Fake News: tão antigo quanto o “jornalismo profissional”

A indústria cultural – incluindo neste saco de gatos a mídia “profissional” – sempre foi ponta-de-lança da dominação hegemônica do centro em relação às periferias. Isto é muito velho. Assim, não há nenhuma novidade na série O Mecanismo, da Netflix. A novidade é a canalhice explícita, antes velada, do outro Padilha, autor, e dos atores mais diretamente envolvidos, que perderam o que restava de vergonha na cara e não disfarçam mais. Se fosse só meretrício ou, como eles gostam de apelidar a sua prostituição, “profissionalismo”, um topa tudo por dinheiro, já seria lamentável. Mas eles ultrapassaram todas as fronteiras éticas, mesmo as tênues fronteiras do capitalismo selvagem. Estão surfando na degradação moral e ainda confessam, como se este fosse o novo normal. Anormais somos nós que ainda ficamos perplexos com tanta canalhice explícita.

Paulo Martins

Das “armas de destruição de massa” no Iraque à “fuga de Lula para a Etiópia”, é a velha mídia quem fez desabar o antigo padrão do jornalismo. Como resgatá-lo?

 

Por Dennis de Oliveira*, na Cult

Compartilhado por Outras Palavras.

Ultimamente, tem-se falado muito da necessidade de se combater as chamadas fake news. O termo em si já traz uma contradição – já que o pressuposto de uma notícia é que ela seja verídica. De qualquer forma, como o termo pegou, o utilizaremos aqui sous rature, como diria Jacques Derrida.

O termo ganhou repercussão quando o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusou um repórter da CNN de fabricar notícias contra ele e, por este motivo, recusou-se a responder perguntas do jornalista. Daí, o termo fake news ganhou repercussão e passou a ser mais uma justificativa para o fetiche da checagem e verificação do jornalismo hegemônico, constituído a partir da crise da atividade no início do século 21, conforme abordamos aqui. O próprio fenômeno detonador desta crise foi um caso de disseminação de notícias falsas – as “reportagens” de Jaison Blair, no New York Times, em 2001.

O jornalismo hegemônico encontrou na batalha contra as fake news uma forma de expressar a sua pretensa “superioridade” moral ante as mídias alternativas que cresceram com o advento da internet. Para isto, utilizaram duas ordens de argumentos: 1) que o jornalismo que praticam é “profissional” (e, portanto, o praticado pela mídia alternativa é “amador”) pois ele ocorre a partir de estruturas empresariais cristalizadas, com redações profissionalizadas e cujo objetivo não é fazer “ativismo político” mas sim “prestar um serviço ao seu público”; 2) que a internet, em especial as plataformas das redes sociais, possibilita uma equivalência de narrativas produzidas em condições diferentes, possibilitando então que qualquer pessoa (sem a qualificação necessária) possa repercutir informações, a tal “democratização dos imbecis” de que fala Umberto Eco.

Neste panorama, a radicalização política entra como um elemento que potencializa a disseminação das chamadas fake news, pois a esfera política entra no jogo do vale-tudo, o esclarecimento argumentativo se transfigurou para a sedução pela verossimilhança e, assim, qualquer um pode disseminar informação e causar impactos. O que se percebe aí é um incômodo com a perda do monopólio da novidade por parte do jornalista. Em 1922, Walter Lippmann afirmava em Public opinion a necessidade de se constituir uma classe de especialistas com o objetivo de construir atalhos cognitivos e produzir consensos, atuando como “timoneiros” da sociedade. Esta elite logotécnica dos meios de comunicação teve seu papel de timoneiro radicalmente reduzido. Por isto, o debate sobre as fake news revela muito mais incômodos de um determinado segmento da sociedade que uma preocupação real com os rumos da democracia e dos debates públicos.

Isso porque as fake news não são produto dessas novas mídias alternativas que se fortalecem com a internet. Como citamos, o caso mais famoso que detonou a crise na credibilidade no jornalismo foi no New York Times. Mas podemos citar outros exemplos:

1 – O caso da notícia da descoberta do “boimate”, a combinação do gene do boi com o do tomate. Esta notícia foi uma brincadeira de 1º de abril e foi comprada pelo então repórter de Ciência da revista Veja, Eurípedes Alcantara. E, pasmem, este mesmo jornalista viria depois a assumir o comando da revista

2 – O caso da ficha do Deops da então candidata à presidenta da República, Dilma Rousseff, publicada pelo jornal Folha de S.Paulo. A origem da matéria foi uma cópia de uma pretensa ficha no órgão de repressão da ex-presidenta e o jornal publicou reportagens sobre a participação dela na guerrilha urbana contra a ditadura militar. A tônica era se a presidenta atuou na luta armada ou não. Depois de muitos desmentidos, ficou comprovada que a ficha era falsa. O jornal , entretanto, fez uma correção envergonhada ao dizer que a ficha de Dilma “não podia ter sua autenticidade comprovada” – eufemismo para dizer que ela não era verdadeira.

