PROGNÓSTICO É RUIM E VAI PIORAR, DIZ JOSÉ LUÍS FIORI

PROGNÓSTICO É RUIM E VAI PIORAR, DIZ FIORI
DESTAQUE10 DE ABRIL DE 2020POR ELEONORA DE LUCENA E RODOLFO LUCENA
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“Nosso prognóstico político e econômico para o Brasil é muito ruim, e a situação deverá ficar ainda pior quando começarem a surgir os primeiros focos de rebeldia social inorgânica, movidos pela fome e pela miséria, que crescerão de forma geométrica no ano de 2020”. O alerta é do sociólogo e cientista político José Luís Fiori em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe a leitura da entrevista no vídeo acima e inscreva-se no TUTAMÉIA TV). Professor de economia política da UFRJ, ele analisa aqui mudanças geopolíticas decorrentes da pandemia e afirma:

“Hoje, muitos falam de um mundo novo que poderia nascer dessa experiência traumática e até apostam em mudanças humanitárias do capitalismo. Mas não vejo a menor possibilidade de que isto aconteça. O próprio avanço da epidemia já está provocando uma guerra sem quartel entre as nações pelos equipamentos médicos. Essa guerra deverá seguir e até aumentar depois da epidemia, junto com os ressentimentos que ficarão dessa megaexperiência de egoísmo coletivo explicito”.

Para Fiori, “essa pandemia não produzirá nenhuma grande inflexão geopolítica dentro do sistema mundial. O que ela fará é acelerar a velocidade das transformações que já estavam em curso e que seguirão se aprofundando. Essa nova peste está apenas desvelando o que já existia, mas que ainda estava encoberto pelo que talvez se pudesse chamar de último véu de hipocrisia do que muitos analistas chamam de “ordem liberal”, ou de “hegemonia americana” do século 20”.

Autor, entre outros, de “O Poder Global” (Boitempo, 2007), ele afirma: “O mais provável é que essa epidemia aumente a desigualdade e a polarização do mundo, que já vinham crescendo de forma acelerada desde a crise financeira de 2008”.

Ao TUTAMÉIA, o sociólogo e cientista político traça tendências da geopolítica global e regional e declara: “A disputa dos EUA com a China e a Rússia já colocou a luta pelo controle da Amazônia Sul-Americana dentro do mapa geopolítico e econômico da competição entre as grandes potências econômicas e militares do sistema mundial. Esse parece ser um processo irreversível”.

A seguir a íntegra da entrevista, feita por e-mail.

TUTAMÉIA — QUAL O TAMANHO E QUAIS OS ASPECTOS PRINCIPAIS DA CRISE QUE ESTAMOS VIVENDO NO MUNDO? JÁ É POSSÍVEL PREVER ALGUMA COISA DO FUTURO? FAZ SENTIDO COMPARÁ-LA COM A CRISE ECONÔMICA DE 1929? ESSA CRISE TEM ALGUMA COMPARAÇÃO POSSÍVEL?

JOSÉ LUÍS FIORI — Por enquanto, a crise que estamos vivendo tem duas grandes causas ou dimensões fundamentais. Uma é biológica ou epidemiológica, que é a pandemia do novo coranavírus, que já atingiu mais de 190 países e mais um milhão de pessoas ao redor do mundo. A outra é econômica ou energética, associada à guerra de preços e à queda do preço do barril petróleo, que caiu de US$ 70 para US$ 23 o barril em apenas uma semana, provocando um terremoto financeiro em todo mundo. É a maior crise da indústria do petróleo dos últimos cem anos, mas ela acabou se confundindo com a pandemia, que se transformou no fator determinante da queda da produção e da demanda do óleo em todo o mundo, mas particularmente na China, nos EUA e na Europa. Por isso, pode-se dizer que a dimensão determinante da crise mundial, neste momento, é a sua dimensão epidemiológica.

Os germes e as grandes epidemias têm vida própria e reaparecem através da história com uma frequência cada vez maior, apesar de o reaparecimento periódico não obedecer a nenhum tipo de regra ou de ciclo conhecido e previsível. No caso específico desta última epidemia, não se decifrou ainda o vírus, não se conhece seu desenvolvimento nem se sabe da possibilidade de que ele tenha recidivas onde já foi controlado. Portanto, desde logo, partindo de um ponto de vista estritamente biológico e médico, é muito difícil ainda fazer qualquer tipo de previsão sobre o futuro dessa primeira grande peste do século 21.

Nesses momentos de grande medo e imprevisibilidade, é muito comum que se façam comparações com a intenção de ajudar a pensar e prever o futuro. Mas essas comparações são sempre limitadas e, às vezes, prejudicam mais do que ajudam, mesmo quando se restrinjam ao campo econômico. No caso das comparações com 1929, ou mesmo com a crise financeira de 2008, é importante ter presente que estamos falando, nos dois casos, de crises endógenas da economia capitalista. Enquanto que, no caso dessa crise atual, estamos falando de uma crise que atinge a economia capitalista, mas que foi provocada por um fator externo à própria economia e que não obedece às chamadas “leis econômicas”, mesmo quando possa provocar um estrago econômico e social equivalente ao das crises econômicas que foram mencionadas.

Da mesma forma, é muito comum comparar ou associar as grandes epidemias com as guerras, como se as duas viessem sempre juntas. Ou, ainda, dizer que as grandes pestes produzem sempre grandes inflexões, mudanças ou rupturas na trajetória das sociedades e do próprio sistema mundial. Mas nenhuma dessas teses tem sustentação empírica ou validez universal. É verdade que, quando as grandes pestes surgem ou se difundem junto com grandes guerras, elas tendem a ser mais rápidas e violentas, como foi o caso, por exemplo, da Gripe Espanhola, que se difundiu logo depois da Primeira Grande Guerra e que matou algo em torno de 50 milhões de pessoas em apenas dois anos, de 1918 a 1920.

No entanto existem inúmeras outras epidemias que surgiram e se difundiram sem nenhuma relação com guerras. Como foi o caso, só para citar algumas mais recentes, da febre amarela, do sarampo, da malária, da varíola, da tuberculose, ou mesmo a epidemia do HIV, que já infectou mais de 40 milhões de pessoas e matou mais de 20 milhões em todo o mundo sem ter nenhuma ligação direta ou causal com grandes guerras.

Da mesma forma, pode-se dizer, mesmo com o perigo do anacronismo histórico, que a Peste de Justiniano (527-569), que durou dois séculos e matou mais 100 milhões de pessoas, teve uma relação muito estreita com o fim do Império Romano. E mesmo se poderia dizer, talvez com muito maior razão, que a Peste Negra, que matou metade da população europeia no século 14, teve um papel decisivo no nascimento do sistema interestatal europeu. O historiador inglês Mark Harrison, da Universidade de Oxford, sustenta a tese de que foi a Peste Negra que provocou a centralização do poder dos Estados e sua delimitação territorial, como forma de controlar e limitar o contágio, difundindo novas práticas higiênicas entre as populações que ainda viviam sob a servidão feudal.

Acho que essa tese, aliás, faz todo sentido e ajuda a entender reação “egoísta” dos Estados nacionais, através dos tempos, toda vez que tiveram que enfrentar epidemias contagiosas, que se expandem por cima de suas fronteiras territoriais. Mesmo assim, todas as demais epidemias ou pestes que mencionamos podem ter provocado grandes avanços médicos ou sanitários, mas não produziram nenhuma grande ruptura histórica nem alteraram a rota expansiva do sistema mundial. Ou seja, a crise atual não é da mesma natureza que as crise de 1929 e de 2008, e não envolverá necessariamente nenhuma grande ruptura histórica.

TUTAMÉIA — POR QUE É MUITO COMUM COMPARAR AS EPIDEMIAS COM AS GUERRAS?

JOSÉ LUÍS FIORI — Acho que é uma comparação muito forte e que pode ser útil para mobilizar as populações e os atores sociais e econômicos mais importantes para o combate à doença. E, de fato, as grandes pestes costumam produzir consequências econômicas de curto e médio prazo parecidas com as das guerras. Além disso, nas grandes epidemias, como nas grandes guerras, os Estados nacionais são obrigados igualmente a assumir o comando estratégico do combate ao “inimigo comum”, estatizando atividades relevantes e implementando políticas econômicas típicas das chamadas “economias de guerra”.

Mas, ao contrário das guerras, as epidemias não costumam destruir cidades, infraestruturas, equipamentos físicos, fábricas ou qualquer outra atividade econômica. Por outro lado, as guerras envolvem pelo menos dois atores ou Estados que se consideram inimigos e que têm uma materialidade e uma identidade emocional que provoca uma imediata solidariedade nacional por cima das próprias classes sociais. Já as epidemias contagiosas, como a que estamos vivendo, não têm uma materialidade clara e afetam as classes sociais de um mesmo país de forma inteiramente diferente, provocando uma reação defensiva de tipo “egoísta”, por parte dos Estados, das classes e dos indivíduos, sendo muito comum a estigmatização das grupos sociais mais vulneráveis ou contagiadas. Por fim, e essa é uma diferença fundamental, nas guerras sempre existem os vencedores e os perdedores, e cabe ao vencedor impor as regras de sua “paz hegemônica”, que devem ser acatadas necessariamente pelos derrotados.

No caso das grandes pandemias, como a que estamos enfrentando, não há vitoriosos e perdedores nítidos, e não há nenhuma força material que imponha qualquer tipo de acordo em torno do que poderia ser um eventual plano de reconstrução coletivo.

Ou seja, as guerras são muito mais destrutivas, mas as saídas das pandemias são muito menos solidárias.

Hoje, muitos falam de um mundo novo, que poderia nascer desta experiência traumática, e até apostam em mudanças humanitárias do capitalismo. Mas não vejo a menor possibilidade de que isso aconteça. O próprio avanço da epidemia já está provocando uma guerra sem quartel entre as nações pelos equipamentos médicos. Essa guerra dever seguir e até aumentar depois da epidemia, junto com os ressentimentos que ficarão desta megaexperiência de egoísmo coletivo explicito.

TUTAMÉIA — QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS DESSA CRISE PARA A GEOPOLÍTICA GLOBAL? É CORRETO PENSAR QUE A CHINA SE CONSOLIDA COMO LIDERANÇA GLOBAL?

JOSÉ LUÍS FIORI — Essa pandemia não produzirá nenhuma grande inflexão geopolítica dentro do sistema mundial. O que ela fará é acelerar a velocidade das transformações que já estavam em curso e que seguirão se aprofundando. Alguém já disse que é na hora das grandes pestes que a gente conhece a verdadeira natureza de uma sociedade. Pois também acho que essa nova peste está apenas desvelando o que já existia, mas que ainda estava encoberto pelo que talvez se pudesse chamar de último véu de hipocrisia do que muitos analistas chamam de “ordem liberal”, ou de “hegemonia americana” do século 20.

A epidemia do novo coronavírus foi identificada na China, no final de dezembro de 2019, mas hoje já está claro que seu epicentro se deslocou para a Europa e os Estados Unidos e que sua duração não será nunca menor do que seis ou sete meses, sendo ainda difícil quantificar o tamanho do estrago e da destruição humana e econômica desses países. Mas ninguém tem dúvida que, se ela se estender para o Sul, terá um efeito muito maior e devastador sobre a população e a economia dos países “periféricos” da África, do Oriente Médio e da América Latina. E, depois que a epidemia passar ou for controlada, como sempre acontece, serão as grandes potências que se recuperarão na frente, começando pela China e pelos Estados Unidos.

Nesse sentido, o mais provável é que essa epidemia aumente a desigualdade e a polarização do mundo, que já vinham crescendo de forma acelerada desde a crise financeira de 2008. E deve acentuar a nova virada nacionalista do sistema interestatal, que já vinha se manifestando desde o início do século 21 e que assumiu alta velocidade depois que os Estados Unidos de Donald Trump mandaram para o espaço as suas antigas convicções multilateralistas e globalistas, começando pela sua própria política econômica.

A Rússia deverá sofrer um novo baque econômico com a epidemia e com a crise da indústria do petróleo, mas isso não afetará a sua nova posição como grande potência militar dentro do sistema mundial.

Na União Europeia, por sua vez, a pandemia deve apenas acelerar e, quem sabe, concluir o processo de implosão ou desintegração do seu projeto unitário, que já vinha se decompondo desde a crise de 2008 e que entrou alta rotação depois do Brexit.

E a China seguirá o curso do seu projeto expansivo programado para a metade do século 21, aproveitando as oportunidades e brechas abertas pela decomposição europeia, pela desvinculação norte-americana da antiga utopia da ordem liberal e da economia globalizada.

A aposta do poder americano nesse momento está inteiramente depositada na manutenção da sua supremacia no campo da moeda, no das finanças e no do controle naval de todos os mares e oceanos do mundo. Nesse ponto, não há que ter ilusões: o epicentro da crise de 2008 foi nos EUA. Mas, depois da crise e durante a segunda década do século 21, foi o país que mais cresceu entre os considerados desenvolvidos, chegando a aumentar sua participação no PIB mundial de 23% para 25%. Na mesma década, os EUA aumentaram seu poder financeiro global junto com sua capacidade de utilizar sua moeda e seu mercado financeiro para hostilizar seus inimigos e concorrentes. Nesse período, o mercado de capitais americano aumentou 250%, ficando com 56% da capitalização financeira global.

Os grandes bancos americanos dominam hoje as finanças globais mais do que em 2010. Cerca de 90% das transações financeiras globais são feitas em dólar. Ou seja, não há nada que impeça que os EUA superem essa nova crise e recuperem rapidamente sua capacidade econômica e financeira global, na frente de todos os demais países desenvolvidos –com exceção, talvez, da China.

Ou seja, olhando para a frente, há que colocar essa pandemia dentro de uma trajetória mundial de grandes transformações que já estavam em curso, incluindo a competição e o conflito entre China e Estados Unidos, que devem aumentar em escala exponencial depois da epidemia, sobretudo se Donald Trump for reeleito.

TUTAMÉIA — NO ESTOPIM DA CRISE NO CAMPO ECONÔMICO ESTÁ TAMBÉM A DISPUTA PELO MERCADO DE PETRÓLEO. COMO ESSA LUTA DEVE EVOLUIR? QUAIS DEVEM SER OS PAPÉIS DA RÚSSIA, DA ARÁBIA SAUDITA, DA CHINA E DOS EUA?

JOSÉ LUÍS FIORI — A pressão sobre os preços e os níveis de produção mundial de petróleo já vinha se acentuando desde antes da epidemia e se materializou na ruptura das negociações da OPEP+ e no início da guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita. Não há dúvida, no entanto, de que a pandemia do coronavírus e a consequente queda da demanda mundial de óleo foram decisivos para que o preço do petróleo caísse de US$ 70 para US$ 25 o barril, dando início à maior crise da indústria petroleira nos últimos cem anos, segundo muitos especialistas da área.

Não se sabe ainda por quanto tempo se prolongarão a epidemia e o baque da economia mundial, nem tampouco se sabe o tamanho e a duração da recuperação econômica depois do fim da pandemia. Mas uma coisa é certa: se os preços do petróleo se mantiverem nos níveis atuais, eles terão um impacto muito grande sobre a geoeconomia mundial do petróleo.

A indústria americana do shale oil teria que ser protegida pelo governo ou quebraria. E, neste caso, os EUA perderiam a posição que conquistaram nos últimos três anos, de maior produtor mundial de petróleo. Esses preços afetariam também a capacidade fiscal da Rússia e da Arábia Saudita e atingiriam em cheio os países petroleiros que trabalham com altos custos de produção, como é o caso do Irã, da Venezuela, do Iraque, da Nigéria etc.

Por isso, é muito provável que se siga uma nova crise da dívida soberana dos países dependentes da exportação do petróleo, como no caso quase imediato do Equador e do México, mas também do Iraque e da Nigéria, entre outros. Nesse momento, tudo leva a crer que as negociações, que foram retomadas, acabem levando a um acordo. Mas não é provável que os novos preços sejam superiores aos US$ 35 o barril. Mesmo esse preço seria insuficiente para alterar a situação do petróleo americano e, muito mais, dos países que dependem inteiramente da sua exportação de óleo.

