral chamados de tribos.

O poder dos chefes tribais era exercido a partir dos oásis, onde mantinham estreitas ligações com os mercadores que organizavam o comércio através do território controlado pela tribo. Nos oásis, porém, outras famílias podiam estabelecer um tipo diferente de poder, pela força da religião.

A religião dos pastores e dos agricultores parece não ter tido uma forma clara. Julgava-se que deuses locais, identificados com objetos no céu, se incorporavam em pedras, árvores e outras coisas naturais; acreditava-se que bons e maus espíritos corriam o mundo em forma de animais; adivinhos afirmavam falar com a língua de um saber sobrenatural.

Sugeriu-se, com base em práticas modernas no sul da Arábia, que eles achavam que os deuses habitavam um santuário, um haram, um lugar ou aldeia separados do conflito tribal, que funcionava como centro de peregrinação, sacrifício, encontro e arbitragem, e era supervisionado por uma família sob a proteção de uma tribo vizinha. Essa família podia obter poder ou influência fazendo hábil uso do prestígio religioso, de seu papel de árbitro em disputas tribais e de suas oportunidades de comércio.

Por todo o Oriente Próximo, muita coisa estava mudando no século VI e início do VII. O império Bizantino e o Sassânida empenhavam-se em longas guerras, que se estenderam, com intervalos, de 540 a 629. Guerras travadas sobretudo na Síria e no Iraque; em uma ocasião, os exércitos sassânidas chegaram até o Mediterrâneo, ocupando as grandes cidades de Antióquia e Alexandria, além da cidade santa de Jerusalém, mas na década de 620 foram repelidos pelo imperador Heráclio I.

Por algum tempo, o domínio sassânida ampliou-se até o sudoeste da Arábia, onde o Reino do Iêmen perdera muito de seu antigo poder devido às invasões da Etiópia e a um declínio da agricultura. As sociedades organizadas governadas pelos impérios fervilhavam de interrogações sobre o sentido da vida e a maneira correta de vivê-la, expressas nos idiomas das grandes religiões.

O poder e a influência dos impérios afetaram partes da península Arábica, e por muitos anos os pastores árabes nômades do norte e do centro da península vinham se mudando para o campo da área hoje chamada de Crescente Fértil: o interior da Síria, a região a oeste do Eufrates no baixo Iraque e aquela entre o Eufrates e o Tigre (a Jazira) eram de população em grande parte árabe.

Eles trouxeram consigo seu ethos e suas formas de organização social. Alguns de seus chefes tribais exerciam a liderança com base em aldeias nos oásis, e eram usados pelos governos imperiais para manter outros nômades longe das terras ocupadas e para recolher impostos. Puderam, assim, criar unidades políticas mais estáveis, como a dos lakhmidas, com a capital em Hira, em uma região onde os sassânidas não exerciam controle direto, e a dos gassânidas, em uma região semelhante do Império Bizantino.

O povo desses estados adquiriu conhecimento político e militar, e abriu-se a ideias e crenças vindas das terras imperiais; Hira era um centro cristão. Por via desses estados, do Iêmen, e também dos mercadores que trafegavam pelas rotas comerciais, começou a entrar na Arábia um certo conhecimento do mundo externo e de sua cultura, além de alguns colonos de lá procedentes. Eram artesãos judeus, mercadores e cultivadores dos oásis do Hedjaz na Arábia Ocidental, e monges e convertidos cristãos na Arábia Central.

 

 

 

 

 

 

 

 

https://fernandonogueiracosta.wordpress.com

Um Neruda por semana # 3 – A vida

Que outro se preocupe com os ossários…

O mundo

tem uma cor nua de maçã: os rios

arrastam um caudal de medalhas silvestres

e em todas as partes vive Rosalía, a doce,

e Juan, o companheiro…

Ásperas pedras fazem

o castelo, e o barro mais suave que as uvas

com os restos do trigo fez minha casa.

Vastas terras, amor, sinos lentos,

combates reservados à aurora,

cabeleiras de amor que me esperaram,

depósitos adormecidos de turquesa:

casas, caminhos, ondas que constroem

uma estátua varrida pelos sonhos,

padarias na madrugada, relógios educados na areia,

papoulas do trigo circulante,

e estas mãos escuras que amassaram

os materiais de minha própria vida:

para viver acendem-se as laranjas

sobre a multidão dos destinos!

Que os coveiros escarvem as matérias

aziagas: que levantem

os fragmentos sem luz da cinza,

e falem do idioma do verme.

Diante de mim só tenho sementes,

desenvolvimentos radiantes e doçura.

Um Neruda por semana #2

Inundações

Os pobres vivem embaixo esperando que o rio se levante à noite e os leve para o mar.

Vi pequenos berços que flutuavam, destroços de vivendas, cadeiras, e uma cólera augusta de lívidas águas em que se confundem o céu e o terror

Só é para ti, pobre, para tua esposa e tua sementeira, para teu cão e tuas ferramentas, para que aprendas a ser mendigo.

A água não sobe até as casas dos cavalheiros cujos nevados pescoços voam das lavanderias.

Come este lodo de roldão e estas ruínas que nadam com teus mortos vagando docemente para o mar, entre as pobres mesas e as perdidas árvores que vão de tombo em tombo mostrando as raízes.

Brad Delong, the MARXISTS AND THE LONG DEPRESSION

Há poucos dias eu publiquei uma tradução de um texto de Joseph Stiglitz sobre a recessão global. Publico, a seguir, um interessante artigo de Michael Roberts sobre o assunto. O blog do Michael Roberts é o “thenextrecession.wordpress.com. Independentemente de quem está mais certo ou menos errado neste debate, o fundamental é entender em que mundo estamos envolvidos. As teses do Michael Roberts podem lançar alguma luz sobre o que está acontecendo hoje no Brasil. Boa leitura.

Paulo Martins

Brad Delong,the Marxists and the Long Depression

Last week, I presented a paper at the annual meeting of the American Economics Association (ASSA) as part of a joint session between the AEA and the Union for Radical Political Economy (URPE). At this joint session, Marxist and heterodox economists presented papers and mainstream economists commented on them as ‘discussants’.

