Comparar orçamento público e orçamento doméstico é uma falácia, por Pedro Paulo Zahluth Bastos

Economia/Austeridade

Comparar orçamento público e orçamento doméstico é uma falácia

por Pedro Paulo Zahluth Bastos — publicado 19/06/2017 11h23, última modificação 19/06/2017 11h24, na Carta Capital

Até o FMI admite: as finanças do Estado não podem ser administradas como as contas de uma família, ao contrário do que pregam os economistas ortodoxos
Comparar o Estado a uma família feliz é mais um conto de fadas dos neoclássicos

Muitos cidadãos e alunos me perguntam porque nós, economistas keynesianos (ou “heterodoxos”), somos contrários à redução do gasto público para evitar a explosão da dívida pública. A pergunta vem muitas vezes acompanhada de uma analogia com o orçamento doméstico: se uma família gasta mais do que recebe por muito tempo, ela acumula dívidas que, a partir de um certo momento, afastam seus credores. Eles têm medo de continuar a emprestar porque imaginam que a família não será capaz de pagar suas dívidas se continuar a “viver além de seus meios”. A hora da verdade não pode ser adiada para sempre: em algum momento, a família precisará “apertar o cinto” e passar a poupar para pagar a dívida. Por que o mesmo não vale para o governo?

Os defensores da austeridade fiscal alegam que a mesma lógica doméstica vale para o governo, que deve buscar o orçamento equilibrado principalmente quando suas receitas diminuem para evitar que a dívida pública assuma uma trajetória explosiva. No último mês de maio, dados preliminares indicam uma nova queda da arrecadação tributária e uma frustração da expectativa de receita fiscal anunciada anteriormente. O governo não deveria dobrar o esforço no corte de gasto?

O argumento a favor da austeridade tem vários problemas empíricos, ou seja, suas propostas não tiveram sucesso prático em nenhum lugar do mundo, inclusive no Brasil. Isso ocorre por causa dos sérios problemas teóricos, pois não consegue entender o motivo de o orçamento público e a economia como um todo serem diferentes do orçamento familiar ou de uma empresa isolada.

Em 2015, Joaquim Levy cortou o gasto público porque a receita caía e, com isso, a dívida pública poderia aumentar não só em valores absolutos (ela sempre aumenta nominalmente em qualquer lugar do mundo, com raríssimas exceções), mas em relação ao total da renda nacional, que também costuma aumentar, às vezes mais rapidamente que a dívida, às vezes menos. Mas em vez de reduzir a parcela da dívida pública no PIB, Levy entregou-a muito maior do que a recebeu, mesmo cortando o gasto em 3%, pois empurrou o PIB para uma queda de 3,8%, enquanto disparavam os índices que corrigem a dívida sob responsabilidade do Banco Central (juros e câmbio).

Levy não é um caso isolado. No mundo inteiro, a expectativa dos que propõem a austeridade quando a arrecadação tributária freia ou cai como reflexo de uma desaceleração cíclica é que o corte do gasto público não terá um efeito negativo sobre o crescimento econômico, principalmente se não for acompanhado pela disparada de juros e câmbio como no Brasil em 2015. Alega-se inclusive que a austeridade pode até ter um efeito positivo sobre o crescimento, porque a recuperação da credibilidade junto aos credores da dívida pública animaria os investidores a voltar a investir.

Nos manuais de macroeconomia “ortodoxa”, ou seja, da escola neoclássica, o argumento é que a redução do pedaço do bolo apropriado pelo governo aumenta o pedaço do bolo apropriado pelo setor privado. Se isso não acontecer diretamente, ocorreria indiretamente: o corte do gasto público diminuiria a destinação da poupança privada para a dívida pública, liberando-a para o investimento com a queda da taxa de juros.

O pressuposto é que o tamanho do bolo não mudaria com a redução do gasto público, que afetaria apenas a distribuição do bolo entre o consumo público e o investimento privado. Como o consumo público prejudicaria o crescimento futuro, enquanto o investimento privado seria o próprio fermento do crescimento do bolo, este aumentaria em seguida.

A teoria é simples, de fácil entendimento e errada. Testes empíricos mostraram que a austeridade reduziu o bolo em todo o lugar do mundo, a não ser no caso de uma pequena nação menos dependente do mercado interno do que das exportações ser estimulada por um grande crescimento da economia mundial que aumente suas vendas externas.

Como se sabe, o FMI sempre defendeu a austeridade entre os países que recorriam a seus empréstimos diante de um problema de balanço de pagamentos, ou seja, de escassez de reservas cambiais. Mais recentemente, recomendou-a também a países que incorressem em déficits fiscais e até recessões, alegando que melhoraria o resultado fiscal e em seguida o crescimento.