Seja como for, as perspectivas pela frente são muito ruins para a indústria do petróleo como um todo e, como efeito derivado, para todo o mercado financeiro mundial e norte-americano em particular, envolvido até o pescoço com as cadeias de investimento e pagamento da indústria do óleo e com a própria valorização do petróleo como ativo financeiro.

TUTAMÉIA — OS EUA SE MOVIMENTAM NESSE MOMENTO NO CARIBE. UMA INVASÃO NORTE-AMERICANA NA VENEZUELA É UM CENÁRIO POSSÍVEL? QUAIS AS CHANCES DE ESSA INVESTIDA SER BEM SUCEDIDA? COMO REAGIRIAM CHINA E RÚSSIA NESSA HIPÓTESE? QUAL SERIA O PAPEL DO BRASIL?

JOSÉ LUÍS FIORI — No início do mês de março, publicamos um artigo com William Nozaki anunciando essa possibilidade através de um raciocínio e de um argumento deduzido a partir de várias evidências que pareciam ainda desconectadas. Mas hoje essa ameaça já se materializou, com o cerco naval da Venezuela em nome do combate ao tráfico de drogas que acontece sobretudo na Colômbia e no México. Já se falou de defesa da democracia, de necessidade humanitária, de combate ao comunismo etc. Mas agora se trocou pelo combate ao tráfico de drogas para o mercado consumidor norte-americano. Os motivos alegados já são a essa altura inteiramente irrelevantes. O que importa é a decisão e a ação norte-americana, do seu bloqueio naval, das suas sanções comerciais e da tentativa de estrangulamento financeiro da economia e do Estado venezuelano.

Creio que a invasão militar direta ainda é improvável –e, se ocorrer, será através de bombardeios navais. Antes disto, entretanto, os EUA apertarão o cerco cada vez mais para provocar pânico e aumentar o estresse psicológico do governo e da população venezuelana, inclusive com o boicote à capacidade médica venezuelana de combate na epidemia do coronavírus.

Creio que Rússia e China manterão seu apoio ao atual governo venezuelano, mas não sei calcular sua capacidade de bloquear ou desativar esse tipo de guerra que os americanos estão promovendo. Do ponto de vista militar e estratégico, a Colômbia é muito mais importante do que o Brasil. As bases americanas já estão instaladas no território colombiano e a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela é mais extensa e ativa do que a fronteira brasileira.

Nesse momento, o Brasil não tem capacidade militar nem financeira para enfrentar a Venezuela. Mas com certeza lhe será destinado um papel que o comprometa nessa ação, como fechar a fronteira sul da Venezuela, ou controlar e intervir na Bolívia e no Equador, que completam o quadro geopolítico junto com o Peru, da Amazônia Sul-Americana _e onde é muito provável que ocorram novas revoltas populares, na sequência da epidemia. A disputa dos EUA com a China e a Rússia já colocou a luta pelo controle da Amazônia Sul-Americana dentro do mapa geopolítico e econômico da competição entre as grandes potências econômicas e militares do sistema mundial. Esse parece ser um processo irreversível.

Os novos acordos militares entre o Brasil e os EUA, negociados pelo governo Temer e completados pelo atual governo brasileiro, como no caso do recente acordo RDT&E, que foi assinado pelas autoridades brasileiras diretamente dentro do Comando Sul das Forças Armadas dos EUA para a América Latina e o Caribe, inscrevem-se diretamente dentro dessa estratégia americana, à qual o Brasil agora está inteiramente subordinado. Amplos setores das FFAA brasileiras acreditam e apostam na possibilidade de que esses novos acordos possam transformar o Brasil numa espécie de “protetorado militar” dos EUA, com acesso a algumas tecnologias militares mais avançadas, que são entregues a alguns aliados mais estreitos dos EUA.

Mas, nesse caso, não fica claro para que serviriam essas armas. Seria ridículo imaginar que elas fossem suficientes para defender o país do ataque das grandes potências militares do sistema mundial. E, nesse caso, elas só seriam “úteis” contra os vizinhos mais fracos da América Latina, o que seria uma tragédia para as futuras gerações brasileiras. Além disso, seria importante que esses militares que não têm a representação da sociedade brasileira para tomar uma decisão dessa gravidade lembrassem, por um minuto que fosse, que o Iraque também foi armado pelos EUA para lutar contra o Irã, e depois foi inteiramente destroçado pelos próprios EUA.

TUTAMÉIA — QUAIS OS IMPACTOS DA CRISE SOBRE A ECONOMIA? O ATUAL ARRANJO PRODUTIVO DA CHAMADA GLOBALIZAÇÃO (COM FRAGMENTAÇÃO DA PRODUÇÃO E PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO) PODE RESISTIR A ESSA HECATOMBE?

JOSÉ LUÍS FIORI — Seus impactos imediatos serão devastadores. A epidemia do coronavírus não se destaca por sua taxa de mortalidade, que é bem menor do que a de muitas outras grandes epidemias. Ela se destaca pela velocidade do seu contágio e sua expansão universal. Ela foi identificada na China, no final do mês de dezembro de 2019, e em três meses já atingiu quase 200 países e mais de um milhão e meio de pessoas. Uma peste velocíssima e que é já praticamente universal, sem que se consiga prever o seu tempo de desenvolvimento futuro.

Alguns especialistas falam em seis a sete meses, outros em dois a três anos, mas seu impacto econômico foi quase instantâneo, atingindo a oferta e a demanda, com uma queda da produção e aumento vertiginoso do desemprego em quase todos os países do mundo, seguindo-se da quebra das grandes cadeias globais de produção e de pagamento ao redor do mundo, com efeito imediato sobre os circuitos financeiros de todo o mundo. Hoje, as perspectivas futuras já são muito ruins, mas elas podem piorar ainda mais, dependendo da duração da epidemia e da paralisia econômica dos EUA. E dependendo da profundidade de seu impacto sobre a economia europeia. E, sobretudo, sobre o sistema monetário europeu, que está ameaçado de naufragar junto com a própria União Europeia.

Não se deve esquecer que, se esse “apagão” econômico do Ocidente se prolongar, ele acabará dificultando também a recuperação da economia chinesa, que ficará temporariamente afastada dos grandes mercados consumidores de sua produção industrial. O FMI está revendo suas previsões a cada semana, mas já não tem dúvidas de que em 2020 a economia mundial terá uma grande recessão, com altíssimas taxas de desemprego, muito pior do que na crise de 2008.

Para os EUA em particular, estão prevendo uma queda do PIB neste ano que deverá ser o dobro da que ocorreu naquela grande crise. E a própria China está revendo para baixo suas previsões iniciais para sua economia, que já eram muito ruins para eles e para todo mundo.

A única pergunta que permanece sem resposta é sobre a duração provável desse baque econômico. Alguns falam em um semestre; outros em até três anos; no caso da maioria dos países mais pobres, já se fala da década de 2020 como uma década inteira perdida.

TUTAMÉIA –MUITOS TÊM APONTADO QUE A CRISE VAI ENTERRAR AS IDEIAS NEOLIBERAIS E QUE O ESTADO VOLTARÁ A SER CONSIDERADO COMO ESSENCIAL NA CONDUÇÃO DO ENFRENTAMENTO DA CRISE. ISSO FAZ SENTIDO?

JOSÉ LUÍS FIORI — Num primeiro momento, como em todas as situações de guerra, ou de grandes catástrofes, o Estado será obrigado a centralizar o comando e o planejamento sanitário e econômico do país e levar à frente uma política econômica “heterodoxa” de aumento expressivo dos seus gastos e de multiplicação do dinheiro disponível para as pessoas e as empresas. Mas nada disso garante que depois da crise os países mantenham essa mesma política de cunho mais fortemente keynesiano.

As grandes potências deverão rever as estratégias de globalização de suas cadeias produtivas.

A Rússia, a China e alguns países europeus procurarão aumentar seus graus de liberdade com relação ao sistema financeiro e monetário norte-americano. E todos deverão aumentar o grau de proteção mercantilista de seus territórios e de sua economia.

Os países periféricos e mais fracos, pelo contrário, deverão enfrentar as “dívidas da epidemia”, com a volta radicalizada a suas políticas anteriores de austeridade fiscal e de venda acelerada do patrimônio público na “bacia das almas”, na busca impossível do “equilíbrio perdido”.

Não é improvável que nesse momento se multipliquem as revoltas sociais ao redor do mundo e a mudança de governos nos países que ainda mantenham a prática de fazer eleições periódicas e regulares, na década de 2020.

TUTAMÉIA — É POSSÍVEL PREVER UMA CRISE FINANCEIRA QUE RESULTE NUM ENCOLHIMENTO DESTE SETOR NA ECONOMIA MUNDIAL?

JOSÉ LUÍS FIORI — Se a epidemia e a recessão econômica se prolongarem, é muito provável que tenhamos uma crise financeira mais grave pela frente, apesar de os governos e os bancos centrais dos países mais ricos terem reagido de forma bastante rápida, mais rápida do que em 2008. Nesse momento é do interesse direto dos EUA e do Fed repetir o que fizeram naquela última crise financeira, assegurando liquidez em dólares para os BCs das principais economias capitalistas dependentes do seu sistema financeiro.

Seja como for, não devemos nunca esquecer a lição fundamental do historiador Fernand Braudel, sobre a história do capitalismo: na origem do capitalismo, na primeira a hora de sua existência, se estabeleceu uma relação muito estrita entre os príncipes e os banqueiros e, desde então, eles permanecem unidos, numa espécie de casamento indissolúvel, através de toda a história capitalista. Tudo indica que seguirão juntos e inseparáveis, se defendendo mutuamente e mantendo seus espaços relativos de poder, até o fim da história capitalista, se é que ela terá um fim.

TUTAMÉIA –O GOVERNO BRASILEIRO TEM SE MOSTRADO INEPTO NO ENFRENTAMENTO DA CRISE. O QUE É POSSÍVEL PREVER SOBRE OS DESDOBRAMENTOS DA CRISE NO PAÍS DO PONTO DE VISTA SANITÁRIO, SOCIAL E ECONÔMICO?

JOSÉ LUÍS FIORI — A epidemia apenas explicitou o que já se sabia: que o Brasil é presidido nesse momento por um cidadão inteiramente desequilibrado, inepto e ignorante. E que a economia brasileira está nas mãos de um pequeno financista, que só tem uma única ideia fixa na sua cabeça. E, por isso, não consegue entender, pensar e reagir de forma um pouco mais inteligente e eficiente frente ao tamanho da crise que o país está enfrentando. Na verdade, não se trata de um governo; se trata de um amontoado de pessoas reunidas pelos seus medos, suas fobias e seus ódios ao petismo, ao lulismo, à China, ou seja lá ao que for.

Ou seja, um governo inteiramente despreparado e sem comando e, portanto, incapaz de enfrentar uma crise dessas proporções. Foram lentos e estão divididos frente à epidemia e mal conseguem se mover no plano econômico para fazer o que todos os governos do mundo estão fazendo. Ou seja, emitir e distribuir o dinheiro indispensável para que as pessoas –sobretudo os desempregados e subempregados– e as empresas possam seguir comprando, pagando e cumprindo seus compromissos financeiros durante a paralisia inevitável da atividade econômica e durante a longa recessão que teremos durante muito tempo.

Segundo o próprio Ministério da Saúde, a epidemia no Brasil está recém na sua primeira fase e deve se agravar em maio e junho, chegando até no mínimo a setembro. Além disso, o contágio epidêmico parece ainda não ter alcançado as populações mais pobres e marginalizadas das grandes cidades brasileiras –São Paulo e Rio de Janeiro, em particular. Sabidamente, o Brasil está entre as sociedades mais desiguais do planeta e isso o torna extremamente vulnerável frente à uma epidemia contagiosa que, quando alcançar as populações e as comunidades mais pobres, terá um efeito devastador.

Hoje, os governadores dos Estados têm atuado de forma mais eficiente do que o governo federal. Mas logo à frente o problema será alimentar a população de desempregados e miseráveis de todo o país, sobretudo de suas grandes cidades. E aqui não há como se enganar: os prognósticos para um país tão desigual e sem governo são os piores possíveis.

TUTAMÉIA — É POSSÍVEL QUE BOLSONARO POSSA SAIR DO GOVERNO EM MEIO A ESSA CRISE? POR IMPEACHMENT? POR GOLPE? OU POR ALGUM OUTRO ARRANJO QUE AINDA NÃO VISLUMBRAMOS?

JOSÉ LUÍS FIORI — Depois de um ano de pirotecnias verbais e gestuais, esse senhor não se sustenta mais por si mesmo. Ele foi instalado na Presidência da República por uma operação política, jurídica e militar, nacional e supranacional bem sucedida. Mas ele é inteiramente incapaz de governar ou mesmo de tomar alguma decisão um pouco mais difícil e que demande um nível intelectual um pouco mais elevado. Sua inépcia pessoal e sua total ignorância o impedem de saber o que fazer frente a situações desse tipo.

Ele é uma espécie de boneco mecânico que foi programado para fazer sempre a mesma coisa, como se fosse um boneco que só sabe cuspir e que reage frente a tudo sempre da mesma maneira, cuspindo em qualquer circunstância. Isso já estava claro desde o início, mas ficou muito mais visível no momento em que em que ele foi obrigado a enfrentar uma situação que não estava prevista no seu programa e começou então a dizer bobagens e fazer agressões a esmo. Só que, nesse caso, ameaçando a vida dos próprios brasileiros.

Frente a uma pandemia mundial, ele já não tem como jogar bananas, dizer palavrões, agredir quem quer que seja. Sua única habilidade de paranoico agressivo ficou inteiramente fora de foco. Assim mesmo, o mais provável é que esse senhor siga sentado na cadeira presidencial por inteira falta de alternativa de seus principais sustentadores: os financistas de plantão e os generais aposentados que o cercam.

Por isso, esse senhor deverá seguir onde está e fazendo as suas asnices diárias que nos envergonham como brasileiros. E o país deverá seguir desgovernado a despeito da junta militar que cuida do capitão, mas não tem comando direto sobre a hierarquia das Forças Armadas. Hoje existem poucos economistas que queiram substituir o pequeno ministro de uma ideia só, porque o desastre econômico já vai muito avançado para que alguém queira pagar a conta e ficar com o abacaxi na mão. E, portanto, o nosso prognóstico político e econômico para o Brasil é muito ruim, e a situação deverá ficar ainda pior quando começarem a surgir os primeiros focos de rebeldia social inorgânica, movidos pela fome e pela miséria, que crescerão de forma geométrica no ano de 2020.

TUTAMÉIA — AS OPOSIÇÕES TERÃO FORÇA POLÍTICA PARA AGIR NESSE QUADRO?

JOSÉ LUÍS FIORI — Força política é uma coisa que se conquista no dia a dia, com a capacidade de saber o que dizer e saber o que fazer frente aos grandes desafios e oportunidades que se abrem na hora das grandes crises. Ninguém é forte de antemão. Na hora das grandes catástrofes muitas fronteiras se desfazem. Como dizia o poeta Antônio Machado, em plena Guerra Civil Espanhola: nessas horas, “o caminho se faz ao caminhar”.

………

Foto em destaque: Guilheeme Gandofi/Fotos Públicas

Um belo domingo, rapazes!

Acordei Cruz e Sousa. Fui na varanda e curti a claridade das manhãs ensolaradas de abril.


“Sol, rei astral, deus dos sidérios Azuis,

que fazes cantar de luz os prados verdes, cantar as águas!

Sol imortal, pagão, que simbolizas a Vida, a Fecundidade! “

Neste domingo de necessária quarentena, lembrei-me de Semprun em “Um belo domingo”, que li há muito tempo. Não tenho mais o livro. Alguém levou emprestado e não devolveu. Tudo bem. Livros são feitos para proporcionar viagens e para, eles próprios, viajarem de mãos em mãos.

