Destaque

Como fabricar idiotas úteis

Do filósofo alemão Günther Anders, 1956.
′′Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento coletivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento limitando suas habilidades biológicas inatas…
Em seguida, o acondicionamento continuará reduzindo drasticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar. É necessário que o acesso ao conhecimento se torne cada vez mais difícil e elitista… que o fosso se cave entre o povo e a ciência, que a informação dirigida ao público em geral seja anestesiada de conteúdo subversivo.
Especialmente sem filosofia. Mais uma vez, há que usar persuasão e não violência direta: transmitir-se-á maciçamente, através da televisão, entretenimento imbecil, bajulando sempre o emocional, o instintivo. Vamos ocupar as mentes com o que é fútil e lúdico. É bom com conversa fiada e música incessante, evitar que a mente se interrogue, pense, reflita.
Vamos colocar a sexualidade na primeira fila dos interesses humanos. Como anestesia social, não há nada melhor. Geralmente, vamos banir a seriedade da existência, virar escárnio tudo o que tem um valor elevado, manter uma constante apologia à leveza; de modo que a euforia da publicidade, do consumo se tornem o padrão da felicidade humana e o modelo da liberdade.
Assim, o condicionamento produzirá tal integração, que o único medo (que será necessário manter) será o de ser excluído do sistema e, portanto, de não poder mais acessar as condições materiais necessárias para a felicidade. O homem em massa, assim produzido, deve ser tratado como o que é: um produto, um bezerro, e deve ser vigiado como deve ser um rebanho. Tudo o que permite adormecer sua lucidez, sua mente crítica é socialmente boa, o que arriscaria despertá-la deve ser combatido, ridicularizado, sufocado…
Qualquer doutrina que ponha em causa o sistema deve ser designada como subversiva e terrorista e, em seguida, aqueles que a apoiam devem ser tratados como tal.′′

  • Günther Anders, “A obsolescência do homem′′, 1956

Oito afirmações marxistas que podem te surpreender 

Estátuas de Marx em Trier, Alemanha. | Foto por Hannelore Foerster/Getty Images

POR 

MITCHELL ABOULAFIA

TRADUÇÃO
RAPHA KLASS

Compartilhado de jacobin.com.br

Críticos de Marx não costumam entender o grande pensador socialista. Estamos aqui para acertar as contas.

Há muitas formas de se interpretar Marx, várias delas legítimas. Porém, outras buscam reduzi-lo, invocando uma retórica anticomunista. Zombam dele como se fosse um determinista econômico estéril ou detonam suas análises e previsões como se horripilantemente errôneas.

Marx nem sempre esteve certo (e quem está?). Entretanto, ele esteve certo ou afirmou coisas defensáveis com mais frequência do que a maioria das pessoas percebe. Vale a pena prestar mais atenção. 

Portanto, com o objetivo de refutar algumas das representações mais superficiais do grande pensador socialista, aqui estão oito afirmações que deveriam estar inclusas em qualquer interpretação respeitável de Marx ou do Marxismo.


1.

Marx não dispensava simplesmente o capitalismo, estava impressionado por ele. Ele argumentou que é o sistema mais produtivo que o mundo jamais viu.

“A burguesia, em seu reino de apenas cem anos, criou forças produtivas mais massivas e mais colossais do que todas as gerações passadas juntas. Sujeição das forças da Natureza ao homem e ao maquinário; aplicação de química à indústria e à agricultura; navegação à vapor; ferrovias; telégrafos elétricos; desobstrução de continentes inteiros para o cultivo; canalização de rios; populações inteiras invocadas do chão – que século anterior tinha sequer um pressentimento de que tais forças produtivas dormiam sobre o colo do trabalho social?”

2.

Marx previu com precisão que o capitalismo criaria o que hoje se entende por globalização. Ele viu o capitalismo criando um mercado global onde as nações se tornariam cada vez mais interdependentes. 

“A burguesia, através da sua exploração do mercado global, deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para o imenso desgosto dos Reacionários, ela tirou de debaixo dos pés da indústria o solo nacional em que ela se encontrava. Todas as velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão sendo destruídas diariamente…

No lugar do antigo isolamento local e nacional e da autossuficiência, temos relações em todas as direções, interdependência universal das nações.”

3.

Ao contrário das sociedades passadas, que tinham a tendência de conservar tradições e seus modos de vida, o capitalismo prospera com a invenção de modos de produção novos e alternativos que afetam o nosso viver. As tecnologias mudam nossas vidas a uma velocidade ainda maior. Produtos velhos devem abrir caminho para produtos novos (e para aqueles que os produzem). 

Apesar dos capitalistas retratarem isso como se fosse puramente bom, pode ser algo profundamente inquietante, mesmo que certas mudanças sejam positivas. Pode levar as pessoas a sentirem que seus valores e modos de vida não têm mais lugar no mundo – que estão vivendo como madeira morta. Além disso, o emprego de novas tecnologias e métodos de produção na busca de lucro para poucos pode levar a consequências imprevistas. (Em nosso tempo, sem dúvida Marx indicaria a mudança climática como consequência do capitalismo desenfreado.)

“A burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os instrumentos de produção e, assim, as relações de produção, e com elas todas as relações da sociedade…Revolução constante da produção, perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, incerteza e agitação sem fim distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e ultracongeladas, com o seu leque de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas; todas as novas formadas tornam-se antiquadas antes de poderem ossificar. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente obrigado a encarar com sentidos sóbrios suas reais condições de vida e suas relações com sua espécie.”

4.

Empresas poderosas, concentrações de riqueza e novos métodos de produção tornam cada vez mais difícil que profissionais independentes e comerciantes de classe média consigam manter seu status. Eles acabam ficando com o conjunto de habilidades errado ou trabalhando para as empresas que acabaram com os seus tipos de negócio. Em outras palavras, Marx antecipou a Walmartificaçãodas sociedades capitalistas.

“Os estratos mais baixos da classe média – os pequenos comerciantes, lojistas e comerciantes aposentados em geral, os artesãos e camponeses – afundam-se gradualmente no proletariado, em parte porque seu capital diminuto é insuficiente para a escala na qual a Indústria Moderna progride, e são inundados na competição com os grandes capitalistas, e em parte porque sua habilidade especializada é inutilizada por novos meios de produção.”

5.

Marx não defendia a abolição de todas as propriedades. Ele não queria que a grande maioria das pessoas tivesse menos bens materiais. Ele não era um utopista anti-materialista. O que ele se opunha era à propriedade privada – as vastas quantidades de riqueza concentrada pertencentes aos capitalistas, à burguesia. Inclusive, no final da passagem abaixo, ele e Engels ironicamente acusam o capitalismo de privar as pessoas de sua “propriedade auto-conquistada”.

“A característica distintiva do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa.  Mas a propriedade privada burguesa moderna é a expressão final e mais completa do sistema de produção e apropriação de produtos, que é baseado em antagonismos de classe, na exploração dos muitos pelos poucos. 

Nesse sentido, a teoria dos comunistas pode ser resumida numa única frase: Abolição da propriedade privada. 

Nós comunistas temos sido acusados de desejar abolir o direito de adquirir pessoalmente a propriedade como fruto do trabalho de um homem, cuja propriedade é supostamente a base de toda a liberdade pessoal, atividade e independência.

Propriedade duramente conquistada, adquirida por si, auto-conquistada! Você quer dizer a propriedade do pequeno artesão e do pequeno camponês, uma forma de propriedade que precedeu a forma burguesa? Não há necessidade de abolir isso; o desenvolvimento da indústria já o destruiu em grande parte e segue o destruindo diariamente.”

6.

Marx achava que os seres humanos têm uma inclinação natural a se sentirem conectados aos objetos que eles criaram. Ele chamava isso de “objetificação” do trabalho, com o que ele queria dizer que colocamos algo de nós mesmos em nosso trabalho. Quando um indivíduo não consegue se conectar com a própria criação, quando se sente “externo” a ela, isso resulta em alienação. É como se você esculpisse uma estátua e alguém a tirasse de você, e você nunca mais tivesse permissão para vê-la ou tocá-la novamente. Marx argumentou que os trabalhadores estavam em uma posição parecida nas fábricas capitalistas do século XIX.

“O que, então, constitui a alienação do trabalho?

