Poluição e Acidificação dos Oceanos

Impacto da acidificação dos oceanos é observado em fauna microscópica de ambientes recifais.

Experimento no mesocosmo do Coral Vivo simulou as previsões do IPCC para os próximos anos e resultado está publicado na Springer.

Quais serão os efeitos do processo de acidificação dos oceanos no futuro? Uma pesquisa que acaba de ser publicada na revista científica Coral Reefs, da Editora Springer, avaliou como será a elevação dos níveis de acidez sobre a meiofauna do Parque Municipal Marinho do Recife de Fora, em Porto Seguro (BA). Ela é composta por alta diversidade de animais marinhos, como crustáceos, poliquetas, tardigrádos e moluscos que medem menos de 1 milímetro e ocorrem em abundância associados às algas ou sedimentos. Tem papel importante na cadeia alimentar e apresenta rápida resposta às mudanças no ambiente.

Para simular as previsões de acidificação seguindo os relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), os pesquisadores utilizaram o mesocosmo marinho do Coral Vivo – um sistema experimental com dezesseis tanques que recebem continuamente a água de um recife de coral. Foram coletadas 36 amostras de uma comunidade de meiofauna do Recife de Fora, que foram distribuídas nesses tanques e expostas aos tratamentos de acidificação por 15 e 30 dias. Atualmente, o pH dos oceanos está em torno de 8.1, e o experimento reduziu o pH da água do mar em 0.3, 0.6 e 0.9, por meio de injeção de gás carbônico de forma controlada.

Foram contabilizados 20.371 organismos da meiofauna nesse estudo. Como o ciclo de vida deles é curto, os pesquisadores puderam observar também os efeitos da acidificação nos descendentes gerados durante o experimento. Apesar de os indivíduos adultos de algumas espécies de poliquetas e crustáceos não sofrerem fortes impactos, os juvenis tiveram alta mortalidade associada à redução do pH.

“Percebemos que os organismos adultos parecem conseguir lidar mais facilmente com a acidificação. Entretanto, futuramente, poderá haver uma mudança na dinâmica dessas populações porque a fisiologia dos juvenis é muito mais sensível”, explica a bióloga Visnu Sarmento, doutoranda da Universidade Federal de Pernambuco, e membro da Rede de Pesquisas Coral Vivo, que conta com o patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental e o copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque.

De acordo com os pesquisadores, os resultados desse experimento no mesocosmo corroboram sugestões anteriores de que a acidificação dos oceanos induz mudanças importantes nas comunidades do fundo do mar. “Considerando a importância da meiofauna na cadeia alimentar nos ecossistemas de recifes de coral, os resultados apresentados por esse estudo demonstram que o funcionamento desses ambientes está seriamente ameaçado pela acidificação dos oceanos”, avalia Visnu. Cabe destacar que os organismos da meiofauna consomem microalgas e bactérias, por exemplo, e, por sua vez, servem de alimento para animais maiores, como peixes e camarões, por exemplo.

Aproximadamente, 30% de todo CO₂ emitido para a atmosfera pelas atividades humanas têm sido absorvido pelos oceanos. A pesquisadora Visnu Sarmento destaca que essa captação de CO₂ ajuda a moderar as mudanças climáticas, porém, quando o dióxido de carbono dissolve-se no oceano, reduz o pH e causa mudanças na bioquímica do oceano. Essa mudança, frequentemente chamada de acidificação dos oceanos, já está ocorrendo e é esperado que se intensifique no futuro.

O que é um mesocosmo marinho?

O mesocosmo marinho do Projeto Coral Vivo, patrocinado pela Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental, funciona como uma “máquina do tempo”. Resumidamente, ele é um sistema experimental projetado para simular os impactos futuros das mudanças climáticas e da poluição costeira, com uso de tanques e aquários que recebem um fluxo contínuo de água do mar diretamente de um recife de coral do Sul da Bahia. Ele foi projetado para manter as características físico-químicas da água do mar, e, assim, buscar resultados mais realistas. Ele é capaz de simular até três cenários futuros de aumento de temperatura ou de acidificação dos oceanos, de forma isolada ou combinados, de acordo com as previsões do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

Sobre o Projeto Coral Vivo

O Projeto Coral Vivo é patrocinado pela Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Ele faz parte da Rede Biomar, junto com os projetos Albatroz, Baleia Jubarte, Golfinho Rotador e Tamar. Todos patrocinados pela Petrobras, eles atuam de forma complementar na conservação da biodiversidade marinha do Brasil, trabalhando nas áreas de proteção e pesquisa das espécies e dos habitats relacionados. As ações do Coral Vivo são viabilizadas também pelo copatrocínio do Arraial d’Ajuda Eco Parque, e realizadas pela Associação Amigos do Museu Nacional (SAMN) e pelo Instituto Coral Vivo (ICV). Mais informações na página http://www.facebook.com/CoralVivo e no site http://www.coralvivo.org.br.

Colaboração de Tatyane Larrubia, in EcoDebate, 02/10/2015




Clima: A encíclica do Papa Francisco, ponto a ponto

Publicado originalmente em Observatório do Clima. Veja o link abaixo:

REDE DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL QUE ATUA EM MUDANÇAS CLIMÁTICAS E BUSCA ESTIMULAR POLÍTICAS PÚBLICAS EFETIVAS NO BRASIL.

http://www.observatoriodoclima.eco.br/a-enciclica-de-francisco-ponto-a-ponto#sthash.EYJaWHgQ.dpuf

A mensagem central da encíclica “Laudato Si” (“Louvado Sejas”), a primeira do papado de Francisco produzida integralmente por ele, é uma frase repetida três vezes ao longo de suas mais de 190 páginas: “tudo está conectado”. O ser humano não está dissociado da Terra ou da natureza, eles são partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o homem. E destruir o homem, para os católicos, é pecado. Da mesma forma, não é possível falar em proteção ambiental sem que esta envolva também a proteção ao ser humano, em especial os mais pobres e vulneráveis.

Esse raciocínio, que o papa chama de “ecologia integral”, permeia toda a construção da carta encíclica, tanto do ponto de vista da argumentação religiosa quanto das prescrições políticas – que Francisco faz num nível de detalhe assombroso, como quando critica a incapacidade das conferências internacionais de responder à crise climática, sugere uma saída gradual dos combustíveis fósseis e até mesmo propõe mudanças no modelo atual de licenciamento ambiental.

A crise climática, segundo o texto da encíclica, é uma das faces de uma mesma grande crise ética da humanidade. Esta é produzida pela ruptura das relações com Deus, com o próximo e com a terra, que o papa chama de as “três relações fundamentais da existência”. Os padrões insustentáveis de produção e consumo da sociedade global, impulsionados pela tecnociência fora de controle, levam à degradação das relações humanas e à degradação também da “nossa casa comum”, que é como Francisco chama o planeta.

Pouca coisa na agenda socioambiental parece ter escapado à análise de Sua Santidade: além do clima, Francisco pontifica sobre proteção dos oceanos, poluição da água, espécies ameaçadas, florestas e povos indígenas. Em relação a todos esses temas, as principais críticas recaem sobre os países ricos (a expressão “produção e consumo” aparece cinco vezes no texto), que são chamados a compensar os pobres pela degradação. Mas os países em desenvolvimento são também exortados a examinar o “superconsumo” de suas classes abastadas e a não repetir a história dos ricos durante seu desenvolvimento.

Em vários pontos da encíclica o papa entra “con gioia”, como dizem os italianos, em campos minados. Defende abertamente, por exemplo, uma ideia ainda maldita nos círculos econômicos, a de que as sociedades abastadas precisarão “decrescer” para que haja recursos para os pobres se desenvolverem.

Também compra uma briga histórica com a direita evangélica norte-americana ao sugerir que a noção de que o homem deve “sujeitar” a natureza é uma interpretação errada da Bíblia: jamais se supôs uma “sujeição selvagem”, diz, e sim um “cuidado”. A diferença é fundamental, já que os republicanos nos EUA frequentemente justificam a degradação ambiental citando as Escrituras, que colocam o homem numa posição se domínio sobre o ambiente. “Laudato Si” apresenta uma pequena revolução teológica ao colocar o homem como parte da natureza – uma parte especialmente criada por Deus, é verdade –, não como algo separado dela. Francisco amarra os evangélicos declarando, de saída, que a encíclica não é feita apenas para os católicos, mas para toda a humanidade, de todas as religiões, crentes e não-crentes.

A Carta Encíclica ‘Louvado Sejas’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Nossa Casa Comum, nome completo do documento, está dividida em seis capítulos e 246 parágrafos, seguidos de duas orações escritas pelo próprio papa (uma delas intitulada Oração pela Nossa Terra). No primeiro capítulo, o papa faz um apanhado geral sobre “o que está acontecendo com a nossa casa”, resumindo as aflições ambientais do mundo amparado na ciência. No segundo, “O Evangelho da Criação”, ele traça uma argumentação teológica sobre as ligações entre ser humano e natureza. No terceiro, aborda as raízes humanas da crise ecológica; no quarto, discorre sobre sua “Ecologia Integral”. No quinto, apresenta seu chamado à ação, inclusive política, no âmbito internacional, mas também no dos governos locais – fazendo eco ao princípio do “pense globalmente, aja localmente” consagrado na Eco-92. No sexto, trata de educação, cultura e “espiritualidade ecológica”.

Leia aqui

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.htm 

a íntegra do texto papal, em português;

aqui,

http://pt.radiovaticana.va/news/2015/06/18/laudato_si_um_guia_para_os_jornalistas/1152322

um guia de leitura para jornalistas feito pela Rádio Vaticana; abaixo, uma análise do OC de alguns dos principais pontos da encíclica, precedidos do respectivo número de parágrafo:


6 – Citando uma ideia de Bento XVI, faz crítica ao relativismo moral e à crença na liberdade sem limites como causa da degradação humana e ambiental:

“Mas, fundamentalmente, todas elas se ficam a dever ao mesmo mal, isto é, à ideia de que não existem verdades indiscutíveis a guiar a nossa vida, pelo que a liberdade humana não tem limites. Esquece-se que «o homem não é apenas uma liberdade que se cria por si própria. O homem não se cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza».”

7 e 8 – Lembra que outras religiões também têm pensado sobre o problema ambiental, fazendo referência especial ao patriarca ortodoxo, Bartolomeu.

23 – Aqui a encíclica dá sua primeira grande pincelada na questão climática, decretando, com base num “consenso científico muito consistente”, que a culpa pelo aquecimento da Terra é dos gases do efeito estufa emitido pelos seres humanos, como afirma o IPCC.

“Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacionar ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenómeno particular. A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam. É verdade que há outros factores (tais como o vulcanismo, as variações da órbita e do eixo terrestre, o ciclo solar), mas numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa (anidrido carbónico, metano, óxido de azoto, e outros) emitidos sobretudo por causa da atividade humana.”

25 – Aborda a questão dos impactos sobre os mais pobre e dos refugiados do clima, populações que não têm sequer o reconhecimento oficial de sua situação:

“A falta de reacções diante destes dramas dos nossos irmãos e irmãs é um sinal da perda do sentido de responsabilidade pelos nossos semelhantes, sobre o qual se funda toda a sociedade civil.”

26 – Aponta a urgência do desenvolvimento de energias limpas e renováveis e da redução “drástica” das emissões de gases do efeito estufa nos próximos anos, “por exemplo” substituindo os combustíveis fósseis por energias renováveis. Reconhece que ainda é preciso desenvolver tecnologias de acumulação de energia (baterias), mas aponta que existem “boas práticas” em vários setores, como construção civil, produção e transporte.

27 – Faz mais um aceno à ciência ao afirmar que “já foram superados alguns limites máximos de exploração do planeta”. A tese dos limites planetários foi proposta em 2009, por um grupo de pesquisadores liderados pelo sueco Johann Eckström. Segundo o grupo, há nove limites que não devem ser ultrapassados para o funcionamento da biosfera, e a humanidade já ultrapassou dois: o efeito estufa e o balanço de nitrogênio e fósforo.

32 – Inicia o capítulo sobre perda da biodiversidade falando de florestas e de como não temos o direito de causar a extinção de outras espécies. O argumento de fundo teológico, também inovador, é que outras espécies não devem se colocar em subordinação à espécie humana para sua livre exploração; todas têm um valor intrínseco e, se extintas, “já não darão glória a Deus”. Mais adiante (parágrafo 138), o papa chega mesmo a dizer que boa parte do nosso código genético é compartilhada com outras espécies – irritação garantida para os fundamentalistas cristãos.

