Intervenção no IPEA e o silêncio cúmplice da mídia lobista

Na campanha presidencial de 2014 a “grande imprensa”, coerente, lobista dos interesses da plutocracia, criou um bafafá sobre uma suposta interferência do presidente do IPEA em referência à publicação de um trabalho de um Técnico de Pesquisa da casa às vésperas da eleição.

Como servidor público do IPEA testemunhei que, ainda no primeiro semestre de 2014, o presidente do IPEA, servidor de carreira, em seu discurso de posse deixou claro quais seriam os critérios para publicação de trabalhos e quais os cuidados que a legislação em vigor impunham ao IPEA observar para não configurar intromissão indevida no processo eleitoral. As regras estavam claras e óbvias e, assim, não foram contestadas na ocasião.

Com o acirramento do processo eleitoral, no entanto, os ânimos se exaltaram e observamos a participação, direta e indireta, de Técnicos servidores do Instituto no processo eleitoral. Em alguns casos clara e abertamente e, em outros, de forma escamoteada. Tive a oportunidade de escrever sobre isso em artigo neste blog tal a dimensão que o caso assumiu na grande mídia lobista.

O governo dos denunciados na Lava-Jato, liderados por Temer, nomeou para o IPEA um presidente sem as qualificações necessárias para o cargo, com a nítida intenção de direcionar as pesquisas do Instituto e impedir a publicação de trabalhos com conteúdo contrário aos interesses do “governo”. O novo presidente do IPEA foi escolhido a dedo. Um profissional qualificado, com uma carreira técnica e acadêmica notável, não aceitaria fazer este tipo de trabalho.

A grande imprensa lobista, antes tão preocupada com a liberdade de pesquisa no IPEA, parou de se preocupar com o assunto. Leia, abaixo, a nota da Associação de Funcionários do IPEA e entenda o que está ocorrendo no Instituto sob a presidência do amigo do Temer.

Paulo Martins

“Boa tarde prezado associado,

A Associação de Funcionários do Ipea (Afipea/Afipea-Sindical) sempre se pautou pela defesa da pluralidade, contra qualquer tipo de controle da produção e dos resultados de pesquisa por critérios políticos alheios à garantia da consistência metodológica e da qualidade da informação gerada. Precisamente por essa razão, entendemos que a produção editorial do Ipea não pode ser utilizada para elogiar ou desqualificar qualquer ator ou movimento político e social. Assim, a Afipea/Afipea-Sindical vêm a público manifestar-se contra o uso político do Instituto, seja ele executado por qualquer de seus servidores, inclusive os dirigentes.
Dessa forma, a Afipea considera inadequada a publicação eletrônica pelo Ipea, ocorrida na última semana, do livro Agricultura e Indústria no Brasil: Inovação e Competitividade, autoria de José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho (Ipea) e Albert Fishlow (Columbia University), por conter imagens e comentários (páginas 148 e 149) que servem unicamente para expressar opiniões político-partidárias. A publicação teve ampla repercussão, sendo objeto de comentários pejorativos para a imagem institucional.
Quando duas notas técnicas, publicadas em setembro de 2016, apontaram os problemas de financiamento impostos às políticas de saúde e assistência social em decorrência do “Teto de Gastos” (que na época tramitava na Câmara dos Deputados como PEC 241), o Presidente do Ipea divulgou comunicado à imprensa negando que estas refletissem a posição do Instituto, apontando equivocadamente a existência de erros metodológicos e contrapondo-se ao resultado do rigoroso processo de debate e validação técnica aos quais esses trabalhos haviam sido submetidos.
Já no que se refere ao livro ora publicado, chama a atenção que a Presidência e a diretoria colegiada do Ipea adotem posição radicalmente diferente, diante do fato de que as imagens citadas e seus respectivos comentários não apresentam fundamento técnico, desqualificando a produção consolidada do próprio Instituto em diferentes temas. É possível enxergar nessas atitudes contrastantes uma tentativa de “filtrar” a produção do Ipea com base em critérios políticos.
Ressaltamos que tal direcionamento é contrário à proposta de uma instituição voltada a proporcionar, ao governo federal, ao conjunto dos poderes públicos e à sociedade, informação e debate qualificados, contribuindo assim para a deliberação e gestão democráticas. O respeito a todas as posições políticas, a autonomia em relação à orientação política do governo, assim como o compromisso com o exame amplo e sem preconceitos de soluções alternativas para os problemas vocalizados pelo governo e pela sociedade brasileira são condições necessárias para que desempenhemos nossa missão.
Vale ressaltar que o Ipea publica anualmente mais de 250 títulos, totalizando mais de 27 mil páginas de livros, revistas, boletins, notas técnicas, relatórios e textos para discussão, em sua imensa maioria com afirmações e conclusões baseadas em dados e análises robustas.
Repudiamos, agora e sempre, práticas que visam submeter a capacidade técnica e de comunicação do Ipea a preferências de ordem político-partidária, sejam elas quais forem.

Conselho Deliberativo e Diretoria Executiva”

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