Primeiro, o fato de que o trabalho é externo ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua natureza intrínseca; que em sua obra, portanto, ele não afirma a si mesmo, mas nega a si mesmo; não se sente contente, mas infeliz; não desenvolve livremente sua energia física e mental mas mortifica seu corpo e arruína sua mente. O trabalhador, portanto, apenas se sente ele mesmo fora de seu trabalho, e em seu trabalho se sente fora de si mesmo. Ele se sente em casa quando não está trabalhando e, quando está trabalhando, não se sente em casa. Seu trabalho, portanto, não é voluntário, mas coagido; é trabalho forçado.”

7.

Marx queria que nos libertássemos da tirania da divisão do trabalho e das longas jornadas de trabalho, que impedem os indivíduos de desenvolver diferentes tipos de capacidades e talentos. Nos tornamos servos de um único tipo de atividade e outras de nossas dimensões são subdesenvolvidas. 

“Pois assim que a distribuição do trabalho ocorre, cada homem tem uma esfera de atividade particular e exclusiva, que é imposta a ele e da qual ele não pode escapar. Ele é um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico, e deve permanecer assim se não quiser perder seus meios de subsistência; enquanto na sociedade comunista, onde ninguém tem uma esfera de atividade exclusiva, mas cada uma pode se realizar em qualquer ramo que desejar, a sociedade regula a produção geral e, assim, possibilita que eu faça uma coisa hoje e outra amanhã – caçar pela manhã , pescar à tarde, criar gado à noite, escrever críticas após o jantar, como eu tiver em mente, sem nunca me tornar um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico.”

8.

Marx não era um determinista econômico bruto. A forma com que as pessoas pensam e agem importa. Em uma carta escrita por Engels, ele enfatizou a importância da economia, mas tentou deixar claro que ele e Marx foram mal interpretados (por culpa deles mesmos, parcialmente).

“Marx e eu somos ​​parcialmente culpados pelo fato de que as pessoas mais jovens às vezes colocam mais ênfase no lado econômico do que é devido a ele. Tivemos que enfatizar o ponto principal em relação aos nossos adversários, que o negavam, e nem sempre tivemos tempo, local ou oportunidade de dar a atenção devida aos outros elementos envolvidos na interação. Mas quando se tratava de apresentar uma seção da história, ou seja, fazer uma aplicação prática, era uma questão diferente e não havia permissão para erros. Infelizmente, porém, acontece com muita frequência que as pessoas pensam que entenderam completamente uma nova teoria e podem aplicá-la sem mais delongas a partir do momento em que assimilaram seus aspectos principais, e mesmo estes nem sempre corretamente. E não posso isentar muitos dos “marxistas” mais recentes dessa censura, pois as besteiras mais surpreendentes também foram produzidas neste último trimestre…”

Sobre os autores

MITCHELL ABOULAFIA 

é professor de filosofia na Manhattan College

No que estou pensando?

Do Carlos Paiva: “No que estou pensando?
NA IN-GUINORÂNCIA ECONÔMICA DE TANTOS “ESPECIALISTAS EM RÚSSIA”
E compus um poemeto:
Alguns dizem besteira por poucos dias.
Esses são ignorantes, mas aprendem.
Outros dizem besteira muitos dias.
Esses são os lerdos; insista que dá.
Outros dizem besteira a vida toda,
Esses não têm salvação.

Com a Guerra na Ucrânia é quase impositivo ouvir jornalistas e especialistas falando sobre a Rússia todos os dias. Já me acostumei com várias bobagens ditas por aí. Na linha: si o estRupo é inevitáveR, relax and cum. Mas tem umas que, a nível de pessoa economista, não dá prá aguentar.

A mais enervante e repetitiva diz respeito à expressão econômica da Rússia. Nove entre cada dez comentaristas afirmam que a Rússia é uma economia exportadora de commodities, periférica e pouco expressiva na ordem mundial. Mas, contraditoriamente apresenta um poder bélico desproporcional à sua inserção “periférica”.

Xente, pliss! NENHUMA ECONOMIA PERIFÉRICA EXPORTADORA DE MATÉRIAS-PRIMAS PODERIA DISPUTAR A HEGEMONIA MILITAR COM OS EUA.

Esta disputa pressupõe um padrão e um nível de desenvolvimento tecnológico excepcionalmente elevado. Pressupõe uma indústria mecatrônicaspacial (metal-mecânica, eletro-eletrônica e aero-espacial) com elevado grau de autonomia e internalização (produção interna; por oposição a importações). E tudo isto pressupõe que a economia seja relativamente diversificada e capaz de gerar um excedente suficientemente grande para financiar os investimentos públicos no complexo industrial-militar.

NA VERDADE, DE ACORDO COM O FMI, A RÚSSIA É A SEXTA MAIOR ECONOMIA DO MUNDO, QUANDO AVALIAMOS SEU PIB POR PARIDADE DE PODER DE COMPRA.

Sua participação no PIB mundial em 2020 (3,11%) só era superada pela participação da China (18,33%), EUA (15,83%), India (6,8%), Japão (4,03%) e Alemanha (3,44%). Ao contrário do que 9 entre 10 “especialistas” dizem, o PIB da Rússia é maior do que o da França, do Reino-Unido, da Itália, da Coreia, e do Canadá.

Qual a fonte do erro? Simples: o PIB pode ser analisado-mensurado-comparado de duas formas. Na primeira, mais simples (e mais simplista), calcula-se o PIB na moeda nacional (interna) e, depois, converte-se o valor para a moeda mundial (dólar) pelo câmbio do ano ou o câmbio médio ao longo de um determinado período de tempo. QUANDO SE CALCULA O PIB DA RÚSSIA DESSA FORMA, SEU PIB ABSOLUTO E RELATIVO CAEM, POIS O RUBLO ESTÁ DESVALORIZADO EM FUNÇÃO (dentre outros fatores) DAS SANÇÕES APLICADAS À RÚSSIA DESDE 2014. Ainda por câmbio nominal, os EUA são a maior economia do mundo. E a China fica em segundo lugar.

Mas se avaliamos por PPP – vale dizer, pela taxa de câmbio que equilibra o poder de compra INTERNO das distintas moedas – o PIB russo mostra-se muito maior. E o Chinês já ultrapassou o PIB norte-americano.

Por que não usamos esta medida – mais correta e calculada pelo próprio FMI – para avaliar os países?

Porque se ela fosse utilizada, ficaria claro – dentreo outras coisas – que A ECONOMIA DOS BRICS, SOMADA, É MAIOR DO QUE A ECONOMIA DO G-7. (clica na tabela abaixo e visualize!)

E isto é uma coisa que os “líderes” (que se pensam donos) do mundo não querem ver e não querem que seja visto. A grande mídia, seja a do centro do mundo, seja a da periferia faz o papel de sempre: não questiona, repete o que Biden, Boris Johnson e Ursula van der Leyen declaram e “conclui” que a Rússia e os BRICS são pequenos e o G-7 é enorme.

A mídia não vai mudar. Faz parte do terceiro grupo do poemeto: não tem salvação. Mas, pliss, especialistas: vamu fazê um up grade prá cima na cormpreensà da realidade real? Plissssssss!”

Colunistas por encomenda

Do professor Luis Felipe Miguel

Os colunistas da Folha se mobilizam para defender o aumento no preço dos combustíveis.

Hélio Schwartsman pontifica que é necessário deixar a mão invisível agir. Afinal, “os preços refletem informações relevantes sobre a disponibilidade de produtos e as distribuem para milhões de agentes, que têm liberdade para se posicionar de modo a satisfazer suas necessidades da melhor forma possível”.

Não existe informação assimétrica, manipulação, ação especulativa. A “liberdade” está dada, por igual, para todos os agentes. No mercado, afinal, somos todos livres e iguais, não é mesmo?

De quebra, diz o filósofo oficial da Folha, “o petróleo caro funciona também como estímulo ao desenvolvimento de fontes alternativas de energia, do que o mundo depende para mitigar o desastre climático”.

Putin, quem diria, é o salvador do meio ambiente.

É bonito o mundo em que se move Schwartsman – o mundo dos almanaques da economia liberal. Pena que só existe na cabeça de quem cria e dissemina essas fábulas.

Já Vinicius Torres Freire opta pelo populismo. Por que as pessoas se revoltam com o aumento dos combustíveis, que não interessa aos pobres, mas não com o aumento do óleo de soja?