Hoje em dia, pesquisadores do Fundo admitem que a austeridade prejudica o crescimento e a relação dívida pública/PIB. Salvo exceções mal explicadas, a recomendação é reduzir o peso da dívida pública no PIB “organicamente”, isto é, depois que o crescimento econômico tiver sido estimulado pelo déficit público até provocar um aumento da arrecadação tributária a ritmo superior ao do gasto público. Isto era a recomendação keynesiana que dominava os livros-texto de macroeconomia neoclássica até o ataque neoliberal da década de 1980: incorrer em déficit público nas recessões e eliminá-lo depois da retomada forte do crescimento.

Em maio passado, o principal defensor da hipótese de que a austeridade geraria crescimento, o professor de Harvard Alberto Alesina, reconheceu o contrário em um estudo de mais de 3,5 mil iniciativas de política econômica.

Assim, o FMI e os austeros enfim reconhecem a diferença essencial entre o orçamento público e o familiar: enquanto um corte na despesa doméstica não afeta a receita da família por ser insignificante macroeconomicamente, a austeridade fiscal aumenta a relação dívida pública/PIB por prejudicar o PIB e consequentemente a receita fiscal.

O fato de que fossem necessárias centenas de testes econométricos e dezenas de fracassos de política econômica, com grande sofrimento social, aumento da pobreza e da concentração da renda, mostra apenas o estado ridículo da teoria econômica neoclássica que embasa as recomendações do neoliberalismo. O “paradoxo da poupança” é conhecido desde a década de 1930: quanto todos são induzidos a poupar pelo medo do futuro, o corte resultante do gasto agregado também reduz a renda e a poupança agregada, jogando a economia em um espiral descendente da qual sairá com uma reação anticíclica do governo ou, no longo prazo, quando “estivermos mortos”, com perdas enormes e desnecessárias de emprego.

O problema da admissão de equívoco pelo FMI e do séquito de austeros é que Keynes dizia que a necessidade reativa de déficit público como política anticíclica era sintoma de um fracasso: a ausência de um planejamento mais abrangente. Para ele, melhor seria prevenir do que remediar, recorrendo a iniciativas que os controladores do Fundo (principalmente os EUA) não podem admitir por motivos políticos e ideológicos conservadores: controle da mobilidade internacional de capitais, juros baixos, limites à especulação financeira, planejamento de um volume amplo de investimentos públicos e privados, políticas de renda e sociais para inibir a desigualdade e estimular o consumo dos trabalhadores e de bens públicos.

Desta forma, o principal obstáculo a uma boa gestão da economia capitalista não é cognitivo, é político. Talvez a própria cegueira cognitiva resulte do obstáculo político: o medo da democracia. O medo dos ricos e seus economistas é que a extensão do planejamento democrático para garantir o alto crescimento (e os grandes lucros resultantes) restrinja a autonomia empresarial e estimule cidadãos a querer mais autonomia no mundo do trabalho e ampliação do tempo livre.

Como escrevia o economista polonês Michal Kalecki já em 1943, a minoria que controla a riqueza capitalista apoia a austeridade contra o pleno emprego e o gasto público por apreciar “mais a ‘disciplina nas fábricas’ e a ‘estabilidade política’ do que os lucros”. Ou não?

Uma agenda para destruir um País, por Esther Dweck

Compartilho artigo de Esther Dweck publicado em alertasocial.com.br.

Não me agrada constatar que todos os meus temores em relação às medidas que seriam adotadas pelos diferentes grupos de interesse que se uniram para golpear a democracia estão se realizando com espantosa velocidade.

Não tenho nenhum prazer em observar a situação. No período de 1971 – 1974, quando cursei a Faculdade de Economia, em plena ditadura militar, o Brasil foi usado como laboratório de teste de ideias econômicas anti-distributivas – ficou famosa, na época, a frase de Delfim Neto de que o bolo (a economia) precisava crescer primeiro para depois haver distribuição (da renda). Bom, quem comeu, comeu. Quem não pode ter acesso aos benefícios do crescimento ficou “chupando os dedos”. Passados 45 anos e a lenga-lenga é a mesma de sempre.

