Promulgação da Lei da Trapaça, por Pablo Neruda – 13/12/2016

Foi votada e aprovada hoje, em segunda votação no Senado Federal, a Proposta de Emenda Constitucional número 55 que, na prática, inviabiliza o cumprimento pelo governo, qualquer governo, por 20 anos, das cláusulas sociais constantes da Constituição Federal.

A Constituição será transformada, com esta emenda perversa, em uma colcha de retalhos incoerente, com artigos conflitantes. Por um lado declara como obrigatório o cumprimento de diversas cláusulas sociais e, por outro, nega os recursos – com as restrições aprovadas pela emenda 55 –  para atendimento destas cláusulas.

Como vai contra o espírito das cláusulas pétreas definidas pelos constituintes de 1988, a PEC 55 é, fundamentalmente, inconstitucional.

Como será impossível obter deste Supremo Tribunal Federal apequenado um gesto de coragem declarando sua inconstitucionalidade, bastará o Senado Federal promulgar a indigitada emenda e ela já estará valendo.

Emendas à Constituição não dependem de sanção presidencial. O ilegítimo não precisará sujar ainda mais suas mãos. Esta tarefa ficará para Renan Calheiros, que completará o trabalho sujo iniciado por Temer e seus ministros amestrados e pela Câmara Federal de Cunha e Rodrigo Maia.

Toda vez que o Congresso aprova, a toque de caixa, sem ampla discussão com a sociedade, leis que representam um estupro da Constituição de 88 fico indignado e me vem à memória o poema de Pablo Neruda intitulado “Promulgação da Lei da Trapaça”. Diz tudo. Leia abaixo:

Promulgação da Lei da Trapaça

Eles se declararam patriotas.
Nos clubes se condecoraram
e foram escrevendo a história.
Os Parlamentos ficaram cheios
de pompa, depois repartiram
entre si a terra, a lei,
as melhores ruas, o ar,
a Universidade, os sapatos.

Sua extraordinária iniciativa
foi o Estado erigido dessa
forma, a rígida impostura.

Foi debatida, como sempre,
com solenidade e banquetes,
primeiro em círculos agrícolas,
com militares e advogados.
Por fim levaram ao Congresso
a Lei suprema, a famosa,
A respeitada, a intocável
Lei da Trapaça.

Foi aprovada.

Para o rico a boa mesa.

O lixo para os pobres.

O dinheiro para os ricos.

Para os pobres o trabalho.

Para os ricos a casa grande.

O tugúrio para os pobres.

O foro para o grão-ladrão.

O cárcere para quem furta um pão.

Paris, Paris para os señoritos.

O pobre na mina, no deserto.

O senhor Rodríguez de la Crota
falou no Senado com voz
melíflua e elegante.

“Esta lei, afinal, estabelece
a hierarquia obrigatória
e, antes de tudo, os princípios
da cristandade.

Era tão necessária quanto a água.
Só os comunistas, chegados
do inferno, como se sabe,
podem combater este Código
da Trapaça, sábio e severo.

Mas essa oposição asiática,
vinda do sub-homem, é simples
refreá-la: todos na cadeia,
no campo de concentração,
assim ficaremos somente
os cavalheiros distintos
e os amáveis yanacones*
do Partido Radical.”

Vibraram os aplausos
dos brancos aristocráticos:
que eloquência, que espiritual
filósofo, que luminar!

E foi cada um encher correndo
Os bolsos com seus negócios,

Um açambarcando o leite,
outro dando o golpe no arame,
outro roubando no açúcar,
e todos se chamando em coro
patriotas com o monopólio
do patriotismo, consultado
também na Lei da Trapaça.

  • yanacones: índios araucanos, dóceis, a serviço dos conquistadores espanhóis.

Em, Canto Geral, Pablo Neruda
Tradução: Paulo Mendes Campos

Recebem ordens contra o Chile – Pablo Neruda

Este poema de Pablo Neruda tem, certamente, quase 70 anos e continua atual em nossa triste América Latina, dos golpes e traições. Substitua o Chile pelo Brasil e vocês poderão observar a incrível atualidade do tema. Foi publicado aqui no blog em setembro e em dezembro de 2015. Repito hoje. Está, cada vez mais, tristemente atual.

