Chilenos exigem reajuste nas aposentadorias e fim do sistema de capitalização

Chilenos exigem reajuste nas aposentadorias e fim do sistema de capitalização

Milhares de manifestantes disseram um sonoro não à reforma que o presidente Sebastián Piñera quer implementar

LEONARDO WEXELL SEVERO
Santiago (Chile)
2 de abr de 2019 às 13:12
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Com faixas, cartazes e camisetas condenando o sistema de capitalização implantado pela ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), e identificando as Administradoras de Fundos de Pensão (AFPs) com “Abuso, Fraude e Pobreza”, uma multidão tomou as ruas de Santiago e das principais cidades do Chile neste domingo para exigir o aumento imediato de 20% nas aposentadorias e um “novo modelo previdenciário digno, com redistribuição solidária”.

“Não quero que o meu futuro seja igual ao presente da minha avó”, denunciou uma jovem, erguendo bem alto sua cartolina. “Parem de nos roubar, acabem com as AFP”, reforçou uma outra. Como elas, milhares de manifestantes disseram um sonoro não à reforma que o presidente Sebastián Piñera quer implementar, mantendo o figurino neoliberal ditado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial.

“Piñera pretende continuar incorporando medidas que não fazem nada além de manter o respirador artificial deste sistema que está em colapso, o que parece ser uma provocação”, declarou Luis Mesina, porta-voz do movimento NO+AFP, organizador da mobilização, para quem “é hora de vincular, pouco a pouco, passo a passo as lutas dos movimentos sociais”. Entre as pautas que merecem destaque, indicou, está a luta contra o Tratado Integral e Progressivo da Parceria Transpacífico (TPP 11), celebrado recentemente no Chile, que entrega plenas garantias ao capital estrangeiro. Até sua assinatura, o documento permaneceu em segredo, passando por cima do Congresso e da cidadania. “Se aceitarmos que se consume esse TPP”, alertou, “perderemos parte importante da nossa soberania e, consequentemente, nossa reivindicação para retomar a Seguridade Social ficará muito mais complexa”.

A preocupação procede. Neste momento, as AFPs são controladas por companhias transnacionais que especulam com um patrimônio coletivo de US$ 220 bilhões dos chilenos, dinheiro equivalente a 2/3 do seu Produto Interno Bruto (PIB). Dois terços destes recursos, US$ 151,9 bilhões, se encontram, segundo a Fundação Sol, sob o controle de três empresas norte-americanas: Habitat, US$ 57,76 bilhões (27,4%); Provida, US$ 53,03 bilhões (25,2%) e Cuprum, US$ 41,14 (19,5%)

Apitos e tambores
De forma uníssona, apitos e tambores fizeram ressoar o repúdio ao sistema que o governo Piñera quer perpetuar, através da redobrada chantagem aos parlamentares – já que não tem maioria nem na Câmara nem no Senado.

A privatização da Previdência chilena foi implementada em 1981 via capitalização individual, num processo que contou com a participação de José Piñera, irmão de Sebastián, então ministro do Trabalho e Previdência Social de Pinochet.

O fato é que embora tenham prometido taxas de retorno de 70% e inclusive de 100% da remuneração quando chegasse o ano de 2020, hoje as pessoas ficam pobres ao se aposentar. A própria Superintendência de Pensões reconhece que quem se aposentava com US$ 700 tem atualmente uma taxa de retorno de apenas 33% se é trabalhador e de tão somente 25% se é trabalhadora, o que equivale a míseros US$ 231 e US$ 175, respectivamente.

“O grande problema é que esta realidade é invisibilizada pelos grandes meios de comunicação, pelos canais de rádio e televisão, que manipulam grosseiramente a realidade, divulgando mentiras e escondendo verdades”, apontou Luis Mesina. O coordenador do movimento NO+AFP citou como exemplo um recente estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que “desmente de forma contundente que o sistema de Seguridade Social, complementar e solidário como o que defendemos, está quebrado nos países onde foi implementado”. “Os sistemas privados são os únicos que geram desigualdade social, aumento do gasto fiscal e deterioração das aposentadorias, entre os quais o chileno está entre os mais brutais”, assinalou.

“Milhares de chilenos voltaram a marchar e exigir de forma clara e contundente que se ponha fim a esta grande fraude e que seja criado um sistema que garanta benefícios justos e deixe de ser um negócio para os grandes grupos econômicos, para banqueiros e companhias estrangeiras”, declarou Luis Mesina, frisando que “nossa estratégia não é seguir marchando, mas vigiar como votam os parlamentares que se dizem de oposição”. “Os parlamentares não podem se deixar pressionar pela chantagem e devem passar a exigir uma transformação estrutural da Previdência”, frisou.

Para a presidenta da Central Unitária de Trabalhadores (CUT-Chile), Bárbara Figueroa, os parlamentares precisam levar em conta a proposta que foi entregue recentemente pelo movimento popular, “pois foi a única reivindicação feita a partir de uma consulta, de um amplo debate e que tem o peso específico da cidadania e o respaldo das massivas mobilizações”. “Um sistema de pensão justo precisa agora ser incorporado na agenda”, asseverou.

Consolidação da fraude
“Se uma professora tem uma renda de 150 mil pesos e tem que comprar um remédio de 80 mil não lhe sobra nada, sequer para comer. Estas são as aposentadorias pagas por esse sistema. E o projeto levado pelo governo ao Congresso não corrige, bem pelo contrário: consolida este modelo, consolida a fraude, e por isso queremos que seja rechaçado”, explicou o presidente do Sindicato dos Professores do Chile, Mario Aguilar. Na verdade, sustentou, “precisamos construir um sistema previdenciário de verdade, de distribuição solidária”.

Marchando ao lado das lideranças sindicais, estudantis e comunitárias, o deputado Boris Barrera destacou que “somos milhares contra um sistema que empobrece os trabalhadores”.

“Me parece vergonhoso que não tenhamos um sistema que garanta uma aposentadoria digna, que as pessoas terminem vivendo em condições miseráveis”, acrescentou o deputado Tomás Hirsch.

Ao concluir o ato, Luis Mesina reiterou que a iniciativa popular de lei entregue pela NO+AFP “não provoca destruição da poupança interna, não gera desequilíbrios fiscais, baixa nos primeiros cinco anos de sua implementação o gasto público em mais de 1%, não reduz as economias acumuladas individualmente, mas complementa esta poupança e o mais importante: permite de forma gradual num prazo de cinco anos estabelecer uma aposentadoria base, universal, de um salário mínimo”.

Isso é muito importante, esclareceu a vice-presidenta da CUT Chile, Amália Pereira, pois “após a privatização os trabalhadores se aposentam com tão somente 1/3 do último salário”.

O resultado desta situação tem se refletido no agravamento da depressão e do número de suicídios. Conforme o Estudo Estatísticas Vitais, do Ministério de Saúde e do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), entre 2010 e 2015, 936 adultos maiores de 70 anos tiraram sua própria vida. O levantamento aponta que os maiores de 80 anos apresentam as maiores taxas de suicídio – 17,7 por cada 100 mil habitantes – seguido pelos segmentos de 70 a 79 anos, com uma taxa de 15,4, contra uma taxa média nacional de 10,2. Conforme o Centro de Estudos de Velhice e Envelhecimento são índices mórbidos, que crescem ano e ano, e refletem a “mais alta taxa de suicídios da América Latina”.

