O petróleo é nosso!

Somos 7 bilhões de seres humanos no mundo

Um bilhão de pessoas situadas no topo da pirâmide social consome 50% de toda a energia produzida no mundo.

Os três bilhões de pessoas situadas no nível intermediário da pirâmide consome 45% da energia.

Os três bilhões de pessoas da base da pirâmide consome os 5% restantes.

O consumo de energia elétrica em aparelhos para condicionamento de ar nos EUA é maior do que o consumo de energia elétrica em toda a África.

Fonte: Eduardo Gianetti

Há um ano eu publiquei esta informação no Facebook.

A desigualdade de riqueza, renda e consumo entre nações – e não só na comparação entre os países ricos e a África – e entre as pessoas de um determinado país, como o Brasil, por exemplo, é brutal.

Estes dados são uma pequena amostra. Quando os norte-americanos falam em manter seu padrão de vida – o “American way of life” – o que eles estão querendo dizer é que não aceitam ceder um milímetro para diminuir estas desigualdades.

A forma predatória dos norte-americanos se relacionarem com os outros países e com o meio ambiente reflete somente a leitura que eles, os norte-americanos, têm do mundo: estamos todos aqui para servi-los e não deixar que lhes falte nada, nem energia, nem drogas. Eles necessitam ser os maiores consumidores de tudo, mesmo que sejam os maiores poluidores globais.

Há abundância de dados estatísticos mostrando com indiscutível clareza a grande desigualdade de riqueza e renda que o funcionamento da máquina capitalista global turbinada pelo neoliberalismo trouxe para o mundo nos últimos 30 anos.

Mesmo dentro dos Estados Unidos, a desigualdade de riqueza e renda entre as pessoas aumentou a ponto de tornar o sistema econômico norte-americano uma máquina defeituosa, que gera riqueza para poucos com subtração de renda da grande maioria dos seus próprios cidadãos.

A drenagem de recursos das outras nações, especialmente o petróleo barato, para sustentar o desenvolvimento dos Estados Unidos, foi um fenômeno comum no passado. A novidade é que o fenômeno da absurda concentração de riqueza e renda passou a ser um fenômeno interno, nacional, que afeta os próprios cidadãos norte-americanos.

O resultado disso é o crescente egoísmo, individualismo, xenofobia, descaso com o meio ambiente. Em resumo: Trump.

Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.

Como sair da crise e retomar o desenvolvimento? Por Pedro Paulo Zahluth Bastos

Publicado em Carta Maior
Como sair da crise e retomar o desenvolvimento?
05/04/2017 14:51 – Copyleft

O princípio básico é que se deve financiar o desenvolvimento com progressividade tributária, como, por exemplo, cobrando imposto sobre lucros e dividendos
Pedro Paulo Zahluth Bastos*
Roberto Brilhante / Carta Maior

Confira abaixo a palestra completa do professor Pedro Paulo Zahluth Bastos:
Como costuma ocorrer em momentos de crise econômica e defensiva política, políticos, intelectuais e economistas à esquerda do centro veem encurtado seu horizonte de preocupação para o curto prazo da administração da crise. A maior vitória ideológica da direita, nestas circunstâncias, é usar a crise exatamente para moldar os termos do debate público e limitar o debate estratégico às opções que lhe agradam. Ou seja, olhar à esquerda e enxergar um campo bem domesticado e incapaz de pensar grande.

Exemplo disso é o fato de que a insistência, até o esgotamento, da aposta na retomada da credibilidade junto aos mercados, com Joaquim Levy, já havia restringido tanto o governo Dilma Rousseff a ponto de impedir que saísse dos termos da agenda nacional definidos pelo neoliberalismo.

Em meio a uma crise que exigia a forte retomada contracíclica do investimento público, a vacilação e a aceitação do diagnóstico de que o gasto público era, em geral, um problema, não deixava ao governo e, em particular, a Nelson Barbosa senão a “alternativa” de propor mais do mesmo que já propunha desde 2014, isto é, mais limitação do gasto público e mais corte de direitos sociais, inclusive à previdência social. Não surpreende que a oposição usasse o discurso da austeridade como pretexto absurdo de um impeachment ilegítimo, pois a ausência de uma narrativa oficial alternativa era evidente a qualquer um que não estivesse imerso nos jogos de poder de curto prazo em Brasília.