Há que dar-lhes doutrinação, lavagem cerebral e dólares. Articulam eles, anão traidor, mercantes de mandato, coveiros do voto e testas de ferro. Fazem eles o golpe.

Por trás dos traidores, há um império que põe a mesa …

Paulo Martins

Recebem ordens contra o Chile

Pablo Neruda

Mas atrás de todos eles há que buscar, há algo

atrás dos traidores e dos ratos que roem,

há um império que põe a mesa,

que serve a comida e as balas.

Querem fazer de ti o que logram na Grécia.

Os señoritos gregos no banquete, e balas

ao povo nas montanhas: há que extirpar o vôo

da nova Vitória de Samotrácia, há que enforcar,

matar, perder, mergulhar o punhal assassino

empunhado em Nova York, há que romper

com fogo

o orgulho do homem que assomava

por todas as partes como se nascesse

da terra regada pelo sangue.

Há que armar Chianga e o ínfimo Videla,

há que dar-lhes dinheiro para cárceres, asas

para que bombardeiem compatriotas, há que

dar-lhes

um pão velho, alguns dólares, fazem eles o resto,

eles mentem, corrompem, dançam sobre os

mortos

e suas esposas reluzem os visões mais caros.

Não importa a agonia do povo, deste martírio

necessitam os amos donos do cobre: há fatos:

os generais deixam o exército e servem

de assistentes no staff de Chuquicamata,

e no salitre o general “chileno”

ordena com sua espada quanto devem pedir

como aumento de salário os filhos do pampa.

Assim ordenam de cima, da bolsa com dólares,

assim recebe a ordem o anão traidor,

assim os generais se fazem de polícias,

assim apodrece o tronco da árvore da pátria.

Canção do amor armado – Thiago de Mello

16/10/2018

Estou passando para atualizar este post. O texto anterior foi escrito antes do golpe que derrubou Dilma Rousseff da presidência do Brasil e jogou o país neste caos. Era um mensagem de esperança, por isso parecia tão deslocada no tempo, tão utópica, tão lunática. Eu não contava com as astúcias da Besta bíblica e dos bestificados. Eu fazia um juízo do ser humano muito melhor do que a realidade mostra. O humano morreu. Ressuscitá-lo vai dar um trabalhão …

Paulo Martins

Canção do amor armado – Thiago de Mello

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,

onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, é universal
como pássaro voando – sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
Deixou de ser dever e de ser cívico,
Deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma – de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede, e
não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.

Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
nem vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
Que era a sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.
De canto e de paz é o povo,
Quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
Cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo – um simples
canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar,

Rio, 6 de fevereiro, 1966

Um Neruda por semana # 5 – Os advogados do dólar

Inferno americano, pão nosso
empapado em veneno, há outra
língua em tua pérfida fogueira: 
é o advogado nativo 
da companhia estrangeira. 
É ele que arrebita os grilhões  
da escravidão em sua pátria, 
e passeia desdenhoso 
com a casta dos gerentes 
a mirar com ar supremo 
nossas bandeiras andrajosas. 

Quando chegam de Nova York 
as vanguardas imperiais, 
engenheiros, calculistas, 
agrimensores, peritos, 
e medem terra conquistada, 
estanho, petróleo, bananas, 
nitrato, cobre, manganês, 
açúcar, ferro, borracha, terra, 
adianta-se um anão obscuro, 
com um sorriso amarelo, 
e aconselha com suavidade 
aos invasores recentes: 

Não é preciso pagar tanto 
a estes nativos, seria 
um crime, meus senhores, elevar 
estes salários. Não convém.
Estes pobres-diabos, estes mestiços, 
iriam só embriagar-se 
com tanto dinheiro. Pelo amor de Deus! 
São uns primitivos, quase 
umas feras, conheço esta cambada. 
Não paguem tanto dinheiro. 

É adotado. Põem-lhe 
libré. Veste como gringo, 
cospe como gringo. Dança 
como gringo, e vai subindo. 
Tem automóvel, uísque, imprensa, 
é eleito juiz e deputado, 
é condecorado, é ministro, 
e é ouvido no Governo. 
Sabe ele quem é subornável. 
Sabe ele quem é subornado. 
Ele lambe, unta, condecora, 
afaga, sorri, ameaça. 
E assim se esvaziam pelos portos 
as repúblicas dessangradas. 