*Leonardo Wexell Severo ´e colaborador da Diálogos do Sul

O desgovernado furacão do ódio, por Sérgio Freire


“O trabalho da mestranda do PPGL/UFAM Cris Guimarães sobre a bolsonarização e o discurso de ódio, orientado pelo Leonard Costa, hitou no Facebook e no Twitter.
A foto da Cris apresentando o trabalho no Seminário de Linguagem e Literatura circulou em vários sites, páginas, tweets, sendo até alvo de comentário de um dos filhos do Bolsonaro.
Eu li todos os comentários na postagem do Eduardo Bolsonaro, assim como li todos os comentários em algumas páginas para onde a coisa foi levada. Algumas coisas a dizer.
A primeira coisa é autoevidente. O trabalho foi tragado para o furacão desgovernado e nonsense que é esse discurso de ódio que mistura raiva psicanalítica do espectro político de esquerda, perversidade fascista, indigência intelectual com fortes sabores de psicopatia social.
Exatamente o que Cris se propõe a mostrar com seu trabalho. Por mim, nem precisa defender o trabalho. Se me chamarem para a banca, o trabalho já está aprovado porque está mais do que demonstrado o ponto da pesquisa.
Os ataques são raivosos. Dá para ouvir as rosnadas. Expõem as pessoas sem o mínimo de responsabilidade à matilha ignara hidrofóbica. No Twitter, gente pedindo a cabeça do Leo, da Cris, links para seus lattes.
Prato cheio para um processo por injúria, calúnia, difamação. Mas essa gente, feito zumbis, se acha imune às responsabilidades civis. Sobrou até para o reitor, “que permite uma atrocidade dessas”, numa demonstração cabal de como essa gente deixa o ódio destilar, derretendo os dois únicos neurônios que insistem em se manter ativos, não sabendo como funcionam as coisas no mundo acadêmico e como um reitor deve ser o primeiro responsável por zelar pela pluralidade do espaço acadêmico.
Sim, pois na universidade o espaço é plural e tem de ser. Se o Zé diz A e você acha que A dito não procede, construa suas argumentações e debata com o Zé até que, por argumentações lógicas – o que um luxo para essa gente – se supere as diferenças. Mas não.
Cortem-lhes a cabeça, quebrem o carro deles (aconteceu com a Cris como subproduto desse episódio), apaguem essas pessoas, metaforica e literalmente, como fizeram com Marielle e tantos outros.
O que eu quero dizer, é que essa gente não sabe viver na política da superação, da diferença. Turbinado pelo discurso de ódio do bolsonarismo – olha, Cris! – fomenta a política da supressão, do apagamento daquilo que não lhe agrada. Dane-se a lei. Dane-se a lógica. Dane-se o respeito.
Como se diz: são liberais na economia e conservadores nos costumes. Acrescentaria eu: são perversos nas práticas e alucinados no raciocício. Você ventila garantias sociais e a metralhadora dispara: Lula, PT, Venezuela, Cuba, Dilma, além dos chavões e clichés que pretensamente lhes dão legitimidade e os fazem se sentir gente cheia, vazios que são.
Uma pergunta sempre vem numa hora dessa: onde estava essa gente, meu Deus?
Estavam todos aí, com suas perversidades e mal-arrumados latentes. Sempre estiveram do seu lado. Seu vizinho, seu colega de trabalho, seu tio, sua sogra. Agora eles acharam pastos e entraram, confortáveis, no efeito manada. Freud dá uma pista no seu “Psicologia das massas e análise do eu”. Leiam lá. Uns entram nisso por psicopatia e perversidade – como tem gente ruim, viu? -, outros por conveniência política, alguns por carreirismo, outros por ignorância e por falta de uma educação crítica que lhes faz muita falta, educação essa que a muitos não interessa mudar.
Isso que chamei de furacão desgovernado de ódio, que traga tudo que vê pelo caminho, está crescendo, alimentado por essas práticas de intolerância.
Spoiler: esse tornado vai atingir você, amigo, que está se divertindo jogando e empurrando coisas e pessoas para o olho do furacão. Você, seus filhos, sua família, seus amores. Winter is coming, baby.
Minha solidariedade a Cris, que foi minha aluna no mestrado e cuja inquietação intelectual é o do tamanho do incômodo que causou nessa gente de direita que se alimenta de ódio, e ao Leo, que também foi meu aluno e hoje é meu colega, sendo um dos melhores analistas de discurso que conheço.
Isso é fazer ciência. A Universidade é um lugar de resistência. Resistência a tudo isso de ruim que transformou o Brasil nessa merda em que está. É ideológico, sim. É político, claro.
Como se esse chorume bolsonarista não fosse ideológico também, como se fosse a expressão mais casta da pureza dos fatos. Vamos em frente porque amanhã vai ser outro dia. Há de ser.”

Via Claudia Lara e João Lopes

OS PÉSSIMOS CÁLCULOS SOBRE A PREVIDÊNCIA, por Ladislau Dowbor

LADISLAU DOWBOR – OS PÉSSIMOS CÁLCULOS SOBRE A PREVIDÊNCIA – 3P.- MARÇO 2019
Publicado em março 13th

Ladislau Dowbor
13 de março de 2019

Os grandes programas da nossa oligarquia são empurrados por fórmulas simples marteladas exaustivamente. É o que modernamente se chama de narrativas. Com o uso em escala industrial das redes sociais direcionadas, isso pega. Para derrubar Dilma, inventou-se um déficit que nunca foi significativo, e como ninguém entende das grandes contas, explicou-se que uma boa dona de casa só gasta o que tem. E pegou. Um discurso semelhante se faz hoje para tentar emplacar a desarticulação da previdência. A população está envelhecendo e, portanto, teremos menos pessoas em idade ativa sustentando os idosos, aumentando a “razão de dependência”. Há mais absurdos ditos sobre esta questão, aqui queremos apenas focar o fato de que temos uma gigantesca subutilização da nossa força de trabalho, e não idosos demais.

Temos 208 milhões de habitantes, dos quais 170 milhões em idade de trabalho (PIT), ou seja, com mais de 14 anos de idade. Como muita gente em idade ativa não busca trabalho, temos uma população na força de trabalho (PFT) de 105 milhões de pessoas. Aqui temos uma grande subutilização, pois a taxa de participação é de 62%. Os que estão efetivamente ocupados são 93 milhões de pessoas, porque temos um desemprego da ordem de 12 milhões. Tudo isto está claramente apresentado na Síntese de Indicadores Sociais 2018 do IBGE, acessível gratuitamente online. Verifique aqui. Não é narrativa, são dados.

Para já, são 12,7 milhões de pessoas que poderiam estar contribuindo, mas que devido à taxa de desemprego que se expandiu nos últimos 4 anos, contribuem menos e custam. Vejamos, portanto, o que temos nos 93 milhões de ocupados. Em termos de empregados com carteira assinada, ou seja, aqueles que efetivamente poderiam contribuir para a previdência, os que na nossa imaginação constituem a imensa maioria da população, com empregos formais no setor privado, são apenas 33 milhões de pessoas. Compare com os 105 milhões da nossa força de trabalho: estamos falando em 31%.

Onde estão os outros? Empregados no setor privado, sem carteira assinada e, portanto, não contribuindo, somando empresas e trabalho doméstico, são 16 milhões de pessoas. E temos os 24 milhões de trabalhadores “por conta própria”, dos quais 19 milhões sem CNPJ, portanto sem contribuir. Temos também os empregadores que são 4,5 milhões, mas aqui também temos quase 1 milhão sem CNPJ, também sem contribuir.

