A barbárie como projeto, por Marcio Sotelo Felippe

A face hedionda do governo Bolsonaro mostrou-se claramente nestes 50 dias em dois projetos. A reforma da previdência e o código Moro. Não são estanques. Estruturalmente se complementam.

A reforma da previdência é parte de um projeto de acumulação em detrimento dos trabalhadores (que começou a aparecer no golpe do impeachment) que em sua totalidade vai aprofundar a miséria da massa trabalhadora, metade da qual vive com menos de um salário mínimo. Uma tal estrutura iníqua de dominação não é mantida apenas com mecanismos ideológicos.

É preciso também a violência do Estado para controle dos excluídos, em especial dos jovens da parte de baixo da pirâmide social, para os quais todas as portas para ascensão social e melhoria de vida estão fechadas. Essa é uma das funções estruturais do direito penal e a realidade por trás da aparência do Projeto Moro. A extensão da excludente de ilicitude para incluir “medo”, “surpresa” e “emoção”, na prática, diante do conservadorismo do Judiciário, por vezes filofascismo, do uso perverso que faz de expressões de linguagem aberta nesse campo, significa a legalização do homicídio para a polícia. Não atingirá quem mora no Leblon ou nos Jardins.

Temos assim o modelo do Estado neoliberal. Ele se caracteriza pela flexibilidade de seu tamanho. Conforme a necessidade é grande ou pequeno. É grande para punir, mas encolhe para ser utilizado como instrumento de acumulação.

A reforma da previdência, a longo prazo, retira do Estado a função de gerir a previdência. Receber uma aposentadoria estatal que não condene o trabalhador à miséria na velhice transforma-se em uma corrida de obstáculos praticamente impossível de ser superada. Assim, abre-se o espaço para fundos privados, dominado por grandes grupos financeiros que passam a controlar de acordo com a lógica do mercado uma massa formidável de recursos. O resultado disso no Chile estamos vendo: suicídio de idosos.

O déficit da previdência é a grande mentira do século 21, pelo menos até este ano da graça de 2019. Ele simplesmente não existe. É uma manobra grosseira martelada incessantemente, dia e noite, pelos grandes órgãos de comunicação, uma aplicação da estratégia Goebbels, segundo a qual uma mentira torna-se verdade se repetida à exaustão.

Previdência, saúde e assistência social compõem a seguridade social. Isto está no artigo 194 da Constituição Federal. As fontes de financiamento dessas três áreas estão discriminadas no artigo 195 e são múltiplas e abundantes. Contribuições dos empregados e empregadores, COFINS, PIS-PASEP, importações e até loterias. Considerando essa massa de recursos, a seguridade social tem superávit. O suposto déficit da previdência é fabricado desconsiderando os Arts. 194 e 195 da Constituição para só computar o que se arrecada com a contribuição previdenciária e o que se gasta em aposentadorias e pensões.

O que na verdade sangra o orçamento da União é a dívida pública. Ela que suga a riqueza produzida pelos trabalhadores para pagar juros e o serviço da dívida. Em 2018 foram dispendidos 380 bilhões de reais, algo entre 40 e 50% do orçamento da União.

Começa-se a entender a lógica do mercado ao exigir a reforma da previdência quando se verifica de onde vem parte dos recursos para a dívida. Exatamente das fontes de financiamento da seguridade social que estão lá no Art. 195 da Constituição e que deveriam apenas financiar a seguridade social. Pelo mecanismo da DRU (Desvinculação de Receitas da União) esses recursos são utilizados também para a dívida pública. Então, o de que se trata é o seguinte: é preciso diminuir as despesas com a Previdência para que o superávit das fontes de receita da seguridade social esteja disponível para o pagamento dos juros e serviço da dívida.

O ajuste fiscal de que precisamos é outro e para outros fins. Lucros e dividendos, por exemplo, estão isentos de Imposto de Renda. Claro que os pró-labores diminuem e essa massa de recursos tributáveis vai para a rubrica a salvo do imposto. A monstruosidade aparece quando, em vez de tributar lucros, corta-se o Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos pobres com mais de 60 anos. Ele passaria, com a reforma, a ser de meio salário mínimo até os 70 anos. Não há como qualificar isso. Dizer monstruosidade é insuficiente. O ajuste fiscal precisa ser feito para que o Estado possa oferecer saúde, educação, bens sociais, investir, gerar empregos. Mas esses gastos estão congelados porque o parasitismo financeiro precisa de recursos.

Mais e mais as classes dominantes refestelam-se no capitalismo financeiro parasitário provocando a desindustrialização. Segundo dados do IBGE, a indústria responde hoje por apenas 11 por cento do PIB, a menor desde os anos 50, quando deixávamos, nas décadas anteriores, de ser um país eminentemente agrário. Nos anos 1980 a participação da indústria era superior a 20%.

A desindustrialização gera um efeito tremendo na base da sociedade. Circulação de ativos financeiros não produz riqueza real. Como diz Ladislau Dowbor, “é o rabo que balança o cachorro”. Ou seja: “ sistema financeiro é de mediação, não produz nada. Então as áreas produtivas se tornam o meio para os especuladores ganharem dinheiro”. Menos empregos, mais trabalhadores tendo que sobreviver na economia informal, sem direitos e garantias e os que estão na economia formal sendo mutilados em seus direitos pela reforma trabalhista. Pauperiza-se a base da sociedade, que não tem como consumir e constitui-se o círculo vicioso da desindustrialização.

Nesse cenário irracional e caótico, que não abre qualquer perspectiva para os despossuídos, oprimidos economicamente e oprimidos também psicologicamente pela desigualdade ao contemplar a orgia de luxo e consumo dos privilegiados, é preciso um xerife Moro para manter essa pirâmide social lotando presídios.

Neste espaço, em outra oportunidade, transcrevi parte de uma entrevista de John Ehrlichman, assessor de Nixon. Peço licença aos leitores para fazê-lo de novo porque é exatamente disto de que se cuida, na essência: “Quer saber realmente do que se tratava? A campanha de Nixon em 1968 e a Casa Branca, depois, tinham dois inimigos: a esquerda contrária à guerra (do Vietnam) e os negros (…) Sabíamos que não podíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou ser negro, mas ao fazer com que as pessoas associassem aos hippies a maconha e aos negros a heroína, e penalizar severamente ambas as substâncias, podíamos pegar as duas comunidades. Podíamos deter seus líderes, realizar incursões em suas casas, interromper suas reuniões e difamá-los noite após noite nos noticiários. Sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim”.