Onde mora, perguntareis, 
este vírus, este advogado, 
este fermento do detrito, 
este duro piolho sangüíneo, 
engordado de nosso sangue? 
Mora nas baixas regiões 
equatoriais, o Brasil, 
mas sua morada é também 
o cinturão central da América. 
Podereis encontrá-lo na escarpada 
altura de Chuquicamata. 
Onde cheira riqueza, sobe 
os montes, cruza abismos, 
com as receitas de seu código 
para roubar a terra nossa. 

Podereis achá-lo em Puerto Limón, 
na Ciudad Trujillo, em Iquique, 
em Caracas, Maracaibo, 
em Antofagasta, em Honduras, 
encarcerando nosso irmão, 
acusando seu compatriota, 
despedindo peões, abrindo 
portas de juízes e abastados, 
comprando imprensa, dirigindo 
a polícia, o pau, o rifle 
contra sua família esquecida. 

Pavoneando-se, vestido 
de smoking, nas recepções, 
inaugurando monumentos, 
com esta frase: meus senhores, 
a pátria, antes da vida, 
é a nossa mãe, é o nosso chão, 
vamos defender a ordem fazendo 
novos presídios, novos cárceres. 

E morre glorioso, “o patriota”, 
senador, patrício, eminente, 
condecorado pelo papa, 
ilustre, próspero, temido, 
enquanto a trágica ralé 
de nossos mortos, os que fundiram 
a mão no cobre, arranharam 
a terra profunda e severa, 
morrem batidos e esquecidos, 
postos às pressas 
em seus caixões funerários: 
um nome, um número na cruz 
que o vento sacode, matando 
até a cifra dos heróis.

Um Neruda por semana # 4

As terras e os homens – Pablo Neruda, em Canto Geral

Velhos latifundiários incrustados
na terra como ossos
de pavorosos animais,
supersticiosos herdeiros
da encomenda, imperadores
duma terra escura, fechada
com ódio e arame farpado.

Entre as cercas o estame
do ser humano foi afogado,
o menino foi enterrado vivo,
negou-se-lhe o pão e a letra,
foi marcado como inquilino
e condenado aos currais.
Pobre peão infortunado
entre as sarças, amarrado
à não-existência, à sombra
das pradarias selvagens.

Sem livro foste carne inerme,
e em seguida insensato esqueleto,
comprado de uma vida a outra,
rechaçado na porta branca
sem outro amor que uma guitarra
despedaçara em sua tristeza
e o baile apenas aceso
como rajada molhada.

Não foi porém só nos campos
a ferida do homem. Mais longe,
mais perto, mais fundo cravaram:
na cidade, junto ao palácio,
cresceu o cortiço leproso,
pululante de porcaria,
com a sua acusadora gangrena.

Eu vi nos agros recantos
de Talcahuano, nas encharcadas
cinzas dos morros,
ferver as pétalas imundas
da pobreza, a maçaroca
de corações degradados,
a pústula aberta na sombra
do entardecer submarino,
a cicatriz dos farrapos,
e a substância envelhecida
do homem hirsuto e espancado.

Eu entrei nas casas profundas,
como covas de ratos, úmidas
de salitre e de sal apodrecido,
vi seres famintos se arrastarem,
obscuridades desdentadas,
que procuravam me sorrir
através do ar amaldiçoado.

Me atravessaram as dores
de meu povo, se enredaram em mim
como aramados em minh’alma:
me crisparam o coração:
saí a gritar pelos caminhos,
saí a chorar envolto em fumo,
toquei as portas e me feriram
como facas espinhosas,
chamei os rostos impassíveis
que antes adorei como estrelas
e me mostraram seu vazio.
E então me fiz soldado:
número obscuro, regimento,
ordem de punhos combatentes,
sistema da inteligência,
fibra do tempo inumerável,
árvore armada, indestrutível
caminho do homem na terra.

