EXISTE DE FATO INCHAÇO NO FUNCIONALISMO BRASILEIRO? Por Mauro Osório

EXISTE DE FATO INCHAÇO NO FUNCIONALISMO BRASILEIRO?

O Ipea divulgou trabalho sobre o funcionalismo público no país. Hoje, o jornal O Globo divulgou o trabalho, dando destaque que o número de servidores aumentou 82% em 20 anos (entre 1995 e 2016), contra um crescimento de 30% da população. A Miriam Leitão apontou, no Bom Dia Rio de hoje, que teria ocorrido um inchaço da máquina pública.

Como assim se nos governos estaduais e federal o crescimento de funcionários públicos aumentou apenas 28%? Ou seja, cresceu menos do que o total da população.

Crescimento mais significativo, nesse período, ocorreu entre os funcionários públicos ativos na esfera municipal, de 175%. A maior parte da ampliação, no funcionalismo estadual e municipal, ocorreu nas áreas essenciais de Educação, Saúde e Segurança.

Devemos lembrar que a Constituição Cidadã de 1988 ampliou muito a determinação de funções em políticas sociais, que na maioria dos casos são executadas pelas prefeituras.

Além disso, os resultados dessas medidas, ao contrário do que alguns pensam, são ótimos. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – IDHM mostra que, em 1991, não havia nenhum município no país com IDHM classificado como “alto”. Já em 2010 passaram a existir 1.889 municípios com essa classificação. Com IDHM “muito baixo” existiam, em 1991, 4.777 municípios. Em 2010, eram 32.

É necessário aprofundar este debate, sem preconceitos de qualquer tipo.

Hay gobierno? Soy contra: não adianta torcer pelo Íbis(*)

Este é um discurso de ódio? Muito pelo contrário. É um discurso em favor da lucidez, da discussão civilizada, de respeito a quem pensa diferente. Trata-se de saudável contraponto aos que se acham donos de uma tal “verdade” única, de inspiração divina, de um Deus medieval.

Primeiro, eles precisam entender que há quem não creia em Deus e, menos ainda, em um Deus tão perverso, vingativo e incoerente como o tal Deus que surge de suas falas evangelizadoras e exortações.

Em segundo lugar, se ampliarem seu horizonte de observação, vão descobrir que existe no mundo uma grande quantidade de Deuses e religiões e não só esta que pratica extorsão e sequestra cérebros e que eles pretendem enfiar no mundo político, no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, nas escolas, no dia-a-dia de todos.

Em terceiro lugar, porque é consenso no mundo dito civilizado que a separação entre Estado e religião é fundamental para evitar guerras religiosas e civis, tão comuns no passado.

Um amigo argumentou que eu devia torcer para o governo do inominável dar certo. Perguntei o que seria, na opinião dele, “dar certo”. Ele parou, pensou no assunto – parecia ser a primeira vez – e respondeu, inseguro e genérico: “crescimento econômico e emprego”.

Então eu perguntei: onde a classificação do aborto como crime hediondo tem a ver com a economia? A bolsa estupro, por exemplo, não resiste a nenhuma análise mais séria. Por que é necessário cercear o estudo de História, Sociologia e Filosofia? Por que censurar as escolas e universidades? Por que este ódio ao civilizadamente correto e aos livros?

A resposta dele não foi inesperada: eu já votei no Lula, mas agora estou decepcionado com o PT. Quero mudança.

Obviamente, ele receberia uma resposta que falaria em Collor, FHC, Aécio, Hittler, Mussolini e Duke. Mas foi melhor parar naquele ponto. Meu interlocutor ia começar um discurso sobre a mudança pela mudança, previsível como tem sido em todos os casos, pois o repertório deles é chato, superficial e repetitivo.

Para a economia ele vai só torcer.

Para a volta da ditadura, para o retrocesso institucional e civilizatório ele vai continuar de olhos fechados. Eu não. Hay gobierno neoliberal, neomilitar, neofeudal, soy contra de véspera, porque de apoiadores de véspera e de torcedores apaixonados do Íbis o Brasil já está cheio.

(*) O Íbis é um time de futebol que se orgulhar de perder sempre. Já perde de véspera, apesar da torcida.

Logo após esta conversa, leio o texto, compartilhado a seguir, do Luiz Carlos Romanholli. Diz tudo o que não tive a oportunidade de dizer:

Paulo Martins

Fala-se em “torcer pelo governo Bolsonaro”. Bem, eu acho que a gente torce é pra time e pra ganhar a Mega-Sena. De governo se cobra os erros e se apoia os acertos. Todo cidadão é oposição, independentemente do governo. Mas, vá lá, vamos admitir que se possa torcer. Então, eu torço contra. Quero que dê errado. Muito errado. Por uma razão simples: o que significa esse governo dar certo? Vamos à lista (feita a partir das promessas de campanha e das escolhas ministeriais):

  • Concentração de renda e aumento da pobreza e da desigualdade.
  • Achatamento salarial.

  • Perda de direitos trabalhistas.

  • Fim da aposentadoria.

  • Aumento do lucro dos bancos.

  • Censura a escolas, universidades e professores, com perseguição ao pensamento crítico.

  • Desmonte do ensino público em favor de grandes grupos privados do setor.

  • Incentivo do ensino à distância.

  • Desmonte do SUS para beneficiar as operadoras dos planos privados.

  • Perseguição a opositores. Notadamente de esquerda, mas não só.

