Ricardo e Piauí, presentes

Compartilho emocionante relato de Paula Sacchetta sobre o assassinato de Ricardo e a morte do seu amigo, Piauí. Ficam o registro e a indignação.

Paulo Martins

Quarta-feira passada, saí de casa perto das 18h pra comprar massa na esquina pra jantar. Chegando perto do Pão de Açúcar da Mourato Coelho ouvi muitos, muitos gritos e muita gente acuada/encurralada no muro do supermercado gritando “assassinos!”. Quando cheguei mais perto, vi um monte de carro de polícia e eles colocando alguma coisa (eu não consegui ver o que era – uma pessoa!) no porta-malas de uma viatura. Vi a mesma viatura saindo rápido, cantando pneu e outras tantas estacionadas ali. Cheguei perto dos policiais e perguntei o que tinha acontecido. Um deles me respondeu: “uma abordagem com resistência”. Engoli seco, ouvindo os gritos de “assassinos”, pensei nos tantos “autos de resistência” usados pra justificar qualquer assassinato pela PM e em segundos cheguei à conclusão: eles estavam colocando um corpo já morto no porta-malas da viatura. Eles haviam matado alguém. E se livraram rapidinho da cena do crime: levaram o corpo embora, sem esperar a perícia e sem chamar SAMU. E ainda recolheram as cápsulas das balas no chão. Tudo direitinho, bem ao contrário do que manda o protocolo. Vários moradores da região assistiram à cena: um policial matou com três tiros – TRÊS – um catador de material reciclável que morava e trabalhava na região. Depois do primeiro tiro, no peito, com ele já caído no chão, o policial deu outros dois na cabeça. Execução mesmo. Não tem outro nome, não tem resistência. No chão da rua. Na frente de tanta gente. Ricardo ele chamava. E eu dava bom dia pra ele, boa tarde e boa noite. Cruzava com ele quase todo dia. Ele estacionava as três carroças dele ali perto do colégio Fernão Dias e dormia por ali, na rua.

Depois do primeiro tiro ele começou a gritar para um morador de rua que morava por ali também: “Piauí, me ajuda, irmão, me machucaram”. O Piauí ouviu, todo mundo ouviu. O Piauí se aproximou, os policiais pediram pra ele colocar a mão na sarjeta e pisaram nos dedos dele. Ele ficou a noite toda chorando de dor na mão pela morte do “irmão”. Ele ficava me falando “tem um coraçãozinho batendo na minha mão”. Os dedos estavam roxos, inchados e latejando. Quando lateja, parece mesmo um coraçãozinho. Eu conhecia o Piauí melhor do que o Ricardo. Eu tinha que atravessar a rua quando ele estava e eu passeava com meu cachorro. Nossos cachorros não se bicavam. Eu atravessava e dava um salve, um bom dia, um boa tarde, um boa noite.

No dia seguinte, foi bonito de ver, que apesar da merda toda, conseguimos organizar do dia pra noite um ato em homenagem ao Ricardo. Com tanta gente, tão cheio e forte. Bonito, tão bonito que doeu. Nos organizamos, nos reunimos pessoalmente e em grupos de WhatsApp, muita gente se indignou e se mobilizou.

Nesse mesmo dia, ainda pela manhã, levei o Piauí pro hospital. Os dedos dele estavam muito machucados mesmo e ele achava que tinha quebrado. Deixamos o Barbicha – cachorro dele e companheiro inseparável – na minha casa, porque ficamos com medo que fizessem algum mal pra ele, amarrado ali sozinho no muro do Pão de Açúcar. A Sherazade ia ser orgulhar de mim: literalmente levei pra casa.

Na noite anterior, a da morte do Ricardo, ele dizia que seria o próximo já que tinha visto tudo de perto. Na quinta-feira, no hospital, cada vez que chamavam seu nome, Gilvan Artur Leal, pra triagem, pra consulta com o ortopedista, pro raio-x, pra injeção, ele respondia, gritando: “morreu”. Ele sabia que mesmo vivo, já tinha morrido um pouquinho. Ele tirou raio-x e o médico disse que não tinha nenhum osso quebrado, mas que a “porrada” tinha sido “muito forte”. Tomou injeção pra dor, pegou uma caixinha de anti-inflamatório, voltamos pra pegar o Barbicha que estava na minha casa, ele agradeceu e voltou pra rua. Eu voltei pra casa e ele, pra rua.