Neste domingo em que o Brasil enfrenta duas pestes, um vírus invisível e uma ameaça totalitária no governo, visível, não haveria motivos para curtir o sol e abstrair a dura realidade. Mas acordei Semprun. Recorri à internet e recuperei uma passagem marcante do livro:

“Manhã fria e cinzenta, no campo de concentração de Buchenwald, em que um prisioneiro, sem nenhuma razão plausível para a admiração, comenta: um belo domingo, rapazes!” *

E segue Cruz e Sousa …

Permite-me que um instante repouse na calma das Idéias, … e deixe lá fora, no rumor do mundo, o tropel infernal dos homens ferozmente rugindo e bramando sob a cerrada metralha acesa das formidandas paixões sangrentas.

Concede, Sol, que os manipanços não possam grotescamente, chatos e rombos, com grimaces e gestos ignóbeis, imperar sobre mim; e que nem mesmo os Papas, (os medievais papas e os novos pastores, eu diria) que têm à cabeça as veneráveis orelhas e os chavelhos da Infalibilidade, para aqui não venham com solene aspecto abençoador babar sobre estas páginas os clássicos latins pulverulentos, as teorias abstrusas, as regras fósseis, os princípios batráquios, as leis de Crítica-megatério.

E faz igualmente, Sultão dos espaços, com que os argumentos duros, broncos, tortos, não sejam arremessados à larga contra o meu cérebro como incisivas pedradas fortes.

Livra-me tu, Luz eterna, desses argumentos coléricos, atrabiliários, como que feitos à maneira das armas bárbaras, terríveis, para matar javalis e leões nas selvas africanas.

Pelo cintilar de teus raios … faculta-se … o magnificente poder de rir – rir e amar, perpetuamente rir… perpetuamente amar…

* eliesercesar.wordpress.com

A cavalaria verde-oliva não virá para nos salvar

A cavalaria verde-oliva não virá para nos salvar, por Igor Grabois

O ocupante do Planalto é tão ruim, mas tão ruim, que até os militares parecem ser melhores. Só que não. A imprensa e vastos setores da esquerda estão comprando a versão de que Bolsonaro foi enquadrado, que o general Braga Netto tem poderes demiúrgicos de enquadramento do capitão tresloucado, que os militares são racionais em contraste com as loucuras do capitão. E o general Mourão, o famoso “mal menor”, foi elevado a um quase-cara-legal, alternativa de poder viável.
As fontes da versão Braga Netto presidente de fato levam sempre ao mesmo lugar, ao site Defesanet, editado por Nelson During, renitente vivandeira de quartel e porta-voz dos generais de pijama do Rio Grande do Sul. O jornal italiano La Repubblica elevou o Defesanet a órgão oficial do Ministério da Defesa. Nem tanto, apenas oficioso, como se dizia antigamente. O editor During só publica o que é de interesse dos generais. E, para os generais, interessa a imagem de Braga Netto como o todo-poderoso.
Há um propalado documento do Centro de Estudos Estratégicos do Exército, ligado ao que os militares chamam de Órgão de Direção Geral, o Estado Maior do Exército. Lá foram encontradas teses que contrariariam a visão bozonariana da pandemia. Essas teses consistem, se é que contrariam, em duas posições, sobre a eficácia do isolamento horizontal na curva ascendente da epidemia, que perpassa o documento, e uma citação, que o papel do Estado é fundamental nessa travessia. Porém, o objetivo do documento é justamente levantar os critérios de isolamento horizontal em direção à normalidade, inclusive pelo título do documento, “Estratégias de transição para a normalidade”.
Nesta segunda correu a versão que os militares haviam impedido o capitão tresloucado de demitir o ministro Mandetta. Já corre, nessa terça, 7 de abril, a versão de que Mandetta fez um acordo com o Bolsonaro para ficar no cargo, de recuar em aspectos do isolamento horizontal e esse acordo teria sido costurado pelos militares.
O capitão e seus filhos só têm uma entidade que os enquadra, Donald Trump. A imprensa internacional já dá conta dos interesses de Trump na produção da tal cloroquina. E o Laboratório do Exército está fabricando adoidado a cloroquina, como se pode conferir nos sites do Exército e do Ministério da Defesa. O Itamaraty (oque fazem com a memória do Barão de Rio Branco) é, hoje, uma subseção do Departamento de Estado, repercutindo toda a política militar dos EUA. Vide a posição brasileira acerca da provocação naval levada a curso contra a Venezuela. O enquadramento pelos militares parece uma tabelinha, como se diz no futebol.
Pois bem, os autores racionais do documento “Estratégias de transição para a Normalidade” são os mesmos que inventaram o conceito de “Arco do Conhecimento”, ou seja o arco geográfico do Atlântico Norte, ainda em 2017. Desde então, ao contrário do que preconiza a Estratégia Nacional de Defesa, os militares abrem mão da autonomia tecnológica, doutrinária e operacional para buscar tecnologias e doutrinas nos membros da OTAN. O fato de o Brasil se tornar aliado extra-Otan não veio da “inteligência” do capitão ignóbil. É uma formulação dos militares.
A FAB permitiu a entrega da Embraer, escondendo, inclusive, relatórios internos da Força. E entregou a base de Alcântara. A Marinha preside o desmonte da Petrobras, a privatização da Eletrobras e a entrega do setor nuclear para empresas americanas. O almirante Leal Ferreira é presidente do Conselho da Petrobras e o almirante Bento é o ministro das Minas e Energia. O Exército nomeou um general para ser subcomandante do Comando Sul do Pentágono. Não dá pra botar esses fatos apenas na conta do capitão. As Forças Armadas agem, por orientação de seu comando, como um corrente política anti-nacional e anti-popular.
Por fim, as relações do capitão com os militares têm um método. Esse método foi aplicado em todas as crises provocadas pelo capitão. O capitão estica a corda. Causa indignação nacional. O capitão ensaia um recuo. Esse recuo é atribuído aos militares. Essas medidas voltam de maneira edulcorada. Os militares apoiam o capitão publicamente. O caso das MP’s 927 e 936, as do confisco salarial, é emblemático. É o que parece ocorrer com o affair Mandetta.
A cada crise, os militares avançam. Pelo menos a cúpula das forças, que apoia Guedes, Moro, e toda política neoliberal e de destruição da Constituição de 88. A lista de cargos assumidos pelos militares é interminável. Afora os seus privilégios na reforma previdenciária.
A saída para o Brasil é necessariamente popular. A prioridade hoje é combater e superar a pandemia, e isso deve nortear a ação do campo popular. Não podemos, porém, incorrer no erro de tratar os militares como alternativa. Esses dirigentes militares que aí estão são saudosos da ditadura e de suas políticas. O povo brasileiro não pode entregar os seus destinos aos generais.

“Milão. A cidade mais privilegiada de Itália está agora na fila do pão.”

“Milão. A cidade mais privilegiada de Itália está agora na fila do pão.”

De Milão, onde vive e está isolado, o professor e e escritor italiano Antonio Scurati escreve o que vê da janela da sua casa.

Texto publicado no jornal português Observador.

“Como posso convencer a minha mulher de que, enquanto olho pela janela, estou a trabalhar? — perguntava-se Joseph Conrad no início do século passado. Eu, em vez disso, pergunto-me: como posso explicar à minha filha que, quando olho pela janela, vejo o fim de uma era? A era em que ela nasceu, mas que não conhecerá, a era do mais longo e distraído período de paz e prosperidade desfrutado na história da Humanidade.

Vivo em Milão, até ontem a mais evoluída, rica e brilhante cidade de Itália, uma das mais desejadas do mundo. A cidade da moda, do design, da Expo. A cidade do aperitivo, que deu ao mundo o Negroni Sbagliato e a happy hour e que hoje é a capital mundial do Covid-19, a capital da região que, sozinha, soma trinta mil contágios confirmados e três mil mortos. Uma taxa de mortalidade de 10%, os caixões empilhados à frente dos pavilhões dos hospitais, uma pestilência vaporosa que paira sobre as torres da sua catedral como sobre as cidades amaldiçoadas das antigas tragédias gregas.

As sirenes das ambulâncias tornaram-se a banda sonora dos nossos dias; as nossas noites são atormentadas por homens adultos que choramingam no sono:
— O que é, sentes-te bem?
— Nada, não é nada, volta a dormir.
Milhares de amigos, parentes e conhecidos tossem até cuspir sangue, sozinhos, fora de todas as estatísticas e sem qualquer assistência, nas camas dos seus estúdios decorados por arquitetos de renome.

Se, neste momento, olhar pela janela, vejo uma pobre loja de conveniência gerida com admirável diligência por imigrantes cingaleses. Até ontem, era uma singular anomalia neste bairro semicentral e, ao seu modo elegante, uma nota dissonante.
Hoje é um lugar de peregrinação. Na fila para o pão em frente às suas vitrinas despidas, vejo homens e mulheres que até ontem o desdenhavam por não ter a sua marca preferida de farinha.
Ficam, apoiados pela disciplina do desânimo, a um metro de distância uns dos outros, ao mesmo tempo ameaçadores e ameaçados, com máscaras improvisadas, feitas de pedaços de tecido com os quais, até ontem, protegiam as plantas exóticas do seu roof garden, gazes desfiadas penduradas nos seus rostos com a melancolia mole dos restos de uma era acabada.

Vejo estes homens e estas mulheres tristes, incongruentes consigo mesmos. Olho-os. Não tenho nenhuma intenção de os diminuir ou de troçar deles. São homens e mulheres adultos, contudo por cima das máscaras mostram o olhar assustado das crianças carentes.
Chegaram totalmente despreparados ao seu encontro com a história e, no entanto, precisamente por este motivo, são homens e mulheres corajosos. Fizeram parte do pedaço mais abastado, protegido, longevo, bem vestido, nutrido e cuidado da Humanidade a pisar a face da Terra e, agora, na casa dos cinquenta, estão na fila do pão.

A sua aprendizagem na vida foi uma longa aprendizagem da irrealidade televisiva. Tinham vinte anos quando assistiram, a partir das suas salas de estar, à primeira guerra da história humana ao vivo na televisão, trinta quando foram alvejados através dos televisores pelo terror midiático, quarenta quando a odisseia dos condenados da terra aterrou nas praias das suas férias. Todos encontros fatídicos que não poderiam perder. As grandes cenas da sua existência foram consumidas em eventos midiáticos, foram guerreiros de sala, banhistas nas praias dos migrantes, veteranos traumatizados pelas noites passadas em frente à televisão. E agora estão na fila do pão.

A sua infância foi uma mangá japonesa, a sua juventude uma festa de piscina — lembram-se? Era sábado à noite e íamos a uma festa; era sempre sábado à noite e íamos sempre a uma festa —, a sua idade adulta é um tributo a uma trindade insossa e feroz: o frenesi do trabalho, os verões na praia, o sublime do spa. Viveram bem, melhor do que qualquer outra pessoa, mas quanto mais viviam, mais inexperientes eram na vida: nunca conheceram o terror da guerra, nunca foram tocados pelo sentimento trágico da existência, nunca viveram uma questão sobre o seu lugar no universo.
E agora, aos cinquenta anos, com os cabelos já brancos, o abdómen prolapso e a ânsia que lhes incomoda os pulmões, estão na fila do pão.

Turistas compulsivos, correram o mundo sem nunca sair de casa e agora a sua casa marca para eles os limites do mundo; sofreram quase só dramas interiores e agora o drama da história catapulta-os para a linha de fogo de uma pandemia global; têm uma casa na praia e um carro de última geração, mas agora estão na fila do pão; tiveram mais cães do que filhos e agora arriscam as suas vidas para levar o seu caniche a mijar.

Olho-os da janela do meu estúdio enquanto escrevo. Observo-os enquanto o número de mortes sobe para quatro mil, enquanto o contágio cresce exponencialmente, enquanto sustenho a respiração para não inalar o ar do tempo. Olho-os e compadeço-me deles porque foram a geração mais sortuda da história humana, mas, depois, tocou-lhes viver o fim do seu mundo justamente quando começaram a ficar demasiado velhos para esperar um mundo vindouro. Porém, terão de o fazer. E o farão, estou seguro. Vão ter de imaginar o mundo que têm sido obrigados a experimentar nestes dias: um mundo que se questiona sobre como educar os próprios filhos, sobre como preservar um ar respirável, sobre como cuidar de si e dos outros. Uma era acabou, outra começará. Amanhã. Hoje estamos na fila para o pão. Hoje os jornais titulam: “resiste, Milão!” E Milão resiste.

Lanço um último olhar pela janela sobre os meus contemporâneos dos cinquenta anos, os meus concidadãos milaneses, os meus rapazes repentinamente envelhecidos: como são grandes e patéticos com os seus ténis de corrida e as suas máscaras cirúrgicas. Tenho piedade, compreendo-os, compadeço-me deles. Dentro de alguns segundos estarei na fila junto deles.”

Antonio Scurati – professor de Linguística e Comunicação na Universidade de Milão.

Via Mauricio Machado

Compartilhado do Facebook de Ulisses Ferraz

Considerações sobre o Manifesto “O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro”,

Compartilhado de aterraeredonda.com.br

Por Marilena Chaui*

Considerações sobre o Manifesto “O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro”.

“Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer” (Geraldo Vandré)

Maquiavel dizia que o verdadeiro político é aquele que, na desordem e no tumulto, sabe discernir o momento oportuno para agir. O Manifesto “O Brasil não pode ser destruído por Bolsonaro” é uma convocação para agirmos no momento oportuno.

Seu acerto é duplo. Em primeiro lugar, por propor agir como uma frente nacional contra a irresponsabilidade criminosa de incitação ao homicídio feita por Bolsonaro ao se opor ao isolamento social (imaginando-se aliado e cópia de Donald Trump, acabou isolado pelo mundo inteiro) e sua demora em tomar providências mínimas para assegurar a vida de milhões de brasileiros, procrastinando a liberação de recursos com querelas sobre MPs e decretos.

Em segundo lugar, o Manifesto acerta ao propor a renúncia de Bolsonaro e não seu impeachment, pois este acrescentaria à crise atual mais uma crise (longa e de resultado imprevisível) que abriria espaço para divergências e lutas num momento em que a sociedade brasileira clama por clareza de objetivos e de ações.

Para não esquecer

Durante os últimos 35 anos, vimos surgir e agir uma personagem que, do Alto e à nossa revelia, decidia os rumos do planeta. Essa personagem foi batizada pelos meios de comunicação e pelos economistas de direita com o nome de “O Mercado”, dotado de onisciência e onipotência. Onisciência porque, tendo a extraordinária capacidade de auto-regulação racional, sabe sempre e de antemão os rumos corretos e necessários do capitalismo. Onipotência porque possui um poder incontestável de decisão sobre as ações dos Estados e das sociedades e sobre os corações e as mentes dos indivíduos. Como toda divindade fetichista, “O Mercado” tem reações psicológicas: “está nervoso”, “está calmo”, “está de acordo”, “não está de acordo”, “aprova”, “desaprova”, “recompensa”, “pune”. Em suma, o seu “estado de espírito” repercute nas políticas do planeta e na vida cotidiana dos cidadãos. “O Mercado”, como sabemos, é o apelido do capitalismo neoliberal.

Ora, algo curioso vem acontecendo nas últimas semanas com a expansão do coronavírus ou Covid-19. Nos meios de comunicação, nos debates políticos, nas falas de governantes e nas redes sociais a palavra “mercado” desapareceu como por um golpe de mágica. Jornalistas, políticos, governantes e cidadãos passaram a empregar duas palavras que haviam sido banidas do vocabulário: economia e Estado. Como conseqüência, de repente, não mais que de repente, o vocabulário da socialdemocracia – controle estatal da economia e políticas sociais – é retomado.

Exemplifiquemos com o caso do Brasil.