  • Tolerância à tortura.

  • Incentivo à violência policial, com a respectiva impunidade dos criminosos de farda.

  • Ameaça às liberdades democráticas e ao estado de direito.

  • Discurso oficial misógino e machista.

  • Perseguição aos movimentos de trabalhadores rurais.

  • Tolerância à violência contra mulheres, LGBTs e gays.

  • Desmonte das políticas afirmativas para essas “minorias”.

  • Aumento do desmatamento para atender os interesses do agronegócio e das mineradoras.

  • Aumento do número de homicídios com a liberação do porte de armas.

  • Frouxidão na fiscalização e punição de crimes ambientais.

  • Frouxidão na fiscalização e punição de trabalho escravo.

  • Desmonte do incentivo federal ao esporte.

  • Desmonte das universidades públicas.

  • Perseguição a índios e quilombolas.

  • Desmanche da cultura e “criminalização” de nossos artistas.

  • Tolerância à corrupção.

  • Fake news oficial.

  • Tolerância a crimes de racismo.

  • Interferência direta da religião (uma especificamente) nas decisões do executivo, ameaçando o estado laico e nos empurrando para uma temível teocracia.

  • Ameaça à liberdade de imprensa, com censura e chantagem usando o expediente de verbas públicas de publicidade.

  • Política externa suicida em nome de mentiras, moralismo tacanho, fanatismo religioso e desconhecimento histórico.

  • Subserviência aos Estados Unidos.

  • Entreguismo.

  • Falta de planejamento.

  • Memes ruins.

  • Muita burrice.

  • Muita mentira.

  • Mais burrice.

  • Muita corrupção.

  • Burrice pra caralho.

  • Muita cafonice.

  • Eu cheguei a mencionar burrice?

  • Excelentes salários para motoristas.

Eu quero que dê errado pra cacete.

“Eu nunca mais esqueci o valor da água”, César Benjamin

Compartilho, abaixo, texto de uma entrevista de César Benjamin às Organizações Globo sobre o AI 5 e as torturas praticadas pelos agentes do Estado, sob as ordens e/ou conivência dos ditadores que comandavam com mãos de ferro os destinos do País. A entrevista foi realizada na Globo, metida até os ossos no apoio à ditadura e conivente por omissão estratégica com as torturas e mortes. Globo entrevistando um ex-preso político torturado pela ditadura. Como se não tivesse nada com isso. Globo, logo a Globo. Que puta ironia!

Estamos metidos em uma situação complicada. Tortura é crime hediondo. Assassinato, esquartejamento, dar sumiço no corpo, perseguir inimigos internos, são todos crimes igualmente graves praticados por agentes do Estado, igualmente hediondos.

Aparece um candidato à presidência da Relespública e elogia assassinatos, tortura e os torturadores. É eleito. Este candidato, agora presidente eleito, elogia os assassinatos – diz que não foram em número suficiente – queria matar uns 30.000. Elogia a tortura e homenageia torturadores. Ele, o eleito, e sua Klan, compartilham do mesmo ódio pelo pensamento diverso. Uma evangelizadora – notem a carga negativa que acompanha a palavra – é nomeada ministra e propõe mudar a legislação penal para passar a considerar o aborto como crime hediondo, com todas as consequências trágicas que isso trará para a mãe que praticou este ato desesperado. E quer criar a “Bolsa-estupro” para forçar a vítima do estupro a carregar em seu ventre o resultado do humilhante estupro. Castigo duplo: o primeiro estupro e o segundo representado pelo nome do estuprador na certidão de nascimento do filho. Se não aceitar este castigo duplo, outro castigo, também feroz: condenação à prisão, por crime hediondo.

Se temos esses dois cristãos democratas e sua Klan para nos orientar pelos caminhos do bem, quem poderia temer pelo pior, não é mesmo?

Obs: o primeiro assassinato do novo governo que irá assumir já ocorreu. Só não foi devidamente divulgado pela grande mídia de aluguel. Matou o sonho de um país justo e solidário. Matou a paz, semeou o ódio. Liberou os monstros.

Paulo Martins

Leia o texto de César Benjamin:

“Uma pessoa botou a mão no meu ombro e disse: ‘Enquanto estiver com a mão no teu ombro, está tudo bem. Quando eu soltar vai começar’. Fiz perguntas banais, ele tirou a mão do meu ombro e senti a primeira descarga. Cai no chão, e aí começa o processo”.

“O processo tem intervalos e você fica com muita sede. Uma lembrança desse período torturante para mim, até hoje, é que cada vez que eu tomo um copo de água é um ritual. Eu nunca mais esqueci o valor da água, porque eu me senti morrendo de sede”.

A OBRA DE TODOS

A OBRA DE TODOS

“Onde, afinal, começam os direitos humanos universais? Em lugares pequenos, perto de casa – tão perto e tão pequenos que não podem ser vistos em qualquer mapa-múndi.

“Ainda assim, esse é o mundo de cada pessoa. A vizinhança onde mora, a escola ou a faculdade que frequenta, a fábrica, a fazenda ou escritório em que trabalha.

“Esses são os lugares onde cada homem, mulher e criança buscam uma justiça igualitária, oportunidades iguais, e dignidade sem discriminação.

“Caso esses direitos não sejam significativos em tais espaços, eles não vão ter significado em lugar algum.

“Sem a ação organizada dos cidadãos para defendê-los próximo a suas casas, nós esperaremos em vão por progressos no mundo como um todo.”