Todo mundo que usa carro é rico, claro. Por isso mesmo, você, que tem aquele Gol 1.0 ano 2011, precisa se precaver contra essa ideia de imposto sobre grandes fortunas.

Mas nem precisa chegar a tanto. O pobre de Torres Freire não pega ônibus para se movimentar, não compra no mercado produtos que são sensíveis ao aumento do frete, não usa gás de cozinha para preparar sua comida. O pobre de Torres Freire passa o dia pescando no riacho atrás de sua casa e se alimenta exclusivamente de sashimi.

Se o preço dos combustíveis não aumentar, acrescenta ele, a Petrobrás “teria menos dinheiro para investir e produzir”. Curiosamente, porém, a implementação da política “parental” de dolarização foi acompanhada de uma ampliação da dependência do refino externo, não o contrário.

Também curiosamente, o jornalista não acha necessário mencionar que a Petrobrás acabou de pagar mais de R$ 37 bilhões de dividendos complementares aos acionistas, que se somam aos mais de R$ 62 bilhões pagos no final do ano passado. Uai, o dinheiro não era para “investir e produzir”?

Um incauto poderia dizer que a pobreza dos argumentos dos colunistas da Folha mostra sua incompetência.

Não acho que seja assim. É um esforço deliberado para anular qualquer possibilidade de debate efetivo sobre política econômica, substituído pelo repisar sem fim de dogmas superficiais e desconectados da realidade.

Humanidade

Por Elton Luiz Leite de Souza

A palavra “estoico” vem de “stöa”: “porta” ou “portal”. Isso porque os estoicos escolhiam abrir suas escolas de filosofia bem no portal das cidades, perto de sua abertura.
Àquela época, as cidades eram muradas. No centro delas ficavam a praça e o mercado. Platão , fundador da Academia, e Aristóteles, criador do Liceu, estabeleceram suas escolas próximo ao mercado e guardadas por muros.
Mas os estoicos preferiam dizer que sua filosofia estava a serviço daquilo que não podia ser cercado e murado. Os estoicos queriam ir além não só dos muros físicos, mas sobretudo dos muros que cercam a alma e a põem prisioneira de si mesma.
A razão em Aristóteles é identificada ao homem . Mas os estoicos diziam que o pensar é abertura à Terra, aquela que nenhum muro , nem os muros da falocrática razão, separa do cosmos, esse horizonte infinito.
Em vez de glorificar o “Homem”, os estoicos introduzem uma nova ideia: a “humanitá”, palavra feminina. A humanitá não pertence a uma pólis isolada, a humanitá habita a Terra.
Falar no “Homem” como ideia universal é escamotear os seres diferentes dos homens, seres esses que o homem reprime e explora, colocando-se como “Modelo” e “Padrão”. Por isso, a humanitá não é um Modelo ou Padrão.
O Homem é definido por Aristóteles como “Animal Racional”, embora tanta irracionalidade vemos na conduta do Homem, na guerra contra outros homens e na predação da natureza. A humanitá não é o “Homem”, ela é comunidade planetária vital.
A humanitá não é uma ideia abstrata , pois ela é também uma prática ética e política de defender a humanidade em nós, protegendo-nos dos homens que querem destruí-la. A humanidade não é um “Padrão”, ele é uma comunidade aberta e heterogênea.
O Homem tem um rosto: o do homem hétero, branco, proprietário, conservador . Esse rosto muitas vezes se coloca atrás da religião para esconder sua desumanidade contra as mulheres, contra os que não têm a cor de sua pele , contra os que vivem outras formas de amor, contra os explorados pelo Capital, enfim, contra os que são e pensam diferente.
Mas qual o rosto da humanidade? Em quem podemos ver sua face? O rosto da humanidade somente se expressa em quem se faz singularidade. Singularidade não é a mesma coisa que indivíduo. Uma singularidade é sempre parte de uma multiplicidade. E nenhuma multiplicidade pode ser contida pelos muros excludentes de um Padrão.
Toda singularidade se torna mais potente quanto mais sua diferença se amplia em múltiplas e variadas conexões e agenciamentos. Singularidade não é apenas razão, singularidade também é desejo, criatividade, sensibilidade, corpo e ação.
Sobretudo, singularidade não é o eu ou o ego, ela é o que em nós se coloca à porta de nós mesmos, abertos à natureza, ao mundo, ao outro, à diferença, no seio aberto da Terra.
A “humanitá” estoico-latina corresponde à “paideia” grega, ambas expressando a prática de uma educação não apenas teórica, mas libertária.

Voltaire, Deus e as religiões

“ESMAGAI O INFAME

Voltaire, já no século 18, foi um ácido crítico dos desvios da religião e da ideia de uma divindade suprema, e ao mesmo tempo, recompensador (no sentido do suborno) e vingativo (a ideia do inferno).

O intelectual e enciclopedista francês ficava muito à vontade para fazer suas duras críticas às instituições religiosas e sobretudo à Igreja, uma vez que ele mesmo era um deísta, acreditava em um ser superior, mas desacreditava das religiões organizadas e instituídas, com as suas corrupções e desvios mundanos (o papa Francisco que o diga, nos dias de hoje).

Voltaire entendeu que a religião funcionava como elemento disciplinador, ético-moral e pacificador dos instintos mais primitivos somente para “la canaille” (a gente comum do povo).

O poder se nutria da força moral da Igreja para produzir medo (inventou o Deus vingativo e a constante ameaça do Inferno) e sugerir suborno (o Deus bondoso e recompensador, em troca de obediência cega e resignação desmobilizadora).

Deus funcionava como um instrumento manipulatório em favor dos interesses e ambições do poder e do mandonismo.

“O primitivo divino foi o primeiro bandido que encontrou o primeiro bobo” – Voltaire expelia fogo e enxofre intelectual da sua pena. Ao mesmo tempo, o filósofo exalta Cristo na teologia do Sermão da Montanha e as andanças do jovem nazareno em meio aos sábios, alertando e lastimando os crimes que eram cometidos “em nome do Pai”.

A atualidade de Voltaire é extraordinária, em especial na atual conjuntura delinquencial do Brasil, onde os limites entre Justiça e bandidagem são plásticos e elásticos, conforme a conveniência de cada fator de uma terrível e trágica equação.

O grande filósofo do Iluminismo foi um dos primeiros que intuiu e denunciou a calculada (e politizada) confusão entre a manifestação autêntica da fé e o mero ato supersticioso rebaixado e egoísta, sempre interessado na vantagem negocial entre o divino e o próprio indivíduo.

Precisamente o que ocorre nos nossos dias. Tanto nos campos de futebol, quanto no círculo de poder planaltino, vêem-se cenas de rezadores contritos e fervorosos empenhados em conquistas fúteis e terrenas.

Aos 83 anos, o velho filósofo começou a conciliar-se com a morte. Quando sua filha vinha beijá-lo, dizia: “A vida beijando a morte”. No final, certo dia apareceu um abade em sua casa, para ouví-lo em confissão.

“Quem vos mandou, senhor abade?”, disse o velho.

“O próprio Deus”, foi a resposta. “Muito bem, senhor, onde estão vossas credenciais?”

O abade foi embora sem conseguir o seu intento.

O agoniante plano inclinado para o fim da vida já estava inexoravelmente traçado. Semanas antes de morrer, o que acaba acontecendo em 30 de maio de 1778, Voltaire chama o seu secretário e dita-lhe uma declaração final: “Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição”.

Encerro com a palavra de ordem de Voltaire, gravada em cada artigo e cada carta que escrevia:

“Esmagai o infame”. Do Cristóvão Feil

José Luís Fiori: A guerra na Ucrânia e os seus efeitos na Europa, Rússia, EUA e China 


Publicado em viomundo.com.br


Notas sobre a guerra na Ucrânia

Por José Luís Fiori, em A Terra é Redonda

Considerações sobre os efeitos do conflito na Europa, na Rússia, nos EUA e na China.

1.

A história da Rússia começa em Kiev por volta de 800 d.C. e nestes longos séculos o território atual da Ucrânia pertenceu à Rússia, e depois à Polônia, à Lituânia, à Áustria e finalmente, de novo à Rússia e à URSS no século XX.

A Ucrânia só se transforma numa República por obra da Revolução Bolchevique de 1917, e vira um estado nacional autônomo em 1991, como parte da “punição” imposta à Rússia depois da derrota soviética na Guerra Fria.

