O mito da neutralidade em economia e da receita de bolo neoliberal

No texto de apresentação do livro História do Pensamento Econômico, de E.K. Hunt, da Editora Campus, 2a. Edição, 2005, o professor M. C. Howard, do Departamento de Economia da Universidade de Waterloo, Canadá, destaca pontos relevantes da economia e a importância do estudo da História do Pensamento Econômico.

Nestes tempos de desonestidade intelectual e de golpes político-midiáticos perpetrados para viabilizar a implantação de uma agenda de cassação de direitos, de retrocesso social, de alienação do patrimônio público e de desnacionalização da economia – veja a notícia de hoje da venda de uma fatia do pré-sal para uma empresa norueguesa – é necessário, mais do que nunca, mostrar com fatos e argumentos que o que nos trouxe até a atual crise econômica foi a receita econômica “mainstream’, agravada pela política econômica ortodoxa de Joaquim Levy e sua equipe.

O governo golpista de Michel Temer tenta resolver o estrago causado pela política econômica desastrosa de Levy dobrando a aposta, como se houvesse somente uma verdade dogmática em economia, o tal mantra neoliberal.

O estudo de história e, em especial da história da economia política e dos sistemas econômicos, é fundamental para não repetirmos o erro primário de se combater incêndio jogando gasolina no fogo e para encontrarmos solução para as nossas mazelas de curto prazo sem empenhar nosso futuro e destruir a vida das pessoas.

Segundo o professor Howard não deve haver nenhum ramo da ciência no qual é suficiente consultar somente os estudos mais recentes. Se houver, este não é o caso da Economia. Esta ciência apresenta problemas analíticos crônicos. As estruturas e os sistemas econômicos mudam e as forças causais antes relevantes podem deixar de ser, exigindo novas análises e estudos.

O desenvolvimento da teoria econômica responde, historicamente, à influência dos interesses econômicos. Os grupos dominantes da sociedade em cada época promovem e incentivam análises que apresentam seus papéis sob uma luz favorável, enquanto bloqueiam as análises conflitantes com seus interesses. Não surpreende, portanto, que a teoria econômica hegemônica tenha orientação conservadora, de acordo com a ideologia dos grupos dominantes.

Observar como isto se manifesta na história do pensamento é fundamental, seja para conservadores, seja para progressistas. Todos serão beneficiados se puderem ter consciência do que os leva a acreditar naquilo que acreditam.

A questão da influência dos valores éticos sobre a análise econômica é, também, muito discutida. A maioria dos economistas de hoje afirma que fatos e valores éticos são questões logicamente separadas. Basta observar a realidade e verificar a paixão com que políticos, economistas, curiosos e espertos econômicos discutem Economia para concluir que a possibilidade de gerar resultados puros, totalmente livres de valores, em ciências humanas, é praticamente impossível.

Todas as teorias devem se concentrar em determinados aspectos das relações econômicas. A seleção do que entra, do objeto de determinado estudo, implica na escolha do que será neglicenciado. O silêncio sobre o que ficou de fora pode também, obviamente, ter significado valorativo, ético. O estudo da história do pensamento econômico ajuda a desnudar este processo “seletivo-excludente” e os valores subjacentes em cada análise. Antes de prescrever fórmulas prontas como se fossem os únicos remédios disponíveis, o formulador de políticas econômicas deveria, em nome da honestidade profissional, deixar claro quais são as opções à disposição dos gestores políticos, que são os verdadeiros portadores do voto.

A teoria econômica tem muitos pontos inconvenientes. Os economistas contemporâneos têm uma propensão esperta de “esquecer” estes pontos. Por exemplo, muitos teóricos ortodoxos preferem estudar as transações voluntárias do comércio internacional e deixar de lado a globalização da economia mundial resultante da expansão do imperialismo. O mesmo ocorre com as questões ambientais e com os desequilíbrios sociais provocados pelo funcionamento normal dos sistemas econômicos excludentes. Pontos inconvenientes são deixados de fora para não atrapalhar a lógica simplista dos modelos de análise tradicionais. Se a realidade incomoda o modelo, revoga-se a realidade.

Sem dúvida, a ignorância da história, prática de boa parte dos economistas das escolas hegemônicas, gera erros de análise sistemáticos. Se isto ocorre com economistas profissionais, imagine os erros cometidos pelos espertos econômicos que nem treinamento em metodologia de pesquisa e conhecimento suficiente da ciência têm.

O estudo da história do pensamento econômico é, portanto, fundamental para desmentir o mito da neutralidade científica e deixar claro que não existe um único remédio para cura de todos os males econômicos, como querem fazer crer os cultores do mantra ortodoxo.

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s