Sem a menor vergonha na cara, agora é feito o elogio do Bolsa Família (aquele programa que era assistencialismo para os preguiçosos, lembram-se?), do SUS (aquele que Mandetta desativou quase por completo, lembram-se?) e muitos apregoam a necessidade da Renda Básica ou da Renda Mínima (sem que Eduardo Suplicy seja mencionado uma única vez nem entrevistado como o incansável campeão dessa idéia). Por sua vez, o “empresário de si mesmo”, os trabalhadores informais, os desempregados e os moradores de favelas e de rua passaram a receber uma nova designação: “vulneráveis”, como se sua vulnerabilidade tivesse surgido por conta do Covid-19 e não da aliança entre “O Mercado” e o governo neoliberal.

É espantoso o descaramento do uso da palavra “solidariedade” por aqueles que controlam ideologicamente a mídia e a política e que, até um mês atrás, se empenhavam do elogio irrestrito à competição e à “meritocracia”. Além disso, com igual descaramento, o governo federal exige que os cientistas das universidades públicas e dos centros públicos de pesquisa tragam rapidamente soluções para aquilo que deixou de ser “histeria” para ser considerado pandemia, sem que se diga que não houve investimento algum nas pesquisas públicas (lembram-se de Bolsonaro afirmando que pesquisa séria só é feita em universidades privadas e Weintraub cortando as bolsas de pesquisa do CNPq e da CAPES?). Exemplos não faltam se lembrarmos tudo o que foi dito e feito desde o golpe contra Dilma e a prisão de Lula.

Em suma, a referência à mudança de vocabulário e à relação com as políticas sociais é feita aqui no sentido de que é preciso resgatar e unificar por meio dos partidos de oposição as lutas e manifestações de movimentos sociais e populares em defesa de direitos que, desde o governo Temer, se espalharam pelo país, mas eram sempre fragmentadas, esporádicas e sobretudo criminalizadas. Insisto na figura dos chamados “vulneráveis” porque, a despeito da ideologia neoliberal sobre a “nova classe média brasileira”, são eles que constituem, na verdade, o que chamo de “nova classe trabalhadora brasileira”, fragmentada e isolada, carecendo de organizações de proteção, desprovida de uma visão social e política que lhe dê um lugar na luta democrática e socialista. Esse resgate de lutas e essa unificação de classe poderão, agora, encontrar eco na sociedade brasileira em sua rejeição a Bolsonaro.

Para nos ajudar a compreender

Penso que o artigo de Harvey “Política anticapitalista na época do Covid19”, é iluminador tanto sobre a situação planetária do capitalismo e da crise do neoliberalismo – combatido de Santiago à Beirute –, bem como sobre o lugar do Covid-19 na luta de classes, ponto que merece nossa maior atenção e pode guiar muitas das ações propostas pelo Manifesto. Harvey traça com firmeza o panorama planetário do neoliberalismo vitorioso, das lutas contra ele e dos efeitos do Covid-19 sobre ele, assinalando a ironia histórica do surgimento de uma perspectiva socialista no centro do mundo neoliberal.

Também considero importante para nossa reflexão e ação, o artigo de Paulo Capel Narvai, “A estratégia da pinça”. Narvai salienta que o que está em jogo não é a pandemia, mas as eleições de 2022. É particularmente significativa sua análise sobre a luta do grupo bolsonarista contra os governadores, que serão responsabilizados pelo péssimo desempenho da economia (o “pibinho” e o “dolão”), e sobretudo sua analise do papel de Mandetta nesse jogo, isto é, do discurso técnico aparentemente oposto ao discurso psicótico de Bolsonaro.

Uma proposta para discussão

Algumas pesquisas, mencionadas por articulistas de A Terra é Redonda e pelo site Brasil 247 indicam que, no Brasil, os mais penalizados pelos efeitos do Covid-19 (tanto do ponto de vista da saúde quanto da subsistência) são exatamente os eleitores dos partidos de oposição, particularmente os de esquerda. Em outras palavras, são aqueles de cujas organizações e lutas nasceram os projetos e programas dos partidos de esquerda, e também aqueles, destroçados pela economia e política neoliberais, que hoje buscam o caminho que define a essência da democracia, qual seja, a criação e garantia de direitos. Os partidos de oposição (esquerda e centro) devem a eles sua presença na política brasileira e por isso faço aqui uma proposta.

O Manifesto, como frente nacional de oposição, apresenta uma lista de ações necessárias a serem exigidas do governo federal, mas essa frente nacional também pode agir diretamente no atendimento emergencial dos que foram os mais atingidos pela destruição dos direitos sociais e por isso são também os mais atingidos, no curto e no longo prazo, pelo Covid19, pois são os que mais dependem dos serviços públicos e das garantias trabalhistas. Proponho que se considere a possibilidade de dirigir os fundos partidários para ações emergenciais, de maneira a deixar claro que o Manifesto é político e social. Isso configuraria uma espécie de governo paralelo? Que assim seja.

*Marilena Chaui é Professora Emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Carta aberta do cônsul da China a Eduardo Bolsonaro

Deputado Eduardo, no tuíte que você postou no dia 1º de abril, chamou o Covid-19 (SARS-CoV-2) de “vírus chinês”, o que se trata de mais um insulto à China que você fez depois de ter postado tuítes em 18 de março para atacar maliciosamente a China.

Você é realmente tão ingênuo e ignorante? Como deputado federal da República Federativa do Brasil que possui alguma experiência em tratar dos assuntos internacionais, você deveria saber que os vírus que causam pandemia são inimigos comuns do ser humano, e a comunidade internacional nunca chama os vírus pelo nome de um país ou região para evitar a estigmatização e a discriminação contra qualquer grupo étnico específico. A Organização Mundial da Saúde seguiu esta regra do direito internacional para chamar o novo coronavírus de Covid-19 (SARS-CoV-2). Além disso, ainda está por se confirmar a origem deste vírus. O surto de Covid-19 em Wuhan não significa necessariamente que Wuhan foi a fonte inquestionável do novo coronavírus.

O diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos já reconheceu que, durante a chamada “epidemia de gripe” nos Estados Unidos, no ano passado, algumas pessoas teriam morrido por Covid-19. Isso justifica que, muito provavelmente, os Estados Unidos foram a fonte da Covid-19. Mas podemos batizar o Covid-19 (SARS-CoV-2) como “vírus norte-americano”? Não! Do mesmo modo, ninguém no mundo pode chamar o zika como “vírus brasileiro”, apesar do fato de a epidemia de zika ter acontecido e ainda acontecerem casos frequentemente no Brasil.

É por causa do seu ódio à China que ataca frequentemente a China? Mas de onde vem esse ódio? A aproximação entre a China e o Brasil é resultado de um desenvolvimento histórico com alicerce natural. Tanto a China como o Brasil são grandes países emergentes com território e população gigantes, com culturas ricas e coloridas e povos simpáticos e amigos. Ambos os países possuem planos grandiosos para promover a prosperidade e riqueza nacionais, bem como ambição para salvaguardar a paz e justiça internacionais. É ainda mais importante o fato de que não há divergências históricas nem conflitos atuais entre os dois países, que já se tornaram parceiros estratégicos globais. O povo chinês sempre abraça o povo brasileiro com sincera amizade, tratando o Brasil como nosso país irmão e parceiro. O respeito recíproco e a cooperação de ganhos mútuos de longo prazo entre os dois países trazem benefícios pragmáticos para os dois povos. Por dois anos consecutivos, dois terços do superávit do comércio exterior do Brasil vieram da China, o seu maior parceiro comercial! É por isso que tanto a geração do seu pai como a da sua idade estão todos se dedicando a promover a cooperação amigável sino-brasileira. Em resumo, os seus comportamentos remam contra a maré e não só colocam você no lugar adverso do povo chinês de 1,4 bilhão, mas também deixam a maioria absoluta dos brasileiros com vergonha, bem como criam transtornos ao seu pai, que é o presidente da República. É realmente uma prova de ignorância a respeito do tempo atual!

Será que você recebeu uma lavagem cerebral dos Estados Unidos e quer ir firmemente na esteira deles contra a China? Os Estados Unidos eram realmente um país grande e glorioso. No entanto, neste ponto crítico do avanço da civilização humana, os EUA perderam sua posição histórica e o sentido de desenvolvimento, tornando-se quase totalmente causadores de problemas nos assuntos internacionais, e uma fonte de ameaça à paz e segurança mundiais. Os líderes atuais norte-americanos já se esqueceram dos ideais dos fundadores do país de assegurar a justiça. Ademais, tornaram-se monstros políticos cheios de preconceitos ideológicos contra os outros países e sem capacidade de governar, o que pode ser justificado pelo desempenho horrível no combate à pandemia de Covid-19 nos EUA. Por outro lado, sendo uma potência cheia de vitalidade e em ascensão, o Brasil deve e é capaz de fazer contribuições importantes para o progresso da civilização humana, desde que tenha sua própria visão estratégica, possua sua perspectiva correta sobre os assuntos internacionais e desempenhe seu próprio papel construtivo. O Brasil não deve tornar-se um vassalo ou uma peça de xadrez de um outro país, senão o resultado seria uma derrota total num jogo com boas cartas, como diz um provérbio chinês.

Deputado Eduardo, há pelo menos uma semelhança entre a cultura confucionista chinesa e a cultura cristã brasileira, que é a crença em que sempre existe a causalidade em tudo, razão pela qual a gente tem que pensar nas consequências antes de fazer qualquer coisa. Como não é uma pessoa comum, você deveria entender melhor essa razão. O que é o mais importante para o Brasil agora? Sem dúvida, é salvaguardar a vida e a saúde de centenas de milhões de pessoas, e reduzir ao mínimo o impacto da pandemia na economia do Brasil, da China e do mundo, através da cooperação China-Brasil no combate à Covid-19. A China nunca quis e nem quer criar inimizades com nenhum país. No entanto, se algum país insistir em ser inimigo da China, nós seremos o seu inimigo mais qualificado! Felizmente, mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil. Porém, como é um deputado federal, as suas palavras inevitavelmente causarão impactos negativos nas relações bilaterais. Isso seria uma grande pena! Contaminaria e poluiria totalmente o ambiente saudável que China e Brasil conquistaram até aqui.

Portanto, é melhor ser mais sábio e racional. Você pode não pensar na China, mas não pode deixar de pensar no Brasil. O demônio da Covid-19 chegou finalmente à maravilhosa terra brasileira. Neste momento crucial da cooperação bilateral no combate à pandemia de Covid-19, seria mais prudente não criar mais confusões. Ainda mais importante, seja um verdadeiro brasileiro responsável, ao invés de ser usado como arma pelos outros!

Li Yang é cônsul-geral da República Popular da China no Rio de Janeiro

De onde veio o dinheiro? por Nelson Barbosa

De onde veio o dinheiro?

Nelson Barbosa

A crise do Covid-19 produziu um raro consenso entre economistas. Acostumados a divergir em várias coisas, hoje a maioria de nós acha necessário um aumento temporário e substancial do déficit público para salvar vidas evitar uma queda maior da economia.

Quase que em um passe de mágica, besteiras como “acabou o dinheiro” ou “PIB público versus PIB privado” desapareceram do debate público. Hoje somos todos keynesianos contra crise.

Diante da mudança de opinião por parte de vários colegas, sinto-me no dever de explicar de onde apareceu tanto dinheiro para combater o Covid-19.

O dinheiro já existia há algum tempo, devido ao alto desemprego e elevada ociosidade da economia desde 2016, mas vários colegas escondiam este fato, pois do contrário não poderiam defender um ajuste fiscal draconiano. Vamos por partes.

O governo financiará suas políticas anticrise com emissão de dívida. O Tesouro colocará mais títulos no mercado, retirando moeda da economia. Ato contínuo, o Tesouro gastará os recursos, reinjetando moeda na economia.

No final do processo a dívida pública em poder do mercado subirá, isto é, a sociedade terá emitido uma obrigação contra si mesma, criando poder de compra hoje para ser pago com resultado primário no futuro.

Quanto? A resposta depende do próprio sucesso da política de estabilização. Se as iniciativas derem certo e o PIB se recuperar rapidamente, a sociedade demandará mais moeda e o Banco Central (BC) poderá criá-la comprando parte dos novos títulos emitidos pelo Tesouro. Como o BC é 100% do Tesouro, isto significa cancelamento de dívida pública por emissão não inflacionária de moeda. O governo não é uma dona de casa.

O restante da dívida pública pode ser pago ou rolado de modo infinito, pois o governo não é uma dona de casa. Neste processo, talvez o resultado primário nem precise subir muito no futuro, se a taxa real de juro cair bastante e o crescimento da economia subir de modo duradouro.

Mas sejamos conservadores. Assumamos que será preciso elevar bastante o resultado primário mais à frente para pagar parte da dívida emitida hoje. Quando?

O ajuste fiscal poderá ser abrupto ou gradual. Se for muito rápido, ele pode prejudicar a própria recuperação da economia. Se for muito lento, ele também pode atrapalhar a retomada, consumindo recursos com juros elevados. A arte da política econômica é achar a velocidade ideal e, em breve, nós economistas voltaremos a divergir neste ponto.

Porém, dado que hoje todos corretamente admitem isolamento social para achatar a curva de contágio do Covid-19, espero que a mesma lógica seja aplicada no pós-crise, para achatar o custo social do ajuste fiscal que será necessário.

Por fim, voltando ao tamanho do ajuste em si, tudo depende da taxa de juro real e do crescimento da economia, o que nós economistas chamamos de “r menos g” (eu sei, eu sei).

Se a taxa de juro cair de modo duradouro, a conta de juros será menor e, portanto, será necessário menos resultado primário para estabilizar e depois reduzir o endividamento público no futuro.

Mais importante, se a recuperação econômica for mais rápida, parte dos juros será pago com o aumento da arrecadação sobre um PIB maior, diminuindo a necessidade de ajuste fiscal por razões financeiras.

Persistirá a necessidade de ajuste fiscal por questões sociais, para promover justiça tributária e diminuir desigualdade, mas isto é outra história, para outra coluna.

Paro por aqui para respeitar nossa ortodoxia enquanto ela se recupera de keynesianismo pós-traumático.

POR UMA REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO, por Ulysses Ferraz

POR UMA REVOLUÇÃO DO CORAÇÃO
Em um mundo regido preponderantemente pelas forças de mercado, os arautos da ideologia neoliberal querem nos convencer de que já nascemos com os nossos objetivos delimitados. E querem nos persuadir de que esse mundo é o único mundo possível. Um mundo em que nossos fins já estão determinados, antes mesmo de nascermos. Nesse mundo, que de certa forma aceitamos e ajudamos a criar, gerações após gerações, só nos resta competir para vencer o jogo dos mercados. Toda nossa energia é canalizada para os meios, para os processos, para os mecanismos, para as técnicas de obtenção de resultados previamente estabelecidos.

Mundo da eficiência, não importa qual seja o fim. Vencer na vida, chegar lá, ter sucesso é, em última instância, sinônimo de sermos consumidores de alto poder aquisitivo. Liberdade para consumir. Poder de compra é o grande troféu. Essa escolha antecipada e socialmente determinada nos faz competir sem trégua por um objetivo que não escolhemos, mas que internalizamos, aceitamos e passamos a acreditar como sendo parte da natureza humana.

A competição se torna expressão humana naturalizada, “biologicamente” determinada, parte da “essência” mesma de sermos humanos. Acreditamos e aceitamos essa naturalização de nossas crenças mais essenciais. E nos lançamos à competição mais violenta. A competição como modo de vida. Cotidiana, banalizada, metódica. Daí tanto ódio, tanta violência, porque competir é sempre deixar o outro para trás. Nessa lógica, perdemos todos, até quando cremos vencer.

Por isso odiamos, por isso somos violentos, por isso vivemos na intolerância, na indignação. Com o outro, sempre o outro, nosso competidor direto e muitas vezes indeterminado, impessoal. Talvez se nós buscássemos nos apropriar de nossos objetivos, de nossos fins, deslocando a energia imensa hoje apenas aplicada aos meios, e vivêssemos norteados pelo que nosso coração realmente deseja, pelo que realmente nos toca, nos move e comove, talvez fizéssemos a verdadeira revolução.