(Eleanor Roosevelt, ex-primeira-dama dos Estados Unidos, membro da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas)
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10/dez/2018 – 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

DireitosHumanos #Paz #Justiça #Democracia #Liberdade #Humanismo

Por Gabriel Priolli

Ministro anti-Meio Ambiente

André Trigueiro é um artista. Consegue equilibrar-se em uma corda bamba: atua profissionalmente em favor de pautas ambientais e trabalha na Globo. Neste texto ele mostra que o ministro nomeado para o Ministério do Meio Ambiente é, na verdade, um anti-Ministro infiltrado para detonar todas as ações destinadas à proteção ambiental. Mas, no fim do texto nosso bom e fofo André diz: “Que esteja à altura do cargo e dos desafios que terá pela frente”. Ora, se André Trigueiro sabe que o ministro  é uma ameaça para o meio ambiente e escreveu o texto para alertar-nos sobre este perigo, por que diabos ele encerra seu texto assim? Pelos diabos?

Paulo Martins

‘Agora é a hora de agir. Vamos mostrar que você não aguenta mais essa cambada de maconheiro baba-ovo de bandido. Já deu o que tinha que dar. #tolerânciazero’
Por André Trigueiro

09/12/2018 17h22 Atualizado há 22 horas

Publicado no G1

Com essa convocação publicada em seu blog na véspera do 1° turno das eleições, Ricardo Salles tentou se eleger deputado federal por São Paulo. Não deu certo. Derrotado nas urnas, ganhou como prêmio de consolação do presidente eleito Jair Bolsonaro o cargo mais importante de sua vida. Aos 43 anos, este jovem advogado com especialização em administração de empresas será o novo ministro do Meio Ambiente.
A escolha se deve menos a uma reconhecida competência técnica na área ambiental do que a afinidades ideológicas. Ricardo Salles nunca foi lembrado no meio ambientalista como um nome forte para ocupar a pasta. Criador do Movimento Endireita Brasil (MEB), ele vinha se destacando pela ferocidade com que defende ideias em favor do conservadorismo e do liberalismo. Chegou a declarar-se certa vez “o único direitista assumido do Brasil”. Durante a campanha eleitoral deste ano, o MEB (tendo à frente Salles) virou notícia ao publicar em suas redes sociais um anúncio oferecendo recompensa de R$ 1.000,00 a quem gravasse um vídeo com ataques a Ciro Gomes. As publicações citavam o restaurante onde o candidato do PDT almoçava. Após a repercussão negativa, a publicação foi apagada.
Dentre todos os nomes cotados para o cargo, Ricardo Salles foi certamente o que contou com o maior número de apoios, como o da Sociedade Rural Brasileira (SRB), a União da Agroindústria Canavieira (Unica), FIESP, construção civil e comércio. Curiosamente, setores da economia que mais se queixam da atuação firme dos órgãos ambientais nos processos de licenciamento e fiscalização. Não me lembro de outro ministro do Meio Ambiente que tenha contado com um lobby tão poderoso para alcançar o cargo.
Salles teve uma passagem tumultuada pelo Governo Alckmin onde foi secretário particular do Governador de São Paulo e, mais tarde, para perplexidade de muitos tucanos, secretário de Meio Ambiente. Tornou-se réu em uma ação civil pública sob a acusação de ter alterado ilegalmente o zoneamento da proposta de plano de manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê. Em outro inquérito, o secretário passou a ser investigado por ter realizado chamamento público, sem autorização legislativa, para a concessão ou venda de 34 áreas do Instituto Florestal. Acabou sendo afastado do cargo pelo governador um ano depois da nomeação. Há ainda várias outras denúncias que marcaram a rápida passagem de Salles pela Secretaria.

Importante saber se o novo ministro pensa como Bolsonaro que o Ibama é uma “fábrica de multas”. Penso que se foi escolhido é porque concorda, o que seria lamentável. O Ibama existe para cumprir o que diz a lei. Enfraquecê-lo significa abrir caminho para novas tragédias, como o vazamento da Samarco. Certa vez, ao entrevistar o ex-czar da economia nos anos de chumbo da ditadura, o ex-ministro Delfim Netto, ouvi dele a seguinte defesa em favor da regulação ambiental do setor produtivo: “Se não regular, eles vão destruir tudo. Não vai sobrar nada”.
Outra questão importante é a autonomia do Ministério do Meio Ambiente. O titular da pasta precisa ser o fiel escudeiro do artigo 225 da Constituição brasileira, o qual afirma que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” É o que se espera de Ricardo Salles. Qualquer ato de subserviência aos interesses corporativos – principalmente do lobby que o apoiou – afronta o cargo que ocupa.
Além disso, é importante lembrar que ser ministro do Meio Ambiente do Brasil significa promover a gestão dos recursos naturais da maior potência megabiodiversa do planeta. Somos o país do mundo com a maior floresta tropical úmida, o maior estoque de água doce, a maior biodiversidade, a maior quantidade de solo fértil pronto para o plantio (sem a necessidade de derrubar uma árvore sequer). Caberá a Ricardo Salles a gestão de quase 10% do território nacional, que é a soma das Unidades de Conservação, absolutamente estratégicas para a regulação do clima, produção de chuvas, armazenamento de água e de tesouros biotecnológicos fundamentais para a produção de remédios e vacinas. As mesmas Unidades de Conservação que nos últimos 5 anos perderam, com desmatamentos criminosos, uma área equivalente a quase 3 vezes a cidade de São Paulo.