My paper was entitled ‘Depressions, recessions and recoveries’ (Recessions,depressions and recoveries 071215) and argued that the US and global economies were in a long depression that could be distinguished from a ‘normal’ capitalist economic recession because the economy did not return to the previous economic growth rate in the recovery from a slump. Instead, economic growth, employment and incomes grew sluggishly well below trend and economies slipped back into recession. Such depressions are rare; there have only been three: in the 1880s in Europe and the US; in the 1930s and now since 2008.

I argued in the paper that the main reasons the global economy is in a long depression are because the profitability of capital has not recovered and because corporate and public debt remains historically high, both weighing down on investment in technology to boost productivity and growth. A combination of depressionary factors had come together, not seen since the 1930s. One consequence of this depression is that no amount of mainstream policies like monetary boosts (QE) or fiscal stimulus (government spending) can turn things around. Regular readers of my blog will know that I have been pushing this thesis from several years (actually since 2009) and I have a book, entitled The Long Depression, coming out in the next month or so.

Now I was expecting that my discussant, Professor Brad Delong, a leading Keynesian economist at the University of Berkeley, California and a close associate of other Keynesians like Larry Summers and Paul Krugman, and a well-known economics blogger, would launch into a detailed critique of my paper. But no, Professor Delong made no comment at all on my paper.

But lo and behold just a few days later, Delong had an article in the Huffington post, called “Future Economists Will Probably Call This Decade the ‘Longest Depression’”. In this piece, it seems, that it was Joseph Stiglitz, not me or other Marxist economists like Anwar Shaikh, or even Paul Krugman (see various quotes in my paper) that have characterised the economy is being in a depression.

Delong comments “Unless something big and constructive in the way of global economic policy is done soon, we will have to change Stiglitz’s first name to “Cassandra” — the Trojan prophet-princess who was always wise and always correct, yet cursed by the god Apollo to be always ignored. Future economic historians may not call the period that began in 2007 the “Greatest Depression.” But as of now, it is highly and increasingly probable that they will call it the “Longest Depression.” Now that’s praise indeed for Nobel prize winner, Joseph Stiglitz.

Delong continues in his article “back before 2008, I used to teach my students that during a disturbance in the business cycle, we’d be 40 percent of the way back to normal in a year. The long-run trend of economic growth, I would say, was barely affected by short-run business cycle disturbances. There would always be short-run bubbles and panics and inflations and recessions. They would press production and employment away from its long-run trend — perhaps by as much as 5 percent. But they would be transitory. After the shock hit, the economy would rapidly head back to normal. The equilibrium-restoring logic and magic of supply and demand would push the economy to close two-fifths of the gap to normal each year. After four years, only a seventh of the peak disturbance would remain.”

But this was wrong, thanks to Stiglitz. Says Delong “In the aftermath of 2008, Stiglitz was indeed one of those warning that I and economists like me were wrong. Without extraordinary, sustained and aggressive policies to rebalance the economy, he said, we would never get back to what before 2008 we had thought was normal. I was wrong. He was right.” Okay, so we Marxist economists will get no credit from Delong for picking out the current state of the global economy as a depression. That apparently goes to mainstream economists like Stiglitz or Krugman, or Larry Summers with his ‘secular stagnation’ thesis.

At the joint AEA-URPE session, Brad Delong may not have commented directly on my paper but he did criticise the Marxist analysis based on profitability as being the mirror image of the right-wing, pro-banking sector wing of the mainstream. Delong said that former US treasury secretary Timothy Geithner during the Great Recession held to the view that economic policy must be devoted to restoring the ‘confidence fairy’ for big business and finance, thus opposing bank regulation or government interference in any way. The Marxists were the same because they argued that nothing could be done to turn an economy around unless the profitability of big capital rose. In a way, both were ‘waiting for Godot’ – my phrase not Delong’s.

That’s wrong, said Delong. Something can be done. We can’t wait for the economy to recover under its own steam as the likes of Stanford monetarist John Taylor or Martin Feldstein argued in a mainstream economic debate at ASSA – or apparently Marxist economists. We can solve it with economic policies now.

You see the problem is not profitability. As the great Joe Stiglitz said at the mainstream ASSA debate, the problem is the lack of demand bred by rising inequality of incomes and wealth, and/or secular stagnation caused by excessive savings. Delong again: “The problems we face now, Stiglitz points out, include “a deficiency of aggregate demand, brought on by a combination of growing inequality and a mindless wave of fiscal austerity.” He says the only cure is an increase in aggregate demand, far-reaching redistribution of income and deep reform of our financial system. The obstacles to this cure, he writes, “are not rooted in economics, but in politics and ideology.”

You see, we Marxists are wrong because there are policy actions that can put things right and yet we do not advocate them. Delong’s position sums up the view of the Keynesian ‘left’. The crisis in capitalism can be solved within capitalism in the usual ‘social democratic’ way through increased public spending and progressive taxation on inequality. In his article, Delong calls for “debt relief to unwind the overhang and 2) much tighter financial regulation to prevent the growth of new fragilities. And if those prove inconsistent with full recovery, then we need massive government spending on infrastructure and other investments financed by money printing until full employment is reattained.”

Those who read my blog regularly will know that I have attempted to show that the causes of the Great Recession and the ensuing Long Depression (first noticed by Joe Stiglitz according to Delong) were not a ‘lack of demand’ or rising inequality. (Does inequality causes crises). These are symptoms or descriptions of the crisis not the causes. The causes lie with the profitability of capital remaining so low and debt being so high, even after the Great Recession. Bank regulation, quantitative easing, fiscal stimulus in some countries and other measures have failed to get major economies back to pre-crisis trend growth.