33 – Alerta contra as extinções em massa de espécies, que são vistas como “recursos” e não em seu valor inerente.

“Anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre.”

37 – Sem usar o termo, alude aos hotspots de biodiversidade, locais altamente biodiversos e especialmente ameaçados.

38 – Fala da Amazônia e do Congo, chamando-os (equivocadamente) de os “pulmões do mundo”. Num aceno aos bispos latino-americanos, entre os quais esse discurso é ainda forte, alerta contra propostas de internacionalização da Amazônia “que servem unicamente aos interesses econômicos das multinacionais”.

49 – Num subcapítulo sobre desigualdade planetária, delineia um elemento importante da “ecologia integral”, ao dizer que é preciso escutar tanto o grito da terra quanto o dos excluídos; estes não são ouvidos por ficarem frequentemente longe dos centros de poder e das vistas dos profissionais liberais e dos meios de comunicação; um isolamento social favorecido pela fragmentação das cidades, que “por vezes convive com um discurso verde”, mas:

“uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.”

50 – Trata de um debate frequente entre países desenvolvidos e em desenvolvimento: de quem é a culpa pela degradação ambiental, do consumo insustentável (opinião dos países pobres) ou da superpopulação (opinião dos países ricos). Francisco resolve:

“Culpar o incremento demográfico em vez do consumismo exacerbado e selectivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas.”

No entanto, não deixa de reconhecer os tons de cinza da questão:

“Em todo o caso, é verdade que devemos prestar atenção ao desequilíbrio na distribuição da população pelo território.”

51 – Aponta a dívida ambiental dos ricos para com os pobres, tema ao qual voltará adiante, quando falar de soluções políticas.

54 – Critica a “falência” das cúpulas ambientais, causada pela submissão da política à tecnologia e às finanças. Num trecho muito contundente, proclama o destino comum desses encontros:

“Deste modo, poder-se-á esperar apenas algumas proclamações superficiais, acções filantrópicas isoladas e ainda esforços por mostrar sensibilidade para com o meio ambiente, enquanto, na realidade, qualquer tentativa das organizações sociais para alterar as coisas será vista como um distúrbio provocado por sonhadores românticos ou como um obstáculo a superar.”

55 – Mesmo a consciência ecológica cada vez maior não basta para modificar hábitos nocivos de consumo. Aqui o papa faz uma pequena e insólita cruzada contra… os aparelhos de ar-condicionado, cuja demanda tem crescido no mundo todo.

57 – Este parágrafo aborda o meio ambiente como questão de segurança internacional.

“É previsível que, perante o esgotamento de alguns recursos, se vá criando um cenário favorável para novas guerras, disfarçadas sob nobres reivindicações.”

59 – Critica uma “ecologia superficial” e a negação do problema para manter nosso estilo de vida e nossos modos de produção e consumo.

62 – Justifica a inserção de um capítulo sobre fé numa encíclica dirigida a todas as pessoas, crentes ou não, propondo um diálogo entre ciência e religião, “intenso e produtivo para ambas”.

66 e 67 – Nesses dois parágrafos, o bispo de Roma desenvolve uma argumentação teológica profunda, com base na interpretação do Gênesis, para sugerir que poluir é pecado. Este é um dos pontos centrais da encíclica, já que a função desse tipo de documento é de jurisprudência, de atualizar a doutrina católica e servir como um manual de conduta para o rebanho e de orientação para os padres. Ao reinterpretar a determinação bíblica de “sujeitar a terra”, o papa retira um dos principais argumentos cristãos para a degradação ambiental.

“(…) a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: as relações com Deus, com o próximo e com a terra. Segundo a Bíblia, estas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado. A harmonia entre o Criador, a humanidade e toda a criação foi destruída por termos pretendido ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas. Este facto distorceu também a natureza do mandato de «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28) e de a «cultivar e guardar» (cf. Gn 2, 15). Como resultado, a relação originariamente harmoniosa entre o ser humano e a natureza transformou-se num conflito (cf. Gn 3, 17-19).”

“Não somos Deus. A terra existe antes de nós e foi-nos dada. Isto permite responder a uma acusação lançada contra o pensamento judaico-cristão: foi dito que a narração do Génesis, que convida a «dominar» a terra (cf. Gn 1, 28), favoreceria a exploração selvagem da natureza, apresentando uma imagem do ser humano como dominador e devastador. Mas esta não é uma interpretação correcta da Bíblia, como a entende a Igreja. Se é verdade que nós, cristãos, algumas vezes interpretámos de forma incorrecta as Escrituras, hoje devemos decididamente rejeitar que, do facto de ser criados à imagem de Deus e do mandato de dominar a terra, se deduza um domínio absoluto sobre as outras criaturas.”

105 – Retoma e desenvolve o tema do homem sem limites, empoderado pela tecnociência e carente de responsabilidade – um enredo constante na narrativa da Igreja desde a Revolução Industrial.

“A verdade é que «o homem moderno não foi educado para o recto uso do poder»,[84] porque o imenso crescimento tecnológico não foi acompanhado por um desenvolvimento do ser humano quanto à responsabilidade, aos valores, à consciência. Cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites.”

106 – Entrando em argumentos econômicos para explicar a crise social e ambiental, o papa adverte contra o paradigma tecnocrático alimentando o mito do crescimento infinito:

“Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a mão, tornando-se contendentes. Daqui passa-se facilmente à ideia dum crescimento infinito ou ilimitado, que tanto entusiasmou os economistas, os teóricos da finança e da tecnologia. Isto supõe a mentira da disponibilidade infinita dos bens do planeta, que leva a «espremê-lo» até ao limite e para além do mesmo. Trata-se do falso pressuposto de que «existe uma quantidade ilimitada de energia e de recursos a serem utilizados, que a sua regeneração é possível de imediato e que os efeitos negativos das manipulações da ordem natural podem ser facilmente absorvidos».”

107 a 110 – Crítica ao paradigma tecnocientífico globalizante massificante.

111 – Alerta (mais um, há vários na encíclica) contra a tentativa de resolver problemas ambientais com saídas tecnológicas, as chamadas “soluções tecnológicas”. Para o papa, isso significa “isolar coisas que na realidade estão conectadas e esconder os problemas mais profundos”.

132/134 – Nesses parágrafos o papa aborda uma questão científica recente, jamais tratada nesse nível de profundidade pela doutrina da Igreja: os organismos geneticamente modificados. A conclusão da encíclica é surpreendentemente equilibrada, apontando que não há evidências de prejuízos à saúde pelos OGM, mas pedindo exame caso a caso e a garantia de que as sementes transgênicas não provoquem o aumento da concentração fundiária e da pobreza rural.

146 – O parágrafo é dedicado aos povos indígenas, segundo o papa os melhores guardiões da terra. Cabe como uma luva na situação do Brasil, onde se vê conflito entre comunidades indígenas e a expansão do agronegócio, e pode ter sido inspirado por D. Erwin Krautler, bispo do Xingu, ou outros bispos latino-americanos.

“(…)é indispensável prestar uma atenção especial às comunidades aborígenes com as suas tradições culturais. Não são apenas uma minoria entre outras, mas devem tornar-se os principais interlocutores, especialmente quando se avança com grandes projectos que afectam os seus espaços. (…) Eles, quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuida. Em várias partes do mundo, porém, são objecto de pressões para que abandonem suas terras e as deixem livres para projectos extractivos e agro-pecuários que não prestam atenção à degradação da natureza e da cultura.”

147/155 – Um extenso trecho da encíclica trata do meio ambiente urbano e da qualidade de vida nas cidades, tema cada vez mais essencial na medida em que cresce a população urbana.

159/160 – Chamado à justiça com as futuras gerações, que daria sentido à própria vida humana:

“Somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder. Trata-se de um drama para nós mesmos, porque isto chama em causa o significado da nossa passagem por esta terra.”

164 – Chama atenção para necessidade de consenso político global sobre uma série de temas:

“Torna-se indispensável um consenso mundial que leve, por exemplo, a programar uma agricultura sustentável e diversificada, desenvolver formas de energia renováveis e pouco poluidoras, fomentar uma maior eficiência energética, promover uma gestão mais adequada dos recursos florestais e marinhos, garantir a todos o acesso à água potável.”

165 – Aqui o papa deixa por um momento sua linha “sonhática” e faz uma concessão ao pragmatismo, admitindo que é preciso haver “soluções transitórias” na transição entre os combustíveis fósseis e as energias renováveis. Ele não diz o nome do santo que causaria esse “mal menor”, mas o gás natural e a energia nuclear (pela qual Francisco declara antipatia) costumam ser invocados quando os politicos falam em “soluções transitórias”. Não chega a ser uma defesa do gás, mas é um ponto importante da carta.

“Sabemos que a tecnologia baseada nos combustíveis fósseis – altamente poluentes, sobretudo o carvão mas também o petróleo e, em menor medida, o gás – deve ser, progressivamente e sem demora, substituída. Enquanto aguardamos por um amplo desenvolvimento das energias renováveis, que já deveria ter começado, é legítimo optar pelo mal menor ou recorrer a soluções transitórias. Todavia, na comunidade internacional, não se consegue suficiente acordo sobre a responsabilidade de quem deve suportar os maiores custos da transição energética.”

166 – Critica mais uma vez a falta de ação vista nas conferências ambientais.

167 – Reclama que os compromissos assinados em 1992 no Rio de Janeiro não produziram muito efeito porque não têm dentes: falta monitoramento, verificação e punição a quem descumprir compromissos. Mas defende os princípios do Rio, como o do poluidor-pagador, como “vias eficazes e ágeis de realização prática”.

169 – Francisco aqui faz uma declaração bem contundente sobre o fiasco das negociações de desertificação, biodiversidade e clima, e critica o resultado da Rio +20. Culpa os países ricos e conclui dizendo que a solução é rezar por bom termo dessas cúpulas:

“Nós, crentes, não podemos deixar de rezar a Deus pela evolução positiva nos debates actuais, para que as gerações futuras não sofram as consequências de demoras imprudentes.”

170 – Defende o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, e alerta contra a “internacionalização dos custos ambientais”.

171 – Alerta contra os mercados de carbono como uma panaceia: podem levar os países a nunca mudarem seus padrões de “super-consumo”.

172 – Põe uma lupa sobre os países pobres e compartilha a posição deles nas negociações internacionais, mas não sem chamá-los à responsabilidade: devem priorizar o combate à pobreza e receber subsídios dos ricos para desenvolver energia renovável, mas ao mesmo tempo fazer um exame do nível de consumo “escandaloso” de alguns setores privilegiados da população.

“Para os países pobres, as prioridades devem ser a erradicação da miséria e o desenvolvimento social dos seus habitantes; ao mesmo tempo devem examinar o nível escandaloso de consumo de alguns sectores privilegiados da sua população e contrastar melhor a corrupção. Sem dúvida, devem também desenvolver formas menos poluentes de produção de energia, mas para isso precisam de contar com a ajuda dos países que cresceram muito à custa da actual poluição do planeta. O aproveitamento directo da energia solar, tão abundante, exige que se estabeleçam mecanismos e subsídios tais, que os países em vias de desenvolvimento possam ter acesso à transferência de tecnologias, assistência técnica e recursos financeiros, mas sempre prestando atenção às condições concretas”

175 – Foca a questão da governança ambiental:

“A lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a mesma que não permite cumprir o objectivo de erradicar a pobreza. Precisamos duma reacção global mais responsável, que implique enfrentar, contemporaneamente, a redução da poluição e o desenvolvimento dos países e regiões pobres. O século XXI, mantendo um sistema de governança próprio de épocas passadas, assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão económico-financeira, de carácter transnacional, tende a prevalecer sobre a política. Neste contexto, torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas.”

178 – Esclarece por que os políticos não se interessam em enfrentar o desafio ambiental:

“O drama duma política focalizada nos resultados imediatos, apoiada também por populações consumistas, torna necessário produzir crescimento a curto prazo. Respondendo a interesses eleitorais, os governos não se aventuram facilmente a irritar a população com medidas que possam afectar o nível de consumo ou pôr em risco investimentos estrangeiros.”