No conjunto, o setor informal representa 37 milhões de pessoas, 41% da população ocupada (dos 93 milhões). O IBGE comenta que “o trabalho informal, tal como definido nesta publicação, alcançou 37,3 milhões de pessoas, em 2017, representando 40,8% da população ocupada. Este contingente é superior em 1,2 milhão ao observado em 2014, quando representava 39,1% da força de trabalho ocupada” (p.41). É só somar: 37,3 milhões de informais e 12,7 milhões de desocupados, são 50 milhões de pessoas. Só lembrando que, em média, os trabalhadores do setor informal ganham a metade do que se ganha no setor formal, mais precisamente 48,5% (p.45).

O que fazem os especialistas do marketing político do governo? Vão comparar a crescente massa de idosos com a frágil base de emprego formal, e martelar a “razão de dependência”, com pouca gente ativa tendo de financiar mais gente inativa. O nosso problema, evidentemente, não é acabar com a qualidade de vida dos idosos, e sim incluir a massa de trabalhadores que “se viram” (os 50 milhões do setor informal e desempregados). E mais, não só a nossa força de trabalho de 105 milhões é subutilizada, como muita gente, em particular mulheres, que estão “em idade de trabalho” gostariam de ter um emprego.

A divisão é uma operação misteriosa: você pode aumentar o resultado tanto diminuindo o divisor, como aumentando o numerador. Ou seja, aumentando a inclusão produtiva e a formalização, você equilibra a situação. Nosso problema não é que estejamos vivendo mais, pelo contrário, isso é uma maravilha (ganhamos 10 anos de expectativa de vida entre 1990 e 2010). Nosso problema é a dramática exclusão da maioria, que o governo vem agravando durante os últimos 4 anos.

Achar que o nosso problema é o aumento dos idosos, e não a imensa subutilização da nossa força de trabalho, é patológico. O IBGE deixa claro o desafio real: “A informalidade é uma característica histórica do mercado de trabalho brasileiro, sendo, portanto, um importante marcador de desigualdades. Como consequência, produz um elevado contingente de trabalhadores sem acesso aos mecanismos de proteção social vinculados à formalização e limita o acesso a direitos básicos, como a remuneração pelo salário mínimo e aposentadoria” (p. 40). O nosso problema real é a gigantesca subutilização da força de trabalho, que levou inclusive o IBGE a apresentar as contas da “subutilização da força de trabalho” (p. 36).

Vocês já notaram que há 4 anos estão “consertando” a economia? Eles não estão arrumando uma crise herdada, estão gerindo a crise que construíram. As séries do IBGE permitem comparar 2007 a 2017. “Percebe-se, em geral, a ocorrência de resultados positivos tanto do PIB quanto do consumo das famílias até 2014 e quedas de ambos em 2015 e 2016. O PIB per capita e o consumo das famílias atingem, no triênio final do período, taxas acumuladas de descrescimento de 8,1% e 5,6%, mesmo considerando a tênue recuperação dos indicadores observada em 2017. Assim, durante os últimos três anos da série, tais resultados trouxeram impactos negativos para o mercado de trabalho brasileiro, como o aumento da desocupação, da subutilização da força de trabalho e da informalidade” (p. 12).

O mecanismo é simples, e não exige diploma de economia: “A menor geração de renda implicou na menor produção de bens e serviços, o que tornou mais difícil a colocação dos trabalhadores no mercado, obrigando-os a buscarem ocupações informais, ou a se tornarem desocupados, ou ainda a se retirarem da força de trabalho. Tal fenômeno ampliou não só as taxas de desocupação e a proporção de trabalhadores informais no total, mas também impactou negativamente os rendimentos dos trabalhadores assalariados ou autônomos” (p.12).

O que funciona é apresentado claramente pelo estudo: “Após a crise internacional de 2008 e a retração dos mercados internacionais, foram os aumentos reais do salário mínimo, a expansão de programas sociais e a elevação do crédito e dos investimentos públicos que estimularam a demanda doméstica e favoreceram o aquecimento da economia e a criação de vagas no mercado de trabalho, majoritariamente formais. Embora beneficiando o trabalhador com a maior oferta de vagas e aumentos salariais, o aquecimento do mercado interno foi também positivo para empresas e governos, pois as vendas de bens e serviços cresceram, aumentando também, em termos absolutos, o excedente operacional e a arrecadação tributária” (p.14).

A opção do parasitismo financeiro que assola o país vai rigorosamente no sentido contrário. Mas ao reduzir a renda do andar de baixo da sociedade, inclusive dos idosos, reduz-se o consumo, fragiliza-se a demanda, o que por sua vez leva as empresas à estagnação e aumenta o déficit do Estado. O mundo efetivamente produtivo não precisa de discursos ideológicos, e sim de mercado para poder vender, e crédito barato para poder consumir e investir. Ambos geram produtos, empregos e impostos. Melhoram a vida das famílias, a dinâmica das empresas e as contas públicas.

O tal “rombo” da previdência constitui essencialmente um buraco negro onde é engolido o bom senso das pessoas. Mas hoje temos excelentes antídotos: peguem a entrevista de Eduardo Fagnani, os artigos de Paulo Kliass, de Maria Lúcia Fatorelli e outros autores que trazem o bom-senso de volta e evidenciam o que efetivamente funciona. E queria acrescentar a ótima nota de Humberto Lima, da Unicamp, sobre o fato óbvio de que a razão de dependência aumenta, mas os que suportam os inativos são cada vez mais produtivos: haverá mais gente aposentada por pessoa em idade ativa, mas os ativos apresentarão produtividade mais elevada. No fundo, evidentemente, o problema não é a invasão de velhinhos, e sim a vontade dos grupos financeiros se apossarem da gestão das nossas poupanças, e, portanto, do nosso futuro. Esta crise é essencialmente de política, de governança, e os banqueiros estão no poder.

A paixão da ignorância: o anti-intelectualismo

Do Psicanalista, escritor e dramaturgo Antônio Quinet!

A paixão da ignorância: o anti-intelectualismo
19 de Abril de 2019

Uma das características do fascismo é o ataque ao pensamento e o estímulo à paixão da ignorância. A destruição da democracia no Brasil – não sou eu que o digo e sim todos os jornais do mundo que publicaram uma morte anunciada – está em curso. Ela começou a ser destruída pela ultra-direita para ser entregue de mão beijada ao ultra-neoliberalismo devastador – ultima flor do discurso capitalista. Uma nova rosa de Hiroshima.

Nós, psicanalistas, também estamos ameaçados. Porque pensamos, simplesmente. Tudo o que é debate, memória, ciência, pesquisa, investigação, história, análise está ameaçado por ser ameaçador à narrativa fascista do pensamento único. Enfim, é o pensamento, com sua diversidade que lhe é própria, que está sendo atacado. E ainda mais a nós psicanalistas, que admitimos, com Lacan, que pensamos onde não somos e somos onde não pensamos. Isso então cria um nó na cabeça deles!

O ignoródio conjuga a paixão da ignorância com a paixão do ódio expressa no ódio ao saber – tendo como resultado o próprio ódio ao saber. Esta paixão da ignorância é vinculada às formas de negação do saber: recalque, desmentido e foraclusão. Essa formas de negação que definem as estruturas clínicas são formas de negação da castração, da diferença sexual que estrutura a diferenças de gozos, negação da heteridade e do real do “não há relação sexual”.

Em suma, são negações da diferença que podem assumir a face de ódio ao saber, cuja estrutura é o ódio a saber do Outro, a saber, da diferença e da diversidade. Assim poderíamos declinar as formas do ignoródio que conjuga:

“Sei que existe, mas não quero nem saber da diferença e odeio quem sabe, quem a expressa e quem me lembra de sua existência” – diz a narrativa neurótica do recalque.