Como resultado da política econômica “austericida” adotada por Temer e seus ministros amestrados, no curto prazo as pessoas perdem seus empregos, as empresas fecham as portas, a depressão econômica se instala, a economia se desnacionaliza. No médio prazo, o crescimento, sobre uma base econômica super deprimida, pode ocorrer, com uso de capacidade ociosa nas empresas, sem criação de empregos significativa. No longo prazo, os empregos retornam, com baixa qualidade e níveis médios salariais abaixo dos níveis pré-crise. Mas não retornam às quantidades prévias, pois as empresas aprenderam a extrair mais trabalho e produção de um número menor de trabalhadores. Como esta sendo destruída toda a rede de proteção social implantada nos treze anos de governos Lula e Dilma, além do ataque à política de reajuste do salário mínimo, à previdência social e à legislação trabalhista, o resultado final será, lamento registrar, mais miséria e desolação.

O texto de Esther Dweck representa um grito de alerta. Infelizmente um grito para fundamentalistas surdos. Leia o texto abaixo.

Paulo Martins

Uma agenda para destruir um País, por Esther Dweck

Nesta terça (7), houve uma apresentação do Ministro Meirelles para o “Conselhão”. A apresentação poderia se chamar como destruir um projeto de desenvolvimento inclusivo, mas segundo ele é a pauta para retomada do crescimento. Os pontos apresentados deixariam os ideólogos do Consenso de Washington com inveja: como não pensaram em tanta maldade junta?

Publicado em 9 de março de 2017

O governo Temer tem se aproveitado de diversas medidas dos governos Lula e Dilma. A transposição do Rio São Francisco é talvez o exemplo mais emblemático. Outro exemplo é o “Conselhão”, criado por Lula em 2003, para dialogar com a Sociedade Brasileira, com academia, trabalhadores e empresários, foi reconfigurado por Temer.

Nesta terça (7), houve uma apresentação do Ministro Meirelles para o “Conselhão”. A apresentação poderia se chamar como destruir um projeto de desenvolvimento inclusivo, mas segundo ele é a pauta para retomada do crescimento. Os pontos apresentados deixariam os ideólogos do Consenso de Washington com inveja: como não pensaram em tanta maldade junta?

O neoliberalismo começou em 1973, com um golpe de Estado no Chile. No Brasil, ele entrou pela via eleitoral e, justamente por isso, foi mais tímido do que em outros países. A memória do regime militar e toda a agenda defendida na Constituição Cidadã ainda estavam muito frescas durante os Governos Collor e FHC para que fossem destruídos os pilares básicos da Constituição. Não faltaram tentativas, mas os instrumentos não foram destruídos.

Com a vitória de um projeto inclusivo nas urnas, em 2002, os instrumentos foram utilizados para promover, pela primeira vez na história do Brasil, um projeto de crescimento inclusivo. Podem existir várias críticas e muitos podem achar que faltou aprofundar em áreas-chave. Mas é difícil não reconhecer todos os avanços dos 13 anos que terminaram com mais um golpe.

Ontem, foi apresentada a destruição desses mecanismos pelo Sr. Meirelles.

Em primeiro lugar, ele propõe o ajuste fiscal permanente como condição necessária para retomada do crescimento, tendo como os elementos centrais dois pontos. A EC95/2016 (teto declinante dos gastos), que promoveu uma redução dos mínimos constitucionais de saúde e educação e irá impor diversos cortes nas despesas sociais. E o segundo ponto é a Reforma da Previdência, uma mudança que irá excluir diversos brasileiros do sistema e que o destrói como pilar de distribuição de renda e da proteção social no Brasil.

Eu não sei em que mundo eles vivem, mas há um movimento mundial para demonstrar que ajuste fiscal só aprofunda a crise econômica.

Na apresentação, Meirelles chegou a afirmar que o crescimento está sendo retomado. Eu não sei em qual País, porque os últimos números divulgados pelo IBGE mostram que, na margem, nos últimos dois trimestres de 2016, a economia voltou a piorar. O carryover para o crescimento de 2017, que é o crescimento da economia se esta ficar onde está, é de -1,1%. Ou seja, se nada acontecer, teríamos uma terceira queda do PIB. Algo visto apenas em países com grandes catástrofes. Depois, ele apresentou a tal Agenda de Produtividade e Crescimento no Longo Prazo. O início é uma agenda de desburocratização, sem impactos concretos e com alguma penalidade aos consumidores. O mais interessante é que apresentou reformas relacionadas ao crédito, sem fazer o básico, que era aumentar o crédito dos bancos públicos. O BNDES tem acumulado caixa ao invés de contribuir para retomada do crescimento. Os números são de mais de R$100 bilhões em caixa, fora a devolução antecipada de R$ 100 bilhões ao Tesouro.