O projeto dos sonhos de Jair Bolsonaro era unificar as pastas da Agricultura e do Meio Ambiente, mas foi desaconselhado pelos próprios ruralistas que temiam retaliações dos importadores de grãos e proteína animal. Como se sabe, muitos importadores não querem passar recibo de “desmatador da Amazônia” ou “invasor de territórios indígenas”. O presidente eleito recuou. E deixou a escolha do titular da pasta do Meio Ambiente por último dentre os 22 colaboradores do primeiro escalão do governo.
O ministro do Meio Ambiente precisa ser o “xerife” que protege os recursos naturais fundamentais à vida, e o grande defensor do desenvolvimento sustentável, o único possível, se desejarmos um crescimento equilibrado e perene na linha do tempo. A gestão ambiental não pertence a nenhuma ideologia política, nem de direita nem de esquerda. Sustentabilidade é sinônimo de sobrevivência, e o novo ministro deverá realizar escolhas que poderão contrariar apetites vorazes de crescimento rápido que não levam em conta o interesse coletivo ou a resiliência dos ecossistemas. Que esteja à altura do cargo e dos desafios que terá pela frente.

Infiltrado na Klan, crítica de Fábio Gomes, no Omelete

Compartilho crítica de Fábio de Souza Gomes publicada no site de crítica cinematográfica Omelete. O que ocorreu no final do filme comprova tratar-se de uma obra necessária, ainda mais no mundo atual. Três ou quatro mulheres começaram a se manifestar gritando “ele não”. Pareceu espontâneo, pois vinha de diferentes pontos e eram gritos que mostravam certa timidez. Um número maior de pessoas aplaudiu. Um homem, de pé, gritou “ele sim”, mais de uma vez. Muita gente reagiu. Ele foi chamado de racista. Ele se deu conta que não estava em uma rede social, usando uma identidade falsa. 

Assista o filme e observe a triste e gritante semelhança com os tempos sombrios que estamos enfrentando no Brasil. Favor observar, em determinado ponto desta crítica o autor da avisa sobre um spoiler (spoiler = expõe uma pequena parte do que acontece no filme)

Abraço a todos, 

Paulo Martins

Infiltrado na Klan
Spike Lee cria um dos melhores filmes de sua carreira em uma obra necessária nos dias atuais
FÁBIO DE SOUZA GOMES
21.11.2018
23H37
ATUALIZADA EM
22.11.2018
00H47
Infiltrado na Klan seria absurdo se não fosse real. O longa mostra a história verdadeira de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro a conseguir se infiltrar na Ku Klux Klan. Por ser negro, obviamente, ele não pode participar das reuniões pessoalmente e, por isso, enquanto marca tudo por telefone seu parceiro Flip Zimmerman (Adam Driver) assume sua identidade junto aos membros da KKK. Os dois chegam aos níveis mais altos da organização em um dos filmes mais importantes do ano.
Como a história se passa nos anos 70, Spike Lee consegue fazer uma grande homenagem a Blacksploitation – um movimento cinematográfico dos EUA que surgiu durante esse período onde diretores e atores negros começaram a produzir uma série de filmes. A fotografia, o estilo e o humor são referências diretas ao gênero, que ganha homenagens inclusive no cartaz da produção. Tudo isso deixa o longa com um tom mais leve e, com isso, as críticas sociais do cineasta tem um efeito único: são capazes de fazer o espectador rir ao mesmo tempo que o deixa reflexivo e desconfortável. A obra está recheada de cenas onde o preconceito é representado de uma maneira caricata, mas o que parece loucura é um retrato cada vez mais próximo e fiel da nossa realidade atual.
Apesar de se passar nos anos 70, os membros da “organização” (como ela é chamada no filme) tocam em temas recentes como o que ficou conhecido hoje como as fake News. Durante uma conversa com Flip, um dos membros da KKK fala que o Holocausto foi uma grande mentira e que a mídia tradicional está escondendo a verdade. Esse é apenas um dos vários exemplos de como Lee cria uma ponte para o presente ao mostrar que o preconceito sempre contou com a desinformação para se disseminar. Além disso, essa conversa é um dos vários fatores que ajudam na jornada do personagem de Adam Driver.
Flip é um homem branco que nunca se preocupou com o preconceito pois nunca o sofreu. Porém, ao se infiltrar na Klan, ele começa a refletir sobre sua origem judia, sobre o racismo e passa a enxergar o mundo por uma nova perspectiva. Lee, com isso, toca na ferida e mostra que grande parte da sociedade não se interessa por direitos civis e igualdade de raça e gênero pois simplesmente não consegue enxergar um problema – que só fica claro quando sentem na própria pele.
Essa jornada só funciona tão bem por conta do ótimo trabalho de Driver, cuja a principal relação é com John David Washington, que vive o verdadeiro Ron por telefone. O personagem é o fio condutor do filme e sofre com conflitos próprios, pois ao mesmo tempo em que está dedicado a derrubar a Klan é considerado por seu principal interesse romântico, a ativista vivida por Laura Harrier, um traidor da própria raça por ser policial. O personagem tenta equilibrar os dois mundos, sentindo-se por muitas vezes isolado, e Washington consegue brilha em cena nesses momentos.
A dupla faz com que essa história absurda – e, sempre importante reforçar, real – pareça crível e o público embarca nessa jornada que chega até ao grão-mestre da KKK, David Duke (Topher Grace), que é o grande vilão do filme.
Duke é mais um dos grandes trunfos de Lee, que mostra um homem que disfarça seu discurso racista em ideias de falso nacionalismo. O diretor não demoniza o personagem e o mostra como um homem carismático consegue conquistar os outros pela desinformação e o medo. Esse discurso explode na tela nas cenas finais, que transformam o tom do filme.
(CUIDADO COM SPOILER, O PARÁGRAFO EM ITÁLICO PODE ESTRAGAR A SUA EXPERIÊNCIA).
O diretor decide mostrar cenas reais do conflito de Charlottesville em 2017 – onde neo-nazista tomaram as ruas para protestar contra negros, judeus e imigrantes. Com uma edição hábil, Lee mostra como um presidente como Donald Trump deu espaço para que o preconceito tomasse as ruas e, mais tarde, foi incapaz de rechaçar as marchas ao dizer que “nem todas as pessoas do protesto eram ruins” ao mesmo tempo em que pessoas eram atropeladas, feridas e David Duke voltava para as ruas para apoiar o mandatário americano.
O uso do silêncio ao final das cenas caóticas leva o espectador a reflexão do atual momento não só dos EUA, mas de todo o planeta onde movimentos como esse estão crescendo cada vez mais e discursos de ódio estão ganhando espaço. Um final que contrasta diretamente com o bom humor do filme e, por conta disso, fica ainda mais forte e pesado.
(FIM DO SPOILER)
Spike Lee volta a sua melhor forma e cria um dos melhores trabalhos de sua carreira. O filme é muito mais do que um bom divertimento. Infiltrado da Klan é uma produção necessária nos dias atuais e pode gerar reflexões para o futuro.