“Sei que há diferença mas ela não deve existir, e graças a meu ódio vou acentuá-la para destruí-la.” – diz a narrativa perversa do desmentido.

“Sei que não há diferença alguma e qualquer forma anômala em que ela por ventura apareça vou eliminá-la e varrer da terra desses vagabundos que odeio”, diz a narrativa psicótica da foraclusão.

É esta última modalidade que parece prevalecer hoje num projeto de governo comandado pelo discurso capitalista de instalar um Estado paranoico com uma moral dos costumes a ser vigiada e punida num governo ultraliberal e de ustra-direita.

A paixão da ignorância se expressa como ódio ao saber, a imposição de um pensamento único e o orgulho de ser burro.

O medo é o co-respondente do discurso do ódio também a ser escutado. O combustível desse movimento de tomada de poder fascista é o ódio e o ataque ao saber. Segundo Eliara Santana, doutoranda da PUC Minas em Estudos Linguísticos, “O combustível (da extrema direita) é o ódio aos opositores, aos intelectuais, artistas, negros, gays, todos acusados de doutrinação ideológica ou subestimados como sub-raça.”

Trata-se do ataque não só às formas singulares de gozar, mas também do ataque à inteligência, da ode à boçalidade, do elogio da burrice. Em nome de quê? Em nome de “CCC”: Controle, Capital e Consumismo.

Trata-se do controle da sociedade escópica digital somado à ideologia de que a vida de cada um é uma empresa a ser gerida para obtenção de lucro e ao empuxo-ao-consumo para que cada um se paramente com as insígnias do poder.

Nessa concepção não interessa que o próximo melhore sua condição social e financeira pois ele será uma ameaça a minha existência avaliada pelas insígnias capitalistas de empoderamento.

A ditadura – sem freios (éticos, sociais, institucionais e legais) do capital com o domínio das grandes empresas e da grande mídia precisa impor um pensamento único – característico das ditaduras – com o consequente ataque à diversidade de pensamento.

Não interessa tampouco que cada sujeito se depare com sua divisão estrutural, nem com seu desejo marcado pela falta que se expressa como sexual e como desejo de saber, duas modalidades do desejo que têm a marca do infantil, como apontou Freud, como curiosidade sexual, que impulsiona a todos a querer saber: do sexual ao mundo.

Essa onda da paixão da ignorância se expressa pela moda do anti-intelectualismo que, nas palavras de Isaac Asimov, “é alimentado pela falsa noção de que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”. Essa onda vai até o o “orgulho se de ser burro”, e assim da mesma maneira que se formaram movimentos como “Gay Pride” e “Black is beautiful” já está havendo um movimento que poderia se chamar “Stupidity Pride”.

Há um grande ataque à linguagem de uma forma geral, na medida em que a narrativa fascista tenta impor uma única significação para as palavras, vociferando memes, metralhando slogans e fake news, martelando injunções e assim promover um “discurso pulvurulento” esquizofrenizante.

Lacan utiliza esse neologismo ao se referir ao discurso do esquizofrênico que entra na Cidade de Troia com seu discurso ‘pulvurulento’, apontando, assim, que os guerreiros que saem do cavalo de Troia têm como armas um discurso que é ao mesmo tempo virulento e pulverizador, referindo-se certamente à fragmentação da fala que ocorre na esquizofrenia e sua resistência, por vezes virulenta, em entrar nos laços sociais.

Assim, o ataque à linguagem na estratégia da extrema-direita atinge a dialética, a contradição e o paradoxo, e as próprias leis da linguagem, que não diferem das leis do Inconsciente: a metáfora e a metonímia. Usam o softpower para destruir e submeter a partir de uso da linguagem de significação única, e tratam os melhores quadros de “marxistas” e sobram os ingênuos, os “softidiots” a replicar asneiras, mentiras e insultos.

É com essa Guerra semiótica, como disse Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça, que se desestruturam diálogos essenciais numa sociedade” (Eugênio Aragão: “o desastre que nos espera”).

A paixão da ignorância é instrumentalizada. Há um ataque em curso ao saber e à razão no Brasil com uma programática bem clara chamada Escola sem Partido – nova forma de lavagem cerebral e falsificação da história – associada ao desvio de verbas das pesquisas nas Universidades, aos artistas, intelectuais e também aos psicanalistas.

A “Escola sem partido” é um movimento que se transformou num projeto de lei para controlar e incriminar os professores que estariam fazendo propaganda ideológica e e doutrinação política com os alunos. É um estímulo à delação de professores por alunos e abre as portas para o controle do Estado da interpretação da história, como por exemplo dizer que o golpe que instaurou a ditadura militar em 1964 no Brasil foi um mero movimento social e que esse período não foi ditatorial.

Ela quer controlar até mesmo de conteúdos científicos, como por exemplo a contestação da concepção darwiniana da evolução da espécie em prol do criacionismo religioso – concepção que vem crescendo no Brasil devido à influência política das igrejas evangélicas e seu apoio expressamente declarado à narrativa da extrema direita que elegeu Bolsonaro.

O atual presidente da república chegou a enunciar que “todo eleitor tem diploma de burro” e declarou em forte tom antes das eleições do segundo turno que se não fosse vencedor das urnas é porque teria “havido fraude”, já deixando de sobreaviso seus eleitores para tomarem as ruas com protestos caso isso acontecesse.

Só que não aconteceu, ele foi, com todas suas manobras, eleito pelo sufrágio universal.

Esse episódio só desvela o quanto a paixão da ignorância está associada à violência simbólica que pode levar um grupo a se transformar numa horda selvagem.

O ignoródio visa, portanto, o ataque à instituição escolar, inclusive à Escola de Psicanálise – como já tem sido feito -, a toda forma de transmissão de saber, como podemos depreender do projeto da proposta da “Escola sem partido” e, dentro do espírito de concentração-extração (concentração dos ricos e extração dos pobres da lógica do discurso capitalista), visa a acabar com a inteligenzia e promover a burrizia generalizada, ou melhor, a suave idiotização da era digital-bolsonariana.

Há assim um silêncio impositivo e uma ordem de não contestar, não protestar, não debater e não pensar. A ordem é passar pela goela princípios, proibições, palavras de ordem, para que o ‘cidadão que não pensa’ nem sinta que está sendo submetido a esse processo de robotização, ou melhor, de desumanização.

No entanto, esse massacre que a todos alcança, nem a todos cala. Pois cada sujeito é pensante – como sujeito singular – e desejante em sua singularidade. Cada um é, por definição, uma objeção ao Todo que constitui as massas e ao Um da totalidade imposta pelo pensamento único.

O anti-intelectualismo serve ao discurso capitalista como uma luva na medida em que suspende barreiras ao consumismo desenfreado, na medida em que cada sujeito é, nesse pseudo laço social promovido pelo capitalismo, reduzido ao um mero consumidor.

O discurso capitalista nos transforma a todos em operários, diz Lacan, e podemos acrescentar, nos reduz todos a consumidores dos gadgets produzidos pelo discurso da tecno-ciência fazendo-nos crer que esse objetos são causa de nossos desejos.

Como efeito da paixão pela ignorância, a ordem de não pensar no seu desejo impede o sujeito de encarar sua divisão e de se perguntar: ”qual é meu desejo?”, “qual o desejo que inconscientemente me move como um desejo do Outro?” (“Che Vuoi?”).

Não. O discurso capitalista, formalizado por Lacan, onde estamos sob o comando do Capital como significante-mestre no lugar da Verdade para cada um, não admite divisão subjetiva. Nem interrogações apenas a obediências à ordem do consumo: “trabalhe para ganhar dinheiro e consumir mais”.