Em seguida, vem o receituário de abertura comercial, com destaque para a liberação da venda de terra para estrangeiros. Consolidam assim a agenda entreguista imposta desde maio de 2016.

Mas a cereja do bolo é o slide onde apresenta as “Várias Reformas Liberalizantes”, como se as anteriores não fossem ingredientes típicos das agendas mais fundamentalistas do liberalismo econômico.

Os pontos principais dessas reformas liberalizantes são três. O primeiro é a destruição da legislação trabalhista, com terceirização geral e irrestrita, a prevalência do negociado versus o legislado e a flexibilização da jornada. O mais interessante é que o Brasil tinha, em 2014, a menor taxa de desemprego da história, sem que tivessem sido necessárias quaisquer dessas mudanças.

As outras duas medidas demonstram a falta total de compromisso com o desenvolvimento do País. A proposta é a reversão de medidas essenciais para garantir que recursos públicos ou recursos naturais do País sejam utilizados para gerar desenvolvimento tecnológico e emprego industrial no Brasil. Fim da margem de preferência nas compras governamentais e a “reforma” do conteúdo nacional do setor de Óleo e Gás, com a proposta de “horizontalização” e globalização dos requisitos de conteúdo nacional, que na prática elimina a exigência.

Mesmo que por uma questão estatística e pelos atuais estabilizadores automáticos a economia pare de cair e até encontre um crescimento positivo, se todas as propostas forem efetivamente implementadas, será o fim de um modelo de crescimento inclusivo e para todos.

Esther Dweck é professora do Instituto de Economia da UFRJ, atualmente assessora do Senado Federal.

O que está impedindo a volta do crescimento da economia mundial ?, por Joseph Stiglitz e Hamid Rashid

Mais um interessante artigo de Stiglitz e Rashid sobre a economia norte-americana e mundial.

O que está impedindo a volta do crescimento da economia mundial ?

NEW YORK – Sete anos após a crise financeira global entrar em erupção em 2008, a economia mundial continuou a tropeçar em 2015. Segundo o relatório das Nações Unidas Situação Econômica Mundial e Perspectivas 2016 , a taxa média de crescimento nas economias desenvolvidas diminuiu em mais de 54 % desde a crise. Estima-se que 44 milhões de pessoas estejam desempregadas nos países desenvolvidos, cerca de 12 milhões a mais que em 2007, enquanto a inflação atingiu o seu nível mais baixo desde a crise.

Mais preocupante, as taxas de crescimento dos países avançados também se tornaram mais voláteis. Isto é surpreendente, porque, como economias desenvolvidas com contas de capital totalmente abertas, elas deveriam ter se beneficiado do livre fluxo de capital e da partilha do risco internacional – e, portanto, experimentar pouca volatilidade macroeconômica. Além disso, as transferências sociais, incluindo as prestações de desemprego, deveriam possibilitar a estabilização do consumo.

Mas as políticas dominantes durante o período pós-crise – contenção orçamentária e flexibilização quantitativa (QE) pelos principais bancos centrais – têm oferecido pouco apoio para estimular o consumo das famílias, investimento e crescimento. Pelo contrário, eles tendem a piorar a situação.

Nos EUA, flexibilização quantitativa não aumentou o consumo e o investimento, em parte porque a maioria da liquidez adicional foi devolvida aos cofres dos bancos centrais sob a forma de reservas excedentes. O Regulatory Relief Act de Serviços Financeiros de 2006, que autorizou a Reserva Federal a pagar juros sobre as reservas necessárias e em excesso, prejudicou, assim, o objetivo principal de QE.

De fato, com o setor financeiro nos EUA à beira do colapso, a Lei de Estabilização Econômica de Emergência de 2008 transferiu a data efetiva para a oferta de juros sobre as reservas por três anos, para 1 de Outubro de 2008. Como resultado, as reservas excedentes realizadas no Fed aumentaram de uma média de US $ 200 bilhões durante 2000-2008 para $ 1600000000000 durante 2009-2015.

As instituições financeiras optaram por manter o seu dinheiro com o Fed em vez de emprestar para a economia real, ganhando quase US $ 30 bilhões – completamente livre de risco – durante os últimos cinco anos.

Isso equivale a uma generosa – e em grande parte oculta – subvenção do Fed ao setor financeiro. E, como consequência do aumento da taxa de juro do Fed no mês passado, o subsídio vai aumentar em US $ 13 bilhões este ano.

