Destaque

Nota oficial do ministro Celso de Mello, do STF

Jair Bolsonaro convocou, por WhatsApp, seus seguidores para um ato contra a democracia e favorável à intervenção militar no STF e no Congresso Nacional.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello divulgou uma importante nota oficial sobre esta convocação. Leia a seguir:

“Essa gravíssima conclamação, se realmente confirmada, revela a face sombria de um presidente da República que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de poderes, que demonstra uma visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo que exerce e cujo ato, de inequívoca hostilidade aos demais Poderes da República, traduz gesto de ominoso desapreço e de inaceitável degradação do princípio democrático!!! O presidente da República, qualquer que ele seja, embora possa muito, não pode tudo, pois lhe é vedado, sob pena de incidir em crime de responsabilidade, transgredir a supremacia político-jurídica da Constituição e das leis da República!”

Motim no Ceará – uma opinião informada

Da Sandra Helena, publicado no mural do João Lopes

Em janeiro de 2012 Fortaleza viveu uma greve da PMCe que levou toda a cidade a parar suas atividades. Os policiais se aquartelaram no prédio da Secretaria de Segurança Pública e a adesão foi total. Muito pânico e videos nas redes aterrorizando a população. O ápice foi o dia 03/01 quando cheguei a dizer nesse espaço que o prédio da Secretaria era naquele dia nossa praça Tahrir, numa alusão às manifestações egípcias no ano anterior.
Eu sei gente, tava toda errada. Toda.
Àquela época eu estava muito próxima das lideranças grevistas por conta de ter participado como Delegada da I Conseg em 2009, eleita pelos policiais e sociedade civil.
Era o governo Cid Gomes e os embates fizeram surgir uma liderança totalmente nova: o capitão Wagner.
Ele, Cabo Sabino e P. Queiroz formavam uma espécie de triunvirato das tropas.
Há um episódio que deve ser lembrado: em um enfrentamento que ficou célebre Wagner disse diante do carro dirigido pelo governador, que ele interceptou com seu corpo, que honrava o que tinha entre as pernas. Cid desceu do carro e enfrentou os manifestantes.
Todos os sindicatos e movimentos sociais se perfilaram A FAVOR do movimento paredista, uma unidade inédita, o que levou a uma intermediação em grande estilo que reuniu CNBB, MP, parlamentares de diversos partidos, entidades empresariais, mídia, etc, na tentativa de mediação que ao final veio a bom termo sem grandes prejuízos para a populacão.
Participei muito por dentro de tudo isso.
Os hoje bolsonaristas Wagner e Sabino naquela época ainda sem mandato cortejaram e foram cortejados por partidos progressistas.
Tudo isso para dizer que o que aconteceu hoje em Sobral envolvendo o senador e os milicianos bolsonaristas aquartelados, porque não são policiais em greve, deve ser lido dentro desse processo histórico que veio tornando as polícias estaduais cada vez mais autônomas em relação aos governadores que não são da tropa da familícia presidencial.
Claríssimo que há erros tremendos por todos os lados, mas o que está em jogo no momento atual no Ceará é uma queda de braço entre essa banda podre, que infelizmente penso ser a maioria, da PM e o governo que, ao preço de assumir posturas abertamente autoritárias e coniventes com violações de direitos humanos na intenção de controlar esses cães raivosos, fez uma negociação com as associações policiais e tem melhorado consideravelmente as condições de trabalho e a remuneração da polícia militar.
Não sem repúdio contínuo e veemente do campo progressista no qual me incluo.
O esforço governista não parece ter sido suficiente afinal. Fascismo joga outro jogo. A ‘greve’ de hoje sitiou cidades obrigando comércios a fecharem portas. Bandidos encapuzados dirigindo viaturas e mesmo caminhões de bombeiros aterrorizaram populações de cidades do interior, como Juazeiro do Norte e Sobral.
Fortaleza se manteve relativamente em ordem sem o pânico do 03 de janeiro de 12.
Não se trata de uma greve de trabalhadores da segurança pública. Qualquer pessoa que mora aqui sabe disso. São bandidos amotinados com armas.
Não tenho a menor ideia do que passou na cabeça de Cid Gomes ao fazer o que fez.
Mas na política em tempos de guerra isso importa muito pouco.
Seu ato fez uma torção poderosa no movimento e fez todos verem do que são capazes esses criminosos. Atiraram no peito, pra matar.
Não se trata de avaliar agora a trajetória dos Ferreira Gomes. Quem o faz ou não está entendendo nada ou só pensa em eleições. Pelamor.
Quando o inimigo é tão terrível um pouco de noção de realidade cai bem, camaradas.
A intemperança do senador que quase lhe custou a vida foi um ato político de grandeza. Virou o tabuleiro.
Aqueles meus companheiros esquerdistas que deliravam com black bocs destruindo vidraças de banco e queimando latas de lixo quando ainda tínhamos uma réstia de democracia institucional vimos hoje o político que chamou Eduardo Cunha de bandido na Câmara quando ainda era ministro tocar o terror como um poema concreto.
Quase morre.
E tem gente de esquerda junista(!) dizendo que devíamos ir pelas vias legais e democráticas ahahahahaah.
Política é Jogo Voraz.
Vocês não vivem pedindo enfrentamento? 😎

Patrícia Campos Mello, por Gustavo Conde

Há alguns anos, Patrícia Campos Mello estava nos EUA, prestigiada como correspondente do Estadão em Washington e vista por colegas brasileiros e americanos como uma das jornalistas mais respeitadas no mundo.
Entrevistou George Bush – cobria a Casa Branca – e esteve diversas vezes na Síria, Iraque, Turquia, Líbia, Líbano e Quênia fazendo reportagens sobre os refugiados e a guerra.
É desnecessário dizer que se trata de um dos mais extensos currículos do mundo da reportagem.
Mas não é só.
Patrícia tem um dos melhores textos do jornalismo e dialoga com correntes contemporâneas do universo da interpretação aplicada, conscientemente ou não – certamente, pelo lastro de leitura.
Foi a única repórter brasileira a cobrir a epidemia de ebola em Serra Leoa em 2014 e 2015.
É também uma das jornalistas mais premiadas do país.
Não sei o que fez Patrícia voltar ao Brasil. Arrisco a dizer que é o traço incansável do profissional de quem não vive sem um desafio.
E, a rigor, ela realmente encontrou um imenso desafio, o maior de sua carreira. Depois de fazer reportagens em mais de 50 países pelo mundo, cobrindo guerras, epidemias, catástrofes humanitárias, ela se depara com a maior de todas as catástrofes internacionais: o Brasil de Bolsonaro.
O pior governo do planeta, instalado com requintes de fraude eleitoral (que ela denunciou), em que integrantes estão atolados em denúncias de corrupção, favorecimento pessoal e formação de cartel e em que o próprio presidente é o principal suspeito de mandar executar uma vereadora e seu executor, num coquetel tóxico de política de extermínio e queima de arquivo.
Tudo isso a céu aberto, sem a menor sem-cerimônia, numa escalada de ofensas a jornalistas, a petistas, a indígenas, a negros, gays e mulheres.
Não bastasse o pior, mais corrupto e desumano governo da história dos governos, ainda experimentamos uma sociedade extremamente machista, misógina, violenta, genocida e semiletrada (cujo ministro da Educação é praticamente um analfabeto com déficits severos também no plano oral).
Serra Leoa certamente foi um desafio “menor” do ponto de vista humanitário – até porque o PIB elitizado brasileiro só piora a situação de desigualdade aqui instalada. Trata-se de um país escravocrata e genocida na acepção máxima dos termos.
Patrícia Campos Mello, que ousou praticar jornalismo de qualidade em um país também tomado por práticas precarizadas de ofício, depara-se agora com o linchamento virtual patrocinado também pelo gabinete do ódio instalado em pleno Planalto.
Insultada por uma testemunha – que ainda cometeu o crime de mentir em uma Comissão Parlamentar de Inquérito -, ela ainda enfrenta a pressão de ser humilhada pelo próprio presidente da República, com o mais baixo nível de machismo já encontrado em uma figura de Estado.
Bolsonaro faz Alfredo Stroessner, ex-ditador do Paraguai – assassino, pedófilo, torturador, bandido e ídolo do próprio -, parecer um amador. A verborragia sangrenta desta criatura a que denominamos miseravelmente de presidente do Brasil é o terror de Estado presentificado. Um verdadeiro indutor e incitador de violência e morte.
Por tudo isso, por enfrentar essa abominação e esse desafio de cobrir a maior crise humanitária do planeta no presente momento, Patrícia Campos Mello caminha para se tornar uma das mais aclamadas jornalistas do mundo, possivelmente a primeira brasileira a merecer o Pulitzer.
Quando tudo isso acabar – e espero que seja em breve -, teremos a felicidade de celebrar uma jornalista como uma das maiores inspirações e bastiões democráticos de um país que flertou com a própria aniquilação de maneira insana, patética e cruel.
A consagração de Patrícia como a mulher que enfrentou a besta em futuro previsível, já nos fortalece de antemão – e nos prepara para re-formatar uma sociedade que demanda cuidados múltiplos na interpretação de suas bases fundadoras.
O trabalho dessa jornalista, a fibra e a dignidade que ela demonstrou enfrentando as mentiras e a baixeza de bolsonaristas e do próprio Bolsonaro via Twitter e redes sociais a enquadram como a nossa principal e mais combativa jornalista no presente momento histórico.
Ela acaba por representar também a energia feminina que está contraposta a um governo masculinizado, autoritário e truculento, que ofende jornalistas, professores e todos os profissionais ligados a práticas humanistas.
É muito reconfortante saber que o Brasil pôde produzir uma jornalista com os atributos de Patrícia Campos Mello. É sinal de que o caminho é árduo e longo, mas que a democracia vai vencer o arbítrio. Mais uma vez em nossa história.
Do Gustavo Conde

A despenalização da eutanásia em Portugal

A senhora na imagem é a Dra. Isabel Galriça Neto, é médica, é Coordenadora da Unidade de Cuidados Continuados e Paliativos de um dos maiores grupos privados de cuidados de saúde a operar em Portugal e foi deputada do CDS durante três legislaturas.
Saiu do Parlamento em 2019, quando a sua posição nas listas do partido não lhe valeu a eleição para o lugar de deputada, devido à queda abrupta da expressão eleitoral do CDS.

