Compartilho excelente material do site violaobrasileiro.com, de autoria de Jorge Carvalho de Mello, sobre Paulinho Nogueira.

No final do artigo tem um link para um depoimento de Paulinho Nogueira e Toquinho.

Neste blog, em outro post, tem um vídeo com Paulinho Nogueira cantando Simplesmente.

Paulo Martins
Paulinho Nogueira
Nascimento
8 de Outubro de 1929
Falecimento
2 de Agosto de 2003
Naturalidade
Campinas (SP)
Grande estilista do violão, o autor de Menina e Bachianinha 1 é inventor da craviola, utilizada por Jimmy Page, e do famoso método
Por JORGE CARVALHO DE MELLO

Violonista, compositor, cantor e professor, Paulinho Nogueira é um grande estilista do violão, com uma maneira autêntica de tocar – muito suave e utilizando a polpa dos dedos da mão direita sem ataque de unha. Autor de sucessos como Menina e Bachianinha nº 1, é também o inventor da craviola, instrumento de 12 cordas de aço, que fez sucesso até fora do Brasil, utilizada por Jimmy Page, em músicas como Tangerine, do disco Led Zeppelin III.

O violonista escreveu ainda o famoso Método Paulinho Nogueira para Violão e Outros Instrumentos de Harmonia, considerado marco em termos de publicações para ensino de violão, desde o final da década de 1960 até meados dos anos 1980.

Família

Paulinho Nogueira nasceu em família muito musical. O avô, uma das primeiras pessoas em Campinas a ter vitrola e rádio, promovia memoráveis saraus em casa. Por diversas vezes, ainda menino, ouvia embevecido a pianista Guiomar Novaes. O pai tocava violão por música, interpretando peças de Barrios e Tárrega.

Os irmãos mais velhos, Celso e João, também tocavam violão. Nada mais natural que o garoto também se interessasse pelo instrumento. O irmão João Mendes Nogueira, foi-lhe o primeiro ídolo: advogado, pintor, escultor, poeta, folclorista e violonista, exerceu grande influência sobre Paulinho e lhe deu as primeira noções de violão quando ele tinha 11 anos.

Com João, Paulinho aprendeu desde as primeiras posições básicas no manejo do instrumento até algumas técnicas inovadoras – como a de usar o dedo indicador da mão direita com a mesma função dos dedos da mão esquerda, recurso que utilizaria amplamente em gravações futuras.

Formação

Percebendo a aptidão do filho para o instrumento, a mãe lhe arranjou um professor que lhe ensinasse violão por música. O escolhido foi Alfredo Scupinari, um professor de grande prestígio, que logo percebeu: Paulinho, apesar do enorme talento musical, não tinha a disciplina necessária para o estudo do violão por música. Foram três ou quatro meses de estudo, algumas valsas aprendidas e nada mais.

Durante esse período de incerteza, Paulinho se dedicou intensamente a outra paixão: o desenho. Pouco tempo depois, passou a integrar o grupo vocal Cacique, dirigido pelo outro irmão, Celso Mendes, conjunto nos moldes do Bando da Lua e Anjos do Inferno.

Com este grupo, do qual participava também Bob Nelson, apresentou-se em rádios e clubes de Campinas. Por volta de 1947, o jovem violonista formou o próprio conjunto, Os Príncipes Vocalistas, que se apresentava pela região e no qual Paulinho fazia apenas acompanhamentos e solos de violão.

Desenho e boate

Em 1952 mudou-se para São Paulo, onde passou a trabalhar como desenhista e também como violonista, apresentando-se na boate Itapoã e tocando nas rádios Bandeirantes e Gazeta. Em 1956 faz temporada no Bar Michel, em São Paulo, ao lado de Johnny Alf, e mereceu elogios de Fernando Lobo e Stanislaw Ponte Preta (Última Hora, 22/05/1956 – página 3, 2º caderno). Nessa época já possuía grande prestigio, sendo identificado como um ´violonista moderno´.