Assim, o sujeito obscuro do desejo se vê aspirado pela Igreja-máquina de um credo partilhado por muitos: “In Gold we trust”. Mas nessa Igreja do Deus capital cada um está na corrida sozinho e em competição com o outro para ver não quem sabe mais ou quem é mais competente, e sim para ver quem ganha mais, quem tem mais insígnias de riqueza, quem está mais próximo da Verdade.

A psicanálise nos traz a possibilidade de saída do gozo da paixão da ignorância ao despertar o desejo de saber que é o desejo de analisante – desejo de se interrogar sobre seu sofrimento, suas falas e seus sintomas.

Pois é o sintoma que surge como índice da existência do sujeito como singular e único que é enquanto sujeito do desejo, sujeito da história e sujeito do direito que se expressará no divã e na polis.

O sintoma, como a forma em que cada um goza junto a seu inconsciente, é a pedra no caminho da estrada capitalista, é a pedra que emperra a máquina do Capital construída com o discurso da ciência.

Eis porque a politica da psicanálise é a politica do sintoma

STF: A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É

A DOR E A DELÍCIA DE SER O QUE É,

Por RODRIGO PEREZ OLIVEIRA

18.04.2019

Muito interessante o texto do Rodrigo, mas entendo que a batalha, a guerra total, não é somente entre a Lava Jato e o STF. Por trás de tudo está a extrema direita representada pela família Bolsonaro e pelos bolso-arianos que desejam dominar o STF, obtendo maioria, para rasgar de vez a Constituição de 1988 e implementar sua agenda de retrocesso em todos os campos. Exatamente como fez a ditadura de 1964 que aumentou o número de ministros do Supremo para obter maioria, forçou a aposentadoria dos ministros que não aceitaram o golpe militar e outorgou uma nova Constituição, rasgando a anterior. Nisso, Lava Jato (Dallagnol, Moro), a família Bolsonaro, a extrema direita e a mídia comprada (ou vendida, você escolhe) estão juntas. Só não sei até quando.

Leia o texto abaixo e tire as suas conclusões.

Paulo Martins

Nesta semana, vimos mais um capítulo da guerra total que está sendo travada entre o Supremo Tribunal Federal e a OperaçãoLava Jato. Talvez tenha sido a batalha mais importante. O STF perdeu e, com isso, se fragilizou ainda mais. Já há algum tempo, o supremo não é mais tão supremo assim.

Conto para quem ainda não sabe:

Dois jornais, vinculados à extrema direita e especializados na produção de fakenews em escala industrial, publicaram informações vazadas da Operação Lava Jato. Dias Toffoli, Presidente da Suprema Corte, é mencionado como participante de esquema de corrupção envolvendo a construtora Odebrecht.

Afobado e assustado, Dias Toffoli pediu ajuda ao colega Alexandre de Moraes. Os dois juntos colocaram os pés pelas mãos e censuraram as revistas, violando todos os preceitos constitucionais que garantem a liberdade de imprensa.

A reportagem trazia uma delação em estado bruto, sem nenhum suporte comprobatório, como é procedimento típico da aliança firmada entre a Lava Jato e a imprensa, que hoje é a força mais poderosa no sistema político brasileiro.

Quando os alvos eram Lula e Dilma, o STF silenciou, se omitiu, achou melhor não confrontar os operadores que contavam com grande apoio da opinião pública. A lava jato cresceu, cresceu e, ao que parece, tornou-se mais suprema que o próprio supremo.

Bastava um processo por difamação, reivindicando reparação por danos morais. Mas quando os ministros, atropelando todos os ritos previsto em lei, ordenaram a derrubada das reportagens, aqueles que são conhecidos pelo jornalismo desonesto e falacioso foram alçados à condição edificante de censurados e perseguidos.

A Lava Jato venceu a narrativa!

Se a reportagem era, de fato, uma fakenews, tornou-se uma questão menor. O país inteiro só fala que dois ministros supremos censuraram imprensa. O caso está com Edson Fachin, que tem uma batata quentíssima nas mãos. Se aliviar a barra dos colegas, vai junto pra vala comum. Se encaminhar a questão para a plenária da corte (o que provavelmente será feito), não haverá meio termo: ou os ministros entregarão em bandeja de prata a cabeça de seus dois colegas, ou agirão com espírito de corpo e se tornarão alvo da artilharia pesada que já está montada e bem municiada.

Seja qual for o resultado, o STF foi derrotado. Uma derrota dura e com consequências imprevisíveis.

Politicamente, os operadores da Lava Jato são muito mais inteligentes que a maioria dos Ministros do Supremo. Têm Know-how, foram treinados para isso. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli morderam a isca, fizeram exatamente aquilo que a Lava Jato queria e, sim, cometeram crime de responsabilidade.

Se a Lava Jato conseguir derrubar dois ministros do Supremo Tribunal Federal, tomará de assalto a instituição mais importante da República. Duas vagas estarão disponíveis. Não faltariam candidatos: Marcelo Bretas, Sérgio Moro, Dallagnol.

A pergunta que fica é: como chegamos nesse ponto? Como a crise institucional se agravou tanto?

Primeiro, é importante saber que as democracias não morrem do dia para a noite. A convalescência (*) começa aos poucos, e vai se espalhando como câncer em movimento de metástase.

As democracias começam a morrer quando a política passa a ser tutelada por atores que não estão diretamente submetidos à soberania popular. É exatamente isso que está acontecendo no Brasil desde 2005, quando o próprio STF utilizou a Ação Penal 470 para arbitrar um conflito que pertencia ao mundo da política, e nele deveria ser resolvido.

A democracia começou a morrer quando o STF atropelou o direito com a teoria do domínio do fato. A democracia começou a morrer quando Rosa Weber disse, com a tranquilidade típica dos tiranos, “condeno mesmo sem provas”.

Desde então, o STF é personagem com presença constante no noticiário exibido em horário nobre, um pouquinho antes da novela das oito. Os brasileiros minimamente atentos à crônica política conheceram os nomes dos onze ministros da suprema corte. A opinião pública passou a monitorar a atuação do órgão que tem a prerrogativa de manter-se olimpicamente acima da sociedade, zelando pela manutenção do marco civilizatório.

Somente assim, é possível que o supremo seja, de fato, supremo, que reúna condições para, quando necessário, contrariar a opinião pública.

Uma das principais funções do Supremo é, exatamente, contrariar a opinião pública. Nem sempre a vontade da maioria é a vontade da lei. A democracia morre definitivamente quando o Supremo Tribunal Federal passa a ser monitorado e fiscalizado como se fosse um vereador de bairro.

Agora o STF terá que tomar uma das decisões mais difíceis de sua história diante de uma opinião pública indócil que ele mesmo alimentou por mais de dez anos.

“Não podemos deixar o ódio entrar na nossa sociedade”, disse Dias Toffoli. Já entrou, já tomou conta de tudo.

No começo, era festa. Os ministros eram aplaudidos no aeroporto. Máscaras com o rosto de Joaquim Barbosa se tornaram moda de carnaval. Mas como nem tudo na vida são flores, sob os holofotes, os gemidos nunca são apenas de prazer. Como diria o poeta baiano das camisas floridas e das ideias confusas, é a dor e delícia ser o que é.

Do mural do João Lopes

(*) Eu acho que o autor quis dizer “a doença” em vez de “convalescença”, que significa: recuperação. Mas, em respeito ao autor, achei melhor não corrigir o texto.