O resultado é que a preocupação excessiva com o ajuste fiscal – que só é possível com a retomada do crescimento, e não o contrário – aprofundou a recessão, o próprio desajuste fiscal e a legitimação pública de uma agenda estratégica regressiva, marcada pelo aprofundamento da desigualdade social e o corte de direitos.

Já está na hora de voltar a pensar grande, igual ao tamanho da desigualdade social e dos desafios ao desenvolvimento brasileiro.

Ajuste fiscal permanente: o feitiço contra o feiticeiro

Para isto, ajuda que o feitiço já se volta contra o feiticeiro. A estratégia política dos golpistas era paralisar o legado institucional e programático construído a partir da Constituição de 1988 e retomado no governo Lula, torcendo para que o povo o esquecesse até 2018 à medida que a economia se recuperasse depois do impeachment.

A “fada da confiança”, contudo, não fez milagres e a economia até acelerou sua contração nos dois trimestres depois do impeachment. Isto aumentou a nostalgia da população perante o legado do lulismo. Como este legado envolvia direitos sociais materializados no gasto público, como o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) e o Bolsa-Família (BF), sua própria paralisia deliberada tem boa responsabilidade pelo aprofundamento da recessão. Logo, sua retomada é o caminho óbvio para a recuperação, com benefícios econômicos e políticos rápidos.

Por outro lado, ter usado a rigidez da meta fiscal anual como pretexto do impeachment e ter anunciado seu cumprimento rígido como condição da credibilidade deixa o governo Temer, agora, preso a seu feitiço. A emenda constitucional do Teto do Gasto só vai ter efeitos em 2018, pois a rápida desinflação em 2017 ainda permite, em tese, o aumento do gasto público real em relação a 2016. No entanto, o baixo desempenho da arrecadação tributária já exige contingenciamento bimestral do orçamento público como o anunciado no final de março: 42,1 bilhões em cortes, além da reversão das desonerações da folha de pagamento salarial que foi vetada ao governo Dilma. Mantida a meta de déficit de 2017 (R$ 139 bilhões), o contingenciamento anunciado já determina uma queda do gasto público real em 2017, como se a emenda do teto já valesse.
Até o final do ano, não se pode descartar novos contingenciamentos, propostas de elevação de alíquotas de impostos e a suprema humilhação: praticar pedaladas ou propor um aumento da meta de déficit para além dos R$ 139 bilhões inscritos em lei. Ao mesmo tempo em que isto pode constranger a recuperação da economia, desmoraliza os austeros e força da entrada do óbvio para dentro do debate econômico.

O que é óbvio é que uma recuperação firme passa inevitavelmente por liberar o déficit público por um tempo. O gasto público não pode cair acompanhando a arrecadação tributária, pois sua contração determina queda das receitas privadas e até mesmo a falência de empresas privadas. Daí a arrecadação tributária cai por causa da queda do gasto privado, e só o déficit público pode interromper o círculo vicioso.

Se a economia se recuperar lentamente a despeito de novos contingenciamentos em 2017, a emenda do teto do gasto público pode jogá-la de novo para baixo em 2018. A recuperação, portanto, exige reverter a emenda constitucional do teto do gasto e criar um novo regime fiscal que desamarre o investimento público e iniciativas anticíclicas, quando necessárias. Isso é condição indispensável para a retomada do desenvolvimento e sua sustentação no tempo.

Em uma economia com volume enorme de recursos ociosos, as taxas de juros reais podem cair sem risco para a inflação, barateando o financiamento da dívida pública. Como se sabe, são os juros da dívida, e não os resultados primários, que determinam a aceleração do endividamento recente. A queda dos juros também abre espaço para uma desvalorização cambial gradual, necessária para conferir competitividade para alguns ramos industriais. A armadilha dos juros altos e do câmbio baixo não foi desarmada desde 1992, mas é essencial que seja para sustentar um novo ciclo de desenvolvimento com redistribuição de renda.

Renegociação e alongamento de dívidas

Como as empresas estão endividadas e com capacidade ociosa, a recuperação não vai partir do investimento privado e da expansão do crédito. Logo, mecanismos de crédito precisam basicamente renegociar e alongar o pagamento das dívidas. Um pool de bancos públicos deve ser mobilizado e atrair bancos privados para avaliar e alongar dívidas conjuntamente (tecnicamente, fazer empréstimos sindicalizados).

