Argentina: aumento de até 600% na conta de luz

Isso é muito bom. É o que nos faz crer a reportagem de correspondente do jornal O Globo na Argentina, com esta manchete.

O teor da reportagem é extremamente favorável ao presidente argentino, como tudo que tem sido publicado ou transmitido pelo conglomerado Organizações Globo a respeito do novo governo de “lá”.

Quem pensa que a mídia comercial só se interessa pelo lado negativo de tudo? Isto é somente “cá”.

Quando a grande mídia comercial quer, ela sabe dar um tom positivo e otimista, mesmo nas situações mais desfavoráveis, como parece ser o caso do aumento de 200 a 600% nas contas de luz na Argentina.

Na matéria, a correspondente global enfatiza somente a “parte cheia do copo”, ou seja, o impacto positivo nas contas do governo argentino com a eliminação do subsídio. Nenhuma análise  um pouco mais aprofundada sobre os possíveis impactos inflacionários da medida ou efeitos no emprego e na situação das famílias e das empresas a serem afetadas pelos aumentos estratosféricos.

Energia elétrica é bem de primeira necessidade. A oferta deste bem não pode ser deixada nas mãos de monopólios sem regulação pois, normalmente, em cada região, os consumidores não podem escolher o seu fornecedor de energia elétrica. Os preços da energia elétrica não podem ser formados em mercados manipulados, especulativos e viciados.

Segundo a jornalista, trata-se do “primeiro passo de Macri para acabar com a política de subsídios ao setor elétrico aplicada nos quase 13 anos de kirchnerismo”. Futuramente, as contas de água e gás também deverão sofrer ajuste à realidade de mercado. Este é o jargão que eles usam quando querem dar uma conotação positiva para decisões polêmicas, tomadas por governos amigos.

Não estou discutindo, neste momento, o cerne das medidas do governo argentino. Não tenho informações suficientemente detalhadas e profundas para analisar a situação do sistema elétrico argentino. Sei que os apagões são constantes há muitos anos na Argentina. O setor foi privatizado e as empresas privadas monopolistas fornecedoras não foram capazes de solucionar o problema. Acesse o artigo  intitulado “Argentina: Apagón cuestiona las privatizações” publicado em http://www.ipsnoticias.net, em 1999, após as rodadas de privatizações na Argentina. Como poderão observar os problemas de energia da Argentina não foram resolvidos com privatização e aumento das tarifas.

O que estou discutindo é que, como o novo governo argentino é a “menina dos olhos” da grande mídia comercial, esta cortesã do Mercado consegue dar um tom positivo e de aprovação mesmo nas piores situações. Quando lhe interessa, ela sabe fazer.

Por outro lado, no caso do Brasil, os fatos que poderiam receber tratamento neutro e justo, são distorcidos para ajustarem-se à reportagem que deverá ter, sempre, tratamento reprovador e negativo, previamente decidido nas reuniões de pauta. Os textos, as entrevistas e declarações que servem de recheio dos artigos e reportagens visam apenas provar a tese previamente definida. Não importa o conteúdo. Vivem de venda de manchetes.

Assusta a falta de compostura configurada nas manchetes de jornais e revistas, e nas chamadas dos telejornais da mídia comercial. Eles sabem que a grande maioria dos brasileiros não lê seus artigos. Basta a manchete para formarem sua opinião.

Luís Nassif apresentou, em artigo publicado na Carta Maior, seu diagnóstico sobre a doença que nos assola:

É inacreditável como o mundo politico e jornalístico despregou-se totalmente do mundo real. Parecem vaqueiros bêbados e armados em saloons do Velho Oeste, atirando em qualquer sombra que passe pela porta. É tão grande o vácuo de ideias, que a institucionalidade se rege, agora, pelas manchetes de jornais.

E o oportunismo dos jornais, de abrir espaço para qualquer asneira, praticamente matou os filtros que poderiam permitir um mínimo de racionalidade nas discussões políticas e econômicas.

Só nos resta discutir, questionar, desmascarar …

Foto: geradores à venda nas lojas de eletrodomésticos na Argentina

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