179 – Ressalta a importância dos governos e das iniciativas locais.

180 – Mais uma vez fala de transição gradual para uma nova realidade energética. Reconhece que não é possível resolver o problema de uma vez, mas arrisca que poupar energia faz parte das soluções para a crise do clima:

“Não se pode pensar em receitas uniformes, porque há problemas e limites específicos de cada país ou região. Também é verdade que o realismo político pode exigir medidas e tecnologias de transição, desde que estejam acompanhadas pelo projecto e a aceitação de compromissos graduais vinculativos. Ao mesmo tempo, porém, a nível nacional e local, há sempre muito que fazer, como, por exemplo, promover formas de poupança energética.”

183 a 185 – Em outro trecho longo, o papa pontifica até mesmo sobre as falhas atuais dos processos de licenciamento ambiental.

186 – Defende o princípio da precaução.

189 a 192 – Começa falando da bolha financeira da crise de 2008, lamenta que tenhamos deixado passar a oportunidade de corrigir a economia. Depois, critica a externalização dos custos ambientais e a fé em que as forças de mercado darão um jeito no ambiente. E propõe uma nova economia, que ponha para trabalhar a criatividade em favor de menos desperdício e menos impacto.

193 – Em outro trecho contundente e muito importante da encíclica, usa a expressão “decrescimento”, excomungada da maioria dos círculos econômicos:

“Chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo nalgumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes.”

216 – Retomando a argumentação religiosa, desta vez mais especificamente voltada ao seu rebanho, detalha a ideia de “conversão ecológica”.

217 – Diz que a preocupação com o ambiente é um imperativo moral para os crentes, não algo opcional ou secundário. Este é o coração da mensagem da encíclica para os católicos:

“(…) a crise ecológica é um apelo a uma profunda conversão interior. Entretanto temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente. (…) Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa.”

223 – Dá um recado aos cristãos: se fossem mais cristãos, não precisariam consumir tanto. Menos é mais:

“A sobriedade, vivida livre e conscientemente, é libertadora. Não se trata de menos vida, nem vida de baixa intensidade; é precisamente o contrário.”

Cine debate com a exibição do filme “A lei da água” – Fundação Casa de Rui Barbosa – 10 de junho – 14 hs – entrada franca

Cine debate com a exibição do filme “A lei da água”

Clique na foto para ampliarA Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) realiza, no dia 10 de junho, um cine debate com a exibição do filme “A lei da água”, documentário que aborda o novo Código Florestal, a crise hídrica e a preservação das florestas no Brasil.Ao final da projeção, ocorrerá uma mesa de discussões com a presença de Katiane Silva, doutora em Antropologia Social, Mariana M. Vale (Instituto de Biologia/UFRJ), Samuel Braun, militante ecologista, Marco Tobón, (Antropologia/Unicamp) e Edgardo Brigatti (Instituto de Física/UFRJ). O evento acontece na sala de cursos da FCRB a partir das 14 horas, a entrada é gratuita.

:: Sobre o documentário:
O filme mostra a importância das florestas para a conservação dos recursos hídricos no Brasil e problematiza o impacto do novo Código Florestal, aprovado pelo no Congresso em 2012, nesse ecossistema e na vida dos brasileiros. A qualidade e a quantidade de água que temos disponível estão diretamente relacionadas à legislação ambiental: um conjunto de normas que define, entre outros pontos, quais áreas de uma propriedade rural devem ser mantidas com a vegetação nativa, cultivadas ou restauradas.

As opiniões diversas e os exemplos práticos reforçam o tema central do documentário: a relação delicada entre a preservação das florestas, a produção de alimentos e a saúde dos nossos recursos hídricos. O filme dá voz a agricultores e especialistas, apresenta técnicas agrícolas sustentáveis bem sucedidas e casos onde a degradação ambiental exacerbada impede a continuidade de qualquer tipo de cultivo ou criação de animais.

Conta ainda com a colaboração de cientistas e parlamentares que apoiam a Ação Direta de Inconstitucionalidade do novo Código Florestal no Supremo Tribunal Federal, e assume um compromisso com a sociedade brasileira ao mostrar como a lei ambiental afeta a vida de cada cidadão.

:: Ficha técnica “A lei da água”:
documentário, Brasil, 2014, 78′
Produção: Cinedelia, em coprodução com O2 Filmes
Direção: André D’Elia
https://aleidaaguafilme.wordpress.com

Especismo, Ecocídio e a degradação da Grande Barreira de Corais, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

[EcoDebate] A Grande Barreira de Coral é considerada a maior estrutura do mundo feita unicamente por organismos vivos. Trata-se de uma imensa faixa de corais composta por cerca de 1900 recifes, 60 ilhas e 100 atóis de coral, situada entre as praias do nordeste da Austrália e Papua-Nova Guiné, que possui 2.900 quilômetros de comprimento, com largura variando de 30 km a 740 km.

As estruturas dos recifes são compostas por bilhões de minúsculos organismos, conhecidos como pólipos de coral. A Grande Barreira engloba uma enorme biodiversidade e foi eleita um dos patrimônios mundiais da Humanidade. O Conselho Nacional de Queensland também a nomeou como um dos símbolos estaduais do estado australiano de Queensland. Uma grande parte dos recifes são protegidos pelo Parque Marinho de Grande Barreira de Corais, que ajuda a limitar os impactos das atividades antrópicas (Wikipedia, 2015).

Infelizmente, todo este importante patrimônio natural está ameaçado pelo aquecimento global, a acidificação dos oceanos e os episódios meteorológicos extremos, como ciclones e inundações, que aceleraram a degradação da Grande Barreira de Coral. Reportagem do site G1 mostra que os cientistas australianos demonstraram ceticismo quanto ao plano do governo do país para salvar a Grande Barreira de Corais. As alterações climáticas acompanhadas do embranquecimento maciço dos corais e surtos na população de estrelas-do mar e coroa-de-espinhos, que se alimentam dos corais.

Segundo a WWF, no relatório Planeta Vivo 2014, o estado atual da biodiversidade do planeta está pior do que nunca. O Índice do Planeta Vivo (LPI, sigla em Inglês), que mede as tendências de milhares de populações de vertebrados, diminuiu 52% entre 1970 e 2010. Em outras palavras, a quantidade de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes em todo o planeta é, em média, a metade do que era 40 anos atrás. Esta redução é muito maior do que a que foi divulgada em relatórios anteriores em função de uma nova metodologia que visa obter uma amostra mais representativa da biodiversidade global.

Ainda segundo a WWF, a biodiversidade está diminuindo em regiões temperadas e tropicais, mas a redução é maior nos trópicos. Entre 1970 e 2010, o LPI temperado diminuiu 36% em 6.569 populações das 1.606 espécies em regiões temperadas, ao passo que o LPI tropical diminuiu 56% em 3.811 populações das 1.638 espécies em regiões tropicais durante o mesmo período. A redução mais dramática aconteceu na América Latina – uma queda de 83%. As principais causas destas reduções são a perda de habitats e a degradação e exploração decorrente de caça e pesca. As mudanças climáticas são a segunda ameaça primária mais significativa e é provável que exercerão mais pressão sobre as populações no futuro.

índice do planeta vivo

Por tudo isto, se denomina Ecocídio o crime que acontece contra as espécies animais e vegetais do Planeta. Esse crime se espalha no mundo em uma escala maciça e a cada dia fica pior. Exatamente por isto, cresce a consciência de que é preciso mudar o modelo de desenvolvimento que adota um padrão de produção e consumo danoso para o meio ambiente e que é responsável pelo aumento da destruição da vida na Terra. Para tanto, é preciso considerar o Ecocídio um crime contra a paz, um crime contra a natureza e um crime contra a humanidade e as futuras gerações.

O site “Eradicating Ecocide” considera ser necessário a aprovação de uma lei internacional contra o Ecocídio para fazer com que os dirigentes de empresas e os chefes de Estado sejam legalmente responsáveis por proteger a Terra e as espécies não humanas. O Planeta teria que se tornar a prioridade número um da legislação nacional e internacional. O mundo já definiu o Genocídio como um crime, falta fazer o mesmo em relação ao Ecocídio. Não há direitos humanos no longo prazo sem o respeito aos direitos da natureza. Acabar com o ecocídio é também uma forma de evitar o suicídio.

O crime do especismo está longe de ser uma discussão mais profunda, como já ocorreu com o racismo, o sexismo, o classismo, o homofobismo, escravismo, etc. Recentemente foi criado um site para incentivar a mobilização contra a discriminação das espécies, definindo o dia 22 de agosto de 2015, como o “Dia mundial contra o Especismo”.

A humanidade ocupa cada vez mais espaço no Planeta e tem prejudicado de forma danosa todas as formas de vida ecossistêmicas da Terra. O ser humano está reincidindo cotidianamente nos crimes do especismo e do ecocídio. Se a dinâmica demográfica e econômica continuar sufocando a dinâmica biológica e ecológica a civilização caminhará para o abismo e o suicídio. Porém, antes de o antropoceno provocar uma extinção em massa da vida na Terra é preciso uma ação radical no sentido conter a ganância egoística, garantir a saúde do meio ambiente e a livre evolução da biodiversidade.

Referências:

WWF. Planeta Vivo, relatório 2014, Switzerland, 30/09/2014
http://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/especiais/relatorio_planeta_vivo/
http://wwf.panda.org/about_our_earth/all_publications/living_planet_report/

G1. Cientistas australianos criticam plano para salvar a grande barreira de corais, 28/10/2014 http://g1.globo.com/natureza/noticia/2014/10/cientistas-australianos-criticam-plano-para-salvar-grande-barreira-de-corais.html

Dia mundial (22/08) contra o Especismo: http://end-of-speciesism.org/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 15/05/2015

BANCADA RURALISTA AMEAÇA DIREITO DOS CONSUMIDORES

Sustentabilidade e Democracia

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Autor: Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.

A irresponsabilidade do arranjo conservador formado no Congresso Nacional parece sem limites, sem nenhuma preocupação com a estabilidade democrática ou com os direitos fundamentais dos cidadãos e cidadãs. Todos os dias somos bombardeados por alguma ação absurda nos nobres Parlamentares na defesa dos interesses do poder econômico e em detrimento da maioria da população.

A chegada de Eduardo Cunha ao comando da Câmara abriu as porteiras para um passeio de preconceitos e ressentimentos sociais, além de interesses de grupos econômicos, por meio de projetos de Lei absurdos, e por uma onda Golpista que ultrapassa o ataque ao Governo, elegendo os eleitores, de forma indiscriminada, como alvos.

A nova obra irresponsável da Câmara foi a aprovação de Projeto de Lei nº 4048/2088, de autoria do Deputado Luiz Carlos Heinze (PP/RS), um dos vários membros do Partido Progressista na Operação…

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Crise hídrica: alternativas e soluções

Publicado originalmente em EcoDebate. Clique no link para leitura de interessante material onde são apresentadas alternativas e soluções para o problema da água no Brasil.

EcoDebate

Nesta sexta-feira, 24 de abril, o Ministério Público Federal (MPF) publica a versão consolidada da “Carta de São Paulo sobre Gestão Hídrica em Situação de Escassez“, com as conclusões, propostas e recomendações discutidas durante o seminário “Crise Hídrica: alternativas e soluções”, realizado nos dias 25 e 26 de fevereiro na sede da Procuradoria Regional da República da 3ª Região (PRR3).

O evento foi uma iniciativa da PRR3, da Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, da Escola Superior do Ministério Público da União e da Escola Superior do Ministério Público do Estado de São Paulo, e contou ainda com o apoio da Defensoria Pública da União e da Associação Nacional dos Procuradores da República.

O documento aponta para o enfrentamento de problemas que resultaram na crise que, segundo os especialistas que participaram do seminário, não é pontual, mas crônica e deve ser superada com medidas estruturais de médio e longo prazo, e não apenas com soluções emergenciais. Também aponta para as responsabilidades de todos os segmentos da sociedade, principalmente dos gestores dos recursos hídricos, para a superação do colapso hídrico.