E vi quantos éramos, quantos
estavam a meu lado, não eram
ninguém, eram todos os homens,
não tinham rosto, eram povo,
eram metal, eram caminhos.
E caminhei com os mesmos passos
da primavera pelo mundo.

Recebem ordens contra o Chile – Pablo Neruda

Recebem ordens contra o Chile

Pablo Neruda

Mas atrás de todos eles há que buscar, há algo

atrás dos traidores e dos ratos que roem,

há um império que põe a mesa,

que serve a comida e as balas.

Querem fazer de ti o que logram na Grécia.

Os señoritos gregos no banquete, e balas

ao povo nas montanhas: há que extirpar o vôo

da nova Vitória de Samotrácia, há que enforcar,

matar, perder, mergulhar o punhal assassino

empunhado em Nova York, há que romper

com fogo

o orgulho do homem que assomava

por todas as partes como se nascesse

da terra regada pelo sangue.

Há que armar Chianga e o ínfimo Videla,

há que dar-lhes dinheiro para cárceres, asas

para que bombardeiem compatriotas, há que

dar-lhes

um pão velho, alguns dólares, fazem eles o resto,

eles mentem, corrompem, dançam sobre os

mortos

e suas esposas reluzem os visões mais caros.

Não importa a agonia do povo, deste martírio

necessitam os amos donos do cobre: há fatos:

os generais deixam o exército e servem

de assistentes no staff de Chuquicamata,

e no salitre o general “chileno”

ordena com sua espada quanto devem pedir

como aumento de salário os filhos do pampa.

Assim ordenam de cima, da bolsa com dólares,

assim recebe a ordem o anão traidor,

assim os generais se fazem de polícias,

assim apodrece o tronco da árvore da pátria.

A grande alegria, Pablo Neruda

A sombra que indaguei já não me pertence.

Eu tenho a alegria duradoura do mastro,

a herança dos bosques, o vento do caminho

e um dia decidido sob a luz terrestre.

 Não escrevo para que outros livros me

             aprisionem,

nem para encarniçados aprendizes de lírio,

mas para singelos habitantes que pedem

água e lua, elementos da ordem imutável,

escolas, pão e vinho, guitarras e ferramentas.

Escrevo para o povo ainda que ele não possa

ler a minha poesia com seus olhos rurais.

Virá o instante em que uma linha, a aragem

que removeu a minha vida, chegará aos seus

             ouvidos,

e então o labrego levantará os olhos,

o mineiro sorrirá quebrando pedras,

o caldeireiro limpará a fronte,

o pescador verá melhor o brilho

dum peixe que palpitando lhe queimará as mãos,

o mecânico, limpo, recém-lavado, cheio

do aroma do sabão, olhará meus poemas,

e talvez eles dirão: “Foi um camarada”.

 Isso é bastante, essa é a coroa que quero.

 Quero que à saída da fábrica e das minas

esteja a minha poesia aderida à terra,

ao ar, à vitória do homem maltratado.

Quero que um jovem ache na dureza

que construí, com lentidão e com metais,

como uma caixa, abrindo-a, cara a cara, a vida,

minha alegria, nas alturas tempestuosas.

Horóscopo para os que estão vivos – Gêmeos – Thiago de Mello

Fica ao menos uma vez por trimestre

em tua casa, só com ela

e com tua gente,

por muito que Mercúrio

te convide ao movimento.

Te fará muito bem ficar olhando

o abrir-se silencioso de uma rosa,

ou a brincadeira dos pombos

no meio da praça pública.

 

Aproveita mais de um entardecer

para olhar – se possível bem de perto –

o semblante castigado

dos que voltam, depois de haver vendido

sua força de trabalho:

no fundo dos olhos deles

arde, feroz, a esperança.

 

Que não te preocupe tanto

tua insegurança: este ano a dominarás

para sempre,

graças à opção a que a vida te obrigará.

E descobrirás nos desvãos do teu peito

poderosos mananciais, enquanto janelas se abrirão

diante dos teus olhos nos muros mais espessos.

Mercúrio protegerá os amores

iniciados em Junho ou Setembro.

Mas a culpa será tua

se o teu amor acaba.