Sobre parvos e pascácios, a mentira retroalimentada

O capitão da  Bolsa (a outra, a que comprou seu mandato de presidente) sempre que pode declara, para justificar previamente seu fracasso, que vai pegar uma economia destroçada pelos governos do PT. Não sei como ele chegou a essa conclusão pois, como ele mesmo confessou – e nem precisava ter confessado, de tão evidente -, “Não entende nada de Economia”. Suas declarações absurdas sobre as metodologias do IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística deixaram claro que ele também não entende nada de estatística.

Ele, o capitão da Bala, do Boi, da Bíblia evangélica, da Bolsa e do Patrão, fala as asneiras que fala porque tem seguidores tão ou mais ignorantes que ele: terraplanistas, kitgaysistas, mamadeirasdebicopiroquistas, os escolasempartidistas, os anticomunistas, os fakeistas, os olavetistas … A aprovação destas plateias ignaras  tem efeito devastador pois retroalimenta e impulsiona o redemoinho da ignorância e da bajulação: todos os parvos e pascácios, parentes em primeiro grau ou não, scolaris, boechatis, lorenzonis, moros, vélezis e ernestos, invejosos, danam a falar besteiras para ver se ultrapassam o chefe e conseguem seus 15 minutos de fama. Podem desistir: o chefe é imbatível porque sua ignorância e “toscicidade” é autêntica. O bicho é esse poço transparente de ignorância mesmo, curto e grosso. E os seus semelhantes enxergam nele um espelho que lhes reflete a alma.

Esta introdução é para apresentar dados que contestam as afirmações do capitão bárbaro. Já publiquei neste blog estatísticas completas de 20 anos da economia brasileira, comprovando a boa gestão dos governos do PT no período indicado. Apresento, a seguir, um resumo. Não sei quem foi o autor do resumo, que compartilho do mural de Márcia Simões.

Acho que para quem mais interessa a leitura destes dados não vai adiantar nada, seja por déficit cognitivo ou pura má-fé mesmo. De qualquer forma os dados estão aí, nus e crus, para desmentir presidente-fake que não desce do palanque e assume postura de estadista, porque não adianta tentar forçar a natureza.

Paulo Martins

  1. Produto Interno Bruto:
    2002 – R$ 1,48 trilhões
    2013 – R$ 4,84 trilhões
  2. PIB per capita:
    2002 – R$ 7,6 mil
    2013 – R$ 24,1 mil

