“Tutto Andrà Benne?”

Por Nina Paduani
Eu quase não tenho dormido. Longe de mim me queixar, sei dos meus privilégios. Vivo numa casa confortável, com minha família que amo, tenho um emprego, um salário. E agora também tenho a companhia do Davide, que depois de curado está aqui. Mas tenho um trabalho de cuidar, e não deixo de me preocupar. Já se passaram três semanas de confinamento, e, na previsão mais otimista, terão mais três. O desconforto psicológico na solidão das casas me tira o sono. E também a solidão dos profissionais de saúde que trabalham na linha de frente, isolados de suas famílias, lutando pela vida num cenário de guerra, devastação, morte. O desamparo, a impotência, o medo. E também os enlutados. Mais de dez mil mortos, são algumas dezenas de milhares de enlutados tendo de elaborar sua perda sem o corpo de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um filho. Sem o direito a realizar um enterro digno, se despedir, sem cumprir os ritos daquilo que nos torna humanos. Como será isso? O que acontecerá na psique? É um país inteiro chorando a perda dos seus.

Eu não gosto desse “tutto andrà bene”. Quer dizer, acho válido para crianças. Mas como discurso entre adultos, não. Porque, como podemos ver, as coisas estão andando mal. Negar parece-me obstinar com uma resposta que reitera o otimismo, a produção de conteúdo, a saturação do trauma. É querer seguir a cartilha do capitalismo, que, convenhamos, é desumana. As coisas andam mal e parece-me importante fazer algo desse “mal”, questionar tudo o que nos trouxe aqui, e não substituir os corpos e os abraços por uma hiperconexão para fazer de conta que. Não vai nada bem e talvez devamos ficar. Parar, estacionar, deixar doer, desistir, cair. E tentar um ritmo diferente, um passo novo.

Mas se os acontecimentos daqui me tiram o sono e entristecem, os do Brasil me destroem. Porque a epidemia na China foi detectada quando já estava disseminada. Não havia, ainda, a noção de como o vírus se disseminaria. Nem se imaginava a velocidade do contágio. As pessoas lembravam do H1N1, em que alguns cuidados bastaram para controlá-lo. “Limpe as mãos, não dê abraços e beijos e isso basta”, todos pensavam. Os erros da Itália, a demora na decretação da quarentena, a gente pode entender, porque era algo novo. Mas ver o governo brasileiro deliberadamente tentando levar o país ao colapso na saúde, matando centenas de milhares de pessoas, com o apoio de seus fiéis seguidores, acaba comigo. O exemplo está aqui, o mundo inteiro viu os nossos erros. Não decretar a quarentena e matar milhares de pessoas não será um trágico erro, como foi aqui na Itália, mas sim uma escolha. Uma escolha de um governo que é baseado no ódio, voltado para a destruição. O governo bolsonaro é a pulsão de morte institucionalizada.

Ou o Brasil acaba com o Bolsonaro, ou o Bolsonaro acaba com o Brasil.

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