Uma desigualdade do tamanho do Brasil

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O aumento do fosso é a única estratégia conhecida e aplicada pela equipe econômica de Meirelles e Temer. Não há ponte capaz de cobrir a distância causada pela concentração de renda e pela desigualdade.

Dos que estão afundados no abismo, nos guetos e favelas, alguns passarão de desempregados para “empregados” sem carteira assinada, salários pela metade. Muitos de carteira assinada passarão a empregados sem CLT, terceirizados. “Modernizados”.

Muitos dos que caíram nos abismos ficarão lá, vegetando, sobrevivendo como der, burros-sem-rabo, desempregados, pedintes, camelôs, jogados nas ruas e nas cracolândias, estagiários do crime, por muito tempo.

Estes serão os que não puderam passar por um “retrofit”, não conseguiram “se reinventar”, não puderam ïnvestir em sua “empregabilidade”, não se tornaram “empresários de si” e não se tornaram sonegadores “pejotizados”, como os principais artistas e profissionais Globais.

Jogados na lata de lixo de materiais inservíveis ficarão por aí, zanzando como mortos-vivos, incapazes de encaixar na “moderna” economia neoliberal, esperando por “mãos invisíveis” que lhe cavem uma cova em palmas medida, nem rasa nem ancha, melhor do que o que tiveram em vida.

Anota aí: os empregos destruídos nessa fase perversa do desenvolvimento da economia capitalista global jamais serão recuperados com a qualidade e a quantidade do ciclo anterior do giro da roda do crescimento econômico pré-bolha norte-americana de fins de 2007/início de 2008. Assim mesmo, de um fôlego só: sem ponto e sem vírgula.

Charge compartilhada por Ulysses Ferraz.

Autor da charge: identificado na própria charge.

Queijo, linguiça, abobrinhas e Sudbrack, por Fernando Brito

Por Fernando Brito, do Tijolaço.com.br


 

O Brasil, seus políticos e sua imprensa viraram, realmente, uma fábrica de bobagens.

Estamos discutindo e fazendo escândalos com coisas estúpidas e evidenciando que, aqui, a lei – em lugar de ser para todos – depende do freguês.

É símples a questão: se os queijos e as linguiças apreendidas no Rock in Rio fossem daquele rapaz (duvido que você não conheça um) que anda com uma sacola vendendo-os para ganhar algum, alguém estaria protestando? Ou se fosse aquela negra simpática, a D. Maria, que os tivesse sobre uma banca, os mesmíssimos, alguém ia achar “absurdo”?

Bom, eu ia, porque num país onde ninguém pode jurar que não se moeu restos de palha para por nos cigarros ou gordura de galinha para aquele “hamburguer bovino” não acho que venham daí os problemas significativos de saúde pública na alimentação.

Mas os “bem-postos” iam dizer que é isso mesmo, que era um absurdo que num lugar cheio de turistas e de garotada ficassem vendendo alimentos sem controle sanitário.

Todo o problema é só um: estavam sendo vendidos nos quitutes servidos pela chef Roberta Sudbrack, contra a qual nada tenho, mas que é a musa culinária do high society, autora de banquetes presidenciais nos tempos de FHC (não sei se em outros).

Só por isso, simples assim.

Façam-me o favor! Não faz seis meses todos estavam gritando contra o “frango de papelão” pela falta – ou corrupção – dos serviços de inspeção nos frigoríficos, no que a gente não sabe, até hoje – apesar de todo o espalhafato e do escândalo internacional – o que era verdade e o que era boato.

Artesanal, claro, pressupõe pequenas produções e pequenas vendas. Se ganha escala, é industrial, ainda que conserve o cuidado, a receita e o sabor, e deve cumprir as exigências sanitárias.

Senão, daqui a pouco a Sadia ou a Friboi tascam um “artesanal” na embalagem e vendem milhares de toneladas sem selo de inspeção federal.

Se houve exagero ou truculência na ação, como ela alega, o quanto não se deve ao fato de, nos últimos anos, acharmos e endeusarmos ações “prendo e arrebento” da autoridade? Quanto não se deve ao fato de, sendo flexível, um agente público passe a ser, de imediato, chamado de corrupto e a ideia de que “se liberou, deve ter rolado uma grana”?