  3. Dívida líquida do setor público:
    2002 – 60% do PIB
    2013 – 34% do PIB

  4. Lucro do BNDES:
    2002 – R$ 550 milhões
    2013 – R$ 8,15 bilhões

  5. Lucro do Banco do Brasil:
    2002 – R$ 2 bilhões
    2013 – R$ 15,8 bilhões

  6. Lucro da Caixa Econômica Federal:
    2002 – R$ 1,1 bilhões
    2013 – R$ 6,7 bilhões

  7. Produção de veículos:
    2002 – 1,8 milhões
    2013 – 3,7 milhões

  8. Safra Agrícola:
    2002 – 97 milhões de toneladas
    2013 – 188 milhões de toneladas

  9. Investimento Estrangeiro Direto:
    2002 – 16,6 bilhões de dólares
    2013 – 64 bilhões de dólares

  10. Reservas Internacionais:
    2002 – 37 bilhões de dólares
    2013 – 375,8 bilhões de dólares

  11. Índice Bovespa:
    2002 – 11.268 pontos
    2013 – 51.507 pontos

  12. Empregos Gerados:
    Governo FHC – 627 mil/ano
    Governo Lula – 1,79 milhões/ano

  13. Taxa de Desemprego:
    2002 – 12,2%
    2013 – 5,4%

  14. Valor de Mercado da Petrobras:
    2002 – R$ 15,5 bilhões
    2014 – R$ 104,9 bilhões

  15. Lucro médio da Petrobras:
    Governo FHC – R$ 4,2 bilhões/ano
    Governo Lula – R$ 25,6 bilhões/ano

  16. Falências Requeridas em Média/ano:
    Governo FHC – 25.587
    Governo Lula – 5.795

  17. Salário Mínimo:
    2002 – R$ 200 (1,42 cestas básicas)
    2014 – R$ 724 (2,24 cestas básicas)

  18. Dívida Externa em Relação às Reservas:
    2002 – 557%
    2014 – 81%

  19. Posição entre as Economias do Mundo:
    2002 – 13ª
    2014 – 7ª

  20. PROUNI – 1,2 milhões de bolsas

  21. Salário Mínimo Convertido em Dólares:
    2002 – 86,21
    2014 – 305,00

  22. Passagens Aéreas Vendidas:
    2002 – 33 milhões
    2013 – 100 milhões

  23. Exportações:
    2002 – 60,3 bilhões de dólares
    2013 – 242 bilhões de dólares

  24. Inflação Anual Média:
    Governo FHC – 9,1%
    Governo Lula – 5,8%

  25. PRONATEC – 6 Milhões de pessoas

  26. Taxa Selic:
    2002 – 18,9%
    2012 – 8,5%

  27. FIES – 1,3 milhões de pessoas com financiamento universitário

  28. Minha Casa Minha Vida – 1,5 milhões de famílias beneficiadas

  29. Luz Para Todos – 9,5 milhões de pessoas beneficiadas

  30. Capacidade Energética:
    2001 – 74.800 MW
    2013 – 122.900 MW

  31. Criação de 6.427 creches

  32. Ciência Sem Fronteiras – 100 mil beneficiados

  33. Mais Médicos (Aproximadamente 14 mil novos profissionais): 50 milhões de beneficiados

  34. Brasil Sem Miséria – Retirou 22 milhões da extrema pobreza

  35. Criação de Universidades Federais:
    Governo Lula – 18
    Governo FHC – ZERO!!!

  36. Criação de Escolas Técnicas:
    Governo Lula- 214
    Governo FHC – 11
    De 1500 até 1994 – 140

  37. Desigualdade Social:
    Governo FHC – Queda de 2,2%
    Governo Lula – Queda de 11,4%

  38. Produtividade:
    Governo FHC – Aumento de 0,3%
    Governo Lula – Aumento de 13,2%

  39. Taxa de Pobreza:
    2002 – 34%
    2012 – 15%

  40. Taxa de Extrema Pobreza:
    2003 – 15%
    2012 – 5,2%

  41. Índice de Desenvolvimento Humano:
    2000 – 0,669
    2005 – 0,699
    2012 – 0,730

  42. Mortalidade Infantil:
    2002 – 25,3 em 1000 nascidos vivos
    2012 – 12,9 em 1000 nascidos vivos

  43. Gastos Públicos em Saúde:
    2002 – R$ 28 bilhões
    2013 – R$ 106 bilhões

  44. Gastos Públicos em Educação:
    2002 – R$ 17 bilhões
    2013 – R$ 94 bilhões

  45. Estudantes no Ensino Superior:
    2003 – 583.800
    2012 – 1.087.400

  46. Risco Brasil (IPEA):
    2002 – 1.446
    2013 – 224

  47. Operações da Polícia Federal:
    Governo FHC – 48
    Governo Lula- 1.273 (15 mil presos)

  48. Varas da Justiça Federal:
    2003 – 100
    2010 – 513

  49. 38 milhões de pessoas ascenderam à Nova Classe Média (Classe C)

  50. 42 milhões de pessoas saíram da MISÉRIA!

FONTES:
47/48 – http://www.dpf.gov.br/agencia/estatisticas
39/40 – http://www.washingtonpost.com
42 – OMS, Unicef, Banco Mundial e ONU
37 – índice de GINI: http://www.ipeadata.gov.br
45 – Ministério da Educação
13 – IBGE
26 – Banco Mundial

Sátira Alemã: A QUEIMA DE LIVROS, Bertolt Brecht

Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente

Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte

Fizeram bois arrastarem carros de livros

Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido

Um dos melhores, estudando a lista de livros queimados

Descobriu, horrorizado, que os seus

Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr

Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.

Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!

Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não

Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me

Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:

Queimem-me!

Bertolt Brecht

Poemas 1913-1956

Seleção e tradução de Paulo César de Souza

editora 34

Discurso de diplomação de Jair Messias Bolsonaro

Brasília, 10 de dezembro de 2018

Nesta cerimônia de minha diplomação como presidente da República, eu não poderia deixar de reverenciar a memória do coronel do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, torturador e horror de Dilma Vana Rousseff Linhares.

Que o coronel, a quem eu agora reverencio possa, desde sua morada no infinito, também conhecido entre os cristãos como o inferno, possa guiar meus passos no cumprimento da importante e difícil missão para a qual vocês, meus 57 milhões de eleitores, em pleito democrático onde prevaleceu a verdade divina, me arregimentaram.

Um bom recruta, recrutado para a nobre missão de comandar a vida de 209 milhões de pessoas, nunca poderia fugir à luta. Nem mesmo um mau (seria mal, estou na dúvida?) capitão reformado, condenado por suas ideias em defesa do combate radical ao que é humano, civilizado e fraco, poderia fugir.