A mulher nascida em Gêmeos

deve, mas do que nunca,

fazer valer a sua proclamada independência,

entregando-se luminosa e serena,

ao seu escolhido homem.

Mas convém evitar as cores esdrúxulas

durante os primeiros decanatos.

E tu, que no fundo queres agarrar a estrela,

não te inventes mais atalhos, já chega.

Continua em teu caminho

e atravessarás o arco-íris.”

 “Horóscopo para os que estão Vivos”, Thiago de Mello

Agosto 1964 – Ferreira Gullar

Agosto 1964
Entre lojas de flores e de sapatos, bares,

mercados, butiques,

viajo

num ônibus Estrada de Ferro – Leblon.

Volto do trabalho, a noite em meio,

fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,

relógio de lilases, concretismo,

neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,

que a vida

eu a compro à vista aos donos do mundo.

Ao peso dos impostos, o verso sufoca,

a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão

mas não ao mundo. Mas não à vida,

meu reduto e meu reino.

Do salário injusto,

da punição injusta,

da humilhação, da tortura,

do terror,

retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema

uma bandeira

(do livro Dentro da noite veloz – Ferreira Gullar)

Maio 1964 – Ferreira Gullar

Na leiteria a tarde se reparte
Em iogurtes, coalhadas, copos
de leite
e no espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo
a vida
que é cheia de crianças, de flores
e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
ter dois pés e mãos, uma cara
e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
que nenhum ato
institucional ou constitucional
pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
quantos em cárceres escuros
onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo esta tarde
nos subúrbios de ferro e gás
onde brinca irremida a infância da classe operária.

Estou aqui. O espelho
não guardará a marca deste rosto,
Se simplesmente saio do lugar
ou se morro
se me matam.
Estou aqui e não estarei, um dia,
em parte alguma.
Que importa, pois?
A luta comum me acende o sangue
e me bate no peito
como o coice de uma lembrança.

No Mundo Há Muitas Armadilhas – Ferreira Gullar

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca
E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida
e busca o sol, a bola, fascinado vê
o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Horóscopo para os que estão Vivos – Sagitário – Thiago de Mello

SAGITÁRIO

21 de novembro a 20 de dezembro


Tenho uma grande notícia, Sagitário:

em pleno meio-dia de inverno,

o ranço da rotina te queimando,

festejarás inesperadamente

o descobrimento de algo

que talvez te seja amargo,

mas que abrirá em tua vida

um caminho diferente e seguramente luminoso.

Reconheço que Júpiter

entre abril e maio

te deitará armadilha coloridas.

Mas confio no teu desprendimento.

Se te livras delas

(e o pior é que elas estarão à luz do sol),

experimentará a delícia extrema

de cantar de alegria,

e esse teu canto será repartido.

Convém que consigas (para contemplá-lo

largamente

e guardar no teu peito

a força do seu profundo ensinamento)

o primeiro selo emitido, com todas as cores

do arco-íris humano,

pela República de Guiné-Bissau,

radiosa no poder do seu povo,

que se ergue para o mundo,

no momento em que a aurora,

tanto tempo escondida,

retorna e redime as praças lusitanas.

Vejo para breve

uma perigosa conjugação com Vênus.

Te direi que contra o influxo

traiçoeiro de Vênus

a melhor coisa que existe

ainda é a carícia fabulária

do canto do uyrapurú,

o pássaro pequenino que domina,

com o seu canto,

as florestas altas do meu Amazonas.

Como sei que não é fácil,

trata de encontrar um sucedâneo,

e, se possível, dentro do teu peito.

E basta de tomar tantas notas

e ler todas as letras dos compêndios

para a definição da cultura,

a famosa cultura burguesa ocidental,

que cada dia mais apodrece

como um sapo seco.

Melhor é que trates de fazer música:

organiza a tua gente

e arma o teu conjunto regional

de sabor popular,

para solo de flauta e violão

e, quando for conveniente,

com acompanhamento de rifle.


Em “A Canção do Amor Armado”

Thiago de Mello

Editora Civilização Brasileira

2a. edição – 4/1978

Paulo Leminski

Paulo Leminski faleceu em 07 de junho de 1989. No domingo passado fez, portanto, 26 anos de sua morte. Sua obra, no entanto, continua viva. Vamos publicar, vez em quando, alguns poemas de Caprichos e Relachos, livro publicado pela Editora Brasiliense, em 1983.