Tanto quanto sabemos, a Dra. Galriça Neto é uma excelente médica, as suas qualidades como profissional de saúde não estão em questão. No entanto, o facto de que dirige uma unidade de cuidados paliativos num grupo hospitalar privado merecia uma declaração de interesses sempre que a ex-deputada do CDS comenta este tema. Esse facto não foi mencionado ontem, na sua intervenção no debate que ocorreu na SIC Notícias.

Podemos até admitir que a Dra. Galriça Neto consegue separar os dois lados desta questão, o seu interesse profissional individual e o interesse público. O que já não é admissível é a auto-contradição do CDS no papel que o Estado tem como prestador de cuidados de saúde.
Ontem, no debate na SIC Notícias, a Dra. Galriça Neto reiterou as posições habituais do CDS contra a despenalização da eutanásia. Alegou que o Estado não pode fornecer essa escolha aos cidadãos e que, em substituição, o Estado deve investir mais nos cuidados continuados e paliativos.
Este argumento tem dois problemas:

  • Primeiro, as duas medidas não são concorrentes, elas podem coexistir. O Estado pode investir mais em cuidados continuados e paliativos e, em simultâneo, pode fornecer uma opção a cidadãos em estado de doença terminal e/ou de sofrimento extremo irreversível que pretendam ter acesso a uma morte digna, escolhida pelo próprio e nos seus próprios termos.
  • O segundo problema do argumento da Dra. Galriça Neto é que o CDS votou CONTRA a criação do Serviço Nacional de Saúde. Pessoas que pertencem a um partido que votou contra a criação do SNS e que vêem a Saúde como um negócio, e não como um direito, não têm legitimidade para pedir ao Estado mais investimento em Saúde.

A não ser que o CDS entenda que o investimento do Estado em cuidados paliativos seja através de novas parcerias público-privadas com rendas garantidas para grupos de saúde privados que oferecem esses serviços. Talvez seja esse o “investimento” que o CDS reivindica.
Mas, nesse caso, temos de voltar à questão do conflito de interesses: conseguirá a Dra. Galriça Neto, directora num grupo privado de saúde, separar o interesse individual do da Dra. Galriça Neto, política e ex-deputada?
É que pedir mais investimento público em cuidados paliativos ao mesmo tempo que se pede menos Estado no sector da Saúde só é possível se esse investimento público for para subsídios a hospitais privados.
Publicado em Um Página Numa Rede Social

Fontes e referências:
https://www.parlamento.pt/DeputadoGP/Paginas/Biografia.aspx?BID=4096
https://www.hospitaldaluz.pt/torres-de-lisboa/pt/servicos-e-medicos/os-nossos-profissionais/encontre-um-medico/935/isabel-galrica-neto

Nota: não incluímos a foto mencionada no post. Não é necessária para o assunto que está sendo discutido aqui. Paulo Martins.

Um passo além da banalidade do mal, por Eliane Brum

Peço uma espécie de licença poética à filósofa Hannah Arendt, para brincar com o conceito complexo que ela tão brilhantemente criou e chamar esse passo a mais de “a boçalidade do mal”. Não banalidade, mas boçalidade mesmo.
Arendt, para quem não lembra, alcançou “a banalidade do mal” ao testemunhar o julgamento do nazista Adolf Eichmann, em Jerusalém, e perceber que ele não era um monstro com um cérebro deformado, nem demonstrava um ódio pessoal e profundo pelos judeus, nem tampouco se dilacerava em questões de bem e de mal. Eichmann era um homem decepcionantemente comezinho que acreditava apenas ter seguido as regras do Estado e obedecido à lei vigente ao desempenhar seu papel no assassinato de milhões de seres humanos.
Eichmann seria só mais um burocrata cumprindo ordens que não lhe ocorreu questionar. A banalidade do mal se instala na ausência do pensamento.
A boçalidade do mal, uma das explicações possíveis para o atual momento, é um fenômeno gerado pela experiência da internet.
Ou pelo menos ligado a ela.
Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente, digamos, o seu “eu mais profundo”, a sua “verdade mais intrínseca”, descobrimos a extensão da cloaca humana.
Quebrou-se ali um pilar fundamental da convivência, um que Nelson Rodrigues alertava em uma de suas frases mais agudas:
“Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava”.
O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio.
E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui, para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.
Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão.
Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância.
Com frequência reivindicam uma condição de “cidadãos de bem” como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença.
Foi como um encanto às avessas – ou um desencanto. A imagem devolvida por esse espelho é obscena para além da imaginação.
Ao libertar o indivíduo de suas amarras sociais, o que apareceu era muito pior do que a mais pessimista investigação da alma humana. Como qualquer um que acompanha comentários em sites e postagens nas redes sociais sabe bem, é aterrador o que as pessoas são capazes de dizer para um outro, e, ao fazê-lo, é ainda mais aterrador o que dizem de si. Como o Eichmann de Hannah Arendt, nenhum desses tantos é um tipo de monstro, o que facilitaria tudo, mas apenas ordinariamente humano.
Ainda temos muito a investigar sobre como a internet, uma das poucas coisas que de fato merecem ser chamadas de revolucionárias, transformaram a nossa vida e o nosso modo de pensar e a forma como nos enxergamos.
Mas acho que é subestimado o efeito daquilo que a internet arrancou da humanidade ao permitir que cada indivíduo se mostrasse sem máscaras: a ilusão sobre si mesma. Essa ilusão era cara, e cumpria uma função – ou muitas – tanto na expressão individual quanto na coletiva. Acho que aí se escavou um buraco bem fundo, ainda por ser melhor desvendado. (…) Já demos um passo além da banalidade. Nosso tempo é o da boçalidade.”
Eliane Brum, jornalista. Via Jorge Furtado. Via João Lopes.

O neofascismo é tsunami, por Luciana Hidalgo

A nomeação da “namoradinha do Brasil” para o cargo de secretária da cultura só vem confirmar a suspeita de que a novela estatal que se desenrola no país poderia se chamar: “A volta dos que não foram”. Afinal, se formos minimamente honestos, lembraremos que o epíteto mais correto para ela é infelizmente: a “namoradinha do Brasil da ditadura”.

A atriz se criou e brilhou naquelas telenovelas dos anos 1960/70 que nos fizeram crescer, sonhar e fingir que o país vivia num paraíso, quando na verdade vivíamos num paraíso fajuto, de caserna. Censores, torturadores, assassinos perseguiam jovens idealistas rotulados de “subversivos” e “terroristas”. Crimes hediondos eram cometidos diariamente pelo governo militar empossado graças ao Golpe de 1964.

Sei disso porque pertenço à primeira geração de crianças crescidas diante da TV. Com o medo imposto pelo regime militar, a censura à imprensa e o boicote a qualquer arte reflexiva, o que me restava era ver desenhos animados com heróis japoneses na hora do almoço e telenovelas alienantes na hora do jantar.

A TV, que apenas começava no Brasil, era praticamente estatal em termos de ideologia. Havia até censor militar trabalhando dentro da rede Globo, exercendo uma censura que interferia não só no conteúdo dos telejornais, mas no comportamento moral e sexual dos personagens das novelas (soube disso numa série de matérias publicadas no próprio jornal O Globo em 2014).

Acho que só virei CDF na infância porque estudar era o que havia de intelectualmente desafiador para uma menina inserida num regime totalitário que controlava até – e sobretudo – o pensamento. Era um tipo insidioso de repressão, que forjava e limitava o cotidiano: o que se podia estudar, o que se podia ler, o que se podia escutar, o que se podia dizer.

Típica “filha da ditadura”, só pude tirar o atraso da minha formação política, cultural, intelectual quando entrei na adolescência, que coincidiu com a abertura política dos anos 1980. Só então entendi que grande parte da sociedade brasileira havia aceitado sem luta, caladinha, a barbárie do governo militar, a maioria até contente com os efeitos do “milagre econômico” que a mantinha próspera e segura em sua bolha.

O que se criou nesse período foi uma população amedrontada e alienada, que evitava se politizar, ou ler, ou se informar. E aqueles que se politizavam, liam e partiam para a militância, defendendo nossa dignidade e integridade, eram minoria. Por isso, aliás, foram vencidos.

Demorei a perceber que cresci assim, em meio a um medo que não era meu, sem consciência dele, mas no fundo sabendo que esteve sempre ali, ao lado, em torno, dentro da minha casa, na política que nunca era assunto de conversa. E escrevi o romance “Rio-Paris-Rio” só para falar de toda essa violência muda, que foi certamente mais sutil, menos brutal do que a tortura ou o assassinato de militantes, é óbvio, mas foi de uma brutalidade silenciosa, insidiosa e igualmente criminosa, por impedir uma, duas, três gerações do acesso à politização, à informação, à liberdade de expressão.

Não por acaso o fascismo da ditadura civil militar no Brasil dos anos 1960-70 volta agora e se “moderniza” em ideias neofascistas. Dói ver a “namoradinha do Brasil da ditadura” e integrantes de todas as gerações que passaram por esse horror (a minha principalmente) nostálgicos de um período escabroso da sociedade brasileira.

E esse é o efeito perverso da censura na formação do indivíduo. O silêncio corrosivo imposto pelo regime ditatorial inibiu nosso saber-poder político e nos atrasou demais na conscientização de ideias básicas como: o que é liberdade, o que é igualdade social, o que é direito humano – ou, simplesmente, o que é humano.

Se o autoritarismo agora retorna, disposto a interferir em todas as esferas da vida pública e privada, sendo tão bem aceito por grande parte da população, é porque talvez nunca tenha ido.

Ter a atriz-símbolo desse período à frente da Cultura, ela que representa um dos mais medíocres gêneros culturais do país, é a pá de cal em qualquer possibilidade de pensamento e liberdade de expressão por meio da literatura e da arte.

Assim como na ditadura dos anos 1960-70, professores, artistas e intelectuais são os primeiros expulsos da ágora. O neofascismo, bem como o fascismo original, é feito de gente tacanha, violenta e com uma visão “moral” autoritária de como deve se comportar uma sociedade. Um autoritarismo que está sempre a um passo do totalitarismo.