Marxists are not opposed to bank regulation (but public ownership would be better); we are not opposed to progressive taxation and/or closing the tax gap (avoidance and evasion), or government spending on education, infrastructure or health. Such measures can only help labour at capital’s expense. But that is the point. Such measures will severely undermine the profitability of capital. So they are opposed by the ruling strategists of capital. ‘Social democratic’ reforms were conceded (reluctantly) to labour pressure in the ‘Golden Age’ of the 1950s and 1960s when the profitability of capital was high. But after profitability fell to lows by the early 1980s, the ‘neo-liberal’ counter-revolution of lower corporate taxes and taxes on the rich, bank deregulation, trade union restrictions and privatisation became the norm. This was no accident. It was done to drive up profitability with some success.

It is an illusion on the part of Delong and Stiglitz that capitalism is prepared to return to that era to save itself with ‘extra demand’. The ‘second coming’ of social democracy (to use Delong’s phrase) is not on the agenda. And anyway it would not work, in my view. Meanwhile the global economy stumbles on in its Long Depression, as discovered by Joseph Stiglitz and as revealed by the shocking start to the year for stock markets and economies globally.

O grande mal-estar continua, por Joseph Stiglitz

O Grande Mal-estar continua
NOVA YORK – O ano de 2015 foi um duro em todos os lugares. Brasil entrou em recessão. A economia da China experimentou seus primeiros solavancos graves após quase quatro décadas de crescimento vertiginoso. A zona do euro conseguiu evitar um colapso relativo à Grécia, mas a sua quase-estagnação tem continuado, contribuindo para o que certamente será visto como uma década perdida. Para os Estados Unidos 2015 deveria ser o ano em que finalmente fechou o livro sobre a Grande Recessão que começou em 2008; em vez disso, a recuperação dos EUA tem sido medíocre.
Na verdade, Christine Lagarde, Diretora Gerente do Fundo Monetário Internacional, declarou o estado atual da economia global como o Novo Medíocre. Outros, remontando-se ao profundo pessimismo após o fim da II Guerra Mundial, temem que a economia global poderia cair em depressão, ou pelo menos em estagnação prolongada.

No início de 2010, eu avisei no meu livro Freefall, que descreve os acontecimentos que levaram à Grande Recessão, que, sem as respostas adequadas, o mundo arriscava-se a resvalar para o que eu chamei um grande mal-estar. Infelizmente, eu estava certo: Nós não fizemos o que era necessário, e nós acabamos precisamente onde eu temia.

A economia desta inércia é fácil de entender, e existem remédios facilmente disponíveis. O mundo enfrenta uma deficiência da demanda agregada, provocada por uma combinação de crescente desigualdade e uma onda irracional de austeridade fiscal.  

Aqueles no topo gastam muito menos do que aqueles na parte inferior, de modo que o dinheiro se move para cima, a demanda cai. E países como a Alemanha que consistentemente mantêm superávits externos contribuem significativamente para o problema fundamental da demanda global insuficiente.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos sofrem de uma forma mais suave do rigor fiscal vigente na Europa. Na verdade, cerca de 500.000 menos pessoas estão empregadas pelo setor público nos EUA do que antes da crise. Com a expansão normal no emprego do governo desde 2008, deveriam ter sido preenchidos mais de dois milhões de vagas.

Além disso, grande parte do mundo está enfrentando – com dificuldade – a necessidade de transformação estrutural: de indústria para serviços na Europa e América, e do crescimento liderado pelas exportações para uma economia doméstica dirigida pela demanda na China. Da mesma forma, a maioria das economias baseados em recursos naturais na África e na América Latina não conseguiu tirar proveito do boom dos preços das commodities sustentada pela ascensão da China para criar uma economia diversificada. Agora, eles enfrentam as consequências da depressão dos preços para os seus principais produtos de exportação.

Os mercados nunca foram capazes de fazer tais transformações estruturais facilmente, por conta própria.

Há enormes necessidades globais não satisfeitas que poderiam estimular o crescimento. A infra-estrutura por si só poderia absorver trilhões de dólares em investimento, não só é verdade no mundo em desenvolvimento, mas também nos EUA, que investe pouco em sua infra-estrutura central por décadas. Além disso, todo o mundo precisa equipar-se para enfrentar a realidade do aquecimento global.

Apesar dos nossos bancos estarem de volta a um estado razoável de saúde, eles demonstraram que eles não estão aptos a cumprir o seu propósito. Eles se destacam em exploração e manipulação de mercado; mas eles têm falhado em sua função essencial de intermediação. Entre os poupadores de longo prazo (por exemplo, os fundos soberanos e os poupar para a aposentadoria) e investimentos de longo prazo em infra-estrutura representa o nosso setor financeiro míope e disfuncional.

O ex-presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, disse uma vez que o mundo está sofrendo de um “excesso de poupança.” Talvez este tenha sido o caso se o melhor uso de poupança  do mundo fosse o investimento em casas de má qualidade no deserto de Nevada. Mas no mundo real, há uma escassez de fundos; até mesmo projetos com alto retorno social muitas vezes não conseguem obter financiamento.

A única cura para mal-estar do mundo é um aumento na demanda agregada.

Uma ampla redistribuição de renda ajudaria, assim como uma profunda reforma do nosso sistema financeiro – e não apenas para evitar a imposição de prejuízos para todos nós, mas também para obter dos bancos e de outras instituições financeiras o que é suposto eles fazerem: suprir poupança de longo prazo para as necessidades de investimento a longo prazo.

Mas alguns dos problemas mais importantes do mundo vão exigir investimento do governo. Tais gastos são necessários em infra-estrutura, educação, tecnologia, meio ambiente e para facilitar as transformações estruturais que são necessárias em todos os cantos da terra.

Os obstáculos a serem enfrentados pela economia global não estão enraizadas na economia, mas na política e na ideologia. O setor privado criou a desigualdade e a degradação do meio ambiente com o qual temos agora de contar. Os mercados não serão capazes de resolver estes e outros problemas críticos que eles criaram, ou restaurar a prosperidade, por conta própria. São necessárias políticas governamentais ativas.

Isso significa superar o fetichismo do déficit.

Faz sentido para países como os EUA e Alemanha, que podem tomar emprestado a taxas de juros negativas reais de longo prazo  tomar  emprestéstimos para fazer os investimentos que são necessários. Da mesma forma, na maioria dos outros países, as taxas de retorno sobre o investimento público excedem em muito o custo dos fundos.