É uma confirmação empírica do conceito de direito penal como meio de dominação pelo controle da massa de excluídos. O endurecimento das leis penais, o punitivismo, que puseram no sistema prisional brasileiro 800 mil pessoas, a maior parte jovens negros, é tanto maior quanto maior a desigualdade e a irracionalidade da estrutura social. É para isto que serve o Código Moro.

No governo do capitão, as duas pontas do laço que vai apertar mais o pescoço da massa excluída estão nas mãos de Guedes e Moro. Pouco importa para os setores beneficiados quem seja o presidente. Pouco importa que seja notoriamente despreparado, com um comportamento fora da curva do padrão de normalidade psicológica e incapaz de articular uma frase que não derive do mais estulto que há no senso comum e de fácil apelo popular.

O caos e as trapalhadas desse governo somente incomodam essa elite se põem em risco a reforma da previdência, vale dizer, o capitalismo parasitário. Aí então editoriais e colunistas irados passam uma carraspana no tresloucado presidente e deixam nas entrelinhas a ameaça de apeá-lo do poder. E eles o farão se realmente o trapalhão se revelar incapaz de conduzir a reforma que eles querem.

Bolsonaro é uma sombra. O real é esse projeto de acumulação e consequente pauperização da massa e seus condutores são de verdade o poder hoje. O real é esse projeto de barbárie social.

MARCIO SOTELO FELIPPE é advogado e foi procurador-geral do Estado de São Paulo. É mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP

Publicado em revistacult.uol.com.br

Reforma da Previdência e a safadeza da propaganda oficial em conluio com a mídia comprada

Acordei bem mais cedo hoje. Antes das 6:00 h. Fui ao banheiro e liguei o rádio. É onde ouvimos rádio aqui em casa. Fica, normalmente, sintonizado em uma estação de notícias ou de música. Na maioria das vezes, na Band News (nunca um nome se ajustou tão bem às práticas e à ética de uma empresa: Band. Genial abreviatura), ou na CBN, das Organizações Globo. Organizações … outro nome bem adequado. Com um toque algo mafioso.

Estou no Rio de Janeiro. Seis e pouco da madrugada. Hora que o trabalhador e a trabalhadora mais atingidos pela reforma da Previdência chacoalham, espremidos, no BRT ou no trem da Central.

O rádio do banheiro está sintonizado na CBN – a rádio que vende mentiras. Intervalo para faturamento. Anúncio do governo sobre a reforma da Previdência. O locutor fala mais ou menos o seguinte:

“Você já viu a nova Previdência? Muito melhor! Com a nova Previdência, quem ganha menos paga menos, quem ganha mais paga mais”.

E quanto à redução ou extinção dos benefícios, locutor? Nenhuma palavra? Em qual planeta uma caderneta de poupança presa por 40 anos nas garras de bancos e instituições financeiras seria MELHOR que a Previdência atual?

Não bati com o rádio no chão, embora tivesse tido vontade. Sou aposentado. Privilegiado. Devo ser afetado – um pouco – pela reforma, mas não estarei entre os idosos que irão morrer antes da aposentadoria ou praticarão suicídio ou, aposentados, vão ter que voltar trabalhar – ou mendigar – para poderem comer, morar e comprar remédios.

Essa publicidade do governo federal deveria uma simples campanha de esclarecimento sobre os diversos pontos da reforma da Previdência mas é, ao contrário, propaganda enganosa, uma safadeza, direcionada para os trabalhadores mais humildes, quando eles estão indo para o trabalho.

Paulo Guedes e Bolsonaro querem tirar da previdência social um trilhão de reais em 10 anos. Ora, a Previdência é, principalmente, você. Um trilhão de reais é a soma da brutal perda de direitos que a nova Previdência trará. Não se iluda. Você está sendo ludibriado. Ninguém gasta rios de dinheiro com propaganda oficial e com compra de deputados e senadores para conceder um aumento de benefícios para você. Quando você desembrulhar este pacote que eles dizem ser um pacote de presentes, perceberá tratar-se um pacote de perversidades. Um golpe de mestre. Com a conivência da mídia comprada com recursos públicos, para veicular propaganda enganosa, safadeza oficial.

Brasil, propaganda enganosa acima de tudo.

Safadeza por parte deles todos.

Paulo Martins

Visões, por Bertolt Brecht

PARADA DO VELHO NOVO

Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo.

Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado.

A pedra passou rolando como a mais nova invenção, e os gritos dos gorilas batendo no peito deveriam ser as novas composições.

Em toda parte viam-se túmulos abertos vazios, enquanto o Novo movia-se em direção à capital.

E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via pessoas que não gritavam.

Assim marchou o Velho, travestido de Novo, mas em cortejo triunfal levava consigo o Novo e o exibia como Velho.

O Novo ia preso em ferros e coberto de trapos; estes permitiam ver o vigor de seus membros.

E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.

Bertolt Brech – Poemas 1913 – 1956

Seleção e tradução de Paulo César de Souza

Editora 34

Amazônia, Chico Mendes e o “ministro” Meio Sem Ambiente

O texto é do André Trigueiro. O título do artigo é meu.

Do Blog do André Trigueiro:

Ao lembrar que o ministro faria no dia seguinte sua primeira viagem à Amazônia, e que a região desperta preocupação mundial, Lessa perguntou qual a opinião dele sobre Chico Mendes.

“Faltavam menos de 4 minutos para que a edição da última segunda-feira do programa Roda Viva, da TV Cultura, chegasse ao fim. Como de praxe, o âncora Ricardo Lessa pediu licença aos debatedores para fazer as últimas perguntas “rápidas” ao entrevistado. Depois de uma tensa sabatina em que defendeu a flexibilização da legislação ambiental, o auto-licenciamento, e a desimportância da agenda climática em relação a outras prioridades de sua pasta, entre outras questões, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles não poderia imaginar que suas últimas respostas seriam aquelas que mais repercutiriam depois.

“Olha, eu não conheço Chico Mendes. Eu tenho um certo cuidado em falar sobre coisas que eu não conheço”. Ao reconhecer a própria ignorância em torno da figura de uma das principais lideranças do movimento ambientalista brasileiro, o ministro poderia encerrar a resposta aí. Mas seguiu em frente dizendo:

Ministro: (…) Eu escuto histórias de todo lado. Dos ambientalistas mais ligados à esquerda, o enaltecimento de Chico Mendes. As pessoas que são do agro, que são da região, dizem que Chico Mendes não era isso que é contado…

Cristina Serra (uma das debatedoras convidadas) : O que o pessoal do agro diz para o senhor?

Ministro: Que o Chico Mendes usava os seringueiros para se beneficiar, fazia uma manipulação da opinião…

Ricardo Lessa: Beneficiar o que? Ele morreu pobre.