O neofascismo é tsunami. Salve-se quem puder.

Misturar religião com Estado (e Governo) é como lançar uma bomba atômica para o alto

Sobre o novo presidente da Capes, que defende o criacionismo:

  • O Estado brasileiro é laico. Isso significa que não existe uma religião oficial. A religião não pode ser critério para o exercício da cidadania, como o alistamento eleitoral ou a investidura em cargos públicos, por exemplo.
  • Como desdobramento da laicidade do Estado, temos como princípio que a religião é uma questão de foro íntimo: todas e todos são livres para professar qualquer religião: qualquer pessoa é livre para se converter ao catolicismo, judaísmo, protestantismo, espiritismo, islamismo etc. E adorar Deus, Alá, Jeová, Tupã, Zeus, Quetálcoátl, Uitzilopóchtli ou Diego Armando Maradona.
  • Estabelecimentos de ensino (escolas, universidades) devem ser completamente separadas dos locais de culto (igrejas, templos, mesquitas, sinagogas etc). Nas escolas e universidades, são produzidos e divulgados os resultados das pesquisas científicas. Nos locais de culto, onde os ensinamentos não exigem comprovação científica, o questionamento (base da cultura científica) é substituído pela fé.
  • Toda pessoa é livre para frequentar uma igreja católica, um templo budista, um centro espírita, uma mesquita, uma sinagoga ou um terreiro de candomblé. A Constituição Federal de 1988 é clara a respeito:

“É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

  1. Logo, qualquer pessoa pode defender o criacionismo. Mas essa será uma posição individual e, por mais ridículo que possa parecer, o Estado age corretamente ao garantir que esse direito possa ser exercido. Essa será sempre uma posição individual, nunca a do próprio Estado.
  2. Quando uma autoridade pública (presidente, ministro, secretário, presidente de uma autarquia ou reitor de universidade etc), no exercício de seu cargo, tenta impor ao conjunto da sociedade aquilo que é uma questão de foro íntimo, ela está violando diversos princípios da administração pública, e deve ser punido pela sua conduta. Isso caracteriza desvio de função, quebra do princípio da impessoalidade e um completo desrespeito ao pluralismo e à diversidade.
  3. Não é preciso ser um revolucionário para entender tais coisas. A separação entre Igreja e Estado está na base das revoluções liberais da época moderna. Bolsonaro e sua quadrilha representam um enorme retrocesso, tentando nos colocar num período pré-iluminista. São reacionários, obscurantistas e perigosos. Devem ser combatidos e derrubados, não “corrigidos”.
  4. Dinossauros existiram, a Terra é esférica e a universidade é nossa.
  5. Por Pedro Fassoni Arruda

“Não há razão para haver tanta miséria. Precisamos construir novos caminhos”. Entrevista especial com Ladislau Dowbor, por Patricia Fachin

EntrevistaDoDia

“Não há razão para haver tanta miséria. Precisamos construir novos caminhos”. Entrevista especial com Ladislau Dowbor

Por: Patricia Fachin | 15 Janeiro 2020

O crescimento das desigualdades no mundo, o agravamento da crise climática, o caos político generalizado e a projeção da Organização das Nações Unidas – ONU de que em 2050 a população mundial chegará a 9,7 bilhões de pessoas exigem uma reorientação do sistema político-econômico global. Na prática, isso significa, entre outras coisas, que é preciso “orientar a economia para o bem-estar das famílias, não para o bem-estar dos mercados que geram mais Wall Street, mais paraísos fiscais e coisas do gênero”, diz o economista Ladislau Dowbor à IHU On-Line.

Ao propor uma mudança na governança global, ele acentua que um dos principais desafios da economia neste século é resolver o problema das desigualdades. Somente no Brasil, informa, 206 bilionários “aumentaram as suas fortunas em 230 bilhões de reais” no último ano, em que a economia esteve praticamente estagnada. Enquanto isso, lamenta, programas sociais como o “Bolsa Família consomem 30 bilhões”. No atual estágio do capitalismo, assegura, “não há nenhuma razão para haver miséria no planeta. Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 11 mil reais por mês, por família de quatro pessoas. Isso é amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável”.

Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp à IHU On-Line, o economista também comenta a proposta do papa Francisco de que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de desenvolver uma “economia diferente”, que “inclui”, “humaniza” e “cuida da criação”. “Nós temos que ampliar o debate e essa é a motivação central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos político generalizado, e a desigualdade, em particular, gerou uma imensa insegurança nas populações”, pontua.

Ladislau Dowbor é doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Além disso, é consultor de diversas agências das Nações Unidas.

Confira a entrevista.
IHU On-Line — Como o senhor interpreta a convocação do Papa para que jovens economistas reflitam sobre as possibilidades de uma nova economia?

Ladislau Dowbor — O fato de chamar jovens ajuda muito, pois temos que investir na generalização de novas visões. Estão também convidando diversos países, o que é muito bom, pois tem país rico, pobre, e pessoas de diversas áreas que, evidentemente, não são apenas economistas, mas pessoas das ciências sociais, engenheiros, empresários. Ou seja, é um ambiente que permite construir novas visões. Nós temos que ampliar o debate e essa é a motivação central do Papa nesse processo, porque estamos enfrentando um caos político generalizado, a desigualdade, em particular, gerou uma imensa insegurança nas populações e essa insegurança está sendo aproveitada por demagogos do tipo [Donald] Trump, [Jair] Bolsonaro, [Recep Tayyip] Erdoğan, na Turquia, e [Rodrigo] Duterte, nas Filipinas; o caos está se generalizando. Nós precisamos — no sentido mais forte — construir novos caminhos, porque esse sistema não está funcionando.

Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 11 mil reais por mês, por família de quatro pessoas – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — Em que contexto surge a proposta do Papa e quais são as razões que o motivam a discutir uma nova economia no atual momento histórico?

Ladislau Dowbor — Na realidade, não há muitas divergências quanto ao desastre que se criou. Nós somos 7,7 bilhões de habitantes. Todo mundo está querendo consumir mais e isso não está funcionando. Os efeitos disso são o aquecimento global, a liquidação da cobertura florestal do planeta, da vida nos mares e dos insetos, enfim, é só ver o muro das lamentações que os diversos cientistas de diversas áreas estão criando. Em termos ambientais, o fato é que estamos destruindo o planeta.

O segundo ponto é que estamos destruindo o planeta para uma minoria e a desigualdade está atingindo níveis absolutamente insustentáveis. Não há razão para haver tanta miséria, para haver, por exemplo, 850 milhões de pessoas passando fome, porque só de cereais produzimos mais de um quilo por dia por habitante. Então, o nosso problema é de organização social, de governança. Veja bem: não há nenhuma razão para haver miséria no planeta. Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 11 mil reais por mês, por família de quatro pessoas. Isso é amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável, mesmo sem precisar de uma igualdade opressiva. Basta reduzir um pouco essa desigualdade obscena que existe.

O terceiro elemento dessa situação crítica é que não existe falta de recursos, pois o planeta tem, em paraísos fiscais, cerca de 20 trilhões de dólares. Isso é 200 vezes aqueles 100 bilhões que a Conferência de Paris decidiu alocar para salvar o planeta do desastre ambiental. O problema é de organização social; não é econômico.

Estamos destruindo o planeta para uma minoria e a desigualdade está atingindo níveis absolutamente insustentáveis – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — O Papa propõe uma economia “que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda” e afirma que é preciso “re-almar a economia”. Ele propõe também a necessidade de “corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações”. Em termos econômicos, o que essa iniciativa implica? Que alterações precisam ser feitas nos modelos econômicos para seguir a proposta do Papa?

Ladislau Dowbor — É preciso uma alteração sistêmica, porque estamos organizando as corporações, os governos e todas as atividades em função do enriquecimento de grupos financeiros, os chamados mercados, que geram fortunas, mas não resolvem os problemas. Então, o eixo de orientação é relativamente simples: temos que usar os imensos recursos financeiros que são essencialmente improdutivos e estão nas mãos dos grandes grupos financeiros, como bancos e investidores institucionais, para financiar a mudança da política ambiental. Isso significa mudar a matriz energética, a matriz de transporte, criar uma agricultura menos destrutiva e também reduzir e enfrentar de maneira direta a desigualdade, o que implica, essencialmente, organizar a inclusão produtiva das pessoas. Nós temos os recursos financeiros, temos as tecnologias, sabemos onde estão os problemas; é uma questão de reorientação.

Para mim, as ações prioritárias são, primeiro, gerar a transparência dos fluxos financeiros, dos estoques em paraísos fiscais e coisas do gênero. Isto é, saber onde estão os recursos e como estão sendo utilizados. Segundo, temos que gerar impostos sobre o capital improdutivo, impostos sobre os capitais parados, sobre os imensos patrimônios acumulados. Por meio de Thomas Piketty e um conjunto de economistas, sabemos precisamente o que deve ser feito.

Quando olhamos os estudos sobre as grandes fortunas no Brasil — 206 bilionários —, vemos algo simplesmente ridículo, pois um homem como Joseph Safra tem, por exemplo, 95 bilhões de reais que poderiam ser investidos em uma coisa útil e servem apenas para especulação financeira. Só nos últimos 10, 12 meses, ele aumentou sua fortuna em 19 bilhões. A família Marinho atrasa seus impostos e tem uma fortuna acumulada de 33 bilhões de reais — isso é mais que a totalidade do Bolsa Família para 45 milhões de pessoas.

Então, gerar essa transparência, gerar um imposto sobre o capital improdutivo e descentralizar o financiamento de maneira que em cada cidade, em cada comunidade haja uma reapropriação do controle sobre o uso dos recursos financeiros e tecnológicos, é fundamental. Isso funciona na Alemanha, na China, no Canadá e na Suécia. Não é preciso inventar grandes coisas e nem grandes “ismos ideológicos”; basta simplesmente tornar os recursos úteis.

IHU On-Line — O Papa também convida todos nós a revermos “nossos esquemas mentais e morais, para que possam estar mais em conformidade com os mandamentos de Deus e com as exigências do bem comum”. Em relação à economia, quais são os esquemas mentais e morais que a fundamentam e precisam ser superados?