Neste momento os russos estão questionando a expansão da OTAN sobre a Ucrânia, mas sobretudo estão se propondo a modificar os termos deste “acordo de paz” que lhe foi imposto na década de 1990.

Deste ponto de vista, da história de larga duração dos povos se poderia até dizer que o território ucraniano tem uma relação mais longa e mais estreita com a Rússia de Ivan III e IV, e com o Império dos Romanoff, do que a relação de Taiwan com a China continental que só se estreitou depois do Século XVII.

Mesmo assim, não creio que o objetivo atual da Rússia seja anexar a Ucrânia, nem muito menos expandir-se para além do seu território atual.

Não há dúvida, porém, que a Rússia está se propondo agora, pela via das armas, fazer o que havia proposto pela via diplomática: neutralizar militarmente a Ucrânia, e reverter parte de suas perdas impostas pela derrota do final do século passado.

Vladimir Putin,

2.

Depois que uma guerra começa é muito difícil prever até onde irá e quando terminará a menos que exista um perdedor claro. Neste caso dependerá muito do objetivo imediato e da velocidade da operação militar russa.

No momento parece pouco provável uma guerra mundial envolvendo as grandes potências do sistema, uma espécie de terceira guerra mundial.

Os países europeus e a própria Otan não têm capacidade militar suficiente para enfrentar a Rússia.



Os EUA saíram muito divididos e fragilizados – interna e externamente – de sua recente humilhação militar no Afeganistão, e da política de suas “intervenções militares” com o objetivo de mudar os governos ou regimes da Líbia, do Iraque, da Síria, do Iêmen, e do próprio Afeganistão. Para não falar da “insuficiência” de suas sanções econômicas contra o Irã, a China e a própria Rússia.

3.

Os europeus temem a superioridade militar dos russos com relação a todos seus exércitos nacionais.

De um ponto de vista estritamente realista os europeus sabem que são hoje um protetorado atômico dos Estados Unidos. No caso da Alemanha, trata-se de um país ainda literalmente ocupado por tropas e armamentos americanos.

Além disso, os europeus têm uma dependência energética muito grande do petróleo e do gás da Rússia, que é a fonte de mais de 40% do gás consumido na Europa. Apesar das declarações ribombantes de alguns líderes europeus, em particular os alemães, a Europa não tem como substituir a energia russa no curto nem no médio prazo.

Se os europeus forem obrigados pelos norte-americanos a cortar seus “laços energéticos” com a Rússia, terão que enfrentar de imediato racionamento, inflação, perda de competitividade e muito provavelmente revoltas sociais de uma população que já foi atingida pesadamente pelos efeitos da pandemia do coronavírus.

A Rússia deverá responder às sanções das potências ocidentais e quem será atingido de forma mais imediata serão os europeus, caso a Rússia suspenda, por exemplo, exportação de alimentos ou de minérios atingindo a população e as empresas europeias.

Para não falar da capacidade muito superior dos russos fazerem ciberataques às empresas e instituições governamentais europeias, se por acaso a Rússia decidir responder às sanções econômicas e financeiras que estão sendo anunciadas sem levar em conta a resposta que receberão dos russos.

É um quadro muito complicado e indefinido para todos, mas com certeza o lado mais frágil é o dos europeus, no médio prazo.

4.

O historiador e filósofo alemão, Oswald Spengler (1880-1936) anunciou o “declínio do Ocidente” logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, e vários outros autores bateram nesta mesma tecla através do século XX, incluindo os autores que discutiram a “crise da hegemonia americana” nas décadas de 70 e 80 do século passado.

Estes processos históricos, entretanto, são lentos e passam por caminhos muito sinuosos. Às vezes avançam, às vezes recuam.

Neste caso houve uma aceleração do tempo histórico nas duas últimas décadas, e, em particular, desde o momento em que a Rússia voltou à condição de segunda maior potência militar do mundo, enquanto a China decidiu acelerar a modernização de sua marinha e de sua capacidade balística, além de dar início ao seu grande projeto de construção e incorporação de mais de 60 países ao redor do mundo, no programa Belt and Road.

Caso se queira simplificar este processo mais recente, poderíamos dizer que a grande inflexão aconteceu no momento em que a Rússia interveio na Guerra da Geórgia, em 2008, dando um “basta” à expansão da OTAN, e depois interveio na Guerra da Síria, em 2015, por sua própria conta e seguindo seu próprio comando.

Essas ações, de pleno sucesso militar, deixaram claro que surgia no mundo outra potência com capacidade de arbitrar, sancionar e punir por sua própria conta, mesmo que fosse – como neste caso – em nome de valores e objetivos buscados também pelas “potências ocidentais’, como era derrotar o chamado “Estado Islâmico”.

Esta inflexão acelerou ainda mais no momento em que a China de Xi Jinping colocou sobre a mesa seus objetivos estratégicos para as próximas décadas, e ao mesmo tempo chamou o Ocidente a respeitar o fato de que agora existem múltiplas culturas e civilizações dentro do mesmo sistema interestatal.

A “declaração” da Rússia e da China, de 7 de fevereiro de 2022, consagra esta convergência e anuncia o fim do poder e da ética mundial unipolar imposta pelo Ocidente nos últimos 300 anos da história do sistema mundial.

Uma coisa que chama a atenção nesta “carta aos povos do mundo” da Rússia e da China, é a defesa do que eles denominam de valores da liberdade, da igualdade, da paz e da democracia, respeitando-se a visão de cada povo com relação a cada uma destes “valores” que eles também apresentam como universais.

*José Luís Fiori é professor do Programa de pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O Poder global e a nova geopolítica das nações (Boitempo).

Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Rodrigo Martins e publicada no site da revista Carta Capital[https://www.cartacapital.com.br/entrevistas/os-europeus-temem-a-superioridade-militar-dos-russos-e-uma-crise-energetica/].

O nazismo está entre nós

Por Rogério Godinho

O nazismo entre nós.
Boa parte de meus colegas nesta rede tem uma definição bastante restrita do que seria um nazista.
Precisa ter um histórico consistente, preencher todos os requisitos e, no mundo ideal, fazer a saudação e usar a suástica.
Em alguns casos, vão dizer que mesmo o sujeito que faz tudo isso (exceto a suástica) não é um nazista.
Ele só está “brincando”.
Como se as táticas nazistas tivessem sido sempre honestas, explícitas, diretas.
Hitler ascendeu ao poder em um jogo de recuos e mentiras. Escreveu em detalhes tudo que faria, depois negou e negou e negou. Fanático pela guerra como solução, disse que era amante da paz.
Se o Hitler viajasse no tempo, como no romance de Timur Vermes, e viesse ao Brasil, diriam dele:
“Este homem de bigodinho? Não pode ser nazista. Ele é um pacifista!”
Nos lugares certos e nos momentos escolhidos, evitou falar de judeus.
“Este homem de bigodinho? Não pode ser nazista. Seu discurso não falou de judeus!”
No caso do homem de bigodinho, havia um histórico, um livro que dizia tudo que ele queria fazer.
O restante dos nazistas não eram tão consistentes. Uns se importavam mais com o antissemitismo, outros com a repressão aos comunistas, outros ainda só queriam aniquilar inimigos e obter poder. Exigir um histórico consistente poderia excluir até uma parte dos que serviam ao Reich de serem chamados de nazistas.
Hoje, é ainda mais difícil. O ambiente político e mesmo a legislação dificultam bastante que alguém seja explicitamente nazista. O levantamento de células nazistas no Brasil enfrenta essa dificuldade. Sabemos que são mais de 500 células no Brasil, mas seus membros negam que sejam nazistas. Óbvio, ser nazista é um crime.
Por isso, é bobagem esperar que uma personalidade pública se reconheça nazista. Ninguém vai fazer isso, por mais que algumas de suas ideias e táticas sejam semelhantes.
Agora, vale fazer algumas perguntas.
Em quem vocês acham que os membros das células nazistas votaram e que meios de (des)informação eles usam?
Por qual razão você acredita que elas escolheram essas pessoas?Será que é porque suas ideias são próximas?
Talvez porque seus atos e posições tornam mais próxima a existência de algo parecido ao nazimo no Brasil?
Responder essas perguntas não é simples. Hoje, as ideias nazistas encontraram outros caminhos, por meio dessa extrema-direita que avançou um grau no jogo, que usa o argumento do suposto humor, do comentário “sem consequências”, do tongue in cheek.
Assim, eles podem avançar o nazismo, mentir e distorcer de maneira semelhante ao que os jornais de extrema-direita faziam antes da ascensão de Hitler (a semelhança de tática é incomparável, nenhum outro modelo é tão parecido, nem a imprensa stalinista). Podem defender a existência de subclasses. Podem atacar minorias. Podem negar a ciência. Podem constantemente distorcer e mentir sem que seus leitores vejam problema nisso. Podem promover o uso da força como elemento organizador da sociedade e fazer com que a vida deixe de ser o valor máximo. Podem fazer tudo isso com um sorriso no rosto e não vamos poder chamá-los de nazistas.
Estão só promovendo o “debate”.
São “despreparados”.
São “libertários”.
São “ancap”.
Assim, mais do que nunca, se definir direitinho, ninguém é nazista. No sentido estrito, ninguém. Nem Monark, nem Olavo, nem Bolsonaro.
Acho que precisamos reconhecer isso e reagir à altura.
A dissimulação não pode salvar esses caras de serem chamados do que são. Se tocam no fruto, se querem relativizá-lo, trazê-lo de volta, enquanto simultaneamente usam as mesmas táticas e valores equivalentes, então temos uma palavra para eles.
Nazistas.