Incentivos perversos são apenas uma razão que muitos dos benefícios esperados de baixas taxas de juros não se concretizaram. Dado que QE conseguiu sustentar em quase zero as taxas de juros para quase sete anos, deveria ter encorajado os governos dos países desenvolvidos a emprestar e investir em infra-estrutura, educação e setores sociais. O aumento das transferências sociais durante o período pós-crise teria impulsionado a demanda agregada e diminuido as flutuações nos padrões de consumo.

Além disso, o relatório da ONU mostra claramente que, em todo o mundo desenvolvido, o investimento privado não cresceu como se poderia esperar, dadas as taxas de juro ultra-baixas. Em 17 das 20 maiores economias desenvolvidas, o crescimento do investimento permaneceu mais baixo durante o período após 2008 do que nos anos anteriores à crise; cinco experimentaram um declínio no investimento durante 2010-2015.

Globalmente, os títulos de dívida emitidos por sociedades não financeiras – que são supostamente para realizar investimentos fixos – aumentaram significativamente durante o mesmo período. Consistente com outras evidências, isto implica que muitas sociedades não financeiras tomaram emprestado, aproveitando as baixas taxas de juros. Mas, ao invés de investir, eles usaram o dinheiro emprestado para comprar de volta suas próprias ações ou adquirir outros ativos financeiros. QE estimulando, assim, aumentos acentuados de alavancagem, capitalização de mercado e lucratividade do setor financeiro.

Mas, de novo, nada disso era de muita ajuda para a economia real. Claramente, manter as taxas de juros em nível próximo de zero não conduz necessariamente a níveis mais altos de crédito ou investimento. Quando os bancos têm a liberdade de escolher, eles escolhem o lucro sem risco ou mesmo a especulação financeira sobre os empréstimos que apoiaria o objetivo mais amplo de crescimento econômico.

Em contraste, quando o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional empresta dinheiro barato para os países em desenvolvimento, impõe condições sobre o que eles podem fazer com ele. Para ter o efeito desejado, QE deveria ter sido acompanhada não só de esforços oficiais para restaurar os canais de crédito debilitados (especialmente aqueles dirigidos para pequenas e médias empresas), mas também por metas específicas de empréstimos para os bancos. Em vez de incentivar de forma eficaz os bancos a não emprestar, o Fed deveria ter penalizado os bancos pela realização de reservas em excesso.

Enquanto as taxas de juros ultra-baixas produziram poucos benefícios para os países desenvolvidos, impuseram custos significativos no desenvolvimento das economias emergentes. Uma não intencional, mas não inesperada, consequência de flexibilização da política monetária tem sido o forte aumento nos fluxos de capital transfronteiriços. O total de fluxos de capital para os países em desenvolvimento aumentou de cerca de US $ 20 bilhões em 2008 para mais de US $ 600 bilhões em 2010.

Na época, muitos mercados emergentes tiveram dificuldades para administrar o súbito aumento dos fluxos de capital. Muito pouco foi destinado para investimento fixo.

Na verdade, o crescimento do investimento nos países em desenvolvimento diminuiu significativamente durante o período pós-crise. Este ano, os países em desenvolvimento, em conjunto, são esperados registrar sua primeira saída líquida de capitais – totalizando US $ 615 bilhões – desde 2006.

Nem a política monetária, nem o setor financeiro estão fazendo o que é deveriam fazer. Parece que o fluxo de liquidez tem desproporcionalmente ido para a criação de riqueza financeira e inflar bolhas de ativos, em vez de fortalecer a economia real.

Apesar de fortes quedas nos preços das ações em todo o mundo, a capitalização das bolsas em percentagem do PIB mundial permanece elevada. O risco de outra crise financeira não pode ser ignorado.

Existem outras políticas que mantêm a promessa de restaurar o crescimento sustentável e inclusivo. Estas começam reescrevendo as regras da economia de mercado para garantir uma maior igualdade, mais pensamento de longo prazo, e controlando o mercado financeiro com uma regulamentação eficaz e estruturas de incentivo apropriadas.

Mas grandes aumentos no investimento público em infraestrutura, educação e tecnologia também serão necessários. Estes terão que ser financiados, pelo menos em parte, pela imposição de taxas ambientais, incluindo os impostos de carbono e os impostos sobre o monopólio e outras rendas que se tornaram generalizada na economia de mercado – e contribuiram enormemente para a desigualdade e crescimento lento.

Tradução: Paulo Martins

lucratividadesubvenção do FED ao setor financeirosubvenção do FED ao setor financeiro,As opiniões aqui expressas não refletem as opiniões das Nações Unidas ou de seus Estados membros.