No tocante à política de gerenciamento hídrico, a carta aponta a necessidade de tornar efetivo o Plano Nacional de Recursos Hídricos, visando à sustentabilidade hídrica, em colaboração com planos regionais e planos específicos das bacias hidrográficas brasileiras. O documento ainda recomenda priorizar a utilização da água para consumo humano, assistir prioritariamente às comunidades tradicionais e ribeirinhas, extremamente vulneráveis à degradação ambiental, e diminuir perdas hídricas na rede de abastecimento.

Outro ponto importante salientado no documento é a necessidade de se garantir acesso facilitado a informações claras e transparentes, com a divulgação de dados atualizados, com vistas ao controle social sobre as políticas de recursos hídricos. A falta de transparência dos diversos órgãos públicos em relação ao enfrentamento da crise hídrica foi uma questão bastante discutida durante o seminário. Num dos painéis, representante da organização internacional Artigo 19 apresentou um estudo realizado no final do ano passado sobre o nível de transparência sobre a crise da água em 11 sites de órgãos gestores, apontando baixo desempenho de quase todos eles, inclusive o MPF.

A procuradora regional da República Sandra Akemi Shimada Kishi, que foi uma das organizadoras do evento e é coordenadora do “Projeto Qualidade da Água” do MPF, está preocupada em mudar essa realidade. Segundo ela, “o acesso à informação hídrica completa, atual e veraz deve ser facilitada como um direito fundamental, garantindo a participação e o controle social na gestão hídrica e na implementação do saneamento básico, destacando-se que o acesso à água potável é um direito humano fundamental”.

A carta traz ainda recomendações emergenciais para a gestão da atual crise hídrica na Região Sudeste. A primeira delas é a priorização de assistência a comunidades menos favorecidas frente à possibilidade de desabastecimento. Também foi proposta a instalação de uma Força Tarefa em São Paulo para gestão de crise em âmbito estadual, com a participação de municípios e da sociedade, e a implementação de Áreas de Proteção e Recuperação de Mananciais em áreas críticas do ponto de vista da disponibilidade e qualidade hídrica.

Informações da Procuradoria Regional da República da 3ª Região, publicadas no Portal EcoDebate, 28/04/2015

A lei da água: documentário (trailer)

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Sinopse
A LEI DA ÁGUA é um documentário brasileiro que explica a relação entre o novo Código Florestal e a crise hídrica brasileira.

Trailer: http://bit.ly/aleidaaguatrailer

O filme mostra a importância das florestas para a conservação dos recursos hídricos no Brasil, e problematiza o impacto do novo Código Florestal, aprovado pelo no Congresso em 2012, nesse ecossistema e na vida dos brasileiros.

A qualidade e a quantidade de água que temos disponível está diretamente relacionada à legislação ambiental, um conjunto de normas que define, entre outros pontos, quais áreas de uma propriedade rural devem ser mantidas com a vegetação nativa, cultivadas ou restauradas.

As opiniões diversas e os exemplos práticos reforçam o tema central do documentário: a relação delicada entre a preservação das florestas, a produção de alimentos e a saúde dos nossos recursos hídricos.

As florestas são importantes não somente para a preservação da água e do solo, mas também para a produção de alimentos que necessitam a ação de polinizadores, tais como o café, o milho e a soja – produtos fundamentais para o agronegócio brasileiro.

O filme dá voz a agricultores e especialistas, apresenta técnicas agrícolas sustentáveis bem sucedidas e casos onde a degradação ambiental exacerbada impede a continuidade de qualquer tipo de cultivo ou criação de animais.

Conta ainda com a colaboração de cientistas e parlamentares que apoiam a Ação Direta de Inconstitucionalidade do novo Código Florestal no Supremo Tribunal Federal, e assume um compromisso com a sociedade brasileira ao mostrar como a lei ambiental afeta a vida de cada cidadão.

Entre os entrevistados, Raul Silva Telles do Valle, advogado e ambientalista do Instituto Socioambiental; Antônio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa); Blairo Maggi, senador e empresário; Ivan Valente, deputado; Mário Mantovani, diretor de mobilização da Fundação SOS Mata Atlântica; Omar Bitar, geólogo; José Sarney Filho, advogado e político; Alceo Magnanini, engenheiro agrônomo e consultor ambiental.

FICHA TÉCNICA

A LEI DA ÁGUA

documentário, Brasil, 2014, 78′
Produção: Cinedelia, em coprodução com O2 Filmes

Distribuição: O2 Play

Direção: André D’Elia

Uma parceria:

Instituto Socioambiental – ISA
WWF-Brasil
Fundação SOS Mata Atlântica
Associação Bem-Te-Vi Diversidade
Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS)

Mobilização social e circuito alternativo de exibição: Taturana Mobilização Social

Deserto verde e Defaunação

“A floresta precede os povos e o deserto os segue”

(Chateaubriand)

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[EcoDebate] O Brasil já destruiu 93% da Mata Atlântica, mais de 50% do Cerrado e mais de 20% da Amazônia. A degradação não poupou outros biomas, tais como a Mata de Cocais, os Mangues, a Caatinga, a Mata de Araucária, os Pampas e o Pantanal. Assim, o Brasil que não pensa em restaurar a sua rica biodiversidade original, tem muita terra, roubada das florestas, à disposição da agricultura, do reflorestamento e da pecuária.

Ao invés do replantio de espécies nativas, a “indústria” do reflorestamento buscou espécies florestais exóticas, como o Pinus e o Eucalyptus, que se adaptaram bem no Brasil, possibilitando produtividade, no mínimo, dez vezes maior que as de muitos países de clima temperado. O rápido crescimento das plantações de Pinus e Eucalipto ocorre devido às condições favoráveis de clima, solo, extensão territorial, mão de obra, infraestrutura e capacidade gerencial produtiva das empresas que focam o lucro e não a recuperação dos ecossistemas.

As monoculturas voltadas para o lucro não contribuem para a recuperação da biodiversidade. A expressão “deserto verde” surgiu para denominar as plantações de só um tipo de árvores, como nas grandes extensões de terra destinadas para a produção de celulose, madeira ou carvão vegetal. As consequências deste tipo de plantação para o meio ambiente são: desertificação, erosão e redução de biodiversidade.

Deserto verde, por exemplo, é quando uma floresta tem cheiro de sauna e nenhuma fauna. Em geral, as grandes plantações de Pinus e Eucalipto envenenam o solo, eliminam a biodiversidade animal, a flora do local, secam as nascentes, sugam o lençol freático e reforçam a concentração fundiária.

A desastrosa combinação entre eucalipto, monocultura e agrotóxicos afeta também a saúde das pessoas que produzem alimentos em regiões próximas, pois suas terras são invadidas por animais silvestres, sem alternativa, na busca de alimentos. Os animais selvagens são vítimas da falta do habitat, da falta de corredores ecológicos e da falta de compaixão dos produtores que não admitem a “invasão” de suas terras privadas e a perda de alguns de seus animais domesticados.

Para a produção de Etanol e biocombustíveis, avança a monocultura de cana-de-açúcar, que expulsa animais, destrói ambientais e literalmente calcina os que não conseguem escapar das línguas de fogo em locais onde o corte da produção ainda é feito com fogo, como nos primeiros tempos da escravidão.

A maior parte dos ecossistemas brasileiros foi destruída e não existem corredores verdes para unir o pouco que restou dos diversos biomas. A fauna também foi destruída ou ficou ilhada em pequenas porções. A perda da fauna é definida como “defaunação”, o que está levando a uma extinção em massa de animais de pequeno, médio e todos os portes.

Este processo é global como fica claro nos estudos publicados em julho de 2014 na Revista Science que mostram taxas alarmantes de ecocídio. Segundo a Revista, o ser humano está provocando, em um curto espaço de tempo, a sexta extinção em massa no planeta. Isto acontece em função dos impactos da perda de vida devido ao empobrecimento da cobertura vegetal, à falta de polinizadores, ao aumento de doenças, à erosão do solo, aos impactos na qualidade da água, etc. Ou seja, os efeitos são sistêmicos e um dos artigos da revista Science chama este processo de “Defaunação no Antropoceno”, que ocorre devido ao aprofundamento da discriminação contra as espécies não humanas.

O crime do especismo está longe de ser objeto de uma discussão mais profunda, como já ocorreu com o racismo, o sexismo, o classismo, o homofobismo, escravismo, etc. Recentemente foi criado um site para incentivar a mobilização contra a discriminação das espécies, definindo o dia 22 de agosto de 2015, como o “Dia mundial contra o Especismo”.

O deserto verde e a defaunação afetam a vida humana e não-humana. Por exemplo, insetos, incluindo as abelhas, que polinizaram 75% da produção agrícola mundial, sofrem ameaça em escala global, com o uso generalizado de agrotóxicos. Da mesma forma, estão ameaçados morcegos e aves que controlam pragas agrícolas que, de outra forma, seriam devastadoras.

O declínio da população de anfíbios – como sapos e pererecas – aumenta a concentração de algas e outros detritos, o que compromete a qualidade dos recursos hídricos. Animais vertebrados e invertebrados desempenham papel estratégico na decomposição orgânica e ciclagem de nutrientes no ambiente. Desta forma, a defaunação afeta a saúde humana de diferentes maneiras, desde a desnutrição ao controle de doenças.

Em dezembro de 2014, o Ministério do Meio Ambiente apresentou estudo que mostra que o número de animais ameaçados de extinção no Brasil aumentou 75% entre 2003 e 2014. A nova lista nacional de espécies ameaçadas tem 395 novas espécies, a maior parte de invertebrados terrestres. Além disto existem inúmeras espécies ameaçadas que, por serem desconhecidas dos registros humanos, simplesmente não entraram nas listas de extinção.

O crescimento das atividades antrópicas no Brasil tem prejudicado de forma danosa todas as formas de vida ecossistêmicas dos biomas nacionais. Os brasileiros estão reincidindo cotidianamente nos crimes do especismo e do ecocídio. Se a dinâmica demográfica e econômica continuar sufocando a dinâmica biológica e ecológica, o Brasil destruirá a maior área de biocapacidade do Planeta a contribuir de maneira decisiva para o abismo civilizacional e ecológico, gerando um suicídio global.

Campanhas/redes:

Dia mundial contra o Especismo: http://end-of-speciesism.org/

End Ecodide on Earth https://www.endecocide.org/en/

End Ecocide: A Global Citizens’ Initiative to Protect Ecosystems
https://www.endecocide.org/wp-content/uploads/2014/09/EEE_booklet.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 18/03/2015

Desertificação: o planeta perde solos férteis aceleradamente

Desertificação: ‘por que este assunto não está na capa dos jornais?’

Publicado originalmente em Carta Maior. Publicado em Outras Mídias.

Najar Tubino, em Carta Maior

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           ONU adverte: embora precise elevar produção de alimentos, planeta perde solos férteis     aceleradamente. Fenômeno está relacionado a agronegócio e desmascara sua suposta “eficiência”

Por Najar Tubino, em Carta Maior

É uma decisão da ONU, que desde 2013 também definiu o dia 5 de dezembro como o dia mundial do solo. Em maio, entre os dias 4 e 7, ocorrerá, na Albânia, a Conferência Internacional do Solo, com o lema: “O solo sustenta a vida: muito lento para formar, rápido demais para perder”. Um centímetro de solo demora entre 100 e 400 anos para se formar, e os pesquisadores calculam que um solo produtivo dentro da normalidade leve de três mil a 12 mil anos para a sua formação. Mesmo assim, a ONU calcula que até 2050 o mundo perderá um Brasil inteiro em solo, ou seja, 849 milhões de hectares. São 12 milhões de hectares por ano. O que é mais importante: somente 5 a 10% dessa terra chegam ao mar. Onde fica o restante? No leito dos rios, no lago das represas, tanto de abastecimento de água, como das hidrelétricas, nos córregos, nos afluentes. Como dizem os chineses: os rios do planeta estão empanturrados.

O secretário executivo da Convenção das Nações Unidas contra a desertificação, o africano Luc Gnacadja, do Benin, pergunta: por que este assunto não está na capa dos jornais? Simples, porque a mídia tradicional não trata de assuntos importantes realmente, a não ser com um viés conservador, sempre a favor do mercado. Tratar do solo, portanto, poderá desmascarar a eficiência do agronegócio, cuja receita de monoculturas é a mesma no mundo. Mas aí temos as previsões para o aumento da população e as necessidades de alimentação, o que reforça a prática destrutiva do modelo industrial de produção de alimentos. Temos que crescer 50% até 2050, dizem eles. Isso significa algo como 175 a 200 milhões de novos hectares.