Ministro: O fato é que é irrelevante. Que diferença faz quem é o Chico Mendes nesse momento?

Cristina Serra: Chico Mendes é uma liderança reconhecida pela ONU.

Ministro: Mas a ONU reconhece um monte de coisa errada também.

Bastaram alguns segundos de um diálogo tenso para se perceber claramente (quem quiser conferir a entrevista na íntegra acesse a página do Roda Viva no Facebook) o desprezo do atual ministro do Meio Ambiente pela história e pelo legado de Chico Mendes por entendê-lo como alguém da “esquerda”, e de quebra, pela ONU.

Em respeito à história, vale lembrar de quem estamos falando.

Chico Mendes só passou a ser conhecido no Brasil depois de receber em 1988 o prestigiado Prêmio Global 500 Roll of Honour, concedido pela ONU, pela defesa do meio ambiente. Na oportunidade, ele previu que seria assassinado pela luta que vinha travando no Acre. Líder seringueiro, Chico criou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (AC) na década de 1970, quando começou a receber ameaças de morte. Ajudou a fundar o PT na região (talvez venha daí a antipatia do atual ministro, fundador do Movimento Endireita Brasil) e a organizar a União dos Povos da Floresta. Sua militância em favor do desenvolvimento sustentável da região incomodava os fazendeiros que expandiam as áreas de pasto derrubando extensas áreas de floresta.

Chico Mendes impedia o avanço dos tratores sobre a floresta recorrendo ao “empate”, quando famílias inteiras (mulheres e crianças à frente) se sentavam de forma organizada próximo das máquinas, inibindo a ação dos desmatadores. As ameaças de morte se intensificaram quando Chico teve contato direto com representantes do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e do Senado americano, e denunciou projetos financiados com recursos estrangeiros que ameaçavam as comunidades indígenas e a floresta. Quando o fluxo de dinheiro para o desmatamento minguou, a decisão de matá-lo ganhou força.

Chico Mendes foi assassinado aos 44 anos com tiros de escopeta na varanda de casa, mesmo sob a escolta de dois policiais. Os fazendeiros Darly Alves (mandante do crime) e o filho dele, Darcy Alves Ferreira (autor do disparo) foram condenados a 19 anos de prisão. Um ano depois do assassinato de Chico Mendes, o então presidente José Sarney – sob pressão da comunidade internacional e de várias organizações do Brasil por não garantir a vida do líder seringueiro nem a proteção das florestas -criou o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis). Por coincidência, o Ibama vem sendo acusado de ser uma “indústria de multas”.

Antes de encerrar o Roda Viva, Ricardo Salles ainda foi perguntado se teria algum livro de cabeceira na área de meio ambiente. “Eu já li vários livros na área de meio ambiente. Hoje estou lendo os técnicos, sobre licenciamento ambienal, sobre temas de pagamento por serviços ambientais. Questões técnicas que tragam resultados”, respondeu.

O âncora insistiu: “Mas, um livro inspirador…”

A resposta foi inclemente: “Da área de meio ambiente são os livros técnicos que eu uso. Eu acho que são necessários ao trabalho”

E rolaram os créditos.

Dentre as muitas leituras que poderíamos indicar aqui para o ministro, fica a dica para o excelente livro do colega Zuenir Ventura, “Chico Mendes, crime e castigo”, um amplo registro do que de mais importante houve antes, durante e depois do assassinato do “herói dos povos da floresta”. Depois de conquistar o Prêmio Esso de Jornalismo pela série de reportagens sobre o assassinato de Chico Mendes, Zuenir voltou ao Acre 15 anos depois para ver o que tinha acontecido por lá. Vale a pena conferir.

A história segue. É dinâmica. Nem o Acre, nem o Brasil, nem a política, nem os ambientalistas ou os ruralistas são os mesmos. Mas o que se espera de um ministro do Meio Ambiente permanece igual. Ou seja, alguém identificado com o sentido maior de todas as lutas ambientais, que é o uso inteligente e sustentável dos recursos naturais. Exatamente o que Chico Mendes defendeu ao lado dos seringueiros, castanheiros, indígenas, pequenos pescadores, quebradeiras de coco e populações ribeirinhas da Amazônia. Ninguém mais deveria morrer por isso. Importante que o ministro do Meio Ambiente seja o primeiro a reconhecer o mérito dessa luta.”

A vaga reservada no topo da cadeia alimentar, por Maria Cristina Fernandes

Publicado no Valor Econômico.

Maria Cristina Fernandes, para equilibrar-se na posição em que se encontra como colunista do jornal Valor Econômico, das Organizações, precisa, sempre que escreve um texto contra o governo patronal, qualquer governo patronal, fazer críticas ao PT. É uma espécie de salvo-conduto. Se o assunto é a extinção da Previdência Social para os jovens que entrarão no mercado de trabalho e sua substituição por uma espécie de poupança compulsória, administrada por terceiros, por que ela não foca exclusivamente neste assunto, atual e urgentíssimo, informando ao público leitor detalhes desse golpe de mestre da dupla Guedes-Bolsonaro?. A conclusão é simples: o público leitor do jornal Valor Econômico é o seleto mundo dos empresários, a elite predatória nacional e estrangeira. Para eles não servem a omissão e a manipulação grotesca praticadas pelo Extra, Istoé, Veja, Estadão, O Globo, a imprensa engana-bobo nacional. Para esse mundo empresarial o Valor Econômico serve a receita neoliberal tradicional, com algumas análises um pouco menos superficiais. Aí entra Maria Cristina Fernandes, como uma voz pretensamente alternativa, mas que precisa, para ser aceita (engolida, na verdade) pela nossa elite escravocrata, para ganhar a confiança desse mercado ávido pelas reformas a qualquer custo, de falar mal dos governos do PT desde a introdução até a metade do texto. Compreensível. O jornal é feito para eles, para essa classe de sangue-sugas, para essa classe que vive e enriquece do trabalho alheio. Também, vindo das Organizações esperar o quê?

Paulo Martins


A vaga reservada no topo da cadeia alimentar

O governo Luiz Inácio Lula da Silva mal tinha começado quando Francisco de Oliveira publicou um texto em que identificou o surgimento de uma nova burocracia. Gestores de fundos de pensão, ligados ao partido do presidente da República, agiriam em defesa deste ou daquele investimento contrariando, muitas vezes, os interesses dos trabalhadores por meio dos quais ascenderam ao poder. Ao premonitório texto, Oliveira deu o nome de Ornitorrinco, uma alegoria desses novos gestores na forma de um mamífero, ovíparo e com bico de pato.

