Às Pessoas

“Às pessoas que eu amo que optaram pelo capitão

por Leo Moraes para a Midia Ninja

Tem um poema maravilhoso de Baudelaire chamado “Os Olhos dos Pobres”. Nele o poeta descreve um dia passado com uma mulher maravilhosa, com um nível de afinidade e cumplicidade tal que fazia com que ele, cético, chegasse a acreditar na possibilidade de ter encontrado sua alma gêmea.
Chega a noite, e a moça sugere que eles se sentem em um café num dos recém inaugurados bulevares de Paris (O poema data da época do Plano Haussmann, reforma que deu a Paris a forma que tem hoje).
O local resplandecia em seu charme sofisticado e semi-acabado. O poeta descreve o entulho ainda na rua, o cheiro de tinta fresca, os frequentadores chiques com sua criadagem, a exuberância gastronômica.
Eis que chega um homem com duas crianças, uma ainda de colo. Sujos e maltrapilhos, olhando contemplativamente para o maravilhoso café.
E Baudelaire lê, pelos olhares, a visão de cada um deles em suas idades. Ele se sente enternecido pelos olhares, e ao mesmo tempo um pouco envergonhado da fartura de sua mesa, e busca os belos olhos de sua amada, e acredita ler neles o mesmo sentimento que o inundava.
Ela então diz “Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?”.
E, como um frágil cristal, a imagem que ele tinha dela se estilhaça, e o possível amor se torna desprezo.

Peço perdão a Baudelaire por resumir nas minhas palavras o que ele próprio descreve tão melhor em sua obra. Mas eu acho o sentimento expresso ali muito adequado ao momento atual, e não sei quantos de vocês terão a paciência de buscar o original (o que recomendo!)
Muitas coisas podem ser tiradas da cena descrita no poema. A injustiça da desigualdade, o reconhecimento de uma posição de privilégio, a importância da empatia. Mas pra mim a maior lição ali contida é:

Existem defeitos que são imperdoáveis.

Em várias ocasiões em que fui conversar com alguma pessoa próxima que vota nesse cara, as pessoas tentam levar a discussão para o lado de corrupção, ou de economia, ou da importância de tirar o PT, ou sei lá. O problema é que pra mim a opção passa por um lugar muito mais profundo, de humanidade, e moral básica. É simples: eu não voto em quem idolatra torturador. Eu não voto em quem fala que o erro da ditadura foi ter matado pouco. Eu não voto em quem diz que preferia ver o filho morto do que sendo gay. Eu não voto em quem diz abertamente que é contra a democracia. E mais uma lista de aberrações que esse cara disse, que são tantas que não dá nem pra listar.

Perto disso tudo, discussões sobre estado mínimo, direita e esquerda, reforma da previdência, educação, segurança, ou outras pautas, que tanto precisamos discutir como país, ficam insignificantes. É como se na eleição do condomínio um dos candidatos a síndico te desse um soco na cara, um chute no saco, matasse seu cachorro, e depois viesse querer discutir de que cor tem que pintar o portão, e pedir seu voto. Não dá.

O que ele fez foi roubar de nós a oportunidade de discutir que rumo queremos para o país. Não dá pra debater propostas, com um projeto como esse perigando ganhar. Então não se trata de um discussão meramente política, é uma questão de valores humanistas. Mesmo se eu achasse as propostas desse Jair sensacionais, eu ainda assim votaria contra ele. “Mas e o PT?” Foda-se! Qualquer um! Se fosse qualquer um dos candidatos, de todas as eleições desde 89, contra ele eu votaria. E olha que essa lista tem Maluf, Collor, etc.

Olha, eu também não gosto dessa polarização, externei minha opinião no primeiro turno, votei em outro candidato, acho que esse segundo turno prolongou por 4 anos essa inhaca que estamos passando. Tenho muitas críticas pesadas ao PT, quem me conhece sabe. Mas não há dúvida sobre qual o voto errado aqui. O mundo está vendo, todos os jornais importantes, de direita e esquerda, de todos os países, estão alertando. Até Madonna e Roger Waters sabem. Tem focinho de fascismo, rabo de fascismo, orelha de fascismo. O que é?

Tenho pessoas amigas que já estão sentindo na pele os efeitos dessa escalada na intolerância, e olha que ele nem ganhou ainda. Então o que eu estou fazendo é um apelo. Pensem bem, vejam de novo os vídeos com as falas abomináveis desse candidato. Não o que ele diz hoje, atenuado pelos marqueteiros, mas o que ele faz e diz há décadas. Por favor repensem, não entreguem o país para esse monstro sob o argumento de “pelo menos tiramos o PT”. Como Baudelaire tão bem nos mostra, alguns defeitos são sim imperdoáveis”.

Depois de três anos, CNJ aprova Código de Ética para juízes, por Marina Ito (27/10/2008)

Publicado em conjur.com.br

REGRAS DE CONDUTA
Depois de três anos, CNJ aprova Código de Ética para juízes

27 de agosto de 2008, 20h55
Por Marina Ito

Depois de tramitar por três anos no Conselho Nacional de Justiça, o Código de Ética da Magistratura Nacional foi aprovado, por unanimidade, pelo Plenário do órgão nessa terça-feira (26/8). O texto estabelece alguns parâmetros de condutas aos juízes, como não opinar sobre processo judicial, priorizar a atividade judicial em detrimento de outras e oferecer resposta às demandas em tempo razoável.

O Código de Ética é dividido em capítulos que tratam da independência, imparcialidade, da transparência, da integridade profissional e pessoal, da diligência e da dedicação, da cortesia, da prudência, do sigilo profissional, do conhecimento e da capacitação, da dignidade, da honra e do decoro.

O texto lembra que o juiz imparcial “é aquele que busca nas provas a verdade dos fatos, com objetividade e fundamento, mantendo ao longo de todo o processo uma distância equivalente das partes, e evita todo o tipo de comportamento que possa refletir favoritismo, predisposição ou preconceito”.

Também orienta o juiz a documentar, exceto em caso de sigilo estabelecido em lei, seus atos, ainda que não haja previsão legal. A medida faz parte do rol de iniciativas para dar publicidade ao que é feito no Judiciário. Diz, ainda, que o juiz não deve opinar sobre processos que ainda não foram julgados. A regra vale tanto para ações que correm sob sua responsabilidade quanto a processos que tramitam em outras varas, câmaras ou turmas.

O artigo 13 do texto afirma que o juiz “deve evitar comportamentos que impliquem a busca injustificada e desmesurada por reconhecimento social, mormente a autopromoção em publicação de qualquer natureza”. Estabelece, ainda, que o juiz deve colaborar com os órgãos de controle que fazem levantamento de sua produtividade. E lembra que conduta fora do tribunal deve servir para que o cidadão tenha confiança em suas decisões.

Processo de elaboração

A elaboração do código foi iniciada quando o CNJ era composto por outros membros. Foi feita uma consulta pública por meio do site do Conselho que, segundo o órgão, permitiu ouvir as entidades de classe, juízes e cidadãos.

“A adoção de um Código de Ética Judicial tem o propósito de servir de guia para melhorar o serviço público de administração da Justiça, ao erigir um conjunto de valores e princípios pelos quais devem orientar-se os magistrados”, afirmou o ministro do Tribunal Superior do Trabalho e presidente da Comissão de Prerrogativas da Magistratura do CNJ, João Oreste Dalazen.

O texto foi elaborado com base no Código Ibero-Americano de Ética Judicial do qual o Brasil faz parte. Além dos países da América Latina, Portugal e Espanha também aderiram ao código Ibero-Americano.

Dalazen explicou que a elaboração do Código de Ética não afeta a proposta pensada pelo Supremo Tribunal Federal para alterar a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman).

Recentemente, o conselheiro do CNJ Paulo Lobo afirmou que a magistratura era resistente à criação do código de ética. Ele afirmou que a intenção não era formular um código de caráter repressivo, mas para promover boas práticas de conduta profissional.

Reação dos juízes

Mal foi aprovado pelo Conselho Nacional de Justiça, o Código já causa polêmica. Para a Associação dos Magistrados do Trabalho (Anamatra), o CNJ extrapolou suas funções ao elaborar o código, já que este só poderia ser criado por meio de lei complementar.

“A Anamatra sempre se balizou pela postura ética de seus magistrados, mas pensa que o estabelecimento de um código de ética demanda uma ampla discussão da sociedade, o que somente pode acontecer no âmbito do Congresso Nacional, mediante processo legislativo em que diversos setores sociais possam opinar”, afirma o diretor de direitos e prerrogativas da Anamatra, Marco Antonio de Freitas.

A entidade já havia se manifestado contra a criação do Código pelo CNJ. Segundo o Conselho, em maio de 2007, foi entregue aos conselheiros Cláudio Godoy, Marcus Faver e Jirarir Meguerian, que até então integravam o órgão, documento em que a Anamatra manifestava a posição contrária à legitimidade do CNJ para criar e aprovar um código de ética para os juízes.

A Anamatra afirma que a conduta dos juízes já é determinada pela Loman. A entidade também demonstra preocupação com a interpretação dos dispositivos do Código, que pode violar as garantias individuais e constitucionais asseguradas aos juízes.

“Os juízes, ao serem empossados, prestam juramento de cumprir e fazer cumprir a Constituição da República e as leis, razão pela qual se comprometem a observar as normas de conduta que lhe são impostas pela sua própria lei orgânica”, dizia o documento enviado pela Anamatra ao CNJ.

Leia o código

CÓDIGO DE ÉTICA DA MAGISTRATURA NACIONAL

Apesar de você, por Marcelo Rubens Paiva

Leia aqui o belissimo texto de Marcelo Rubens Paiva em sua coluna no Estadão (20.10.2018)
.
“Apesar de você, as cores do arco-íris continuarão as mesmas, ele sempre estará entre o céu e a terra, continuará lindo a nos emocionar. Mulheres continuarão a desejar mulheres, homens se beijarão e se amarão: o amor não tem limites, o desejo não tem barreiras. A composição familiar nunca mais será a mesma. Os jovens não deixarão de mudar padrões, quebrar regras. O amor vencerá a bala. A Inteligência sempre vencerá a burrice.

Drummond continuará arquiteto das palavras, Niemeyer, o poeta das formas. Ambos continuarão gauche na vida. Livros poderão ser proibidos, mas jamais serão esquecidos, poderão estar escondidos nos labirintos das estantes, no labirinto da nossa memória.

Apesar de você, a palavra será a melhor arma, o pensamento, livre, as ideias brotarão, os questionamentos serão infinitos, é da nossa essência, é nossa vocação.

Apesar de você, florescerá na primavera, a solidariedade existirá, o altruísmo continuará vital como o ar. Apesar de você, a bondade estará entre nós. Vamos esperar para tudo melhorar, vamos esperar para o dia amanhecer sem ódio, sem tiros, vamos esperar a tempestade passar.

Apesar de você, Dom Quixote lutará contra moinhos de vento, Riobaldo, contra o amor por outro jagunço, Canudos, contra as tropas da insensatez, Zumbi, contra a escravidão. A dívida social não será paga. A história dos negros não será reescrita nem recontada. Uma ditadura continuará a ser assassina, e a tortura, nunca mais! Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

Hoje é dia 20 de outubro. Hoje é celebrado o dia do poeta. Hoje é dia de Manuel Bandeira. Apesar de você, podemos ir embora pra Pasárgada, onde somos amigos do rei, termos o amor que quisermos, na cama que escolhermos e, se aqui não somos felizes, lá a existência será uma aventura, lá faremos ginástica, andaremos de bicicleta, montaremos em burros brabos e, cansados, nos deitaremos na beira do rio, porque em Pasárgada tem tudo, é outra civilização, nos sentiremos seguros, e no dia mais triste, o mais triste de todos, amaremos quem quiser, porque lá somos amigos do rei.

Apesar de você, toda a cultura será acessível, Brecht proporá a revolução, a angústia estará na solidão, a dor da alma não terá cura, até o dia em que decidirmos não sofrer mais e agir. Sofreremos por causa de você, superaremos apesar de você. Nossos ancestrais não sairão do lugar, seus ensinamentos irão nos guiar, apesar de você. Os mortos continuarão vivos entre nós. Continuarão a nos inspirar. Luther King continuará mito. Jesus a nos defender. Simone de Beauvoir nos fez pensar. Gandhi é o mito da paz.

O índio guerreiro vai lutar, vai se esconder e sobreviver, vai defender a sua mata, unir-se aos animais, defender sua família, até o último guerreiro, e mais uma vez o mal não vencerá. Os rios terão o poder de se regenerar, os mares, de se recompor, a fumaça vai se dissipar, as bombas vão se calar. A floresta vai renascer das cinzas. A destruição não nos acometerá.

Cometas vão passar. O Universo continuará a se expandir e ser enigmático. As descobertas nos surpreenderão. O conhecimento será sempre o caminho, não o ponto final. O desconhecido será conhecido, para voltar a ser desconhecido, que será conhecido, e desconhecido. Teorias podem ser reescritas, nunca extintas ou ignoradas.

Michelangelo será eternamente belo. Leonardo, genial. Van Gogh pintará as cores do vento. Pollock, a representar nossa loucura. Picasso, a incongruência. Miró será eternamente arrebatador. Rimbaud será nosso poeta que faz da vida, versos, da sua andança, sentido: “Que venha a manhã, com brasas de satã, o dever é ardor. Ela foi encontrada. Quem? A eternidade é mar misturado ao sol”.

Shakespeare nunca deixará de mostrar o horror de reinos, a loucura de reis. Campos de Carvalho narrarei de cor. Continuará píncaro do espetacular.

Lobos uivarão para a lua. Cachorros latirão uns para os outros. Gatos se esconderão na escuridão. Sabiás cantarão antes do amanhecer, nos despertando com a beleza da sua inconveniência. À noite, será sempre noite, por vezes desesperadora, por vezes longa demais, dolorida e saudosa. Enfim, o sol aparecerá. O ciclo das estações não se alternará. O minuto de daqui a pouco será depois o minuto que se foi. O amanhã será ontem.

A Justiça não será parcial, a defender os que mais têm. A verdade poderá nunca prevalecer. Mas nenhum doutor irá nos convencer do contrário. A polícia continuará a reprimir, a defender o bem de quem os têm. Mas nunca será eliminado o fato de sermos tão desiguais, de que quem não tem luta para dividir. Os grilhões se romperam. As amarras se romperão. Apesar de você.

Hoje é dia de poesia e samba. Todo dia é dia de samba. Apesar de você, o sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente. Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer. Amanhã será um novo dia. Apesar de você.”
.

OS FAVORITOS (de Pablo Neruda)

Compartilho, pela quarta ou quinta vez, nos quase 4 anos deste blog dialogosessenciais.com, o poema de Pablo Neruda que melhor define o jornalismo Caixa2 e, em especial, alguns jornalistas que não honram suas profissões. Mantive duas introduções anteriores, porque refletem a realidade de cada momento.

Paulo Martins

Em fevereiro de 2015, quando já estavam evidentes as intenções golpistas com a participação ativa dos meios de comunicação e seus jornalistas amestrados, publiquei neste blog poema de Pablo Neruda intitulado Os favoritos, que fala dos jornalistas “do patrão” ao mesmo tempo puxa-sacos dos poderosos e traidores quando lhes interessa descartar os que perderam o poder.

O momento político do Brasil revela, a cada dia, novos “Pobletes”. Parece que a fábrica de clones de jornalistas capachos consegue, ao contrário dos outros setores da economia, aumentar sua produção em tempos de crise.

Paulo Martins

Publicamos, a seguir, uma singela homenagem àqueles seletos profissionais da mídia em cujas cabeças se encaixa, à perfeição, a carapuça. No Brasil de hoje eles têm nome, sobrenome, fama, coluna nos jornais e nas revistas e tempo nas estações de rádio, TV e em sites. Não ficam desempregados e são regiamente pagos pelos seus serviços.

Espero que vocês leiam não como um incentivo à violência mas, antes, quase como lamento, como uma constatação de que aqui, em nossa latino-américa, a história e a dor se repetem. Basta contrariar interesses e tentar girar a roda de baixo para cima. E espero que aqueles em quem a carapuça cabe à perfeição, percebam que estão todos atentos e vacinados em relação aos seus desejos malévolos e palavras falsamente suaves travestidas de interesse pelo “bem comum”; tão seguras e tão simplistas, quanto equivocadas.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

Com a palavra, Pablo Neruda. Rascante, como um bom vinho.

Os favoritos

Pablo Neruda

No espesso queijo cardão
da tirania amanhece
outro verme: o favorito.

É o covardão arrendado
para louvar as mãos sujas.

É orador ou jornalista.

Acorda rápido em palácio

e mastiga com entusiasmo

as dejeções do soberano,

elucubrando longamente sobre seus gestos, enturvando

a água e pescando seus peixes

na laguna purulenta.
Vamos chamá-lo Darío Poblete,

ou Jorge Delano “Coke”.
(Dá na mesma, poderia ter

outro nome, existiu quando

Machado caluniava Mella, depois de tê-lo assassinado.)

