A insatisfação de Narciso e a recusa do espelho

Por Ulysses Ferraz, em seu blog:

http://ulyssesferraz.blogspot.com.br

sábado, 11 de julho de 2015
A insatisfação de Narciso e a recusa do espelho
“A necessidade de governar por meio de representantes deixa para o povo o problema da escolha desses representantes.” (Dalmo de Abreu Dallari)

A democracia não é uma zona de conforto. É um espaço de conflitos, lutas e confrontação de valores. Exercer a cidadania é trabalhoso e desperta paixões. Mas somos quase sempre desinteressados ao escolhermos nossos representantes do poder legislativo. O debate gira praticamente em torno do poder executivo. Esquecemos que uma democracia se constrói com base na tripartição dos poderes.

Somos obcecados por presidentes, governadores e prefeitos mas é comum esquecermos da importância de nossos legisladores. O Congresso Nacional tem sido fonte de insatisfações e revoltas. A grande maioria de nós não se sente representada. Mas somente nós, na qualidade de eleitores, podemos efetivamente mudá-lo.

Frequentemente nosso papel de cidadão tem sido substituído pelo papel de consumidor. Quando consumimos, temos a legitimidade e o direito de exigir que o fornecedor entregue o produto ou o serviço de acordo com o combinado entre as partes. No entanto, consumidores não participam do processo produtivo dos bens e serviços que consomem. Ao menos não diretamente. Há um claro distanciamento entre o consumidor e o processo produtivo. E, se há algum descumprimento de contrato por parte do fornecedor, dispomos de proteção legal e temos o direito de exigir o que nos foi prometido na relação de consumo.

No exercício da cidadania, mimetizamos o papel de consumidores insatisfeitos. Entretanto, na qualidade de cidadãos, somos parte da realidade social que construímos, ainda que por meio de representantes eleitos. É uma diferença sutil, mas fundamental. O exercício da cidadania é muito mais complexo que uma relação de consumo. Enquanto o consumidor é mero usuário e não participa do processo produtivo daquilo que consome, o cidadão, por sua vez, é coprodutor da realidade política, econômica e social de um país. Ainda que esteja insatisfeito com a atividade legislativa, o cidadão é parte integrante do resultado final.

No entanto, estamos mais bem preparados para o papel de consumidores do que de cidadãos. A sociedade de consumo nos treinou muito bem. Cotidianamente. E embora haja uma diferença fundamental entre os papéis sociais de cidadão e consumidor, exercemos a cidadania de forma análoga ao modo como consumimos. Comportamento automático que nos tira a responsabilidade sobre os rumos do país. Nossas críticas ficam no campo do consumidor insatisfeito. O resultado são indignações que, embora importantes, são insuficientes ao pleno exercício da cidadania. Reivindicamos todos os direitos de cidadão mas nos eximimos das obrigações correspondentes. Somos intocáveis e em nada tocamos. Assim, ficamos purificados de toda culpa.

Temos uma enorme capacidade de esquecer que o Congresso Nacional, alvo de tantas indignações e revoltas, foi democraticamente eleito por nós. Nossos legisladores refletem, para o bem ou para o mal, a sociedade que somos. Mas por alguma razão, trata-se de um espelho ao qual temos nos recusado a olhar. Insatisfeitos com a imagem refletida, viramos o rosto e ignoramos o fato de que o reflexo não representa nada além de nós mesmos. De tempos em tempos trocamos os espelhos. Alteramos as imagens refletidas. Ainda assim, somos nós quem o espelho impiedosamente reflete. Uma sociedade narcisista mas insatisfeita com sua própria imagem.

Se estamos tão insatisfeitos, precisamos nos colocar a seguinte questão: que tipo de sociedade desejamos ser afinal? Uma sociedade segregada, individualizada, alienada, compartimentada, tecnicizada, desequilibrada, privatizada, terceirizada, encarcerada e, sobretudo, violenta? Sociedades são construídas mediante decisões tomadas pelos indivíduos que a compõem. Não são abstrações. São construções. Escolhas. Escolhas implicam liberdade. Liberdade implica responsabilidade. Se eleitores são livres para votar, eleitores são também responsáveis pela construção de um país melhor. E se somos eleitores, a responsabilidade é nossa. Uma responsabilidade intransferível.

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