Na noite da quarta ele não quis ir dormir num abrigo. Insistimos com medo que a polícia fizesse algo com ele. Na quinta, depois do ato, ele que veio pedindo ajuda pra vaga no abrigo. Estava com medo de dormir na rua e que a polícia fizesse algo com ele. Ele foi prum abrigo que aceitavam cachorro, pra poder levar o Barbicha.

Na quarta agora, ontem, no dia da missa de sétimo dia do Ricardo, a assistente social do abrigo achou melhor ele não ir. Disse que ele estava muito abalado, mas um pouco mais calmo. Então que era melhor se preservar. Ontem ele acordou bem, só não foi à missa porque acharam melhor não. Mas à tarde começou a ter convulsões e teve que ir pra Santa Casa. Hoje viram que as convulsões tinham sido por causa de um AVC, causado por hipertensão. E agora no fim do dia o Piauí morreu.

O Piauí foi mais uma vítima da PM. Ele foi torturado na frente de um monte de gente, “porrada forte” e estava sob ameaça “eu vou ser o próximo”. Com problemas de pressão, não aguentou.

Mais uma vez, um monte de gente se mobilizou, se indignou e ajudou. Arranjamos a vaga no abrigo, levamos no hospital pra ver os dedos, e ele recebeu visita hoje na Santa Casa, quando já estava inconsciente.

Tudo isso que eu escrevo, morrendo de dor, é pra dizer algumas coisas:

Que o Ricardo foi executado.
Que não é despreparo, que a polícia mata os matáveis porque tem a certeza da impunidade. Preto, pobre, carroceiro, catador de material reciclável, morador de rua? Pode matar.
Que o Piauí foi morto também pela PM. Ainda que indiretamente.
Pra dizer que o Piauí e o Ricardo são mais matáveis e torturáveis, pra PM, do que um morador de Pinheiros branco.
Pra dizer que pra gente, Piauí e Ricardo eram gente. Que catador é gente. Que morador de rua é gente. E que a vida deles não vale menos que a de outros. Que eles têm que viver.

E pra dizer que, cara, no meio de taaaanta barbárie, foi bonito de ver a mobilização. E uma missa de sétimo dia lotada na Catedral da Sé prum homem negro, catador de material reciclável e morador de rua. E que tá sendo bonito ver agora que o Piauí não vai ser enterrado como indigente, que a gente vai se mobilizar e fazer o que for pra ele ser enterrado como Gilvan, mesmo que a gente não encontre a família dele.

Escrevo tudo isso pra repetir e repetir a frase do Neruda:

“Se nada nos salva da morte, que ao menos o amor nos salve da vida”.

E ouso parafrasear o escritor e poeta, pra completar:

Se nada nos salva da morte, da bárbarie e das trevas, que a solidariedade nos salve da vida.

A solidariedade, essa coisa tão fora de moda nos dias de hoje.

Que possamos nos indignar com mortes tão cruéis de gente como a gente, assassinados por quem deveria “proteger” o cidadão.

Nesses tempos, que nunca percamos a solidariedade e o sentimento de humanidade de vista.

Obrigada a todas e todos que se mobilizaram e estão se mobilizando para não deixar que as mortes do Ricardo e do Piauí sejam em vão.

Ricardo Nascimento, presente!
Gilvan Artur Leal (Piauí), presente!
Fora PM do mundo.
Pelo fim da polícia militar.


A foto linda é da Julia Dias. E no nome dela, da Nina Capello, da Carla Borges, do Mundano e do Audálio Dantas eu mando um salve pra todo mundo que se mobilizou e se desdobrou pro ato, pra missa e pra todos os corres tão essenciais.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s