Ali Poblete teria escrito
sobre os “Vis inimigos”
do “Péricles de Havana”.

Mais tarde Poblete beijava

as ferraduras de Trujillo,
a cavalgadura de Moríñigo,

o ânus de Gabriel González.
Foi o mesmo ontem, recém-saído

da guerrilha, alugado
para mentir, para ocultar

execuções e saques,
e hoje, erguendo sua pena
covarde sobre os tormentos
de Pisagua, sobre a dor
de milhares de homens e mulheres.

Sempre o tirano em nossa negra
geografia martirizada
achou um bacharel lamacento

que repartisse a mentira
e dissesse: El Sereníssimo,
el Constructor, el Gran Repúblico que nos gobierna,

e deslizasse pela tinta emputecida
suas garras negras de ladrão.

Quando o queijo é consumido
e o tirano cai no inferno,
o Poblete desaparece,
o Delano “Coke” se esfuma,
o verme torna ao esterco,

esperando a roda infame
que afasta e traz as tiranias,
para aparecer sorridente
com um novo discurso escrito

para o déspota que desponta.
Por isso, povo, antes de ninguém,

pega o verme, rompe sua alma
e que seu líquido esmagado,
sua escura matéria viscosa
seja a última escritura,
a despedida de uma tinta
que limparemos da terra.

Pobre das Filipinas, por Marcos Rolim (em Sul21)

Publicado em Sul21
Pobre das Filipinas
Publicado em: outubro 18, 2018

Marcos Rolim (*)

As Filipinas possuem um presidente de nome Rodrigo Duterte. Ele é um político tradicional que foi prefeito de Davao, na ilha de Mindanao, por 22 anos consecutivos. Ele fez sua campanha à presidência prometendo combater a corrupção e sustentando que “bandido bom é bandido morto”. “Melhor que escapem os que estão ligados ao tráfico de drogas, porque vou matá-los. Com seus corpos, alimentarei os peixes em Manila”, afirmou. Mais, disse que, se fosse eleito, mandaria a polícia e os militares matar todos os criminosos. “Esqueçam as leis de direitos humanos, mataria meus próprios filhos se fossem viciados em drogas”. Para que não houvesse dúvidas, já eleito presidente, Duterte acrescentou: “Hitler massacrou três milhões de judeus. Temos três milhões de drogados. Vou matá-los com prazer”.

Desde que assumiu a presidência em 30 de junho de 2016, mais de 13 mil pessoas, segundo organizações de direitos humanos das Filipinas, já foram executadas nas ruas, por policiais e por grupos de extermínio, na guerra particular de Duterte, números que superam as vítimas do reinado assassino de Ferdinand Marcos (1972 a 1981). O presidente premia policiais com dinheiro por cadáver, assegurando-lhes total imunidade. “Seguindo minhas indicações, vocês não têm que se preocupar com as consequências penais (…) Irei à prisão buscar vocês”, disse. Tal postura tem estimulado que policiais matem suspeitos, usuários de drogas, moradores de rua, bêbados e doentes mentais e que contratem milicianos para aumentar seu faturamento. A maior parte das mortes aparece nos registros oficiais como “tiroteios”, mas muitos casos possuem testemunhos e laudos que comprovam que as vítimas foram mortas sem esboçar qualquer resistência e mesmo quando estavam com as mãos para o alto. Segundo a Igreja católica das Filipinas, trata-se de “um reino do terror”; já para o secretário de Justiça das Filipinas, as pessoas mortas não integram “a humanidade”.

Duterte é um psicopata homofóbico e misógino que se tornou conhecido por dizer barbaridades que parecem para muitas pessoas como expressão de “sinceridade” e “coragem”. Ele chamou de “gay” o embaixador da ONU em Manila e disse que poderia expulsar a ONU das Filipinas; chamou Barack Obama de “filho da puta”, porque ele criticou a política de guerra às drogas; a mesma expressão foi usada por ele para se referir ao Papa Francisco por ter provocado um engarrafamento quando de sua visita às Filipinas. Disse que a missionária australiana Jacqueline Hamill, que foi estuprada e morta em um motim em um presídio, era muito bonita e que ele mesmo deveria ter sido o primeiro a estuprá-la. Seus adversários, à época, disseram que ele era um maníaco e que jamais poderia chegar à presidência. Ele respondeu que falou “do jeito que os homens falam”. A misoginia de Duterte aparece em muitos outros pronunciamentos. Recentemente, em discurso no Palácio de Malacañang, ele afirmou que o Exército tem uma nova ordem no combate à guerrilha do Novo Exército do Povo (NEP), uma organização maoísta que atua no norte do país: “atirem na vagina das guerrilheiras, sem as vaginas, elas são inúteis”.

Duterte horroriza o mundo, mas tem o apoio de Donald Trump. Em abril desse ano, o presidente norte-americano ligou para parabenizar o maníaco das Filipinas pelo “incrível trabalho que ele tem realizado com o problema das drogas…”. A Anistia Internacional e dezenas de outras instituições têm denunciado sistematicamente as violações praticadas pelo regime de Duterte que mantém na prisão vários dos seus opositores, como a senadora Leila de Lima. O presidente responde ameaçando matar os ativistas que lutam por direitos humanos: “Eu vou arrancar suas cabeças”, disse em praça pública. Todo esse fervor assassino, entretanto, só tem agenciado mais violência nas Filipinas e nada de substancial foi alterado quanto ao tráfico de drogas e à criminalidade.

Como foi possível que as Filipinas se tornassem o primeiro país do século XXI a eleger um fascista para a presidência? Como foi possível que cidadãos e cidadãs daquele país, muitos deles profissionais liberais, empresários, pessoas com formação superior, confiassem seu futuro a um assassino, defensor de grupos de extermínio e admirador de Hitler?

Coisas que, no Brasil, a gente não consegue entender, né?

(*) Doutor e mestre em Sociologia e jornalista. Presidente do Instituto Cidade Segura. Autor, entre outros, de “A Formação de Jovens Violentos: estudo sobre a etiologia da violência extrema” (Appris, 2016)

§§§

As opiniões emitidas nos artigos publicados no espaço de opinião expressam a posição de seu autor e não necessariamente representam o pensamento editorial do Sul21.

 

‘Pagpag’, a comida ‘reciclada’ do lixo que é vendida aos pobres nas Filipinas

‘Pagpag’, a comida ‘reciclada’ do lixo que é vendida aos pobres nas Filipinas
26 fevereiro 2018

Publicado em bbc.com

Todos os dias de madrugada, assim que centenas de sacos de lixo vindos restaurantes fast-food são despejadas em aterros sanitários em Manila, capital das Filipinas, dezenas de coletores se esforçam para buscar possíveis restos de alimentos.
Essas sobras são, então, cozidas e vendidas em comunidades pobres da metrópole.

Na língua tagalo, também conhecido como filipino, “pagpag” – o nome que se dá a essas refeições – é a palavra usada para descrever o pó que se solta quando se sacodem roupas e tapetes.

“Trabalho com isso há cinco meses. Meu chefe me paga cerca de US$ 6 (R$ 20) por semana depois de vender o ‘pagpag'”, diz Renato Navarro Conde, coletor de pagpag.
Uma sacola cheia de restos de carne é vendida por cerca de US$ 0,50 (R$ 1,60).
Um dos compradores é Norbeto Lucion, dono de um restaurante.
“Tenho que ir ao mercado para comprar ingredientes como alho, cebolas. Antes de cozinhar, retiro os ossos para garantir que o prato só terá carnes”, diz Lucion.
“Depois que a carne é separada dos ossos, eu a lavo. Depois de lavá-la, eu cozinho tudo a fogo baixo. Uma tigela custa US$ 0,20 (R$ 0,65)”, acrescenta.
O entregador Nonoy Morallos é cliente assíduo do restaurante.
“Como ‘pagpag’ porque é saboroso. É muito bom. Este restaurante, em particular, faz ‘pagpag’ limpo, por isso mais pessoas compram aqui. Mas é preciso ter estômago forte”, conta.
“Estamos acostumados com isso. É o que temos. É o que os pobres podem comprar. Enquanto estivermos por aqui, vamos continuar comendo ‘pagpag'”, completa.
Segundo o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB, na sigla em inglês), as Filipinas são um dos poucos países da Ásia onde a desigualdade de renda vem aumentando nos últimos anos.
Cerca de 20% dos filipinos vivem abaixo da linha da pobreza, diz a instituição.
Na última quinta-feira, o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, gerou polêmica ao defender um aumento de salário para si mesmo porque tem “duas esposas”.
Duterte ganha atualmente cerca de US$ 5,8 mil (R$ 18,8 mil).
A menção às suas “duas mulheres” decorre do fato de que ele é divorciado. Seu primeiro casamento foi anulado em 2000. Ele se casou, então, novamente.

Acesse o link para ler a matéria no site da BBC e um vídeo sobre a preparação do “pagpag”. Cuidado, o vídeo é pesado e deprimente. “É preciso ter estômago forte”.

https://www.bbc.com/portuguese/43205682

O ocaso do politicamente civilizado ou sobre o avanço dos bárbaros

Ou se preferirem, sobre o avanço da barbárie.

E, uma discussão entre mulheres, uma atribuía culpa ao capitão reformado pelos comentários machistas de um rapaz em relação à uma colega, enquanto outra, em resposta, achava que não esses fatos não tinham relação.

As mulheres, principalmente elas, menosprezadas pelo capitão, deveriam ser as primeiras a observar a onda conservadora que vem tomando conta do imaginário social no Brasil. O movimento das mulheres norte-americanas pelo direito ao voto começou em 1840 e só alcançou resultado oitenta anos depois, em 1920, com uma emenda à Constituição daquele país.

Em meu blog dialogosessenciais.com há um relato cronológico dos avanços e retrocessos nessa luta. Em alguns períodos, as próprias mulheres situadas nas mais altas camadas da sociedade americana, conservadoras, militaram contra o movimento de emancipação das mulheres. Antes de conseguir o direito ao voto, passo ainda pequeno, as mulheres tiveram que conseguir acesso ao direito de contratar, pagar e receber.

Bolsonaro, ou o caldo de cultura do qual ele é o mais proeminente representante, confundindo ser homem com ser machista, já fez comentários que desqualificam as mulheres e, em especial, contra as mulheres com jornada dupla: mães e profissionais.

Se os demais políticos citados são machistas em algum grau, e não duvido que sejam, somente Bolsonaro faz desse machismo uma bandeira e motivo de orgulho.

Basta verificar o papel relevante de Alexandre Frota na campanha do capitão reformado e visitar as redes sociais de muitos dos seus seguidores.

Por outro lado, tenho quase certeza que Ciro e Haddad, para citar os outros dois políticos ainda com chances na campanha presidencial, se acusados de serem machistas, sentir-se-iam constrangidos e não orgulhosos.

O ambiente sociológico brasileiro atual aponta para um conservadorismo latente que, pouco a pouco, encorajado pelos arautos do retrocesso pretendem colocar as mulheres de volta em um cercadinho.

Um amigo meu de longa data disponibilizou hoje, em sua linha de tempo na internet, a cópia de uma página de um passaporte feminino de 1952. Nele estava carimbado pela Polícia Federal que o marido dela autorizava sua viagem ao exterior e, pasme, seu retorno ao Brasil.

Comparar uma mulher a uma vaca é, no mínimo, degradante. E tem muito a ver, sim, com o tempo de retrocesso e barbárie que ensaia retorno ao país, que nem civilizado chegou a ser. Bolsonaro comparou, há pouco tempo, um ser humano a um animal – pesado em arrobas, conforme suas (dele) palavras. Se ele pode, se seus seguidores podem, se o politicamente civilizado saiu de moda, o espaço para retrocesso e perseguição aos grupos que lutam por identidade e reconhecimento – negros, pobres, homossexuais, gordos, deficientes, comunistas, perdedores do jogo econômico, vagabundos, pacifistas, defensores dos direitos humanos – fica perigosamente aberto. Então, é necessário, sim, apontar estes deslizes de quem menos se espera – de jovens educados, com boa formação acadêmica, que eu suponho ser o caso do rapaz que fez o lamentável comentário. Se o machismo se banaliza nos estratos médios e altos da sociedade com nossa condescendência, imaginem o estrago que esses exemplos poderão fazer nas pessoas situadas na base da pirâmide social, sequestradas pelas religiões neopentecostais. Imaginem o efeito dessa nova onda conservadora contra as mulheres que não sejam belas, recatadas e do lar, nem evangélicas ou tementes a Deus. Paz e amor. que não tinha nenhuma relação com Bolsonaro pois Lula e Ciro são igualmente machistas. Como um machista em recaída meti meu nariz onde não fui chamado e escrevi o comentário abaixo. Ando indignado com a interpretação de certos segmentos, em de certos candidatos, que o movimento das mulheres, #elenão. I

As mulheres, principalmente elas, menosprezadas pelo capitão, deveriam ser as primeiras a observar a onda conservadora que vem tomando conta do imaginário social no Brasil. O movimento das mulheres norte-americanas pelo direito ao voto começou em 1840 e só alcançou resultado oitenta anos depois, em 1920, com uma emenda à Constituição daquele país. Em meu blog dialogosessenciais.com há um relato cronológico dos avanços e retrocessos nessa luta. Em alguns períodos, as próprias mulheres situadas nas mais altas camadas da sociedade americana, conservadoras, militaram contra o movimento de emancipação das mulheres. Antes de conseguir o direito ao voto, passo ainda pequeno, as mulheres tiveram que conseguir acesso ao direito de contratar, pagar e receber. Bolsonaro, ou o caldo de cultura do qual ele é o mais proeminente representante, confundindo ser homem com machismo, já fez comentários que desqualificam as mulheres e, em especial, contra as mulheres com jornada dupla: mães e profissionais. Se os demais políticos citados são machistas em algum grau, e não duvido que sejam, somente Bolsonaro faz desse machismo uma bandeira e motivo de orgulho. Basta verificar o papel relevante de Alexandre Frota na campanha do capitão reformado e visitar as redes sociais de muitos dos seus seguidores. Por outro lado, tenho quase certeza que Ciro e Haddad, para citar os outros dois políticos ainda com chances na campanha presidencial, se acusados de serem machistas, sentir-se-iam constrangidos e não orgulhosos. O ambiente sociológico brasileiro atual aponta para um conservadorismo latente que, pouco a pouco, encorajado pelos arautos do retrocesso pretendem colocar as mulheres de volta em um cercadinho.

Um amigo meu de longa data disponibilizou hoje, em sua linha de tempo na internet, a cópia de uma página de um passaporte feminino de 1952. Nele estava carimbado pela Polícia Federal que o marido dela autorizava sua viagem ao exterior e, pasme, seu retorno ao Brasil.

Comparar uma mulher a uma vaca é, no mínimo, degradante. E tem muito a ver, sim, com os tempos de retrocesso e barbárie que ensaia retorno ao país, que nem civilizado chegou a ser.

Bolsonaro comparou, há pouco tempo, um ser humano a um animal – pesado em arrobas, conforme suas (dele) palavras. Se ele pode, se seus seguidores podem, se o politicamente civilizado saiu de moda, o espaço para retrocesso e perseguição aos grupos que lutam por identidade e reconhecimento – negros, pobres, homossexuais, gordos, deficientes, comunistas, perdedores do jogo econômico, vagabundos, pacifistas, defensores dos direitos humanos – fica perigosamente aberto. Então, é necessário, sim, apontar estes deslizes de quem menos se espera – de jovens educados, com boa formação acadêmica, que eu suponho ser o caso do rapaz que fez o lamentável comentário.

Se o machismo se banaliza nos estratos médios e altos da sociedade com nossa condescendência, imaginem o estrago que esses exemplos poderão fazer nas pessoas situadas na base da pirâmide social, sequestradas pelas religiões neopentecostais.

Imaginem o efeito dessa nova onda conservadora contra as mulheres que não sejam belas, recatadas e do lar, nem evangélicas ou tementes a Deus. Paz e amor.

Deixem falar o assessor de Pinochet!, por Paulo Klias

Publicado em outrapalavras.net

Paulo Guedes, guru de Bolsonaro quer privatizações em massa, corte de gasto social e favores fiscais aos ricos. Mídia esconde estas posições — e campanha de Haddad não as denuncia

Por Paulo Kliass

Passada a longa agonia da marcha das apurações de 7 de outubro, agora as forças democráticas devem voltar suas energias unitárias e agregadoras para evitar o desastre maior em nosso país. O caminho da civilização (ainda que meio capenga em sua versão tupiniquim) contra a barbárie declarada passa, sem sombra de dúvida, pela derrota eleitoral de Jair Bolsonaro no segundo turno.

A votação recebida pelo ex-capitão do Exército e deputado federal há 7 legislaturas surpreendeu até os profissionais mais experientes do marketing eleitoral. Um sentimento generalizado de descrédito com a política e com os políticos somou-se a uma onda conservadora e moralizadora na área social e cultural. A sensação de impotência frente aos problemas graves de segurança pública e o aumento dos índices de violência entram como caldo de cultura para o desastre do desemprego e da crise social e econômica. A descrença desalentadora nas instituições políticas vem acrescentada de uma frustração coletiva com as denúncias intermináveis com os casos de corrupção.