A degradação avança em todo o mundo

A matemática é simples: se nada for feito para deter a erosão e o desmatamento, os dois principais fatores da degradação dos solos, em 20 anos teremos perdidos mais 240 milhões de hectares, calculando 12 milhões ao ano, como faz a ONU. Em 1991, 15% das terras cultiváveis do planeta estão se degradando, agora são 24%. Eram 110 países que sofriam com o problema da erosão e com o aumento da desertificação, agora são 168.

“Veja o caso da África”, cita o secretário da Convenção contra a Desertificação, que é o continente mais vulnerável à seca e à degradação dos solos. A situação atual aponta para 45% do solo afetado pela degradação e admite-se que dois terços podem ser perdidos até 2025”, diz Luc Gnacadja.

Ele completa: “até agora a resposta humana à degradação dos solos e ao avanço da desertificação tem sido derrubar mais área de floresta para aumentar a fronteira agrícola”.

Mundo urbano não discute o rural

Um texto sobre outra conferência – em Brasília, entre os dias 25 a 27 de março — cita alguns argumentos sobre a importância do solo:

“Os solos constituem insumo fundamental para o desenvolvimento humano. Nenhum país consegue desenvolver-se plenamente sem acesso a esse recurso natural e as suas riquezas são incalculáveis. Em interface com a atmosfera, a hidrosfera, a biosfera e a litosfera o solo é responsável pelos principais processos biogeoquímicos que garantem a vida na Terra, estoca a água e recicla nutrientes, protege contra enchentes, sequestra carbono e abriga 25% da biodiversidade”.

Ocorre que o mundo atual é urbano, digital, eletrônico e não comporta espaço nem discussão sobre assuntos considerados rurais, do campo, de outra esfera. A não ser quando da realidade bate a porta e começa a sumir a água das torneiras e, de repente, milhões ficarão sem água, como acontecerá em 2015 em São Paulo. É o que diz um trabalho divulgado pela The Nature Conservancy sobre o problema da falta de água nas grandes cidades.

Detonaram o mato dos mananciais

Se 14,3 mil hectares dos 493,4 mil hectares que formam os sistemas Cantareira, Alto Tietê, Guarapiranga e Rio Grande fossem reflorestados com mato nativo, isso diminuiria em 568,9 mil toneladas de sedimentos que são jogados nos cursos d’água, que alimentam os reservatórios.

“- A sedimentação tem impacto direto na quantidade e na qualidade da água dos mananciais. Isso ocorre porque não há cobertura vegetal ao redor dos rios e das represas. O solo exposto, além de sofrer erosão e não absorver a água das chuvas provoca o escoamento da terra para os corpos d’água, assoreando o leito e diminuindo a vida útil dos reservatórios”, como explica Samuel Barreto, coordenador do Movimento Água para São Paulo.

A região dos mananciais já perdeu 70% da mata nativa para a pecuária e agricultura. Os números levantados pela organização não governamental SOS Mata Atlântica são piores – só restam 488km2, ou seja, 21,5%. Não se trata de uma novidade brasileira. A erosão na China já consumiu 19% da área agrícola e os números apontam para descarga de terra superior no rio Yang-Tsé, o maior da Ásia, superior as dos rios Nilo e Amazonas juntos – três bilhões de toneladas ao ano.

O tempo passa, as cidades inflam, os rios são empanturrados não somente de terra, de solo perdido, juntamente com seus nutrientes e dos fertilizantes químicos, mas também de esgoto e lixo de todo tipo. É uma situação vergonhosa o que acontece no Brasil, onde o tratamento de esgoto ainda não é considerado uma prioridade, mesmo com verbas federais autorizadas. O conto do vigário de políticos sem compromisso com a população não combina com obras que ficam embaixo da terra. Hoje, ao se fazer uma pesquisa sobre assoreamento de rios e represas no país, o resultado é revoltante. Sem exceções, todos os principais rios brasileiros estão assoreados e entupidos de esgoto e lixo. Seus afluentes, córregos e nascentes foram detonados, sem mato para proteção. Tudo em nome do progresso e da modernidade, que fede com os excrementos de milhões de pessoas.

Colapso do sistema público de água

Em 2015, justamente quando o assunto solo poderá ganhar as páginas da mídia ordinária, o país será usado como exemplo do que pode ocorrer na maior metrópole, a falta de água nas torneiras paulistas. O Centro de Desastres Climáticos, do INPE calculou as estimativas de chuvas até abril – mesmo com fevereiro acima da média-, além do que a SABESP retira do sistema Cantareira. E a previsão é que o sistema seca em julho. No início de dezembro passado ocorreu um encontro na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, sobre as perspectivas de abastecimento de água na região metropolitana de São Paulo. O professor Pedro Luiz Cortês, da Uninove, coordenador do encontro, disse:

“Temos um sistema cada vez mais suscetível a eventos climáticos, como secas prolongadas, além do consumo cada vez mais intenso. Desde 2012 sabíamos que entraríamos num regime de falta de chuvas. O governo deveria vir a público apresentar os cenários com os quais está trabalhando”.

Outro comentário, agora do professor Reginaldo Berto, do Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas, da USP:

“É preciso se preparar para o colapso do sistema público de abastecimento a partir de abril de 2015”.

Enquanto isso, a mídia ordinária faz uma contagem regressiva ao contrário, dando uma falsa impressão à população de que as coisas estão melhorando. O Sistema Cantareira, assim como outros sistemas de abastecimento, começou a entrar em colapso ao longo dos últimos anos. A essência do problema é que a classe política conservadora não considera o ambiente como parte da vida e do suporte da vida, além de combater a noção que vivemos mudanças climáticas, como se fosse ideia de comunista. E, por essa e outras, que o país, que tem água doce em grande quantidade, dará um exemplo ao contrário ao mundo. Claro, que tudo ainda depende da decisão técnica do governador paulista.

Energia eólica: estamos atrasados. Será que ainda dá tempo?

                                               Parque eólico de Osório, no Rio Grande do Sul

O Brasil perdeu janelas de oportunidades para promover uma política nacional consistente de inovação e tecnologia que incentivasse a geração de energia eólica, como fizeram Índia e China, dois de seus parceiros do Brics. Apesar de ter criado um mercado capaz de baratear este tipo de energia, com preços muito competitivos, o país acabou desperdiçando o seu enorme potencial ao não criar medidas para incentivar o desenvolvimento e o aprendizado local para o setor.

O caminho poderia ter sido diferente, caso as políticas de mercado, de desenvolvimento industrial e de ciência e tecnologia tivessem convergido para promover a inovação. Atualmente, a indústria brasileira de energia eólica é dependente e altamente internacionalizada, avalia a economista Edilaine Venâncio Camillo.

A avaliação integra estudo de doutorado sobre o tema defendido por ela junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. A pesquisa obteve menção honrosa no Prêmio Capes de Teses 2014. O trabalho foi orientado pelo docente André Tosi Furtado, que atua no DPCT e coordena linha de pesquisa sobre Energia e Desenvolvimento.

Pela análise de Edilaine Camilla, havia no mundo, sobretudo a partir da década de 2000, momentos propícios ao aprendizado tecnológico para este tipo de energia alternativa. E, ao contrário de Índia e China, o país deixou esta chance passar. Agora, conforme a economista, com a tecnologia praticamente madura, o desenvolvimento de uma política nacional nesta área demandaria um esforço muito maior por conta das barreiras competitivas criadas pelos países que estão na ponta deste setor.

“O Brasil não soube aproveitar a capacidade produtiva e científica para construir essa cadeia localmente. O esforço hoje vai ser muito maior do que no início dos anos 2000. Os custos da eólica já estão caindo muito. Portanto, se o país entrar nesta briga, terá que produzir a um custo muito baixo. E ele não sabe muito bem como fazer isso. A China foi o último país que conseguiu aproveitar essa janela. Hoje o Brasil teria que ter um grande poder de mercado para entrar com uma escala muito grande de produção”, reconhece.

Conforme a pesquisadora, tanto China como Índia, que estavam num cenário parecido ao brasileiro naquele período, criaram programas de transferência e aprendizado de tecnologias para o setor. Atualmente, de acordo com ela, há muitas empresas chinesas e indianas atuando no mercado internacional e vendendo esta tecnologia, inclusive para o Brasil.

“O Brasil não criou incentivos para fazer programas de pesquisas locais em energia eólica. Não existem aqui centros de pesquisa específicos em energia eólica, como têm em outros países. Como a tecnologia já estava sendo desenvolvida, esses centros de pesquisas articulariam, por exemplo, uma proposta de energia eólica para o contexto local. Foi isso que os outros países fizeram”, compara.

Ela acrescenta que o país poderia ter seguido outro caminho, com o desenvolvimento de uma indústria local e de um processo de aprendizado tecnológico. Segundo a economista a política industrial brasileira foi, de certa forma, contemplada ao se pensar numa exigência de nacionalização dos equipamentos, mas essa política focou essencialmente na busca por atração às empresas multinacionais.

Em sua pesquisa, Edilaine Camilla elaborou uma ampla análise das políticas de inovação da energia eólica no Brasil, utilizando os países líderes neste setor como base. Ela indica, na ponta, a Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Índia e China. Estes dois últimos países merecem destaque especial na análise do caso brasileiro porque promoveram um amplo aprendizado tecnológico e deixam lições importantes ao Brasil, ressalta.

Para a pesquisadora da Unicamp, as políticas de inovação tem um caráter multifacetado e devem atuar de forma concomitante e coordenada em esferas diversas, como a da transferência de tecnologia e a industrial. “Foi exatamente isso que fizeram Índia e China”, pontua. No caso brasileiro, houve um claro descompasso entre o estágio de desenvolvimento da tecnologia local e no mundo, aponta.

“Os instrumentos de promoção não foram ajustados ao contexto do país e da indústria no mundo. O Brasil tem condições específicas de vento, condições específicas de solo, temos uma série de fatores locais que podem dificultar, ao longo do tempo, o funcionamento desta tecnologia. Hoje, como o Brasil não fez a ‘lição de casa’, vai ter que estudar e se adaptar ou importá-la”, explicita.

A estudiosa analisou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia (Proinfa), implementado no país em 2004. “Este programa tinha que ser encerrado em 2006, mas, como houve uma série de entraves, principalmente no que se refere à energia eólica, ele foi prolongado até 2008. Quando comecei os estudos, o objetivo era entender porque havia estes entraves em relação à energia eólica. Além da eólica, o Proinfa abarcava as pequenas centrais hidrelétricas e as termoelétricas movidas à biomassa. As metas para estas fontes estavam sendo cumpridas, mas para a eólica, não”, lembra.

Além deste período, foi investigada outra fase da política brasileira, na qual há forte participação da fonte eólica nos leilões de energia elétrica. Com a não regulamentação de uma segunda fase do Proinfa, os leilões de compra e venda de energia se tornaram o principal meio de incrementar a participação das fontes alternativas na geração de energia elétrica. Desenhou-se, assim, um novo contexto de promoção à energia eólica no país, situa a economista.

“Não investigo estas fases isoladamente. Analiso a política industrial, pois a atividade de geração de energia eólica está muito vinculada à produção de equipamentos. E a fabricação de equipamentos é o principal custo para se montar o parque eólico. Ao olhar para a indústria, tenho que olhar também para a tecnologia. Esse é um foco central para se analisar como que o país está absorvendo esta tecnologia por meio da pesquisa e inovação”, detalha.

A energia eólica, segundo a economista e pesquisadora da Unicamp, é a fonte renovável que vem crescendo de forma mais acelerada nas últimas duas décadas. A tecnologia para este setor tem sofrido forte incremento também. Ela explica que os geradores das turbinas atuais são 100 vezes maiores do que aqueles do início dos anos de 1980, quando a energia eólica estava dando seus passos iniciais.

A capacidade acumulada em energia eólica mundial cresceu 30% ao ano, em média, desde meados da década de 1990. Apesar desta expansão ter se dado num ritmo menor em 2011, devido à crise financeira global, não há sinais de que essa tendência de crescimento vá se inverter nos próximos anos, afirma Edilaine Camilla.