Ladislau Dowbor — Há um deslocamento ético radical que é o seguinte: nós devemos deslocar o conceito de sucesso de quem “arranca mais” e fica demonstrando quantos bilhões tem e passar para algo básico. Luiz Pasteur é reconhecido mundialmente não porque conseguiu “arrancar” mais para si, mas, sim, porque conseguiu contribuir mais para o planeta. Então, o deslocamento de atitude ética fundamental é passarmos dessa ideia de sucesso como capacidade de “arrancar”, de ser mais esperto, para o sucesso visto como a pessoa que mais contribui para a nossa espaçonave Terra, para que vivamos melhor.

Um segundo eixo é que estamos na era da economia do conhecimento e o conhecimento é diferente da máquina ou do produto físico: se passo o conhecimento para alguém, continuo com ele. Por exemplo, toda a pesquisa mundial sobre genoma se faz de maneira colaborativa entre centenas de laboratórios, porque na era do conhecimento os sistemas colaborativos são muito mais produtivos do que a competição, em que cada um tenta esconder sua produção e tenta reinventar a roda; esse deslocamento é fundamental para a sociedade.

A atitude ética básica de que o merecimento se deve para a pessoa que mais contribui e não para a pessoa que mais “arranca”, e que temos que nos deslocar da filosofia da competição e da guerra de todos contra todos para a filosofia da colaboração para o bem-estar das populações e do planeta, é o deslocamento efetivo que precisamos em termos de visão de mundo.

Em termos práticos, para atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, temos que orientar a economia para o bem-estar das famílias – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — Que tipos de critérios determinariam, na sua avaliação, uma sociedade economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente sustentável?

Ladislau Dowbor — Os critérios nós já sabemos: é uma sociedade ambientalmente sustentável, socialmente justa e economicamente viável. Para isso, nós tivemos imensas reuniões planetárias com cientistas, políticos e empresas e se chegou aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS, a chamada Agenda 2030. Esses objetivos são perfeitamente atingíveis, mas exigem a reorganização de como se governa. Em termos práticos, para atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, temos que orientar a economia para o bem-estar efetivo das famílias, e não para o bem-estar dos mercados que geram mais Wall Street, mais paraísos fiscais e coisas do gênero. E o que é o bem-estar das famílias? É, de um lado, ter dinheiro no bolso para conseguir pagar o transporte, o aluguel e comprar a camisa e ter, também, acesso aos bens de consumo coletivo: a pessoa não compra seu hospital e sua escola, ela tem que ter acesso a bens públicos de acesso gratuito e universal, porque isso simplesmente é mais produtivo. Isso não é complicado: nós podemos aumentar o bem-estar das famílias sem gerar desastre ambiental, porque aumentar o bem-estar não significa comprar mais pás de plástico e coisas do gênero, mas, sim, ampliar o acesso à saúde, à educação e à cultura, ou seja, todos esses bens que enriquecem as nossas vidas sem destruir o meio ambiente. Isso significa mudar a contabilidade, porque o PIB calcula apenas o ritmo de uso dos recursos no planeta, mas não calcula nem os impactos ambientais nem os impactos em termos de bem-estar das famílias.

O objetivo dessa reorientação nos leva a mudar as contas nacionais, e o melhor exemplo é justamente o trabalho de Kate Raworth, que está publicado no Brasil sob o título “Economia Donut: uma alternativa ao crescimento a qualquer custo” [1ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2019. Tradução: George Schlesinger], que é uma forma de contabilização dos resultados e não apenas do ritmo de atividade econômica. No conjunto, saber os ODS, nos orientarmos para o bem-estar das famílias, tanto no que diz respeito à renda como no acesso a bens de consumo coletivo, e adequar o sistema de contabilidade correspondente é o que traça um norte perfeitamente compreensível.

IHU On-Line — Os economistas favoráveis ao capitalismo alegam que ele foi o sistema que mais possibilitou a criação e a distribuição de riquezas. Os críticos, por sua vez, argumentam que esse sistema não consegue distribuir as riquezas e gera inúmeras desigualdades sociais. Como avalia o processo de desenvolvimento da economia capitalista? Quais são seus pontos positivos, limites e desafios?

Ladislau Dowbor — O capitalismo se tornou global, enquanto os governos são nacionais: se um governo decide fazer uma mudança de impostos ou de taxas de juros, os capitais fogem, se movimentam internacionalmente e vão para paraísos fiscais, os governos se desarticulam e essa impotência gera também o caos político. O que temos de compreender é que o capitalismo mudou, porque ainda temos na cabeça a ideia de um investidor de verdade — não o que faz aplicações financeiras, mas o que investe em produtos —, que compra máquinas para produzir sapatos, por exemplo, pega crédito para financiar a produção, contrata mão de obra, portanto está gerando empregos, está produzindo sapatos que poderão ser usados e está pagando impostos com os quais o governo vai poder financiar as infraestruturas e o acesso à saúde, à escola e aos bens públicos de acesso universal — isso é o que as pessoas pensam quando falam em capitalismo. O que elas não veem é que o sistema mudou: não é mais o lucro sobre a produção; é o rentismo sobre a especulação. Os imensos capitais que estão nas mãos de Wall Street, nos grandes paraísos fiscais, como Suíça, Holanda, Ilhas Cayman, no Panamá, rendem para os especuladores.

Tem uma coisa básica que Piketty ajudou a entender claramente: produzir exige esforço, então, o crescimento no mundo de bens e serviços é na ordem de 2%, 2,5% ao ano. Agora, quem aplica seu dinheiro em títulos de dívidas de diversos papéis financeiros, em commodities e coisas do gênero, tem tido um rendimento de 7% a 9% nas últimas décadas.

O que faz o capitalista que enriqueceu? Todos aqueles que têm reservas financeiras hoje em dia, em vez de investir, que é arriscado, trabalhoso, tem que produzir, simplesmente compram papéis. Inúmeras instituições, bancos, holdings, financeiras e todo o sistema Shadow banking ajudam as pessoas a investir, mas isso não é investimento; é aplicação financeira. Na realidade, se desviam os recursos para sistemas especulativos. Esta é uma mudança radical: onde se tinha produção material de bens e serviços e lucro, hoje se tem, essencialmente, especulação e rentismo; isso desfigurou o capitalismo. Ele foi produtivo, sim, mas não está mais sendo produtivo. Hoje temos enriquecimento improdutivo, um crescimento pífio, desigualdade e destruição ambiental, portanto esse sistema não está funcionando.

Nós estamos desafiados a enfrentar problemas que são globais, enquanto estamos divididos em 193 nações, cada uma tentando puxar para o seu lado – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — Que desafios as mudanças climáticas impõem ao atual modelo econômico-político-social?

Ladislau Dowbor — A mudança climática é típica dos novos desafios, porque nossos problemas eram locais, regionais ou nacionais, as economias eram nacionais ou locais e tínhamos o comércio exterior para as trocas. Agora não; nós temos um sistema global e as emissões de dióxido de carbono ou gás de efeito estufa dos Estados Unidos ou da China vão impactar o planeta todo. A destruição da Amazônia, a liquidação da vida nos mares e a acidificação dos oceanos impacta todo o planeta. Nós estamos, de certa maneira, desafiados a enfrentar problemas que são globais, enquanto estamos divididos em 193 nações, cada uma tentando puxar para o seu lado. Isso, obviamente, é um disfuncionamento sistêmico. O que precisamos introduzir e o que temos dificuldade como seres humanos, porque temos a tendência de pensar no curto prazo e num problema de cada vez, de forma fracionada, é pensar de maneira sistêmica e no longo prazo. Para nós, 2050 é lá longe; não é. Ou seja, os dados do desastre que será 2050 já estão na rua, já estão irrecuperáveis e, em grande parte, 2050 já está determinado.

Então, essa mudança é absolutamente essencial: é preciso uma visão de longo prazo, que pense de maneira sistêmica e conjuntamente os sistemas e os impactos não só econômicos, mas sociais e culturais. Uma segunda dimensão desse processo é o resgate da governança correspondente para enfrentarmos isso, o que implica, em primeiro lugar, democratizar o processo decisório. Como é que nós, no planeta, decidimos nosso futuro? Por enquanto, são as grandes corporações que fazem o que querem através de movimentações financeiras, mas nós temos que democratizar as decisões, temos que assegurar transparência dos fluxos para que a população possa estar informada e temos que gerar sistemas de comunicação que permitam que se criem processos de produção de consensos democráticos; é o caminho que se tem pela frente, o resto leva ao desastre.

IHU On-Line — Ao refletir sobre a proposta do Papa, o senhor disse recentemente que “o grande desafio é o da governança do sistema, desafio sem dúvida técnico, mas sobretudo ético e político”. Pode explicar essa ideia? Por que a governança do sistema é o ponto central a ser enfrentado, na sua avaliação?

Ladislau Dowbor — O ponto central é que temos uma economia mundializada e os governos são nacionais, logo, há um desajuste entre os meios e os fins. Nós não temos um governo planetário, apesar de termos problemas planetários. Um segundo eixo é que o poder dominante, hoje, é corporativo. Quando vemos um desastre em Mariana com a Samarco, se pensa: “Como isso é possível?”. A Samarco é riquíssima, transfere milhões para as empresas controladoras, para os grandes grupos financeiros, seja da BHP Billiton, do Bradesco e da Vale. O Brasil construiu Itaipu, nós temos engenheiros e pessoas que entendem desse processo, mas quem manda não são os engenheiros, são os grupos financeiros que controlam as empresas, e os conselhos de administração das empresas recebem seu bônus em função não de quanto investem no futuro da empresa, mas baseado no quanto conseguem extrair para os acionistas, e em função de quanto os acionistas ganham é que será calculado o bônus.