Esses ingredientes todos passam a ser articulados com uma meticulosa manipulação das redes sociais vinculadas a igrejas e outras formas de agregação dos setores que os analistas sociais passam a chamar de precariado e ralé. Enfim, mais do que uma expressão de desejos fascistizantes de massa, o fenômeno do voto 17 simboliza o recurso desesperado do desalento em busca de alguma boia nesse mar turbulento provocado pelo desastre do austericídio. E aí surge a figura do salvador da pátria, em quem deveríamos depositar toda nossa esperança. O candidato que conseguiu a vitória ao construir sua narrativa de se apresentar “contra os poderosos” e contra tudo o que está agora aí também no dia 28. Justo quem!

Mas a pior reação que se deve ter contra esse tipo de movimento é a sua subestimação. Hitler, Mussolini e Franco, por exemplo, também foram ridicularizados em seus momentos iniciais de ascensão política. O caráter inusitado de suas proposições e de sua forma caricatural de operar na política não deve nos iludir, provocando respostas apenas no nível da chacota. Não, jamais! A situação é muito grave e os riscos de uma legitimação do autoritarismo por meio do voto estão logo ali, na virada da esquina.

E nessas três semanas de campanha é fundamental a tarefa de desconstruir a candidatura de Bolsonaro. A irresponsabilidade política de parcela expressiva de nossas elites levou à criação e ao fortalecimento desse monstrengo. Ele se caracteriza “apenas” pela apologia da tortura, pela defesa da ditadura militar, pelo chamamento à pena de morte e ao armamento da população civil, pela homofobia e pelo racismo, pela intolerância e linchamento. Ocorre que a falência da operação de conquista definitiva do aparelho de Estado no período posterior ao golpeachment está apresentando agora a sua fatura. A derrota dos partidos mais tradicionais da direita fez surgir o neo-conservadorismo com toda a sua força.

A estratégia para vencer as eleições fez com que as forças em torno de Bolsonaro fossem convencidas a tornar o candidato mais “palatável” pelos representantes do sistema financeiro e do capital de forma generalizada. Como Meirelles e Alckmin foram fracassos retumbantes, agora essas forças se agarram ao capitão. Ocorre que as propostas de seu mentor em termos de política econômica são bastante contraditórias com a história de vida do candidato. Por outro lado, as ideias do candidato a vice, general Mourão, são muito perturbadoras para uma campanha que se pretende apresentar como institucional na ordem democrática.

Assim, o silêncio de Bolsonaro ao longo de todo o primeiro turno lhe foi bastante providencial. Com a desculpa da recuperação do atentado, ele pode ficar à margem das polêmicas com os demais candidatos e deu um cala-boca nessas duas figuras que estavam incomodando o clima da candidatura com suas declarações desastradas. E dá-lhe metralhadora giratória de “fake news” no subterrâneo incontrolável das redes sociais. Ao que tudo indica, tem sido muito eficiente a assessoria que está sendo prestada por figuras como Steve Bannon, que foi responsável pela campanha de Trump e se tornou uma espécie de líder da extrema direta mundial.

O fato pouco mencionado até agora é que a pauta econômica de Paulo Guedes é muito conservadora. A contradição vem dessa necessidade que Bolsonaro sentiu de ser mais bem aceito pela elite, em uma tentativa de deixar para trás a sua eterna imagem de alguém tosco e nojento. Afinal, ele defendeu inúmeras vezes o estupro de forma criminosa e debochada, além de propor literalmente o assassinato do ex-presidente FHC. Mas, enfim, nada que uma boa dose de “educação refinada” não resolva! Essa é a visão de alguns que aceitaram o desafio e partiram para a tarefa de dar uma demão de civilização naquele que, em sua essência, nada mais é senão um defensor da barbárie.

Paulo Guedes está muito bem ambientado na condição de guru de economia de Bolsonaro. Afinal, formou-se em uma das escolas mais clássicas do monetarismo e da ortodoxia, na Universidade de Chicago nos Estados Unidos. Fez um estágio na implementação das políticas públicas desses aprendizes do liberalismo na ditadura de Pinochet, logo depois da derrubada do governo democrático de Salvador Allende e do início da noite de terror naquele país. Em seguida volta ao Brasil e vai fazer sua carreira como agente no sistema financeiro.

Por isso é tão importante que a campanha de Haddad ofereça voz às propostas do senhor do Posto Ipiranga, como tão bem o apresentou o próprio candidato. Paulo Guedes é um radical defensor da privatização completa das empresas estatais brasileiras. Paulo Guedes é um entusiasta do ajuste imposto pela austeridade burra, tal como estabelecida pela Emenda Constitucional 95, que congela os gastos não financeiros por 20 anos. Paulo Guedes considera fundamental manter os desastres provocados pela “reforma” trabalhista aprovada pelo governo Temer. Paulo Guedes é contra medidas de promoção do desenvolvimento, uma vez que mantém sua crença obstinada na capacidade das forças de oferta e demanda resolverem nossos problemas.

Assim como as falas destrambelhadas do General Mourão a respeito da necessidade de extinguir o 13º salário, quando Paulo Guedes se manifesta, a oposição só tem a ganhar. Quando ele decide expor suas convicções mais profundas a respeito da economia, do Brasil e do mundo, o economista apresenta pérolas como a seguinte:

(…) “Estou vendendo o peixe da aliança de centro-direita em torno de um programa liberal democrata na economia. É o que os Chicago Boys fizeram lá no Chile. Conversei com ministro do Planejamento, da Fazenda, presidentes do Banco Central e do BNDES… Estou mapeando o território, examinando os números e simulando.” (…)

Esse é o desastre anunciado que não está sendo repercutido como deveria pelos grotões afora. Já foi esgotada a tática das denúncias apenas da pauta conservadora no campo da moral e dos costumes. Agora é urgente que seja desmascarada a agenda de retrocesso para o campo da economia. Se Bolsonaro prefere optar pelo silêncio que lhe é mais confortável, cabe às forças democráticas apontar a gravidade e os riscos embutidos na estratégia da liberalização radical do economista de Chicago.

As propostas da radicalização do retrocesso na seara da economia já foram apresentadas por todos os lados. Não tem mais como esconder. A população merece conhecer as ideias do todo-poderoso assessor.

Fala, Paulo Guedes!

#elenão.

Olavo de Carvalho, o ideólogo da barbárie

Olavo de Carvalho, o “ideólogo de Bolsonaro”, contra o professor Haddad
Olavo critica o pós-modernismo, o multiculturalismo e o politicamente correto porque ele é seu maior praticante, no sentido corrompido do termo. É assim que opera um fake thinker, um falso pensador caçador de patos: não é só falta de rigor ou pirotecnia retórica, é a corrupção como irresponsabilidade intelectual.
Publicado em 15/10/2018 // 1 comentário
Por Christian Ingo Lenz Dunker.

Todos os regimes, piores ou melhores, têm o seu ideólogo. Em geral ele não é alguém muito respeitado em sua área ou situa-se perifericamente em relação aos seus pares. Sua função é dupla: justificar as arbitrariedades de quem ele se aproveita para criar projeção e traduzir as mensagens do líder de modo a criar vantagens estratégicas para seus adeptos no exercício do pequeno poder cotidiano. Em geral, o ideólogo não se forma nas fileiras no partido ou nas ideias diretas de seu mestre, mas se aproveita da flutuação de seus pontos de vista para encaixar uma afinidade de circunstâncias. Isso é possível porque a função do ideólogo é sobretudo suspender ou desestabilizar os sistemas que garantem a legitimidade e a autoridade que atribuímos a certas formas de saber.
Por exemplo: o saber jurídico da República de Weimar foi neutralizado por um ideólogo como Roland Freisler, durante a ascensão do nazismo1; o saber universitário americano foi controlado por um ideólogo como Joseph McCarthy, no início da guerra fria; o saber artístico e intelectual soviético foi destroçado por Andrei Jdanov, durante a ascensão do stalinismo. Todos eles eram pensadores medíocres, mas que sabiam usar uma oscilação de tom que os permitia fazer alusões impressivas ao lado de palavras chulas gerando um efeito de autenticidade. Podiam ser também eruditos e especialistas em apenas uma área, mas que transferiam sua autoridade para problemas nos quais não eram realmente estudiosos.

Bolsonaro possui alguém que se comporta dessa maneira e que age conforme os requisitos para o cargo – tanto que foi devidamente reconhecido pelo filho do deputado pelos serviços prestados à candidatura do pai. Olavo de Carvalho possui uma longa ficha de desmascaramentos e refutações marcada pelo exercício continuado da improbidade filosófica. O fato de que ele não tem nenhuma formação regular, como uma graduação em ciências humanas, nem mestrado nem doutorado, não deveria ser um empecilho, afinal existiram muitos bons pensadores que vieram de fora do sistema universitário ou permaneceram em sua periferia. É por isso que o fato de que seus primeiros trabalhos foram sobre astrologia2, que ele tenha sido militante comunista e adepto da seita islâmica Tariqa, que hoje viva refugiado nos Estados Unidos, não o desabonam, mas criam os traços ideais para representar o papel de alguém antissistema, independente e fora da academia. Ele tem o que parece ser suficiente para que acreditemos nele: passagens pelas grandes redações de jornais e revistas, a partir da qual criou-se um grupo de pessoas que gostam de suas ideias. Isso confere uma vantagem grande ao personagem, pois ele poderá desfazer de saberes eruditos, complexos e sempre em controvérsia relativa, como a ciência e a filosofia profissional, representando a sabedoria do homem comum, confirmando seus preconceitos e transferindo convicção e autoridade para aquilo que as pessoas já pensam.

Um ideólogo alimenta-se de oposições, controvérsias e ofensas porque isso cria inimigos necessários para manter uma crença viva, instala uma solidariedade composta pelo ódio e aproveita-se do sentimento de inferioridade intelectual que habita muitas pessoas. Qualquer ataque à sua obra apenas confirma sua situação de pária e injustiçado intelectual e apenas aumenta a aura de perseguido, com a qual se afiniza com as massas. O truque do piques funciona assim: para influenciar meus adeptos uso palavras difíceis, citações e títulos extravagantes ou valho-me da participação em eventos semi-científicos como o Congresso Brasil Paralelo, que contou com mais de sessenta influentes participantes, entre eles nomes como Ronaldo Caiado, Onyx Lorenzoni e Gilmar Mendes que explanaram sobre a realidade do Brasil pelo ponto de vista liberal-conservador3. Repare que a palavra chave é influência, ainda que esta venha pela associação com a notabilidade suspeita do rol elencado. A ideia aqui é que você pode tornar-se sábio por contágio, como se a cultura e o pensamento funcionassem ao modo da revista Caras. Toda vez que alguém acusar a inconsistência de suas ideias, recorra à sua pessoa, ou à do seu crítico. Toda a vez que se aponta a inconsistência de sua pessoa, recorra às suas obscuras ideias incompreendidas. Se nenhuma das duas anteriores der certo, apele para palavrões. “Cu”, “buceta” e “cagada” são expressões recorrentes de nosso autor para exprimir seus conceitos e qualificar seus adversários4.

Mas então como mostrar que Olavo de Carvalho é um fake thinker? Qualquer crítica desse tipo será neutralizada pelo argumento de que eu mesmo sou um professor titular da USP, esse antro de esquerdistas incultos e comprados pelo sistema petista. Se digo o que digo só pode ser por interesse pessoal em preservar meus privilégios, de perpetuar a hegemonia cultural, “tal como Marx e Gramsci propunham”. Ou seja, vale tudo. De um lado, critico o relativismo e a pós-modernidade, de outro me autorizo a falar qualquer coisa porque a verdade virou uma questão de maioria de opinião e de número de adeptos. As ciências humanas comportam uma variedade de tradições e entendimentos, o que dá margem para as posições mais heterodoxas.

Examinemos o problema de um ponto de vista muito tosco e elementar, mas não obstante objetivo. Há um sistema imparcial que agrega e compara essa variedade de posições própria ao campo da ciência, validando o valor e a legitimidade do conhecimento que se produz, a partir da própria comunidade de cientistas. Este sistema vale para qualquer um que publique qualquer coisa em ciência, em qualquer lugar do mundo. Trata-se do Google Scholar (“Google Acadêmico”, no Brasil), ou seja, uma forma de quantificar quantas vezes e por que qualidade de revista científica seus livros ou artigos são citados por outros autores. Todo pesquisador tem um i-10 que é o índice de citações que seus textos têm na comunidade internacional e que vale como medida de reconhecimento da relevância de seu trabalho. Portanto, não vale dizer que o sistema universitário ou que a filosofia brasileira não reconheceu ou persegue as ideias inovadoras e incompreendidas de nosso autor.

O sistema tem várias críticas, mas ele serve como uma espécie de peneira genérica para falar sobre quem é quem quando se trata de ciência. A vantagem é que qualquer um pode entrar neste sistema e verificar a quantidade e qualidade de citações que um autor tem5. Por exemplo, um pesquisador de esquerda como Vladimir Safatle, com 45 anos, tem um i-10 de 40, que corresponde a 282 citações de sua principal obra6. Um reconhecido autor de direita, como José Guilherme Merquior, tem 331 citações em sua obra mais conhecida. Olavo de Carvalho tem 30 em sua obra magna O que você precisa saber para não ser um idiota, sendo que, destas, 28 são referências de pesquisas sobre a emergência do pensamento conservador no Brasil, discursos contra a corrupção e pesquisas sobre jornalismo político. Ou seja, citam o texto como índice de fenômeno social, a emergência de uma nova direita, e não por suas ideias em si. Sua obra mais “técnica”, Teoria dos discursos em Aristóteles, tem apenas três citações na área da filosofia, todas desabonando seu trabalho.

Isso significa que não é que suas ideias são rejeitadas, mas que seu pensamento é irrelevante para a área na qual ele se situa. Mostrar seus erros técnicos, suas ilações inconsequentes e outras fragilidades de alguém que não sabe pensar com rigor é como colocar um time amador em comparação com um profissional. Uma seleta das afirmações erráticas de Olavo de Carvalho incluem: a ONU apoia o terrorismo, Pepsi é feita com fetos abortados, há uma conspiração comunista global e o movimento gay é parte dela, a Lei da Inércia é falsa e Isaac Newton era burro, há livros ensinando crianças fazer sexo oral com elefantes, o Brasil hoje é uma ditadura comunista, a mídia apoia os gays para promover o controle populacional, o marxismo nasceu do satanismo, Darwin é o pai do nazismo, a web foi criada para combater o ateísmo, o ser humano não precisa de cérebro pra viver, o nazismo e FMI são de esquerda, Bill Clinton era um agente de Pequim, os EUA entraram no Vietnã para perder, há 40 milhões de comunistas no Brasil, cigarro não dá câncer (ele é um fumante inveterado), não há diferença genética entre humanos e chimpanzés na gestação, o empresariado nunca se organizou politicamente, a ditadura foi branda e tinha eleições democráticas, o General Geisel era comunista7.

Os títulos de seus livros incluem coisas como O dever de insultar e O imbecil coletivo II. Sua Teoria das doze camadas da personalidade é um resumo ridículo e pretensioso das concepções psicológicas mais correntes em psicologia. Algo assim como se eu pedisse a um aluno de terceiro ano que me contasse em 19 páginas tudo o que se disse até aqui sobre o conceito de personalidade. Tipo: conheça 13 capitais da Europa em quatro dias e descubra a verdade da milenar cultura ocidental, rápido e barato. São textos que fazem vergonha alheia e denunciam o provincianismo indefeso do brasileiro médio em matérias não escolares.

Como vimos, ideólogos servem principalmente para serem usados na desqualificação de saberes e autoridades simbólicas ou estrategicamente importantes. Por isso, não adianta dizer que eles não são sérios, pois isso só confirma, na língua da alienação, que eles são outsiders e “antissistema”. Fernando Haddad, pode ser criticado como um mal prefeito, como membro de um partido corrupto ou como alguém que toca violão muito mal, mas o seu i-10 é de 15, contra “nem entra em campo” de Olavo de Carvalho. Sua obra Plano de desenvolvimento da educação8 foi citada 127 vezes, sempre em contexto técnico ou científico. Haddad conclui o curso de direito na USP, depois fez mestrado em economia e doutorado em filosofia na mesma universidade.