O sociólogo foi o primeiro a prever as mudanças políticas geradas pela gestão de fundos pensão de estatais pelo PT. Não era a primeira vez que isso acontecia. Expandidos, em grande parte, durante a ditadura, acumularam digitais do PFL de Antonio Carlos Magalhães, aos interesses privatistas do PSDB. No poder, o PT, além de espalhar ornitorrincos pela capital federal, franqueou espaços ao MDB de Renan Calheiros e Eduardo Cunha.

A ingerência sobre os recursos desses fundos fez a fortuna de gerações de empresários brasileiros, recheou a crônica de todos os grandes escândalos das últimas décadas, da Capemi à JBS, e adentrou a era Bolsonaro. O governo ainda não tinha completado um mês quando a Polícia Federal deflagrou uma operação para prender acusados de pagar subornos para que recursos de fundos de pensão de estatais e órgãos públicos administrados pelo BRB fossem investidos em projetos de duvidosa viabilidade como um hotel de luxo na Barra da Tijuca (RJ), tocado por uma sociedade que chegou a reunir as empresas do presidente americano, Donald Trump, e o neto do último general-presidente da ditadura, João Figueiredo.

Ao propagandear a capitalização privada como a saída para a Previdência no país, o governo Jair Bolsonaro é favorecido pela trágica memória recente da administração dos fundos públicos de pensão. Já se desmentiram idade mínima, paridade de gênero ou redução de abonos, mas ainda não se contestou a capitalização como pilar desta reforma. Tanto a mensagem presidencial ao Congresso Nacional quanto as declarações do ministro da Economia são no sentido de que a capitalização da Previdência pública é o que garantirá o futuro da juventude brasileira.

A julgar pela minuta, no entanto, esse futuro ainda é uma página em branco a ser desenhada pelo quórum mais reduzido da legislação complementar. O texto preliminar não deixa dúvidas de que está por se abrir, com uma carta branca, um mercado bilionário para o concentrado sistema financeiro que é o gestor da previdência privada do país.

Em duas décadas, os fundos de previdência aberta em suas duas modalidades (VGBL e PGBL), acumularam um patrimônio (R$ 800 bilhões) equivalente àquele dos fundos de previdência fechados. Nas contas de Daniel Pulino, professor de direito previdenciário da PUC-SP e conselheiro do fundo de previdência dos servidores federais (Funpresp), as taxas de administração dos fundos abertos fazem com que, ao longo de 35 anos, se reduza, pela metade, a rentabilidade do benefício (ver gráfico acima).

Capitalização é o pilar da reforma da Previdência

Ao remeter para legislação complementar a regulamentação, a proposta deixa em aberto a possibilidade de os fundos abertos não apenas aumentarem sua carteira com uma contribuição compulsória dos trabalhadores da iniciativa privada como concorrerem com os fundos de pensão fechados na captação de servidores. Ganhariam terreno na crença de que a gestão pública da Previdência está sujeita à roubalheira. O medo sugeriria ainda aos poupadores que taxas de administração que afetam a rentabilidade de seu benefício futuro e aumentam a remuneração do capital dos acionistas das instituições financeiras, não passam de uma pechincha.

Ao longo das últimas décadas, os fundos de pensão e o BNDES foram os responsáveis por grande parte do financiamento da infraestrutura do país. Gerações de políticos ascenderam em seus partidos como despachantes desses interesses. A capitalização da Previdência parte do pressuposto de que os recursos a serem captados pelos fundos geridos pelos bancos vão fomentar o mercado de capitais e, por meio deles, o financiamento do investimento privado.

Depois de preconizar reformas do gênero, o Banco Mundial já publicou sucessivas ressalvas de que o almejado fomento do mercado de capitais tem ficado aquém do esperado e que as empresas empregadoras, ao se ausentarem paulatinamente da co-participação dos benefícios previdenciários geridos pelos fundos privados, arriscam o empobrecimento dos poupadores na velhice.

A gestão desses recursos previdenciários pelos bancos tem ônus e bônus. A imagem a zelar, pilar do seu negócio, reforça a segurança atuarial do produto. O preço a ser pago pelo país é a concentração ainda maior de poder no sistema financeiro, o bicho que está no topo da cadeia alimentar em que vive o ornitorrinco. Os critérios de governança desse mercado serão definidos pela intricada tramitação da reforma, em detalhes cujo interesse para as poderosas redes sociais tem sido inversamente proporcional à importância para o futuro daqueles que sequer conquistaram o direito ao voto.

Golpe de Mestre

Paulom

06.02.2019

dialogosessenciais.com

Patrão (P), Governo Federal (G) e Empregado (E) pegaram um bilionário empréstimo no Banco (B), comprometendo-se a pagá-lo juntos.

P sonegou parte da sua obrigação e convenceu G a desobrigá-lo de pagar uma outra parte importante.

G nunca pagou sua parte pois desviou os recursos para outros gastos.

E pagou sozinho sua parte, descontadas compulsoriamente por P e G do seu contracheque. Parte do valor descontado de E nunca foi enviada por P para Banco.

P e G, devedores, se juntaram e combinaram chamar de déficit o que é, em verdade, sonegação, desoneração, falcatrua, calote, desvio e apropriação indébita.

P e G alegam que as dívidas do empréstimo que eles contraíram e não pagaram, virou uma bola de neve e não cabe nos seus orçamentos.

P e G, preocupados com a saúde financeira de Banco, acertam renegociação do empréstimo e do saldo da dívida colocando E como único devedor.

Você acha justo?

Substitua a palavra Banco por Previdência Social, empréstimo por Contribuição Previdenciária e déficit por dívida e você vai entender porque a reforma da Previdência de Guedes (leia mercado financeiro) e de Bolsonaro (leia estamento fascista) é um GOLPE de MESTRE.

Paulom

Não nos resta muito, por Fernando Horta .

Não nos resta muito, por Fernando Horta .

O fascismo é sempre libertado pelos liberais. Quem detém as chaves das instituições que guardam as liberdades individuais e o “status quo” são eles. As instituições têm o poder de afastar o fascismo, mas – como afirmava Marx – o homem é construído pelas relações materiais que experimenta. Isto quer dizer que a ideologia de classe é parte constitutiva de cada sujeito. A gente vê o mundo pela janela do nosso quarto. O mundo que se vê, a disposição de olhar, o tempo para tal, as cores e os entendimentos, dependem decisivamente de onde você está, de onde você “mora”.

