Mulas-sem-Cabeça, Duendes, Pererês e a mão invisível

Você pode escolher não ouvir. Você pode escolher não ver. Você pode escolher ser omisso e alienado. Mas, nesse caso, sua opinião será desinformada e dogmática. Não será antecipadamente desprezível, claro. Você será lido, será ouvido mas, sinceramente, daria no mesmo se não fosse.

Se você ainda acha, como acham alguns poucos economistas jurássicos ainda existentes no mundo, crentes e fanáticos, que seguem esta antiga “seita” esotérica, que o mundo funciona hoje como Adam Smith o descreveu há 240 anos, siga em frente.

Você sempre será livre para acreditar em duendes, em mulas-sem-cabeça, no Saci-Pererê, na concorrência perfeita, no equilíbrio do mercado garantido pelo perfeito funcionamento do sistema de preços e pelos mercados desregulados.

Se você acredita em fantasmas, assombrações, vampiros e na mão invisível, siga em frente.

Se sua opção é considerar que os incêndios são resultados naturais do capitalismo avançado e que é melhor conviver com estes incêndios, pois assim está muito bom e que, portanto, não há nada a ser mudado, sigam, todos, em frente, condenados ao desemprego, ao subemprego e aos salários de subsistência.

Se você acha que a brutal desigualdade, que se aprofunda a cada dia, é natural e pode ser acomodada e absorvida pelos sistemas políticos. Se você acha que o tecido social resiste à tanta miséria, desigualdade, vida sub-humana, crimes e guerras, então deixa assim.

Se você acha que seu aprisionamento nas teias do mercado que domina todos os segmentos da vida em sociedade é ser livre, acomode-se e curta a sua gaiola de ouro simbólica.

Por outro lado, se diante das gritantes evidências, você começou a desconfiar que existem peças que não encaixam no modelo mental fornecido pela economia neoliberal, eu sugiro, existem opções.

Se você começou a desconfiar que a realidade dos últimos 30 a 40 anos da economia global vai na direção contrária ao que lhe ensinaram seus professores de economia e os espertos econômicos da grande mídia de interesses, eu lhe asseguro, as coisas do mundo não são assim por natureza, elas são criações sociais desenhadas assim, com objetivos finais bem claros. E, lamento informar, você será, mais cedo ou mais tarde, excluído do jogo.

A financeirização do mundo econômico atacou as principais economias globais e debocha, todos os dias, dos economistas neoliberais de todos os matizes. As mazelas, os problemas, insolúveis, estão presentes e evidentes demais para que as pessoas continuem fingindo normalidade.

Receitam jogar mais gasolina no fogo, para solucionar o grande incêndio que tomou conta da economia global. As fórmulas adotadas são sempre mais austeridade e mais recessão. Em uma parte do mundo, austericídio, com juros estratosféricos, em outra parte, mais austericídio com inundação monetária (quantitative easing).  Na corrida entre países para ultrapassar os demais no campeonato da produtividade, vão embora os empregos.

Na corrida pela concentração de renda e pela desigualdade crescente de riqueza e renda, vão embora os mercados.

Há um evidente descompasso entre o aumento das rendas e das riquezas dos proprietários dos meios de produção e dos rentistas, que representam parcela ínfima da população global,  e a estagnação ou lento aumento das rendas e riquezas dos proprietários de força de trabalho.

Hoje há, no mundo, um hiato, um “gap”, entre a necessidade de consumo e a renda disponível das pessoas para preencher este hiato. O buraco está sendo preenchido com endividamento global das famílias.

Nos países de juros extremamente baixos isto é tóxico, como demonstrou a crise do “subprime”, iniciada nos EUA em 2007/2008, que se alastrou pelo mundo nos anos seguintes. Nos países de juros estratosféricos, como o Brasil, isto é fatal.

Esperar que o mercado resolva as distorções que ele próprio, solto, irresponsável e desregulado causou no mundo todo a partir de 2007, é o mesmo que esperar que um viciado em crack encontre sua cura no aumento do consumo dessa droga. Não tem lógica.

Existem soluções. Começa pela eliminação da cultura do capital e do consumismo predatório. Pelo equilíbrio de nossas contas pessoais com a racionalização do consumo. Nosso bolso, nossa vida e a natureza agradecem. O ideal seria eliminar a propriedade individual dos meios de gerar riqueza, este seria o caminho lógico. Não sendo possível, que se comece com melhor distribuição da riqueza gerada pelo trabalho humano. Se começássemos a lembrar que somos todos seres humanos, ajudaria esse novo, necessário, pacto pela vida em sociedade. Bom, este seria o começo. O resto deveria ser uma construção coletiva, em mutirão. Imagine …

 

 

 

 

 

 

 

 

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