Monark, Kataguiri e o Nazismo

Do professor Luis Felipe Miguel

Até ontem, eu não sabia quem era Monark. (Certamente virá alguém dizer que sou elitista e alienado por causa disso, mas a vida é curta demais para que eu me imponha a obrigação de conhecer todos os influencers direitistas e mentecaptos do mundo.)

Não vi o podcast com Tabata Amaral e Kim Kataguiri, no qual ele, secundado pelo deputado do MBL, defendeu o direito de organização dos nazistas. Pelos resumos que li, tendo a concordar com a apreciação de Carlos Reiss, coordenador do Museu do Holocasto em Curitiba: “Eu não vejo, a partir da fala dele, explicitamente, uma apologia do nazismo. Acho que existe uma deturpação do que é a liberdade”.

É importante fazer esta distinção, porque o não enquadramento dele no crime de apologia não significa, de forma nenhuma, que sua fala não foi nociva.

Da forma como vejo, o centro do discurso seja de Monark, seja de Kataguiri, é a equiparação entre nazismo e comunismo. Uma tese que aparentemente é tão forte que até o PCO acredita nela.

Monark e Kataguiri fingem ir no caminho contrário, mas na verdade estão no mesmo diapasão daquele projeto do Eduardo Bananinha, de criminalização da defesa do comunismo.

Comunismo e nazismo são apresentados como simétricos. Se um é proibido, o outro deve ser. Ou: se um é permitido, também é preciso permitir o outro. Tudo isso em nome de um pretenso “fair play” na disputa ideológica, tal como explicitado pelo pseudo-bêbado no podcast.

Uma versão, para consumo do grande público, da velha tese ideológica do “totalitarismo”.

Já escrevi várias vezes sobre isso, então vou repetir mais uma vez: comunismo e nazismo são duas correntes antagônicas. Um liberal honesto deveria ser capaz de admitir isso.

A utopia comunista é uma sociedade de igualdade, de liberdade plena e de cooperação. Já o nazi-fascismo prega abertamente a hierarquia, a violência e a submissão ou mesmo o extermínio daqueles apresentados como inferiores.

São esses os valores básicos que orientam cada projeto político, os afetos que eles buscam mobilizar. Não poderiam ser mais diversos.

Não é preciso negar o caráter assassino do regime stalinista para chegar a esta conclusão.

Sim, a experiência histórica do regime que se afirmava comunista (ou ao menos voltado à construção do comunismo) foi marcada pela violência em larga escala – assim como, aliás, foi a experiência histórica das sociedades que se proclamam liberais, responsáveis, por exemplo, pelos crimes do colonialismo e pela pauperização da classe trabalhadora.

Mas o holocausto dos povos judeu e roma (“ciganos”) é uma consequência lógica, uma derivação do mito hitlerista da raça ariana. Poderia não ter ocorrido, pelo menos não da forma que ocorreu; mas estava contido, em semente, em toda a pregação nazista, desde antes da conquista do poder.

Já o gulag, ao contrário, não está incluído no marxismo, no discurso comunista ou na Revolução de 1917: é uma degeneração, uma aberração ou, quando muito, uma virtualidade não necessária.

Vetar a difusão de propaganda nazista é uma forma de garantir que os direitos de vastas parcelas da população não sejam ameaçados. Já criminalizar o comunismo é bloquear a discussão sobre que mundo queremos construir.

Olavo viveu para entender que foi usado e descartado por Bolsonaro

Publicado no Uol Notícias

Por Leonardo Sakamoto

25 de janeiro de 2022

Olavo de Carvalho destratou as pessoas como se todas fossem ignorantes e ele sábio. E talvez tenha morrido de uma doença para a qual já existe vacina por recusar a tomá-la. Foi sim um farol para milhares, como postou de forma oportunista Jair Bolsonaro. Pena que chamou multidões em direção às pedras ao invés de alertar para seu perigo.

É irônico escrever um texto respeitoso de alguém que desrespeitava tanta gente a todo e qualquer momento. Talvez ele próprio preferisse um texto cheio de palavrões e insultos como ele faria.

Lamento a sua morte como lamento as das 5,6 milhões de vítimas mundiais da covid-19 e de suas complicações. Creio que todos os que lutam para que os direitos humanos não sejam um monte de palavras bonitas emolduradas em uma declaração septuagenária não acreditam que uma morte vingue qualquer coisa. Até porque, convenhamos, amor pela morte é departamento do bolsonarismo.

Mas também lamento que ele tenha falecido sem poder constatar que a guerra cultural que ajudou a fomentar por um ultraconservadorismo excludente, preconceituoso e violento não vai prosperar. Lamento que ele tenha morrido no meio da longa noite, antes de constatar que o dia sempre volta a nascer.

Olavo, contudo, viveu o suficiente para perceber algo que outros ex-colaboradores do atual regime autoritário sob o qual estamos submetidos também já haviam percebido: que foi usado e descartado por Bolsonaro.

“Ele me usou como ‘poster boy’, ele me usou para se promover e se eleger. Depois disso não só esqueceu tudo o que eu dizia, mas até os meus amigos que estavam no governo ele tirou”, afirmou em live, no dia 20 de dezembro do ano passado, em que também participaram os ex-ministros Abraham Weintraub (Educação), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente).

Claro que rolou uma simbiose, mais do que um parasitismo. Olavo também se aproveitou da proximidade com o uso que Bolsonaro estava fazendo dele para ganhar estatura, tornar-se pauta importante na mídia, indicar ministros e secretários, ser convidado para jantares. Mas, no final, com o casamento do presidente com o centrão, sua importância relativa já havia decaído muito. Pelo contrário, os novos aliados queriam que o histrionismo fosse deixado de lado em nome do pragmatismo eleitoral.

Mas é notória em Brasília a capacidade de Bolsonaro de usar quem está à sua volta para depois abandoná-lo no meio da estrada. Isso não aconteceu apenas com ala olavista do governo, da qual os três ex-ministros supracitados faziam parte, mas também com pessoas que consideravam o capitão um amigo, como o general Santos Cruz, Magno Malta ou Gustavo Bebianno.

O astrólogo e polemista tinha clara consciência de que nunca foi o “guru” do presidente e de que Jair nunca tinha lido um livro seu. Bolsonaro usou Olavo como ração para uma parte de seu rebanho. Mas o presidente nunca foi olavista e sim bolsonarista, com um projeto de país que não passa pela cartilha professada pelo falecido, mas por qualquer coisa que garanta sua perpetuação no poder. Bolsonaro, em última instância, não é ideológico, mas um aproveitador.

O bolsonarismo é sincrético, com espaço para as relíquias confusas e extremistas de Olavo, mas também para igrejas com estátuas do centrão, símbolos milicianos, sacramentos militares e preces do fundamentalismo religioso. Agora, com a morte de Olavo, o presidente pode usar o polemista nos seus discursos voltados ao bolsonarismo-raiz sem que o próprio venha reclamar.

O olavismo não se vai com Olavo, contudo. Há na macabra negativa de vacinas a crianças, levada a cabo pelo governo federal para excitar os seus seguidores, uma clara influência do movimento que o polemista ajudou a fomentar. Tanto que há seguidores seus dentro do Ministério da Saúde transformando estupidez em política pública.