Mas como foi no “chiquê” isso vira um caos nacional, ao ponto de o presidente da República em exercício, Rodrigo Maia, ir a um “ato de desagravo” promovido pelo Ministro da Cultura, em pleno Palácio do Planalto, desautorizando o trabalho dos fiscais de maneira grosseira e estúpida.

Porque não haveria desagravo se fosse o sacoleiro e a Dona Maria, porque não apenas a lei é censitária do Brasil – depende de com quem se está falando – mas os cérebros também estão se tornando.

A posse da Sra. procuradora-geral. E agora, vamos cumprir as promessas?

O corpo fala.

O constrangimento estava evidente nos gestos e na postura de cada um. Cada poderoso vestia sua saia-justa. Por motivos diferentes, mas  todos desconfortáveis.

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Somos vítimas do golpe que entronizou o usurpador na Presidência da República. Este usurpador escolheu a procuradora-geral da República, segunda colocada na lista tríplice. A senhora procuradora aceitou. Pesa  sobre os seus ombros a obrigação de, efetivamente, respeitar rigorosamente a Constituição e, principalmente, fazer com que seus subordinados a respeitem, também com o devido rigor.

Juntos, Temer, Eunício de Oliveira, Rodrigo Maia, a presidente do STF, ministra Carmem Lúcia e a procuradora-geral do MPF, Raquel Dodge, cantaram o hino nacional.

Temer discursou, mãos ao ar, com a desfaçatez que lhe é peculiar. Odor nauseabundo de hipocrisia no ar.

Ambos, Temer e Raquel Dodge, prometeram respeitar e proteger a Constituição.

Afirmaram, acreditem, “o poder não é nosso, é do povo”.

No caso de Temer, são afirmativas e promessas vazias, comuns em pessoas com sua qualidade de caráter.

No caso da procuradora-geral parece haver, pelo menos, boa-fé. Aquela boa-fé dos inocentes úteis que não sabem ou não se interessam em saber que para haver justiça não basta a sua aplicação com isonomia, ou seja, a observação de igualdade meramente formal. Devia saber, pela sua experiência e anos de estudo, que não haverá justiça, por mais bem-intencionado seja o aplicador, se não houver justiça na criação das leis – todos sabemos que as leis são compradas pelos grupos de interesse  representados por “lobbies” – e justiça, igualdade, no acesso aos meios e oportunidades.

Infelizmente as leis são escritas, interpretadas e aplicadas pelos mesmos hipócritas dos discursos e das plateias de encomenda. Todos brancos, bem-nascidos ou bons alpinistas sociais. Três representantes dessa espécie – Temer, Eunício e Rodrigo Maia –  estavam lá, sentados à mesa. Mal-estar evidente.

A Sra. procuradora afirmou em seu discurso que ninguém está acima da lei, nem abaixo. E que o devido processo legal será estritamente observado. Ora, se uma procuradora-geral da República  precisa enfatizar em seu discurso de posse que princípios tão básicos serão respeitados pelo Ministério Público é porque a situação é mesmo calamitosa, como já afirmaram diversos juristas.

Em seu discurso a Sra. procuradora-chefe declarou que é papel do “Ministério Público promover justiça, defender a democracia, zelar pelo bem comum e pelo meio ambiente, assegurar voz a quem não a tem e garantir que ninguém esteja acima da lei e ninguém esteja abaixo da lei”.

Tudo muito bonito em cerimônias de poderosos seguidas de jantares nas finas casas de festas de Brasília. Resta saber se a Sra. procuradora vai mesmo cumprir suas promessas de respeitar a Constituição. Vamos esperar a reabertura do caso do impedimento da presidente da República, que foi obtido com a compra de votos e inúmeras ilegalidades, e o início da investigação sobre as práticas ilegais e seletivas dos procuradores que compunham a força-tarefa da Lava Jato.

 

Neofacismo e outras aberrações

Compartilho mais um texto essencial do Ulysses Ferraz. O título do texto é meu.