Para os países cuja disponibilidade de empréstimos é limitado, há uma saída, com base no princípio de longa data do multiplicador do orçamento equilibrado: Um aumento nos gastos do governo acompanhado por aumento de impostos estimula a economia. Infelizmente, muitos países, incluindo a França, estão envolvidos em contrações de equilíbrio orçamentário.

Os otimistas dizem que 2016 será melhor do que 2015. Isso pode vir a ser verdade, mas apenas imperceptivelmente. A menos que se resolva o problema da insuficiente demanda agregada global, o grande mal-estar vai continuar.

Read more at https://www.project-syndicate.org/commentary/great-malaise-global-economic-stagnation-by-joseph-e–stiglitz-2016-01#R4F5cpCaolEayTo6.99

A revolução do envelhecimento

SciELO – Scientific Electronic Library Online

Ciência & Saúde Coletiva
versão On-line ISSN 1678-4561
Ciênc. saúde coletiva vol.20 no.12 Rio de Janeiro dez. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1413-812320152012.22542015
EDITORIAL

A revolução do envelhecimento

Réjean Hébert1
1Faculdade de Saúde Pública, Universidade de Montréal
O envelhecimento da população traz consigo significativas mudanças concernentes à importância relativa das doenças. Da situação que prevaleceu no século passado, quando eram preponderantes as doenças agudas, estamos agora passando para uma época em que as crônicas estão prevalecendo cada vez mais. O sistema de saúde centrado em hospitais, dos séculos XIX e XX, criado para lidar com as doenças agudas e, principalmente, com as infecciosas, é inadequado para a resposta às necessidades de tratamento continuado, por prazo extenso, dos doentes crônicos. Precisamos reorganizar o sistema de saúde de modo a centrá-lo no lugar onde cada pessoa vive, ou seja, em seu lar. O sistema de saúde deverá, portanto, mudar do atual modelo centrado em hospitais, para um modelo centrado na comunidade.

Tendo em vista que a maioria das doenças crônicas é evitável, a promoção da saúde e a prevenção da doença deverão merecer uma atenção prioritária. Promover hábitos saudáveis de vida é uma ação de fundamental importância para se diminuir os encargos futuros associados às doenças crônicas. Mas a ação de promover a saúde deve ir mais além, focando também na moradia, no emprego, na educação, na renda e no meio ambiente, questões estas que constituem determinantes fortes para a saúde.

O atendimento básico é essencial para se garantir um adequado seguimento dos pacientes portadores de doenças crônicas, permitindo acompanhar a evolução da doença e o ajustamento no tratamento, evitando-se assim a utilização indevida e a deterioração das salas de emergência e hospitais. Os médicos e outros profissionais de saúde deverão ser apoiados por equipes geriátricas, visando prover um atendimento especializado para os frágeis idosos que sofrem de declínio funcional e deterioração aguda. Os serviços geriátricos deverão estar disponíveis não apenas em instituições (como unidades de avaliação geriátrica ou unidades de reabilitação), mas também na comunidade [sob forma de day-hospitals (hospitais de atendimento abrangente em um mesmo dia), day-centers (centros de atendimento abrangente em um mesmo dia), clínicas ambulatoriais, e clínicas de reabilitação da memória].

O atendimento e os serviços necessários para atender às pessoas que sofrem de doenças crônicas vão além do tratamento médico e, por conseguinte, este deverá ter um papel mais marginal. A incapacitação por doença crônica constitui, hoje, o motivo principal da utilização de tratamentos e serviços de saúde. Nosso objetivo deverá ser o de otimizar a autonomia individual, reduzindo a incapacitação mediante o suporte necessário para atenuar as deficiências de cada indivíduo.

Os atuais sistemas de assistência médica estão muito longe de completar este processo de reorientação. Falta o acesso a serviços coordenados. A integração dos serviços de saúde e dos sociais, assim como a coordenação dos vários provedores envolvidos no atendimento de pessoas idosas frágeis constituem desafios significativos. Os modelos de plena integração, como o Programa de Assistência Abrangente para Idosos (PACE) nos Estados Unidos, ou de coordenação em assistência à saúde, como os Itens Preferenciais de Relatórios para Avaliações Sistemáticas e Meta-análises (PRISMA) que desenvolvemos, validamos e implantamos em Quebec, constituem soluções comprovadas para o aperfeiçoamento da continuidade na assistência à saúde.

O atendimento em casa é manifestamente insuficiente, proporcionando cuidadores informais que deveriam ser parceiros indispensáveis no sistema de assistência à saúde. No entanto, atualmente estão mais ou menos abandonados à sua própria sorte. Não recebem apoio e nem têm descanso. Sem o devido atendimento em casa, o idoso e sua família têm apenas uma opção: a assistência institucionalizada. Esta solução dispendiosa e não confiável chega com mais do que a sua própria quota de problemas, como a impessoalidade e as condições restritas, a ruptura da rede social, a transmissão de infecções, a separação de casais e as dificuldades para se recriar um ambiente satisfatório no lar. Há uma necessidade urgente de mudarmos a nossa abordagem, para passarmos a oferecer os serviços onde eles são necessários, no lar e suas imediações. Em vez de obrigar as pessoas a irem onde os serviços são prestados, os serviços deveriam se dirigir para o lugar onde as pessoas vivem. Este tipo de abordagem implica em um investimento de envergadura no apoio à autonomia das pessoas, e requer o estabelecimento de benefícios pecuniários ou em bens, com base nas necessidades da população, e não de acordo com o ambiente em que vivem. Para a cobertura do risco crescente de declínio funcional, planos públicos de longo prazo, voltados para o seguro-saúde, têm sido desenvolvidos por muitos países na Europa e na Ásia.

O envelhecimento da população implica em uma verdadeira revolução na assistência à saúde e nas práticas profissionais. Será que estamos dispostos a mudar?