Da mesma forma que o bolsonarismo deve sobreviver a Bolsonaro, o olavismo vai sobreviver a Olavo.

Mensagem do filho do poeta Thiago de Mello

Passei três semanas no Amazonas, viajando sozinho. Se é que é possível dizer que viajei sozinho, pois sempre estive acompanhado de gente que me quer bem, amigos e familiares que encontrei pelo caminho. Gente que amo e que me constitui. Fui com dois propósitos nessa imersão solitária. O primeiro, visitar meu pai. Estar com ele por alguns momentos, já ciente da situação de saúde e cuidados na qual ele se encontrava. Depois, fui com o objetivo de iniciar uma reforma inadiável em nossa casa à beira do rio, em Freguesia do Andirá, no interior do município de Barreirinha, a quase 350 km de Manaus. Um dia de barco pra chegar até lá. A casa me pede zelo já há um tempo e estou há uns meses organizando uma campanha para arrecadar recursos para as obras. Consegui uma parte do dinheiro através da generosidade e da compreensão de muitos amigos e conhecidos, todos amantes da amizade, da poesia, da Amazônia e da obra literária de meu pai. Todos sonhadores como eu, que sabem, como meu pai, que arte e cultura geram evolução individual e progresso social. Embarquei no final de Dezembro para Manaus, sendo acolhido pela minha família amazonense que tanto quero bem. Fui ao apartamento de meu pai e Pollyanna. Ele já estava praticamente sem se levantar. Fui até o quarto. Quando ouviu minha voz, comentou: “voz bonita a do meu filho”. Com a memória dissolvida pelo tempo (do qual não se corre) e pelas neuropatias, perguntou meu nome e se eu tinha filhos. Disse que me chamava Thiago e que tinha duas filhas. Nossas mãos entrelaçadas num carinho suave e ancestral. “Mas então nós temos o mesmo nome”, ele notou. Falei que isso tinha sido invenção dele, pôr meu nome Thiago Thiago de Mello. No que ele, após um certo silêncio, falou baixinho: foi pra ficarmos juntos até mesmo no nome. “Cuida bem das suas filhas”. (Eu me emocionei muito nessa hora porque queria dizer a ele que se sou um bom pai é porque ele foi o melhor formador e educador que eu pude ter). Seguimos nossa conversa cheia de silêncios e respirações. Quis saber o que eu fazia da vida. “Canções e poemas”, não titubeei. Ele fez que sim com a cabeça e repetiu “canções e poemas, isso”. Perguntei se eu estava indo no caminho certo. “Certíssimo”, ele me disse com a voz grave de trovão adormecido. Comentei que estava indo para Barreirinha cuidar da nossa casa, pedi a sua benção (“Deus lhe abençoe”, me beijando a mão) e segui o meu caminho rumo ao rio Andirá, dos Saterês-maués. Fiquei semanas num país submerso, me nutrindo do passado, de banho de cheiro, tucumãs, ovas de curimatã, sombra de castanheira, amizades verdadeiras e caldeiradas de tucunaré e tambaqui. As obras começaram. Retiramos as vigas podres. Os esteios corroídos substituímos por madeira nova. Passamos óleo queimado para afugentar o cupim de terra traiçoeiro. Compramos tinta, cimento, ferro. Vieram os trabalhadores. As telhas chegaram de Parintins, presente de Antonio Beti, cuja doação jamais esquecerei. Recebi tanto em minha jornada pelas águas. Fiz um trabalho firme, aguentando o rojão sob chuva e sol quente. Barreirinha, onde meu umbigo está enterrado, me acolheu como sempre. Vi a felicidade nos olhos de gente simples, hospitaleira, contadora de histórias. É com meus irmãos e irmãs ribeirinhos que meu espírito se molda e evolui. Na verdade estava, sem saber, me preparando para um adeus após uma longa despedida. Fortaleci minha alma estando naquele lugar, berço meu, que aprendi a amar com meu pai e minha mãe desde que pra lá fui levado aos 6 meses de idade. Voltei pra Manaus e fui ao apartamento ver meu pai. Ele não me respondeu, já completamente dentro do seu próprio mundo, distante daqui. Pedi um violão e, então, comecei a tocar. As lágrimas caíram, eu sentado e ele deitado na cama. Tirei do baú as canções que sempre cantávamos juntos: “Azulão”, “Por que tu te escondes”, “Linda vida”, “Pai velho”, “Quem me levará sou eu”, “Faz escuro, mas eu canto”. Fiquei ali cantando por mais de trinta minutos, a primeira vez em nossas vidas que ele não cantou junto comigo. Foi um concerto de despedida. A nossa despedida tinha que ser com música e poesia, universo no qual sempre nos encontrávamos. Saí dali e fui comer um pacu assado de brasa em sua homenagem. Botei bastante pimenta murupi e tomei um suco de taperebá pra aliviar o peito. No dia seguinte, logo cedo pela manhã, papai atravessou o rio da vida. Morreu dormindo, bravo merecedor. Parece que estava só me esperando para seguir à Casa do Infinito. Sincronicidade astral, projeto dos deuses, dádiva da natureza. Ele foi em paz. Estamos de luto, mas em breve cantaremos com alegria, como ele sempre nos ensinou.”

A beleza da vida em sociedade

A primeira frase que li em um texto sobre Ciências Humanas e Sociais há, talvez, mais de 50 anos, dizia : ”O ser humano é um ser gregário” e explicava que a sobrevivência do ser humano na Terra só se tornou possível pela colaboração e pela solidariedade. Este é um conceito muito simples de entender e, até, intuitivo: tudo à nossa volta, que nos proporcionou sobreviver em um meio-ambiente hostil, escapar ou curar nossas doenças ou manter nossa saúde física e mental, foi construído por grupos organizados, acumulando e compartilhando conhecimentos adquiridos pela vida em sociedade.

A vida em sociedade é bela, também, pelas lições que traz.

As pessoas anti-vacina, individualistas, que pregavam não querer participar de um experimento, estão servindo exatamente para isso: como grupo de controle para os cientistas estudarem os efeitos das variantes do vírus em indivíduos não vacinados.
Se uma decisão de aplicar placebo, ou seja, não aplicar vacina, em determinado grupo de pessoas para que sirvam de grupo de controle tem sérios questionamentos éticos, a existência de um grupo que escolheu não tomar a vacina, embora cause contaminação, superlotação nos hospitais e mortes de inocentes, pelo menos atenua a preocupação dos cientistas.
Esse grupo de anti-vacinas involuntariamente “participa do experimento”.
Aliás, desde o seu nascimento, tendo seu parto sido feito por uma parteira, numa choupana, ou por uma equipe de médicos “pica das galáxias, no mais sofisticado hospital do país, a pessoa está inserida em determinado grupo social e depende dele para nascer e sobreviver. Participarão sempre, mesmo sem querer, desse belo experimento que é o ato de viver. Viver é o experimento.

Destaque

Atacar Sérgio Moro é uma boa estratégia?