Aí vão os primeiros:

……………………………………………………………………………………….

confira

 

tudo que respira

conspira

………………………………………………………………………………………

en la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras

noches

poemas

……………………………………………………………………………………….

quem come o teu trabalho como eu como este

gomo ou dou este gole?

……………………………………………………………………………………….

nada foi

feito o sonhado

mas foi bem-vindo

feito tudo

fosse lindo

……………………………………………………………………………………….

O voto e a reforma política

Menos de 2 anos após o golpe militar de 1o. de abril de 1964, o poeta Thiago de Mello escreveu este poema. O que ocorreu depois todos sabem: a ditadura durou 21 anos. Temos somente 30 anos de democracia e a Câmara dos Deputados sob a presidência de Eduardo Cunha segue em sua agenda oportunista, votando novas regras para as eleições que representam verdadeiro retrocesso no processo político.

A coincidência de mandatos, com a realização de eleições de 4 em 4 anos, uma das propostas na mesa, é um destes retrocessos. Outro retrocesso é a eliminação da obrigatoriedade de votar. Não se aprende a votar conscientemente deixando de votar. Não se fortalece uma democracia eliminando oportunidades de consulta popular. Voto é direito e dever de cidadania.

A falta de eleições e a não obrigatoriedade do voto reforçam a alienação, enfraquecem a educação política e ajudam a destruir a democracia.

Quando é instalada uma ditadura e se perde o direito ao voto é que se percebe a importância deste dever cívico. Nas palavras de Thiago de Mello, “o voto, … era um direito e era um dever sagrado”.

CANÇÃO DO AMOR ARMADO

THIAGO DE MELLO

Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história que vem, que vai ficar.
foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando – sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma – de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repende não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.

Só porque não tem mais o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre a sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
agora sim que é sagrado:
cada qual tenha a sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo – um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

Rio, 6 de fevereiro de 1966

Então queres ser um escritor? por Charles Bukowski

Então queres ser um escritor?

(Tradução: Manuel A. Domingos)

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

a menos que saia sem perguntar do teu

coração, da tua cabeça, da tua boca

das tuas entranhas,

não o faças.

se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
— devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.

Veja, abaixo, o poema original em inglês.

so you want to be a writer?
Charles Bukowski, 1920 – 1994

if it doesn’t come bursting out of you
in spite of everything,
don’t do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don’t do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don’t do it.
if you’re doing it for money or
fame,
don’t do it.
if you’re doing it because you want
women in your bed,
don’t do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don’t do it.
if it’s hard work just thinking about doing it,
don’t do it.
if you’re trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you’re not ready.

don’t be like so many writers,
don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don’t do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don’t do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

From sifting through the mandes for the Word, the line, the way by Charles Bukowski. Copyright © 2003 by the Estate of Charles Bukowski. Reprinted by permission of HarperCollins. All rights reserved.

OS JUÍZES – PABLO NERUDA

Pelo alto Peru, por Nicarágua,

sobre a Patagônia, nas cidades,

não tiveste razão, não tens nada:

taça de miséria, abandonado

filho das Américas, não há

lei, não há juiz que te proteja

a terra, a casinhola com seus milhos.


Quando chegou a casta dos teus,

dos senhores teus, já esquecido

o sonho antigo de garras e facas,

veio a lei para despovoar teu céu,

para arrancar-te torrões adorados,

para discutir a água dos rios,

para roubar-te o reinado do arvoredo.


Te testemunharam, te puseram selos

na camisa, te forraram

o coração de folhas e papéis,

te sepultaram em éditos frios,

e quando despertaste na fronteira

da mais despenhada desventura,

despossuído, solitário, errante,

te deram calabouço, te amarraram,

te manietaram para que nadando

não saísses da água dos pobres,

mas te afogasses esperneando.


O juiz benigno te lê o inciso

número Quatro Mil, parágrafo Terceiro,

o mesmo usado em toda

a geografia azul que libertaram

outros que foram como tu e tombaram,

e te institui, por seu codicilo

e sem apelação, cão sarnento.