Réjean Hébert
Faculdade de Saúde Pública, Universidade de Montréal
Creative Commons License
Av. Brasil, 4036 – sala 700 Manguinhos
21040-361 Rio de Janeiro RJ – Brazil
Tel.: +55 21 3882-9153 / 3882-9151

cienciasaudecoletiva@fiocruz.br

A insatisfação de Narciso e a recusa do espelho

Por Ulysses Ferraz, em seu blog:

http://ulyssesferraz.blogspot.com.br

sábado, 11 de julho de 2015
A insatisfação de Narciso e a recusa do espelho
“A necessidade de governar por meio de representantes deixa para o povo o problema da escolha desses representantes.” (Dalmo de Abreu Dallari)

A democracia não é uma zona de conforto. É um espaço de conflitos, lutas e confrontação de valores. Exercer a cidadania é trabalhoso e desperta paixões. Mas somos quase sempre desinteressados ao escolhermos nossos representantes do poder legislativo. O debate gira praticamente em torno do poder executivo. Esquecemos que uma democracia se constrói com base na tripartição dos poderes.

Somos obcecados por presidentes, governadores e prefeitos mas é comum esquecermos da importância de nossos legisladores. O Congresso Nacional tem sido fonte de insatisfações e revoltas. A grande maioria de nós não se sente representada. Mas somente nós, na qualidade de eleitores, podemos efetivamente mudá-lo.

Frequentemente nosso papel de cidadão tem sido substituído pelo papel de consumidor. Quando consumimos, temos a legitimidade e o direito de exigir que o fornecedor entregue o produto ou o serviço de acordo com o combinado entre as partes. No entanto, consumidores não participam do processo produtivo dos bens e serviços que consomem. Ao menos não diretamente. Há um claro distanciamento entre o consumidor e o processo produtivo. E, se há algum descumprimento de contrato por parte do fornecedor, dispomos de proteção legal e temos o direito de exigir o que nos foi prometido na relação de consumo.

No exercício da cidadania, mimetizamos o papel de consumidores insatisfeitos. Entretanto, na qualidade de cidadãos, somos parte da realidade social que construímos, ainda que por meio de representantes eleitos. É uma diferença sutil, mas fundamental. O exercício da cidadania é muito mais complexo que uma relação de consumo. Enquanto o consumidor é mero usuário e não participa do processo produtivo daquilo que consome, o cidadão, por sua vez, é coprodutor da realidade política, econômica e social de um país. Ainda que esteja insatisfeito com a atividade legislativa, o cidadão é parte integrante do resultado final.

No entanto, estamos mais bem preparados para o papel de consumidores do que de cidadãos. A sociedade de consumo nos treinou muito bem. Cotidianamente. E embora haja uma diferença fundamental entre os papéis sociais de cidadão e consumidor, exercemos a cidadania de forma análoga ao modo como consumimos. Comportamento automático que nos tira a responsabilidade sobre os rumos do país. Nossas críticas ficam no campo do consumidor insatisfeito. O resultado são indignações que, embora importantes, são insuficientes ao pleno exercício da cidadania. Reivindicamos todos os direitos de cidadão mas nos eximimos das obrigações correspondentes. Somos intocáveis e em nada tocamos. Assim, ficamos purificados de toda culpa.

Temos uma enorme capacidade de esquecer que o Congresso Nacional, alvo de tantas indignações e revoltas, foi democraticamente eleito por nós. Nossos legisladores refletem, para o bem ou para o mal, a sociedade que somos. Mas por alguma razão, trata-se de um espelho ao qual temos nos recusado a olhar. Insatisfeitos com a imagem refletida, viramos o rosto e ignoramos o fato de que o reflexo não representa nada além de nós mesmos. De tempos em tempos trocamos os espelhos. Alteramos as imagens refletidas. Ainda assim, somos nós quem o espelho impiedosamente reflete. Uma sociedade narcisista mas insatisfeita com sua própria imagem.

Se estamos tão insatisfeitos, precisamos nos colocar a seguinte questão: que tipo de sociedade desejamos ser afinal? Uma sociedade segregada, individualizada, alienada, compartimentada, tecnicizada, desequilibrada, privatizada, terceirizada, encarcerada e, sobretudo, violenta? Sociedades são construídas mediante decisões tomadas pelos indivíduos que a compõem. Não são abstrações. São construções. Escolhas. Escolhas implicam liberdade. Liberdade implica responsabilidade. Se eleitores são livres para votar, eleitores são também responsáveis pela construção de um país melhor. E se somos eleitores, a responsabilidade é nossa. Uma responsabilidade intransferível.

Zumbis afetivos, por Ulysses Ferraz

Publicado por Ulysses Ferraz em seu blog:

http://ulyssesferraz.blogspot.com.br/

quinta-feira, 11 de junho de 2015
Zumbis afetivos
“Nenhum homem é uma ilha.” (John Donne)

Vivemos num mundo regido pelo mercado. Os efeitos sociais mais devastadores são a degradação ambiental, a concentração de renda e o individualismo extremo. Uma sociedade instrumental que se comporta como um circuito integrado na busca incansável de reproduzir a si mesma. Uma lógica que monetariza os valores éticos, precifica as relações, calcula os custos, analisa os benefícios e contabiliza os resultados. Viver é consumir. Consumir é viver. O medo do fracasso econômico e a esperança de sucesso material vivem em constante tensão. Os meios determinam os fins. E os fins justificam tudo. Sociedade brutalizada. Indivíduo isolado.

Ninguém escapa ileso. Nossas essências são neutralizadas. O comportamento individualista se naturaliza. A competição desenfreada, a corrida cotidiana por acumular o quer que seja, a indiferença em relação a tudo que não nos dê um retorno quantificável, o consumismo de bens e pessoas, a descartabilidade das relações, tudo isso acreditamos ser parte da natureza humana. Somos assim. Convencemo-nos disso. É cada um por si e todos por nenhum. A violência do individualismo está por toda parte.