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JOSEPH E. STIGLITZ
Joseph E. Stiglitz, recipient of the Nobel Memorial Prize in Economic Sciences in 2001 and the John Bates Clark Medal in 1979, is University Professor at Columbia University, Co-Chair of the High-Level Expert Group on the Measurement of Economic Performance and Social Progress at the OECD, and Chief… READ MORE
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HAMID RASHID
Hamid Rashid is Chief of Global Economic Monitoring at the United Nations Department of Economic and Social Affairs.

 

 

Dimensões estratégicas do desenvolvimento brasileiro: desafios da dinâmica internacional

Saiu o número 23 da Revista Política Social e Desenvolvimento, com cinco artigos. Clique nos links e acesse os artigos:

Versão digital:

http://issuu.com/politicasocial/docs/revista_politica_social__e_desenvol

Versão em PDF:

http://plataformapoliticasocial.com.br/wp-content/uploads/2015/10/Revista_23.pdf

O texto a seguir é a apresentação do trabalho, copiado da página da plataformapoliticasocial.

Os artigos aqui reunidos são todos baseados em estudos realizados ao longo de 2014, no âmbito do programa de trabalho do Centro de Altos Estudos Brasil do Século XXI, por professores dos Institutos de Economia da UFRJ e da Unicamp, instituições idealizadoras e fundadoras do Centro. Nesta edição da Revista Política Social e Desenvolvimento, parte dessas contribuições são oferecidas em versão resumida. A íntegra dos estudos será apresentada nos volumes 4 e 5 da série “Dimensões Estratégicas do Desenvolvimento Brasileiro”, produzida pelo Centro de Altos Estudos, e estará disponível em breve na página da instituição na internet
(http://wtww.altosestudosbrasilxxi.org.br/).

O objetivo da publicação é aprofundar a caracterização e compreensão dos problemas estruturais, potencialidades e opções estratégicas de desenvolvimento do Brasil, incluindo dilemas e desafios frente à crise global, a inserção econômica e geopolítica internacional do país.

São múltiplas as abordagens e leituras possíveis sobre o tema do desenvolvimento nacional, sendo também numerosos os recortes possíveis.

A matriz conceitual em torno da qual se estrutura a publicação tem como elemento constitutivo a visão do desenvolvimento como um processo que combina, simultaneamente, (i) crescimento econômico e transformação das bases técnicas do sistema produtivo, e (ii) redistribuição da renda e redução das desigualdades sociais e regionais, sustentabilidade ambiental, aperfeiçoamento da democracia e afirmação dos interesses estratégicos nacionais e da soberania do Estado brasileiro.

Esta visão de desenvolvimento é partilhada no Brasil por muitos especialistas, intelectuais e acadêmicos, mas não é hegemônica, concentrando-se seus estudos em algumas universidades e centros de pesquisa mais abertas ao pensamento crítico, progressista e heterodoxo. Foi buscando ampliar esse debate que surgiu a ideia de elaborar e publicar duas edições da Revista Política Social e Desenvolvimento (# 23 e #24 ), apresentando versões resumidas dos artigos.

Carlos Aguiar de Medeiros, Fabio Freitas e Franklin Serrano (“Regimes de política econômica e o descolamento da tendência de crescimento dos países em desenvolvimento”) analisam a tendência do crescimento maior dos países em desenvolvimento em relação aos países desenvolvidos ocorrida a partir dos anos de 2000. Esse processo de descolamento (“decoupling”) resultou da grande melhoria das condições externas que determinam a restrição de balanço de pagamentos da periferia, em relação à difícil situação dos anos 1990.

O artigo analisa as causas mais importantes desse processo, cujos elementos combinados tiveram como resultado global pelo menos dez anos sem crises de balanço de pagamentos originadas na periferia e uma rápida recuperação das economias em desenvolvimento por ocasião da crise mundial de 2008.

A questão estratégica que se coloca é avaliar se este padrão de crescimento que prevaleceu na primeira década do século XXI tende a se manter na segunda década do século, mesmo que a taxas de crescimento mais baixas por causa da forte desaceleração dos já baixos ritmos de crescimento das principais economias dos países desenvolvidos.

Os dois próximos artigos aprofundam os desafios do setor externo. André Biancarelli (“O setor externo da economia brasileira, depois da bonança e da tempestade”), analisando os vários desequilíbrios atuais enfrentados pelo Brasil, critica a forma convencional pela qual os problemas do setor externo têm sido descritos. Sua visão alternativa não compartilha nem do fatalismo quanto ao passado e presente nem do otimismo quanto ao futuro exportador, da visão predominante. Para o autor, os problemas do setor externo brasileiro são graves, mas não são os mesmos do passado. Provavelmente a situação atual não evolui para uma crise cambial, mas ao mesmo tempo a desvalorização não deve ser capaz de corrigir os desequilíbrios, que têm natureza mais estrutural. Esta questão é aprofundada por Pedro Rossi (“Ciclo de liquidez e taxa de câmbio no Brasil”).

