Chico Buarque – As Caravanas, por Gilberto Maringoni

Chico Buarque -poucos mergulharam tão fundo na alma do país.
Essa “As Caravanas” é arrasadora.
Um achado: para as elites, os pobres são como os muçulmanos a ameaçar a “civilização ocidental e cristã”. Precisam ser abatidos, porque apenas sua existência, com picas enorme e sacos-granadas representa um risco aos brancos ricos em seus bunkers.
Como esses pobres-muçulmanos ousam descer à Zona Sul? Como ousaram invadir os sacrossantos aeroportos transformando-os em rodoviárias cheias de “gente feia”? Como tiveram a petulância de se transformarem em “doutores e doutoras”? Como se insubordinaram contra o trabalho doméstico e, suprema ofensa, arriscaram almejar dignidade e cabeça erguida?
Pois os ricos golpistas vieram, com Temer e toda a quadrilha, para devolver os pobres-negros-muçulmanos a seus lugares “de direito”: as favelas-senzalas, as prisões-porões, as chibatas-cassetetes-balas dos PMs-capitães do mato.
Como diz Chico ao final de sua As Caravanas, “Filha do medo, a raiva é mãe da covardia”.
Como são medrosos, raivosos e covardes esses ricos do Brasil.

As Caravanas
Chico Buarque

É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turqueza à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana

A caravana do Arará — do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o combio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá — é o bicho, é o buchicho é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar
Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará