DE CATECHIZANDIS RUDIBUS, por Wilson Gomes

DE CATECHIZANDIS RUDIBUS
“Tá certinha a Carmen. Redação é para medir a capacidade de redigir”.
Pois eu acho que o Enem é principalmente uma questão de Educação e não de mera exibição de capacidade redacional. Desde a Antiguidade, a Educação é parte essencial da formação de cidadãos, não de meros redatores ou somadores. Delega-se a mestres a formação de uma pessoa para ser um membro produtivo da pólis, não um treinamento para organizar frases e escrever palavras corretamente. Se a pessoa conclui o Ensino Médio e não consegue aprender ou respeitar sequer os valores elementares da democracia no ato do principal exame a que será submetido, a Educação falhou. Se o Estado diz para o estudante que não há nada de mal em ele fazer uma redação, em um exame que, note-se, é público, desrespeitando o básico dos valores da democracia, que tipo de cidadão este Estado espera que tenha sido formado?
“Redação não é filtro político-ideológico”
– Pois não há país democrático moderno que não adote como filtro político-ideológico os valores da Democracia liberal e do Humanismo. Tal filtro político-ideológico é, inclusive, constitucionalizado, para que todos saibam que este é o combinado fundamental que vincula os indivíduos em Estados democráticos. Se este filtro vale para determinar que princípios seguimos e que condutas não são aceitáveis na vida pública e privada, por que não deveria valer para a Educação, que é o modo como formamos cidadãos para o nosso tipo de sociedade? Não queremos o ódio e o desrespeito, portanto, não educamos para o ódio. Sendo assim, por que haveríamos de aceitar o discurso de ódio por parte de estudantes ao serem examinados pelo Poder Público?
“Mas e a liberdade de expressão”
– A liberdade de expressão é um princípio, mas nunca foi um valor absoluto da democracia. A dignidade humana, a igualdade de direitos e a liberdade de todos são valores muito maiores. Ninguém pode ter a liberdade de ofender, humilhar, violar a liberdade ou direito dos outros. Se a liberdade de expressão tem limites na vida civil em geral, por que não deve se conciliar com outros valores democráticos num Exame Nacional do Ensino Médio? Por que só no Enem a liberdade de expressão pode ser usada para ofender e humilhar? O que haveria de educativo em dizer aos estudantes que o discurso de ódio é de boa? E quando é a Suprema Corte do país que passa esta mensagem, há algo de bom e cívico que se pode derivar daí?
“O país tem 61 mil homicídios por ano, corrupção epidêmica, e a PGR preocupada com redação do Enem q “desrespeita direitos humanos”? Vão pastar”
– Se aos meninos que concluem o Ensino Médio for permitido que façam discurso de ódio até neste Exame os homicídios serão reduzidos, certo?
Por Wilson Gomes

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