Na vida cotidiana os exemplos afloram sem nos darmos conta. Os livros mais vendidos são os de autoajuda. As peças teatrais de maior sucesso são monólogos. Não perdemos a oportunidade de tirar um selfie. Grande parte dos serviços que contratamos estão disponíveis pelo sistema de autoatendimento. Terapeutas de todas as linhas nos aconselham a cuidarmos primeiro de nós mesmos. Depois o outro. O egoísmo é um sentimento glorificado. Nossa vida é uma autogestão baseada em resultados. Só retornamos ligações ou respondemos mensagens eletrônicas se houver algum tipo de retorno sexual, carreirístico ou financeiro. Caso contrário, indiferença.

Somos empreendedores individuais nas nossas vidas. Somos indivíduos-empresa. Protótipos da revista Você S.A. Assimilamos a linguagem corporativa até nas nossas relações afetivas. Investimos nas relações. E quem investe, espera um retorno maior do que o capital imobilizado. Quem investe espera retornos que superam os riscos. Quem investe espera lucros crescentes. Caso contrário, muda o investimento. No prazo mais curto possível.

A cooperação e o coletivismo foram extintos do nosso vocabulário. A competição e o individualismo reinam soberanos, oligopolistas, como as grandes corporações que os estimulam. Devoramos e somos devorados o tempo inteiro. Mas ao contrário da utopia antropofágica de Oswald de Andrade, do outro, não retemos nada. Descartamos tudo e nos deixamos descartar. O descarte nos dá prazer. E dor.

Funcionamos cada vez mais como zumbis econômicos e afetivos. E no fim do dia, não compreendemos porque vivemos uma vida (des)afetiva. Vazia e profundamente solitária. Também é uma questão de linguagem. Nossos discursos começam e terminam invariavelmente na primeira pessoa. Do singular.
Postado por ulysses ferraz às 07:08

OS PATOS: a festa do dia dos trabalhadores da FIESP

Pato 1:
Tá rico, né? Andando com o pessoal da FIESP, aparecendo na mídia, faturando direito de imagem, candidatura a mandato político …

Pato 2:
Que nada. A FIESP me trata com a mesma consideração com que trata seus funcionários.

Pato 1:
Mas esses empresários são poderosos. Têm grana, fazendas, jatinhos, conta no exterior e assessores de “planejamento tributário”. Você não está sabendo valorizar o seu trabalho.

Pato 2:
Tem muitos concorrentes … Na última passeata da oposição tinha mais pato inflado do que manifestante. Estou pensando em entrar para a Força Sindical: show sertanejo, sorteio de automóveis no 1o. de maio … Legal, né?

Pato 1:
Quack.

Adam Smith, muito além da mão invisível

Ulisses Ferraz tem um blog que publica artigos muito interessantes. O endereço do blog é : ulyssesferraz.blogspot.com.br. O artigo que publicamos foi publicado pelo Ulysses em 10/06/2015. Vale a pena compartilhar, o que faço com prazer. Recomendo diversos outros artigos do Ulysses, sempre profundos, claros e sobre assuntos relevantes.

Paulo Martins

Quarta-interesse feira, 10 de junho de 2015

Adam Smith, muito além da mão invisível
“Assim como Karl Marx é uma fonte de conhecimento social demasiado valiosa para ser deixado como propriedade exclusiva dos comunistas, Adam Smith é demasiado sábio e divertido para ser relegado aos conservadores, poucos dos quais alguma vez o leram.” (John Kenneth Galbraith)

Os liberais conservadores, ou neoliberais, inspirados nos economistas clássicos, frequentemente citam como referência para suas ideias Adam Smith, filósofo e economista clássico do século XVIII. Para os novos arautos do pensamento liberal, que escrevem diariamente em jornais, blogs e revistas, Adam Smith é uma espécie de mentor intelectual, que teria oferecido fundamentação teórica para a ideia de que as desigualdades sociais seriam algo natural e inerente à condição humana. Nada mais equivocado.

Adam Smith, de fato, foi um liberal e sempre defendeu a superioridade do livre mercado em relação a outras formas de organização econômica. Seu alvo principal era o mercantilismo. Mas uma leitura atenta de sua obra nos mostra que sua formação humanística e filosófica o tornava um pensador muito mais sutil e sofisticado, que compreendia as nuances e contradições do funcionamento de uma economia de mercado, embora fosse seu defensor mais notável.

Seu livro mais célebre, A Riqueza das Nações, é uma espécie de bíblia, que os neoliberais adoram citar, mas que dele provavelmente só leram a passagem da mão invisível, a qual transcrevo a seguir: “Orientando sua atividade de tal maneira que sua produção seja de maior valor, o mercador ou o comerciante visa apenas seu próprio ganho e, neste, como em muitos outros casos, é levado como que por uma mão invisível a promover um objetivo que não fazia parte de suas intenções. Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente promovê-lo”.

No debate acadêmico dos pesos pesados da economia atual, há uma tendência a refutar a hipótese da “mão invisível”. Joseph E. Stiglitz, vencedor do prêmio Nobel de Economia em 2001, e outros teóricos importantes, demostraram, em farta literatura, que os mercados livres frequentemente não só conduzem à injustiça social, mas sequer produzem resultados eficientes.

Mas a despeito de todas as críticas à ideia da mão invisível, vale a pena ler o texto de A Riqueza das Nações na íntegra. Além de muito bem escrito, há diversas passagens no livro em que o autor faz uma análise crítica sobre a propriedade privada, admite a existência de um conflito de classes e da formação de monopólios. Essas passagens oferecem uma visão mais ampla do pensamento do autor, que vai além da frequentemente citada pelos nossos (de)formadores de opinião. Vejamos:

“O governo civil, instituído com a finalidade de oferecer segurança à propriedade, é, na realidade, instituído para defender o rico do pobre ou os que têm alguma propriedade dos que não têm propriedade nenhuma”.

“Os salários correntes do trabalho dependem do contrato estabelecido entre duas partes, cujos interesses não são, de modo algum, idênticos. Os trabalhadores desejam obter o máximo possível; os patrões, dar o mínimo. Os primeiros se unem para elevá-los; os segundos, para rebaixá-los. Não é difícil, no entanto, prever qual das partes vencerá na disputa e forçará a outra a aceitar suas condições. Os patrões, ao serem em menor número, podem se unir facilmente”.

