EU ACUSO, por Leandro Fortes e OS FAVORITOS (de Pablo Neruda)

Primeiramente, compartilho o texto de Leandro Fortes e, a seguir, poema de Pablo Neruda, com introdução.

EU ACUSO, por Leandro Fortes

Todos vocês, coleguinhas jornalistas, que embarcaram no antipetismo feroz que serviu para derrubar Dilma e gestar Bolsonaro, todos e todas, repito, são responsáveis pela merda em que estamos vivendo.

Para puxar o saco do patrão, para fazer média com as fontes, para ser aceito como protagonista em uma sociedade apodrecida pelo preconceito ou para garantir um salário de merda, no fim do mês, não importa. Vocês são culpados e culpadas.

Em maior ou menor grau, vocês emprestaram a credibilidade de vocês e destruíram o jornalismo brasileiro por ação ou omissão, naturalizando absurdos, incensando idiotas, amenizando arbitrariedades, fingindo indignação, dando asas a juízes e procuradores corruptos em nome do combate a uma corrupção que nunca, em tempo algum, lhes causou qualquer reação, antes.

Agora, eu vejo muito de vocês nas redes em um esforço comovente de se mostrarem democratas genuinamente horrorizados com o fruto podre da árvore que vocês regaram com tanto prazer. Sinto um misto de pena, nojo e vontade de rir.

Eu poderia nomear, sem medo de errar, pelo menos uma dezena de vocês, mas os não citados poderiam sentir um alívio injusto. Cada uma e cada um de vocês sabe o papel abjeto que cumpriu nessa jornada. Essa carapuça irá pairar, eternamente, no Portanto, não adianta posar de democrata, agora que o circo está pegando fogo. Porque quando só uns poucos tinham coragem de dizer a verdade, vítimas de toda violência que vem junto, vocês estavam disseminando mentiras, cúmplices bem remunerados dessa gente que agora também quer lhes devorar. Sinto informar, mas, se depender de mim, vocês nunca vão conseguir se esconder.

Introdução e poema de Pablo Neruda, a seguir:

Compartilho, pela quarta ou quinta vez, nos quase 4 anos deste blog dialogosessenciais.com, o poema de Pablo Neruda que melhor define o jornalismo Caixa2 e, em especial, alguns jornalistas que não honram suas profissões. Mantive duas introduções anteriores, porque refletem a realidade de cada momento.

Paulo Martins

Em fevereiro de 2015, quando já estavam evidentes as intenções golpistas com a participação ativa dos meios de comunicação e seus jornalistas amestrados, publiquei neste blog poema de Pablo Neruda intitulado Os favoritos, que fala dos jornalistas “do patrão” ao mesmo tempo puxa-sacos dos poderosos e traidores quando lhes interessa descartar os que perderam o poder.

O momento político do Brasil revela, a cada dia, novos “Pobletes”. Parece que a fábrica de clones de jornalistas capachos consegue, ao contrário dos outros setores da economia, aumentar sua produção em tempos de crise.

Paulo Martins

Publicamos, a seguir, uma singela homenagem àqueles seletos profissionais da mídia em cujas cabeças se encaixa, à perfeição, a carapuça. No Brasil de hoje eles têm nome, sobrenome, fama, coluna nos jornais e nas revistas e tempo nas estações de rádio, TV e em sites. Não ficam desempregados e são regiamente pagos pelos seus serviços.

Espero que vocês leiam não como um incentivo à violência mas, antes, quase como lamento, como uma constatação de que aqui, em nossa latino-américa, a história e a dor se repetem. Basta contrariar interesses e tentar girar a roda de baixo para cima. E espero que aqueles em quem a carapuça cabe à perfeição, percebam que estão todos atentos e vacinados em relação aos seus desejos malévolos e palavras falsamente suaves travestidas de interesse pelo “bem comum”; tão seguras e tão simplistas, quanto equivocadas.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

Com a palavra, Pablo Neruda. Rascante, como um bom vinho.

Os favoritos

Pablo Neruda

No espesso queijo cardão
da tirania amanhece
outro verme: o favorito.

É o covardão arrendado
para louvar as mãos sujas.

É orador ou jornalista.

Acorda rápido em palácio

e mastiga com entusiasmo

as dejeções do soberano,

elucubrando longamente sobre seus gestos, enturvando

a água e pescando seus peixes

na laguna purulenta.
Vamos chamá-lo Darío Poblete,

ou Jorge Delano “Coke”.
(Dá na mesma, poderia ter

outro nome, existiu quando

Machado caluniava Mella, depois de tê-lo assassinado.)

Ali Poblete teria escrito
sobre os “Vis inimigos”
do “Péricles de Havana”.

Mais tarde Poblete beijava

as ferraduras de Trujillo,
a cavalgadura de Moríñigo,

o ânus de Gabriel González.
Foi o mesmo ontem, recém-saído

da guerrilha, alugado
para mentir, para ocultar

execuções e saques,
e hoje, erguendo sua pena
covarde sobre os tormentos
de Pisagua, sobre a dor
de milhares de homens e mulheres.

Sempre o tirano em nossa negra
geografia martirizada
achou um bacharel lamacento

que repartisse a mentira
e dissesse: El Sereníssimo,
el Constructor, el Gran Repúblico que nos gobierna,

e deslizasse pela tinta emputecida
suas garras negras de ladrão.

Quando o queijo é consumido
e o tirano cai no inferno,
o Poblete desaparece,
o Delano “Coke” se esfuma,
o verme torna ao esterco,

esperando a roda infame
que afasta e traz as tiranias,
para aparecer sorridente
com um novo discurso escrito

para o déspota que desponta.
Por isso, povo, antes de ninguém,

pega o verme, rompe sua alma
e que seu líquido esmagado,
sua escura matéria viscosa
seja a última escritura,
a despedida de uma tinta
que limparemos da terra.

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