Prometo governar com a Bíblia do lado direito do peito e o livro do coronel Ustra, como inspiração maior, também lado direito do peito, pois um capitão que traz Deus acima de tudo e a Pátria em cima de todos não tem, e jamais terá, lado esquerdo.

Permito-me encerrar esta cerimônia com as palavras em latim – ou grego … que seja – que li em um filme sobre a segunda grande guerra mundial e que orientarão as minhas ações destinadas a todos os brasileiros, principalmente aos que não votaram em mim: “Arbeit macht frei”. Heil! Ou melhor, God Save the Queen. Táoquei?.

O QUE CORROMPE, Bertolt Brecht

Nos primeiros meses do domínio nacional-socialista

Um trabalhador de uma pequena localidade na fronteira tcheca

Foi condenado à prisão por distribuir panfletos comunistas.

Como um dos seus cinco filhos havia já morrido de fome

Não agradava ao juiz enviá-lo para a cadeia por muito tempo.

Perguntou-lhe então se ele não estava talvez

Apenas corrompido pela propaganda comunista.

Não sei o que o senhor quer dizer, disse ele, mas meu filho

Foi corrompido pela fome.

Bertolt Brecht

Poemas 1913-1956

Seleção e tradução de Paulo César de Souza

editora 34

Pequena memória para um tempo sem memória, Gonzaguinha

https://g.co/kgs/h1r6MZ

A gente retorna ao velho lugar

se abraça e fala da vida que foi por ai

e conta os amigos nas pontas dos dedos

pra ver quantos vivem e quem já morreu

amanhã ou depois

Ê ê ê ô

Quem me dirá onde está

Aquele moço fulano de tal

filho, marido, irmão, namorado que não voltou mais

insiste um anúncio nas folhas dos nossos jornais

achados perdidos morridos saudades demais

mas eu pergunto e a resposta é que ninguém sabe

ninguém nunca viu

só sei que não sei quão sumido ele foi

sei é que ele sumiu

e quem souber algo acerca do seu paradeiro,  beco das liberdades estreita e esquecida

uma pequena marginal dessa imensa avenida Brasil.

Memória de um tempo onde lutar por seu direito

É um defeito     que mata

São tantas lutas inglórias

São histórias que a história

Qualquer dia contará

De obscuros personagens

As passagens, as coragens

São sementes espalhadas nesse chão

De Juvenais e de Raimundos

Tantos Júlios de Santana

Dessa crença num enorme coração

Dos humilhados e ofendidos

Explorados e oprimidos

Que tentaram encontrar a solução

São cruzes, sem nomes, sem corpos, sem datas,

Memória de um tempo onde lutar por seu direito

É um defeito, que mata.

E tantos são os homens por debaixo das manchetes

São braços esquecidos que fizeram os heróis

São forças, são suores que levantam as vedetes

Do teatro de revistas, que é o país de todos nós

São vozes que negaram liberdade concedida

Pois ela é bem mais sangue

Ela é bem mais vida

São vidas que alimentam nosso fogo da esperança

O grito da batalha

Quem espera nunca alcança

Ê ê, quando o Sol nascer

É que eu quero ver quem se lembrará

Ê ê, quando amanhecer

É que eu quero não quero esquecer

Essa legião que se entregou por um novo dia

Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada

Que nos deu tanta alegria.

E vamos à luta.

“Patismo”, manipulação e poder: a ideologia mundial

Diálogos Essenciais

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante.

A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual.

As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação.

Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica…

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O retrocesso discursivo

Artigo compartilhado. Créditos ao final do texto.

