Voltaire, Deus e as religiões

“ESMAGAI O INFAME

Voltaire, já no século 18, foi um ácido crítico dos desvios da religião e da ideia de uma divindade suprema, e ao mesmo tempo, recompensador (no sentido do suborno) e vingativo (a ideia do inferno).

O intelectual e enciclopedista francês ficava muito à vontade para fazer suas duras críticas às instituições religiosas e sobretudo à Igreja, uma vez que ele mesmo era um deísta, acreditava em um ser superior, mas desacreditava das religiões organizadas e instituídas, com as suas corrupções e desvios mundanos (o papa Francisco que o diga, nos dias de hoje).

Voltaire entendeu que a religião funcionava como elemento disciplinador, ético-moral e pacificador dos instintos mais primitivos somente para “la canaille” (a gente comum do povo).

O poder se nutria da força moral da Igreja para produzir medo (inventou o Deus vingativo e a constante ameaça do Inferno) e sugerir suborno (o Deus bondoso e recompensador, em troca de obediência cega e resignação desmobilizadora).

Deus funcionava como um instrumento manipulatório em favor dos interesses e ambições do poder e do mandonismo.

“O primitivo divino foi o primeiro bandido que encontrou o primeiro bobo” – Voltaire expelia fogo e enxofre intelectual da sua pena. Ao mesmo tempo, o filósofo exalta Cristo na teologia do Sermão da Montanha e as andanças do jovem nazareno em meio aos sábios, alertando e lastimando os crimes que eram cometidos “em nome do Pai”.

A atualidade de Voltaire é extraordinária, em especial na atual conjuntura delinquencial do Brasil, onde os limites entre Justiça e bandidagem são plásticos e elásticos, conforme a conveniência de cada fator de uma terrível e trágica equação.

O grande filósofo do Iluminismo foi um dos primeiros que intuiu e denunciou a calculada (e politizada) confusão entre a manifestação autêntica da fé e o mero ato supersticioso rebaixado e egoísta, sempre interessado na vantagem negocial entre o divino e o próprio indivíduo.

Precisamente o que ocorre nos nossos dias. Tanto nos campos de futebol, quanto no círculo de poder planaltino, vêem-se cenas de rezadores contritos e fervorosos empenhados em conquistas fúteis e terrenas.

Aos 83 anos, o velho filósofo começou a conciliar-se com a morte. Quando sua filha vinha beijá-lo, dizia: “A vida beijando a morte”. No final, certo dia apareceu um abade em sua casa, para ouví-lo em confissão.

“Quem vos mandou, senhor abade?”, disse o velho.

“O próprio Deus”, foi a resposta. “Muito bem, senhor, onde estão vossas credenciais?”

O abade foi embora sem conseguir o seu intento.

O agoniante plano inclinado para o fim da vida já estava inexoravelmente traçado. Semanas antes de morrer, o que acaba acontecendo em 30 de maio de 1778, Voltaire chama o seu secretário e dita-lhe uma declaração final: “Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição”.

Encerro com a palavra de ordem de Voltaire, gravada em cada artigo e cada carta que escrevia:

“Esmagai o infame”. Do Cristóvão Feil

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