Paulo Martins

“Quanto à pregação de golpe militar, que configura proposta de subversão da ordem constitucional, é crime previsto na Lei de Segurança Nacional, que, embora feita durante a ditadura, não foi revogada.” (Dalmo de Abreu Dallari)

A Constituição Federal do Brasil não prevê intervenção militar. Logo, os movimentos que clamam por uma intervenção militar constitucional encerram uma contradição lógica. Se é intervenção militar, não há como ser constitucional. Só pode ser inconstitucional.
A propagação destes movimentos é um dos efeitos colaterais das manifestações em verde-amarelo, que contribuíram para derrubar injustamente uma presidenta eleita democraticamente. Na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, há dezoito faixas com a seguinte frase: Intervenção Militar Já!
E pensar que houve uma luta de vinte e um anos para que o país se tornasse uma democracia, ao custo de muitas vidas perdidas, destruídas, desperdiçadas e suicidadas. Mas ainda há quem diga que é um movimento minoritário e irrelevante. Foi assim há cinquenta anos.
Começou minoritário e irrelevante. Até que o Mourão daqueles tempos reuniu seus tanques e detonou o golpe, reunindo conspiradores contumazes e adesistas de última hora.
Éramos o país da bossa nova, do cinema novo, do teatro politizado, do desenvolvimentismo progressista, dos intelectuais mais notáveis, sociólogos, historiadores, poetas, literatos, artistas.
Éramos o país de Carlos Drummond de Andrade, Darcy Ribeiro, Celso Furtado, Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Augusto Boal, Oduvaldo Vianna Filho, Gláuber Rocha, Gianfrancesco Guarnieri, Antônio Cândido, José Celso Martinez Correa, Dias Gomes, Gilberto Freyre e tantos outros. E mesmo assim, naqueles tempos sucumbimos por uma onda de conservadorismo e terror extremos. Por que não poderia acontecer novamente?
Hoje, não somos melhores do que nossos brasileiros mais ilustres do passado. Nossos heróis de agora, nossas referências, são as celebridades milionárias. Em vez Sartre e Simone, o casal que representa melhor nosso ideal de sucesso e vida bem vivida é Luciano e Angélica. Revistas fúteis.
Pensamento único na grande imprensa. Intelectuais de fast thinking, escritores de autoajuda, cinema irrelevante, ídolos do stand up comedy, psicólogos de folhetim, cultura popular moribunda, evangelização das crenças. Difusão. Confusão. Celulares. Antenas. Nas telas, Datenas. Nos lares, novelas. Nas janelas, panelas. Passado sem memória. Presente sem poesia. Futuro sem fantasia.
A história é um pêndulo. Só existe linearidade em nossos pensamentos. Quem poderia imaginar a ascensão do nazismo e do fascismo depois de quase três séculos das primeiras luzes do Iluminismo? Infelizmente esse tipo de reivindicação já não choca mais ninguém.
Racismo, xenofobia, fascismo, demonstrações de ódio e intolerâncias já se naturalizaram em nossos sentidos. Não provoca nenhuma reação. Nem mesmo naqueles que se dizem democratas.
Estamos quase todos anestesiados. Hora de sair do transe. Antes que sejamos atropelados pelo bonde da história. E o futuro seja ainda mais sombrio que as sombras do passado.
Por Ulysses Ferraz

Censura

Post da página de Mara Telles no Facebook.

Num piscar de olhos passamos da moralidade “contra a corrupção” para a guerra contra os costumes. O encerramento de uma exposição artística sob qualquer pretexto é fato seríssimo: é Censura. E os efeitos já são imediatamente sentidos. Agora um juiz impede uma peça religiosa, alegando “motivos religiosos”. A direita radical tem entre seus conceitos a luta pela ” liberdade de expressão ilimitada”. Como eu já postei aqui, eles se utilizam da defesa da “liberdade máxima” para distribuir seu ódio, disseminando preconceitos e desconstruindo, através de uma estratégia do uso do cômico e do memes, os avanços dos Direitos Humanos. Nada mais falacioso do que a defesa da “liberdade de expressão ilimitada”. A direita radical quer liberar a expressão única e unilateral para destruir qualquer oposição ao seu desejo de impor um pensamento único. E, diferente do ruído dos coturnos, ela agora se sustenta em sentenças jurídicas revestidas de legalidade. Não apenas Bolsonaro expressa este pensamento. O prefeito de SP também não está longe desta tendência. Sim, é para ter medo e levar à sério. Ao contrário dos EUA ou da França, a sociedade civil brasileira não tem o mesmo viço para contestar contra esta onda. É preocupante achar que em 2018 tudo isso será resolvido. Se hoje temos um governo sob suspeição e impopular, preocupado unicamente em se salvar de investigações, 2018 e depois poderão nos oferecer como resposta à sensação de desordem uma Câmara federal ainda mais reacionária e um executivo mais conservador que, eivado pela legitimidade das urnas passará das palavras, proferidas em palestras, aos fatos. Corre-se o risco de termos que optar entre uma direita corrupta, mas liberal em comportamento, ou uma direita corrupta e reacionária. Estamos cada vez mais próximos do ultra liberalismo econômico e da censura e mais distantes do liberalismo comportamental.