Entre os animais, o humano é o único capaz de distinguir (pelo discurso, que os gregos chamavam de “lógos”) o justo do injusto, o bem e o mal (e não apenas o prazer e a dor, como fazem os animais através disso que podemos chamar “voz”).
É graças a esse poder que, para Aristóteles (na Política), emerge a condição para a constituição das famílias e, na comunidade entre estas, das cidades (pólis).
O que aconteceu no Brasil com o golpe de 16, no conluio entre judiciário (lawfare), legislativo (“impeachment”) e mídia (antipetismo), foi a emergência do retrocesso discursivo: quebraram-se quase todos os critérios pelos quais distinguia-se o justo do injusto, restaram a sedução (dos marqueteiros) e a força (através desse inusitado urutu encarnado e de toga, obscuro, etéreo quase como uma nuvem negra pairando sobre as cabeças).
Abandonamos o lógos (pensamento expresso em discurso), e adotamos algo como a “narrativa”, uma espécie de perspectivismo delirante, feito pela mistura alucinada de memes, notícias falsas, ficções, mentiras, cinismo, que não manifestam ideia alguma, código algum, discurso nenhum, mas funcionam como a voz, o grito, a algazarra dos bichos, que os fazem capazes de indicar sensações de prazer (como o da vingança de classe com a prisão ilegal de Lula) e, em especial, de “dor”, como o medo (medo do kitgay, mas medo tb das proscrições por vir), e jamais manifestar o útil e o nocivo.
Pq a voz é apenas indicativa, jamais manifesta pensamento algum.
A partir daí, toda uma inversão de valores embaralhou socialmente maldade e bondade num amalgama perverso guiado pelas vozes grotescas do prazer e do medo.
Nesse caldeirão de inversões e balbúrdia, entregamos o país a bandidos toscos, a loucos e psicopatas, achando que estávamos lutando contra a corrupção, a carestia e o desemprego.
Como se fosse a corrupção a culpada de todos os males (jamais foi). Como se fossem esses os salvadores da pátria (são o contrário). Aqueles que usaram e usam, com sinceridade, a “defesa da família” por argumento para justificar o seu voto em um racista confesso, inadvertidamente fizeram o seu oposto. Não há família que sobreviva incólume no embaralhamento do justo e do injusto, do bem e do mal.
Disso sabem bem os que vivem pelas periferias, no limiar da civilização com a barbárie. Disso saberá em pouco tempo essa classe média subletrada e raivosa que abraçou o antipetismo como a inquisição o herege ou apóstata, mas que logo se verá a si mesma caminhando no seu próprio auto de fé e extermínio. Por enquanto as perseguições são focadas em políticos petistas. Lula é hoje a própria encarnação da injustiça imposta pelos juizes golpistas e seu sistema invertido.
A promessa é de que em mto pouco tempo as proscrições se espalhem pelas escolas e universidades, pelos campos, pelas repartições públicas, sindicatos, pelas redes sociais.
Se não houver uma oposição decidida e feroz, não restará nada que possa elevar a simples voz para a forma discursiva, dialógica, capaz de refutar a animalidade da barbárie econômica, política e social.
Parece exagero?
Hoje, enquanto o biltre que chefiará a república anuncia os disparatados que chefiarão as pastas da saúde, das relações exteriores, da economia, da “justiça” (sim, com aspas terríveis), não acho que se possa ter esperança a não ser na mera sobrevivência biológica do homem que retorna ao mundo animal e que apenas grita ou berra, feito lobo ou cordeiro, sem saber o que falar, sem poder nada dizer.
Do professor de filosofia Sergio Alarcon

Mujica? Que horror!

Nunca pratiquei caça. Nem com atiradeira, na infância. Acho uma covardia. Ainda maior que as touradas. Nas touradas o toureiro enfrenta o touro sozinho e o touro tem a oportunidade de, pelo menos uma vez ou outra, jogar o seu torturador para o alto. A caçada é traiçoeira. É feita em grupos armados. Uma tremenda covardia dada a total falta de paridade de armas. Todo caçador é, em essência, lá no fundo de sua alma, desde a infância quando atira em passarinhos com espingarda de chumbinho, um ser covarde e cruel.Você não está entendendo esta introdução? Trata-se, de certa forma, de uma tentativa de me livrar das imagens que foram compartilhadas esta semana, por amigos, referentes a um urso preto e a uma girafa abatidos por caçadores sem escrúpulos. Mas é mais do que isso. Trata-se de uma analogia que tenho feito ao ler nas redes sociais ou ao conversar com conhecidos sobre quais seriam as motivações que os teria levado a votarem no despreparado e destemperado capitão paraquedista para comandar os destinos de um país com 209 milhões de pessoas. Analisando as respostas, minha conclusão é a de que seus argumentos não batem com as verdadeiras intenções, escondidas bem no fundo de suas almas. Soam como os argumentos dos matadores de ursos e girafas.Há duas semanas cheguei para a aula de alemão e presenciei a discussão entre um experiente executivo da área jurídica internacional de uma empresa, que criticava com veemência, porém com educação e argumentos, a declaração do perdido capitão paraquedista de que pretendia transferir para Jerusalém a embaixada do Brasil em Israel, e uma aluna, também com idade de pessoa experiente, defendendo com afirmações peremptórias, sem embasamento, tal decisão, pois acreditava que fortaleceria os laços econômicos do Brasil com os Estados Unidos, como se isso fosse bom por definição, sem precisar de qualquer análise. Como ex-profissional de comércio internacional com passagem pelo Itamarati, achei por bem ajudar o colega preocupado com o impacto da decisão estapafúrdia do capitão paraquedista. Rapidamente o assunto descambou para a auto-justificativa de voto para “acabar com essa corrupção toda aí do PT”.Na aula de hoje surgiu o assunto de férias e viagens de fim de ano. Comentei, sério e, de certa forma, provocativo, que vamos passar o Ano Novo em Montevideu para dar um abraço em Pepe Mujica. A colega eleitora do capitão paraquedista reagiu: “Mujica? Que horror!Fiz de conta que não ouvi. Continuei a conversa com os demais colegas, antes que a indignada começasse a matar passarinhos com espingarda de chumbinho, ou seja, começasse a cuspir fogo contra o guerrilheiro uruguaio comunista que liberou o consumo de drogas naquele país comunista.- “Paulo, não entendi o que a espingarda de chumbinho tem a ver com a manifestações de sua colega”.Explico: na minha infância aprendi que a tal espingarda ao ser acionada cuspia uma quantidade enorme de chumbinhos letais em direção ao passarinho-alvo. Exatamente como discutem os propagadores da ideologia bolsal e os seus crentes seguidores. Espalham chumbinho em todas as direções, para ver se acertam algum passarinho. Ora é a corrupção, ora o kit gay, ora o comunismo, ora a doutrinação nas escolas, ora a moral e os bons costumes, ora a legalização das drogas …Observação: as passagens já estão compradas. Imagino a reação dela se soubesse o real motivo pelo qual não queremos estar no Brasil no dia primeiro de janeiro próximo.Paulo Martins