Em 1997, eu o entrevistei e perguntei sobre as influências que havia tido, Paulinho Nogueira respondeu:“O único ídolo que tive e que foi assim uma influência direta foi o Garoto (Anibal Augusto Sardinha). Eu escutava muito um programa na Rádio Nacional das 12h às 13h, logicamente ao vivo. Eu gostava muito de futebol, mas se fosse no horário do programa do Garoto, eu largava tudo e ia ouvir. Foi através do Garoto que comecei a perceber as possibilidades que o violão tem. Eu ouvia o programa dele já com o violão na mão. Conforme o acorde que ele fazia lá, eu procurava aqui. Ele me abriu um caminho enorme e a partir daí fui me modernizando”.

O primeiro disco, A Voz do Violão, gravado em 1958 pela Columbia, e lançado no ano seguinte, trazia o repertório que provavelmente Paulinho Nogueira tocava nas boates de São Paulo: eclético, o disco mistura hits americanos como All Things You Are e I Love Paris com Casinha Pequenina, Luar do Sertão e Índia.

A partir do segundo disco, até o quinto, todos pela RGE, Paulinho Nogueira toca repertório estritamente nacional, mesclando novas composições (bossa nova, principalmente) e antigas, incluindo também canções de autoria dele, como Menino Desce Daí, que fez grande sucesso nessa época.

Essa tentativa de conciliar o tradicional com o moderno esteve sempre presente na obra de Paulinho Nogueira. O sétimo disco, O Fino do Violão (1965), alude ao programa O Fino da Bossa, apresentado por Elis Regina na TV Record, do qual participou diversas vezes.

Craviola

Em 1969 começa a surgir o novo som de Paulinho Nogueira, por meio do disco Um Festival de Violão, onde se apresenta tocando novo instrumento: a craviola. Ele mesmo, com o talento de desenhista, projetou este “violão diferente”, que quebrava a simetria das curvas do violão tradicional – na parte de cima é como um alaúde e, na parte de baixo, um violão tradicional. Não são mais 6 cordas simples, e sim 6 cordas duplas (ou 12 cordas).

O disco foi um sucesso. O novo instrumento, também. Passou a ser fabricado em série pela Giannini e ganhou ilustres adeptos, como Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin, e o violonista Luiz Bonfá. Com este último houve incidente curioso. Assim como Paulinho Nogueira se reinventou com a craviola em 1969, Bonfá, que estava radicado nos Estados Unidos, fez o mesmo no ano seguinte com o disco The New Face of Bonfá, em que lançava um novo instrumento também chamado craviola.

Na mesma entrevista de 1997, Paulinho Nogueira se manifestou sobre a questão: “Um dia abro a revista O Cruzeiro, com duas ou três paginas sobre o Bonfá, ele na foto com uma craviola, e, no texto, dizendo: ‘Bonfá vem ao Brasil lançar sua craviola’. Eu fui para vários jornais, televisão, em São Paulo, no Rio e em Curitiba… depois ficou tudo esclarecido, o Bonfá é um cara fino, educado e inteligente. Uma vez ele foi lá em casa e nós tocamos, ele solando e eu acompanhando. Foi uma das melhores noites que passei.”

As manchetes nos jornais da época traduziram essa polêmica: “A craviola é minha” – Diário da Noite, 17/02/1972, e Violonistas disputam a craviola – Jornal do Brasil, 08/02/1972. O que mais incomodou Paulinho Nogueira nessa história foi o fato de seu nome, como inventor do instrumento, inclusive já patenteado e com vendas inclusive para o exterior, não ter sido citado por Bonfá nessa matéria publicada em O Cruzeiro.

Método

Um marco importante dessa época é o Método Paulinho Nogueira para Violão e Outros Instrumentos de Harmonia, lançado em 1968 – que representou, por muito tempo, o que de mais moderno existia no ensino do violão popular no Brasil. Tanto que fez um sucesso extraordinário, merecendo várias reedições, e coroou o esforço do grande professor de violão que era.