Talvez construíssemos um outro mundo. Mundo em que a revolução seja usar as forças coletivas e institucionais como meios, como instrumentos para realizar os fins de um mundo mais justo, mais equilibrado, mais livre, mais diversificado, mais igualitário, mais humano. E mais cooperativo.

Uma revolução do coração, em que a razão, ao contrário de inexistir e se opor ao coração, seria sua fiel aliada e utilizada como instrumento de iluminação para vivermos a vida que realmente vale a pena ser vivida. Uma revolução do coração, em que meios racionais deixassem de ser usados para fins irracionais.

Em tempos de pandemia e isolamento social, quando nossa viabilidade enquanto espécie depende cada vez mais da nossa capacidade de cooperação e ajuda mútua, o mundo como temos vivido até agora, individualista, economicista, consumista e ultracompetitivo, já não faz mais sentido. Se é que já fez algum dia.

Muito ajuda quem não atrapalha

Muito ajuda quem não atrapalha
(Sérgio Sérvulo da Cunha)

Você é microempresário, e, devido à quarentena decretada pelo governo, está sem qualquer receita. Por isso está justamente preocupado: como pagar as suas contas? Ao fechar as portas do seu negócio, o governo não disse como é possível fazer isso, nem colocou, ao seu alcance, meios para fazer isso.
A quarentena a que você está obedecendo – no interesse seu e de todos – foi decretada pelos governos municipal e estadual, que não têm competência legal para fazer o que o governo federal deveria ter feito, e não fez: decretar, junto com a quarentena, a moratória dos débitos.
Por isso, não se desespere: a moratória virá, se não em decorrência da lei, imposta pelos fatos.
Cuide, em primeiro lugar, da sua vida e das suas necessidades básicas; se você tem recursos disponíveis, preserve-os para o essencial; e se você estiver capitalizado, busque pagar suas contas aos credores que estão em situação pior do que você. Preocupe-se com sua clientela e com seus funcionários. Nas relações trabalhistas e negociais, evite criar conflitos, e litígios que serão julgados, no futuro, segundo velhos princípios, e não segundo regras transitórias, feitas de afogadilho.
Fechamos portas, abramos corações: há desempregados, e trabalhadores informais que precisam ser assistidos, mediante parcerias municipais de que participem indústrias e empresas de alimentação, para distribuição de cestas básicas. Há trabalhadores autônomos e avulsos a quem o governo deve, com urgência, medidas que para ele não passam, praticamente, de uma penada.
Essa crise veio mostrar para o governo o que ele não, mas a maioria das pessoas já sabia: que estamos todos no mesmo barco; a sociedade não é feita de duas camadas de pessoas: a elite, de um lado, e a ralé, de outro. O governo não é feito para favorecer os que têm, em detrimento dos que não têm. Essa é uma concepção de sociedade, e de governo, pertencente ao passado.
Muitos, é verdade, continuam se comportando assim. Por exemplo: a concessionária de transporte que diminuiu o número das suas balsas, aglomerando seus passageiros em menor número de viagens. Mas muitos, e muitos, estão se comportando de modo diferente. Por exemplo: profissionais da saúde, lutando bravamente nas primeiras trincheiras; aquele funcionário de concessionária de eletricidade que se recusou a cortar a luz de uma família em quarentena.
Continuemos a demonstrar, por todos os modos, a nossa solidariedade. São muitas as virtudes, que a competição ordinária costumava ocultar, e que aparecem agora. Tendo essa crise aberto nossos olhos, fixemos alguns objetivos inarredáveis para depois dela:
Nós, da Baixada Santista, precisamos nos unir para aprovar algum dos projetos de lei, em curso no Congresso, estabelecendo benefícios tributários em favor dos municípios portuários; sem isso será impossível recuperar depois da crise a nossa economia regional, fragilizada pela recessão, abatida pela globalização dos serviços de transporte marítimo.
Outra coisa: impossível continuar com esses índices de desigualdade: precisamos aprovar uma renda mínima para todo e qualquer brasileiro, o que, do ponto de vista econômico, é perfeitamente possível. Segundo Ladislau Dowbor, “o desafio não é a falta de recursos; o que hoje produzimos é amplamente suficiente para uma vida digna e confortável para todos. No mundo se produz anualmente 85 trilhões de bens e serviços por ano, o que, razoavelmente distribuído, asseguraria 15 mil reais por mês por família de quatro pessoas. E o Brasil está precisamente nesta média mundial.” Aliás, se você está em casa, sem fazer nada, essa é uma excelente ocupação: veja o que estão fazendo com a economia brasileira, assistindo os videos de Dowbor na internet.

“Tutto Andrà Benne?”

Por Nina Paduani
Eu quase não tenho dormido. Longe de mim me queixar, sei dos meus privilégios. Vivo numa casa confortável, com minha família que amo, tenho um emprego, um salário. E agora também tenho a companhia do Davide, que depois de curado está aqui. Mas tenho um trabalho de cuidar, e não deixo de me preocupar. Já se passaram três semanas de confinamento, e, na previsão mais otimista, terão mais três. O desconforto psicológico na solidão das casas me tira o sono. E também a solidão dos profissionais de saúde que trabalham na linha de frente, isolados de suas famílias, lutando pela vida num cenário de guerra, devastação, morte. O desamparo, a impotência, o medo. E também os enlutados. Mais de dez mil mortos, são algumas dezenas de milhares de enlutados tendo de elaborar sua perda sem o corpo de um pai, de uma mãe, de um irmão, de um filho. Sem o direito a realizar um enterro digno, se despedir, sem cumprir os ritos daquilo que nos torna humanos. Como será isso? O que acontecerá na psique? É um país inteiro chorando a perda dos seus.

Eu não gosto desse “tutto andrà bene”. Quer dizer, acho válido para crianças. Mas como discurso entre adultos, não. Porque, como podemos ver, as coisas estão andando mal. Negar parece-me obstinar com uma resposta que reitera o otimismo, a produção de conteúdo, a saturação do trauma. É querer seguir a cartilha do capitalismo, que, convenhamos, é desumana. As coisas andam mal e parece-me importante fazer algo desse “mal”, questionar tudo o que nos trouxe aqui, e não substituir os corpos e os abraços por uma hiperconexão para fazer de conta que. Não vai nada bem e talvez devamos ficar. Parar, estacionar, deixar doer, desistir, cair. E tentar um ritmo diferente, um passo novo.

Mas se os acontecimentos daqui me tiram o sono e entristecem, os do Brasil me destroem. Porque a epidemia na China foi detectada quando já estava disseminada. Não havia, ainda, a noção de como o vírus se disseminaria. Nem se imaginava a velocidade do contágio. As pessoas lembravam do H1N1, em que alguns cuidados bastaram para controlá-lo. “Limpe as mãos, não dê abraços e beijos e isso basta”, todos pensavam. Os erros da Itália, a demora na decretação da quarentena, a gente pode entender, porque era algo novo. Mas ver o governo brasileiro deliberadamente tentando levar o país ao colapso na saúde, matando centenas de milhares de pessoas, com o apoio de seus fiéis seguidores, acaba comigo. O exemplo está aqui, o mundo inteiro viu os nossos erros. Não decretar a quarentena e matar milhares de pessoas não será um trágico erro, como foi aqui na Itália, mas sim uma escolha. Uma escolha de um governo que é baseado no ódio, voltado para a destruição. O governo bolsonaro é a pulsão de morte institucionalizada.

Ou o Brasil acaba com o Bolsonaro, ou o Bolsonaro acaba com o Brasil.

E por falar em amor ao próximo …

Post publicado em um site infestado por Bolsominions, uma pessoa que se diz “nem de esquerda, nem de direita” ( imagino que ser de direita é pouco para ela) diz que as pessoas que estão nas ruas precisam estar e que não podem ser criticadas. Alega que o motivo das críticas é a falta de empatia e de amor ao próximo. Procurei as postagens dessa pessoa e dos seus amigos e foi detectado apoio cego e acrítico a tudo que vem de Bolsonaro. A minha resposta, que serve para todos, sejam negacionistas, inocentes úteis ou culpados inúteis, compartilho a seguir:

Nem todos que estão na rua trabalham em funções essenciais, infelizmente. Tenho visto muita gente na rua, sem necessidade. Especialmente após cada bravata ou fala desastrada do presidente. Idosos jogando carta em praças, carros de luxo fazendo carreatas, grupos de homens em porta de botequim bebendo cerveja e conversando, ônibus mais cheios do que poderiam ou deveriam (falta um escalonamento inteligente dos horários de trabalho), comércios não essenciais abertos clandestinamente à meia-porta. Bolsonaro estimula a ida das pessoas para a rua. Domingo, por exemplo, ele saiu de sua residência presidencial e foi para bairros de periferia de Brasília estimular o desrespeito às medidas de mitigação da tragédia do coronavírus.

Bolsonaro fez, desde o início da crise, tudo para negar a sua gravidade e não tomou as medidas necessárias, no campo econômico e no campo da saúde pública, para preservar vidas e evitar o desespero trazido pela falta de renda.

Quase 12 milhões de pessoas estão sem emprego no Brasil desde a inauguração do governo Bolsonaro em 01 de janeiro de 2020. Guedes e Bolsonaro escolheram adotar uma política econômica que implica em manter a economia em coma induzido e em hiportemia, para combater uma febre (inflação) que já estava baixa desde Meireles/Temer.

Manter as pessoas desempregadas, a taxa de juros SELIC baixa e a economia em semi-recessão são as únicas medidas que economistas neoliberais sabem receitar. Qualquer que seja o paciente, qualquer que sejam as doenças que atacam o tecido econômico, estes economistas receitam sempre estes mesmos remédios. Assim, quando chegou ao Brasil o vírus Corona pegou o país em semi-recessão, com desemprego estrutural altíssimo e desigualdade social e econômica grande e crescente.

O trabalho em condições precárias, sem proteção, sem carteira assinada, intermitente ou por conta própria foi o novo normal implantado e incentivado pela criminosa reforma da CLT e pelo modelo econômico de Guedes/ Bolsonaro. Explodiu o número de pessoas que trabalhavam por conta própria, ou seja, ambulantes que não podiam adoecer e que tinham que estar na rua garimpando uns caraminguás dia após dia. Quem podia agarrou-se ao Uber. Quem não podia, pedalava as bicicletas do Itaú para entregas de comida e farmácia rua acima. A quantidade de pessoas jogadas na rua, sem eira e nem beira crescia assustadoramente nas principais metrópoles do país.

Ora, em ambiente tão precário e desigual, ao observar o impacto do vírus sobre as atividades econômicas e a vida das pessoas, o governo deveria, como primeira e urgente medida, ter adotado um programa de renda mínima amplo, visando proteger todas as pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica.

Diziam não haver dinheiro e não fizeram nada. Agora que a Câmara dos Deputados tomou a iniciativa e aprovou um programa emergencial de renda para alguns setores mais vulneráveis, o DINHEIRO, QUE ESTAVA ESCONDIDO, VAI APARECER.

Como vai aparecer? Contrário ao que ocorre com famílias, um país que emite sua própria moeda pode e deve, em situação de guerra ou de tragédia econômica e social terminal, criar moeda.

Amor ao próximo pode ser condição necessária, mas não é suficiente. Só amor não salva vidas. Precisamos da imediata distribuição coordenada de cestas básicas, da instituição e pagamento urgente de uma renda mínima a todos os necessitados, da ação coordenada e ativa dos governos nos três níveis e, amor ao próximo, que ninguém vai sair dessa sozinho.

Paulo Martins

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM
Adhemar Bahadian
Informo o passamento do século XX, os cem anos mais amargos da modernidade. Como ainda está estrebuchando, seria mais certo dizer cento e vinte anos, porque até hoje chegam as pragas que periodicamente o infestaram.
Em 1914, nossos avós viveram a primeira guerra mundial. Em 1944, nossos pais morreram nas terras da Europa. Em 1964, sobrevivemos a uma ditadura militar. A partir dos anos 70, nos intoxicamos com o alucinógeno do neoliberalismo e em 1991 nos embebedamos em homenagem ao fim da história pela fantasia de uma globalidade dividida por profunda desigualdade social.
Agora, quando a história parece repetir-se e desaba sobre nós uma variante ainda mais malévola que a gripe espanhola, carro fúnebre do morticínio da primeira guerra, teremos a oportunidade de nos recriarmos? A história não se repete, os erros humanos é que se multiplicam, quase sempre em torno de nossa incapacidade de construirmos um mundo melhor.
Este coronavirus, queiramos ou não, nos transformará. Não há economia que dele sairá imune. Não há ideologia política que depois dele nos fará reconstruir um mundo carcomido por falácias e desfigurado por uma profunda injustiça entre países e, dentro deles, entre irmãos de sangue. Só o mais obtuso dos seres deixará de perceber que esta virulência do coronavirus nada mais é do que a metáfora de nossa vida dita humana, em que nos entre-devoramos tangidos pelas piores pulsões de nossos instintos e que, por isto mesmo, chamamos pulsão de morte.
Se hoje nos assusta o ataque sub-reptício de um vírus, nos deveriam apavorar as barbaridades dos poderosos deste mundo e suas máquinas de guerra ou de empobrecimento.
Tanto na primeira guerra quanto na segunda tivemos estadistas que nos propuseram mundo mais solidário. Mas tanto as ideias de Wilson e a Liga das Nações quanto o projeto de Roosevelt e as Nações Unidas já nasceram, a primeira, debaixo da insensatez da Paz de Versailles- berço sangrento de Hitler- e a segunda no rastro de fogo e horror de Nagasaqui e Hiroshima.
Terminada a guerra e desmantelados os sistemas coloniais, iniciamos uma corrida armamentista que abarrotou de ouro cofres públicos e privados e o imperialismo econômico substituiu com honras o pacto colonial.
Tivemos o desplante de culpar os escravos por sua condição abjeta. Fomos intolerantes a cor de pele, a religiões que não adoravam os nossos deuses e bestialmente erigimos altares em que se exibem os ricos e se ajoelham os pobres. Criamos a sociedade da intolerância e demos a ela o simpático disfarce de sociedade da abundância. Inscrevemos em moeda falsária, a sacrílega admoestação de que “in God we trust”.
A partir dos anos 60, abatemos a tiros líderes e mergulhamos em guerras que muito antes de nos vencerem talharam em nossos cânticos “de um mundo livre” a marca de ferro em brasa da hipocrisia.
E em 2008 desnudamos nossas mais deslavadas mentiras e apropriamos hipotecas de gente honrada em nome da cobiça e do canibalismo financeiro. Enterramos poupanças em areia movediça e transformamos sonhos em ilusões amargas antes de perdidas. E de tudo fizemos um caldo de cultura cozinhado no ódio e na mais absoluta indiferença à sorte de milhões de irmãos espalhados pelos quatro continentes e, pelos quatro, rejeitados ou expulsos. Jogamos literalmente milhares de irmãos aos ventos e às marés.
Fizemos da cena política um picadeiro. Elegemos, por ignorância ou míseras ideologias, estadistas de papelão, mágicos de oz das terras do faz de conta e nos alegramos com os coliseus modernos em que a violência se confunde com o entretenimento e desta espúria combinação surgem os grandes líderes que nos apontam os caminhos das guerras, da cobiça e do desrespeito.
Nossas cidades se tornaram armadilhas ardilosas e imensos covis. Andamos por elas como se atravessássemos zonas desmilitarizadas ou campos minados em que a cada movimento suspeito pode surgir o aço da lâmina ou o fogo da bala. Perdida ou não.
Voltamos às cavernas e nos olhamos uns aos outros com o olhar da suspeita e da desconfiança. Passiva e bovinamente acatamos os conselhos desavisados de nossos líderes a nos sugerirem comprar armas de grosso calibre e andarmos armados de destemida arrogância.
Somos vítimas de uma combinação canhestra em que a ignorância se associa à ideologia e aprofunda a pobreza e o desnível social, sempre a nos enganar com um canto de sereia marcial.
Nesta hora em que nosso eleito desrespeita cotidianamente a vida e o futuro de nosso povo, agarrado como craca nos cascos de um navio a pique, mais do que revolta, surge nos homens de bem uma profunda vergonha de termos compactuado com a mentira e a ideologia.
Hoje, parte da sociedade brasileira é vítima de sua própria cegueira. De mãos dadas com seu carrasco-redentor caminha impotente para sua hora final. Docilmente, apesar de alertada pelo próprio carrasco de que sua salvação depende apenas de sua determinação em salvar-se.
Talvez nossa efetiva sobrevivência comece no dia em que levarmos a sério esta frase que lhe escapou das pequenas e ainda não cerradas frestas de sanidade.
Tomemos o destino em nossas mãos. E enfrentemos o século XXI com a humildade que ele nos impõe e com a coragem que a vida nos exige.