Mas o que são títulos? Tantas pessoas têm títulos e não sabem nada, não é mesmo? Haddad estudou em McGill, a melhor universidade canadense, o Carvalhão não terminou seu mestrado, mas para quê estudar fora? Durante mais de dez anos Haddad fez o que faltou decisivamente na formação de Olavo de Carvalho: deu aulas para alunos reais de um curso de graduação. Mas qual é o valor disso? Afinal a USP nunca teve um filósofo que se preze (afirmação textual do próprio). Haddad deu aulas com notas, frequência, alunos inquietos ou indolentes, aulas de verdade. Aulas públicas, abertas e gratuitas e não cursos pagos pela internet. É neste contexto de desigualdade maiúscula, que testemunha a ignorância de muitos em reconhecer a diferença entre um verdadeiro professor e pesquisador e um “bundão” que fica atrás da mesa falando e caçando patos nos EUA (no sentido literal e metafórico), que podemos examinar as afirmações de Olavo de Carvalho sobre o livro de Haddad9:

  1. “O PT quebra imagens, esfrega o crucifixo nos órgãos genitais, urinam [sic] na Bíblia e agora quer apoio católico”. A afirmação é grotescamente falsa. A pergunta de fundo é: para quem esta mensagem pode ser persuasiva, a ponto de ser retuitada pelo filho do deputado Jair Bolsonaro? Para alguém que jamais lerá este texto, que não compreende o que é pesquisa, que só entende que devemos dar crédito a pessoas famosas. Quanto mais espetacular a chamada mais ela tem efeito. Realmente, qual é a diferença disto e de mentir para ser eleito?
  2. Como disse Caetano Veloso: “Considero o texto de Olavo incitação à violência. Convoco meus concidadãos a repudiá-lo. Ou vamos fingir que o candidato dele já venceu a eleição e, por isso, pode mandar matar quem não votou nele?”10 Ou seja, a conspiração comunista, a hegemonia cultural da esquerda universitária e tudo o mais que o caçador de patos denuncia é exatamente o que ele está imediatamente disposto a praticar. Um intelectual que defende a violência como método perde imediatamente o direito ao uso desta qualificação, tornando-se imediatamente um “idiota”, cumprindo assim o lema de que as pessoas transformam-se naquilo que elas mais odeiam.
  3. Todavia, o campeão da inconsequência e o prêmio maior de Tolice do Ano, e que me leva a escrever este texto, vai para sua afirmação de que Haddad queria vencer o “tabu do incesto” para implantar o socialismo no Brasil. Haddad faria “apologia do incesto”, provavelmente como extensão do “kit gay” (que nunca existiu) e da “ideologia de gênero” (que é outra invenção brasileira para traduzir, em idioma de má fé, os “estudos de gênero”, disciplina universitária presente em Harvard, Cambridge e Yale). Depois da repercussão imediata de tamanho erro, facilmente verificado pela imprensa, Olavo de Carvalho retirou o post e o substituiu por outro dizendo que Haddad “subscrevia integralmente a sociedade erótica, advogado pela Escola de Frankfurt que advoga a erotização da relação entre mães e filhos”11.

Ora, o tabu do incesto é uma expressão usada por Freud em seu texto de 1913, Totem e tabu, para designar o fato de que em todas as culturas humanas conhecidas há uma restrição para o casamento dentro da própria família. Desta regularidade Freud inferiu a existência de um potencial desejo da criança pela mãe, que deu origem à hipótese do complexo de Édipo. Este desejo é reprimido dando origem ao processo de socialização como reconhecimento de uma lei maior que nos impede de realizar tudo o que queremos. Muitas culturas e alguns padrões de família exageram essa repressão, criando crianças demasiadamente proibidas em seus desejos e em suas vidas eróticas. Por isso uma transformação social deveria atentar para padrões menos rígidos de repressão e de implantação da lei. Ora, essa tese simples e difundida amplamente, tanto entre pensadores de direita quanto de esquerda, foi deformada para justificar a “erotização da infância” e a “apologia do incesto”. É assim que opera um fake thinker, um falso pensador caçador de patos. Ele toma uma ideia, a deforma sem rigor, e depois a usa para causar medo nas pessoas. Isso não é uma questão de “interpretação” ou “ponto de vista”, as ciências humanas podem admitir variações e variedades, mas elas têm um critério, que é o do rigor. Neste caso é claro e cristalino que nem a psicanálise, nem a Escola de Frankfurt, nem Haddad defendem a “apologia do incesto” ou a “erotização da infância”.

Essa inconsequência com os conceitos está longe de ser apenas um vale tudo acadêmico, ela é uma prática específica de relação com a palavra. Olavo critica o pós-modernismo, o multiculturalismo e o politicamente correto porque ele é seu maior praticante, no sentido corrompido do termo. Chegamos assim ao termo correto para o tipo de pensamento cultivado por Olavo de Carvalho: não é só falta de rigor ou pirotecnia retórica, é a corrupção como irresponsabilidade intelectual. Neste dia do professor é preciso agradecer e saudar os docentes, mas também perceber que há os traidores da classe. Não são aqueles que informal mal, ou que transmitem no limite de suas possibilidades e de sua formação, mas os que propositalmente dizem mentiras. Desinformar as pessoas em um país tão carente de professores e de ensino, fazê-lo de forma proposital e com fins políticos (lembremos das adesões diretas de Bolsonaro e seus filhos à Olavo de Carvalho), usar palavrões e praticar falta de decoro acadêmico só merece um juízo, como diria o Capitão Nascimento: pede para sair!

Notas

1 Christian Ingrao, Crer e destruir: os intelectuais na máquina de guerra nazista da SS (Rio de Janeiro, Zahar: 2017).
2 Olavo de Carvalho, A imagem do homem na astrologia (1980).
3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Olavo_de_Carvalho
4 Exemplo de um tuite de 17 de setembro de 2018: “Quer o chamem de ‘Bolsominion’ por ser eleito do Bolsonaro, ou de ‘falso direitista’ por preferir outro candidato, a resposta oficial, nós dois casos, deve ser: — É o cu da mãe.”
5 https://scholar.google.com.br/scholar?hl=pt-BR&as_sdt=0%2C5&q=fernando+haddad+&btnG=
6 https://scholar.google.com.br/citations?user=fw3hwBYAAAAJ&hl=pt-BR
7 http://forum.jogos.uol.com.br/23-frases-de-olavo-de-carvalho_t_3391617
8 Fernando Haddad, O Plano de Desenvolvimento da Educação: razões, princípios e programas, Brasília, Inep/MEC: 2008.
9 Fernando Haddad, Em Defesa do Socialismo. Petrópolis, Vozes: 1998.
10 Caetano Veloso, “Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo“, Folha de S.Paulo, 14 de outubro de 2018.
11 Gilmar Lopes, “FALSO: Fernando Haddad defende incesto entre pais e filhos em seu livro?“, E-farsas, 14 de outubro de 2018.

A prisão de Augusto Pinochet: 20 anos do caso que transformou a Justiça internacional

EL PAÍS
INTERNACIONAL
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A prisão de Augusto Pinochet: 20 anos do caso que transformou a Justiça internacional
A prisão do ditador chileno em Londres, em 16 de outubro de 1998, marcou a jurisprudência global sobre os crimes contra a humanidade

“Vocês não têm o direito de fazer isso, não podem me prender! Estou aqui em uma missão secreta!”, exclamou o ditador chileno Augusto Pinochet, então com 82 anos, quando, na noite de 16 de outubro de 1998, foi preso na London Clinic da capital britânica, segundo o livro Yo, Augusto, de Ernesto Ekaizer. Havia viajado à Europa para fazer uma operação na coluna e, como era senador vitalício no Chile, pensava estar protegido pela imunidade diplomática. Mas era uma viagem particular, e o Governo do Reino Unido não havia sido informado. O juiz espanhol Baltazar Garzón aproveitou a situação para emitir, na véspera, um mandado internacional de prisão e solicitou sua extradição para a Espanha, justificada por uma queixa criminal sob a Operação Condor, a coordenação das ditaduras latino-americanas para perseguir e eliminar opositores. Foram 503 dias de prisão e, embora o Reino Unido não tenha autorizado sua transferência para a Espanha, o caso — que completa 20 anos — marcou a jurisprudência internacional sobre os crimes contra a humanidade.

A prisão de Pinochet mostrou que os juízes podem agir contra os violadores de direitos humanos em países terceiros e que é possível buscar justiça transnacionalmente. Para Naomi Roht-Arriaza, professora de Direito da Universidade da Califórnia, Hastings College of the Law, com o caso Pinochet houve a revalidação “da justiça universal como uma forma complementar da justiça internacional, paralela ao emergente Tribunal Penal Internacional — o Estatuto de Roma é assinado no mesmo ano da detenção — e aos tribunais ad hoc“. Segundo a professora, a causa deu esperança às vítimas de uma série de conflitos de longa duração, e os advogados começaram a levar novos casos aos tribunais estrangeiros, como na Bélgica e Espanha.

“Os militares e ex-chefes de Estado de vários países — Israel, Estados Unidos, Guatemala — começam a cancelar viagens e limitam seus movimentos temendo os mandados de prisão. Isso, naturalmente, cria uma reação dos poderosos, que defendem restringir o uso da jurisdição universal e conseguem mudar as leis na Bélgica e na Espanha, promovendo interpretações restritas em outros países, embora agora o novo Governo espanhol esteja em processo de repensar essas limitações, a fim de ampliá-la novamente”, diz Roht-Arriaza. “Os juízes, no entanto, continuam encontrando maneiras de fazer avançar a justiça”, afirma a pesquisadora, que destaca um exemplo recente: o ex-coronel salvadorenho Inocente Orlando Montano foi extraditado dos EUA para a Espanha, onde aguarda julgamento pelo assassinato de seis jesuítas em 1989, um caso que foi reaberto em El Salvador.

“Certamente, o pedido de extradição para a Espanha do General Pinochet, quando este se encontrava no Reino Unido, foi um fato de especial importância para a compreensão do julgamento de crimes internacionais com base no princípio de jurisdição universal”, explica Antonio Remiro Brotons, professor emérito de Direito Internacional na Universidade Autônoma de Madri. O autor de El Caso Pinochet. Los Límites de la Impunidad diz que “o caso Pinochet não foi o primeiro, obviamente, em que se considerou a aplicação da justiça internacional”, mas esclarece que, naquela época, “ninguém acreditava que o princípio de jurisdição universal pudesse chegar a essa classe de personagens”. Em termos operacionais, destaca Brotons, foi a primeira vez que um ex-chefe de Estado deixou de ter imunidade em crimes contra a humanidade: “Não houve outro tão notório”.

Para o professor, o princípio de jurisdição universal encontrou “vento de cauda” com o mandado de prisão e pedido de extradição emitidos pelo juiz Garzón. “Inúmeros processos haviam sido abertos em muitos países, mas o caso Pinochet ganhou destaque e sensibilizou a opinião pública”. Segundo Brotons, o caso Pinochet “serviu, pelo menos, para reativar os processos iniciados no Chile (e o mesmo ocorreu na Argentina com relação às suas próprias juntas militares)”.

A chilena Carmen Hertz, advogada de direitos humanos e deputada pelo Partido Comunista, tem a mesma opinião. “Até a prisão de Pinochet em Londres, em termos de justiça, havia se avançado muito pouco no Chile. A doutrina internacional de direitos humanos e o direito humanitário eram ignorados pelos tribunais. Sua prisão em 1998 marcou um ponto de inflexão,” avalia Hertz, atual presidenta da Comissão de Direitos Humanos do Congresso, que critica “as intensas manobras políticas e diplomáticas do Governo chileno [de Eduardo Frei Ruiz-Tagle] para conseguir que o ditador fosse enviado ao Chile”.

Em maio de 2000, dois meses após o retorno de Pinochet ao Chile, a Corte de Apelações de Santiago aprovou sua destituição como senador vitalício e o militar pôde ser investigado e processado pela Justiça local. “Apesar de não ter sido julgado por supostos problemas mentais, ao ser enviado ao Chile o Poder Judiciário passou por uma dinâmica diferente”, diz a parlamentar. “De alguma forma, os juízes se sentiram obrigados a exercer seus poderes jurisdicionais e reivindicar seu papel na sociedade, bastante deteriorado até então.”

Segundo o mais recente relatório anual do Centro de Direitos Humanos da Universidade Diego Portales, desde julho de 2010, a Suprema Corte concluiu 214 casos de violações de direitos humanos durante a ditadura de Pinochet, com 532 agentes envolvidos. As sentenças efetivas de prisão somaram 462 no mesmo período.

“O melhor e maior legado do caso Pinochet é essa inter-relação entre a justiça nacional e a jurisdição universal”, diz Roht-Arriaza. “Não foi processado na Espanha, e retornou ao Chile supostamente por motivos de saúde. No entanto, enfrentou um panorama político e midiático diferente, com vítimas encorajadas, com juízes um pouco constrangidos porque não haviam conseguido desempenhar seu papel de forma adequada e com um compromisso do Governo de processá-lo em casa”.

Liberação da posse de armas, feminicídio e messianismo de extrema-direita: faces do mesmo mal

14/10/2018   12h10

Em dezembro de 1980, um assassinato em Nova York chocou o mundo: um fã enlouquecido, com um revólver comprado facilmente, matou John Lennon com três tiros, na porta da sua casa.

Eu estava morando lá. Ví tristeza e a comoção, em toda a parte, no mundo todo. As pessoas choravam pelas ruas. Observei, com pesar, os sinais de fraqueza dos pacifistas frente ao poderoso lobby dos produtores, distribuidores e proprietários de armas.

Como um insano pôde comprar uma arma para assassinar uma pessoa? Ora, facilmente. Consideram normal. Armas são fabricadas exatamente para isso. Para matar pessoas, eles raciocinam assim.

Três meses depois, outro crime com repercussão global: a tentativa de assassinato de Ronald Reagan, em 30 de março de 1981, 69 dias após Reagan ter assumido a Presidência da República nos Estados Unidos.

O presidente Reagan e mais três pessoas foram baleados por John Hinckley Jr. O criminoso disparou seis tiros. Em seu julgamento, Hinckley Jr. foi declarado inocente por insanidade mental e permaneceu internado em uma instituição psiquiátrica até 09 de setembro de 2016, quando foi liberado para viver com sua mãe em tempo integral, com tratamento psiquiátrico obrigatório e acompanhamento legal.

Como um insano mental comprou uma arma para tentar assassinar o presidente dos Estados Unidos? Ora, facilmente.

Eu poderia listar aqui os massacres em escolas e clubes noturnos, lá nos Estados Unidos e aqui no Brasil, para refrescar sua memória e alertá-lo para o perigo de se permitir porte de arma.

Mas este artigo não é somente sobre isso. É sobre a ascensão do fascismo que precisa, para se consolidar, da livre posse de armas.

O fascismo precede o desejo de portar armas e esta posse é a manifestação, na prática, do desejo de eliminar os diferentes. Para isso os fascistas enrustidos desejam a posse de armas: para eliminar os “diferentes”. O fascista odeia os diferentes.

Falei em diferentes e veio à minha atenção um fato incontestável: os machistas e os fascistas estão saindo dos esgotos onde viviam, candidato e seus eleitores, e promovem a liberação do porte de arma. São todos favoráveis, por que será?.

No ataque realizado a Reagan, seu secretário de imprensa, James Brady, foi ferido na cabeça, tornando-se deficiente sem recuperação. Ele continuou como secretário de imprensa do Governo Reagan por um tempo, em um papel basicamente protocolar.

Brady, que no passado tinha o apelido de urso, e sua mulher Sarah Brady, tornaram-se ativistas pelo controle de armas e outras ações para reduzir a violência armada nos Estados Unidos. Como podemos observar pelas ocorrências de massacres que tornaram rotineiros nos Estados Unidos, fracassaram.

Espero que os senhores deputados e senadores não levem adiante as tentativas de revogar o Estatuto do Desarmamento e de liberação do porte de arma no Brasil. Espero, também, que os brasileiros não elejam o candidato apoiado pelos fascistas.

E espero, com toda sinceridade, que não tenhamos que contabilizar arrependidos após terem sido incapacitados, como James Brady. Ou assassinados, como John Lennon.

Infelizmente, o arrependimento veio tarde para Brady e, embora o trabalho de sua organização sem fins lucrativos Handgun Control, Inc. (mais tarde chamada de Brady Campaign To Prevent Gun Violence) mereça elogios, a verdade é que as ações do rico e poderoso lobby norte-americano a favor da livre produção e venda de armas são muito mais efetivas. Elegem presidentes da República, como foi o caso de Reagan e, recentemente, Trump, ou impedem o sucesso de candidatos que se posicionam contra a posse de armas.

Eu residi, trabalhei e estudei nos Estados Unidos no período de fevereiro de 1979 até dezembro de 1981. Acompanhei de perto, com interesse e horror, o crescimento do fascismo à americana, com a ascensão de Reagan. O pano de fundo, a desculpa para o crescimento da extrema direita, foi a invasão da embaixada norte-americana e o sequestro dos diplomatas e funcionários norte-americanos pelo Irã.

Quando me preparo para finalizar este artigo, dou de cara com uma notícia na TV informando que foram registrados no Brasil, em 2016, 929 casos de feminicídio e em 2017, 1133 casos, um aumento de 22% em um ano. Matéria no Estadão de 12/10/2018 – 18h12 – informa:

“Em 3 dias, cinco mulheres são vítimas de feminicídio no interior no interior de SP. Todas foram mortas com arma de fogo – entre elas, uma adolescente de 13 anos”.