Ela menciona dados do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), demonstrando que a participação da energia eólica, entre as fontes produtoras de energia elétrica, respondeu por 33% de toda a capacidade instalada entre 2000 e 2009 na Europa. Nos Estados Unidos este índice chegou a 10%. Na China esse percentual foi de 16% em 2009. Considerando a capacidade global, a energia eólica participou com 20% na soma das potências de todas as fontes instaladas em 2009.

“O Brasil, apesar de contar com uma política para energia eólica desde 2004, entrou apenas recentemente no mapa mundial de investimentos da indústria de energia eólica, tanto no que diz respeito à capacidade instalada quanto à fabricação de aerogeradores. Em 2008, a capacidade instalada em energia eólica no país não passava de 414 megawatts. Ao final de 2012, a capacidade instalada somava em torno de 2.000 megawatts ou 1,7% da capacidade total de geração de elétrica do país, mas a capacidade contratada já alcançava 8.381 megawatts”, analisa.

Ela informa que o país também se tornou recentemente um polo de atração de subsidiárias de multinacionais fabricantes de turbinas e componentes para a geração de energia eólica. Dados citados em sua pesquisa demonstram que, até 2008, o país abrigava apenas uma fabricante de equipamentos completos. Em 2012, esse número subiu para sete, não contando as fabricantes de componentes e partes de turbinas eólicas.

Publicação
Tese: “As políticas de inovação da indústria de energia eólica: uma análise do caso brasileiro com base no estudo de experiências internacionais”
Autora: Edilaine Venâncio Camillo
Orientador: André Tosi Furtado
Unidade: Instituto de Geociências (IG)
Financiamento: Capes

Avaliação integra análise sobre política brasileira de inovação e tecnologia para o setor

Texto: Sílvio Anunciação
Fotos: Cláudio Fachel/Palácio Piratini/Antonio Scarpinetti
Edição de Imagens: Fábio Reis
RTV Unicamp

Jornal da Unicamp n° 617

Publicado no Portal EcoDebate, 09/03/2015

Agricultura de Baixo Carbono e Economia de Água

Especialistas apontam benefícios que tecnologias do Plano ABC podem trazer para conservação do solo e da água.

Por Rodolfo Mondoni, do Observatório ABC

O Brasil concentra cerca de 12% de toda água doce do planeta e a maior parte desse recurso, aproximadamente 70%, é utilizado em atividades agrícolas. Em meio à crise hídrica que atinge o Brasil, principalmente a região Sudeste, implantar técnicas que ajudem a conservar esse recurso é fundamental.

“Algumas das tecnologias oferecidas pelo Plano ABC possuem um peso conservacionista muito grande. O plantio direto e a integração lavoura-pecuária, por exemplo, facilitam a infiltração da água no solo. Há um aproveitamento melhor desse recurso”, afirma Eduardo Assad, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária.

Plantio direto

O plantio direto é a técnica de semeadura na qual a semente é colocada no solo não revolvido (sem prévia aração ou gradagem) usando semeadeiras especiais. Esse processo diminui o risco de erosão e aumenta a capacidade de infiltração da água e de retenção de umidade, melhorando o rendimento em anos secos. Segundo dados da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), a técnica pode trazer uma economia de até 30% no uso de água para irrigação.

A integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) promove a recuperação de áreas de pastagens degradadas, agregando na mesma propriedade diferentes sistemas produtivos, como grãos e pecuária de corte, por exemplo. Além disso, as árvores protegem o solo e também diminuem o risco de erosão e melhoram a infiltração da água.

Tratamento de dejetos

É preciso considerar que a disponibilidade da água não está somente relacionada com a quantidade, mas também com a qualidade da água. Nesse caso, o tratamento de dejetos animais, outra tecnologia oferecida pelo Plano ABC, também traz benefícios. “Essa tecnologia tem um aspecto ambiental importante, porque evita que os coliformes sejam jogados diretamente no solo e assim contaminem o lençol freático”, explica Assad.

Estudo realizado pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP) verificou que os dejetos gerados por 140 bovinos confinados por 90 dias, podem recuperar em média 700 kg de nitrogênio, o que representa o potencial de cerca de 400 kg de nitrogênio via fertilizantes sintéticos. Somado a isso, é possível gerar 1.500 m3 de biogás, que geraram cerca de 2300 kWh.

Isso significa que essa tecnologia pode trazer economia ao produtor, pois ele gasta menos com adubo e energia, e ainda reduz as emissões de gases-estufa e impactos ambientais como contaminação do solo e da água.

Produção de energia

O Brasil é conhecido por ter uma matriz energética predominantemente limpa, centrada na produção hidroelétrica. Porém, a crise hídrica está levando o país a sujar a sua matriz, com o aumento da produção de energia vinda das termoelétricas, que queimam combustíveis fósseis (óleo, carvão, gás natural), altamente poluentes.

“Podemos aproveitar a própria agricultura para colaborar com a conservação dos recursos hídricos e também para produzir energia, sem sujar a nossa matriz”, ressaltou Luis Fernando Guedes Pinto, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora).

O pesquisador também concordou que “é possível correlacionar algumas práticas do ABC com a conservação do solo e da água”. E ainda disse que os resíduos das atividades agrícolas podem gerar energia, o que diminuiria a dependência do país em relação às hidrelétricas.

Como alternativa, Luis Fernando citou a bioeletricidade, atividade não relacionada ao Plano ABC, mas que tem um potencial muito grande de geração de energia. A bioeletricidade é uma energia limpa e renovável feita a partir de subprodutos da cana-de-açúcar (bagaço e palha). Segundo o Portal Bioeletricidade, 1 tonelada de palha pode gerar 500 kWh. Em 2010, o consumo médio de uma residência brasileira foi de 154 kWh. Isso significa que com apenas 1 hectare de cana é possível através da bioeletricidade abastecer oito residências o ano todo.

Publicado no Portal EcoDebate, 06/03/2015

Desmatamento na Amazônia já afeta o clima

Trata-se de artigo copiado do “site” ecodebate e publicado originalmente no “site” Clima e Floresta.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

Antonio Donato Nobre: Desmatamento na Amazônia já afeta o clima
Maura Campanili

Embora não se possa provar que a seca na região Sudeste do país já seja uma consequência das mudanças climáticas causadas pelo desmatamento na Amazônia, sabemos que ele afeta o fornecimento de vapor para a atmosfera e prejudica o transporte deste para regiões a jusante dos rios aéreos. E sabemos que o Sudeste é receptor e dependente da umidade exportada como serviço ambiental pela floresta amazônica. A afirmação é do pesquisador Antonio Donato Nobre, cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, lançado no final do ano passado. Segundo Nobre, é certo que o desmatamento da Amazônia levará a um clima inóspito naquela região e que deverá afetar outras. O estudo, realizado a pedido da organização Articulación Regional Amazónica (ARA), mostrou como o efeito de bombeamento atmosférico realizado pela floresta propele rios aéreos de umidade que transportam água, alimentando chuvas em regiões distantes do oceano. “A procrastinação para acabar com o desmatamento é injustificável”, alerta.

Antonio Donato Nobre – Em seu relatório, o senhor alerta que o desmatamento da Amazônia já está influenciando o clima. Onde o clima já mudou?

Clima e Floresta – Segundo observações publicadas, amplas regiões na porção oriental da Amazônia, justamente a região mais afetada por desmatamento e degradação florestal, já sofrem com a expansão na duração do período seco, redução das chuvas totais no ano e mesmo extinção de chuvas no período seco, o que torna áreas ainda preservadas de floresta suscetíveis à degradação pela invasão de fogo a partir de áreas ocupadas. A extensão na duração e intensidade da estação seca tem consequências diretas sobre a agricultura, já que diminui a água disponível no solo, prejudicando a produção. O pior é que essa parece ser uma tendência de progressão do clima, um cenário com potencial de danificar até a safra principal em regiões produtoras de grãos como no norte do Mato Grosso.

Nobre – Como a floresta influencia o clima?

Clima e Floresta – As florestas nativas influenciam o clima de diversas e poderosas formas. Descrevo detalhadamente no relatório O Futuro Climático da Amazônia cinco efeitos conhecidos, a saber: a intensa transpiração das árvores condiciona e mantém a alta umidade atmosférica; os compostos orgânicos voláteis emitidos pelas folhas – os cheiros da floresta -, participam de forma determinante como sementes no processo de nucleação das nuvens e geração de chuvas abundantes; a condensação atmosférica do vapor transpirado pelas plantas rebaixa a pressão sobre a floresta, que, menor que aquela sobre o oceano, succiona o ar úmido para dentro do continente; o efeito de bombeamento atmosférico realizado pela floresta propele rios aéreos de umidade que transportam água, alimentando chuvas em regiões distantes do oceano; e o dossel rugoso da floresta freia a energia dos ventos, atenuando a violência de eventos atmosféricos.

Nobre – A seca no Sudeste já é uma consequência dessa mudança climática? O que podemos esperar para os próximos anos?

Clima e Floresta – Existem nas observações do clima registros de secas fortes para o Sudeste. O que surpreendeu e assustou em 2014, além da intensidade e duração sem precedentes, foi o virtual desaparecimento da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Essa condição deixou incapazes os modelos numéricos, até para previsões de curto prazo. Por essas características inusitadas do fenômeno climático, vários colegas cogitam tratar-se já das primeiras manifestações de mudanças climáticas associadas ao aquecimento global. Porém, não sabemos ainda como os vários fatores interagiram para produzir a seca, quanto dela é resultado de uma forçante de mudanças climáticas globais, quanto tem a ver com o desmatamento e a degradação florestal na porção oriental da Amazônia. Mas sabemos que parte importante da seca foi por conta da ausência do aporte de matéria-prima para chuvas, e também que a umidade amazônica não propagou para o Sudeste. Embora não possamos consultar uma bola de cristal para saber o que esperar do futuro, sabemos já que o desmatamento afeta o fornecimento de vapor para a atmosfera e prejudica o transporte deste para regiões a jusante dos rios aéreos. E sabemos que o Sudeste é receptor e dependente da umidade exportada como serviço ambiental pela floresta amazônica. Então, pode-se afirmar que se não recuperarmos a floresta, ou pior, se ainda por cima continuarmos com o desmatamento, estaremos serrando o próprio galho onde sentamos.

Nobre – As metas brasileiras de redução do desmatamento são suficientes para mitigar os efeitos no clima? O que falta ser feito?

Clima e Floresta – Absolutamente não. Todas as evidências científicas apontam para o fato de que o gigantesco desmatamento acumulado já afeta o clima. Isso significa que o desmatamento acumulado já passou da área máxima tolerável antes do clima ser alterado de forma permanente. Em outras palavras, é imperioso o desmatamento zero, e para ontem. As metas brasileiras de desmatamento não somente ignoram a ciência, como postergam para décadas no futuro uma necessidade urgente de ação que deveria haver sido feita décadas atrás. Assim como a inação irresponsável de governadores e outras autoridades levou muitas cidades no Sudeste à beira do colapso no fornecimento de água, as minguadas e débeis metas brasileiras de redução do desmatamento têm chance zero de mitigar os efeitos no clima, e mais, garantem o agravamento da situação. O que é o pior é que tal injustificável procrastinação pode levar todo o sistema Amazônico a uma situação de colapso climático, na qual se ultrapassa um ponto de não retorno levando toda a região para a savanização ou mesmo para a desertificação. Falta aos formuladores de politicas públicas, governantes, elites influentes e formadores de opinião caírem na real, absorverem diligentemente a informação qualificada disponível e agirem de acordo, o que significa colocar o Brasil na liderança de um enorme e sem precedentes esforço de guerra contra a ignorância, contra o desmatamento, contra o fogo, a fumaça e a fuligem, e a favor da restauração das florestas nativas.

Livrando-se do combustível fóssil – Stephen Devlin – NEF

Os combustíveis fósseis vão arruinar o nosso mundo muito antes que se esgotem. Isso porque, por todas as estimativas, não podemos queimar a maior parte das reservas de combustíveis fósseis existentes se quisermos evitar uma mudança climática catastrófica. Se quisermos evitar um mundo de frequentes desastres naturais e sacrifício humano horrível, nós já não podemos nos dar ao luxo de queimar todas as reservas existentes.