MBL e a cortina de fumaça

Post publicado na página do Facebook de Alexandre Valadares

A incursão agressiva dos militantes do mbl na ex-posição de arte queer, instalada na galeria do santander, me deu a impressão de que a última preocupação do movimento é proteger a alma religiosa e a higidez moral da família brasileira. O ato teve outro objetivo: foi, sobretudo, uma estratégia de captura ideológica, através da qual o mbl, que é ultraliberal e não conservador, tentou outra vez projetar-se como representante de uma “maioria silenciosa” da população, fortemente identificada com os valores conservadores. A estratégia se tornou bem-sucedida graças à repercussão que o caso tomou após a decisão do banco de encerrar a mostra. Mas a atitude do santander não foi um recuo: foi um alinhamento.
O que interessa ao mbl e seus congêneres (e esta é a razão pela qual são financiados) não é encampar a agenda do fundamentalismo religioso – refletida, como política, no projeto de desconstrução do Estado laico e, como ideologia, na propagação de uma doutrina que explica a pobreza e outras questões sociais como consequências das escolhas morais dos indivíduos –, mas se apropriar, como porta-vozes, da grande capacidade mobilizadora que a radicalização moralista tem. A agenda do mbl é o fundamentalismo de mercado. A linha-mestra dessa ideologia é a naturalização das desigualdades, o princípio segundo o qual as desigualdades socioeconômicas são legítimas na medida em que exprimem as diferenças individuais de mérito e vontade.
Ora, a agenda ultraliberal não é fácil de ser engolida pela grande massa trabalhadora que se vê constantemente tolhida entre a necessidade de ganhar o pão do dia seguinte e a impossibilidade de ganhá-lo fora de um regime de trabalho extremamente duro e abusivamente desproporcional. Mas, embrulhado nos valores conservadores, misturado a eles, o ideário liberal pode tornar-se palatável. O amor à ordem, por exemplo, uma paixão conservadora típica, sempre será funcional a um projeto de sociedade ultraliberal, marcado pela hierarquia rígida (a dinâmica de acumulação tende a tornar intransponível a distância econômica entre os indivíduos), pela desigualdade acentuada e, por isso, pelo fortalecimento do Estado policial como condição orgânica desse tipo de sociedade.
Esses projetos não se combinam, todavia, sem tensões, e as hostilidades recentes entre mbl e bolsonaro são reflexo disso. O mbl está disputando as bases populares, e não vê qualquer problema em endossar o discurso religioso e bajular figuras como marco feliciano e magno malta para atingir esse objetivo. Os caras não estão brincando.

Tristes trópicos

Destaque

1 – Temer não vai cair nem renunciar. Se renunciar, perde o foro privilegiado e a proteção de uma Câmara de Deputados com maioria corrupta, que está no mesmo barco.

2 – Temer não vai renunciar para concorrer a um mandato de deputado federal que lhe garanta foro privilegiado. Correria um risco muito grande.

3 – Temer vai tentar negociar a nomeação  para algum ministério no novo governo eleito em 2018 para manter o foro privilegiado. Como sempre fez.

4 – No segundo turno, se houver, a direita montará um acordão, com PSDB, com PMDB, com Lava Jato, com Supremo, com tudo.

5 – A aparente oposição de parte da grande mídia venal a Temer é tática, de curto prazo e tem fôlego curto. É um simples jogo de mercado.

6 – Parcela relevante da grande mídia venal continuará apoiando Temer até ele entregar tudo que prometeu: a reforma da Previdência, as privatizações, o pré-sal  e o Estado mínimo. É só observar as valorizações das ações patrocinadas pelos urubus da Bolsa de Valores.

7 – A grande maioria dos deputados e senadores sequestrou o voto e vai utilizá-lo para se defender dos ataques da “Lava Jato”, para enriquecer ou para ambos. A opinião dos eleitores não conta. Esses políticos têm pressa.

8 – Esqueça esta ficção de que existem Paneleiros, Patos ou Coxinhas envergonhados. Não conheço nenhum.