Mestre de violão desde o final dos anos 1950, Paulinho Nogueira teve em Toquinho o principal aluno.

Outro trabalho importante no campo da didática lançado por Paulinho Nogueira foi a fita em VHS Violões em Harmonia, trabalho pioneiro lançado em 1990, e que teve como sequência a série Solos de Violão.

Outros LPs

O disco Dez Bilhões de Neurônios, lançado em 1972, pode ser considerado de vanguarda. Fugia inteiramente ao padrão dos anteriores. Tematica de letra, estilo de musica mais moderna (por qual motivo?) O LP Moda de Craviola, de 1975, também apresenta algumas ousadias e abre espaço para o sobrinho Stenio Mendes executar na craviola a composição Linhas Tortas (autoria de Stenio).

O lançamento seguinte, Antologia do Violão, de 1976, traz novamente o moderno e o tradicional em absoluta convivência pacífica: Garoto, Bonfá, Laurindo de Almeida, Toquinho, Baden, Rosinha de Valença e o próprio Paulinho Nogueira, lado a lado com o tradicionalismo de Dilermando Reis, Americo Jacomino, João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. (Nesse disco, um dos mais importantes da carreira, tem-se uma visão panorâmica do violão brasileiro).

Paulinho Nogueira produziu muitos trabalhos autorais, principalmente em músicas cantadas – nas quais os destaques são Paulinho Nogueira Canta suas Composições (1970), Dez Bilhões de Neurônios, Voz e Violão (1977), Nas Asas do Moinho (1978) e Água Branca (1983). Na parte instrumental pode-se destacar Moda de Craviola (1975) e, principalmente, Tons e Semitons, de 1986 – com este último trabalho foi lançou simultaneamente um livro com as partituras que, posteriormente, foi editado pela prestigiosa Guitar Solo Publications (GSP).

Menina

As composições cantadas de Paulinho Nogueira fizeram grande sucesso, principalmente Menina, destaque na trilha sonora da novela Irmãos Coragem, apresentada pela TV Globo em 1970. Também se tornaram muito populares Simplesmente, Menino Desce Daí e Um Bilhão de Neurônios.

Paulinho Nogueira dedicou dois discos a compositores por quem nutria grande admiração: Tom Jobim e Chico Buarque. Em 1981 lançou o LP Retrospectiva Tom Jobim, com 11 músicas. É delicado eleger as melhores faixas, todas em arranjos incríveis. Mas podemos citar Olha Maria para dois violões. Sobre a obra de Chico Buarque, deteve-se na primeira parte da obra do autor, a que tem melodias mais líricas, e produziu o CD Chico Buarque – Primeiras Composições, lançado pela Trama em 2002.

Paulinho Nogueira produziu ao longo da carreira mais de 60 composições e teve parceiros importantes como Paulo César Pinheiro, nas músicas Catarina e Violão de Madeira; Paulo Vanzolini em Boneca e Valsa das Três da Manhã; e Toquinho e Vinicius de Moraes em Choro Chorado para Paulinho Nogueira.

Arranjos originais

Como violonista, pode-se dizer que Paulinho Nogueira destacou-se pela originalidade dos arranjos. As execuções musicais que praticava eram únicas, tanto pelos arranjos como pela técnica toda própria, na qual lançava mão de recursos pouco usuais, como o uso do indicador da mão direita como se fora um dedo a mais da mão esquerda. Tocava “sem unha” e, além disso, devido ao posicionamento da mão direita, muito encurvada – como se pode observar em vídeos disponíveis no You Tube, fazia do som assim obtido uma característica totalmente pessoal.

