O andar de cima, por Cláudio Guedes

O andar de cima

Tema recorrente em conversas com empresários, sejam grandes, médios ou pequenos, é o triste destino do Brasil, segundo a maioria deles devido ao que definem como “o caráter” do povo brasileiro.

Para os bacanas esta é razão do atraso do país, do nosso desenvolvimento tardio e incompleto.

Sempre que participo, de alguma forma, dessas conversas, normalmente voz isolada, retruco com calma, argumentando que do alto dos meus mais de 60 anos e conhecendo boa parte do mundo, nunca vi diferenças significativas entre os povos daqui e de alhures, mas sim entre as elites nacionais e estrangeiras. Nossas elites intelectuais, sindicais, empresariais e políticas, são, em geral, muito medíocres, apesar do imenso privilégio que por aqui desfrutam. E que, desafortunadamente, as elites que controlam os meios de produção no país são, entre todas elas, as mais toscas, primárias e autoritárias.

Hoje, mais uma vez, vejo a constatação da minha tese.

Os representantes da indústria nacional, os presidentes da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), da Abimaq (Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos), da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), da Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores), da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) e do Instituto Aço Brasil foram, em comitiva, levar o apoio de suas entidades ao candidato Jair Bolsonaro.

As lideranças industriais do país optaram por apoiar um político sem qualidades, um parlamentar com 28 anos sem realizações, um homem truculento, adversário do regime democrático, misógino, racista e que prega a violência contra seus adversários políticos.

É a face escarrada da estupidez e do atraso do “andar de cima” da sociedade brasileira. Nenhum compromisso com a democracia, mesmo com a democracia à brasileira, esta que sempre foi tão favorável à multiplicação generosa do capital. Esta democracia que permite um regime de distribuição da renda gerada, pelo capital e pelo trabalho, dos mais injustos e concentradores do mundo moderno.

A elite empresarial brasileira é tão pobre de espírito, tão mesquinha, tão medíocre, tão puxa-saco de políticos autoritários e desqualificados que consegue estar fora de sintonia até mesmo com publicações liberais icônicas. O The New York Times, o mais influente jornal do país símbolo do capitalismo mundial, disse, ontem, em editorial: “A escolha é dos brasileiros. Mas é um dia triste para a democracia quando a desordem e o desilusão conduz os eleitores à distração e abre caminho a populistas agressivos, ofensivos e brutos”.

Vergonha!

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