Esse sistema é disfuncional porque essas grandes corporações, hoje, são dominantes no planeta e são dominadas, essencialmente, por um grupo de 28 bancos, que chamamos internacionalmente de Systemically Important Financial Institution – SIFIs, que têm ativos que se aproximam do PIB mundial, ou seja, quem manda realmente não é o governo, quem manda no governo são os lucros financeiros. Os americanos têm uma excelente expressão para isso: “hoje é o rabo que abana o cachorro”. Antes, as finanças eram um complemento que ajudava a dinamizar e financiar a produção; hoje, tornou-se um sistema extrativo, capitalismo extrativo. O que nós temos — isso é estudado por [Joseph] Stiglitz e vários outros cientistas — não é um embate entre o Estado e as empresas, mas sim uma apropriação do poder político pelas próprias empresas, pelas grandes corporações financeiras. A partir de certo grau de poder financeiro, o poder político tem que se submeter, o que naturalmente está liquidando o pouco que nos resta de democracia.

Esta é uma mudança radical: onde se tinha produção material de bens e serviços e lucro, hoje se tem, essencialmente, especulação e rentismo; isso desfigurou o capitalismo – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — Do ponto de vista das faculdades de economia, que programas podem ser adotados para repensar a economia nos moldes que o Papa propõe?

Ladislau Dowbor — Nós temos uma forma de ensino da economia que é pré-histórica, corresponde a outro tipo de capitalismo, a outro sistema e a outro tempo. Precisamos trabalhar menos por disciplinas e mais de maneira integrada e por problemas. Na Finlândia, na escola secundária, já não se trabalha por disciplina, mas sim por problemas-chave. A resolução de um problema demográfico, cultural ou ambiental tem dimensões políticas, financeiras, jurídicas e sociais. Portanto, aprender a cruzar essas diversas áreas é fundamental. Por exemplo, o direito não estuda a economia e a economia não estuda o direito? O que é o direito? São as regras do jogo e a economia funciona de acordo com as regras do jogo. Então, não faz nenhum sentido separarmos de forma que uns estudem os mecanismos na economia e outros estudem as regras no direito e um não saiba qual se aplica a qual. Nós temos que, inclusive, juntar áreas científicas, como medicina e estudos climáticos, para que a economia passe a ser um instrumento muito mais rico, porque a economia não é uma área em si, não é indústria nem comércio, é uma dimensão de cada área. A segurança tem uma dimensão econômica, assim como construir casas e as transformações do uso do solo têm uma dimensão econômica. De certa forma, temos que reaproximar a economia dos problemas aos quais ela precisa ajudar a responder.

Eu trabalharia, portanto, por problemas, de forma interdisciplinar e interinstitucional. Hoje estamos todos conectados no mundo e podemos perfeitamente organizar cada faculdade, universidade, instituição ou grupo de trabalho sob um problema-chave e ver como esse problema-chave está sendo trabalhado em Tóquio, em Frankfurt ou em qualquer parte do mundo. Inclusive, os tradutores online estão se tornando perfeitamente aceitáveis, ou seja, é uma outra dimensão da construção científica que temos pela frente.

IHU On-Line — Entre os pesquisadores das áreas econômica e ambiental que participarão do evento “Economia de Francisco”, destacam-se nomes como Jeffrey Sachs, Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Vandana Shiva, Muhammad Yunus e Kate Raworth. O que esses teóricos têm em comum e que contribuições podem oferecer à proposta do Papa?

Ladislau Dowbor — O que eles têm em comum — não são pessoas de esquerda ou com afinidade ideológica — é que são pessoas de bom senso. Joseph Stiglitz foi economista-chefe do Banco Mundial e do governo [Bill] Clinton e se deu conta de que esse sistema não funciona. Hoje ele tem um Nobel de Economia, mas o essencial é que ele tem uma visão de conjunto. O livro dele chamado “Peoplkbe, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent” redimensiona a articulação das transformações da sociedade.

Jeffrey Sachs trabalha mais os problemas da desigualdade. No início de sua produção, ele não era muito recomendável e hoje se tornou um batalhador extremamente confiável por uma economia que funcione.

Amartya Sen nos trouxe a imensa transformação da compreensão de que não se trata apenas de pobreza e, portanto, de dar um dinheirinho para os pobres, mas de assegurar a cada pessoa a oportunidade para construir a vida que ela deseja. É uma visão muito mais complexa da exclusão que a pobreza está criando; trata-se de gerar essa dimensão humana de direito de construção da sua própria vida.

Vandana Shiva trabalha de maneira extremamente forte o problema do conflito entre as necessidades humanas e o desajuste profundo que as corporações estão criando, que simplesmente querem arrancar o que podem e estão apenas recentemente começando a fazer proclamações de que devem se preocupar com os impactos ambientais, sociais e econômicos do que fazem.

Muhammad Yunus descobriu que um pouco de crédito muito barato — não com juros extorsivos — na base da sociedade dinamiza a economia de maneira radical, inclusive, em particular, ao dinamizar as capacidades econômicas das mulheres. O Grameen Bank é um exemplo mundial. Yunus também recebeu um Prêmio Nobel. Aliás, é característico que deram um Nobel da Paz para ele e não um de Economia, porque nunca os economistas dariam um Prêmio Nobel para alguém que está dizendo que o dinheiro na base da sociedade é mais produtivo do que o dinheiro nos cofres dos banqueiros.

Kate Raworth nos traz com o livro “A Economia Donut”, que já existe em português, uma excelente visão de como fazer contas nacionais que façam sentido. Em vez de fazer do PIB uma arma essencialmente ideológica, ela sugere pegar o que são os excessos que precisamos reduzir, por exemplo, emissões de gases de efeito estufa e destruição florestal e, por outro lado, as coisas que são insuficientes, como pessoas subnutridas — temos 850 milhões de pessoas que passam fome —, e reduzir os excessos e compensar as insuficiências. Isso nos permite ter, no conjunto, 23 elementos de contas que põem a contabilidade nacional de pé, porque hoje essencialmente ela está de ponta-cabeça.

Nós temos que criar economistas que entendam não de modelos econômicos, mas da dinâmica complexa que gera os desafios para poder propor soluções e não apenas para explicar, depois do desastre, por que determinado modelo não funcionou.

IHU On-Line — Como o evento proposto pelo Papa tem repercutido entre os economistas que o senhor conhece? O senhor tem visto reações favoráveis e contrárias à proposta?

Ladislau Dowbor — No conjunto, pessoas que estudaram de forma muito clássica ou são muito ligadas aos mercados ou aos interesses do sistema financeiro reagem de maneira ideológica, porque estão muito centradas na ideologia do enriquecimento das grandes fortunas. Agora, no geral, e sobretudo na nova geração, tenho encontrado muita receptividade. Ou seja, há uma redescoberta entre os economistas de que cada problema econômico tem dimensões políticas, sociais, ambientais e éticas. O conceito de função de economia está penetrando e, para muitos na área dos economistas que pensam de maneira tradicional, é um desafio ver personagens como Stiglitz, Jeffrey Sachs e Kate Raworth mudando radicalmente os rumos. Isso porque se sentem, de repente, sem base naqueles modelinhos que estavam baseados, essencialmente, numa simplificação do ser humano, de que o ser humano é um maximizador racional de vantagens individuais e que o enriquecimento significava apenas um objetivo individual. Isto é, esse deslocamento de que os indivíduos são complexos têm dimensões de generosidade, de competição e de colaboração, e temos que trabalhar com as pessoas realmente existentes e com o conjunto de enriquecimento social, porque na realidade hoje ninguém mais vai viver feliz sozinho.

O enriquecimento improdutivo é a nossa principal deformação econômica, social e política – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — Como podemos repensar a economia brasileira à luz da proposta do papa Francisco?

Ladislau Dowbor — Eu trabalharia justamente elencando os problemas-chave. Quais são os desafios-chave da nossa economia? No Brasil é evidente: a desigualdade. Nós temos 206 bilionários que, nos últimos 12 meses, segundo a revista americana Forbes, aumentaram as suas fortunas em 230 bilhões de reais — isso com a economia parada. Só lembrando: o Bolsa Família consome 30 bilhões de reais. Logo, não é o Bolsa Família e a aposentadoria dos velhinhos que estão prejudicando a economia, e sim a enorme extração de recursos por parte desses grandes grupos financeiros que não produzem, mas são, essencialmente, aplicadores financeiros.

Em 2012, quando começou o embate contra a Dilma [Rousseff], nós tínhamos 74 bilionários; hoje, são 206. Esse sistema não está funcionando para a economia e para a população, mas para alguém está funcionando. Essas famílias — não estamos falando do valor das empresas, mas dos grupos pessoais, que, aliás, não pagam impostos no Brasil porque lucros e dividendos distribuídos são isentos — tinham uma fortuna, em 2012, de 346 bilhões de reais e, em 2019, passaram a ter uma fortuna de 1 trilhão e 206 bilhões de reais. Isso é um problema ético, porque não foram os pobres que criaram a forma de funcionamento desse sistema. O problema ético está do lado dos ricos, porque os ricos estão enriquecendo sem produzir e sem merecimento. Então, o eixo central é uma reorganização de como usamos os recursos e de como usamos a política.

O enriquecimento improdutivo é a nossa principal deformação econômica, social e política. Por que tiraram a CPMF? Não é pelo ridículo 0,38% sobre as transações financeiras, é porque gerava transparência, mostrava quem transferia para quem, como eram os fluxos de capitais. Nós temos que resgatar o controle dos fluxos, fazer uma reforma tributária porque, por exemplo, eu como professor pago 27,5% sobre o meu salário, já o Joseph Safra, sem produzir nada, ganhou nos últimos 12 meses 19 bilhões de reais e não paga imposto; esse sistema é simplesmente uma aberração. Precisamos taxar as grandes fortunas, tornar real o Imposto Territorial Rural – ITR, que é uma ficção, e taxar, em particular, o capital improdutivo, coisa que está sendo amplamente discutida hoje no mundo, porque é uma das medidas centrais. Nós temos que passar a taxar quem acumula um monte de dinheiro sem produzir nada, porque se tem um imposto que começa a reduzir o capital do indivíduo, talvez ele pense em fazer algo útil com o dinheiro porque o capital está sendo reduzido. Essa é a visão para tornar a sociedade produtiva. Com as tecnologias e a riqueza financeira que temos, ter as economias paradas é ridículo.