Carol Proner

As últimas pesquisas mostram que Sérgio Moro não convence. Mesmo com padrinhos influentes na mídia, que o sustentam há anos, como se vê agora na sua enésima capa da Veja, o ex-juiz não decola e frustra os planos da terceira via. Como tal, opinam alguns, mereceria ser ignorado. No campo jurídico esse impasse do cômputo político também aparece, de que críticas podem evidenciá-lo e, ao fim, beneficiá-lo de forma inversa.
O dilema se instalou no meio jurídico após Moro, via twitter, recusar um convite do grupo Prerrogativas para um debate a respeito da Lava Jato. A recusa reavivou uma enxurrada de mensagens e artigos do grupo lembrando da conduta do ex-juiz na chefia da operação farsesca que abalou o curso natural da democracia brasileira.
É difícil esperar que juristas moderem suas críticas porque levamos anos dizendo a mesma coisa e é exasperante que o ex-juiz que feriu gravemente os interesses brasileiros tenha o descaramento de se candidatar. Aliás, essas mesmas críticas foram as que, muito antes da Vaza Jato, sempre identificaram no juiz a intencionalidade de condenar Lula sem provas e de capitanear um novo processo penal no Brasil, imediatamente compreendido pelos especialistas como um processo penal de exceção.
Faço um testemunho do dia em que a sentença condenatória do Triplex do Guarujá foi publicada, um dia trágico para o direito brasileiro. Era uma quarta-feira, 12 de julho de 2017, quando o professor Juarez Tavares me telefonou dizendo que deveríamos nos reunir imediatamente para avaliar a longa sentença, pois à primeira vista lhe parecia grave. Fomos para o escritório e ali, acompanhados dos professores Gisele Cittadino, Gisele Ricobom e João Ricardo Dornelles, decidimos organizar um livro-denúncia contra as aberrações jurídicas prolatadas por Sérgio Moro numa decisão de 217 páginas que é um documento ímpar do arbítrio judicial no Brasil.
Após extenuante trabalho de revisão e diagramação, o livro foi publicado menos de um mês depois da sentença e o resultado foi inesperado. Recebemos 103 artigos de 122 juristas que esmiuçaram o procedimento esclarecendo as regras efetivamente em vigor e concluindo, em uníssono, que se tratava de uma decisão injusta e ilegal.
Portanto, um mês após a decisão, já havia um livro com farto matéria técnico e acadêmico de uma centena de articulistas que fundamentavam a intencionalidade condenatória de Moro contra Lula.
Importante notar que muitos dos autores jamais votariam em Lula ou teriam qualquer relação com a esquerda partidária. O que convocou a todos foi a percepção de perigo iminente, de que poderia ser firmado grave precedente de atribuir a um réu a condenação por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro a partir de fatos indeterminados com a justificativa de que era necessário combater a corrupção a qualquer preço. Em síntese, era o power point do Dallagnol tornado sentença.
Logo na apresentação da coletânea, o jurista Geraldo Prado destacou que o juiz recorreu a critérios de avaliação que convertem o ordinário em exceção: “O raciocínio condenatório que se apoia na exceção, recorre retoricamente a modelos jurídicos estrangeiros e traduz indevidamente conceitos penais – como salta aos olhos na condenação do ex-presidente por corrupção – fazendo letra morta da advertência da impossibilidade de transplantes do gênero, haveria de provocar vívida reação entre estudiosos do direito”.
O livro foi traduzido ao inglês e ao espanhol e motivou lançamentos em mais de 40 cidades no Brasil e no exterior, eventos levados pela Frente Brasil de Juristas pela Democracia, que depois viria a se institucionalizar na forma de Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD). Ali também se consolidava o papel do grupo Prerrogativas que, naquele momento, ainda confiava que os tribunais fariam justiça revertendo a aberrante decisão.
Poucos meses depois, e mesmo com todos os apelos e recursos impetrados pela ciosa defesa técnica, o acórdão do TRF4 confirmou a sentença contra Lula e deu razão às insinuações de que a Lava Jato fazia parte de uma estratégia maior de desestabilização política em curso no Brasil.
As escutas de Walter Delgatti ainda nem eram conhecidas quando lançamos, em maio de 2018, outro livro-denúncia, “Comentários a um acórdão anunciado”, organizado pelo mesmo grupo. Lembro-me que, às vésperas da decisão que possibilitaria a aplicação da pena antecipada de prisão a Lula, vivemos, Gisele Cittadino e eu, uma experiência incomum para professores de direito. A palestra que deveríamos proferir em Porto Alegre tinha como palco o carro de som da CUT estacionado em frente ao TRF4 e lá fomos nós, bastante surpreendidas e tímidas a princípio, mas logo entendendo que a luta pela presunção de inocência não estava nas academias de direito, mas nas ruas, e então soltamos a voz no megafone em direção às paredes moucas do Tribunal.
Essas são apenas algumas memórias entre tantas que vivemos, entre outros livros que lançamos depois e que fazem recordar a necessidade de denunciar a farsa jurídica que estava em curso e que prosperou graças à conivência dos tribunais superiores e da imprensa que hoje apoia o candidato Moro.
Cada um de nós do campo jurídico é capaz de lembrar onde estava no momento em que o habeas corpus a favor de Lula foi negado, abrindo alas para a espetaculosa prisão efetivada no Sindicado dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Ali, assim como nas decisões anteriores, nós fomos abatidos como juristas na defesa da Constituição e da democracia.
Com as revelações da Vaza Jato, os detalhes sórdidos da farsa jurídica tornaram-se finalmente conhecidos, embora só tardiamente reconhecidos pelo STF. Descobrimos que o MPF de Curitiba, liderado por Dallagnol, operava uma espécie de organização criminosa em conluio com Moro e integrantes da Polícia Federal, praticando ilegalidades no esquema de cooperação internacional com autoridades americanas. Com o passar do tempo e as revelações divulgadas, também percebemos que os integrantes do conluio tinham pretensões políticas, de formar o partido da Lava Jato, o que agora se confirma com a pré-candidatura de Moro. A mera candidatura de Moro, acompanhada por um livro autobiográfico que é pleno de cinismos e mentiras, é a demonstração de que a farsa ainda não acabou.
Os meandros da operação não são totalmente conhecidos e as consequências da Lava Jato ainda precisam ser mensuradas, mas o que está cada vez mais evidente é que a intencionalidade do ex-juiz que condenou Lula e o tirou da corrida eleitoral de 2018 vai além da saga contra o Partido dos Trabalhadores. Seja estagiando como Ministro de Jair Bolsonaro ou atuando como advogado em firma estadunidense, as conexões de Sérgio Moro com órgãos de inteligência daquele país sempre foram prioridade.
Nesse sentido, nem que seja por estratégia pedagógica, acredito que os integrantes do grupo Prerrogativas, do qual faço parte, e também da ABJD, do MP Transforma, da AJD e de tantas outras entidades que reúnem defensores das garantias jurídicas, devem sim seguir denunciando as atitudes perversas de um ex-servidor público que tem como traço de personalidade a perfídia.
Sérgio Moro desmereceu a toga para perseguir adversários políticos beneficiando interesses próprios quando não obscuros. Como Ministro, defendeu o excludente de ilicitude e outras teses punitivistas. Como advogado, traiu a profissão atuando, num evidente conflito de interesses, em processo de recuperação judicial no qual foi o juiz.
Acertam também os que o criticam em nome da memória histórica e do direito à reparação. Se é verdade que fomos vítimas de um golpe de novo tipo, menos ostensivo, híbrido, também é verdade que precisamos de algum tipo de justiça de transição para seguir adiante, pois são inúmeras suas vítimas diretas e indiretas.
E se Moro pretende se candidatar à Presidência depois de tudo o que fez, deve ser exposto por inteiro à luz dos holofotes.”

(Carol Proner é advogada, doutora em direito, membro do Grupo Prerrogativas e da ABJD)

Terrorista islâmico em Nice

Mateus Ziebell ,
Bom dia. Não vou pedir para você estudá-lo não. Muita gente boa só leu alguns poucos livros, se tanto, da extensa e importante produção de Marx em História, Filosofia, Direito, Sociologia e, naturalmente, mais tarde, em Economia. Deixou centenas de volumes manuscritos, sem edição. Mesmo Das Kapital ficou incompleto e foi terminado após a sua morte. Diversas universidades norte-americanas tinham e, com a crise do sub-prime de 2007/2008, voltaram a ter, professores especializados em Marx, com cursos regulares. Sem falar nas universidades europeias tradicionais, que sabem ser impossível ignorar a dissensão marxista.
Quando eu estudava Economia na Universidade Federal Fluminense, em 1971, em plena ditadura militar, havia censura sufocante. Só um lado da teoria econômica era permitido. Seria como um médico, na aula de Anatomia, receber um corpo humano cortado ao meio, longitudinalmente, somente o lado direito e estudá-lo como se fosse o corpo todo. Quando fui fazer o mestrado nos Estados Unidos, em 1979, a quantidade de livros e artigos mostrando a existência do “outro lado do corpo” era estonteante. E nas livrarias, mesmo as de bairro, em pequenos shopping center (Mall), a disponibilidade de livros era boa. E isso em Atlanta, no estado sulista da Geórgia! Imagine em Boston ou em São Francisco e Los Angeles.
Eu não sei como alguém pode condenar um autor, verdadeiro intelectual, mundialmente reconhecido, sem ter lido uma só linha. Durante meus estudos tive que ler Adam Smith, David Ricardo, Hayek, Milton Friedman (consultor e colaborador de Pinochet) e outros economistas conservadores, liberais ou neoliberais (“o lado direito do cadáver”) e, só assim, posso dizer que estudei anatomia completa.
Condenar um autor pelo uso inadequado de uma parte de sua imensa obra é como condenar o inventor do avião pelo seu uso como arma de guerra e para transporte das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.