Diante do medo da mudança, a ideologia de classe opera em quem comanda as instituições. O historiador Walter Laqueur lembra, com correção, que os fascistas são sempre os “perdedores da modernidade”. Aqueles que não aceitam a mudança, a inclusão, a transformação da sociedade, dos padrões culturais, das normas sociais e etc. Aconteceu assim no início do século XX e, de novo, no início do século XXI. Este desconforto (cujo termo técnico é “modern malaise”) no século XX se configurava nos anseios de igualdade social, voto feminino, migrações, direitos para os trabalhadores e urbanização. Em tudo semelhante com o que ocorre no século XXI. E que não se diga que não há pessoas nos dias de hoje que questionem, por exemplo, o voto feminino. A pastora-ministra de Bolsonaro, Damares, sonha com uma sociedade em que as mulheres fiquem reclusas a sua casa. (Nós sonhamos que ela aplique o seu sonho a ela mesma.)

No século XXI, o “modern malaise”, que impulsiona o fascismo “contra tudo que está aí (talkey)”, guarda impressionante semelhança com o do século XX. Cem anos não foram suficientes para que a sociedade humana pudesse refletir e compreender este ponto. Hitler usava canhões e aviões modernos para impor uma sociedade que ele procurava espelhar na medievalidade germânica (o primeiro Reich ou o Sacro Santo Império Romano Germânico). Ele usava bombas e tanques, mas gostaria de usar espadas e lanças. A relação é a mesma de milhares de pessoas usando celulares de última geração para propagar mentiras sobre endemoniamento, comunismo ou “dominação mundial”. É o mesmo sentido de evangélicos neopentecostais vendendo indulgências e recebendo via transferência bancária na internet.

Uma pergunta sobre o fascismo que sempre se fez, e que hoje se torna ainda mais importante é: como pode? Como pode milhões de pessoas parecerem entrar em um “transe” de consciência e de intelecto e acreditarem em figuras bizarras como Olavo de Carvalho, Silas Malafaia, Damares Alves ou a própria família Bolsonaro? É uma assustadora e coletiva dissonância cognitiva que, na Inglaterra, por exemplo, os levou a votarem pela saída do país da UE. O “Brexit” de lá simplesmente quebra a economia do país e foi “votado” em meio à histeria coletiva, em tudo semelhante à eleição de Bolsonaro e Trump. Como pode na eleição brasileira, Bolsonaro ter digerido TODA a direita brasileira? Alckmin, Marina, Amoedo, Meirelles, Álvaro Dias terem sido aniquilados por alguém que não tem condições cognitivas de juntar duas frases ou oferecer qualquer solução para o Brasil?

A resposta fácil é: “a internet”, o “whatsapp” e “as redes”. A resposta fácil quase nunca é a correta. A imensa migração de votos para Bolsonaro não se deveu ao seu programa de governo (que a rigor nem existia), também não foi devido às soluções econômicas ou sociais apresentadas (não apresentou nenhuma) ou a qualquer histórico de serviços ao país e à sociedade (em 28 anos Bolsonaro nunca fez nada de significativo. A que se deve, então, este fenômeno?

Ao fascismo.

O ser humano precisa de reconhecimento e acolhida. São frequentes temas na psicologia e antropologia. A ideia de “pertencimento” é parte da subjetivação humana. Só somos e sobrevivemos em grupo. A modernidade, gerenciada pelos liberais, avança sobre a ideia de “individualismo” de uma maneira que desfaz laços e gera um impressionante senso de crise social. Quando o individualismo se torna um valor em si, a sociedade adoece. Apesar dos fascistas do século XXI propalarem o individualismo (e esta é uma marcante diferença para o século XX), tudo o que eles fazem e defendem é ao contrário do que falam. Querem regular corpos, proibir o uso de espaços, controlar as ideias individuais, atacar as artes e etc. Há uma imensa diferença entre o que dizem e o que fazem.
Ocorre que, ao fazerem estas ações, ao convencerem-se de que estão certos, eles se consubstanciam em um grupo e se sentem parte de algo maior. As frustrações individuais são subsumidas em um todo que age coletivamente – sempre com violência – contra o que é diferente, o que é dissonante e o que ameaça suas certezas sobre o mundo e as coisas. Paradoxalmente, o processo fascista de destruir os coletivos contrários a si, reforça o coletivo fascista, suas ideias, suas certezas e sua violência. As massas não demoram a transformarem-se em turbas.

Jean Wyllys está certo.

O fascismo aumenta o custo da oposição ao máximo, enquanto diminui o custo da aceitação. O fascismo de Bolsonaro et caterva ameaça a vida de Jean Wyllys (e de milhões de outras pessoas) o tempo todo, e de diversas maneiras. A descoberta de que seu filho está imbricado em relações escusas com as milícias do RJ, enquanto seu ministro da justiça nada diz e nada fala é apavorante. O assassinato de Marielle foi um exemplo do que o fascismo vai fazer no Brasil. Cada apoiador de Bolsonaro se torna um assassino em potencial se for convencido de que suas ações são para “o bem do país” ou “o bem do mito”. A vida se torna o preço da oposição política ao fascismo, e Jean Wyllys se deu conta disso a tempo.

Juntamente com a elevação do custo da oposição, o fascismo baixa o preço da aceitação. Bolsonaro desidratou toda a direita brasileira porque, para ser fascista e ser aceito neste imenso grupo de “apoiadores do mito”, basta que você use as cores deles, fale as palavras de ordem deles ou se esconda. Basta esconder sua sexualidade, suas tatuagens, seus piercings, o cabelo, os hábitos, suas preferências políticas. Basta que alguém se torne invisível para ser deixado em paz pelos fascistas.

A escolha de Jean Wyllys era ou desafiar a morte ou se tornar invisível. Jean rejeitou as duas e sai de um país que sequer República é mais. Deixamos de ser democracia com o golpe sobre Dilma Rousseff, deixamos de ser República quando Lula foi preso e estamos deixando de ser civilizados com o auto-exílio de Jean Wyllys. Ainda temos um fiapo de humanidade. Eu me pergunto quanto tempo ele irá durar .

Publicado por João Lopes

O analfabeto político e o fascista

O analfabeto político é incapaz de ler a realidade externa aos muros da sua casa. Pode até ser um bom pai, ou mãe, bom filho ou filha, um esposo (ou esposa) fiel e atencioso. De repente, é carinhoso com o cachorro.

O analfabeto político faz caridade no natal, mas é incapaz de entender que fora de casa o mundo é regido por projetos de poder que atendem, sempre, a interesses específicos.

Por isso, o analfabeto político acha que existem governos sem ideologia, que existe educação neutra e imparcial. O analfabeto político quer fazer caridade pra população de Brumadinho, mas votou no candidato que quer destruir o IBAMA, que quer afrouxar a legislação ambiental.

É possível ter título de doutor e ainda assim ser analfabeto político. Conheço muitos, muitos mesmo.