A campanha do candidato do fascismo, do machismo, da homofobia e da agressão ao meio ambiente quer fazer-nos acreditar que com a liberação de armas haverá mais proteção para as mulheres.
Vocês já viram mulheres sairem em marcha nas ruas, lá fora ou aqui, pedindo liberação irrestrita do porte de armas?
Claro que não. Mesmo intuitivamente é fácil perceber quem irá armar-se, não só para se defender mas, principalmente, para agredir. Serão os homens adeptos da violência, agressores e nunca as mulheres, normalmente muito mais pacíficas. A conclusão é um exercício de simples lógica: as mulheres vão ser assassinadas com maior facilidade. Veja, abaixo, uma lúcida entrevista de Ciro Gomes, contra a loucura  de se eleger um fascista para a presidência do Brasil.

A trajetória da economia brasileira nos últimos 20 anos-1995/2016

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Compartilho importante material preparado pelo Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI sobre a economia brasileira nos últimos 20 anos. São 140 gráficos que explicam a evolução da economia brasileira. Observando os gráficos com atenção, deixando de lado preconceitos e manipulações da mídia de negócios, vamos concluir que nos 20 anos analisados a economia brasileira mudou de patamar, cresceu – incluindo, com política social, parte da população mais carente – e apareceu, especialmente a partir de 2003 até 2013/2014. A partir de 2015, os números mostram, a crise política destruiu a economia e sua continuidade ameaça destruir o país.

Por favor, de um clique no link abaixo e boa viagem:

Paulo Martins

http://brasildebate.com.br/wp-content/uploads/vinte-anos-de-economia-brasileira-1994-2016-abril-2017-compressed.pdf

A indigência do “fascismo tropical”


A indigência do “fascismo tropical”

POR RAFAEL ZACCA
– ON 11/10/2018

Publicado em outraspalavras.net


Em vez de História, esquecimento. No lugar de glórias externas, combate aos pretos, nordestinos e gays. Um “nacionalismo” entreguista. Como Jair Bolsonaro produziu um movimento que até Marine Le Pen rejeita.


Por Rafael Zacca | Imagem: cena de A Resistível ascensão de Arturo Ui (de Bertolt Brecht), encenada em Londres, 2013

Em todo o mundo a extrema direita surfa a onda conservadora da última década. Sempre que nos deparamos com um fenômeno confuso, vasculhamos a memória atrás de algum ponto de apoio para distinguir as coisas. É assim que por toda a parte o nazi-fascismo volta a ser sussurrado de ouvido em ouvido, como o marulho dessas águas. Chamar as coisas por seu nome é uma tarefa importante – mas distinguir os nomes corretamente é a tarefa justa. No caso brasileiro, o retorno do recalcado de nossa época ditatorial militar nos impele, a um só tempo, a lhe dar o nome de fascismo, e a acrescentar-lhe um broche, provavelmente maior que a roupa. Um broche tropical. Pois é difícil de acreditar que se possa sobrepor diretamente a imagem de Hitler ou de Mussolini à de Jair Bolsonaro, e nada nos parecerá mais absurdo do que a ideia de um povo ariano brasileiro.
Não obstante, a morte do capoeirista Moa do Katendê, na madrugada de 8 de outubro, é a mais recente evidência da existência de um fascismo à brasileira que diferentes discursos negacionistas tentam abafar. O capoeirista foi morto pela peixeira de um bolsonarista muito mais jovem (Moa tinha 63, o assassino tem 36), que cometeu o crime por “discordância política”. Outra evidência se dá no contexto dos acontecimentos que se seguiram ao assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco. Sete meses depois da execução, motivada pela atuação de Marielle no combate às milícias e na defesa da população negra e pobre das favelas do Rio de Janeiro, os então candidatos (e agora eleitos) a duas vagas na Assembleia do Rio, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira, quebraram uma placa feita em homenagem à vereadora na rua em que ocorreu o assassinato, no bairro do Estácio. Tratava-se de um evento político, e ao lado dos dois estava, no mesmo palanque, o atual candidato ao governo do Rio, Wilson Witzel – todos do partido da oligarquia Bolsonaro.
Nas eleições para o primeiro turno, fotos da urna eletrônica indicando voto em Jair Bolsonaro e pistolas repousando sobre os números expõem, com uma clareza freudiana, a vontade de entregar poderes excessivos ao candidato. A poucas semanas do processo eleitoral, em Copacabana, uma corrida de militares, destinada a homenagear um sargento morto durante operação em uma favela carioca, tornou-se prontamente uma carreata de apoio ao presidenciável, em uma espécie terrível de anúncio de uma possível “versão tropical dos Freikorps”, como afirmou Gilberto Maringoni, professor da UFABC. O professor referia-se aos grupos paramilitares que encabeçaram a escalada de violência nazista no século passado. Bolsonaro parece aceitar de bom grado o trono que lhe querem entregar: já afirmou, ao longo de sua história, que é a favor da tortura, que fechará o congresso na primeira oportunidade, e, recentemente, que irá “por um ponto final em todos os ativismos do Brasil”.
Quando teve fim o seu exílio, Leonel Brizola regressou ao Brasil com a ideia de realizar um “socialismo moreno”: mais libertário, mais afeito aos trópicos. Em uma espécie de piada histórica de mau gosto, o que parece ter vingado no país é um “fascismo moreno”, com as cores de nossa bandeira. Torquato Neto escreveu em 1968: “não faça esforço para ser tropicalista: continue moralista e será. O trópico é fatal.” Um nome mais adequado para essa ideologia talvez seja “fascismo tropical”.
Para compreender esse fenômeno, é preciso partir da premissa de que o que encontramos aqui não é exatamente igual àquela ideologia que nasceu das fasci di combattimento italianas. É preciso repetir o gesto daqueles que enfrentaram a meia-noite do século XX: na década de 1930, os que resistiam ao autoritarismo e à morte criaram institutos de estudo e combate ao nazi-fascismo. Tais institutos viriam a calhar hoje no Brasil. A história não se repete – conhecer o que se passa aqui, dessa vez, é tarefa prioritária, para que possamos traçar estratégias de resistência e combate mais bem definidas. O que se segue é um ensaio de distinções.
Lembrar ou esquecer
É curiosa a franca oposição em que se encontram a mentalidade histórica nazi-fascista e a do fascismo tropical. Enquanto para o primeiro a história (ainda que inventada e travestida de ciência) é importante na fundamentação dos símbolos nacionais a serem adorados pela população, para o segundo, o esquecimento é o cimento sobre o qual o autoritarismo pode se firmar. Não à toa a Comissão Nacional da Verdade tenha sido, desde a sua fundação, duramente atacada, simbólica e materialmente, por partidários, civis e militares, da ditadura. Ligada a um projeto de revisão da lei da anistia, que admitiu o retorno dos exilados políticos e perdoou os crimes dos agentes do Estado brasileiro, a Comissão trabalhou no sentido de revisar a dívida histórica com o passado recente nacional, quando o regime militar sequestrou, torturou, matou e desapareceu com inúmeros cidadãos, muitos dos quais sem paradeiro certo até hoje. O projeto de esquecimento envolvido nesse processo conhece agentes armados, e não apenas ideologicamente eloquentes. Em 2014, por exemplo, o coronel Paulo Magalhães confessou crimes de tortura e sequestro à Comissão; um mês depois, sua casa foi invadida, o coronel assassinado, e seus computadores roubados.
Enquanto no fascismo tradicional o passado é glorioso e os ancestrais exaltados, no fascismo tropical o passado é motivo de vergonha e deve ser esquecido. O fascismo tropical é um projeto de futuro que quer purgar, com fogo mesmo, o território nacional de seus males. Apenas o patriarca é respeitável, o que explica, por sua vez, que a centralização de poder em nossa história seja tão mais facilmente alcançável. Essa ideologia funda em nós uma atração desproporcional, mesmo se comparada a outros contextos patriarcais, pelas figuras do super-herói incorruptível, do avô amoroso provedor ou do coronel que apazigua os conflitos locais. E não importa que sejam essas as figuras nacionais que mais rapidamente se mostrem corruptas, avarentas e violentas, quando não as três coisas: o fascismo tropical tem mais amor pela violência do chefe que pela instauração de uma ordem, pois identifica ordem com o cano de um revólver.
Sob gritos de “mito”, Jair Bolsonaro é eleito deputado, ano após ano, como o grande patriarca do fascismo tropical. Quanto mais os seus adversários relembram de seu flerte com os crimes de guerra do regime militar, mais o candidato se apoia na amnésia social promovida pela lei da anistia como escudo ideológico. Esse grande patriarca sofre hoje, não por mera coincidência, a maior rejeição por parte das mulheres, sob a bandeira do movimento do #elenão.
O inimigo externo ou interno
A tipificação do alvo nacional, do inimigo número um, também difere nos dois casos. Na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, esse elemento sempre foi exterior. Fora do território, esse inimigo movia a guerra de conquista. Marinetti chegou a afirmar em manifesto futurista, em apoio à Itália na guerra colonial na Etiópia, que “a guerra é bela”. O nazismo, por seu turno, cresceu na sombra do argumento da humilhação por seus vizinhos: o discurso revanchista, pelas consequências da derrota na Primeira Guerra Mundial, pavimentou a marcha da SS. E mesmo o grande alvo interno dos arianos, os judeus, eram tidos como inimigos externos, que teriam saqueado e destruído a nação. De um modo ou de outro, o nacionalismo se constrói por oposição ao internacional.
No fascismo tropical, o alvo é nacional. Esse efeito é possível graças à produção de esquecimento – assim, o alvo pode ser aquilo que é nacional, mesmo sob justificativa nacionalista. O ódio aos afrodescendentes e aos índios, e a todas as políticas de reparação histórica e de inclusão social desses grupos na sociedade, é a mais estranha contradição de um fascismo tropical. E é vestindo a camisa da seleção nacional de futebol, que teve historicamente a maior parte de seus melhores jogadores pessoas negras, que os novos verde-amarelos exigem políticas de extermínio nas favelas, fim de cotas nas Universidades e em concursos públicos, etc. Também o nordestino pode ser odiado desse ponto de vista, como inimigo interno que desorganiza o país, bem como o pobre. Todos esses alvos acusados de imoralidade – pois o fascismo, lá como aqui, é antes de tudo um ato de conservação dos costumes do patriarcado.
Exatamente por isso, tanto em um caso como no outro, um alvo continua o mesmo: o corpo estranho. O desejo de morte aos corpos que fogem da norma reprodutiva heterossexual se traduz, hoje, sob gritos de “fim do kit gay nas escolas” ou na exigência de que os não-heterossexuais não se mostrem de tal forma em espaços públicos. De qualquer maneira, a pressão para que esses modos de vida permaneçam na esfera privada significa – mesmo antes dos espancamentos e das violências verbais, que ocorrem todos os dias – a morte social desses corpos.
Nacionalismo e entreguismo
É curiosa a posição dos fascistas tropicais: são nacionalistas e entreguistas ao mesmo tempo. Essa foi a postura social e econômica da Ditadura Militar, e parece continuar a ser o projeto do militar Jair Bolsonaro. A aceitação de sua candidatura, por parte de grandes contingentes da população, coincidiu, inclusive, com uma mudança de posição do candidato: de passado protecionista, Bolsonaro se move cada vez mais para o campo neoliberal. Nesse sentido, o fascismo tropical é bastante diferente de seu irmão europeu – lá, o protecionismo é a palavra de ordem. Aqui, o economista liberal, formado por Chicago, Paulo Guedes, é a arma do convencimento de fecundidade do projeto de Bolsonaro. Privatização e entrega das riquezas nacionais podem conviver em seu discurso porque o nacionalismo, no fundo, não é sequer a exaltação de tais ou quais aspectos nacionais. Nacionalismo no fascismo tropical é pura e simplesmente a defesa da família tradicional e a repressão da sexualidade.
Esse fenômeno ficou conhecido entre os historiadores como “modernização conservadora”. Modernização com a livre-circulação do capital e dos capitalistas internacionais, e conservação nos costumes. Se no nazi-fascismo a modernidade é imoral e destrói o passado glorioso das nações superiores, no fascismo tropical a modernização é o que pode fazer com que a nação concorra a um papel de destaque no arranjo internacional de disputa de riquezas. E como sempre cabe mais um ingrediente no prato brasileiro, soma-se a esses aspectos um reacionarismo no campo social, com a retirada progressiva de direitos. Ataques à legislação trabalhista são justificáveis em prol de uma “estabilização financeira” e “reequilíbrio das contas públicas”, delegando, no fundo, ao trabalhador, a tarefa de fechar as contas do cofre nacional.
O fenômeno não se desenvolve sem contradições, é claro. Um dos principais aliados de Bolsonaro, por exemplo, Alexandre Frota, é um dos defensores da moralidade e dos bons costumes, além de guardião discursivo da família tradicional brasileira, e parece não causar espanto o fato de que Frota tenha sido ator pornô e tenha contracenado tendo relações sexuais com diferentes moças e rapazes, performando hetero, bi e homossexualidade em seus filmes. Também não parece contradizer a família tradicional o fato de que Frota tenha feito apologia ao estupro em rede de televisão aberta. Nada disso impediu que o ator tivesse sido eleito deputado federal com 152 mil votos pelo partido de Bolsonaro, o PSL.
Antipartidarismo como guarda-chuva ideológico
O fascismo não se fundamenta sem um guarda-chuva ideológico. É preciso canalizar uma grande variedade de medos e inseguranças da população sob um mesmo signo para arregimentá-la em seu projeto. Largos contingentes de seres humanos, formados até mesmo pelos corpos ameaçados por essa ideologia, não são fascistas por natureza. São boas pessoas, incapazes de ferir o semelhante. É preciso um elemento que filtre as diferentes demandas sob um só signo odiento e que, nesse mesmo movimento, impulsione a violência em ondas cada vez mais fortes. Somente com essa canalização aquilo que Hannah Arendt chamou de banalização do mal é possível. Como o fascismo floresce em épocas de crise das relações sociais, esse filtro se liga a um elemento que possa a qualquer custo conservar essas relações. Em 1964, o filtro era o anticomunismo. Hoje, é o antipartidarismo, principalmente o antipetismo. Sob o argumento da corrupção, esconde-se um ódio às transformações sociais exigidas por pobres, negros, mulheres, LGBTQ+ e índios.
De outro modo, não se explica o apoio dado a Jair Bolsonaro e àqueles que coligam com ele. Sua história partidária está ligada aos mesmos escândalos que sustentam a retórica do PT como o partido mais corrupto de todos. Bolsonaro era deputado pelo PTB na mesma época em que o partido protagonizou o mensalão; foi deputado pelo PP na mesma época em que o partido teve o maior número de indiciados no petrolão; além de ter participado da base ampla do PT por muitos anos. Mas nada disso adiantará nos ouvidos tropicais desse fascismo à brasileira. Atacar a sustentação do filtro ideológico é gastar energia sem produzir efeitos; aqueles que se comprometem com o combate ao fascismo devem estar dispostos a refazer as perguntas fundamentais que movimentam o medo daqueles que coligam com este projeto. Apenas na reformulação dos problemas sociais que servem de fundamentação real ao fascismo, a esquerda conseguirá apontar uma direção mais adequada. Isto é: não é a questão partidária que está em jogo. No limite, a questão partidária é apenas o conteúdo manifesto de um conteúdo latente que precisa ser trazido novamente para os debates públicos. Já o combate aberto, deve ser reservado aos ideólogos do fascismo tropical, tais como toda a oligarquia Bolsonaro, Kim Katagury, Olavo de Carvalho, Rodrigo Gurgel, Alexandre Frota, e outros pseudo-pensadores semeadores dos campos da morte.

Rafael Zacca


Poeta e crítico literário. É doutorando em Filosofia pela PUC-RJ. Integra o Núcleo de Estudos da Cultura no Capitalismo Contemporâneo (UFF). Articula com outros poetas a Oficina Experimental de Poesia (OEP). Autor do livro de poemas Rafael Zacca | Coleção Kraft (2015). Vive no Rio de Janeiro (RJ).


Limongi: “Líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro”

Publicado em El País

Limongi: “Líderes responsáveis não têm o direito de se isentar diante da insanidade de Bolsonaro”

Doutor em Ciência Política se diz chocado com inércia de lideranças, como o ex-presidente Fernando Henrique, diante do risco que candidato representa. “Está em jogo a barbárie”

Fernando Limongi, doutor em Ciência Política

São Paulo 11 OUT 2018

Fernando Limongi, doutor em ciência política, não esconde a angústia com o resultado do primeiro turno das eleições do último domingo. Para ele, a vitória de Jair Bolsonaro joga o país no escuro e aqueles que o apoiam estão minimizando riscos extremamente perigosos que o candidato do PSL trará caso vença o segundo turno. Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições (NIPE/ CEBRAP), Limongi se mostrou chocado com a neutralidade assumida por grandes lideranças como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso neste segundo turno da eleição. Cardoso é um dos fundadores do CEBRAP, criado em 1969 por um grupo de professores afastados das universidades pela ditadura militar. “Isso é uma covardia inadmissível”, diz. Leia os principais pontos da conversa, em tópicos.