Além disso, temos, evidentemente, uma dimensão ética. Lembro de um cartaz que vi na Av. Paulista: um senhor curiosamente com uma bandeira do Brasil e com um cartaz dizendo “evasão fiscal não é roubo”. Ele diz que não é roubo, não paga impostos, mas gosta de ter o filho estudando numa federal ou na USP, estudando com o dinheiro dos outros, gosta de ter a rua asfaltada com o dinheiro dos outros. Do que se trata? Isso não são ideologias, é realmente pensar a economia que funcione e a própria economia tem que mudar o rumo da forma como é ensinada e aplicada.

Temos que voltar ao bom senso de orientar a economia para as famílias, para as empresas, e para o Estado poder investir nas infraestruturas e nas políticas sociais – Ladislau Dowbor

IHU On-Line — Deseja acrescentar algo?

Ladislau Dowbor — Eu acrescentaria algo básico que ajuda as pessoas a entender os processos. Trata-se de algo que sabemos que funciona: funcionou no Brasil de 2003 a 2013, funcionou nos Estados Unidos de Roosevelt com o New Deal, funcionou na Europa com o que se chamou de Estado de bem-estar social (Welfare State), funciona até hoje na China, na Coreia do Sul, no Canadá, na Suécia e na Alemanha. O que têm essas referências em comum? Elas controlam o sistema financeiro, orientam os recursos para o bem-estar das famílias, de um lado, assegurando um bom salário mínimo e a renda no bolso das famílias e, por outro lado, assegurando sistemas públicos, universais e gratuitos de saúde, educação e cultura, porque isso é investimento nas pessoas, não é gasto. Quando um país usa seus recursos para o bem-estar das pessoas, isso gera mais capacidade de compra das famílias, o que gera mais demanda frente às empresas. Isso gera inflação? Não, porque no Brasil, por exemplo, as empresas estão trabalhando com menos de 70% da sua capacidade.

Um empresário estava dizendo que está mais barato e mais fácil contratar hoje, mas que não tem por que contratar se não tem para quem vender. Como a empresa funciona? Para funcionar, a empresa tem que ter mercado para quem vender e tem que ter juro barato para poder investir; no Brasil nós não temos nenhuma coisa nem outra. Agora, como se viu no Brasil entre 2003 e 2013, se investe com aumento de salário, Bolsa Família, Luz para Todos. Foram criados 149 programas sociais. Por que a economia cresceu e não gerou déficit? Porque dinamizou as empresas e o consumo. Para ver o resultado, basta olhar no Banco Central e verificar que nos anos dos governos Lula e Dilma não houve déficit. O déficit é gerado na fase [Michel] Temer e Bolsonaro, quando há a paralisia da economia. O atual governo diz que está consertando a economia, mas quem destruiu o sistema é quem está hoje no poder e isso explica a nossa paralisia. Temos que voltar ao bom senso de orientar a economia para as famílias, para as empresas, e para o Estado poder investir nas infraestruturas e nas políticas sociais.

Em fome constante

Os nazistas mantinham os judeus em fome constante. Assim, os judeus se ocupavam apenas de uma única tarefa durante o dia todo: procurar alimento, sobreviver, matar a fome imediata e urgente.

Não tinham tempo e nem energia para organizar conspirações, rebeliões e planos de fuga. A vida se resumia a uma luta individualista, egoísta e solitária pela mera subsistência.

De modo análogo, a maioria dos brasileiros se ocupa apenas da sobrevivência e da dura conquista do básico: moradia, comida, escola e saúde.

E mesmo os poucos que conseguem manter esse básico (especialmente a classe média) não têm tempo para se preocupar com mais nada: acordam muito cedo, trabalham mais de 8 horas, retornam exaustos, assistem o Jornal Nacional e vão dormir para reiniciar a labuta no dia seguinte.

A vida se resume a uma luta individualista, egoísta e solitária pela manutenção do básico.

E as TVs, os jornais e revistas reforçam e martelam diariamente essa ideologia do individualismo e do trabalho maquinal: pense apenas em você; invista apenas em você; é cada um por si; não reclame, trabalhe; não seja vagabundo, trabalhe até o fim da vida; sempre foi e sempre será assim; com esforço você conseguirá vencer; a meritocracia fará você vencer; os sindicatos não servem pra nada; a política não presta; o coletivismo é um sonho; o socialismo morreu; os empresários vão melhorar sua vida; o capitalismo selvagem e sem grilhões é o futuro. E tudo isso é mostrado ao público através de um lustro acadêmico e profissional.

A propaganda é tão intensa e tão bem feita que poucos conseguem perceber a grande farsa que existe por trás dessa forma de pensar.

Diante desse cenário, a grande maioria dos brasileiros pouco se importa se o país está passando por um golpe de estado, se os direitos humanos já foram pro vinagre, se não existe mais democracia, se a constituição foi rasgada, se existe prisão política, se haverá uma ditadura militar, se os pobres da cracolância estão sendo tratados como lixo.

Para quem a sobrevivência é a única preocupação, essas questões parecem supérfluas, um luxo desnecessário que só se justifica em países ricos. Tudo isso se apresenta como uma névoa de acontecimentos, um falatório confuso, um ruído de fundo na vida cinzenta e maquinal dos trabalhadores.

Querer que essa multidão de autômatos se levante para lutar pela democracia é ser totalmente irrealista, romântico e ingênuo.
A grande massa de trabalhadores sem sindicatos, desorganizados e desinformados, apenas perceberão que algo mudou no país quando forem terceirizados, quando não mais tiverem direito a férias e décimo terceiro, quando a carga de trabalho aumentar e o salário diminuir, quando descobrirem que não irão mais se aposentar.

A grande massa de trabalhadores não aprende pela informação (pois a única informação que possui vem de seus algozes), aprende pela prática do dia-a-dia.

Quando a grande massa de trabalhadores descobrir que tudo mudou, já será tarde demais para mudar.”

(Professora Alessandra Vieira)

Denúncia – Olavismo para crianças

Olavismo para crianças

BERNARDO MELLO FRANCO – O Globo

Olavo de Carvalho, quem diria, foi parar no horário nobre. O guru do bolsonarismo é a estrela da série “Brasil: A Última Cruzada”, que começou a ser exibida ontem pela TV Escola. Trata-se de uma emissora pública, mantida pelo Ministério da Educação e dirigida à formação de professores e alunos.

A série apresenta uma visão peculiar da História. Em tom épico, exalta a “coragem” dos colonizadores portugueses e o “amor pelo Brasil” de dom Pedro I. O objetivo, segundo o produtor Filipe Valerim, é “combater ideologias perversas” e “despertar a consciência e o patriotismo” dos telespectadores.

Além de Olavo, o programa dá voz a figuras como Luiz Philippe Orleans e Bragança, deputado do PSL, e Rafael Nogueira, novo presidente da Biblioteca Nacional. Depois de defenderem a ditadura militar, os bolsonaristas agora querem reabilitar a monarquia.

“Isso é negacionismo puro”, diz o historiador Thiago Krause, da UniRio. “A série ouve gente desqualificada e defende teses que não são aceitas por ninguém na academia. Estão usando uma emissora pública para fazer propaganda e fortalecer a visão ideológica do grupo do presidente”, critica.

Não é uma iniciativa isolada. Na semana que vem, a TV Escola começará a exibir a série “Meia Volta, Vou Ler”. A promessa é mostrar “a qualidade das escolas cívico-militares”. Coincidentemente, a maior vitrine da política educacional de Bolsonaro.

A guinada da emissora é conduzida pelo diretor Francisco Câmpera. Ele assumiu o cargo depois de assinar artigos elogiosos ao presidente. Procurado pela coluna, disse que não poderia dar entrevista.

A invasão dos olavistas é vista com perplexidade por funcionários que trabalharam na TV Escola sob diferentes governos. “Estão desmontando tudo o que não vem deste pseudofilósofo”, diz a ex-diretora Regina de Assis. Ela foi demitida em setembro, depois de reclamar do aparelhamento da emissora.

“O que está acontecendo é um retrocesso grave, combinado com o mau uso de recursos do MEC. Isso deveria ser analisado pelo Ministério Público ”, afirma.

Medicamento para Hepatite C tem aumento superior a 1.000 %

Tuíte do Repórter Brasil:

O medicamento sofosbuvir, para hepatite C, ficou 1.400% mais caro no Brasil desde janeiro de 2019, quando o governo brasileiro concedeu a patente ao laboratório norte-americano Gilead. A cápsula do remédio, que cura a doença em 95% dos casos, passou de R$ 64 para R$ 986.

Resposta do Ministério da Saúde:

O Ministério da Saúde tem um gasto extra de R$ 400 milhões por ano só em razão da patente do sofosbuvir. Há 700 mil pacientes no Brasil, mas o alto preço da droga impede que todos recebam o tratamento. Entre 2015 e 2017, quase 6.000 pessoas morreram.

Resposta do Repórter Brasil:

Quem pode mudar esse cenário é o @Cadegovbr, que recebeu esta semana denúncia contra a @GileadSciences por abuso de direito de patente e prática de preços abusivos. A representação pede ainda multa contra a empresa e licenciamento compulsório do remédio.

Do site dos Médicos Sem Fronteira:

Ação inédita no Cade denuncia preço abusivo de medicamento para hepatite C

21/10/2019
Com base em estudo de pesquisadores da USP, organizações da sociedade civil pedem intervenção do órgão para punir infrações cometidas pela empresa farmacêutica Gilead

Hepatite C
Nove organizações da sociedade civil, incluindo Médicos Sem Fronteiras (MSF) e Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), junto com a Defensoria Pública da União (DPU), protocolaram nesta segunda-feira, 21 de outubro, uma denúncia no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) contra a empresa farmacêutica Gilead, por abuso de posição dominante em relação ao medicamento sofosbuvir. A ação é inédita no Cade por ser a primeira sobre altos preços de medicamentos e também a primeira proposta por grupos de pacientes e consumidores. De acordo com as organizações, preços abusivos cobrados por medicamentos compostos por sofosbuvir têm impedido que milhares de pessoas tenham acesso a um tratamento eficiente contra a hepatite C.