Brasil vai pedir US$ 100 bilhões ao Banco Mundial para combater “gripezinha”

Documento do governo cita cubanos e isolamento para pedir empréstimo em pandemia

Luiz Fernando Toledo Da CNN, em São Paulo
25 de Março de 2020 às 18:33


Dois documentos internos do governo federal, um da Secretaria de Assuntos Econômicos Internacionais, vinculada ao Ministério da Economia, e outro do Ministério da Saúde, mostram grande preocupação do governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) com os impactos que a pandemia do novo coronavírus terão para o país se ações emergenciais não forem tomadas para evitar que a doença se espalhe ainda mais.

“Os atrasos entre o início da epidemia e a implementação de medidas de controle são onerosos”, escrevem os técnicos em um documento finalizado na tarde desta terça-feira, 24, a que a CNN teve acesso. Eles citam o caso do último surto de ebola para exemplificar o impacto que uma epidemia pode ter e destacam que “a mitigação a epidemia continua sendo a única opção política.” Afirmam ainda que “atrasos na detecção e controle são, em última análise, muito caros, porque os custos de contágio e mitigação crescem exponencialmente”.

O relatório foi gerado às 18h46, menos de duas horas antes do discurso do presidente em rede nacional, quando voltou a chamar o coronavírus de “gripezinha” e criticou medidas de quarentena adotadas por governadores como em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Segundo o documento, os custos adicionais do COVID-19 para o Sistema Único de Saúde (SUS) pode ultrapassar R$ 410 bilhões. “Apenas os custos com internações em unidades de terapia intensiva (UTI), para o cenário de uma taxa de infecção populacional de 10%, seria de R$ 9,31 bilhões. A estimativa de gastos no cenário de 10% é semelhante ao montante anunciado pelo governo federal para o combate à pandemia, de 9,5 bilhões de reais”, destaca o texto, que não explica a origem do valor total dos custos adicionais, que é mais do que todo o orçamento do Ministério da Saúde para 2019 (R$ 147,43 bilhões, segundo o Portal da Transparência).

O relatório produzido embasa uma carta-consulta, documento usado para pedir empréstimos. O governo federal solicitou US$ 100 milhões ao Banco Mundial para o enfrentamento da pandemia, que seriam disponibilizados até abril de 2020. Procurado, o Banco Mundial confirmou a solicitação, mas disse que mais detalhes deveriam ser esclarecidos pelos ministérios.

O objetivo principal do empréstimo, segundo a carta, é aumentar a capacidade de diagnóstico do país, com monitoramento diário para acompanhar a evolução dos casos, bem como no apoio aos estados.

No início de março, o Banco Mundial anunciou um pacote de US$ 12 bilhões para apoiar os países a lidar com ações de combate e prevenção ao coronavírus. O objetivo é combater e prevenir as consequências da pandemia, inclusive econômicas e sociais. O projeto prevê ações que seriam implementadas ao longo de 12 meses.

Entre os componentes prometidos pelos brasileiros para uso dos recursos está a compra de kits de testes moleculares e rápidos para detecção do COVID-19, contratação de atendimento pré-clínico, à distância, para fazer triagem de pacientes com sintomas e contratação de profissionais de saúde em caráter emergencial.

O projeto prevê como fonte de financiamento o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird), com a modalidade de empréstimo Programa de Investimento, em que os recursos só podem ser usados em despesas específicas.

A implementação do processo será por conta da Secretaria de Atenção Primária à Saúde, do Ministério da Saúde, com apoio de outras secretarias da pasta. O órgão preparou uma série de slides, a que a reportagem teve acesso, em que apresenta o chamado Programa Emergencial de Apoio ao Enfrentamento da Pandemia de Coronavírus (COVID-19).

No documento, o órgão federal defende, entre outras ações, medidas como o isolamento, a quarentena e “diversas medidas de adoção compulsória”. Prevê ainda a testagem de 1,53 milhões de pessoas sintomáticas. Também é citado, como forma de provimento de médicos, um“edital CRM e cubanos”, sem detalhes, com “oferecimento de remuneração atrativa”.

O documento prevê ainda alguns riscos para a medida, como o de prazos (fornecedores não conseguiriam atender à alta demanda em tempo hábil), escassez de insumos (alta demanda global), preços (aumento considerável de preços por causa da demanda), escassez de pessoal qualificado e de especialistas.

Há ainda a preocupação com a desaceleração da economia mundial e no Brasil. O relatório cita dados do Banco Mundial de que a pandemia pode resultar em desaceleração do PIB global de 4,8%. Já no Brasil, cita que “a queda acumulada do Ibovespa, até o dia 18 de março de 2020, era de 42%, contra 41,22% durante a crise de 2008.”

Em nota, o Ministério da Economia confirmou o pedido de empréstimo, mas disse que o texto do documento é de competência técnica e autoria do Ministério da Saúde. “Não temos posicionamento em relação ao tema”, diz a pasta. A CNN pediu nota ao Ministério da Saúde, que ainda não deu retorno. O espaço segue aberto para manifestação.

MMT

Do economista David Deccache

Nos últimos dias, explicita ou implicitamente, vários economistas, da ortodoxia à heterodoxia, passaram a assumir os pontos mais óbvios da Teoria Monetária Moderna.

No fim do ano passado, André Lara Resende já havia aceitado a fragilidade da teoria econômica ortodoxa frente ao poder explicativo da MMT. É bom destacar que ele foi um estudioso da teoria ortodoxa por quatro décadas.

Lembro como as pessoas se assustavam quando o pequeno grupo de economistas que defendiam a MMT no Brasil diziam que não havia NENHUMA restrição financeira para países monetariamente soberanos. Causava espanto quando dizíamos que tributos não financiam os gastos públicos e que emissão de títulos não eram empréstimos destinados a financiar o governo.

As pessoas, e aqui incluo os economistas, se espantavam quando nós falávamos que o governo gasta simplesmente criando dinheiro … do nada!

Caso curioso foi quando uma jornalista, analfabeta econômica da Revista Época, zombou do economista José Luis Fevereiro em 2018 durante a campanha eleitoral. O motivo? Fevereiro disse o óbvio: não há hipótese alguma de ocorrer crise fiscal para países que emitem a própria moeda. Algo que André Lara Resende e muitos outros falam com a maior naturalidade o mundo atualmente.

Enfim, a crise e a dor ensinaram , na marra, aos economistas e especialistas no assunto, que o Estado cria dinheiro do nada.

Para alguns a ficha ainda não caiu, mas a pergunta “de onde virá o dinheiro para financiar isso ou aquilo?” é de uma estupidez sem precedentes. Este tipo de pergunta se faz para um pai de família, não para uma nação que emite a própria moeda.

Quando alguém te perguntar de onde virá os bilhões que o Brasil precisa para salvar a vida de milhões de pessoas, responda com outra pergunta: de onde está vindo os trilhões de dólares que os EUA, União Europeia ou a China gastaram para minimizar os impactos da crise? Aumento de receitas tributárias? Empréstimos do setor privado (perceba a falta de lógica desta questão)?

Olavo de Carvalho declarou em 22/03/2020

“Não houve nenhuma morte pelo Coronavírus. Isto é manipulação da mídia”.

Este senhor tem milhares de seguidores. A grande maioria dos seus seguidores acredita cegamente no que ele fala. Quantas mortes poderemos atribuir a este senhor irresponsável?

Ciente que o vídeo ultrapassou a sua bolha de idiotas, o covarde apagou. Mas a prova está aqui.

Fonte: Istoé

Complemento: o Blog da Cidadania publicou:

O Youtube tirou do ar um vídeo em que o guru bolsonarista Olavo de Carvalho colocava em dúvida a existência da pandemia do novo coronavírus no mundo. Até o momento, a doença já contaminou mais de 1.500 pessoas no Brasil e matou 25. No mundo, mais de 350 mil pessoas foram contaminadas, e mais de 15 mil morreram, segundo dados da universidade norte-americana Johns Hopkins.

A plataforma entendeu que o conteúdo publicado feria as diretrizes da comunidade. Em sua lista de regras, o Youtube afirma que, em seu esforço para contribuir no combate ao coronavírus, fará “a remoção rápida de vídeos que violem nossas políticas assim que eles forem sinalizados. Isso inclui o conteúdo que incentiva as pessoas a não procurarem tratamento médico ou que afirmem que substâncias nocivas podem ser benéficas à saúde.”

“É essencial encontrar conteúdo de confiança neste momento. Por isso, continuaremos garantindo que o YouTube ofereça informações precisas aos usuários”, diz a lista de diretrizes do Youtube. Em nota ao Painel sobre o caso, a assessoria de imprensa do Youtube disse que não comenta casos particulares.

Em debate por meio de vídeo com três alunos membros de um site conservador, Olavo de Carvalho duvidava da existência da pandemia.

“O número de mortes dessa suposta epidemia não aumentou em nem um único caso o número de mortos por gripe no mundo. É o mesmo que dizer que essa endemia simplesmente não existe. Na verdade, não tem um único caso confirmado de morte por coronavírus. Para confirmar, você precisaria fazer o exame de cada órgão do falecido. Onde fizeram isso? Nunca fizeram nenhum”, diz Olavo.

“É a mais vasta manipulação de opinião pública que já existiu na história humana. Parece coisa de ficção científica”, completa. No vídeo, ele argumenta que a crise parte de uma estratégia de manipulação de informação articulada por China e Rússia.

PANDEMIA DA IMBECILIDADE – FSP22/03

PANDEMIA DA IMBECILIDADE – FSP22/03

Em que momento ficou decretado que o burro do fundão tinha mais autoridade do que a professora?

Em que momento, exatamente, decidimos globalmente que ser legal não era legal? Em que ano, que mês, que dia, ficou decretado que o burro do fundão que bota tachinha na cadeira da professora tinha mais autoridade do que a professora? Que mecanismo esdrúxulo da psicologia social nos fez (e faz) crer que a busca pela paz, pelo respeito, pela tolerância, pela preservação do meio ambiente e contra a desigualdade são frescuras de gente fraca ou um complô comunista para destruir a sociedade?

Pois são estas distorções mentais que a ascensão de Trump, Bolsonaro, Orbán, Erdogan, Salvini e tantos outros ogros coroa, muito mais do que uma onda da direita. Bolsonaro foi eleito repetindo vez após outra que seu ídolo era o torturador Brilhante Ustra. Não Margaret Thatcher. Não Ronald Reagan. Não os economistas Mises ou Hayek.

Ustra. Um açougueiro que levou crianças de cinco anos para verem os pais destruídos após uma sessão de tortura. (O menino não reconheceu a própria mãe, desfigurada). Bolsonaro dedicou o voto do impeachment de Dilma ao torturador e declarou no programa Roda Viva que seu livro de cabeceira era a biografia do carrasco. Admiradores de ditaduras costumam mentir para esconder a selvageria. Bolsonaro, não: parece ter uma fixação justamente pelas sevícias. Fez da ação humana mais abjeta a sua bandeira —e foi eleito.

Como toleramos tamanha excrescência? Admitir que uma pessoa que aplaude torturadores seja nosso presidente porque fará reformas econômicas necessárias é como levar os filhos num pediatra sabidamente pedófilo porque é um médico competente. “Abusou do meu filho? Sim, abusou, é o jeitão dele, mas a febre, ó, baixou que é uma beleza!”.

A maior crise que enfrentamos, globalmente, não é a pandemia de coronavírus e nem a recessão mundial que ela provavelmente trará, ambas passarão: é uma crise de valores. Valores estes que os próprios ostrogodos que nos desgovernam fingem defender. O sujeito que repete como um papagaio “Brasil acima de tudo” incentiva manifestações no meio de uma pandemia e mesmo estando em quarentena, sai do palácio e dá a mão para centenas de aduladores. Coloca em risco, assim, a vida de milhares de brasileiros. O mesmo sujeito que repete como um autômato “Deus acima de todos” rasga os evangelhos toda vez que abre a boca ou faz arminha com a mão.

Escrevi na última crônica que a quarentena, turbinada pelas redes sociais e suas fake news, iria mandar o mundo de vez para a cucuia. Depois de dez dias em casa, porém, a sensação tem sido outra. É cedo pra fazer qualquer previsão, as notícias mudam a cada hora e ninguém sabe o que nos aguarda, mas existe uma chance de ouro de que este circuit breaker global faça com que paremos de correr como ratinhos numa roda de egoísmo e imbecilidade e nos dediquemos a alguma reflexão.

Precisamos repensar profundamente a sociedade. Não falo aqui da idade mínima para aposentadoria de tal ou tal categoria ou das alíquotas de imposto de renda desta ou daquela faixa de remuneração. Tais discussões são importantes, é claro, mas antes delas temos que recriar uma linha entre o que é tolerável e o que é intolerável. Antes dos marcos regulatórios, temos que estabelecer os marcos civilizatórios.

Por tudo que nos ameaça, 2020 pode entrar para a história como o pior ano das nossas vidas. O que significa que, depois dele, as coisas devem melhorar. Não se trata de otimismo, mas de instinto de sobrevivência. Se não trocarmos o ódio e a violência pela esperança e pelo amor, já, a humanidade não chega até a esquina. Tá ok?

Antonio Prata

Escritor e roteirista, autor de “Nu, de Botas”.