Não se arrependerão tão cedo


A elite social brasileira é branca, educada e cosmopolita. E assim é desde que o país começou. É também violenta, embora se veja como generosa para com subalternos, todos negros, mas “como se fossem da família.” Não são.
Nem na vida ganham acesso às relações abridoras de portas nem na morte herdam patrimônio. A próxima geração segue onde estava a antecedente, numa estrutura social secular, com os mesmos sobrenomes usufruindo a vista da cobertura, enquanto os sem nome limpam cozinhas e latrinas.
Ao contrário do que pregam a adversários, é raro que membros da elite façam autocrítica de erros políticos, como a eleição de Fernando Collor. Muito menos reconhecem seu papel ativo na reprodução intergeracional da desigualdade. Alguns dos seus, os “bem intencionados”, atuam nas franjas, com iniciativas para premiar o “talento” de alguns humildes, como Carlinhos Brown, que foi da favela ao estrelato.
Esta fresta para o alto não altera os mecanismos de distribuição de recursos e acessos. Mas é o suficiente para os cidadãos de bem, reconfortados pelo argumento liberal de que oportunidades individuais bastam para corrigir problemas estruturais.
É que o horizonte desta elite não é uma sociedade justa, é uma economia pujante. Para obter a segunda, abre mão da primeira. Nunca titubeou em pagar o preço, fosse a escravidão, regimes de trabalho avizinhados ou ditaduras, como a que o presidente comemorou. Tudo aceitável, se a locomotiva seguir acelerada.
Essa gente de bem pensa em si como o vagão que puxa o trem, que carrega o fardo do país e pena o alto custo trabalhista de mão de obra sem qualificação. São empreendedores incansáveis, prejudicados pelo povo caro e ignorante —que reclama de barriga cheia, pois muitos pesam, disse o presidente, várias arrobas.
O raciocínio do “custo Brasil” omite que as mazelas nacionais sucessivas resultaram de decisões políticas tomadas pelos que estão no alto, enquanto o sacrifício é sempre exigido dos de baixo. Assim foi na reforma trabalhista, assim se anuncia na previdenciária e a tributária não avançará imposto sobre grandes fortunas e transmissão intergeracional de riquezas.
E, convenhamos, não se exige de quem adentra essa elite o refinamento da antiga aristocracia. Veja-se o novo ministro da Educação: é branco, tem diploma superior e renda que garantem moradia em andar alto da pirâmide nacional. E, no entanto, emite juízos explicáveis apenas pela ignorância.
Já havia o precedente do “nazismo de esquerda”, mas rotular banqueiros de comunistas compete à altura. Nenhuma destas pérolas ministeriais espanta, considerando a língua presidencial. Mas choca que parcela tão gorda do topo social siga firme no apoio à obscurantista, autoritária e até aqui ineficiente “nova política”.
Apoio registrado no último Datafolha: capaz de os banqueiros que o ministro menciona estarem entre os 36% de homens com diploma superior e os 41% com renda acima de dez salários mínimos que acham “ótima” a administração mitológica.
A aprovação (ótimo/bom) é ampla entre os que vivem bem: 47% dos profissionais liberais, 57% dos empresários e 71% dos rentistas, como se dizia antigamente. Os bem postos na vida estão satisfeitos com o governo.
Mesmo com critério exigente, a alegria não se desmancha: 46% do empresariado e 44% dos que vivem de renda dão nota 8 ou mais para a administração bolsonarista. Parte dos eleitores do mito é impenitente e está infenso a três meses de barbaridades. Mas nem todo votante de conveniência, o antipetista, repudia: 54% dos que se declaram PSDBistas seguem achando tudo ótimo. É que se a reforma da Previdência passar, os tuítes ensandecidos do Palácio do Planalto serão perdoados, porque o país —ou parte dele— usufruirá das bênçãos do mercado.
A maioria destes cidadãos de bem apoia também embalada por outra promessa, a da reforma penal.
É preciso mais que comprar armas para se defender de meliantes. Precisa encarcerá-los antes que atinjam a idade adulta. Claro, alguns escaparão de celas de extermínio precoce, e poucos talentosos serão escolhidos, como Brown, para cantar no Lollapalooza.
Aos remanescentes, resta a prontidão das forças da ordem, a postos para abater suspeitos. Suspeitos naturalmente negros, como muitos dos executores, como negros eram tantos capitães do mato.
Estão a serviço, mas tampouco serão admitidos às fortificações medievais onde a gente de bem dorme tranquila. Não se pode acordá-la com choro de órfãos, mães e viúvas, nem com o ruído de 80 tiros.
Angela Alonso
Professora de sociologia da USP, preside o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. É autora de “Flores, Votos e Balas”.
FSP 14.04.2019

Cheiro de luta

Por Carol Vergolino Lula da Silva Franco!

“Sou branca, filha de professores universitários. Sou privilegiada, estudei em escolas em que meus amigos tinham nomes nos livros da História pernambucana. No fim dos anos 90, fiz pesquisa de opinião e vi muita coisa. Entrei na casa de muitas famílias neste estado, antes e depois de Lula.

Não sou boa de nomes, mas sou boa de cheiro. Entrei na casa de um senhor. Ele e a casa cheiravam a fumo de rolo. Era em
Afogados da Ingazeira, sertão. Não havia água. Não havia nenhuma água. A pele dele era seca, igualzinha ao chão da casa. De alento, ele tocava uma sanfona. Me respondeu a pesquisa inteira na poesia.

Entrei no sítio de uma moça, que não sabia a idade dela. Estava suja de sangue de apanhar do marido que bebia ao lado. Ela me trouxe um saco com documentos. Fiz as contas – 35 anos. Formou-se uma fila. Fiz as contas da idade de vinte pessoas, crianças e adultos. A casa cheirava a álcool e a falta de identidade.

Entrei na casa de uma senhora que não tinha nada. Nem cheiro. Só tinha ela mesma e uma fome. Se o cheiro chegasse ali era de ausência.

Entrei numa casa que não tinha luz elétrica e perguntei o que ela compraria quando chegasse luz. Ela falou que já tinha e me trouxe uma lâmpada dentro de uma caixa de sapatos. Essa casa cheirava à de minha avó. O cheiro igual das bolinhas de naftalina.

Filmei em Recife pessoas que moravam dentro de uma ponte. Sim, dentro do concreto. Tinha uma escada do rio para o buraco que se chamava porta de casa e que cheirava a mofo. De vez em quando se perdia um menino mais afoito que caia no Rio Capibaribe. Chamava-se Vila dos Morcegos. Afinal, morar ali não era coisa de gente.

Morava no Engenho do Meio. Vi amigos de infância serem assassinados. Vi a favela de Roda de Fogo crescer e com ela a violência dos corpos no sinal. A gente ia lá ver o corpo pra saber se tínhamos estado com ele no dia anterior.

Tive mãe sequestrada. Passei horas negociando seu sequestro. Aí o cheiro do Brasil chegou pra mim. A iminência da morte cortando na minha carne. Cheiro de flores de funeral. Graças! No fim deu tudo certo e Dona Teca está aí pra cheirar a lavanda.

Passei anos sem fazer pesquisa e depois volto a andar pelo estado pra filmar. O cenário e o cheiro são outros.

Depois do governo Lula, as coisas mudaram. E no sertão chegaram as cisternas. Pareciam discos voadores ao lado da casa do povo. Agora, todo mundo tinha água pra beber. E pra ajeitar um roçado miúdo. As casas cheiravam a terra molhada.

Chegou o Bolsa Família e toda e qualquer casa agora tinha cheiro. De, pelo menos, um feijão cozinhando à lenha.