Ou o inventor do caminhão, porque um terrorista jogou o caminhão em cima do público, em Nice, na França, em 2009, matando xxx pessoas e ferindo outras tantas. A culpa não foi do caminhão, é óbvio, e sim do uso que foi feito dele.
Vai aí uma listinha da extensa bibliografia de Karl Max. Talvez sirva para você imprimir e colar na estante da biblioteca da sua casa, como lista de livros proibidos para seus filhos e sua esposa. Mas, cuidado, você não vai estar mais por aí e seus netos poderão se interessar pelo assunto, que estará mais atual do que nunca no futuro.

Jovem Marx (1839 a 1850)

Nesta é a época do chamado “jovem Marx”,onde predominam escritos mais voltados para a filosofia pura.

Oulanem[2]
Ano: 1839
Diferença da Filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro[3]
Título original: Über die Differenz der Demokritischen und Epikureischen Naturphilosophie
Ano: 1841
Tese de doutoramento na Universidade de Iena

Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
Título original: Kritik des Hegelschen Staatsrech
Ano: 1843
A Questão Judaica
Título original: Zur Judenfrage
Ano: 1843
Contribuição para a Crítica da Filosofia do Direito em Hegel: Introdução
Título original: Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie: Einleitung
Ano: 1844
Manuscritos Econômico-filosóficos
Título original: Ökonomisch-philosophischen Manuskripte
Ano: 1844
Teses sobre Feuerbach
Título original: Thesen über Feuerbach
Ano: 1845
A Sagrada Família[4]
Título original: Die Heilige Famile
Ano: 1845
A Ideologia Alemã[4]
Título original: Die deutsche Ideologie
Ano: 1845-1846
Miséria da Filosofia
Título original: Misère de la philosophie: réponse à la philosophie de la misère de Proudhon
Ano: 1847
A Burguesia e a Contra-Revolução[5]
Ano: 1848
Manifesto Comunista[4]
Título original: Manifest der Kommunistischen Partei
Ano: 1848
Trabalho Assalariado e Capital[6]
Título original: Lohnarbeit und Kapital
Ano: 1849
As Lutas de Classe na França de 1848 a 1850[7]
Título original: Die Klassenkämpfe in Frankreich 1848-1850
Ano: 1850
Mensagem da Direção Central da Liga Comunista[4]
Título original: Ansprache der Zentralbehörde an den Bund
Ano: 1850
Transição (1852 a 1856)

Esta época é chamada de “período de transição”, quando o Marx passa a ler menos filósofos e mais economistas — nesse período a produção dele se resume a artigos e panfletos, produz o clássico 18 de brumário.

O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
Título original: Der Achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte
Ano: 1852
Punição Capital
Título original: Capital Punishment
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 18 de fevereiro de 1853

Revolução na China e na Europa
Título original: Revolution in China and Europa
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 14 de junho de 1853

O Domínio Britânico na Índia
Título original: The British Rule in India
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 25 de junho de 1853

Guerra na Birmânia
Título original: War in Burma
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 30 de junho de 1853)

Resultados Futuros do Domínio Britânico na Índia
Título original: The future results of British Rule in India
Ano: 1853
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 8 de agosto de 1853)

A Decadência da Autoridade Religiosa
Título original: The Decay of Religious Authority
Ano: 1854
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 24 de outubro de 1854

Revolução na Espanha
Título original: Revolution in Spain
Ano: 1856
Artigo publicado no New York Daily Tribune em duas partes, 8 e 18 de agosto de 1856

Fase adulta (1857 a 1880)

Esta época é chamada de “Marx maduro”, quando os estudos econômicos transparecem claramente em seus escritos.

Grundrisse
Título original: Grundrisse der Kritik der Politschen Ökonomie
Ano: 1857-1858
Para a Crítica da Economia Política
Título original: Zur Kritik der Politschen Ökonomie
Ano: 1859
População, Crime e Pauperismo
Título original: Population, crime and pauperism
Ano: 1859
Artigo publicado no New York Daily Tribune em 16 de setembro de 1859

Manifesto de Lançamento da Primeira Internacional
Título original: Inaugural Address of the Working Men’s International Association
Ano: 1864
Salário, Preço e Lucro[8]
Título original: Value, Price and Profit
Ano: 1865
O Capital: crítica da economia política (Livro I: O processo de produção do capital) (Magnum Opus)[9][10]
Título original: Das Kapital: Kritik der politschen Ökonomie (Erster Band: Der Produktion Prozess des Kapitals)
Ano: 1867
Durante os anos seguintes, até o fim de sua vida, Marx se dedicará à redação dos demais volumes d’O Capital (publicados postumamente por Engels).

A Guerra Civil na França
Título original: The Civil War in France
Ano: 1871
Resumo de “Estatismo e Anarquia”, obra de Bakunin
Título original: Konzpekt von Bakunins Buch “Staatlichkeit und Anarchie”
Ano: 1874-1875
Crítica ao Programa de Gotha
Título original: Kritik des Gothaer Programms
Ano: 1875
Artigo em defesa da Polônia, publicado em Der Volksaat[4]
Ano: 1875
Carta sobre o futuro do desenvolvimento da sociedade na Rússia, escrita ao editor do periódico russo Otechesvenniye Zapiski e não enviada.
Ano: 1877
Notas sobre Adolph Wagner
Título original: Randglossen zu Adolph Wagners
Ano: 1880

Os cavalos do holandês, o Auxílio Brasil, a inflação e o economista chicagoan

Brasileiros desempregados e miseráveis esperam, desesperados o pagamento do Auxílio Brasil pelo governo federal. Tendo em vista a grave crise econômica alimentada – eu nem devia usar essa palavra fora de moda – pela catastrófica política econômica de Bolsonaro/Guedes e pela inflação galopante, o Auxílio será limitado e insuficiente.

Para muitos o Auxílio chegará muito tarde e eles terão o mesmo destino dos cavalos do holandês.

Um holandês criava cavalos e o preço da ração aumentou muito. Então o holandês contratou um economista brasileiro, formado na Universidade da maldade (Chicago), chamado Guedes, um verdadeiro chicagoan. O economista aconselhou o criador holandês a comprar somente metade da ração, para fazer o preço baixar. Para isto, recomendou deixar os cavalos comendo a metade das suas necessidades diárias de ração. O economista Guedes convenceu o criador holandês que, em um mês, os preços da ração cairiam pela metade. De fato, os preços da ração caíram, até mais do que isso. O plano de redução de custo e da inflação do brilhante economista só não deu totalmente certo porque os cavalos morreram, todos, 15 dias antes de fechar o mês. Questionado pelo criador holandês que estava desesperado, o economista brasileiro culpou a falta de colaboração dos cavalos e sua incapacidade de fazer sacrifícios em prol do bem comum. Ele sugeriu ao criador holandês plantar capim, empacotar em embalagem gourmet nas cores verde e amarelo e exportar para o Brasil. O economista brasileiro, que não entendia nada de nada mas se achava, sugeriu também a marca – Myth – The Edible Grass.

Segundo o seu consultor chicagoan havia, no Brasil, conforme dados do último trimestre de 2018, mais de 57 milhões de consumidores do produto.

O holandês, tendo em vista as notícias que circulavam no mundo sobre o Brasil, achou a ideia excelente, sorriu agradecido e elogiou a genialidade do seu consultor brasileiro. Conforme sugerido, exportou toneladas do produto para o Brasil em contentores refrigerados, por via aérea, para manter a qualidade do produto e fidelizar seus clientes brasileiros. Vendeu, coitado do holandês, sem garantia bancária. Tomou calote e faliu.

Questionado, o consultor brasileiro declarou que a falência do fabricante holandês comprovava a superioridade de sua estratégia de investimento em ativos financeiros abrigados em paraíso fiscal e, portanto, isentos de quaisquer tributos e riscos de calote. O holandês retrucou que esta situação, se ocorresse na Holanda, de uma pessoa aumentar sua fortuna com suas decisões como ministro, configuraria no mínimo conflito de interesses e, comprovado o dolo, crime financeiro, sujeito a demissão, julgamento, condenação e prisão.

Moral da história: não adianta procurar. Não tem.

PauloM

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