9 – Paneleiros, Patos e Coxinhas aceitam, em sua esmagadora maioria, as consequências nefastas do golpe, se este for o preço a ser pago para banir a esquerda para sempre. Eles não sabem que a esquerda adoece, mas não morre.

10 – Paneleiros, Patos ou Coxinhas não acham que as consequências do golpe sejam nefastas.

11- Enquanto houver Lady Gaga, Universal, CBF, carnaval, N.Y., Miami e mídia venal, doze vezes no cartão ou no cheque especial, os bois não sairão do curral.

12 – Medo, este é o ethos da nossa Nação partida.

13 – Para a maioria, medo do desemprego, de perder a aposentadoria, da inflação, do nome sujo no Serasa ou no SPC, das dívidas no consignado ou no cartão. Medo da milícia, da PM, dos bancos, do patrão. Medo da inanição.

14 – Para os rentistas, cercados, blindados e viajados, medo de perder os privilégios, adquiridos ou herdados.

15 – O medo gera o ódio ou a apatia, respectivamente, pai e mãe da covardia.

16 – Para os golpistas o golpe  se completa com a condenação de Lula a tempo de impedir sua participação, se houver eleição. Torça para um surto de bom senso e organização, se houver oposição.

17 – Lá fora, no Rio de Janeiro, um sol de rachar. Obrigado, Mara, pela ideia. Desculpe, Chico, pelo plágio.

“Um dia de real grandeza, tudo azul

um mar turquesa à la Istambul …

E um sol de torrar os miolos …

A gente ordeira, virtuosa, do lar, que apela,

pra polícia e pra panela

O sol, a culpa deve ser do sol

Que bate na moleira, o sol …”

18 – Tristes trópicos.

 

 

 

Para não dizer que não falei de flores (2)

Parte dois. Onde dou conta da minha visita ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro e de outros acontecimentos dignos de pena ou enjôo.

Visitei o orquidário, tirei fotos. Observei toda a estrutura de apoio operacional do Jardim Botânico, da fiscalização de entrada na parte paga até a limpeza e conservação dos jardins e das árvores, tudo executado por profissionais terceirizados de empresa privada contratada.

Banheiros limpos, faltando papel para enxugar as mãos. Normalmente, este item consta do contrato de terceirização. Se falta, o órgão público contratante pagou e não recebeu. Poucas visitas no parque. Banheiro masculino com mármore pixado. A frase chamou a atenção:

DSC06118.JPGNa banca, jornal “das Organizações” informa que “Frustração de receita ultrapassa 30 bilhões de reais”. Em outros tempos, ainda recentes, a notícia destacaria o fato de que a política econômica – o tal estelionato eleitoral- causou recessão e afundou a economia. Agora, no jogo de palavras do jornalismo açougueiro nacional, virou simples “frustração”. Haja má-fé.

Fui a uma agência de viagens pesquisar preços para roteiros nacionais no fim de ano. Aguardando a vez uma senhora, aparentemente solitária, uns 55 anos. O diálogo que se estabeceu ilustra o fuzuê no qual estamos metidos neste belo país.

Ela: (falando baixo, quase como se tivesse falando sozinha) Será que esta agência de viagens é boa?

Eu: Não sei. É uma das maiores. Eu usei seus serviços há uns 20 anos, em Fortaleza, quando viajei com os meus filhos e minha esposa. A parte aérea fizemos com uso de milhas e contratamos uns passeios para o Parque das Águas e para Canoa Quebrada. Funcionou bem.

Ela: Nas minhas últimas viagens, viajei pela Abreu. É boa. Helsinque, São Petesburgo e Moscou.

Eu: Gostou?

Ela: Não.

Eu: Por que?

Ela: A comida era horrível e só falavam de comunismo.

Pensei com meus botões: como uma pessoa escolhe viajar para São Petesburgo e Moscou e não pode ouvir falar em comunismo. Antes que eu perguntasse alguma coisa, ela emendou:

  • a outra viagem foi para Berlim, Áustria, Grécia e Turquia. Também pela Abreu. A TAP extraviou minhas malas e fiquei dois dias passando frio.

Eu: Viena?

Ela: gostei de Berlim, do muro …

Eu: não quis ir a Munique?

Ela: Não fazia parte do pacote. Não gostei da Grécia. Adorei a Turquia.