As entidades pedem ao órgão brasileiro responsável pela defesa da concorrência que condene a Gilead com multa e imponha, em caráter liminar, o licenciamento compulsório do sofosbuvir. A medida suspenderia a patente do medicamento, concedida à Gilead, e permitiria sua produção e comercialização por outras empresas, aumentando a concorrência e, consequentemente, ampliando o acesso à cura para centenas de milhares de pessoas que sofrem com a doença no Brasil. O Ministério da Saúde estima que cerca de 700 mil pessoas precisam de tratamento de hepatite C no país, mas até junho de 2019, apenas 102 mil pacientes haviam sido tratados com os medicamentos mais novos e eficientes, dentre os quais se destaca o sofosbuvir. Dentre as hepatites, a de tipo C é a mais prevalente e letal no Brasil.

Além de MSF, Idec e DPU, o documento é assinado por Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu), Grupo de Incentivo à Vida (GIV), Fórum das ONGs Aids do Estado de São Paulo (FOAESP), Fórum de ONGs Aids do Rio Grande do Sul, Grupo de Apoio à Prevenção da Aids (GAPA/BA), Grupo Solidariedade é Vida e Universidades Aliadas por Medicamentos Essenciais (UAEM).

A representação ao CADE tem como fundamento um estudo realizado por pesquisadores do Grupo Direito e Pobreza, da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo), e coordenado pelos juristas Calixto Salomão Filho e Carlos Portugal Gouvêa. O trabalho concluiu que desde o lançamento do medicamento no Brasil, em 2015, a Gilead vem abusando sistematicamente de sua posição dominante de mercado, com consequências econômicas e sociais extremamente graves.

Entre 2015 e 2018, o estudo aponta um período de ”monopólio fático” onde a Gilead forneceu 99,96% do sofosbuvir comercializado no país. Nesse período, o preço médio cobrado variou de R$ 179,41 a R$ 639,29 por comprimido de medicamento composto por sofosbuvir, tendo como resultado para a empresa uma receita de R$ 1,4 bilhão apenas nas compras realizadas pelo Estado brasileiro. Neste mesmo período, no entanto, o tratamento foi racionado por causa dos altos preços, impedindo que um enorme contingente de pessoas fosse tratado e curado. Entre 2015 e 2017 foram registrados quase 6 mil óbitos por hepatite C no país.

Entre julho de 2018 e janeiro de 2019, os pesquisadores da USP apontam um breve período de concorrência, no qual o valor cobrado pela Gilead caiu 89,9%, para R$ 64,84. Após a concessão da patente e até 22 de junho deste ano (final do período analisado pelo estudo), a média subiu para R$ 986,57, um aumento de 1.421,5% por comprimido de medicamento composto por sofosbuvir. Esse é considerado um período de monopólio formal, no qual foi observado “aumento arbitrário de preços”.

“O estudo mostra como um período breve de concorrência foi capaz de provocar preços muito mais baixos, o que deixou bem claro como a empresa pode e pratica preços mais acessíveis quando há outras opções no mercado”, alerta a advogada e pesquisadora em Saúde do Idec, Ana Carolina Navarrete. “Como entidade de defesa do consumidor, sabemos que a concorrência é um instrumento poderoso para redução de preços. Neste caso, o monopólio, além de injustificado, resulta em preços altos que beneficiam somente a empresa” reforça.

O texto da representação explica que “a conduta ilícita” levada a cabo pela Gilead “é grave e afeta de forma evidente o interesse público”. “São centenas de milhares de pessoas infectadas com acesso deficitário ao tratamento ou privadas de seu acesso, desrespeitando os princípios do Sistema Único de Saúde. Estamos diante de um histórico de óbitos, distribuição racionada e filas de espera por um medicamento capaz de curar a enfermidade e efetivamente recomendado pela OMS para o enfrentamento de uma grave ameaça global de saúde”, afirma a advogada Eloisa Machado, do Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu), entidade responsável pelo tramite jurídico da ação junto ao Cade.

Uma das autoras da representação, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) tem realizado com grande sucesso tratamentos contra a hepatite C em 18 projetos, localizados em 14 países. MSF utiliza combinações de medicamentos que frequentemente incluem versões genéricas do sofosbuvir. Neste ano, MSF adquiriu um tratamento completo contendo sofosbuvir por 0,89 dólares por unidade, cerca de 3,60 reais. “MSF é testemunha de que os altos preços estão por trás da oferta limitada ou inexistente de medicamentos em vários países. Mais de 65 milhões de pessoas ainda estão sem tratamento no mundo. Defendemos o acesso para todos”, afirmou Ana de Lemos, diretora-executiva de MSF-Brasil.

Se mantido o ritmo atual, o Brasil não cumprirá a meta, alinhada à estratégia global de combate à doença, de tratar 657 mil pessoas até 2030. A próxima compra de tratamentos para hepatite C pelo Ministério da Saúde ocorrerá ainda em 2019. Por isso, uma audiência pública prévia à realização do pregão aconteceu hoje em Brasília.

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Hepatite C Exclusão do Acesso à Cuidados de Saúde

Prender para prender

Compartilho texto publicado por Flavio Antônio da Cruz – juiz de Direito e professor – em sua página no Facebook. O título é responsabilidade minha.

19.10.2019

Paulom

1 – Há muitos mitos sobre o papel do Direito e do Estado. Há muitos mitos sobre a função do Direito Penal e sobre o tal do “saldo negativo de violência”. Mas, não tratarei deles aqui.

2 – Nosso Código de Processo Penal, de 1941, foi inspirado em uma tradição fascista, consolidada com o Código Rocco de 1930.

3 – Com a sua redação original, havia uma distinção entre o regime de liberdades assegurado aos suspeitos/acusados, conforme o grau da suspeita ou da acusação.

4 – Por exemplo, quando preso em alegado flagrante delito, o sujeito poderia responder solto, se a suposta infração fosse leve; poderia responder em liberdade, desde que pagasse fiança, se a infração fosse média; e teria que responder ao processo preso, se a infração fosse inafiançável.

5 – Ademais, ainda segundo a lógica do CPP/1941, os direitos do acusado eram restringidos de modo automático, na medida em que o processo avançasse para determinadas etapas. Ele era recolhido à prisão, quando pronunciado; tinha que recolher-se à prisão para poder apelar de sentença condenatória. Então, diante desse sistema, a execução provisória da pena era uma consequência inexorável.

6 – O ponto é que não havia, então, maior distinção – na prática processual penal – entre prisão para punir e prisão cautelar. Havia efetiva antecipação de pena no curso do processo.

7 – Mas, sobreveio a lei Fleury – Lei 5.941/1973 – passando a admitir a liberdade provisória para quem, ainda que suspeito/acusado da prática de crimes inafiançáveis, tivesse residência fixa, ocupação lícita e não estivesse em vias de fugir etc. Essa lei alterou os arts. 408, 474, 594 e 596, CPP.

8 – Com isso, surgia uma situação estranha, dado que se condicionava a liberdade de alguém ao recolhimento de fiança, quando se tratasse de suspeita da prática de crimes de média gravidade. Ao mesmo tempo, se possibilitava tal liberdade, quando em causa a desconfiança da prática de crimes mais graves, mesmo sem o recolhimento de fiança.

9 – Note-se também que a liberdade era chamada de “provisória”, pelo fato de haver a percepção de que o sistema levaria, de um modo quase inexorável, à condenação do suspeito. A liberdade concedida seria revogada, logo adiante.

10 – Mas, sobreveio a Constituição de 1988… E tentou-se constitucionalizar o processo. A prisão automática decorrente de pronúncia foi reputada inválida; também foi reconhecida a inconstitucionalidade da prisão para recorrer… Passou-se a exigir a presença de requisitos cautelares para a decretação da prisão no curso do processo ou da apuração.

11 – Claro que remanesceram, a despeito disso, prisões automáticas ou manutenções automáticas de prisões, a exemplo da inafiançabilidade da suspeita da prática de tráfico de drogas, com apreensão em cogitado flagrante (havendo debates, ainda hoje, sobre o alcance do art. 5, XLIII, CF). E é claro que a prática não foi tão constitucionalizada assim, ao contrário do discurso processual penal.

12 – Mas, por essencial, é indispensável tomar em conta essa premissa: há uma fundamental distinção entre prisão ad custodiam e prisão ad poenam. A prisão ad custodiam tem a função de garantir o próprio processo ou – em casos excepcionais – de servir como mecanismo inibitório (prisão para impedir crimes que estejam na iminência de acontecer), com todos os debates existentes a respeito da categoria “defesa da ordem pública”.

13 – Mas, dado que o cotidiano não havia sido efetivamente constitucionalizado, dado o punitivismo – de direita e de esquerda -, dados também o protagonismo e o ativismo judicial, o pêndulo passou a regredir.

14 – Caminhamos, pouco a pouco, para o sistema anterior… Aquele mesmo que limita o respeito ao estado de inocência a uma pretensa “presunção de não culpabilidade” (algo bem distinto, e que encontrou anteparo na obra do fascista Vincenzo Manzini).

15 – Ainda hoje há “juristas” que não atinam com a diferença entre prender para acautelar e prender para executar pena. Outros simplesmente desconsideram a Constituição, como se não constituísse. Há também aqueles que querem funcionar como criadores de dicionários, atribuindo às palavras sentidos que o uso coletivo não alberga.

16 – Assim, passa-se à prisão automática, sem exame de imprescindibilidade cautelar. Volta-se, pouco a pouco, à prisão automática decorrente da pronúncia; prisão para apelar e prisão conforme o grau da suspeita. Rocco ainda dormita no espírito de muita gente.

17 – Claro… diante de um cotidiano violento, tingido de sangue, há quem pense que esse retorno a Rocco seja promessa de um sistema “efetivo”, que combaterá o mal e fará o bem reluzir “de novo” (aquela idealização tacanha do passado…). Vá lá. Há muita violência mesmo… infelizmente. Há quem mate por simplesmente não gostar da cor da camiseta da vítima.

18 – Todavia, o ponto é que o Direito Penal não é emplasto universal. E não podemos ser como Brás Cubas, procurando soluções metafísicas para problemas que são sociais. O Direito Penal cumpre qual função em sociedades de modernidade tardia? Essa é a pergunta importante… mas, disse que não iria tratar de mitos de fundação aqui.