O analfabeto político morreu como homem público.

O analfabeto político não saber ler o mundo. De todas as doenças que afetam a inteligência, o analbetismo político é a mais grave.

Já o fascista é bem diferente do analbeto político. Há semelhanças também.

Tal como analfabeto político, o fascista também pode ser um bom pai, um filho carinhoso e um marido atencioso. O fascista pode ser aquele tio bonachão, que faz churrasco pra família no final de semana.

Diferente do analbeto político, o fascista é capaz de entender a realidade externa à sua casa. Diferente do analfabeto político, o fascista sabe ler o mundo.

O fascista sabe perfeitamente que o mundo é regido por projetos de poder e escolhe, deliberadamente, o projeto que quer destruir o outro, aqueles que ele considera uma ameaça para sua família.

“Família”. Tá aí um valor sagrado para o fascista.

Há muito tempo, na sala dos professores, eu lamentava a morte de um menino pobre, morador do Complexo da Maré. O menino brincava na porta de casa, com um celular na mão. A PM colocou um bala de fuzil na cabeça da criança.

Imaginem isso: uma bala de fuzil na cabeça de uma criança de 6 anos.

Um colega professor, virou-se pra mim e disse: “isso não pode acontecer com o meu filho, nem com o seu. Mesmo que morram alguns inocentes, se for pra matar todos os bandidos, a gente ainda tá no lucro”.

“A gente ainda tá no lucro”.

O fascista sabe perfeitamente que a política de segurança pública num país como o Brasil atende a um projeto de poder, que pretende proteger o proprietários e exterminar os pobres. O fascista sabe ler.

A fala do meu colega professor é a manifestação perfeita do fascista à brasileira. O fascista ama os seus, aqueles que conhece, com quem tem vínculos de sangue. O amor do fascista tem nome próprio. O fascista é incapaz de amar o anônimo, o desconhecido, o gênero humano.

O amor do fascista é concreto, sem capacidade de abstração.

O fascista não ama a humanidade. O fascista só ama a família. A família dele.

De todas as doenças do caráter, o fascismo é a pior delas. Não podemos confundir o fascista com o analfabeto político. É necessário distinguir um do outro.

Com o fascista, não existe pedagogia possível. Para o fascista, só o porrete moral.

O analfabeto político precisa aprender a ler. Nós devemos ensinar.

Por Rodrigo Perez Oliveira

E agora, José? Música de Paulo Diniz, poema de Carlos Drumond de Andrade

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?”
(Drummond)

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Openly Gay Brazil Congressman Leaves Job Amid Death Threats

Primeiro a nota Pública da AJD e, a seguir, a carta de Jean Willis e, ao final, o vexame internacional do Brasil, a notícia publicada pelo The New York Times e distribuída pela AP.

NOTA PÚBLICA

A Associação Juízes para a Democracia (AJD) entidade não governamental, de âmbito nacional, sem fins corporativos, que tem como um de seus objetivos estatutários a defesa dos direitos e garantias fundamentais e a manutenção do Estado Democrático de Direito, manifesta forte preocupação com a notícia de que ameaças contra a vida do Deputado Federal Jean Wyllys o levaram a tomar a decisão de não assumir o mandato para o qual foi reeleito e que pretende se exilar.

Não há verdadeira democracia sem respeito aos partidos e aos parlamentares de oposição, a suas manifestações, suas opiniões e à integridade física. Qualquer ameaça ou intimidação visando constranger ou calar a oposição deve ser prontamente rechaçada pelas instituições democráticas.

Indissociável que tais ameaças se dirijam contra um parlamentar dedicado às causas das minorias, especialmente da comunidade LGBT, sendo o Brasil o país onde mais se mata homossexuais no mundo.

Alia-se à gravidade desses fatos, a ausência de resposta do Estado brasileiro ao assassinato da Vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes, passados mais de 10 meses.

A intolerância e a violência, verbal ou física, não podem continuar marcando o debate político do país.

A AJD exige do Ministro da Justiça que tome imediatas providências a fim de garantir a vida e a integridade física do Deputado Federal Jean Wyllys, como assim de todo e qualquer parlamentar que seja alvo de ameaças, e que garanta o livre exercício dos mandatos para os quais foram eleitos.

AJD – Associação Juízes para a Democracia

Carta de Jean Willis à Executiva do PSOL:

Queridas companheiras e queridos companheiros,

Dirijo-me hoje a vocês, com dor e profundo pesar no coração, para comunicar-lhes que não tomarei posse no cargo de deputado federal para o qual fui eleito no ano passado.

Comuniquei o fato, no início desta semana, ao presidente do nosso partido, Juliano Medeiros, e também ao líder de nossa bancada, deputado Ivan Valente.

Tenho orgulho de compor as fileiras do PSol, ao lado de todas e todos vocês, na luta incansável por um mundo mais justo, igualitário e livre de preconceitos.

Tenho consciência do legado que estou deixando ao partido e ao Brasil, especialmente no que diz respeito às chamadas “pautas identitárias” (na verdade, as reivindicações de minorias sociais, sexuais e étnicas por cidadania plena e estima social) e de vanguarda, que estão contidas nos projetos que apresentei e nas bandeiras que defendo; conto com vocês para darem continuidade a essa luta no Parlamento.

Não deixo o cargo de maneira irrefletida. Foi decisão pensada, ponderada, porém sofrida, difícil. Mas o fato é que eu cheguei ao meu limite. Minha vida está, há muito tempo, pela metade; quebrada, por conta das ameaças de morte e da pesada difamação que sofro desde o primeiro mandato e que se intensificaram nos últimos três anos, notadamente no ano passado. Por conta delas, deixei de fazer as coisas simples e comuns que qualquer um de vocês pode fazer com tranquilidade. Vivo sob escolta há quase um ano. Praticamente só saía de casa para ir a agendas de trabalho e aeroportos. Afinal, como não se sentir constrangido de ir escoltado à praia ou a uma festa? Preferia não ir, me resignando à solidão doméstica. Aos amigos, costumava dizer que estava em cárcere privado ou prisão domiciliar sem ter cometido nenhum crime.

Todo esse horror também afetou muito a minha família, de quem sou arrimo. As ameaças se estenderam também a meus irmãos, irmãs e à minha mãe. E não posso nem devo mantê-los em situação de risco; da mesma forma, tenho obrigação de preservar minha vida.