Segundo ele, na história recente o cenário externo é elemento importante na determinação da flutuação da taxa de câmbio. Essa influência ocorre tanto na volatilidade, que responde às mudanças súbitas de expectativas dos agentes, quanto no patamar da taxa de câmbio, que obedece às mudanças de orientação da política monetária dos países centrais e provoca tendências de apreciação e depreciação da moeda brasileira. O artigo explora os motivos para a forte influência desses fatores externos e alerta para o necessário debate sobre uma agenda de regulação financeira que reduza a sensibilidade da moeda brasileira ao ciclo de liquidez e às motivações financeiras dos investidores internacionais.

Simone Deos analisa as estratégias e as tendências na dinâmica do sistema bancário dos EUA intensificadas a partir da crise financeira de 2007-2008 (“Transformações no sistema bancário norte-americano e o papel da regulação”). Destaca o aprofundamento da concentração no setor, associado ao crescimento das grandes holdings bancárias, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, se ampliou a preocupação de governos e órgãos de regulação e supervisão com a presença de instituições percebidas como “grandes demais”. A autora sublinha que os problemas não só permaneceram após a crise, como foram agravados. Alerta que, a despeito de uma nova regulação sobre o sistema bancário estar em processo de implantação nos Estados Unidos, não houve uma reforma efetiva do sistema, a qual articulasse a nova regulação prudencial à busca de um sistema mais estável e voltado ao financiamento do desenvolvimento.

Finalmente, Ana Rosa Ribeiro de Mendonça (“Bancos de desenvolvimento e políticas anticíclicas: um estudo de experiências no Brasil e Chile”) analisa comparativamente dados e indicadores bancários de Brasil e Chile. Demonstra que, em ambos os países, observa-se, nos anos de 1950, a criação de instituições públicas que tinham como intuito estimular o estabelecimento de setores produtivos entendidos como fundamentais para o desenvolvimento econômico. Essas instituições ocuparam um papel importante no processo de industrialização das economias em questão, até os anos 1970.

Os dois países passaram por intenso processo de liberalização econômica e, neste bojo, financeira, sobretudo nos anos de 1980 e 1990. A despeito disso, em ambos os casos, o sistema de financiamento público permaneceu (caminhou-se para a estruturação de um mercado de capitais atuante, que assumiu protagonismo nesse processo).

A autora sublinha que nos anos imediatamente anteriores à crise financeira internacional de 2007-2008, os bancos públicos no Brasil e Chile atuaram de forma pró-cíclica. No após crise, o comportamento das instituições nos dois sistemas se diferencia: enquanto no Chile diminui a intensidade de atuação no crédito, no Brasil, os bancos públicos continuam a emprestar em ritmo mais intenso do que os bancos privados.

Boa leitura!

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UM CONTO MORAL GREGO – Joseph E. Stiglitz

NOVA YORK – Quando a crise do euro começou a meia década atrás, economistas keynesianos previram que a austeridade que estava sendo imposta à Grécia e aos outros países em crise seria um fracasso. Ela poderia sufocar o crescimento e aumentar o desemprego – e até mesmo fracassar no intento de diminuir a relação da dívida/PNB. Outros – na Comissão Europeia, o Banco Central Europeu, e algumas universidades – falaram das contrações expansionistas. Mas mesmo o Fundo Monetário Internacional argumentou que as contrações, como cortes nos gastos do governo, eram apenas isso – contracionistas.

Nós quase não precisávamos de um outro teste. A Austeridade havia falhado repetidamente, desde o seu uso no passado no governo do presidente norte-americano Herbert Hoover, o que transformou o crash da bolsa na Grande Depressão, até os “programas” do FMI impostos sobre a Ásia Oriental e a América Latina nas últimas décadas. E, no entanto, quando a Grécia começou a ter problemas, ela foi tentada novamente.

Grécia teve sucesso em grande parte em seguir o ditame fixado pela “troika” (Comissão Europeia, o BCE eo FMI): ela converteu um déficit orçamentário primário em um superávit primário. Mas a contração nos gastos do governo tem sido previsivelmente devastadora: desemprego de 25%, uma queda de 22% do PIB desde 2009, e um aumento de 35% na relação dívida/PNB. E agora, com a vitória eleitoral esmagadora do partido anti-austeridade Syriza, os eleitores gregos deram um basta.