É isso.

A culpa é da baixa de selênio

De Fernando Tenório

(médico psiquiatra e educador social).

“Há alguns meses eu recebi um paciente que trabalha como caixa de um dos maiores bancos do país. Ele não conseguia mais ir ao trabalho, tinha crises de pânico ao ver a logomarca do banco e apresentava sinais claros de esgotamento profissional, todavia era impossível para ele relacionar seu estado ao trabalho e à estafa por ele provocada. A rotina de caixa não tinha horário fixo para almoço, o regime de metas era relembrado todos os dias e mesmo que tivesse sido um funcionário exemplar por mais de sete anos, começara a ser ameaçado por não “entregar nos últimos dois meses”, sendo a demissão o trunfo para o assédio.

Explicou que o trabalho no banco já foi de outro jeito e que conseguia levar, mas que nos últimos anos as coisas pioraram. “Agora a agência que menos gasta papel ganha um certificado”. Seguiu falando que não havia nenhuma questão na sustentabilidade ambiental e sim uma medida visando otimizar o lucro. Para que sua agência ganhasse, deixou vários clientes sem suas vias de contrato, ficando extremamente culpado e tendo insônia. “Eu sempre fiz um bom trabalho, mas desse jeito não dá”. Paradoxalmente, ele tinha medo de perder um emprego que o adoecia. Ouvia dos superiores que o banco era um emprego incrível e que lá fora era só selvageria. Que tinha direito a um seguro saúde bom. “Eu fiquei entre os dez melhores caixas do Brasil por dois anos seguidos e do que valeu?”, ele indagava desesperado ao notar que sua queda de desempenho o deixava na mira para demissão.

Além de caixa, precisava ser um bom vendedor de produtos, ainda que não acreditasse em quase nenhum deles e sentia que enganava às pessoas quando as convencia de realizar a compra de determinados produtos. Sentia-se culpado, exausto e sempre em dívida. Toda relação abusiva começa assim: fazendo você sentir-se em dívida com quem te abusa. Ele ficava indignado que uma senhora que ganhava um salário mínimo tinha quase setenta reais de taxas mensais, mas o tempo todo diziam que era aquele tipo de coisa que garantia seu “bom emprego”. No último trimestre, o seu empregador teve um lucro de mais de sete bilhões de reais e dividiu com seus acionistas sem pagar impostos, mas ele não queria se afastar para não ser visto de cara feia pelos superiores. “Eu sou um bom funcionário, doutor, e quem se afasta por psiquiatria é visto como escorado”. Tentava me convencer de que não seria necessário e que a culpa de todos os males físicos e mentais que sentia era uma baixa dose de selênio evidenciada num exame de sangue daqueles pedidos sem nenhum critério. Resolvi indicar um livro chamado Sociedade do cansaço, do coreano Byung-chul Han, na esperança de que ele pudesse se enxergar ali, afinal o médico é um educador social.

“A culpa é da baixa de selênio, doutor”. Insistia ele numa repetição de que com o selênio ajustado daria conta do trabalho. “Eu trabalho desde os 14 anos e meus pais vão dizer que eu não tenho raça, caso eu diga que adoeci de trabalhar”. Mesmo que contra sua vontade, fiz um atestado médico de afastamento laboral por síndrome de Burnout, o qual ele avisou que não faria uso e eu respeitei tal decisão. Acreditei que dar o atestado médico a ele poderia ter algum efeito, validando o que ele sentia diante das pressões sociais.

Voltou há alguns dias, com o selênio já com níveis normalizados após ida ao ortomolecular e com seis entradas em emergências clínicas nos últimos dez dias por crises de ansiedade, as quais ele recebia com a certeza de um infarto fulminante. Todas a caminho do trabalho. Quando apresentou finalmente o atestado, recebeu um recado do gerente: “isso é falta de yoga”. É isso, as instituições ferram a cabeça das pessoas e depois ainda as responsabilizam por não suportar aquela carga. De não encontrarem escapes para o mal-estar que as relações abusivas de trabalho provocam. O capitalismo se apropria das melhores práticas e dá a elas o destino que deseja. A meditação, que era para ser um encontro consigo mesmo e uma libertação de várias amarras do dia-a-dia, vira um cuidado individual para suportar os inúmeros abusos, subvertendo a sua essência.

Hoje, quando perguntei se estava preparado para o afastamento, ele me disse que sim e ressaltou:

-Aqueles livros que você me indicou foram melhores que o remédio. Eu entendi o que eles querem de mim. Eles querem o meu trabalho, a minha saúde e que eu me sinta prisioneiro deles. Não era o selênio porra nenhuma! Eu sou um explorado e vejo que todos os meus colegas também estão doentes como eu. Não é culpa minha. A culpa é deles que querem ganhar cada vez mais. Que bom que eu pude enxergar melhor.Vou ficar afastado até melhorar. É meu direito!

Compartilhado por Martha Simões

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Horóscopo Para os Que Estão Vivos- Câncer – Thiago de Mello

Agarra-te à tua intuição,

companheiro que nasceste

seduzido pela Lua,

essa terrível é fascinante Lua

que altera a tua vida

com seus impulsos inumeráveis

e te converte tantas vezes,

em um ser extravagante

e incompreendido pelos outros.

Pois eu te compreendo tanto

e te estendo a mão, vamos embora.

Vamos de mãos dadas,

mulher morena de Lua, tu também

vamos cantar uma canção antiga,

que leve o sol às charcas doloridas.

Porque este será um tempo de decisões difíceis.

Vai pela tua intuição, mas vai com jeito,

vai no rumo da entressombra,

vai no rigor do orvalho,

a arma do amor no punho.

Veste alguma coisa vermelha,

(que não seja emprestado),

muda uns móveis de lugar,

planta depressa uma árvore,

não importa que seja em jardim alheio,

e verás florescer a alegria,

cotidiana e fresca,

com a segurança, serena no seu poder,

de que o povo um dia vencerá.

O verão te é propício a descidas da montanha,

Mas devagar, antes que o teu canto

seja o da multidão, como é preciso.

Guarda-te da atração

que sobre tua fronte lutada

exerce Leão.

Os astros mais oblíquos, em geral adversos

de pronto unânimes,

te sugerem uma viagem

pela América, a nossa.

Vale a pena, Câncer companheiro,

porque vais encontrar,

na flor de sua rebeldia despertada,

a bela há tanto tempo

adormecida no bosque.

E guarda bem, e aprende, esta data:

8 de outubro, o dia inteiro.

Cuidado!

Porque o Brasil não dá certo, por Nilson Lage

Porque o Brasil não dá certo, por Nilson Lage

Não faltou a boa iniciativa privada: o Barão de Mauá tentou, Delmiro Gouveia também, e o Amaral Curgel… Boas ideias, bons produtos: os compressores da Embraco, a engenharia de infraestrutura da Oldebrecht, os aviões da Embraer… Literatos e pensadores: Machado, Mário de Andrade, Celso Furtado, Anísio Teixeira. Humanistas, de Cândido Rondon a Darcy Ribeiro. Tecnólogos, de Santos Dumont e Álvaro Alberto ao infortunado Othon Pinheiro. Iniciativas de governo: a siderurgia, o petróleo, a pesquisa agrícola, a indústria de defesa; os institutos científicos, as universidades, o ensino técnico. O melhor projeto social: educação e saúde prometidas a todos.
Por que não emplacamos?
Do pau brasil à cana de açúcar o algodão, o café; agora, a soja e o milho, o ferro e o óleo cru. Por que não se diversifica a pauta de exportações, amplia-se a produção local de bens com valor agregado, desenvolve-se tecnologia própria de sementes e processos industriais, rasgam-se ferrovias, navega-se por todos os oceanos, parte-se para a almejada integração soberana e pacífica com os outros povos? Por que suportar a eterna lenga-lenga de bacharéis arrogantes, políticos safados, mídia mentirosa e salvadores da pátria? Por que é tão grande a cacetada que nos pespegam a cada vez que levantamos a cabeça?
As primeiras tentativas para justificar tal coisa fundavam-se no racismo: seria devido à fusão promíscua de portugueses, índios e negros. No entanto, os imigrantes que acorreram de todo o mundo (e que recebemos da melhor maneira possível) vão até certo ponto, e param também. Esbarram em dificuldades incompreensíveis, abrem falência ou vendem as empresas. Apaixonam-se pelo país: registram seus relatos, ajudam como podem, acomodam-se ou vão embora. Um escreveu aqui a História da Literatura Universal, outro se ufanava do Brasil (coitado, suicidou-se), alguns foram obás de candomblé. Passaram.
Houve quem propusesse alguma coisa ligada à geografia, aos trópicos. Mas, aí, é covardia; temos os melhores climas, as melhores terras, grandes rios, reservas de minérios e água subterrânea. Ninguém duvida da excelência do nosso povo, às vezes triste, às vezes animado, quase sempre esperto, criativo e pronto até demais a confiar no que lhe dizem.
Creio que o que acontece com o Brasil é, em parte, sua novidade.
O mundo não está pronto para aceitar um país em que as etnias e as crenças estão de tal maneira misturadas que o preconceito vai decerto magoar, ferir, doer em algum parente ou amigo próximo, onde formalidades como casamento e senhorio jamais deixaram de ser enfeites da elite, a nudez sem malícia é ancestral,,as transas divergentes disfarçan-se discretamente (não é da conta deles) e a violência, de tão sofrida, grande embora no varejo , rejeita-se no atacado e não se exporta.
O mundo prefere que as pessoas se odeiem declaradamente, que os pudores (embora não as mamas) sejam expostos fora dos armários e a violência aceita como imposição da natureza e inevitável razão de Estado. Sendo o homem inimigo do homem e a sociedade fiscalizando alcovas, acham, tudo estará bem – isto é, mal, como deve ser.
Outra razão é o tempo-espaço: o Brasil chegou para o banquete na hora da sobremesa, quando os comensais mais antigos já estavam aos tapas. Veio, grande e bobo, pela mão de um império que o domou e guarda as rédeas. E, por desgraça, fica perto do centro de todas as fúrias e defeitos da Europa redivivos nos Estados Unidos. Do Nilson Lage