Carta Aberta de Professores do Instituto de Economia da UFRJ: Impacto Econômico da Covid-19 e Medidas de Combate à Crise Econômica

Carta Aberta de Professores do Instituto de Economia da UFRJ: Impacto Econômico da Covid-19 e Medidas de Combate à Crise Econômica
O mundo está enfrentando uma grave crise econômica provocada pelo avanço da pandemia da Covid-19. Instituições internacionais (FMI, OCDE, UNCTAD, etc.) e economistas renomados estão projetando significativa desaceleração do crescimento mundial, no melhor dos cenários, ou uma recessão global em 2020, em cenários menos otimistas.
As medidas implementadas de isolamento e/ou quarentena para impedir o avanço do vírus nos países mais afetados provocaram a interrupção das atividades normais das pessoas, desmobilizando recursos. Isso impactou negativamente a produção, o consumo corrente e os investimentos. Portanto, a gravidade dos efeitos econômicos da Covid-19 deve-se à sua capacidade de gerar, ao mesmo tempo, choques negativos na oferta e na demanda agregada mundial. Ademais, há uma enorme pressão sobre os recursos (físicos e humanos) na área de saúde com o aumento dos casos de pessoas infectadas, sobretudo no pico da epidemia, o que requer uma espécie de economia de guerra nesse segmento.
Em virtude disso, muitos governos estão adotando medidas para: i) garantir que não haja desabastecimento de bens e insumos básicos, por meio do monitoramento das cadeias de distribuição (transportes e o comércio atacadista e varejista) e, quando necessário, de eventuais intervenções em setores produtores e importações emergenciais; e ii) estimular a economia por meio de políticas monetária, fiscal e creditícia.
A economia brasileira será profundamente afetada por essa conjuntura crítica decorrente do avanço na Covid-19 no país, o que é agravado pela nossa situação prévia de baixo dinamismo e incapacidade para recuperar os níveis de produção anteriores à recessão de 2015-16.
Nesse quadro, que já era preocupante antes de a pandemia se instalar, a resposta do governo brasileiro para enfrentar a crise econômica (plano divulgado no dia 16/03/2020) gera ainda maior preocupação ao não propor nenhum recurso novo, apenas antecipação de recursos ou diferimento de pagamentos. Ademais, o ministro da Economia mantém o discurso de que a melhor resposta para combater a crise econômica seria a aprovação das reformas administrativa e tributária.
As reformas já aprovadas (Emenda Constitucional 95/2016 do “Teto dos gastos”, reformas trabalhista e previdenciária) não foram capazes de proporcionar a retomada do crescimento econômico e, em alguns casos, ampliaram as vulnerabilidades para enfrentar os desafios atuais das crises de saúde e econômica provocadas pela Covid-19.
A EC 95/2016, por exemplo, alterou o cálculo do mínimo constitucional na área de saúde que implicou uma redução de mais de R$ 20 bilhões nos recursos federais que deveriam ter sido utilizados para saúde pública desde 2018. Ademais, somada a um resultado primário rígido, essa emenda constitucional impede a execução de políticas fiscais anticíclicas que permitem, durante a crise, manter o fluxo de renda da população, por meio de instrumentos de transferência de renda e da ampliação de investimentos.
Diante desse quadro, a economia brasileira deverá mergulhar numa recessão em 2020, provocando a ampliação do número de desempregados e da população em situação de extrema pobreza. Segundo estimativas realizadas por Warwick McKibbin & Roshen Fernando (ver The Global Macroeconomic Impacts of COVID-19: Seven Scenarios, CAMA Working Paper, Australian National University, 2020), a economia brasileira deverá perder, em 2020, dois pontos percentuais de crescimento, num cenário mais favorável, e até oito pontos percentuais num cenário mais desfavorável.
A recessão está contratada e pode ter a gravidade de uma depressão caso não sejam utilizados todos os instrumentos disponíveis de política econômica, sobretudo os fiscais, para combater a crise. Em uma economia sob efeito da Covid-19, haverá um esgotamento da capacidade instalada e escassez da mão de obra no setor saúde, combinados a desemprego e falta de produtos e insumos nos outros setores. Nesse contexto, a necessidade de priorizar os objetivos imediatos do país – a luta contra a pandemia e a contenção dos seus efeitos sobre a atividade econômica – em detrimento do equilíbrio fiscal de curto prazo não é uma questão ideológica.
As medidas econômicas anunciadas pelo governo brasileiro são paliativas: suficientes apenas para impedir a ruptura do sistema de crédito sem conseguir estimular a economia, pois o aumento da liquidez deverá ficar empoçado no sistema financeiro. Entretanto, a política de gastos governamentais deveria assumir papel central na reativação econômica e na economia de guerra na área da saúde. Para tanto, são necessários gastos adicionais ao previsto no orçamento para a infraestrutura de combate à doença e coordenação do governo central em virtude da baixa capacidade fiscal dos estados e munícipios.
Pelas razões apontadas, professores do Instituto de Economia, abaixo assinados, consideram ser sua obrigação expressar publicamente sua profunda preocupação com a lenta reação das autoridades econômicas ante a gravidade da crise. Nessa situação, defendemos que o governo e o Congresso brasileiro adotem os seguintes pontos para combater a crise:
1) Ampliação dos benefícios e de programas de transferência de renda para famílias, de trabalhadores formais e informais que perderem ou tiverem sua capacidade de geração de renda diminuída pela crise, em especial para as famílias afetadas pela pandemia com filhos em idade escolar, garantindo que estes possam permanecer junto aos pais.
2) Eliminação da fila do Bolsa Família e reajuste do benefício.
3) Recomposição da verba de saúde em relação aos mínimos constitucionais definidos antes da EC 95/2016 e garantia de recurso extra para ampliação de testes, de leitos e aquisição de equipamentos para emergência.
4) Recomposição das verbas para Ciência e Tecnologia, especialmente para áreas capazes de enfrentar a pandemia, de forma a garantir nossa capacidade de desenvolver medicamentos e vacinas.
5) Alteração das demais regras fiscais vigentes, além do Superávit Primário, como a Regra de Ouro e a suspensão do Teto de Gastos, de forma a se criar um espaço legal para a necessária política de expansão dos gastos públicos.
6) Suspensão de multa, juros e penalização sobre pagamento atrasado de contas dos serviços de utilidade pública.
7) Ajuda fiscal aos estados e municípios, seja por meio de transferências do governo federal, seja pela renegociação de dívida, de forma a permitir aos entes subnacionais elevar seus gastos para fazer frente à emergência médica e seus impactos sociais mais imediatos.
8) Política de expansão de crédito e alongamento de dívidas utilizando os bancos públicos, para socorrer empresas e famílias mais afetadas pela pandemia.

Rio de Janeiro, 17 de março de 2020

1 Adilson de Oliveira
2 Alexandre Laino de Freitas
3 Alexis Nicolas Saludjian
4 Almir Pita
5 Ana Celia Castro
6 Ana Cristina Reif De Paula
7 Andre de Melo Modenesi
8 Angela Ganem
9 Ary Vieira Barradas
10 Bernado Karam
11 Caetano Christophe Rosado Penna
12 Camila Cabral Pires Alves
13 Carlos Aguiar de Medeiros
14 Carlos Eduardo Frickmann Young
15 Carlos Frederico Leão Rocha
16 Carlos Pinkusfeld Bastos
17 Celia de Andrade Lessa Kerstenetzky
18 Daniel de Pinho Barreiros
19 Denise Gentil
20 Edson Peterli Guimarães
21 Eduardo Costa Pinto
22 Eduardo Figueiredo Bastian
23 Ernani Torres
24 Esther Dweck
25 Fabio de Silos Sá Earp
26 Fabio Neves Perácio de Freitas
27 Fernando Carlos Greenhalgh de Cerqueira Lima
28 Galeno Tinoco Ferraz Filho
29 Gustavo Daou Lucas
30 Helder Queiroz Pinto Junior
31 Helena Lastres
32 Isabela Nogueira de Morais
33 Italo Pedrosa Gomes Martins
34 Jaques Kerstenetzky
35 Joao Carlos Ferraz
36 João Felipe Cury Marinho Matias
37 Joao Luiz Maurity Saboia
38 João Luiz Simas Pereira de Souza Pondé
39 Joao Sicsu
40 José Eduardo Cassiolato
41 José Luís Fiori
42 Julia Paranhos de Macedo Pinto
43 Kaio Glauber Vital da Costa
44 Lena Lavinas
45 Leonarda Musumeci
46 Lia Hasenclever
47 Luis Fernando Rodrigues de Paula
48 Luiz Carlos Delorme Prado
49 Luiz Martins de Mello
50 Marcelo Colomer Ferraro
51 Marcelo Gerson Pessoa de Matos
52 Margarita Silvia Olivera
53 Maria da Conceição Tavares
54 Maria Isabel Busato
55 Maria Mello de Malta
56 Maria Silvia Possas
57 Maria Tereza Leopardi Mello
58 Marília Bassetti Marcato
59 Marina Honorio de Souza Szapiro
60 Marta Calmon Lemme
61 Marta dos Reis Castilho
62 Nicholas Miller Trebat
63 Norberto Montani Martins
64 Numa Mazat
65 Paulo Tigre
66 Raphael Padula
67 Renata Lebre Rovere
68 Rene Carvalho
69 Ricardo Alberto Bielschowsky
70 Ricardo de Figueiredo Summa
71 Rodrigo Vergnhanini
72 Rolando Garciga Otero
73 Ronaldo Bicalho
74 Victor Prochnik
75 Wilson Vieira

Como evitar a depressão econômica? Monica de Bolle

Embora eu, pretensioso, discorde de muita coisa que a economista Monica de Bolle escreve, compartilho seu artigo publicado hoje no jornal O Estado de São Paulo. Serve como contraponto à inação do governo federal – leia-se Paulo Guedes e Bolsonaro – que acham que se não falarmos em recessão da economia brasileira, ela não vem.

Bolsonaro repreendeu o ministro da Saúde, Mandetta, por estar falando demais na catástrofe que será o coronavírus no Brasil se não tomarmos medidas importantes e radicais neste momento. Bolsonaro e Guedes estão seguindo a linha de não tomar as medidas radicais necessárias para diminuir os estragos que o coronavírus trará para a saúde dos brasileiros, para não “atrapalhar o crescimento econômico e a recuperação da economia brasileira”. O mundo econômico derretendo e a pandemia se espalhando, e os dois, Guedes e Bolsonaro, fingindo que acreditam em crescimento econômico hoje e agora. Agora é hora de unir todos os esforços para barrar a progressão da epidemia no Brasil e do Estado usar sua capacidade de indutor de desenvolvimento para, investindo, diminuir a profundidade do poço que vamos cair. Até porque, nenhum investidor estrangeiro que tem amor ao seu capital vai querer investir em uma economia devastada, com um povo – para eles, mão-de-obra ou consumidor – empobrecido e doente. Leia as sugestões da economista Mônica de Bolle.

Paulo Martins

Como evitar a depressão econômica?

Embora o governo brasileiro esteja muito longe de reconhecer a gravidade do momento, há os que começam a pensar no que fazer

Monica de Bolle, O Estado de S. Paulo 18 de março de 2020 | 04h00

Acompanho as análises nos jornais brasileiros sobre a ruptura inédita causada pela pandemia e me causa angústia a falta de urgência. Não me refiro apenas à irresponsabilidade atroz do presidente da República, que põe em risco a vida das pessoas, mas também ao fato de que poucos no Brasil se deram conta do que é essa crise. Trata-se de uma parada súbita da economia mundial como jamais vimos. E, ao que tudo indica, não será uma parada súbita de curta duração, como a observada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, ou como aquela proveniente da crise financeira de 2008. Não se trata apenas da incerteza atrelada à epidemia, mas das medidas de saúde pública que estão sendo tomadas mundo afora. Para desacelerar a propagação do vírus, fronteiras, escolas, universidades, bares, restaurantes, escritórios estão sendo fechados. Alguns países impuseram toques de recolher. As companhias aéreas já sofrem o baque do isolamento e do distanciamento social. A economia mundial sente os primeiros efeitos da parada súbita.

A crise será de longa duração. Para desacelerar a progressão da epidemia e “achatar a curva”, como o esforço pela desaceleração ficou conhecido, as medidas inéditas estarão conosco por vários meses. Uma vez alcançado o pico da epidemia, serão mais vários meses de semiparalisia até que seja seguro começar a abandonar as medidas excepcionais de saúde pública. Será um recomeço gradual. A não ser que tenhamos rapidamente uma vacina – o que hoje não parece provável – estamos falando, possivelmente, de mais de um ano de parada quase total do mundo. Para 2020, o quadro de retração global é certo. Registraremos, pela primeira vez em muitas décadas, uma queda do PIB global. É por esse motivo que países começaram a adotar políticas extraordinárias para atenuar os efeitos da crise. Em tempos de calamidade inédita e risco de depressão, metas fiscais e a evolução da dívida tornam-se absolutamente irrelevantes. Não se compara o desajuste fiscal proveniente do que é necessário agora ao quadro de depressão que se instaurará se as medidas forem insuficientes ou se governos forem contaminados pela inação. A inação mata.

Embora o governo brasileiro esteja muito longe de reconhecer a gravidade do momento – as medidas recém-anunciadas por Paulo Guedes são insuficientes – há os que começam a pensar no que fazer. Há mais de uma semana tenho defendido o que considero necessário para enfrentar a crise de longa duração a abater em breve o Brasil, que entra nela a partir de uma situação econômica muito frágil. São elas: suplemento emergencial imediato do benefício do Bolsa Família em pelo menos 50%; a instituição de uma renda básica universal mensal no valor de R$ 500 para os 36 milhões do Cadastro Único que não recebem Bolsa Família – esses são os grupos mais vulneráveis; a abertura de R$ 50 bilhões em créditos extraordinários para a saúde, com a possibilidade de aumentar esse montante; acelerar e dar maior flexibilidade à aprovação do seguro-desemprego; disponibilizar recursos emergenciais para os setores mais afetados pela crise no valor de pelo menos R$ 30 bilhões; abertura de linhas de crédito do BNDES para micro, pequenas e médias empresas. Por fim, recomendo um programa de investimento público em infraestrutura para sustentar a economia no médio/longo prazo com a utilização de recursos do BNDES.

As medidas de caráter imediato – saúde, proteção social e setorial – somam cerca de R$ 310 bilhões ao longo de 12 meses, ou uns 4% do PIB. Isso é metade dos cerca de 8% do PIB que gastávamos com os juros altos de 14% há poucos anos. Embora seja um montante considerável, o mais arriscado nesse momento não é o que vai acontecer com o déficit ou com a razão dívida/PIB – até porque não há investidor no mundo, hoje, preocupado com a sustentabilidade das contas públicas. Para viabilizar o que proponho, precisamos da imediata flexibilização da meta fiscal e da suspensão do teto de gastos por um período de dois anos. Deixo claro que o teto é importante para sustentabilidade fiscal de longo prazo – mas, o momento é de calamidade.

É claro que, se a situação melhorar, se uma vacina for encontrada, se os cientistas encontrarem um tratamento eficaz para a síndrome respiratória aguda que se manifesta nos casos mais graves da doença, os montantes que sugiro poderão ser reduzidos. Mas, na situação em que estamos é melhor errar para mais do que para menos. Errar para menos significa pôr em risco a vida de dezenas de milhões de pessoas. Manter o pensamento encaixotado, hoje, é fatal.

  • ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

A arte

“Não, Raul Seixas não teve uma visão ao compor “O Dia em que a Terra Parou”. Saramago não “previu por acaso” uma pandemia em Ensaio Sobre a Cegueira.
Jean Yves-Ferri e Didier Conrad não fizeram o quadrinho do Asterix enfrentando o vilão Coronavírus em 2017 por um golpe de sorte, ou George Orwell quando escreveu 1984, ou Aldous Huxley com seu Admirável Mundo Novo, ou Mark Homan e Greg Kotis com Urinal, o Musical, ou Bong Joon-Ho com Parasita e assim vai.
Não é mera coincidência.
É justamente isso que a arte faz. Lê a sociedade e a desvenda de modo que ela nos seja revelada não apenas pelo nosso pensamento, mas através dos nossos sentimentos.
A arte está dizendo há muito tempo que nosso modelo de vida não é sustentável e que não tardaria para que a sociedade neoliberal, individualista, medicalizada, incapaz de lidar com frustrações, sobrecarregada de trabalho e precarizando as relações trabalhistas, terceirizando o cuidado com os filhos, com pouca ou nenhuma preocupação com o meio ambiente, enfim, para que essa sociedade entrasse em colapso.
Há tempos que a arte nos diz: parem de ser infantis e achar que bandido bom é bandido morto porque nossas mãos se sujam de sangue cada vez que ignoramos o sofrimento do outro para que tenhamos nossos privilégios.
Nós somos os bandidos.
Parem de achar que o mundo se divide em mocinhos e ladrões, princesas e vilões, as relações humanas são muito mais complexas, trazem conflitos, dilemas, nuances e não podem ser traduzidas apenas em poucas palavras.
É preciso que haja, sim, muita coisa escrita nos livros e é preciso que existam cada vez mais livros, mais quadros, mais filmes, mais peças, mais música, mas ao invés de manter olhos e ouvidos abertos, a sociedade marginalizou e combateu os artistas, essa gente chata que fica nos dizendo o que não queremos ouvir e nos mostra o que não queremos ver.
Essa gente cheia de mimimi, mamando na Lei Rouanet dizendo o tempo todo que não podemos nos fechar em nós mesmos e temos que aprender a viver como coletividade.
Essa gente mostra que não há possibilidade de sobrevivência se alguns ficam extremamente felizes enquanto outros são massacrados, que cada vez que um de nós tem muito mais do que suas várias gerações futuras poderiam precisar, é porque alguém não tem o necessário para viver, e que não podemos cuidar só dos “nossos” e o resto que se vire, porque todos são “os nossos”.
Artistas, esse povo que fica chorando por verba pública porque diz que arte (e não mero entretenimento), assim como ciência, não podem ficar sujeitas a regras de mercado e que esse tal mercado não pode ser o regulador da sociedade porque não há possibilidade de economia forte sem justiça social.
A arte está nos alertando desde muito tempo que nossa moral foi flexibilizada a ponto de aceitarmos como líderes, pessoas que defendem tortura ou que prendem criança em gaiola somente porque prometem mais dinheiro e nós acreditamos, maldosamente ingênuos, perversamente cegos, que esse dinheiro vai chegar a quem precisa.
Arte e ciência mostram que se a consciência do todo não for acordada, treinada, exercitada, não teremos chance enquanto espécie neste planeta.
Se não houver paz para todos, não haverá para ninguém.
Agora parece que as pessoas começam a ver que a distância entre eu e a operária de fábrica da China que faz meu tênis em troca de um salário de fome, pode ser apenas a de um microrganismo. Prestem atenção na arte, ela é incômoda, chata, como tudo o que tem ligação estreita com a realidade.
Arte dói, liberdade dá trabalho, consciência é um incômodo constante, pensamento nos deixa em crise, democracia precisa ser cuidada.
São remédios amargos, mas são os únicos que podem nos salvar.” Não sei a autoria, se alguém souber me diz aqui pra o devido crédito.