Ressalto que até a imprensa mais reacionária reconheceu, no ano passado, que sou a personalidade pública mais vítima de fake news no país. São mentiras e calúnias frequentes e abundantes que objetivam me destruir como homem público e também como ser humano. Mais: mesmo diante da Medida Cautelar que me foi concedida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, reconhecendo que estou sob risco iminente de morte, o Estado brasileiro se calou; no recurso, não chegou a dizer sequer que sofro preconceito, e colocaram a palavra homofobia entre aspas, como se a homofobia que mata centenas de LGBTs no Brasil por ano fosse uma invenção minha. Da polícia federal brasileira, para os inúmeros protocolos de denúncias que fiz, recebi o silêncio.

Esta semana, em que tive convicção de que não poderia – para minha saúde física e emocional e de minha família – continuar a viver de maneira precária e pela metade, foi a semana em que notícias começaram a desnudar o planejamento cruel e inaceitável da brutal execução de nossa companheira e minha amiga Marielle Franco. Vejam, companheiras e companheiros, estamos falando de sicários que vivem no Rio de Janeiro, estado onde moro, que assassinaram uma companheira de lutas, e que mantém ligações estreitas com pessoas que se opõem publicamente às minhas bandeiras e até mesmo à própria existência de pessoas LGBT. Exemplo disso foi o aumento, nos últimos meses, do índice de assassinatos de pessoas LGBTs no Brasil.

Portanto, volto a dizer, essa decisão dolorosa e dificílima visa à preservação de minha vida. O Brasil nunca foi terra segura para LGBTs nem para os defensores de direitos humanos, e agora o cenário piorou muito. Quero reencontrar a tranquilidade que está numa vida sem as palavras medo, risco, ameaça, calúnias, insultos, insegurança. Redescobri essa vida no recesso parlamentar, fora do país. E estou certo de preciso disso por mais tempo, para continuar vivo e me fortalecer. Deixar de tomar posse; deixar o Parlamento para não ter que estar sob ameaças de morte e difamação não significa abandonar as minhas convicções nem deixar o lado certo da história. Significa apenas a opção por viver por inteiro para me entregar as essas convicções por inteiro em outro momento e de outra forma.

Diz a canção que cada ser, em si, carrega o dom de ser capaz e ser feliz. Estou indo em busca de um lugar para exercitar esse dom novamente, pois aí, sob esse clima, já não era mais possível.

Agradeço ao Juliano e ao Ivan pelas palavras de apoio e outorgo ao nosso presidente a tarefa de tratar de toda a tramitação burocrática que se fará necessária.

Despeço-me de vocês com meu abraço forte, um salve aos que estão chegando no Legislativo agora e à militância do partido, um beijo nos que conviveram comigo na Câmara, mais um abraço fortíssimo nos meus assessores e assessoras queridas, sem os quais não haveria mandato, esperando que a vida nos coloque juntos novamente um dia. Até um dia!

Jean Wyllys

23 de janeiro de 2019

By The Associated Press

Jan. 24, 2019

RIO DE JANEIRO — An openly gay congressman who frequently clashed with Brazilian President Jair Bolsonaro said Thursday he was leaving his job and the country because of mounting death threats.

In an interview published by daily Folha de S. Paulo, Congressman Jean Wyllys said he was currently outside of Brazil and had no plans to return. Instead, he said he would work in academia but did not say where.

Wyllys, who was re-elected in October and set to begin a third term in February, said death threats against him had increased significantly since Rio de Janeiro councilwoman Marielle Franco was shot and killed along with her driver in March. Franco was a friend and ally of Wyllys.

Many in Latin America’s largest nation saw Franco, who was black, lesbian and hailed from one of Rio de Janeiro’s most violent slums, as a symbol of hope for her strong advocacy for LGBT rights and outspoken criticism of police brutality in poor neighborhoods. Her death led to large protests in Brazil and in several countries.

Canto de companheiro em tempo de cuidados, por Thiago de Mello

Diálogos Essenciais

Contigo, companheiro que chegaste,

desconhecido irmão de minha vida,

reparto esta esmeralda que retive

em meu peito no instante fugitivo

mas infinito em que se acaba a infância,

porque a esmeralda não se acaba nunca.

Reparto, companheiro, porque chegas

a este caminho longo e luminoso

mas que também se faz áspero e duro,

onde as nossas origens se abraçaram

dissolvendo-se em paz as diferenças,

engendradas na vida pela força

feroz com que desune o mundo os homens

que feitos foram para cantar juntos

porque só juntos saberão chegar

para a festa de amor que se prepara.

Porque tudo é chegar, meu companheiro

desconhecido, meu irmão que plantas

o grão no escuro e nasce a claridão.

É chegar e seguir, os dois cantando,

os dois e a multidão num só caminho,

em direção ao sol que nos ensina

a ser mais cristalinos, parecidos

ao menino que fomos e que somos

de…

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Vergonha alheia em evento global – Davos 2019

O discurso de Bolsonaro foi um fracasso e um desastre. As definições não são minhas. São dos jornalistas americanos Brian Winter (desastre) e Heather Long (fracasso). Por seis minutos mais o tempo que demora para um jornalista digerir um discurso – num evento chapa-branca, e isso é importante -, eles passaram por um dia de vergonha alheia.

Você sabe o que é “vergonha alheia”, a expressão está na moda há anos. É quando uma pessoa passa por uma situação tão vexaminosa que você acaba sentindo vergonha por ela também. Mesmo sem conhecê-la.

Por breves seis minutos – e, a partir daquele instante, sabe-se lá por quanto tempo mais -, a figura de Bolsonaro desnudou-se perante o mundo. Era uma figura cuidadosamente escondida, lapidada, trabalhada no marketing, e não era a figura real. Esta esteve num palco em Davos.

Nem estou falando das ideias que ele trabalhou por tanto tempo e que o mantinham um político do baixo clero. Davos não é um ambiente que se preocupe demais com um homem que defende execuções sumárias, ditaduras, tortura e a extinção dos que não pensam como ele. Foi para evitar justamente as pessoas que poderiam tocar nesse assunto que Bolsonaro cancelou entrevista coletiva. E talvez também por isso – além do fato, já óbvio, de que políticos internacionais não querem ser vistos com ele –, preferiu passar sozinho pelos momentos mais amenos, como um reles almoço.

A plateia que foi assistir ao seu discurso era outra. Eram homens e mulheres querendo saber se o novo governo podia dar condições para que eles enriquecessem ainda mais investindo no Brasil. Para isso, o homem que fugiu dos debates e que se pronunciou por Whatsapp (e não dá pra dizer “se comunicou”, porque isso envolve falar e ouvir), tinha de apresentar dados, mostrar seus planos. Dialogar como um chefe de Estado, e não como quem responde a uma entrevista a que não está habituado.