Diz teu sangue, como se entreteceram

o rico e a lei? Com que tecido

de ferro sulfuroso, como foram

caindo os pobres no julgado?

Como se fez a terra tão amarga

para os pobres filhos, duramente

amamentados com pedras e dores?

Assim foi e assim o deixo escrito.

As vidas escreveram-no na minha testa.

As Oligarquias – Pablo Neruda

Não, ainda não secavam as bandeiras,

ainda não dormiam os soldados

quando a liberdade mudou de roupa,

transformou-se em fazendas:

das terras recém-semeadas saiu uma casta,

uma quadrilha de novos-ricos com escudo,

com polícia e com prisões.

Traçaram uma linha negra:

“Aqui somos nós,

porfiristas do México, caballeros do Chile,

pitucos do Jockey Club de Buenos Aires,

engomados flibusteiros do Uruguai,

adamados equatorianos,

clericais señoritos de todas as partes”.

“Lá, vocês, rotos, mamelucos,

pelados do México, gaúchos,

amontoados em pocilgas, desamparados,

esfarrapados, piolhentos, vagabundos, ralé,

desbaratados, miseráveis, sujos, preguiçosos, povo.”

Tudo se construiu sobre a linha.

O arcebispo batizou este muro

e instituiu anátemas incendiários

para o rebelde que ignorasse

a parede da casta.

Queimaram pela mão do verdugo

os livros de Bilbao.

A polícia

guardou a muralha, e no faminto

que se aproximou dos mármores sagrados

bateram com um pau na cabeça

ou o espetaram num cepo agrícola

ou a pontapés o nomearam soldado.

Sentiram-se tranqüilos e seguros.

O povo continuou nas ruas e campinas

a viver amontoado, sem janelas,

sem chão, sem camisa,

sem escola, sem pão.

Anda pela nossa América um fantasma

nutrido de detritos, analfabeto, errante,

igual em nossas latitudes,

saindo dos cárceres lamacentos,

arrabaldeiro e fugitivo, marcado

pelo temível compatriota cheio

de roupas, ordens e gravata-borboleta.

No México produziram pulque

para ele, no Chile

vinho terebinteno de cor violeta,

o envenenaram, rasparam-lhe

a alma pedacinho por pedacinho,

negaram-lhe o livro e a luz,

até que foi tombando no pó,

metido no desvão tuberculoso,

e então não teve enterro litúrgico: sua cerimônia

foi metê-lo nu

entre outras carniças sem nome.

A Paulo Freire, por Thiago de Mello

Diálogos Essenciais

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CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA

Thiago de Mello

A Paulo Freire

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e pode ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas

são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida

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Capricórnio – Thiago de Mello

Capricórnio – 21/12 a 20/01

(in Thiago de Mello, “Horóscopo para os que estão Vivos”)

Capricórnio sempre foi manhoso,
zodíaco caprichoso e exigente:
é preciso saber levá-lo.
Sem embargo, os dias que virão
serão de larga alegria para Capricórnio,
especialmente para os mais sofridos,
porque se darão conta de que viviam enganados.

Grande papel está reservado
às jovens mulheres da província.
Quase no fim da primavera,
é recomendável, antes do amanhecer,
um banho de ervas de cheiro
e depois o vestido mais branco.

Capricórnio promete grandes colheitas,
noites de luas escandalosas
e dias de lutas mais claras
para operários, camponeses e mineiros.
Para os amigos mais leais
adivinho um dia de outono
em que nascerá mais de um sol.

Aos homens públicos,
particularmente aos que engordam no arbítrio
e ferem com o tacão de suas botinas
a estatura da beleza humana,
Saturno mostrará, com insuportável
transparência,
que eles avançam por um beco escuso
cuja saída há tempos se fechou
por um muro de espinhos invisíveis.

As jovens capricornianas em flor
devem preferir a água marinha
e o aconchego da ternura compartida.
E aos que acabam de decidir
entrar juntos cantando de mãos dadas
pela alameda onde ninguém consegue
caminhar sozinho,
advirto pela última vez:
quem não se dá todo a cada instante
um dia amanhece sem nada.