A renegociação das dívidas, sobretudo de empreiteiras e construtoras, é de alta prioridade, porque sua falência implicará em novas quebras de fornecedores menores, aumento do desemprego e desnacionalização. Isso passa por acelerar acordos de leniência e reverter o caráter anti-nacional da Lava-Jato.

Como as famílias também estão endividadas, a ação conjunta dos bancos públicos também é necessária para reduzir juros e facilitar renegociação de dívidas de consumidores. Além disso, é fundamental alongar a vigência do seguro-desemprego, desde junho de 2015 limitado a quatro ou cinco parcelas na primeira solicitação; mais quatro na segunda e mais três na terceira. O desemprego de longo prazo, porém, já se instalou no país, e não podemos produzir mendigos ou algo pior por falta de opção.

Enfim, a renegociação da dívida com estados e municípios é fundamental. É preciso garantir gastos correntes e conclusão de obras paralisadas, barrando a imposição da emenda constitucional do teto de gastos federais e sua imposição nos contratos com estados.

A retomada do legado paralisado

Como a maturação de novos projetos (e bandeiras) de longo prazo é lenta (por motivos de engenharia técnica, financeira e ambiental), eles podem ser planejados enquanto são reativados vários programas desativados com Temer, sobretudo oito:

1.Política de encomendas públicas com conteúdo tecnológico local, inclusive na Petrobrás;

2.Retomada de obras de grande impacto (transposição do São Francisco com projetos de irrigação, conclusão das ferrovias) e em grandes cidades (principalmente mobilidade urbana);

3.Minha Casa, Minha Visa, vinculado com urbanização de favelas, ocupações e loteamentos ilegais, e programa de substituição energética;

4.Apoio federal à atenção primária de saúde, UBSs, Farmácia-popular e Mais-médicos;

5.Expansão de Institutos Federais de Ensino e do Pronatec, depois campus universitários;

6.Elevação de salário mínimo;

7.Ampliação do Bolsa-Família e da linha de pobreza, inclusive com 13º salário;

8.Fortalecimento da agricultura familiar, com apoio à reforma agrária e formação de cooperativas.

O princípio central é reverter a marginalização social e, ao universalizar infraestrutura e serviços públicos, canalizar o crescimento do mercado interno para indução e diversificação de investimentos privados. Que novos projetos e bandeiras, no mesmo sentido, podem ser planejados?

1.O programa Saneamento para Todos deve ser transformado em prioridade nacional, eventualmente convertido no programa Água para Todos para marcar a prioridade e articulá-lo ao reaproveitamento;

2.Emprego Para Todos (e seguro-desemprego para todos que precisem);

3.Banda Larga para Todos: universalizar o acesso à internet e democratizar a produção de conteúdo;

4.Luz do Sol Para Todos: universalizar Placas Solares e Usinas Eólicas, começando com programa-piloto no Semiárido, depois em hospitais, escolas e universidades; a seguir estendendo para favelas e loteamentos ilegais, substituindo “gatos”, de modo que ninguém perca, todos ganhem.

Como financiar?

O princípio básico é que não é preciso cortar direitos para financiar o investimento público. A rejeição das reformas golpistas (Previdência, Trabalhista, Teto do Gasto) deve ser feita lembrando o tamanho da sonegação anual (R$ 500 bilhões), dívida ativa da União (R$ 1,8 trilhão), dívida ativa de cobrança imediata (R$ 260 bilhões) e dívida com a Previdência Social (R$ 426 bilhões). No entanto, fazer cumprir a lei tributária também exige cumprir a lei do teto do salário do funcionalismo público, objeto de várias distorções que o corrompem.

Além de um força-tarefa para combate à sonegação e cobrança da dívida ativa, há três Iniciativas tributárias e financeiras emergenciais que podem ser propostas:

1.CPMF de início com alíquota de 0,01% ou, se houver resistência, no limite até 0,001% (para atacar a sonegação: quem dirá não?);

2.Acelerar liberação do FGTS para obras em saneamento, e reforçá-las com bancos públicos e, se quiserem, privados, iniciando o Água Para Todos;

3.Usar parte das reservas cambiais para constituição de um Fundo Social de Desenvolvimento, e outra parte como garantia para empréstimos de longo prazo junto ao Banco dos Brics, estimulando a concorrência do BID e do Banco Mundial.

O princípio básico é que se deve financiar o desenvolvimento com progressividade tributária. Conforme delineado no documento Austeridade e Retrocesso, cabe iniciar com a cobrança imediata (no ano seguinte à aprovação legal) do imposto sobre lucros e dividendos distribuídos das empresas para as pessoas físicas e, dois anos depois, fim da dedução de juros sobre capital próprio.