O que eles viram foi um homem tenso, assustado – numa palavra, minúsculo. Pequeno demais para ser um chefe de Estado. E digo QUALQUER Estado, muito menos o quinto maior do mundo. Totalmente despreparado. Mais do que Hermes da Fonseca, mais do que Dutra, mais do que Costa e Silva – e, juro, estou escolhendo apenas os homens mais toscos que nos governaram sem usar o fato de terem os três sido militares como critério.

Se algum estrangeiro esperava o pronunciamento de Bolsonaro para decidir se investia no Brasil, acho que a decisão já está clara nesse momento. Penso também na fatia da nossa elite que o apoiou pouco se importando com as bravatas de Bolsonaro quanto às questões sociais – Segurança e Educação, sobretudo -, porque apenas lhe interessavam as questões econômicas. Essa fatia acusou o golpe; a Bovespa despencou; talvez não pelo discurso em si, mas por quem Bolsonaro é, a Arábia desistiu do frango brasileiro. Imagino que neste momento há grandes empresários nossos reformulando seus planos; infelizmente, isso não tem nada a ver conosco.

O discurso em Davos agora provavelmente vai tornar a agenda de Bolsonaro mais apertada. Ele tem de mostrar serviço para seus apoiadores – e tem de ser na área econômica. O Congresso vai começar seu ano letivo já sob enorme pressão. Mas, não se esqueça, os macacos velhos ADORAM ser pressionados.

É claro, não foi apenas Bolsonaro quem passou vergonha em Davos. Fomos nós. Um mundo de 7 bilhões de pessoas está se perguntando como é que um país com 210 milhões de habitantes elegeu-o. O mundo inteiro, a bem dizer, não. Comungam dessa vergonha pessoas esclarecidas na Hungria, na Polônia, nas Filipinas, em Israel. E alguns americanos também – os poucos que se preocupam com o que o mundo pensa deles. Se algum estrangeiro (digamos, português, italiano ou francês) questionar você por ser brasileiro, responda que ele pode estar mais perto de viver a nossa situação do que imagina.

Para terminar, vou fazer uma confissão que vai irritar meus amigos: por um breve momento, senti pena de Bolsonaro. Talvez porque eu tenha treinado muito tempo para exercer minha empatia sem olhar a quem; ou talvez porque toda figura que atinja esse grau de patetice seja digna de compaixão.

Mas não se preocupem. Eu fiquei pensando nas palavras “Ustra” e “Moro” e a pena logo passou.
Por Léo Bueno

Leia, a seguir, o discurso de Jair Bolsonaro em Davos:

2019/jair-bolsonaro-discursa-no-forum-de-davos-7318564./politica/video/jair-bolsonaro-discursa-no-forum-de-davos-7

Discurso de Luiz Ignácio Lula da Silva em Davos 2003:

Relato de uma brasileira que mora na Alemanha

Em Portugal acontece o mesmo. Já ouvi diversos relatos de brasileiros que eram contra os gastos sociais no Brasil, inclusive com o Bolsa Família, e estão sobrevivendo em Portugal graças à excelente educação pública em regime de acompanhamento amplo e em tempo integral. Inclui acompanhamento para integração na escola e na vida em Portugal, explicador particular para os estudantes brasileiros com dificuldade nos estudos e refeição diária a 1,46 euros por refeição.

Paulo Martins

Por Martha Campos Hein, Brasileira que mora na Alemanha.

“Muito me admira a postura de alguns brasileiros que moram na Alemanha, recebendo felizes e de bom grado os inúmeros subsídios e ajudas sociais dados pelo Estado social alemão, mas condenando veementemente aqueles que lutam por algo semelhante no Brasil. Se vocês são contra o Estado social, por que não devolvem então os benefícios que recebem mensalmente – auxílio-educação para os filhos e moradia subvencionada? Salário-desemprego, quando estão desempregados? Salário-maternidade? E tantas outras ajudas do Estado? Se vocês acham que esse mesmo Estado social que vocês aqui desfrutam é comunismo e defendem um governo diametralmente oposto para o Brasil, por que vocês não vão embora? Por que vocês não voltam para o Brasil e ajudam a construir uma sociedade diferente desta onde vocês vivem? Uma sociedade onde o Estado não seja social? Onde não haja justiça social nem igualdade de chances para todos? Isso é uma contradição inaceitável e incompreensível. Ou vocês não sabem nem a forma política de governo do país em que vivem? Pois se não sabem, tratem de se informar pelo menos o mínimo que seja sobre o país onde vocês vivem. Reza o artigo 20, parágrafo 1, alínea 1 da Constituição alemã de 1949:
“A república federativa da Alemanha é um […] Estado social.”
Funções do Estado social:

  • assegurar a todo cidadão uma existência digna, obrigando-se a garantir as condições mínimas de existência ao indivíduo
  • oferecer ao cidadão um mínimo de segurança em situações de emergência (doença, desemprego), sendo garantidos a ele seguro-desemprego, seguro médico e seguro-aposentadoria
  • assegurar o equilíbrio social, garantindo aos socialmente desprestigiados uma espécie de compensação, através de incentivos à educação, incentivo à construção de moradias subsidiadas, incentivo financeiro a famílias que têm filhos
  • assegurar a igualdade de oportunidade a todos os cidadãos: àqueles que encontram maiores obstáculos ao seu desenvolvimento devido a condições pessoais ou sociais; ajudas de custos processuais aos que não podem arcar com custos de processos; garantia de um defensor público aos criminosos; ajuda social a ex-presidiários, para que possam ser reintegrados na sociedade.
    A Alemanha é comunista? Não. O regime aqui vigente é a economia de mercado com o Estado social. A economia é regida pelas leis do mercado, porém corrigidos seus excessos pelo Estado social, que por sua vez é ancorado na constituição. O Estado social faz com que os ricos exerçam sua responsabilidade social em relação aos menos favorecidos socialmente. Quanto mais rico, mais chamado a exercer sua responsabilidade para com a sociedade. Ser rico apenas para usufruir egoisticamente da própria riqueza material sem pensar naquilo que pode fazer pela sociedade é considerado aqui DECADÊNCIA. As diferenças salariais na Alemanha são muito poucas, comparadas ao Brasil. Aqui todo trabalho é digno, todo trabalhador tem dignidade e seus direitos são respeitados. Todos podem ter tudo ou quase tudo. Aqui a palavra “elite” é uma palavra-tabu, que remete ao regime nazista e à elite dominante nesse período. Aqui ninguém é melhor do que ninguém. Todos são seres humanos dignos de respeito.
    Por isso mesmo não entendo que os brasileiros que moram aqui, mas chamam isso de “comunismo”, estando tão infelizes, defendendo algo completamente diferente para o Brasil, não entendo como possam permanecer aqui.”