Compartilhado do Facebook de João Lopes

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu.
12/03/202
Os economistas têm suficientes interesses específicos para contribuir decisivamente para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Apartados do mundo econômico e social efetivo, participam e colaboram para o desmantelamento das instituições e dos coletivos, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror

Por Pierre Bourdieu*

Seria o mundo econômico, verdadeiramente, tal como insiste o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, dispondo implacavelmente a lógica de suas consequências previsíveis e prestes a reprimir todos os seus desvios com sanções que inflige, seja de maneira automática, seja – com maior exceção – pelo intermédio de seus braços armados, o FMI ou a OCDE, e das políticas que eles impõem: diminuição do custo da força de trabalho, redução das despesas públicas e flexibilização do trabalho? E se, na verdade, não se tratasse apenas da colocação em prática de uma utopia, o neoliberalismo, assim convertido em “programa político”, mas uma utopia que, com a ajuda de sua teoria econômica, passa a pensar a si mesma como a descrição científica do real?

Esta teoria tutelar é uma obra de pura ficção matemática, fundada, desde o princípio, numa formidável abstração: essa que, em nome de uma concepção tão estreita como estrita da racionalidade identificada à racionalidade individual, consiste em pôr entre parêntesis as condições econômicas e sociais das disposições racionais e das estruturas econômicas e sociais que são a condição de seu exercício.

Para compreender o tamanho desta omissão, basta pensar no sistema de ensino, que nunca é considerado enquanto tal num momento em que possui um papel determinante na produção de bens e serviços, assim como na produção dos produtores. Deste pecado original, inscrito no mito walrasiano[i] da “teoria pura”, brotam todas as falhas e deficiências da disciplina econômica, e a fatal obstinação com a qual ela se apega à oposição arbitrária, que ela mesma faz existir, por sua própria existência, entre a lógica propriamente econômica, fundada na concorrência e portadora da eficiência, e a lógica social, submetida à regra da igualdade.

Dito isso, essa “teoria” originalmente dessocializada e deshistoricizada tem, hoje mais do que nunca, os meios de se fazer verdadeira, empiricamente verificável. Na verdade, o discurso neoliberal não é um discurso como os outros. À maneira do discurso psiquiátrico nos asilos, segundo Erving Goffman[ii], trata-se de um “discurso forte”, que só é tão forte e difícil de combater justamente porque tem a seu favor todas as forças de um mundo de relações de força que ele mesmo contribui para produzir enquanto tal, especialmente ao orientar as decisões econômicas daqueles que dominam as relações econômicas e, assim, somar sua força própria, propriamente simbólica, a estas relações de força. Em nome deste programa científico de conhecimento, convertido em programa político de ação, produz-se um imenso “trabalho político”(denegado, posto que, em aparência, é puramente negativo) que visa a criar as condições de realização e de funcionamento da “teoria”; um programa de destruição metódica dos coletivos.

O movimento, possibilitado pela política de desregulamentação financeira, em direção à utopia neoliberal de um mercado puro e perfeito, realiza-se através da ação transformadora e, é preciso dizer, destrutiva de todas as medidas políticas (das quais a mais recente é o Acordo Multilateral sobre o Investimento, destinado a proteger as empresas estrangeiras e seus investidores contra os Estados Nacionais), visando pôr em questão todas as estruturas coletivas capazes de se antepor à lógica do puro mercado: nação, cuja margem de manobra não para de diminuir; grupos de trabalho, por exemplo, pela individualização dos assalariados e das carreiras em função das competências individuais e a atomização dos trabalhadores que resulta disso, sindicatos, associações, cooperativas; até mesmo a família, que, através da constituição dos mercados por agrupamentos etários, perde uma parcela de seu controle sobre o consumo.

O programa neoliberal, que obtém sua força social da força político-econômica daqueles cujos interesses exprime – acionistas, operadores financeiros, industriais, homens políticos conservadores ou socialdemocratas convertidos às reconfortantes renúncias do laisser-faire, altos funcionários das finanças (ainda mais árduos na imposição de uma política preconizando seu próprio declínio pois, diferentemente dos grandes empresários, não correm qualquer risco de ter de pagar pelas consequências) –, tende globalmente a favorecer a cisão entre a economia e as realidades sociais, e assim a construir, na realidade, um sistema econômico conformado à descrição teórica, isto é, uma espécie de máquina lógica que se apresenta como uma cadeia de restrições conduzindo os agentes econômicos.

A globalização dos mercados financeiros, acompanhada pelo progresso das técnicas de informação, garante uma mobilidade de capital sem precedentes e oferece aos investidores, preocupados com a rentabilidade de curto prazo de seus investimentos, a possibilidade de comparar de maneira permanente a rentabilidade das maiores empresas e de punir, por consequência, os fracassos relativos. As próprias empresas, colocadas sob tal ameaça permanente, devem se ajustar de maneira cada vez mais rápida às exigências dos mercados; isso sob a pena, como se costuma dizer, de “perder a confiança dos mercados”, e, de uma vez só, o apoio dos acionistas que, preocupados com obter uma rentabilidade de curto prazo, são cada vez mais capazes de impor sua vontade aos managers, de lhes fixar normas, por meio de diretrizes financeiras, e de orientar suas políticas em matéria de contratação, de emprego e de salário.

Assim se instauram o reino absoluto da flexibilidade, com os recrutamentos sob contratos de duração determinada ou os trabalhos temporários e os “planos sociais” reiterados, e, no interior mesmo da empresa, a concorrência entre filiais autônomas, entre equipes coagidas à polivalência e, enfim, entre indivíduos, por meio da “individualização” da relação salarial: fixação de objetivos individuais; entrevistas individuais de avaliação, avaliação permanente; altas individualizadas de salários ou concessão de bônus em função da competência e do mérito individuais; carreiras individualizadas; estratégias de “responsabilização” tendendo a assegurar a autoexploração de certos empresários que, simples assalariados sob forte dependência hierárquica, são ao mesmo tempo tidos como responsáveis por suas vendas, seus produtos, sua agência, sua loja, etc., sob a forma de “independentes”; exigência de “autocontrole” que estende a “implicação” dos assalariados, segundo as técnicas do “gerenciamento participativo”, para bem além do trabalho dos executivos. Estas são algumas das técnicas de assujeitamento racional que, ao impor o sobreinvestimento no trabalho, e não apenas naquele dos cargos de responsabilidade, e o trabalho na urgência, acabam por enfraquecer ou abolir as referências e as solidariedades coletivas[iii].

A instituição prática de um mundo darwiniano da luta de todos contra todos, em todos os níveis da hierarquia, que encontra a adesão ao trabalho e à empresa na insegurança, no sofrimento e no estresse, não poderia, sem dúvidas, ser completamente bem-sucedida se ela não encontrasse a cumplicidade das disposições precarizadas produzidas pela insegurança e pela existência, em todos os níveis da hierarquia, e mesmo nos níveis mais elevados, entre os empresários principalmente, de um exército de reserva de mão de obra docilizada pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego. O fundamento último de toda esta ordem econômica posta sob o signo da liberdade é, com efeito, a violência estrutural do desemprego, da precaridade e da ameaça de demissão que ela implica: a condição do funcionamento “harmonioso” do modelo microeconômico individualista é um fenômeno de massa, a existência do exército de reserva de desempregados.

Esta violência estrutural influi também no que chamamos de contrato de trabalho (reconhecidamente racionalizado e desrealizado na “teoria dos contratos”). O discurso empresarial nunca falou tanto de confiança, de cooperação, de lealdade e de cultura empresarial quanto em uma época em que se obtém a adesão a cada instante fazendo desaparecer todas as garantias temporais (três quartos dos contratos são de duração determinada, a parcela dos empregos precários não para de crescer, o licenciamento individual tende a não ser mais submetido a qualquer restrição).

Vemos, assim, como a utopia neoliberal tende a se incarnar na realidade de uma espécie de máquina infernal, cuja necessidade se impõe até mesmo aos dominantes. Como o marxismo de outros tempos, com o qual, neste sentido, ela tem vários pontos comuns, essa utopia suscita uma crença formidável, a free trade faith (a fé no livre comércio), não apenas naqueles que dela tiram suas justificações de existência, como os altos funcionários e os políticos, que sacralizam o poder dos mercados em nome da eficiência econômica, que exigem o levante das barreiras administrativas ou políticas capazes de incomodar os detentores de capital na procura puramente individual pela maximização do lucro individual, instituída em um modelo de racionalidade, que querem os bancos centrais independentes, que pregam a subordinação dos Estados nacionais às exigências da liberdade econômica pelos mestres da economia, com a supressão de todas as regulamentações em todos os mercados, a começar pelo mercado de trabalho, a interdição de déficits e de inflação, a privatização generalizada dos serviços públicos, a redução das despesas públicas e sociais.

Sem necessariamente compartilhar os interesses econômicos e sociais dos verdadeiros crentes, os economistas têm suficientes interesses específicos no campo da ciência econômica para contribuir decisivamente, quaisquer que sejam seus estados de espírito a propósito dos efeitos econômicos e sociais da utopia que vestem de razão matemática, para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Separados por toda sua existência e, sobretudo, por toda sua formação intelectual, na maioria das vezes puramente abstrata, livresca e teoricista, do mundo econômico e social tal como ele é, eles são particularmente propensos a confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas.

Confiantes nos modelos que não têm quase nunca a chance de submeter à prova da verificação experimental, tidos a olhar por cima as conquistas das outras ciências históricas, nas quais eles não reconhecem a pureza e a transparência cristalina dos seus jogos matemáticos, e das quais eles são frequentemente incapazes de compreender a verdadeira necessidade e a profunda complexidade, eles participam e colaboram para uma formidável mudança econômica e social que, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror (eles podem contribuir com o Partido socialista e dar sábios conselhos aos seus representantes nas instâncias de poder), não pode desagradá-los pois, sob o risco de algumas falhas, imputáveis particularmente ao que eles às vezes chamam de “bolhas especulativas”, ela tende a dar realidade à utopia ultraconsequente (como certas formas de loucura) à qual eles consagram suas vidas.

O mundo está aí, porém, com os efeitos imediatamente visíveis da colocação em prática da grande utopia neoliberal: não apenas a miséria de uma fração cada vez maior das sociedades mais avançadas economicamente, o crescimento extraordinário das diferenças entre os rendimentos, a desaparição progressiva dos universos autônomos de produção cultural, cinema, edição etc., pela imposição intrusiva de valores comerciais, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias coletivas capazes de se opor aos efeitos da máquina infernal, das quais em primeiro lugar está o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, por toda parte, nas altas esferas da economia e do Estado, ou no seio das empresas, desta sorte de darwinismo moral que, com a cultura do winner, feita para os matemáticos superiores e para o salto a elástico, instaura como norma de todas as práticas a luta de todos contra todos e o cinismo.

Podemos esperar que a massa extraordinária de sofrimento que um tal regime político-econômico produz esteja, um dia, na base de um movimento capaz de interromper esta corrida em direção ao abismo? Na verdade, estamos aqui face a um extraordinário paradoxo: enquanto os obstáculos encontrados no caminho da realização da “nova ordem” – esta do indivíduo solitário, mas livre – são hoje tidos como imputáveis à rigidez e arcaísmos, e toda intervenção direta e consciente, ao menos desde que vinda do Estado, e por qualquer parcialidade que o seja, é de cara descreditada, portanto intimada a desaparecer em prol de um mecanismo puro e autônomo, o mercado (sobre o qual esquecemos que é também o lugar de exercício dos interesses); na realidade, é a permanência ou a sobrevivência das instituições e dos agentes da antiga ordem em vias de desmantelamento, e todo o trabalho de todas as categorias de trabalhadores sociais, e também todas as solidariedades sociais, familiares ou outras, que fazem com que a ordem social não se afunde no caos, apesar do volume crescente de população precarizada.

A passagem ao “liberalismo” se dá de maneira insensível, logo imperceptível, como a deriva dos continentes, escondendo assim seus efeitos, os mais terríveis no longo prazo. Efeitos que se encontram também dissimulados, paradoxalmente, pelas resistências que ela suscita, desde já, da parte daqueles que defendem a antiga ordem extraindo dos recursos que ela encobria, nas solidariedades antigas, nas reservas de capital social que protegem toda uma parte da ordem social presente da queda na anomia (capital que, se não é renovado, reproduz, é destinado ao enfraquecimento, mas cujo esgotamento não será para amanhã).

Mas estas mesmas forças de “conservação”, que são facilmente tratadas como forças conservadoras, são também, em outra relação, forças de resistência à instauração da nova ordem, que podem tornar-se forças subversivas. E se podemos, então, conservar qualquer esperança razoável, o que ainda existe, nas instituições estatais e também nas disposições dos agentes (especialmente os mais ligados a estas instituições, como a pequena nobreza de Estado), de tais forças que, sob a aparência de simplesmente defender, como criticaremos logo em seguida, uma ordem desaparecida e os “privilégios” correspondentes, devem, de fato, para resistir à prova, trabalhar na invenção e na construção de uma ordem social que não teria como lei única a procura do interesse egoísta e a paixão individual pelo lucro, e que daria lugar a coletividades orientadas à busca racional pelos fins coletivamente elaborados e aprovados.

Dentre os coletivos, associações, sindicatos, partidos, como não dar um lugar especial ao Estado, Estado nacional ou, melhor ainda, supranacional, isto é, europeu (etapa na direção de um Estado mundial), capaz de controlar e de impor eficazmente os lucros realizados nos mercados financeiros e, sobretudo, de combater a ação destrutiva que estes últimos exercem sobre o mercado de trabalho, organizando, com a ajuda dos sindicatos, a elaboração e a defesa do interesse público que, queira-se ou não, jamais sairá, mesmo ao custo de algum erro de escrita matemática, da visão de contador (em outro temos, diríamos de lojista) que a nova crença apresenta como a forma suprema da realização humana.

*Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo e sociólogo, foi professor na École de Sociologie du Collège de France

Tradução: Daniel Souza Pavan

Notas

[i] NDLR: em referência a Auguste Walras (1800-1866), economista francês, autor de De la nature de la richesse et de l’origine de la valeur (1848); ele foi um dos primeiros a tentar aplicar a matemática ao estudo econômico

[ii] Erving Goffman, Asiles. Etudes sur la condition sociale des malades mentaux, Editions de Minuit, Paris, 1968.

[iii] Podemos nos remeter, sobre tudo isso, aos dois números da Actes de la recherche em sciences sociales consagrados às “Nouvelles formes de domination dans le travail” (1 e 2), nº114, setembro de 1996 e nº115, dezembro de 1996, e, especialmente à introdução de Gabrielle Balazas e Michel Pialoux, “Crise du travail et crise du politique”, nº114, p.3-4.

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