É possível trocar o aumento da progressividade de impostos diretos (imposto de renda, herança, rural, fortunas) e eliminação de isenções regressivas (contribuições sociais; saúde; subsídios empresariais) por aumento da faixa de isenção do IR e unificação/redução de alíquota de impostos em cascata.

Além disso, é possível recorrer à cooperação internacional. Por exemplo, por que não propor um fundo ambiental internacional para apoiar o Luz do Sol Para Todos (Sunshine for All), com programas-pilotos para placas solares e usinas eólicas no Semiárido do Brasil e na África? No Brasil, o objetivo inicial seria apoiar a irrigação e a agricultura familiar no Semiárido, reduzir a Conta de Desenvolvimento Energético e a conta de luz de repartições públicas, além de estimular um novo ramo de atividade verde e tecnologicamente avançado.

Estas são algumas ideias que precisamos aprofundar para retomar a esperança no futuro e assegurar o desenvolvimento de um Brasil para todos. Assim como devemos pensar grande nas finalidades, a ação também deve priorizar a Grande Política, inspirando grandes massas. Não adianta se autolimitar, evitando políticas que desagradem parcelas ideologizadas e radicais da classe média e do empresariado; parte delas só será ganha politicamente com a retomada do crescimento, uma boa parte nem com isso. A busca da unanimidade paralisa. Lutemos por um Brasil para todos, mas de baixo para cima.

Governo Temer: sob a sombra de uma crise permanente

A mídia de interesses nacional faz jogo duplo com medo de perder seu resto de credibilidade.

Precisa apoiar Temer até ele completar o pacote de maldades motivador do golpe – estão no forno do inferno sendo preparadas em fogo alto, a reforma da previdência e a destruição da CLT – e, ao mesmo tempo, teme os efeitos de manter apoio a um governo muito impopular.

Essa mídia de interesses passa por uma fase de transição da estratégia de curto para a estratégia de médio prazo. Enquanto não desembarca do apoio ao governo Temer, vai preparando os próximos capítulos da cena política nacional.

As ORGANIZAÇÕES são profissionais, como costumam ser na Itália, na Colômbia, nos Estados Unidos, no mundo todo. Estão sempre implementando suas estratégias de curto, médio e longo prazos, manipulando a opinião pública segundo seus interesses no tempo.

Embora eu discorde de alguns pontos implícitos no artigo da DW.com, tais como apresentar a queda de juros como indicador de melhora no ambiente econômico quando, na verdade, a queda da inflação e, por consequência, a queda dos juros nominais, são sinais de fraqueza da economia e não de sua robustez, compartilho o artigo para que os leitores deste blog possam ter acesso a informações que, de alguma forma, servem de contraponto àquelas selecionadas e divulgadas pela mídia de interesses nacional.

Leia abaixo.

Paulo Martins

Publicado em dw.com

ANÁLISE
Sob a sombra de uma crise permanente

Plano de Temer era ganhar legitimidade popular com retomada da economia e estabilização política. Seis meses depois, escândalos e posição ambivalente frente à Lava Jato ofuscam reformas de um governo que já parece velho.

Em fevereiro, uma pesquisa apontou que a avaliação positiva do governo é de apenas 10,3%

Quando o então presidente interino Michel Temer tomou posse definitiva no cargo em 31 de agosto de 2016, atores políticos em Brasília previram que, com o afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, o novo governo finalmente ganharia força, aprovaria reformas econômicas e estabilizaria a situação institucional do país. Seis meses depois, alguns indicadores econômicos mostram sinais positivos – os juros caíram, as contas públicas melhoraram –, e o governo conseguiu aprovar algumas reformas, quase todas controversas.

Mas os sinais positivos na economia e a habilidade do governo de lidar com o Congresso têm sido ofuscados pelos constantes escândalos envolvendo o núcleo duro do governo e a posição ambivalente dele em relação à Operação Lava Jato. Além disso, o Planalto sofre com a expectativa da divulgação das delações da Odebrecht, as constantes trocas de ministros e a permanente impopularidade de Temer. Parte da economia pode estar reagindo, mas a política ainda segue o receituário de crise.