Antes que eu perguntasse sobre a Grécia, sobre o Siriza e sobre o Veroufakis, fui chamado pela atendente. Felizmente. Eu já estava afinando meu discurso. Embora eu tenha consciência que não se ganha nada discutindo com pessoas que parecem girar em outra órbita, em um mundo próprio, alheias da realidade que as cerca e que engolem qualquer coisa, tais como: extraviaram minhas malas, fiquei dois dias passando frio, mas a agência de viagens é boa. O “governo” Temer é pior que o governo da Dilma, mas é melhor assim.

Alegrem-se.Estão chegando as flores. Pé de Grumixama no quintal de Pendotiba explodindo em flores. Os pássaros adoram, mas as famílias de micos-estrela chegam primeiro e comem tudo, antes mesmo dos frutos completarem o seu ciclo de crescimento.

Há muitos anos, quando os micos-estrelas ainda estavam sob controle, ví, no Jardim Botânico, pássaros com o fruto maduro da Grumixama no bico.

Olha aí a foto do predador:

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E, aqui, a grumixama e suas flores:

Deixe as flores. Vão precisar para as passeatas pacíficas que vão consertar o país. O dinheiro, pode ficar para você. O dono não vai poder aparecer. Não é mesmo, “meninos amarelos” ? (*)

(*) Ouça a gravação do açougueiro bêbado para entender.

Para não dizer que não falei de flores (1)

Acompanhei nos últimos dias as notícias do mundo político-criminal observando, com atenção redobrada, como “as Organizações” monta o seu quebra-cabeças e fabrica uma versão paralela da realidade, dando ênfase em notícias que lhe interessa pautar e escondendo outras que lhe interessa esconder.

Eu já sabia, mas não deixo de me surpreender a cada dia com a extrema competência dessa máquina de moer a realidade e pasteurizar a opinião pública: seja no jornal impresso, nas estações de rádio, nas emissoras de TV, em todos os meios que esse polvo atua, os mantras são repetidos à exaustão até se tornarem verdades fabricadas, que seguirão sozinhas para se tornarem “opinião pública”.

Melhor chamar de “ópio público”, tendo em vista a letargia e o evidente estado de intoxicação da grande maioria das pessoas.

Um açougueiro bêbado é gravado mostrando as entranhas do Ministério Público e as ilegalidades praticadas na montagem das delações premiadas. “As Organizações” fabrica o mantra para ser repetido por todos os seus jornalistas, em todas as suas mídias, “o instituto da delação saiu fortalecido”. Fortalecido onde, meus caros! É muito delírio. É muita má-fé.

As autoridades da França descobrem, por acaso, o eventual envolvimento de brasileiros na compra de votos para escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016 e solicitam colaboração da Polícia Federal brasileira. Nos noticiários “das Organizações” a notícia vira “mais uma operação da Lava Jato internacional, a operação unfair play”. É muita má-fé.

Todos sabemos que a grande maioria do povo brasileiro não tem dinheiro para comprar jornais nas bancas ou fazer uma assinatura. A esmagadora maioria das pessoas se “informa” pelos jornais expostos nas bancas, limitando-se a ler os cabeçalhos das notícias na primeira página. Muitos só têm tempo de juntar essas chamadas com as fotos e tirar uma conclusão; quando conseguem concluir alguma coisa no emaranhado de mentiras, sensacionalismo, nonsenses. Juntar  criminosamente texto de um assunto com foto de outro é prática anti-ética comum no jornalismo açougueiro nacional. Foi o que “as Organizações”, mais uma vez, fez. Sem pudor. Veja a foto abaixo. Notícia em letras garrafais sobre o PT, Lula e Dilma e foto de malas de dinheiro atribuídas a Geddel Lima. É muita má-fé.

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Aproveitando o dia de primavera adiantada nesta bela cidade do Rio de Janeiro, peguei minha câmera e  fui ao Jardim Botânico tirar umas fotos. Hora e meia de saudável caminhada. Para minha surpresa havia uma exposição de orquídeas no orquidário e barracas de vendas de orquídeas. Não entendo nada de orquídeas. Só admiro. Vão aí uma fotos.

Lembrei-me de Vandré nos anos de chumbo da ditadura brasileira.

“Pelos campos há flores em grandes plantações

Pelas ruas marchando indecisos cordões

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão

E acreditam nas flores vencendo o canhão”

Tire selfies, viaje para Miami, compre uma quinta em Portugal.

Descanse em paz.