Salto no escuro com Governo obscurantista

Eu quero começar fazendo uma declaração quase que política, pensando como uma pessoa que é financiada para pensar. Eu sou pago pelo Estado brasileiro pra pensar e eu acho que eu tenho que fazer um pronunciamento público. Eu acho que a direita brasileira, o conservadorismo brasileiro – ou o que quer que seja, quem votou e apoiou Bolsonaro – está minimizando o risco que está correndo e está fazendo uma opção muito perigosa. A elite brasileira está dando um salto no escuro. Quer dizer, na verdade não está dando um salto no escuro, porque sabe o que está fazendo e está fazendo bobagem. Estamos aceitando a direita brasileira, o centro brasileiro está aceitando ser liderado por um cara que é um obscurantista, um retrógrado, um apologista da violência, um cara que apoia o golpe de Estado e tem saudade do regime militar.

Covardia inadmissível de Fernando Henrique

Essa direita brasileira, o centro incluído, criou um fantasma e foi gerando um temor desproporcional e descabido ao PT, como se nós estivéssemos de volta à Guerra Fria e o PT fosse uma ameaça comunista, totalitária, o que não é. Não há nenhum elemento, nenhuma informação objetiva que permita chegar a essa conclusão. O PT cometeu erros, cometeu erros sérios, mas eles são fichinhas se comparados ao que o Bolsonaro ameaça fazer e diz que vai fazer e cresceu fazendo. Uma parte do centro está se dizendo diante de uma escolha de Sofia e não está. Só tem um lado que não pode ser escolhido em hipótese alguma e as pessoas estão minimizando isso. Me deu arrepio ver que o Fernando Henrique Cardoso se declarou neutro, isso é uma irresponsabilidade, isso é uma covardia inadmissível. Eu fui presidente do CEBRAP, eu sou herdeiro do Fernando Henrique, eu salvei o CEBRAP de fechar. Eu estou até emocionado [a voz de Limongi fica embargada]. Não é possível que ele não se lembre do que ele sofreu, do que ele passou e que ele minimize isso. E pior! Ele declarou, inicialmente, que seria contra o Bolsonaro e que votaria no PT, agora ele que resolveu usar o Twitter, ele, covardemente, cede à pressão popular. Um intelectual não pode fazer isso, um intelectual tem compromisso. O Fernando Henrique não pode fazer isso.

“Cria cuervos”

Eu salvei o CEBRAP que ele [FH] criou, ia fechar. E eu assumi a presidência para salvar. Sacrifiquei parte da minha carreira acadêmica, fiquei quatro anos lá sem fazer nada, a não ser administrar cozinha de um lugar pra agora ouvir que isso aí [Bolsonaro] não é nada?! Esse cara não envolve risco? Não é possível que não se tenha parâmetro de comparação entre um cara que é apologista de um regime militar, o regime que perseguiu o senhor Fernando Henrique Cardoso, certo? O Fernando Henrique foi parar no pau-de-arara. Um cara que declara ter ódio ao Rubens Paiva, tem uma verdadeira fixação em falar mal do Rubens Paiva, do Vladimir Herzog, acha que aquilo foi um acidente de trabalho, [assassinato de ambos na ditadura], acha que aquilo estava certo. Alguém pode em sã consciência dizer que existe comparação entre o risco que o PT representa e o risco que o senhor Bolsonaro representa? Quem acha que vai tourear esse cara está sendo de uma ingenuidade absurda. Nós já vimos esse filme várias vezes, esse é o famoso Cria Cuervos. Nós estamos aceitando como se não fosse um risco um cara que é apologista da violência da ditadura militar, um cara que votou o impeachment da Dilma elogiando o [Brilhante] Ustra.

Em jogo, a barbárie

Ninguém que critique o Bolsonaro está defendendo a Dilma ou necessariamente dizendo que PT é santo. É esse maniqueísmo que o centro e a direita brasileira aceitaram jogar e estão agora sendo vítimas dele sem perceber ou o que? Isso é uma insanidade que está acontecendo nesse país. Nós ainda temos chance de corrigir, mas só vai corrigir se gente como o Fernando Henrique Cardoso vier a público e falar como um intelectual e pensar na sua responsabilidade política. É um risco inacreditável que nós estamos correndo, uma irresponsabilidade que essas pessoas que começaram a nutrir um terror ao PT, um horror ao PT, vieram agora a público deixar escapar. Isso não tem cabimento! Isso não tem um termo de comparação. Uma tristeza ouvir a declaração do Xico Graziano dizendo que agora ia apoiar o Bolsonaro. Xico Graziano não tem memória? Não lembra o que aconteceu com ele quando ele se colocou contra, nas redes sociais, ao Bolsonaro dizendo que as eleições de 2014 estavam sendo fraudadas? Quando ele saiu a público, corajosamente, para dizer que aquilo era uma besteira ele foi trucidado nas redes sociais por esse grupo de trogloditas que está por trás do Bolsonaro. Não tem meia palavra com esse cara, ele é um troglodita. Isso tem que ser dito, não tem como minimizar isso. Em nome do quê? De um temor que o PT volte a fazer uma política macroeconômica e expansionista? Tudo bem, o PT cometeu erros e tem uma dificuldade de fazer autocrítica. Mas e o senhor Bolsonaro fez alguma autocrítica? Ou, por que que nós devemos acreditar no senhor Bolsonaro paz e amor? O que está em jogo é a barbárie.

Ódio cego ao PT

As pessoas estão sendo vítimas do monstro que criaram, da imagem que criaram. […] Depois de ser derrotado pela quarta vez pelo PT, ali o centro e a direita perderam a razão, saíram para o tudo ou nada. Mas se eu falo isso as pessoas vão minimizar dizendo “Ah, o cara é petista!” Eu quero falar: “Vamos pensar o que nós temos que fazer?”. Não é possível sequer ficar neutro diante deste cenário. Não é uma Escolha de Sofia, só tem um lado, o resto é defesa pra gente sobreviver. E isso eu tô falando digamos assim dos “velhos”: [José] Serra, Aloísio [Nunes], Fernando Henrique Cardoso, Xico Graziano [que saiu do PSDB para apoiar Bolsonaro]. Gente que não pode esquecer do que passou. Não pode se esquecer de Rubens Paiva, não pode se esquecer do [Vladimir] Herzog. Isso não pode ser minimizado. Não pode! Não tem como! Esse gênio que está saindo da garrafa, você não põe de volta. Vamos fazer um experimento mental e imaginar que o Haddad declarasse que o seu ministro da Economia será Marcos Lisboa. Cada um tem o [Paulo] Guedes que merece, certo? Então, por que o Fernando Haddad não poderia declarar que o seu ministro da Economia vai ser o Marcos Lisboa? O Marcos Lisboa hoje, por um acaso, é o patrão do Fernando Haddad porque o Fernando Haddad trabalha no Insper, então, ele tá lá dentro. O Marcos Lisboa já trabalhou para o PT, foi parte da equipe do PT. Por que a informação de que o Guedes trabalharia para o Bolsonaro dá mais garantia do que uma possibilidade do PT vir para o centro e ser pragmático.

Perseguição e censura

Lógico [que haverá perseguição]! É disso que estamos falando, censura vem aí se esse cara ganhar! Ele não tem trato com tolerância. Óbvio, vai testar as nossas instituições. Mas as nossas instituições têm se provado muito pouco capazes de lidar com esse perfil.

Desconfiança com urnas, levantada por Bolsonaro

Ele disse que não são capazes de lidar com fake news. E o pessoal diz, “eu não voto mais no PT porque o PT mente”. Sim, e aí vocês votam num cara que é apologista da fake news. Um cara que disse hoje que não vai assinar nada contra a fake news, porque ele pratica fake news, porque ele surfa nisso e é dado a teorias conspiratórias. Ele declarou que existe uma internacional fundada pela Dilma —está lá na entrevista que ele deu para Jovem Pan—, que existe uma internacional da fraude eleitoral da América Latina cuja sede está em Quito, no Equador. O cara é louco, o cara é um desequilibrado. Ele acredita nessas histórias. Essa história da fraude eleitoral é uma das teorias da conspiração mais malucas, a la época da Guerra Fria. […] E o TSE e a Justiça brasileira foram brandos nisso, ao afastar qualquer hipótese de que isso teria acontecido lá no passado.

Entrevista do Bolsonaro à Record no dia do último debate

A lei eleitoral regula minuciosamente cada acesso à televisão. Isso não existe, tanto que quando há um debate há uma série de regulações: quem pode ser convidado, quem não pode ser convidado. Ninguém pode ser tratado diferente, ninguém pode ter mais tempo. Por que se abriu essa exceção para o Bolsonaro? Isso é inadmissível. Então, tem alguma coisa que está deixando as eleições se tornarem um vale tudo. Há uma sucessão de erros estratégicos. A gente sabe e qualquer estudo de ciências sociais, de interações sociais de pessoas agindo racionalmente com o horizonte limitado, quando você junta todas essas ações o resultado pode ser um resultado péssimo para todos. Está todo mundo agindo racionalmente, todo mundo defendendo seus interesses, lutando pelo seus interesses, mas na hora que interage o resultado é péssimo para todos. A maior parte dos eleitores não quer nenhum dos dois. Mas a elite política criou esse fantasma e o PT agiu equivocadamente, no meu ponto de vista, quanto a sua estratégia. O PT apostou em salvar o Lula, em se agarrar ao Lula e isso foi um erro. Tanto que o PT teve tantos votos quanto ele tem de preferência partidária. Ele ficou reduzido a sua base. Não se ganha eleição assim.

A razão não veio

Acho que ninguém, ninguém imaginou que viria essa violência que veio. Todo mundo achou que em algum momento a razão viria. E eventualmente o “se” não é possível. Você tem o contra factual. Você fala “se” isso tivesse acontecido talvez não tivesse ocorrido a facada, se o Bolsonaro não tivesse sido retirado da campanha, se ele não fosse calado de forma inadvertida, talvez nada disso tivesse ocorrido. O Bolsonaro ficou quieto e foi beneficiado. Receptador de todo esse ódio que se criou na sociedade brasileira pela sua própria elite.

Sem experiência

Eu falo: olha, você ganha mais do que 10 salários mínimos, você que optou pelo Bolsonaro, olha o vídeo desse pessoal quebrando a placa da Marielle, vê em quem você está votando. Quem você acha que está chamando? Está chamando a raposa pra tomar conta do galinheiro, quer dizer, e que garantias lhe dá o senhor Paulo Guedes? Esse cara não tem experiência pública nenhuma, é um desconhecido. Guedes vai nos fazer ter saudades de Guido [Mantega]. Guido vai ser um gênio comparado a Guedes. Não é porque passou por Chicago que você vira gênio. E não é só a esquerda que tem ideologia, a direita —e isso é o que é mais preocupante agora— está gerando uma ideologia perigosíssima. Uma ideologia de intransigências, de radicalismos, de negação de qualquer moderação.

Campanha no WhatsApp

Tem um subterrâneo acontecendo nas redes sociais que é a mesma coisa que aconteceu no Brexit, na Colômbia, nos Estados Unidos. Então, a gente está lutando com este demônio aqui, mas tem também o demônio do WhatsApp. Tem uma loucura rolando e tem uma nova tecnologia para se fazer campanha. Isso mudou. Eu estudo eleições e histórias das eleições há muito tempo e entendo como isso foi se transformando. Se você for olhar nos anos 40, quando o Brasil se redemocratiza, o principal recurso para se ganhar eleições era o caminhão, você precisava tirar eleitor do campo e transportar para cidade. Então, o recurso essencial pelo qual se brigava era o caminhão. Você tirava o caminhão do seu adversário, você ganhava as eleições. Daí chegou um momento que se começa a ter rádio, televisão e agora tem as redes sociais. Isso muda. Vai ter um momento em que essa novidade vai mais ou menos equiparar, os dois lados vão saber usar igual, mas por enquanto a direita está usando melhor, está sabendo usar, está pondo recurso nisso. Está havendo uma “Internacional de Direita”, como tem a “Internacional de Esquerda”. Tem uma tecnologia que está rolando, tem um know-how que está rolando, e esse pessoal se pôs a favor do Bolsonaro. E é um pessoal inconsequente. Nós temos uma direita inconsequente nascendo aqui e que está presente no mundo.

Extrema direita no Brasil

Sempre teve uma extrema direita no Brasil, tem uma parte dizendo que tem uma grande novidade, mas acho que a novidade é menor. Não pode esquecer que Paulo Maluf ganhou todas as eleições na cidade de São Paulo, depois da redemocratização, mesmo quando ele perdeu no Estado pra governador, ele ganhou na capital. Então sempre teve direita, não tem problema ter, é parte do jogo. Se o Bolsonaro ganhar não tem conversa, ele assume o poder e todo mundo aceita, o jogo é esse e o jogo só continua se você aceita brincar dentro das regras do jogo. A questão é se o Bolsonaro aceita jogar com as regras do jogo daqui pra frente.

Educação com Bolsonaro

Vamos pegar os economistas formados em Chicago, formados em Princeton, formados em Harvard que aceitam a ideia de que o grande problema do Brasil é a falta de investimento em capital humano, que o problema é a educação, que o brasileiro é pouco produtivo e que por isso estamos atrasados, por tanto toda e qualquer atenção no Brasil deve estar para a política pública. Essas pessoas têm medo do PT e da política macroeconômica do PT, mas não têm medo da política educacional que o senhor Bolsonaro vai aplicar. Porque ele quer colocar criança de volta pra casa, quer tirar criança de dentro da escola, porque isso faz parte do programa de governo dele [programa sugere a valorização da educação à distância]. Não pode dizer que não leu. O senhor Guedes não vai dar garantia para isso. Ele quer tirar criança da escola, porque ele não quer que as crianças sejam expostas a professores marxistas [programa de Bolsonaro destaca em vermelho ”um dos maiores males atuais é a doutrinação”]. E se as crianças voltam pra casa quem vai tomar conta de criança? Quem vai trabalhar? Olha o desarranjo econômico que esse cara pode gerar por uma insanidade ideológica. Todo mundo falou “ah, o PT é muito ideológico”. E o senhor Bolsonaro é um poço de razão e de ciência? Ele é um energúmeno ideológico. Ele vai acabar com a educação no Brasil. Ele vai mandar a gente de volta para a Idade Média. Esse cara é um obscurantista. Ele vê um comunista em cada agente estatal. Aí ele se junta com a direita mais radical, neoliberal, que acha que todo agente do Estado é um paternalista protegendo um looser.

Arrecadações e possível corrupção

Quem vai ser o novo PC Farias [tesoureiro do ex-presidente Collor de Mello]? [Gustavo] Bebiano [presidente do PSL] será o PC Farias 2, certo? Sempre tem que ter um cara que controla todos os contratos, centraliza toda rede de negociações com os interesses, que precisam ser atendidos porque eles vivem de fornecer coisas para o Estado, etc. Essa negociação rola, vai rolar. Então, quem que vai fazer isso? Ou vai ser um dos filhos do Bolsonaro ou vai ser o Bebiano ou vão ser todos eles, cada um em uma área. A corrupção que vai rolar vai ser inacreditável porque é um bando de amadores, uns caras que nunca mexeram com Educação, nunca mexeram com Saúde, nunca mexeram com Ciência e Tecnologia, não sabem o que rola lá. O que vai aparecer de gente para eles vendendo projetos. A hora que muda o governo tá todo mundo caçando onde encaixar o projeto que ele não conseguiu vender ao governo anterior para o novo governo. E obviamente atrás de cada um deles tem um interesse se organizando. Foi isso que o PC Farias fez, vai ser isso que o senhor Bebiano vai fazer ou qualquer um que assumirá esse papel. Tudo bem a Dilma e a política econômica do Guido Mantega e a nova matriz econômica é inadmissível, é um erro crasso, ninguém justifica. Foi uma política macroeconômica eleitoral para ganhar eleição, quebrou o Brasil, foi uma irresponsabilidade. O PT não fez uma autocrítica, um absurdo, jogou dinheiro pela janela, delirou, tudo errado. PSDB também não fez diferente, mas não vamos falar que fizeram igual. Agora o que se está fazendo é uma escolha sem igual entre Bolsonaro e PT.

Crise mundial da democracia

Se for pensar internacionalmente, nós temos uma crise na democracia. Está todo mundo aturdido, é Trump, é Brexit, é Hungria, é Polônia, movimentos aparecendo em tudo quanto é canto, um desequilíbrio muito grande. Acho que tem uma coisa que é geral que deu uma desbalanceada, que talvez tenha a ver com essa mudança de tecnologia, de fazer campanha e o ritmo das tecnologias e adaptação que precisa ter entre o modelo antigo de se conquistar voto e o modelo atual. Mudou e acho que está todo mundo meio baratinado. A forma como a opinião pública reage aos fatos, a velocidade agora é outra. O eleitor está muito mais volátil e uma parte do eleitorado está saindo da política totalmente. O turnout [comparecimento nas urnas] na Europa foi lá pra baixo, nos Estados Unidos foi lá para baixo, então, o centro moderado está saindo, os radicais ficam e a política ganha outra dimensão. Tem alguma loucura acontecendo. Nós não sabemos se isso vai se reequilibrar.