Leia mais em (texto em inglês)

 

http://www.project-syndicate.org/commentary/greece-eurozone-austerity-reform-by-joseph-e–stiglitz-2015-02#IqpuJkFSHotm85Rm.99

The Politics of Economic Stupidity – Joseph Stiglitz

Trata-se de artigo do Prêmio Nobel em Economia Joseph Stiglitz intitulado “The Politics of Economic Stupidity”. Na opinião do autor, a estagnação observada em quase todo o mundo em 2014 é artificial, criada pelo homem. Resulta da política, que ele considera estúpida, e de políticas que deram choques negativos na demanda. Na falta de demanda, investimentos e empregos não se materializam. Cortes de gastos públicos, resultantes das políticas de austeridade adotadas, especialmente na zona do Euro, agravaram os problemas já existentes devidos à fraqueza da demanda privada. Os Estados Unidos adotaram a austeridade mais branda e obteve o melhor desempenho econômico. Ainda segundo Stiglitz, o mundo precisa é de demanda e o setor privado não será capaz de gerar a demanda necessária. Mas a política fiscal poderia. Há um amplo leque de opções de investimentos públicos que poderiam trazer taxas de retorno superiores ao custo real de capital. O autor encerra o artigo afirmando que o maior problema mundial para 2015 não é econômico. É político.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

Leia o artigo original em:
Read more at http://www.project-syndicate.org/commentary/politics-of-economic-stupidity-by-joseph-e–stiglitz#gGoAgm1hJyDQeRTw.99

Lapso de Razão da Europa – Joseph Stiglitz

Finalmente, a economia dos Estados Unidos está mostrando sinais de recuperação de uma crise que irrompeu no fim da administração do Presidente George W. Bush, quando uma semi-explosão do seu sistema financeiro enviou um choque em ondas ao redor do mundo. Mas não é uma recuperação forte; na melhor das hipóteses, a distância entre onde poderia ter estado e onde ela está hoje não está aumentando. Se está diminuindo, isto está sendo feito muito lentamente; o prejuízo causado pela crise parece ser duradouro.

Então, novamente, poderia ter sido pior. Do outro lado do Atlântico, existem poucos sinais de uma modesta recuperação ao estilo dos Estados Unidos: A distância onde a Europa está e onde ela poderia ter estado na ausência das contínuas crises de crescimento. Na maioria dos países da União Européia, o Produto Nacional Bruto per capita é inferior àquele anterior à crise. Meia-década perdida está se tornando, rapidamente, em uma década completa. Por trás das estatísticas frias, vidas estão sendo arruinadas, sonhos estão sendo frustrados e famílias estão sendo desfeitas (ou não estão sendo formadas) uma vez que a estagnação – recessão em alguns países – continua ano após ano.

A União Européia tem uma população altamente educada e talentosa. Seus países-membro têm um arcabouço legal forte e as sociedades funcionam bem.

Tradução: Paulo Martins

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Paul Krugman e a Recuperação Econômica no Governo Obama – Jeffrey Sachs

Por muitos anos e várias vezes em determinado mês, o laureado economista, prêmio Nobel, colunista do New York Times e blogueiro Paul Krugman tem enviado uma mensagem principal a seus leitores fiéis: os “austeros” cortadores-de-déficit (é como ele chama os partidários da austeridade fiscal) estão enganados. Corte fiscal combinado com demanda privada fraca poderia levar a um desemprego cronicamente alto. De fato, cortes no déficit poderiam trazer de volta o ano de 1937, quando Franklin D. Roosevelt reduziu prematuramente os estímulos da “New Deal” e, assim, jogou os Estados Unidos na recessão.
Bem, o Congresso e a Casa Branca realmente desempenharam um papel austero de meados de 2011 em diante. O déficit orçamentário federal caiu de 8,4% do Produto Nacional Bruto em 2011 para uma estimativa de 2,9% do Produto Nacional Bruto para todo o ano de 2014. E, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, o déficit estrutural (algumas vezes chamado de “déficit de pleno-emprego”), uma medida do estímulo fiscal, caiu de 7,8% do Produto Nacional Bruto potencial para 4% do Produto Nacional Bruto potencial de 2011 a 2014.
Krugman tem se manifestado de forma veemente de que a redução do déficit prolongou e, mesmo, intensificou o que ele chama, repetidamente, de “depressão” (ou, em algumas vezes, de “depressão de baixo-grau”). Somente tolos como os líderes do Reino Unido (os quais o fizeram relembrar dos Três Patetas) poderiam ter opinião diversa.

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