“Além disso, em tais confrontos, os patrões podem resistir durante muito mais tempo. Um proprietário de terras, um colono, um comerciante ou um fabricante podem, normalmente, viver um ano ou dois com os capitais que já adquiriram, sem ter que empregar nenhum trabalhador. Em troca, muitos trabalhadores não poderiam subsistir uma semana, alguns poucos poderiam fazê-lo durante um mês, e um número escasso deles poderia viver durante um ano sem emprego. Ao longo prazo, o trabalhador é tão necessário para o patrão como este o é para ele, mas a necessidade do patrão não é tão imediata”.

“O interesse dos empresários, porém, em qualquer ramo de comércio ou indústria é sempre, em alguns aspectos, diferente e até mesmo oposto ao interesse do povo… Seu interesse é sempre diminuir a concorrência… Mas isso sempre será contrário… (aos interesses do povo), e só poderá servir para permitir que os empresários, aumentando seus lucros para níveis maiores que o normal, cobrem, em proveito próprio, um imposto absurdo do resto de seus concidadãos”.

Em outro livro importante, intitulado Teoria dos Sentimentos Morais, Adam Smith faz uma constatação categórica, que contradiz a suposição corrente de que seu pensamento não levava em conta as mazelas da desigualdade social. Smith diz que “nenhuma sociedade pode florescer e ser feliz enquanto parte de seus integrantes for pobre e miserável”. E arremata: “A disposição de admirar, quase idolatrar os ricos e poderosos, e desprezar as pessoas de condições precárias e pobres é a maior causa universal da corrupção de nossos sentimentos morais”. Como se pode notar, a ideologia do “cada um por si e todos por nenhum” não faz parte do pensamento filosófico do autor.

Tony Judt, em seu livro O Mal ronda a Terra, também nos oferece uma interpretação que ultrapassa a visão convencional sobre o pensador escocês, ao afirmar que “para Smith, a adulação crítica da riqueza pela riqueza não era apenas desagradável. Era uma característica potencialmente destrutiva da moderna economia comercial, que com o passar do tempo, a seu ver, mina as qualidades que o capitalismo precisa conter para se sustentar e nutrir”. No mesmo livro, Judt cita novamente Smith: “Sentir muito pelos outros e pouco por si; conter o egoísmo e exercitar os afetos benevolentes constituem a perfeição da natureza humana”. Na visão dos articulistas da grande mídia, uma frase como esta só poderia ser atribuível a algum lunático pensador da esquerda “retrógrada”. Jamais ao nobre “guru” da causa neoliberal.

Como podemos perceber, a obra de Adam Smith vai muito além da interpretação empobrecedora daqueles que hoje alegam ser seus herdeiros intelectuais. Somos bombardeados por opiniões superficiais de supostos especialistas da história do pensamento econômico, que não passam de leitores de orelhas de livros. Pessoas que propagam uma cultura de segunda mão, tão-somente para defender seus interesses mais mesquinhos. Com essa gente, todo cuidado é pouco. Melhor ir direto na fonte. Ler um clássico, inclusive os clássicos do pensamento econômico, é sempre uma dádiva.
Postado por ulysses ferraz às 05:21

Um Neruda por semana – 03/01/2016

Reúne-se o aço (1945)

Vi o mal e o mau, mas não em seus covis.

É uma história de fadas a maldade com caverna.

Aos pobres depois de terem tombado em farrapos,

à mina desgraçada, povoaram-no com bruxas o caminho.

Encontrei a maldade sentada nos tribunais: no Senado a encontrei vestida e penteada, torcendo os debates e as idéias para os próprios bolsos. O mal e o mau acabavam de sair do banho: estavam encadernados em satisfações, e eram perfeitos na suavidade de seu falso decoro. Vi o mal, e para desterrar esta pústula vivi com outros, acrescentando vidas, fazendo-me secreta cifra, metal sem nome, invencível unidade de povo e pó. O orgulhoso estava feramente combatendo em seu armário de marfim e passou a maldade em meteoro dizendo: “É admirável a sua solitária retidão. Deixai-o”. O impetuoso tirou o seu alfabeto e montado em sua espada se deteve a perorar na rua deserta. Passou o mal e lhe disse: “Que valente!”

e se foi ao clube para comentar a façanha.

Mas quando fui pedra e argamassa, torre e aço, sílaba associada: quando apertei a mão de meu povo e fui ao combate com o mar inteiro; quando deixei a minha solidão e pus o meu orgulho no museu, a minha vaidade no desvão das carruagens desengonçadas, quando me fiz partido com outros homens, quando se organizou o metal da pureza, então veio o mal e disse: “Duro com eles, no cárcere, morram!” Mas já era tarde, e o movimento do homem, meu partido, é a invencível primavera, dura sob a terra, quando foi esperança e fruto geral para mais tarde.

Entrevista com Jessé de Souza, presidente do IPEA

Publicada em Carta Capital
Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sociólogo Jessé de Souza é conhecido pelo pensamento agudo e a argumentação desassombrada. Seu novo livro, A Tolice da Inteligência Brasileira, confirma essas características. Ao analisar o desenvolvimento do pensamento no e sobre o País, Souza não poupa ninguém, nem mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Segundo ele, o pensamento culturalista brasileiro tornou-se um instrumento das elites para influenciar a classe média na demonização das instituições e da classe política, o que esconderia a verdadeira intenção da parcela mais rica do País: apropriar-se novamente do Estado brasileiro.

Na entrevista a seguir, Souza também critica o conceito de nova classe média criado por seu antecessor no Ipea, Marcelo Neri. Os setores médios tradicionais, argumenta, possuem privilégios não materiais inacessíveis aos novos trabalhadores. Essa classe média tradicional, acrescenta, é um dos três pilares da atual “gramática do golpe”. Os outros dois são a mídia e a Justiça, que substituiu as Forças Armadas nesta aliança.

CartaCapital: No livro A Tolice da Inteligência Brasileira, o senhor critica a perenidade dos mitos nacionais. A busca dessa identidade teria reforçado preconceitos sobre o brasileiro ser corrupto, levar tudo “no jeitinho”, ser hospitaleiro e amável, entre outros estereótipos. Neste ano de recrudescimento conservador no País, os mitos estão mais fortes?