Naturalmente, as empresas de combustíveis fósseis pretendem ser parte da solução para este problema. British Petroleum é agora “Beyond Petroleum” e Shell está investindo em projetos de captura e armazenamento de carbono. Mas esses esforços têm sido menos do que lamentáveis. E por que esperaríamos algo mais? Claramente, não é do interesse dessas empresas acelerar a chegada de um mundo de baixo carbono. Não se engane: BP, Shell e todas as outras empresas de combustíveis fósseis têm a firme intenção de queimar tudo o que têm. Está se tornando claro para mais e mais pessoas que o modelo de negócios dessas empresas exige a destruição ambiental e humana.

Não importa o quanto nós nos beneficiamos individualmente a partir de petróleo e gás; precisamos nos livrar dessa dependência, para o bem de todos. É por esta razão que um movimento crescente de ativistas está a exigir que nossas instituições públicas – universidades, municípios, grupos religiosos, etc. – que o financiamento de empresas de combustíveis fósseis seja interrompido. Algumas dessas instituições têm rios enormes de dinheiro que eles usam para investir em ações e a campanha de desinvestimento está pedindo-lhes para tirar estes recursos de combustíveis fósseis e reinvesti-los em outra coisa. Hoje é o Dia Global do Desinvestimento e milhares de pessoas, de Sydney atéa Suécia, vão tomar medidas contra investimentos em combustíveis fósseis e fazer suas vozes ouvidas.
Mas esta é uma exigência razoável?

Financeiramente? A evidência mostra que o resultado da esmagadora maioria de carteiras de investimento livre de fósseis não é pior do que quaisquer outras.
Legalmente? A maioria das instituições têm políticas de investimento ético que parecem rejeitar investimentos fósseis, e muitas universidades não investem em empresas de tabaco ou de armas.
Eticamente? Ao despejar seu dinheiro em empresas de combustíveis fósseis instituições públicas implicitamente endossam seus planos para queimar uma quantidade de reservas prejudicando o clima.
Isso já está acontecendo. A Universidade de Glasgow, a Universidade de Stanford, o Conselho Mundial de Igrejas e a Fundação Rockefeller estão entre as instituições que já se comprometeram com o desinvestimento.
Estive pessoalmente envolvido na campanha de desinvestimento da UCL. Esta universidade é um excelente exemplo de empresas de combustíveis fósseis utilizando as suas ligações com instituições respeitadas para sustentar sua legitimidade. Apesar de aspirara ser “um líder em todo o setor de Ensino Superior (High Education), em termos de sustentabilidade ambiental”. A UCL tem cerca de 21 milhões de libras investidos em empresas de combustíveis fósseis e mantém uma parceria com a BHP Billiton, uma enorme empresa de mineração amplamente creditado com uma série de crimes contra o meio ambiente e as populações locais, que ironicamente financia o “Instituto de Recursos Sustentáveis” da UCL. Tudo o que estamos pedindo é para UCL começar a colocar seu dinheiro onde suaa promessas estão.

Mas o que vai a campanha de desinvestimento alcançar? Ninguém espera a sério levar rapidamente à falência as empresas de combustíveis fósseis. Mas esse não é o ponto. Através da alienação das ações de empresas desonestas cuja continuidade no modo de operação requer a destruição planetária, nossas instituições podem fazer uma declaração poderosa sobre o futuro que queremos. Nós podemos remover lentamente a licença moral de empresas de combustíveis fósseis “e construir o impulso que nos levará a uma economia sustentável e da sociedade. É hora de fazer uma declaração.

Going fossil-fuel free – Stephen Devlin – NEF

FEBRUARY 13, 2015 // BY: STEPHEN DEVLIN

Fossil fuels are going to ruin our world long before they run out. That’s because, by anyone’s estimate, we cannot burn the vast majority of existing fossil fuel reserves if we’re to prevent catastrophic climate change. If we want to avoid a world of frequent natural disasters and horrific human sacrifice we no longer have the luxury of burning through existing reserves.

Of course, fossil fuel companies claim to be part of the solution to this problem. British Petroleum is now “Beyond Petroleum” and Shell is investing in carbon capture and storage projects. But these efforts have been less than pitiful. And why would we expect anything more? It’s blatantly not in these companies’ interests to hasten the arrival of a low-carbon world. Make no mistake: BP, Shell and every other fossil fuel company fully intend to burn everything they’ve got. It is becoming clear to more and more people that the business model of these companies requires environmental and human destruction.

No matter how much we individually benefit from oil and gas we must rid ourselves of that dependency, for everyone’s sake. It is for this reason that a surging movement of campaigners are demanding that our public institutions – universities, municipalities, faith groups, etc. – stop funding fossil fuel companies. Some of these institutions have enormous pots of money that they use to invest in stocks and the divestment campaign is asking them to take it out of fossil fuels and reinvest it in something else. Today is Global Divestment Day and thousands of people, from Sydney to Sweden, will be taking action to speak out against fossil fuel investments and make their voices heard.

But is this a reasonable demand?

Financially? The evidence overwhelmingly shows that fossil-free investment portfolios perform no worse than any others.
Legally? Most institutions have ethical investment policies that seem to reject fossil investments, and many universities will not invest in tobacco or arms companies.
Ethically? By pouring their money into fossil fuel companies public institutions implicitly endorse their plans to burn a climate-busting amount of reserves.
It’s already happening. Glasgow University, Stanford University, the World Council of Churches and the Rockefeller Foundation are among the institutions already committed to divestment.
I have been personally involved in UCL’s divestment campaign. This university is a prime example of fossil fuel companies using their links with respected institutions to prop up their legitimacy. Despite aspiring to be ‘a leader across the HE (higher education) sector in terms of environmental sustainability’ UCL has an estimated £21 million invested in fossil fuel companies and maintains a partnership with BHP Billiton, a huge mining company widely credited with a host of crimes against the environment and local peoples, which ironically funds UCL’s “Institute for Sustainable Resources”. All we’re asking is for UCL to start putting its money where its mouth is.

But what will divestment achieve? No one seriously expects to bankrupt fossil fuel companies overnight. But that’s not the point. By divesting from rogue companies whose continued mode of operation requires planetary destruction our institutions can make a powerful statement about the future we want. We can slowly remove fossil fuel companies’ moral licence and build the momentum that will carry us to a sustainable economy and society. It’s time to make a statement.

You can get involved too. Sign up to UCL’s divestment petition, or find out about campaigns happening across the UK.

ISSUES
Energy & Climate Change, Environment
Going fossil-fuel free

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Os 450 anos do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária e a imobilidade urbana, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Os 450 anos do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária e a imobilidade urbana, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Publicado em fevereiro 27, 2015 por Redação

Tags: trânsito-mobilidade urbana, urbanização

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“Rio 40 graus
Cidade maravilha
Purgatório da beleza
E do caos…”

Fernanda Abreu (1992)

[EcoDebate] A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, também conhecida como “Cidade Maravilhosa” foi fundada por Estácio de Sá no dia 1° de março de 1565 (evidentemente, contra a vontade dos índios Tamoios e Tupinambás que habitavam a região). O município do Rio de Janeiro foi a capital do Brasil entre 1763 e 1960 e vai comemorar seus 450 anos em 2015. Atualmente é a segunda cidade do país em termos populacionais e econômicos, ficando atrás apenas da capital paulista.

A população do Rio de Janeiro era de 275 mil habitantes em 1872 (data do primeiro censo brasileiro), chegou a 811 mil pessoas em 1900, ultrapassou um milhão de habitantes em 1920, estava com 3,3 milhões de pessoas quando perdeu o posto de capital do país para Brasília (em 1960) e alcançou 6,3 milhões de habitantes em 2010 (data do último censo demográfico). A população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) era de 11,8 milhões de habitantes em 2010, representando quase três quartos do total fluminense. Para 2015, as estimativas apontam para 6,5 milhões de pessoas na cidade do Rio de Janeiro e 13 milhões de habitantes na RMRJ.

Em uma cidade tão grande e densamente povoada, era de se esperar a existência de um bom transporte coletivo de massa. Porém, o Metrô do Rio de Janeiro, que começou a ser construído no início da década de 1970 e teve a inauguração de suas operações quando a cidade fez 414 anos (em março de 1979), possui atualmente apenas duas linhas, com 36 estações e 42 km de extensão, transportando cerca de 700 mil passageiros diariamente. Em 15 de março de 2014 foi inaugurada a Estação Uruguai, terminal da Linha 1. Nos próximos anos, planeja-se o acréscimo de 38 quilômetros, totalizando 4 linhas e 55 estações. A linha 3, de 22 quilômetros, deverá ser um monotrilho, ligando os municípios de São Gonçalo e Niterói. A linha 4, de 16 quilômetros, ligará a estação General Osório, em Ipanema, à estação Jardim Oceânico, na Barra da Tijuca e está prevista para ser inaugurada em 2016.

Esperava-se uma “Revolução nos Transportes” no Rio de Janeiro em função do grande volume de recursos previstos para os megaeventos da atual década: Conferência Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2014), Copa do Mundo de Futebol (2014) e as Olimpíadas (2016). Porém, pouco se avançou em relação a outras grandes cidades do mundo.

Comparando com o metrô de Xangai (2ª maior cidade da China, com cerca de 19 milhões de habitantes na Região Metropolitana) as diferenças são espetaculares. O Rio de Janeiro estava bem à frente de Xangai em 1993, pois a cidade chinesa não tinha nenhuma linha em operação naquele ano. Mas em apenas duas décadas, enquanto a “Cidade Maravilhosa” construiu 12 estações em suas 2 linhas, Xangai passou a ter o maior sistema de metrô do mundo, com mais de 500 quilômetros de extensão em 2014, capaz de transportar mais de 7 milhões de passageiros por dia, tendo cerca de 250 estações em 15 linhas e mais 3 planejadas até 2020. Lá funciona o Xangai Transrapid, que é a primeira linha de trem de alta velocidade comercial do mundo: Maglev (Magnetic levitation transport). Sua construção iniciou em março de 2001 e começou a operar em 1° de janeiro de 2004. O trem pode atingir uma velocidade de 350 km/h em apenas 2 minutos e uma velocidade máxima de 431 km/h. Faz um trajeto que vai da estação Longyang Road em Pudong até o Aeroporto Internacional de Xangai, em um percurso de aproximadamente 30 km, demorando menos de 8 minutos para fazer o percurso.

Ou seja, enquanto o metrô do Rio de Janeiro transporta diariamente cerca de 5% da população da RMRJ, o metrô de Xangai transporta cerca de 40% da população da megalópole chinesa. As tarifas do Metrô do Rio de Janeiro foram apontadas, proporcionalmente, como uma das mais altas do mundo. Os empregos são concentrados no Centro e na Zona Sul – áreas regidas pela especulação imobiliária desenfreada – enquanto a maior parte da população vive na Zona Norte e nas periferias sem infraestrutura (mas não livres da especulação imobiliária em uma escala menor).

O Observatório das Metrópoles, em parceria com o Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, divulgou estudo em que mostra a precariedade da mobilidade urbana no Rio de Janeiro – nos aspectos relacionados a preço, qualidade e transparência de gestão – mostrando a falta de um transporte público de qualidade, democrático e seguro. O estudo ressalta: “Nos últimos anos, pode-se afirmar que os preços das passagens no Rio de Janeiro não vêm sofrendo apenas reajustes, ou correções tarifárias. Têm ocorrido, na verdade, aumentos abusivos acima de qualquer índice de inflação. Além disso, como ocorreu com as passagens de ônibus no dia 1º de janeiro de 2012, esses aumentos não são previamente anunciados, configurando verdadeiras manobras por parte do poder público em conluio com as empresas de transportes para evitar que qualquer tipo de manifestação fosse previamente realizada”.

Outra dimensão abordada pelo estudo foi a baixa integração intermodal. O Poder Público prometeu a “revolução nos transportes”, construindo as vias Transcarioca, Transolímpica e Transoeste (todas BRTs), e o metrô Lagoa-Barra (alongamento da Linha 1) todos ligados à realização da Copa e dos Jogos Olímpicos. Mas, “Por outro lado, a população clama por serviços de transporte de massa em outras direções e para outras regiões da cidade. Ou seja, enquanto hoje o serviço de transporte coletivo oferecido à população se configura como caro, precário e insuficiente para a demanda existente, o cenário que se desenha é o de investimentos em transporte no Rio de Janeiro que, em vez de atenderem à demanda existente, tornam possível a ocupação de áreas vazias ou pouco densas, visando a valorização imobiliária e a expansão irracional da malha urbana”.