Salvação

O Bolsonaro foi candidato a presidente da Câmara dos Deputados há dois anos, sabe quantos votos ele teve? Quatro. Então, ele era um patinho feio e era desconsiderado, mesmo. Ele era um marginal que ninguém considerava como um player. O pessoal do mercado financeiro o adotou, muito provavelmente trouxe junto essas tecnologias de comunicação e ele foi feito. Uma parte do empresariado o elegeu como a salvação contra o PT.

Partido de Bolsonaro forte no Congresso

Ele ganhou um Congresso mais próximo para ele [elegeu 52 deputados, a segunda bancada da Câmara]. Mas boa parte desses caras não fizeram política, está chegando lá. Kim Kataguiri, que já acha que pode ser presidente do Congresso, é um cara sem senso. Ele tem lá um monte de gente que acha que vai resolver tudo no grito. Sabe-se lá, o [Alexandre] Frota… como vai se comportar? Uma incógnita. Em geral caras como esse desaparecem porque não sabem fazer política. E política é um saco.. Tem de se conversar o dia inteiro.

Política no WhatsApp X política real

No Congresso a política é outra coisa. Tem gente que quando vai lá se prova bom. Caso do Romário. Fez uma agenda legal. É um cara que se deu ao trabalho de aprender um novo business. Essa ideia de que político profissional é um mal… ainda bem que tem político profissional. Houve uma renovação grande, e criou-se um espaço vazio que ninguém sabem quem vai ocupar. E quem vai chegar à presidência do Senado? Da Câmara? Ninguém vai dar a presidência da Casa ao Kim Kataguiri [eleito deputado federal por São Paulo], aquilo é extremamente complexo. O que fez do Eduardo Cunha aquela pessoa imensamente poderosa? A capacidade de conhecer aquilo, como aquilo funciona. O cara era uma máquina. Sabe tudo, tinha controle sobre absolutamente tudo, com três celulares. Não é coisa para amador. Tem um voluntarismo bobo que tomou conta da juventude e empresários. De que tudo com boa vontade se resolve… as pessoas entram em conflito.

Maldição do impeachment

Foi um erro cavalar em todas as dimensões. Procurei alertar naquela época sobre com quem centro e a direita estava se aliando. Foram para Temer e Cunha. Eles só queriam salvar a própria pele. Pensou-se no dream team na economia e estaria tudo salvo. Você não faz a sociedade com o diabo e não paga um preço. Sociedade com o Bolsonaro você vai pagar um preço e é altíssimo. O preço com o PT é extremamente mais baixo. O PT tem uma reputação. Bolsonaro é um novato. É alguém que não se pode confiar. Quem acredita em racionalidade da informação, pega passado, balanço, futuro, como você pode pegar as informações dele, e dizer que é confiável? É um cara mentiroso, de maneira asquerosa e populista dizendo que adotou o mercado. Claramente para obter o poder. Daí criticam PT porque faz algumas coisas. [Bolsonaro] é um cara que começou a vida como terrorista durante a democracia. É esse cara que vão querer? Lideranças responsáveis não têm o direito de não se posicionar e deixar passar esta insanidade. O caso mais terrível é o nazismo. Pensava-se que [Hitler] era um tonto que a gente controla.

Eleitoras de Bolsonaro nas redes sociais: uma análise psicanalítica

Compartilho artigo de Rita Almeida que procura entender o que as possíveis eleitoras de Bolsonaro pensam e como justificam o próprio voto. Minhas observações indicam que, ao limitar o estudo às mulheres, a autora apresentou uma  fotografia um pouco menos assustadora do fenômeno do fascismo, pois é notório que os homens, que são maioria entre aqueles que fomentam violências e guerras, apresentam a face mais bárbara do nascente fascismo.

Na verdade, uma análise sobre assunto tão complexo, além de ser difícil, apresenta, necessariamente, uma indesejada limitação: o universo pesquisado. Analisar é, quase sempre, reduzir o objeto de estudo a um conjunto limitado de variáveis para permitir que foco do estudo seja concentrado no principal. De qualquer forma, esta é uma tentativa válida de se entender porque tantas pessoas aceitam abraçar o capeta e, em especial, o que move as mulheres em direção ao inferno que se avizinha.

Paulo Martins

,Por Rita Almeida

Um dos grandes feitos de Freud foi entender que aquilo que se manifesta na singularidade de cada sujeito, também pode ser lido no campo da cultura. É nesse sentido que o inconsciente para a psicanálise, não é algo que está nas profundezas da nossa intimidade, o inconsciente está na superfície, pairando sobre nós.

Assim sendo, para compreender nosso caldo social às vésperas da eleição, decidi procurar entender como os possíveis eleitores do Bolsonaro pensam e como justificam o próprio voto. Que propostas ou características do candidato os seduziram? O que esperam do mesmo, caso eleito? Essas foram minhas perguntas básicas e, para respondê-las, me dispus a conversar com alguns de seus potenciais eleitores e os “stalkeei” no Facebook tentando apreender suas ideias. Na verdade, eleitoras; escolhi apenas mulheres.

Desse modo, analisados por minha lupa, as possíveis eleitoras de Bolsonaro que “escutei” são movidas, principalmente, por duas vertentes do discurso do candidato: Aquela relacionada à segurança pública: facilitação do porte de arma, redução da maioridade penal e maior rigidez com criminosos. E a que possui apelo moral: dizer não a “ideologia de gênero” (eles realmente acreditam no tal “kit gay”), ou a quaisquer outros modos de exposição da sociedade a temas relacionados à sexualidade.

Ora, podemos extrair desses temas, nada mais do que as duas questões que mais tememos, exatamente pela dificuldade de simbolizá-las, de explicá-las: a morte e o sexo. Morte e sexo são nossos maiores medos, diante deles somos todos desamparados; a psicanálise assim nos ensina. Desse modo, a motivação que leva essas eleitoras em direção à Bolsonaro é, basicamente, medo. Elas se sentem inseguras, desorientadas, fragilizadas e buscam alguém que vá socorrê-las. E, psicologicamente falando, numa sociedade patriarcal como a nossa, qual é primeiro recurso usado para lidar com o medo e a insegurança? O pai.

Freud dizia que a nostalgia do pai é como uma espécie de cicatriz resultante da fundação da cultura. Em algum momento mítico, foi necessário “matar o pai” para fundar uma sociedade de irmãos. No entanto, a cicatriz que ficou deste assassinato, sempre nos faz, inconscientemente, mergulhar na nostalgia de um pai que cuide de nós e nos proteja. E em última instância, que nos proteja do sexo e da morte. E vale destacar que, quanto mais adoecida e fragilizada uma sociedade está, mais esta busca por um pai se torna iminente. Diante do desamparo: o pai – nosso recurso mais simples e mais infantil.

Mas, obviamente, que no caso da sociedade brasileira atual, este pai poderia ser evocado de muitos modos. Lula, não por acaso, chamado de “pai dos pobres”, também encarna ou encarnou este pai, tal como Bolsonaro hoje o encarna, para uma determinada parte da população. No entanto, existe uma diferença abissal entre o pai que Lula encarna e o pai que Bolsonaro encarna, vejamos:

Lula é um pai castrado (tem um dedo amputado, nordestino, de origem humilde), desconstruído, emotivo, um pai que faz a política do dialogo e da negociação. Lula apesar de ser um pai popular, é de longe um pai totalitário ou autoritário, ao contrário. Maquiavel dizia que um líder precisa ser amado ou temido. E se não conseguir ser amado, que seja temido. Lula soube ser amado e isso faz dele, obviamente, um pai mais saudável. Lula é um pai menos macho, mais feminino. Lula é devir-mulher, para usar o termo Deleuzeano.

Bolsonaro, por sua vez, é um pai macho, autoritário, tradicional, que fala o que quer sem medo de ser odiado. Tem fetiche por armas e abomina qualquer atitude ou comportamento feminino. Não por acaso considera a mulher “uma fraquejada” e os homossexuais um erro ser corrigido. Ao contrário de Lula, Bolsonaro precisa exercer sua autoridade pelo medo, para isso, é capaz de ser agressivo com as mulheres e com seus filhos. Reprimir a sexualidade deles, obviamente, também é uma estratégia de poder. Para exercer poder sem amor é preciso incitar medo e controlar o corpo.

Faz algum tempo que nós perdemos o pai que amamos… Perdemos, num primeiro momento, com o fim do seu mandato, e perdemos, num segundo momento, com sua desconstrução simbólica até a prisão, que não conseguiu ser resgatada para disputar as eleições. Além disso, o fracasso político do segundo governo Dilma – contestado logo no dia seguinte do resultado das urnas – seguido do golpe parlamentar, jogou o Brasil num descrédito total em suas instituições, e a uma insegurança política que a sociedade sentiu, obviamente. “Bagunça”, “caos”, “libertinagem”, “confusão”, foram os substantivos mais usados pelas mulheres que justificaram comigo, o voto em Bolsonaro.

E foi assim que nossa política, sustentada nessa versão infantil da necessidade de um pai, e mergulhada no caos político, migrou de um pai amado, para um pai temido, de um pai castrado para um pai castrador. E no consultório de psicanálise, testemunhamos isso a todo tempo com nossos pacientes e suas queixas infantis: melhor um pai a quem eu preciso temer, do que pai nenhum.

Todavia, é obvio que sair da infância e da neurose coletiva é aprender a prescindir do pai para seguir adiante. Talvez Bolsonaro seja o último suspiro, a última tentativa de resgatar o pai forte e castrador da sociedade patriarcal. Na iminência da decadência do patriarcado, Bolsonaro é um último espasmo desesperado para resgatar o homem/chefe/ castrador, que mesmo que à custa da saúde mental e da integridade física de mulheres e filhos, promete botar “a casa em ordem”. Bolsonaro é quase uma caricatura de homem, parece ter chegado do passado em uma máquina do tempo.

Pensando assim, não é por acaso que a força das mulheres tem sido e será fundamental no enfrentamento a Bolsonaro, sobretudo, a todo retrocesso que ele representa. São as mulheres e os gays com sua castração à mostra que Bolsonaro teme, e com razão. Nós mostramos aquilo que ele não suporta deixar aparecer, daí sua postura sempre arrogante e agressiva, ou usando a autoridade de Deus como se o tivesse a tiracolo. É por isso que, mesmo rasgado e cortado no real do seu corpo, ainda no hospital, ele mostra os dedos em riste, a dizer que a castração não se deu, que ele continua fálico, poderoso e forte.

Talvez o feminismo nunca tenha sido tão urgente por aqui. Não o feminismo de regras e protocolos de comportamento, mas o feminismo de verdade, que é aquele que diz: “somos todos castrados” – homens e mulheres – portanto, ninguém será adorado ou respeitado simplesmente por erigir um falo, ainda que ele venha travestido de prepotência, promessa de leis mais rígidas ou porte de arma. Afinal, ninguém mais do que as mulheres e os gays sabem o que homems como Bolsonaro podem fazer tendo o poder nas mãos. Não pode haver medo suficiente que nos leve a sustentar um sujeito desses liderando nosso país. E quem sabe nosso voto, dessa vez, amadureça e avance para a escolha de alguém que nos represente, e não de alguém que cuide de nós?

#EleNão
#EleNunca

Que foi, ministro? Não se lembra de nossa colaboração no passado?

Trata-se de um post de resposta a uma eleitora de Bolsonaro. Por educação, coloquei prezada em lugar do nome. Além disso, não se trata de fulanizar. Trata-se, na verdade, de um conjunto de preocupações que ultrapassam o período eleitoral.

Leia meu texto com atenção, prezada. Estamos falando de dignidade e amor próprio feminino e, se você ler nas entrelinhas, estou falando também de dignidade e verniz civilizatório, comum a todos os seres humanos. Perdido o verniz, voltamos para as cavernas e mataremos uns aos outros para comer carne fresca. Todos armados facilita muito esse caminho direto rumo a barbárie.

O texto pretende falar fundo na alma de pessoas sensíveis, preocupadas com os parceiros de jornada pela vida.

Nascemos em sociedade, nos unimos para sobreviver pois juntos fica mais fácil pular os obstáculos que a vida nos apresenta. Dar uma arma para cada um, ameaçar de morte pessoas por sua opções sexuais, menosprezar mulheres, medir pessoas em arrobas são, todos, movimentos em direção à barbárie, prezada.

Sabemos como se entra nessa escuridão e não sabemos como sair. Não temos cultura política para resistir a um flagelo desses. Nossa democracia é frágil. Um passo para o lado caímos no abismo. Nessas horas é necessário equilíbrio e bom senso. Raiva, ódio, ameaças e força bruta não solucionarão os problemas do país.

A plataforma econômica do economista de Bolsonaro será um desastre para as pessoas de baixa renda, a ciência e tecnologia do país, tão precária, vai regredir, as universidades públicas, que formaram todos aqui de casa, vão ser destruídas. Eu desejo uma universidade pública aberta para todos e não um privilégio acessível somente aos daqui de casa.

Prezada, o tal capitão nunca administrou nem um botequim. Na profissão original, militar, ele foi um fracasso. Todos militares com alguma inteligência chegam a coronel, ele não passou de capitão e foi reformado porque o exército desistiu dele.

Na Câmara, está no sétimo mandato e nunca se destacou em nada, só em causar confusão e dar declarações estafúrdias. Passou por 9 partidos e nunca denunciou nada de nenhum deles, cujos recursos ele utilizava para se reeleger período após período. Fez pouquíssimas leis, que não trouxeram nenhum benefício para a sociedade. Custou muito, muito caro para a sociedade como político inoperante e não entregou nada. Gastamos dinheiro público com um parasita, sem moral, portanto, para falar mal dos outros parasitas. Não entendo seu encantamento, prezada. Gostaria de te ouvir para tentar entender. Mas fale somente das “qualidades” do seu candidato.

Atualização: ela, a prezada, não respondeu. Como eles/elas fazem sempre que são confrontados. Ou ofendem ou fogem do debate franco.

O enterro do ciclo neoliberal, o coveiro é Trump, por André Araújo

Andre Araujo
O enterro do ciclo neoliberal, o coveiro é Trump, por André Araújo
ENVIADO POR ANDRE ARAUJO SEX, 05/10/2018 – 13:21
ATUALIZADO EM 05/10/2018 – 13:21
O enterro do ciclo neoliberal, o coveiro é Trump, por André Araújo

A ideia de que o mercado deixado livre resolve todos os problemas econômicos tem longas raízes, mas sua versão moderna foi posta a circular pelo cientista politico austríaco Friedrich von Hayek com seu livrinho “O Caminho da Servidão”. Hayek também criou a Societé du Mont Pelerin, um clube de empresários, banqueiros e acadêmicos como Ludwig von Mises e Milton Friedman, a partir de uma reunião na Suíça em 1944, formalizando a entidade em 1947.

A nova linha é uma versão moderna da crença histórica de Adam Smith e seu enraizamento anterior ao mundo moderno é imprestável para a complexidade da economia e da sociedade que decorreu das grandes invenções do Século XIX que mudaram por completo o mundo, revirado do avesso pelas revolução, pelas guerras mundiais, pela implosão dos impérios após o Tratado de Versalhes e pelo advento de leis sociais e trabalhistas.
O “mercado resolve” de Hayek é mera crença de seita, não tem qualquer base cientifica, vale tanto como “o sangue de Jesus cura” dos pastores improvisados de novos cultos.

Sua legitimação para nosso dias veio de uma personalidade intrinsicamente má, nada generosa, egoísta até o último fiapo de cabelo, Margaret Thatcher, cuja desconstrução psicológica pela Deputada ao Parlamento Britânico Glenda Jackson, consagrada atriz de cinema e teatro, mostra uma Thatcher como espirito mesquinho, uma alma penada que deu inicio a uma era de trevas, de ode à ganancia, de abandono do pobre, que gerou o voto no BREXIT por aqueles que não se beneficiaram da globalização e dos ganhos do mercado financeiro.

O neoliberalismo moderno parte de uma FÉ, uma crença sectária, de que o mercado deixado solto resolve a maioria dos problemas econômicos. Trata-se de mera CRENÇA, não tem nada de cientifico e a História, mestre severa, se encarregou de desmistificar essa fé cega.

O MERCADO DEFENDE OS SEUS E SÓ ELES. O mercado não tem e nunca teve a capacidade de tornar a economia eficiente para todos os cidadãos, só para alguns deles. O mercado é a solução para os capitalistas mas não tem qualquer solução para os pobres e carentes, que são a maioria esmagadora das sociedades, inclusive dos países ricos onde moram milhões de pobres, miseráveis e incapacitados em cada vez pior situação.