Começou a brotar Instituto Técnico Federal e as pessoas voltaram a estudar pra contar muito mais do que a própria idade.

Os morcegos que viviam pendurados na ponte, construíram suas próprias casas. E aprenderam a usar banheiro.

Chegou a luz elétrica. Chegou Avon, chegou moto-taxi, chegou biscoito recheado, iogurte. Chegou possibilidade, Universidade, chegou ousar sonhar. Chegou tanto cheiro junto, que não dá pra diferenciar.

Seu Zé de Severino juntou três comunidades, conseguiu verba num projeto do governo (Lula) e fez uma rede de encanada pra todo mundo ter água na torneira. Seu Zé nunca esperou que fizessem por ele, mas nunca seria capaz de fazer antes de Lula.

Com essas mudanças e tantas outras, aqui se viram menos corpos estirados no chão. Virou mar de rosas? Não, claro que não. Lula não fez as reformas estruturais que deveria ter feito. Isso é fato. Mas, de fato, mudou a vida das pessoas mais pobres que chegaram a entrar para a Universidade e viajar de avião.
Veja que absurdo! Desde que o golpe começou, muitos desses direitos foram tirados. O retrocesso é claro. Um golpe claro de classe. Pobre não pode.

No último mês executaram Marielle e prenderam Lula. Sinto cheiro de sangue. Sinto cheiro de ternos muito bem engomados dizendo quem agora pode cheirar a qualquer coisa. Sinto também muito cheiro de desodorante vencido da luta. Sinto cheiro de pneu queimando e sinto ardor de spray de pimenta.

Já estamos sem um Estado democrático há alguns anos. Vai ter muito cheiro de luta pra voltarmos a viver numa
Democracia. Mas aviso aos navegantes que vou colocar meu corpo nesse cheiro de luta aí. Sou Marielle, sou Lula, sou todas essas pessoas que não lembro o nome, mas seu cheiro tá entranhado em mim.”

Buraco negro, vale a pena ler até o fim …

E não é que tiraram uma foto de um buraco negro? Senta aí, vamos conversar.

1) O que é mesmo um buraco negro?

Buraco negro é nome que a gente dá pra uma região do espaçotempo (assim junto mesmo) que exibe um campo gravitacional tão forte que em determinados pontos nem a luz escapa.

O buraco negro da foto é seis bilhões de vezes mais massivo que o Sol e está no centro de uma galáxia chamada Messier 87 (também conhecida nas rodas de samba como M87, Virgem A, ou NGC 4486). Eu tenho várias coisas legais pra falar sobre a galáxia, mas esse espaço é pequeno demais pra contê-las. Talvez eu coloque um bônus ali nos comentários.

2) Ué, como tiraram foto do treco se luz não escapa?

Se você quiser ser ultraespecífico, a foto é da silhueta do buraco negro. A parte brilhante em volta dele vem de uma região chamada disco de acréscimo, ou disco de acreção.

Esse disco consiste de material interestelar (basicamente uns hidrogênios perdidos) em órbita próxima ao buraco negro. A medida que esse material vai perdendo energia via colisões, ele espirala para dentro do buraco negro (cerca de 90 Terras todo os dias no caso da M87). Nessa queda dramática o material esquenta e emite luz.

A foto é um retrato do último grito de socorro dos agonizantes hidrogênios.

3) E como a gente tirou essa foto?

Primeiro, ela é uma foto num sentido mais abstrato, já que não se trata de luz visível, mas ondas de rádio. A diferença é sutil: luz visível têm comprimento de onda até 750 nanômetros, enquanto a observação do buraco negro se deu com luz com comprimento de onda de 1 milímetro.

O maior complicador é a distância do buraco negro. A 55 milhões de anos-luz de distância, o tamanho aparente dele para um observador na Terra é muito pequeno.

O segredo pra ver coisas distantes assim é montar um telescópio maior. Se a lente (ou espelho) do telescópio for grande, ele coleta mais luz, o que permite discernir objetos aparentemente menores. É por isso que aquela luneta que você tinha quando crianças não dava pra ver muita coisa. Ela era pequena.

O problema é que não havia como fazer um telescópio grande o suficiente pra ver o buraco negro em M87. O truque então foi colocar várias antenas de rádio ao redor do mundo coletando luz vinda de lá, e usar um algoritmo de computador para combinar os sinais de maneira a simular um telescópio do tamanho da Terra.

Esse experimento se chama Event Horizon Telescope (EHT, “Telescópio Horizonte de Eventos.”) e ele tem resolução suficiente pra achar um livro de relatividade geral na superfície da Lua. Caso você tenha perdido o seu e já tenha olhado em tudo quanto é canto.

4) Por que a parte de baixo é mais brilhante?

Isso é devido ao um efeito chamado relativistic beaming, que é o efeito Doppler com esteróides.

Lembrando, efeito Doppler é o fenômeno pelo qual a sirene da ambulância parece mais aguda quando ela se aproxima do que quando ela se afasta da gente. Quando a ambulância está se aproximando, nós recebemos mais ciclos de onda sonora por unidade de tempo, o que gera a ilusão que ela tem frequência maior. O inverso acontece quando a ambulância se afasta.

Relativistic beaming acontece quando um elétron, por exemplo, emite luz enquanto viaja com velocidade próxima à da luz. Dessa maneira, os raios de luz que a priori são emitidos em todas a direções vão aparentar estar mais próximos na direção do movimento do que na direção contrária.

Imagine que você está na chuva e o seu guarda-chuva vira ao avesso. Ele agora tem um formato de cone, certo? Agora imagine que o vento fica subitamente mais rápido, como se um furação estivesse chegando. O cone que era o seu guarda-chuva vai ficar mais estreito. Esse estreitamento que o seu finado guarda-chuva sofre é, grosso modo, o que acontece com os raios de luz. A diferença é que não tem vento, a fonte deles que está se movimentando muito rápido.

A assimetria da foto acontece pois o disco de acréscimo está em rotação em volta do buraco negro, e à medida que a matéria espirala ela chega a ter velocidades lineares próximas à velocidade da luz. Quando os elétrons vêm na nossa direção na sua trajetória moribunda, os raios de luz aparentam se concentrar num cone mais estreito e a imagem é mais brilhante. Na outra metade, quando eles estão na direção contrária, o oposto acontece.

Mas tem mais. O fato da foto ter uma cara de rosquinha não significa que a gente esteja olhando pro plano de rotação “por cima”. Devido a um efeito chamado lente gravitacional, mesmo se estivéssemos paralelos ao plano rotação seríamos capazes de ver um anel. A gravidade do buraco negro curva o espaçotempo próximo a ele, e a luz que viaja por ali é obrigada a seguir trajetórias curvas.

Então, numa pegada meio cubista, a gente vê não só a parte da “frente” do buraco negro, mas também atrás dele, e os lados.

5) Que louco.

Há muitas outras coisas legais. O buraco negro em questão também gira, justamente por ter ser feito de matéria girando. Esse tipo se chama Buraco Negro de Kerr, e a geometria dele possibilita uma série de efeitos interessantes, como a presença de uma região chamada ergosfera na qual gravidade e rotação juntas basicamente arrastam o espaçotempo. Não as coisas, o próprio tecido do qual o universo é feito.

É teoricamente possível colocar uma nave espacial na borda da ergosfera, ser acelerado a velocidades muito grandes às custas do buraco negro, e sair de lá viajando pelo universo.

6) Esse Einstein era o cara, né?

Era sim. Mas essa estória toda ia estar fora da alçada dele.