Jessé de Souza: Os jornalistas, os professores e os livros no Brasil ainda recorrem a intelectuais que moldaram nossa interpretação em torno dessas questões. São ideias equivocadas, não valem um vintém do ponto de vista científico, mas convencem e mandam no País. Sempre que um governo popular chegou ao poder, as elites recuperaram o pensamento culturalista formulado desde 1933.

CC: O ano do lançamento de Casa-Grande e Senzala.

JS: Exato. A genialidade de Gilberto Freyre foi interpretar o País em uma comparação com os Estados Unidos, o grande outro do Brasil. Ele valorizou o encontro de raças e o classificou como um encontro de culturas. Como sempre perdíamos na comparação com os norte-americanos, era preciso criar um mito positivo, algo que a população pudesse aceitar e incorporar. Formulou-se então um mito que valoriza nosso corpo, sentimento e sexualidade. Embora absurdo, tendemos a aceitar que os norte-americanos e os europeus representam o espírito, a racionalidade, são mais produtivos e confiáveis, não são corruptos. Em Freyre, isso ainda é ambíguo.

Quando Sergio Buarque de Holanda reproduz esse mito no homem cordial, acaba por absorver apenas a parte negativa do antecessor, ao opor o homem cordial brasileiro ao homem racional norte-americano. Para pintar o Brasil como o país do atraso, os conflitos reais têm sido postos na sombra em nome de uma disputa entre Estado e mercado que passa a ser incensada. Não existe esse conflito. Cria-se esse falso certame para silenciar a luta de classes, na qual quem monopoliza o conhecimento e domina o capital cultural são as elites e a classe média.

CC: Embora não se veja dessa forma, a classe média brasileira é privilegiada?

JS: Sem dúvida. Apesar de não ter acesso ao capital econômico do 1% mais rico, a classe média tem uma herança invisível, como estímulos emocionais e a capacidade de concentração, algo que os pobres não têm. Muitos entram na escola como potenciais analfabetos funcionais, antes mesmo de sua trajetória escolar. O liberalismo defende que a escola pode resolver os problemas sociais. A questão não é, porém, apenas a qualidade do ensino, mas toda uma construção emocional, sentimental, de estar aberto ou não ao pensamento abstrato, ao cálculo, ao pensamento prospectivo. Nada disso é natural, é um privilégio. A classe média tem tempo para planejar sua carreira ao longo da vida. Por batalharem demais no presente, os trabalhadores precarizados não têm essa perspectiva.

CC: Há uma crítica no livro à prevalência do economicismo nas análises de Marcio Pochmann e Marcelo Neri, seus antecessores no Ipea, sobre a ascensão social dos últimos anos. Esse foco excessivo na criação de empregos e na distribuição de bens materiais tem pago um preço neste momento de crise econômica?

JS: Esse é o ponto principal. Até 2010, só se falava em nova classe média. Passei a defender então o conceito de nova classe trabalhadora precarizada. Os trabalhadores tradicionais têm diminuído, enquanto o capitalismo financeiro ergue uma classe trabalhadora para suas próprias necessidades, não somente no Brasil, mas na China, na Rússia, em todos os locais onde há quem se disponha a fazer de tudo por muito pouco. E são esses precarizados que cresceram entre nós.

Os governos petistas não fomentaram a formação de uma nova classe média. Os batalhadores continuam sem qualquer privilégio de nascimento. A grande herança desses últimos 15 anos foi a manutenção desse processo de ascensão dos excluídos para uma classe trabalhadora, mesmo precarizada. Há inclusão no mercado, emprego formal e a possibilidade de investimento em educação para os filhos dos batalhadores. É preciso mudanças consequentes para se formar uma classe trabalhadora qualificada com alta produtividade, o grande desafio para o Brasil deixar de ser um exportador de matéria-prima.

CC: Muitos dos novos trabalhadores têm ficado alheios à atuação sindical, e explicam sua ascensão social mais por méritos próprios ou pela intervenção divina do que pelo sucesso de políticas públicas. Isso fragiliza a base de apoio a um governo popular?

JS: Se a esquerda não construir uma alternativa, a única narrativa válida para os batalhadores será o pentecostalismo, que atrela em grande medida essa classe aos interesses de mercado. Isso não é, contudo, chapado. No Nordeste, essa classe percebe a relação da ascensão com os programas sociais, até porque lá a miséria anterior era muito maior. Sabem que devem a Lula. No Sudeste, a visão de que Deus ou o mérito pessoal foram mais relevantes é mais forte. Têm uma visão egoísta de mundo, atrelada a interesses de mercado. Essa própria classe não percebe quem são seus aliados políticos. O que mostra a pobreza de narrativa da própria esquerda.

CC: Sobre as manifestações de junho de 2013, seu livro afirma que o dia 19 foi a grande virada, com a formação de um novo pacto conservador. Como o senhor interpreta a atual crise política em face desse pacto?

JS: Existe uma estrutura, uma gramática do golpe no Brasil. Ele mudou, modernizou-se, mas mantém a mesma estrutura. O golpe precisa do “bumbo” tocado pela imprensa conservadora, do suporte da classe média e de um elemento constitucional para dar a aparência de legalidade à captura da soberania popular. Nos governos democráticos de Getúlio Vargas e João Goulart, esse elemento eram os militares, pois a Constituição previa a intervenção das Forças Armadas em caso de desordem. Essa gramática modernizou-se: não está ancorada mais na botina do general, mas na toga da lei. O elemento constitucional atual são as agências de controle, a Polícia Federal, os juízes justiceiros, postos para além do bem e do mal.

CC: Vivemos um momento crucial?

JS: É uma esquina da nossa história. Ou aprofundamos o que conquistamos nos últimos 15 anos, um processo abortado há 60 anos, ou voltamos a um Brasil governado para 20%, aquele erguido pelo golpe de 1964.

*Entrevista publicada originalmente na edição 876 de CartaCapital, com o título “O demolidor”