O estudo conclui: “A chamada ‘revolução nos transportes’ propagandeada pelo Poder Público no contexto dos megaeventos não é, portanto, solução para a crise da mobilidade, um problema que decorre das enormes dificuldades de deslocamento diário das pessoas para trabalhar em um mercado de trabalho cada vez mais organizado na escala metropolitana”.

Todos estes aspectos mostram que a propaganda dos sucessos da “Cidade Maravilhosa” é muito mais um mito do que uma realidade cotidiana. No que diz respeito à mobilidade urbana, nos aspectos históricos e na comparação internacional, o Rio de Janeiro está longe de ser uma maravilha. O transporte público tem que ser pensado para a totalidade da Região Metropolitana, buscando soluções para os principais problemas, tais como a superlotação do metrô nos horários de pico, a lentidão dos trens, o alto custo da passagem, as constantes falhas e acidentes – como o ocorrido entre dois trens no ramal Japeri da Supervia que deixou 160 pessoas feridas, dia 05 de janeiro de 2015.

Talvez os problemas do transporte público de massa possam ser resolvidos antes do Rio de Janeiro completar 500 anos. A cidade de Xangai construiu uma rede de metrô dez vez maior do que a do RJ em apenas 20 anos. Quem sabe o exemplo chinês possa inspirar os dirigentes públicos cariocas, fluminenses e nacionais no sentido de construir um sistema de transporte que seja eficiente, democrático e, minimamente, ecologicamente sustentável.

Uma nota especial dos 450 anos refere-se à escassez de água potável em meio a recordes de temperatura. A marchinha de carnaval de Vitor Simon e Fernando Martins (1954) voltou a ficar atual: “Rio de Janeiro, cidade que me seduz: de dia falta água e de noite falta luz! Abro o chuveiro, oi, não cai um pingo, desde segunda até domingo“. Os reservatórios de Paraibuna e Santa Branca, fundamentais para o abastecimento da “Cidade Maravilhosa” atingiram o volume morto em janeiro de 2014. As usinas hidrelétricas foram desligadas. Já a Represa do Funil, em Resende e Itatiaia, atingiu em janeiro o nível mais baixo da história. Embora as chuvas tenham aumentado em fevereiro, a situação geral é grave e as autoridades públicas apenas procrastinam as soluções necessárias. A cidade e a região metropolitana do Rio de Janeiro podem ficar em situação crítica um ano antes das Olimpíadas de 2016, sem perspectivas de solução definitiva para a época do grande evento internacional.

Como diz a música, o clima é de 40 graus e de caos. Com o adensamento da RMRJ e a manutenção das desigualdades sociais, a imobilidade urbana, a especulação, a violência e a críse hídrica e energética houve uma mudança no sentimento de convivência dos cariocas entre si e com a natureza. Há cerca de 50 anos, Vinicícus de Moraes escreveu a letra da música “Carta ao Tom”, lembrando de forma saudosista a “Cidade Maravilhosa” antes dos seus 400 anos:

“Rua Nascimento Silva, 107
Você ensinando pra Elizete
As canções de canção do amor demais

Lembra que tempo feliz
Ah! que saudade
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E alem disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar um novo amor”

Mais recentemente, Chico Buarque fez uma nova versão que parece a mais adequada para a comemoração dos 450 anos da “Cidade Maravilhosa”:

“Rua Nascimento Silva, 107
Eu saio correndo do pivete
Tentando alcançar o elevador

Minha janela não passa
De um quadrado
A gente só vê cimento armado
Onde antes se via o Redentor

É, meu amigo, só resta uma certeza
É preciso acabar com a natureza
É melhor lotear o nosso amor”

Referências:

ALVES, JED. Réquiem para o Rio Carioca, Ecodebate, RJ, 01/03/2012

http://www.ecodebate.com.br/2012/03/01/requiem-para-o-rio-carioca-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

VOX. 38 maps that explain the global economy, 2014

http://www.vox.com/2014/8/26/6063749/38-maps-that-explain-the-global-economy

Observatório das Metrópoles. Rio olímpico e mobilidade urbana: qual será o legado?, RJ, 09/05/2012

http://www.observatoriodasmetropoles.net/index.php?option=com_k2&view=item&id=247%3Amobilidade-urbana-no-rio&Itemid=164&lang=pt

Chico Buarque. Carta Ao Tom (paródia) http://letras.mus.br/chico-buarque/85945/

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 27/02/2015

“Os 450 anos do Rio de Janeiro, a especulação imobiliária e a imobilidade urbana, artigo de José Eustáquio Diniz Alves,” in Portal EcoDebate, 27/02/2015, http://www.ecodebate.com.br/2015/02/27/os-450-anos-do-rio-de-janeiro-a-especulacao-imobiliaria-e-a-imobilidade-urbana-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

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UE dá primeiro (e curto) passo no Protocolo de Paris, que deverá substituir o Protocolo de Quioto

Bloco se adianta ao propor oficialmente corte de “pelo menos 40%” de suas emissões de gases estufa até 2030 em relação a 1990

A União Europeia (UE) deu a largada rumo ao acordo do clima de Paris nesta quarta-feira (25/02), ao tornar-se o primeiro bloco a colocar na mesa sua proposta de redução de gases de efeito estufa para o novo tratado global, a ser implementado em 2020. Um documento divulgado pela Comissão Europeia detalha a visão dos 27 países sobre o novo regime climático e diz o que os europeus estão dispostos a fazer.

A chamada Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida (INDC) da UE chega um mês antes do prazo informal dado pelas Nações Unidas para os países desenvolvidos apresentarem seus números. Traz também um avanço ao propor que o novo acordo, que os europeus já estão chamando de Protocolo de Paris, tenha força de lei internacional. Porém, ainda faz pouco para colocar o mundo na trajetória segura de limitar o aquecimento global no fim deste século a 2 °C, objetivo almejado pelos membros da Convenção do Clima da ONU, com base nas recomendações da ciência.

A INDC europeia propõe reduzir as emissões dos 27 países do bloco “em pelo menos 40%” até 2030 em relação aos níveis de 1990, sem a compra de créditos de carbono de fora. Segundo o documento da Comissão Europeia, isso colocaria a UE numa trajetória “economicamente viável” de cortar 80% de suas emissões até 2050, permitindo uma chance “provável” de ficar dentro do limite de 2 °C.

Na linguagem estatística do IPCC, o painel do clima da ONU, “provável” significa uma chance de pelo menos 66%.

“Os europeus merecem crédito por terem sido os primeiros a fazer o anúncio, mas sua oferta está aquém do que seria sua contribuição justa ao esforço mundial de redução de emissões”, diz Mark Lutes, analista sênior de clima do WWF, uma das organizações integrantes do Observatório do Clima. “Estamos dizendo que o mundo precisa reduzir a zero as emissões de queima de combustíveis fósseis e chegar a 100% de energia renovável até 2050; e a proposta europeia não chega lá.” No entanto, ressalta Luttes, os europeus deixaram a porta aberta para revisões periódicas dos compromissos a partir de 2020, algo que o Brasil tem defendido nas negociações.

“Esperamos que a UE ainda possa aumentar sua contribuição à luz do que a ciência diz que é necessário fazer para evitar o caos climático”, diz o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl. “Da mesma forma, esperamos que o Brasil não fique dependendo disso para colocar na mesa um compromisso de redução de emissões ambicioso e proporcional a sua responsabilidade. Para o Brasil, fazer a coisa certa no clima representa oportunidade de recolocar a economia nos eixos, e nós não podemos deixar essa oportunidade passar só porque outros países estão fazendo menos do que deveriam.”

“O Brasil é um dos países com mais oportunidades para redução de emissões e tem tudo para assumir um papel de protagonismo, estimulando os outros países a aumentarem a ambição do novo acordo global”, afirma o gerente de estratégias da conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e coordenador-geral do Observatório do Clima, André Ferretti.

Colaboração de Maria Luiza Campos, para o Portal EcoDebate, 26/02/2015

A Imoralidade do Uso do Carvão

Combustíveis fósseis poluem e o carvão, entre estes, polui muito mais. Fora o fato de que o trabalho nas minas de carvão é desumano. Apresento, a seguir, uma discussão sobre o tema. Os três primeiros parágrafos estão traduzidos. Apresento, abaixo, o link para o texto completo em inglês. Se interessar receber o texto completo em português, favor enviar um email para dialogosessenciais@gmail.com

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

SYDNEY – A possibilidade de um acordo global na Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, em Paris, em dezembro, parece estar ganhando momento. Com este sentimento de otimismo vem uma forte consciência de que o uso de combustíveis fósseis deve ser banido mundialmente o mais rapidamente possível. De fato, a idéia de que as emissões de gases de efeito estufa devem ser reduzidas a zero até 2050 está ganhando maior aceitação.

Empresas pioneiras já estão tomando a dianteira. Universidades, fundos de pensão, igrejas, bancos, e até mesmo os Rockfeller, herdeiros da fortuna de óleo, estão tirando seus investimentos de ativos de combustível fóssil ou estão considerando a possibilidade de desinvestimento – uma opção cada vez mais atraente feita pela rápida queda de custo da energia renovável. Contra este progresso, porém, um setor se destaca. A indústria do carvão parece determinada a lutar por lucros à custa do meio ambiente global. Perversamente, está furiosamente tentando ganhar a batalha moral, alegando que o carvão é essencial para acabar com a pobreza energética.

Leia mais em http://www.project-syndicate.org/commentary/coal-immorality-climate-change-by-raja-jayaraman-et-al-2015-02#Jz8DT5JGogr3XahV.99

VEÍCULO LEVE SOBRE TRILHOS – VLT – RIO

O VLT está chegando ao centro do Município do Rio de Janeiro. Leia os artigos e assista o vídeo sobre como será a implantação do VLT no Rio e um, maior, de cerca de 25 minutos, sobre o VLT francês, em funcionamento. Espero que sua implantação cause um impacto ambiental favorável no centro do Rio: menor poluição sonora (os VLTs são muito mais silenciosos do que ônibus e automóveis), menor poluição de gases dos motores dos ônibus e automóveis, maior conforto e velocidade média maior

. Aproveite e acesse outros posts do meu blog: dialogosessenciais.com

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

http://youtu.be/hOQlr1NyT8A

http://youtu.be/iDJonFiRiPo

O QUE É VLT? Com seis linhas, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) é uma espécie de bonde moderno que vai mudar para melhor Continue lendo “VEÍCULO LEVE SOBRE TRILHOS – VLT – RIO”

Planeta insustentável: a civilização do lixo – Najar Tubino

Compartilho artigo publicado no site cartamaior.com.br em 05/01/2015. As campanhas de reciclagem, embora importantes, não bastam. Jogamos alimentos e comida demais no lixo, geramos lixo demais. Nenhum programa de reciclagem, por mais bem sucedido que seja, será capaz de resolver o crescente problema do lixo e seus subprodutos e males. Temos que desperdiçar menos alimentos e comida e gerar menos lixo, além de praticar a coleta seletiva.
Para o texto com foto, favor acessar o site onde o texto foi publicado originalmente.

Boa leitura. Paulo Martins

Planeta insustentável: a civilização do lixo
80% do consumo privado no mundo é realizado por 20% da população, e a cada 1% de crescimento nos países emergentes, o lixo acumulado cresce 0,69%.
Esta é uma montanha que não para de crescer. Nos cálculos da ONU e do Banco Mundial nas últimas três décadas a geração de resíduos sólidos urbanos cresceu três vezes mais rápido do que a população. Os sete bilhões de habitantes Continue lendo “Planeta insustentável: a civilização do lixo – Najar Tubino”

Financiando a segurança climática

Em 26/12/2014 publicamos no blog os três primeiros parágrafos do texto de Jeffrey Sachs intitulado “Financing climate safety” e indicamos o link http://www.project-syndicate.org para quem estivesse interessado na leitura do texto completo, em inglês.
Na sua edição de hoje o jornal Valor Econômico publicou o mesmo texto, completo, em português. Não podemos reproduzi-lo pois o artigo está protegido por direitos autorais. Para acessá-lo pesquise em valor.com.br e tenha acesso ao referido texto.

02/02/2015
Paulo Martins
dialogosessenciais.com