Em 1991, Paulinho Nogueira participou do Festival Internacional de Violão em Nápoles, Itália. No ano seguinte, atuou no evento Guitars in Concert, ao lado dos guitarristas Joe Pass, americano com ascendência italiana (Guiseppe Passalacqua) e os argentinos Jorge Morel e Gianni Palazzo. Depois se apresentaram em 18 de maio em Milão; 19 em Florença; 20 em Perugia; 22 em Bolonha; 25 em Nápoles; e 28, em Roma. Ainda em 1992, gravou grava pela Movieplay o CD Late Night Guitar, The Brazilian Sound of Paulinho Nogueira.

Em 1993 participou do projeto Instrumental no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), juntamente com Sebastião Tapajós, Mauricio Einhorn e Gilson Peranzetta, o que resultou em CD produzido pela Tom Brasil. Três anos depois, pelo mesmo selo, lançou o CD Brasil Musical – Paulinho Nogueira, Alemão e Zezo.

(Das 15 faixas do CD, Paulinho Nogueira executa, sozinho, as nove primeiras; cabe à dupla de violonistas Alemão e Zezo as seis restantes. Na ficha técnica é omitida a faixa Da Cor do Pecado, de Bororó, a segunda música a ser apresentada).

Parceria com Toquinho

Em 1999, Paulinho Nogueira lançou o CD Reflections pela gravadora americana Malandro Records, na série Legends of Brazil. Nesse mesmo ano, em parceria com Toquinho, grava pela Movieplay, o CD Sempre Amigos, no qual interpreta, e tocam conjuntamente, 13 canções, entre as quais, Samba em Prelúdio, de Baden Powell e Vinícius de Moraes e Choro Chorado pra Paulinho Nogueira, de Toquinho, Vinicius de Moraes e Paulinho Nogueira.

Situação bem distinta da que ocorreu com o LP Sempre Amigos, de Paulinho Nogueira e Toquinho, gravado pela Arlequim em 1980, em que eles gravaram as musicas separadamente. No texto da contracapa, Paulinho diz: Foi com satisfação que encarei a ideia da Arlequim de reunir num mesmo LP, faixas minhas e do Toquinho, mesmo tendo sido gravadas com cada um isoladamente. Apesar da impossibilidade, no momento, de fazermos um disco tocando juntos, pretendemos um dia concretizar efetivamente essa ideia, que alias já é bem antiga. Este projeto foi realizado quase no apagar das luzes para Paulinho, que nos deixou em 02 de agosto de 2003, em consequência de um infarto.

Métodos e livros:

Método Paulinho Nogueira para Violão e Outros Instrumentos de Harmonia (1968)

Violões em Harmonia (Fita em VHS) (1990)

Sons e Semitons – livro de partituras (1986)

Discografia:

LPs:

1) A voz do violão (1959)

2) Brasil, violão e sambalanço (1960)

3) Sambas de ontem e de hoje (1961)

4) Outros sambas de ontem e de hoje (1962)

5) Mais sambas de ontem e de hoje (1963)

6) A nova bossa é violão (1964)

7) O fino do violão (1965)

8) Sambas e marchas da nova geração (1967)

9) Paulinho Nogueira (1967)

10) Um festival de violão (1969) (o novo som de Paulinho Nogueira)

11) Paulinho Nogueira canta suas composições (1970)

12) Dez bilhões de neurônios (1972)

13) Violão e samba (1973)

14) Simplesmente (1974)

15) Moda de craviola (1975)

16) Antologia do violão (1976)

17) Paulinho Nogueira, voz e violão (1977)

18) Nas asas do moinho (1978)

19) Tons e semitons (1986)

CDs

1) Late night guitar, the brazilian sound of paulinho nogueira (1992)

2) Brasil musical – paulinho nogueira, alemão e zezo (1993)

3) Reflections (1999)

4) Chico Buarque – Primeiras composições (2002)

BIBLIOGRAFIA

Enciclopédia da Música Brasileira: Erudita, Folclórica e Popular. São Paulo, Art Editora, 1977)

Violões do Brasil, organização Myriam Taubkin. Edições Sesc São Paulo, 2007).

Depoimento de Paulinho Nogueira e Toquinho no YouTube (http://youtu.be/MbvnpaFgDkY)

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