O CICLO NEOLIBERAL

A partir das ideias de Hayek, um personagem intelectualmente medíocre que fez seu nome a partir dos escombros da Segunda Guerra, o EGOISMO do mercado foi erigido em Deus “ex-machina”. Isso sempre foi uma ficção não abonada pela História. A civilização se estruturou desde os primórdios da vida organizada do homem pelo ESTADO ou pela RELIGIÃO, mercado é um espaço, uma invenção, posterior ao Estado e permitido por este, o mercado não foi um ente superior ao Estado, mas mera graça que o Estado concede em certos períodos. Hhá civilizações sem mercado, mas nenhuma sem Estado sob infinitas formas. O mercado é uma organização medíocre e descartável, não é divino ou sábio nem tem o poder de organizar uma sociedade em bases civilizadas. O mercado é um condomínio de funções onde os agentes não se unem por um interesse maior, eles apenas se encontram para comerciar, nada os une, ao contrário, os interesses podem ser muito conflitantes. Só o Estado pode arbitrar porque está acima de uma mera praça de negócios. Como então dar poder à praça sobre o Estado?

O “mito” de que o mercado resolve os problemas econômicos e se auto regula IMPLODIU na História, o mercado entrou em parafuso e foi salvo pelo Estado com um simples gesto, o mercado implodiu completamente em fins de ciclos porque sempre foi um ator MUITO MENOR do que Hayek e Thatcher venderam, sua capacidade de resolver grandes problemas sociais é nula. A maior das sociedades de mercado, a americana, é grandiosa pelo fortíssimo Estado que a escora e nunca pelo mercado imperfeito dos fundos “hedge” de vigaristas de Wall Street, sucessores dos “robber barons” do Século XIX. Essa gente só se importa com seu lucro e nunca com o conjunto da economia e muito menos com a população.

Ms.Thatcher tinha como marca registrada a maldade do egoísmo, nunca foi uma criatura generosa e sua adoção e defesa do neoliberalismo teve tudo a ver com sua personalidade intrinsicamente egoísta, de má pessoa, que nunca foi solidária com os carentes de seu próprio Pais. Felizmente a revisão do ciclo “Thatcher” já se encarregou de colocar esses tempos terríveis em perspectiva histórica. Thatcher foi um horror, ela e a muleta Reagan por ela escorado plantaram a crise da desregulamentação financeira que gerou o “crash” de 2008.

Enquanto um Roosevelt sacrificou sua saúde em beneficio da humanidade, era uma alma generosa a despeito de erros cometidos, Mrs. Thatcher nunca foi vista como nada além de puro egoísmo, uma alma ruim, negativa, impiedosa. Desse espirito nasceu o ciclo neoliberal que desde então produziu maus resultados para os pobres do mundo, a começar de seu próprio País, o Reino Unido, dai propagando o “neoliberalismo” para o mundo, especialmente para países de sociedades frágeis, como os da América Latina e África. Mas não convenceu sociedades milenares fortes, como as da Ásia, mais sábias e experientes, estas aproveitaram a globalização, MAS não se deixaram dominar pelos mercados ocidentais, os mecanismos de defesa da economia japonesa, chinesa e dos tigres asiáticos são sólidos e lá não entram, por exemplo, bancos ocidentais, eles protegem seu mercado e invadem os outros.

A HISTORIA É CAÓTICA

Há uma crença nos acadêmicos de História dos Estados Unidos de que o mundo sempre evolui.

É falso. A História é um caos, cheia de avanços e recuos, não há racionalidade mecânica.

Quando o carrasco levou Luís XVI à guilhotina quem poderia pensar que o irmão do desgraçado Rei seria coroado menos de vinte anos depois, como monarca restaurado?

Quando Napoleão Bonaparte foi encarcerado para sempre na ilha de Santa Elena quem pesou ou poderia pensar que seu sobrinho seria coroado Imperador da França décadas depois?

Quando Getúlio foi deposto em dezembro 1945 porque os regimes fascistas caíram na Europa e Vargas era visto como parte desse clube, quem poderia pensar que o mesmo homem voltaria eleito cinco anos depois?

Quando Peron foi deposto e exilado em 1953, quem na Argentina ou no mundo poderia supor que esse caudilho voltaria ao poder 20 anos depois?

A História é um jogo caótico de idas e voltas, atalhos laterais, quedas abruptas, nada é muito racional ou de fácil explicação, só espíritos fracos podem acreditar em autos de fé.

A ideia de que o “mercado é mais eficiente” não responde à segunda pergunta, MAIS EFICIENTE PARA QUEM?

O mercado em todo o mundo, inclusive nos países ricos, mostrou ser mais eficiente PARA OS SEUS PARTICIPANTES e não para toda a população.

A ideia de que o mercado deixado livre é melhor para todos é uma crença ideológica.

O mercado é eficiente para alguns de seus participantes, MAS DEFINITIVAMENTE NÃO É EFICIENTE para toda a população.

O CICLO NEOLIBERAL E A CONCENTRAÇÃO DE RIQUEZA

A partir da desmontagem dos Estados de bem estar social nasceu o projeto da União Europeia, da globalização financeira e comercial irrestrita, da abertura das economias industriais, da lógica das “cadeias produtivas” e qual o resultado?

O número de bilionários no mundo aumentou 40 vezes de 1980 a 2015, as plataformas industriais nos grandes países foram em grande parte desmontadas e foram para países asiáticos, o desemprego e especialmente o subemprego aumentou brutalmente por todo mundo industrializado, nos EUA 20 milhões de famílias vivem em “trailers”, perderam as casas hipotecadas a bancos que foram retomadas e também não se vendem, há cemitérios de casas fechadas nos EUA, com isso aumentaram exponencialmente as doenças mentais, o consumo de drogas, loucos atirando em escolas, conflitos sociais rebrotaram.

Ao mesmo tempo fusões de empresas, muitas delas absurdas sob o ponto de vista do interesse público, continuaram a pleno vapor, com a logica de corte de custos e despedidas em massa de funcionários, em todas essas transações a única logica é criação de valor para acionistas, todos os demais atores perdem, os Estados, os empregados, os consumidores.

A NECESSIDADE DO ESTADO

O Estado é o ente que protege a imensa maioria da população que não é participante do mercado. A alegação de que o mercado sendo eficiente beneficia a todos é apenas uma ideologia, não há ciência alguma por trás do mantra, como comprovou a crise de 2008.

Nenhuma evidência empírica comprova essa crença. O mercado eficiente é eficiente para os donos de capital e só para eles, não beneficia sequer os seus empregados, prejudica imensamente a sociedade, o Estado e as finanças publicas.

O MITO DE FRIEDMAN

Propagandista da “eficiência dos mercados” foi o economista Milton Friedman. Mostrei em meu livro MOEDA E PROSPERIDADE, de 2005, portanto anterior à crise de 2008, como foi propagado o “monetarismo”, uma derivação das teses de Hayek. O CITIBANK bancou a maioria das palestras e a revista de Friedman, ajudou Friedman a construir o mito do “monetarismo”, imensamente benéfico aos bancos e péssimo para a sociedade. Desse mito nasceram teorias aberrantes como o das “metas de inflação”, teses, mitos e modelos destinados aos ganhos do mercado financeiro contra os interesse da população como um todo.

O fim do ciclo neoliberal teve seu desfecho por dois acontecimentos simultâneos, a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos EUA. Ambos eventos sinalizadores do fracasso da globalização financeira e comercial para a imensa maioria da população dos dois países símbolos do capitalismo moderno e também os dois países onde nasceu o ciclo neoliberal dos anos 70. É, portanto, uma extraordinária ironia da História que esses dois sistemas econômicos, ao mesmo tempo, deram as costas ao modelo neoliberal que eles próprios criaram e, pelas mesmas razões, o ciclo prejudicou o grosso de suas populações.

Países imitadores como o Brasil, cujas elites mimetizam o que as elites das metrópoles pensam e fazem, não refizeram suas apostilas. Os conceitos neoliberais fracassados aqui continuam a ser os únicos nas cartilhas dos “economistas de mercado”, afinal eles fizeram seus cursos nos EUA e Inglaterra em pleno apogeu do neoliberalismo acadêmico e como são medíocres não conseguem reciclar a cartilha no meio da vida. Continuam a usar as apostilas já descartadas de Chicago, porque só conhecem essas e seu famoso “tripé macroeconômico”, não tem outra lição de casa, é só essa. Enquanto isso nos EUA o debate sobre ideias econômicas é intenso, com novos centros de pensamento em plena ebulição, como o Instituto para o Novo Pensamento Econômico de Nova York, escorado em três Prêmios Nobel de Economia, as lições da crise de 2008 aprendidas e refletidas, o jogo mudou.

O PAPEL DO MERCADO

O livre mercado de bens e serviços é um fantástico mecanismo de formação de preços e estimulo à capacidade empreendedora. Mas ele não é o exclusivo mecanismo de realização das aspirações humanas e de sua vivência civilizatória, há outros espaços que não são mercado por sua essência e mesmo por sua funcionalidade e eficiência, são espaços com outra lógica.

Há o espaço das causas públicas, da cultura e das artes, o espaço da pesquisa que pode beneficiar toda a sociedade e seus protagonistas no mais das vezes tem apenas a satisfação de ter auxiliado seu semelhante, há o espaço das organizações não governamentais e sem fins lucrativos de enorme importância em alguns países, especialmente naqueles lideres de “mercados” como Reino Unido e EUA, onde a maior parte dos museus, institutos de pesquisas, orquestras filarmônicas, companhias de ballet, entidades de amparo a drogados, velhos, meio ambiente, de incontáveis causas sociais não seguem o modelo de “mercado” ansioso por lucro a curto prazo, são outros modelos de vivencia e colaboração humana, fora do “mercado”.

Esta, portanto, não pode ser a base de toda a politica econômica, não pode ser o referencial de uma eleição presidencial, pretender colocar o Estado como dependente do mercado é um absurdo conceitual, o mercado é que depende do Estado e não vice-versa.

O erro é querer transformar tudo em mercado sob a alegação de que este é sempre eficiente.

A monumental crise financeira de 2008 com epicentro em Wall Street, mas que reverberou por todo o mundo, decorreu de um absurdo erro de concepção de instrumentos financeiros somada à ganancia incontrolável de executivos de bancos em busca de bônus.

A crise levaria a quebra do maior banco, da maior seguradora e da maior empresa industrial americana, todas juntas e arrastando centenas de outras se não fosse o socorro do Tesouro dos EUA com um cheque de 780 bilhões de dólares e rápidas medidas de resgate.

O MERCADO FALHOU, onde está a autocritica dos neoliberais? Nada, eles se fingem de mortos, esquecem que iriam implodir se não fosse o Estado salvador, NESSA HORA ELES NÃO PREGAM O ESTADO MINIMO, este deve ser mínimo para os pobres mas deve ser SALVADOR PARA OS BANCOS e demais participantes do mercado, de pires na mão à porta do Tesouro.

QUANDO O MERCADO ERRA

A lendária eficiência dos mercados é isso mesmo, é só lenda. As grandes crises econômicas da Era Contemporânea, foram NOVE até a de 2008, ainda não resolvida, foram causadas pelo próprio mecanismo do mercado e não fora dele e as últimos quatro crises, a de 1929, a dos dois choques do petróleo e a financeira de 2008, foram resgatadas pelo Estado.

O mercado comete erros que prejudicam não só seus agentes e participantes, prejudicam toda a sociedade. O enorme vazamento de petróleo no golfo do México, na primeira década deste século, deu perdas por vários anos aos Estados costeiros e de 25 bilhões de dólares aos acionistas da British Petroleum. A implosão da barragem de contenção da mineradora SAMARCO, join ventures das duas maiores mineradoras do mundo, Vale e Billiton, ocorreu por uma estratégia de redução de custos até o limite, típica das grandes corporações, porque os bônus dos executivos dependem do lucro no trimestre, não interessa o longo prazo, interessa o balancete trimestral e ai cortam-se custos de manutenção que ninguém vê, chega-se ao limite do risco para aumentar o lucro. O erro do mercado custou caro à sociedade, às populações locais e aos próprios acionistas, a logica do mercado perfeito não funcionou.

Na escala micro o mercado erra muito, fundos nacionais e estrangeiros, os três maiores bancos privados operando no Brasil investiram bilhões de Reais nos projetos fantasmagóricos de um especulador, Eike Batista, que não tinha histórico de ter antes operado alguma coisa concreta, ele sabia montar projetos e vender seu futuro róseo, era o que ele sabia fazer.

O “mercado” tão eficiente, com analistas formados nas melhores universidades americanas, entraram nessa aventura que provavelmente não convenceria um vendedor de pastel na praia, tal a falta de histórico, de consistência, de realidade nesses projetos.

Tampouco o Estado sempre é ineficiente, mas mesmo com suas ineficiências, o Brasil moderno é uma construção basicamente do Estado, todo o imenso parque hidroelétrico, o gigantesco complexo petróleo, gás e petroquímico, os sistemas de abastecimento de agua, os metrôs de seis cidades, pontes e rodovias, um enorme parque siderúrgico, foram criações do Estado brasileiro.

Os dois mais modernos empreendimentos dos últimos 50 anos no Brasil, a EMBRAER e o PRE-SAL iniciativas do Estado brasileiro e não dos “mercados”.

Sem essas realizações o Brasil teria hoje a escala de uma grande Guatemala, um pais agrícola exportador e nada mais, foi o Estado que industrializou o Brasil e criou sua infra estrutura básica, então a pintura neoliberal não pode ser levada a sério, embora encontre milhares de propagandistas na mídia e entre os “economistas de mercado”.

UMA VISÃO DE PAÍS

Uma visão de pais escorada no que pensa o mercado financeiro é o que vemos hoje nas candidaturas presidenciais, é uma plataforma ridícula pela sua pequenes, os nossos colegas do BRICs tem uma visão de Pais de longo prazo, de projeção geopolítica e do interesse das gerações futuras que transcendem essas categorias micro de bolsa e cambio a que no Brasil se dá uma importância que não tem igual em nenhum outro grande País do mundo, é o rabo abanando o cachorro, a parte movendo o todo, o Brasil é grande demais para isso.

Banalização do mal

Resposta a um comentário machista de um jovem de classe méda, com boa formação profissional, e sua banalização.

As mulheres, principalmente elas, menosprezadas pelo capitão, deveriam ser as primeiras a observar a onda conservadora que vem tomando conta do imaginário social no Brasil.

O movimento das mulheres norte-americanas pelo direito ao voto começou em 1840 e só alcançou resultado oitenta anos depois, em 1920, com uma emenda à Constituição daquele país. Em meu blog dialogosessenciais.com há um relato cronológico dos avanços e retrocessos nessa luta. Em alguns períodos, as próprias mulheres situadas nas mais altas camadas da sociedade americana, conservadoras, militaram contra o movimento de emancipação das mulheres.

Antes de conseguir o direito ao voto, passo ainda pequeno, as mulheres tiveram que conseguir acesso ao direito de contratar, pagar e receber. Bolsonaro, ou o caldo de cultura do qual ele é o mais proeminente representante, confundindo ser homem com machismo, já fez comentários que desqualificam as mulheres e, em especial, contra as mulheres com jornada dupla: mães e profissionais.

Se os demais políticos citados são machistas em algum grau, e não duvido que sejam, somente Bolsonaro faz desse machismo uma bandeira e motivo de orgulho. Basta verificar o papel relevante de Alexandre Frota na campanha do capitão reformado e visitar as redes sociais de muitos dos seus seguidores. Por outro lado, tenho quase certeza que Ciro e Haddad, para citar os outros dois políticos ainda com chances na campanha presidencial, se acusados de serem machistas, sentir-se-iam constrangidos e não orgulhosos.

O ambiente sociológico brasileiro atual aponta para um conservadorismo latente que, pouco a pouco, encorajado pelos arautos do retrocesso, pretendem colocar as mulheres de volta em um cercadinho.

Um amigo meu de longa data disponibilizou hoje, em sua linha de tempo na internet, a cópia de uma página de um passaporte feminino de 1952. Nele estava carimbado pela Polícia Federal que o marido dela autorizava sua viagem ao exterior e, pasme, seu retorno ao Brasil.

Comparar uma mulher a uma vaca é, no mínimo, degradante. E tem muito a ver, sim, com os tempos de retrocesso e barbárie que ensaia retorno ao país, que nem civilizado chegou a ser.

Bolsonaro comparou, há pouco tempo, um ser humano a um animal – pesado em arrobas, conforme suas (dele) palavras. Se ele pode, se seus seguidores podem, se o politicamente civilizado saiu de moda, o espaço para retrocesso e perseguição aos grupos que lutam por identidade e reconhecimento – negros, pobres, homossexuais, gordos, deficientes, comunistas, perdedores do jogo econômico, vagabundos, pacifistas, defensores dos direitos humanos – fica perigosamente aberto.

Então, é necessário, sim, apontar estes deslizes de quem menos se espera – de jovens educados, com boa formação acadêmica, que eu suponho ser o caso do rapaz que fez o lamentável comentário. Se o machismo se banaliza nos estratos médios e altos da sociedade com nossa condescendência, imaginem o estrago que esses exemplos poderão fazer nas pessoas situadas na base da pirâmide social, sequestradas pelas religiões neopentecostais. Imaginem o efeito dessa nova onda conservadora contra as mulheres que não sejam belas, recatadas e do lar, nem evangélicas ou tementes a Deus. Paz e amor.