Não me entenda mal. O Einstein de fato contribuiu com coisas muito importantes durante a vida dele e mudou a ciência, mas a gente tende a atribuir tudo relacionado à gravidade a ele, e isso é incorreto. Sim, é ótimo que o buraco negro seja condizente com relatividade geral, mas da mesma maneira, todos os fenômenos em engenharia seguem a física Newtoniana e a gente não necessariamente cita o Newton toda vez que uma barragem nova é desenvolvida.

A primeira solução de um buraco negro foi feita pelo Schwartzschild em 1916, e a solução de Kerr só veio em 1963, oito anos depois da morte do Einstein. A verdade é que muitos cientistas vieram depois dele e trabalharam duro, mas a gente teima em procurar heróis e idealizar o passado.

O algoritmo que juntou os sinais de rádio num telescópio virtual do tamanho da Terra foi desenvolvido por um grupo de pessoas liderado pela Dra. Katie Bouman, que é cientista da computação e tem uns 30 anos.

Eu não estou dizendo que ela é mais capaz que o Einstein, até porque esse tipo de comparação é sempre fútil, mas que se ele estivesse aqui ela ia estar explicando as coisas pra ele. Se o Einstein aparecesse hoje ele ia ter que passar um bom tempo assistindo aula, não por incapacidade, porque o volume de conhecimento aumentou.

A vida em sociedade é um jogo de soma positiva. Quando se coexiste de maneira pacífica e colaborativa, os frutos do nosso trabalho são maiores que o meu esforço e o seu esforço e a soma deles. São maiores que eu e você, e que o Einstein.

A gente idealiza o passado por vaidade e por ter medo do futuro. A gente busca heróis por insegurança e por desejar que tudo tenha uma solução simples. Mas não funciona assim. Esse tipo de comportamento gera frustração quando nós descobrimos que os nossos heróis são apenas pessoas e que o passado era imperfeito, e também nos expõe a exploração quando elegemos líderes que se dizem capazes de resolver todos os problemas de forma heróica.

As coisas são mais complicadas. É por isso que é importante coexistir ao invés de dividir, olhar para frente e não para trás.

Esse é justamente o mecanismo do telescópio: era impossível visualizar o buraco negro com um só aparato, mas vários deles colaborando de maneira inteligente conseguiram ver mais longe. Literalmente.

Do Pedro Lisbao

Compartilhado por João Lopes

Congresso Internacional do Medo, por Carlos Drummond de Andrade

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Um grito insuportável, por Alexandre Arbex

Nesse estado de distração e anestesia coletiva em que temos vivido, o fuzilamento do músico Evaldo Rosa dos Santos, dentro de um carro alvejado dezenas de vezes por militares do exército quando ia com a família a um chá de bebê em Guadalupe, no Rio, é um grito insuportável. Não fosse o vídeo com as vozes desesperadas, não fosse o olhar das testemunhas, não fosse o depoimento doloroso de sua esposa relatando a reação debochada dos soldados diante de seu pedido de socorro, é provável que a morte de Evaldo desaparecesse ainda mais rápido das manchetes – onde, aliás, já mal se fala nele – e que a primeira nota emitida pelo comando de Exército, alegando, de modo ultrajante e cruel, que os soldados teriam apenas reagido a uma “injusta agressão”, se tornasse a versão oficial e definitiva desse assassinato.

O tom de fatalidade, quase destituído de comoção, que domina a cobertura da imprensa a respeito desse crime deixa claro que há certas premissas, na narrativa legitimadora da ordem, que não devem ser questionadas. Os militares afirmam ter atirado por “engano” contra Evaldo, confundido com assaltantes que teriam cometido um roubo na região. A “justificativa” do engano só pode ser evocada como válida porque existe o pressuposto de que qualquer homem negro tem “perfil suspeito”. O fuzilamento sumário do carro onde Evaldo estava mostra bem que o princípio de presunção de inocência, elemento básico do estado de direito, não vale para um homem de perfil suspeito. O argumento de que os militares atiraram contra ele porque o confundiram com um assaltante demonstra que, a despeito das leis que integram o estado de direito, ladrão se mata com tiro.

Há, entretanto, uma premissa mais sólida, incessantemente reiterada, jamais posta em questão: a de que o Rio de Janeiro vive em estado de guerra. O estado de guerra não apenas suprime a ideia de estado de direito – e as garantias que o definem -, mas transforma todas as vítimas inocentes da violência estatal em “danos colaterais”, em “baixas civis”. As autoridades lamentam, às vezes se retratam, os noticiários consentem com alguns segundos de choro e indignação dos familiares (depois, é claro, de terem apurado exaustivamente os antecedentes das vítimas), mas a guerra não pode parar. Guerra? Que guerra? Há por acaso dois exércitos com poder de fogo, capacidade logística e de organização equiparáveis? Há por acaso dois exércitos? O que significaria “ganhar” essa guerra?

O Brasil é violento porque é profundamente desigual. Nenhuma sociedade profundamente desigual se mantém enquanto tal sem um sistema violento de dominação que imponha sua “normalidade”. A “paz” entre cidadãos profundamente desiguais é uma trégua precária e intermitente, sob a qual segue operando, sem cessar, o estado da guerra. Manter a narrativa da “guerra” é importante porque é ela que legitima o funcionamento do sistema de violência ostensiva e seletiva que promove a reprodução das desigualdades profundas que caracterizam o estado de normalidade de nossa ordem política; é essa narrativa que autoriza o assassinato de inocentes de perfil suspeito em nome da segurança dos cidadãos de bem, porque, para estes, numa sociedade profundamente desigual, todos os homens pobres e negros são potencialmente perigosos.

Em tempos de relativa estabilidade econômica e institucional, essa “segurança” é feita, com a violência de sempre, pelo aparato policial ordinário; em tempos de crise econômica e instabilidade política, o exército é chamado. De um ponto de vista legal, está claro que envolver as forças armadas em operações de segurança interna é desviá-las de sua função legal e expor a sociedade ao risco de ver se repetirem tragédias como a que ocorreu ontem em Guadalupe. De um ponto de vista político, não parece, entretanto, inusual que um exército de mentalidade colonialista e doutrinado para garantir a lei e a ordem contra os “inimigos internos” seja mobilizado para patrulhar as ruas de um bairro pobre onde uma população de “perfil suspeito” vive em estado de liberdade vigiada. Oitenta tiros de fuzil contra o corpo de um homem negro em Guadalupe, cento e dezessete fuzis na mansão de um miliciano na Barra da Tijuca: as fronteiras mais vigiadas do país são as que separam a zona norte e a zona sul.

Konje

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Impressionante. Parece estar “sobre” efeito de drogas. O tempo vai passar e vão descobrir que todos, do presidente aos ministros, são meras Fake News. Se deixarmos esses ídolos de barro falarem e se mostrarem ao sol, vamos ver que, na essência, são ridículos e dignos de pena e deboche.

Não encontrei a palavra “conje” como sinônimo de cônjuge em nenhuma das línguas pesquisadas. Mas encontrei a palavra “konje” e a respectiva tradução. Mas não creio que o ministro tenha se expressado em tal língua estrangeira, embora eu ache que a língua que ele usou neste pequeno vídeo também não é o português culto.

Mas eu vou defender o ministro: trocar ” sob” por “sobre” e “vir” por “vim”, pode ocorrer com qualquer pessoa, sendo comum em pessoas com in escolaridade. Agora, sinceramente, substituir “cônjuge” por “konje” exige um alto grau de desconhecimento da língua portuguesa e limitada capacidade intelectual.