3- Mais recentemente, após o julgamento do ex-presidente Lula na segunda instância em Porto Alegre, em janeiro deste ano, o jornalista Augusto Nunes divulgou que Lula iria fugir para a Etiópia para evitar ser preso. De fato, o ex-presidente tinha uma viagem marcada para o país do continente africano para participar, como palestrante, em uma reunião da FAO (Organização das Nações Unidas Para o Combate à Fome). Nas redes sociais, espalharam-se boatos de que a reunião não aconteceria e que Lula iria fugir, razão pela qual inclusive um juiz de primeira instância decidiu proibir a viagem. Depois da comprovação da própria agência das Nações Unidas de que de fato Lula estava programado para este evento, ficou evidenciado que a tal fuga não existia. Mas Augusto Nunes, apresentador do Roda Viva e colunista da revista Veja, comprou esta versão.

4 – Em 14 de maio de 2016, o Portal Estadão noticiou o relatório de Rita Izhák, enviada especial do escritório da ONU para o direito de minorias, que esteve no Brasil para avaliar o impacto das ações afirmativas no país. A manchete foi: “Políticas de Igualdade fracassaram no Brasil, diz ONU”. E o tom da matéria foi por aí. Lendo o relatório atentamente, percebe-se que houve um erro de tradução e de compreensão do inglês do repórter. A enviada da ONU afirmou que as políticas de igualdade racial são insuficientes e não que fracassaram. Pelo contrário, em diversas partes do relatório, a enviada especial considerava o Brasil como uma referência no continente latino-americano na aplicação de políticas de ação afirmativa.

Podemos contabilizar ainda nestes erros de informação os descuidos na apuração de fatos que envolvam os bairros e a população da periferia (como, por exemplo, bairros periféricos que são pintados como violentos e não o são), entre outros. Os proprietários das empresas do jornalismo hegemônico vão dizer que se tratam de erros e que “erros acontecem”, mas percebam que muito dos exemplos tem nítidas conotações ideológicas: o que significa dizer que Dilma foi uma “terrorista”, que Lula vai “fugir” e que as políticas de ação afirmativa que beneficiam negras e negros e que foram implantados nos governos Lula/Dilma?

Isto aponta que o fato de ser um jornalismo praticado por empresas comerciais não significa a sua “isenção” no jogo ideológico. Esta distinção entre um “jornalismo profissional” (voltado a prestar um serviço ao seu público) e um “jornalismo militante” (voltado apenas a defender uma causa) não existe. A própria crise das empresas de mídia as força para defender com maior força os seus interesses empresariais o que as faz ter um ativismo mais intenso no jogo político. E, mais ainda, não podemos esquecer que cresce a participação de setores empresariais na composição dos capitais das empresas midiáticas, em particular os fundos de investimentos. Enfim, a condição de empresário significa uma tomada de posição no jogo político.

Daí então que é um erro creditar a intolerância política como produto das narrativas contra-hegemônicas. Primeiro que é risível considerar que é possível uma situação de harmonia e bom senso em um país em que 1% concentra um patrimônio equivalente a metade da população. Harmonia em uma situação dessas só existe quando há opressão das vozes dos que estão na subalternidade. É a tal da “paz sem voz, não é paz é medo”. Segundo, que a intolerância veio justamente dos segmentos hegemônicos (e a mídia como disseminadora deles) quando pequenas partes dos privilégios históricos foram sendo questionados. A matéria das ações afirmativas do Portal Estadão (e que foi replicada por outros portais, como UOL, G1, Terra, etc) é um exemplo cabal disso. E também a amplificação do boato de que Lula estava fugindo por parte de Augusto Nunes.

Assim, o que separa o joio do trigo não é “jornalismo profissional” e “jornalismo ativista”, mas jornalismo de qualidade – que pode ser praticado em qualquer plataforma e em veículos que tenham qualquer finalidade (comercial, ativista, representação etc). Pois caso a relação privada fornecedor/cliente fosse a que mais garantisse qualidade, a educação superior pública não seria de melhor qualidade que a privada. E nem tampouco o setor de telefonia móvel lideraria o ranking de reclamações dos usuários.


  • Professor do curso de Jornalismo da ECA-USP e do Programa de Pós Graduação em Integração da América Latina (Prolam). Também é professor do Programa de Pós Graduação em Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

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