A semana passada foi praticamente um microcosmo de todos esses fatores. No dia 21 de fevereiro, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, comentou que a inflação caiu pela metade em relação ao início de 2016 e destacou a melhora em alguns indicadores de confiança. Segundo Meirelles, “a recessão acabou”.

O governo Temer esperava passar os dias seguintes colhendo os dividendos desses anúncios, mas uma série de episódios logo enterrou essa expectativa.
Na noite de 22 de fevereiro, o tucano José Serra (PSDB-SP) pediu demissão do cargo de ministro das Relações Exteriores, marcando a oitava baixa na Esplanada dos Ministérios desde que Temer assumiu interinamente a Presidência, em maio de 2016.

No dia seguinte, o governo finalmente anunciou um novo nome para ocupar o Ministério da Justiça. Só que a escolha do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) repercutiu mal em parte do PMDB, que desejava outro nome. O vice-presidente da Câmara, Fábio Ramalho (PMDB-MG), anunciou que iria romper com o governo.

No mesmo dia, a Lava Jato mirou em Jorge e Bruno Luz, pai e filho lobistas que atuavam como operadores do PMDB na Petrobras.

No dia 24, foi a vez de um ex-assessor de Temer, o advogado José Yunes, revelar à imprensa que atuou como “mula” para o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, um dos homens fortes do governo Temer. Segundo Yunes, ele recebeu, a pedido do ministro, um pacote de dinheiro de um operador do PMDB durante as eleições de 2014.
O episódio atingiu Padilha em cheio. No dia seguinte, o ministro alegou que precisava fazer uma cirurgia e se afastou temporariamente do cargo. Sua volta ainda é uma incógnita. Em novembro, um escândalo já havia derrubado outro ministro próximo de Temer, Geddel Vieira Lima, implicado em um caso de tráfico de influência.

Novela sem fim

Outros meses de Temer na Presidência seguiram um roteiro semelhante. Para cada iniciativa do governo, um novo fato tratava de desestabilizar a situação.

Em outubro, quando o governo contava os dias para a votação da controversa PEC 241 na Câmara e apostava que sua aprovação era certa, as atenções foram bruscamente direcionadas para a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), antigo aliado de Temer. A partir daí, a expectativa de uma eventual delação de Cunha passou a rondar o Planalto.

Em 8 de fevereiro, mesmo dia em que o governo conseguiu no Senado a aprovação da reforma do ensino médio, um juiz federal determinou a suspensão da concessão de status de ministro para Moreira Franco, outro homem forte de Temer, que foi citado em delações.

A liminar viria a cair, mas a blindagem do ministro e a nomeação do ex-ministro da Justiça Alexandre Moraes para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) ajudaram a reforçar ainda mais as suspeitas da oposição e da imprensa de que o governo age para frear a Lava Jato. Em dezembro, dezenas de deputados da base do governo já haviam tentado desfigurar o pacote de dez medidas contra a corrupção.

“Popularidade virá depois”

Essas ações, além da promoção de projetos impopulares como a reforma da Previdência e a persistência das consequências da recessão entre a população (apesar de o governo celebrar alguns índices, o desemprego ainda afeta 12,3 milhões de brasileiros) continuam a impactar a popularidade do governo Temer.

Em fevereiro, uma pesquisa apontou que a avaliação positiva do governo é de apenas 10,3% – mais baixa do que a de Dilma pouco antes do impeachment. Já a avaliação negativa é de 44,1%. No início do mês, Temer disse que a “popularidade virá depois” do resultado das reformas.

Oficialmente, o governo continua a agir como se os sucessivos escândalos e a falta de legitimidade diante da opinião pública fossem questões pontuais, e não sintomas de uma crise permanente.

Diversas ações do governo Temer também demonstram um choque entre um discurso de austeridade e a realidade. O governo seguiu aprovando nos últimos meses reajustes para milhares de servidores federais – o último deles ocorreu no final de dezembro – e recentemente recriou dois ministérios, elevando o total para 28 pastas.

Temer também ignorou inicialmente crises localizadas pelo Brasil, como os massacres em presídios na região Norte (o presidente demorou três dias para se manifestar) e a greve de policiais no Espírito Santo (uma semana se passou antes de qualquer posicionamento). Pressionado pela escalada de violência no país, o governo lançou às pressas um plano nacional de segurança, que foi criticado por especialistas por apostar em receitas já desacreditadas, como a construção de mais presídios.

Apesar dos percalços, algumas das vitórias do governo Temer mostram que o presidente pode continuar a pelo menos exibir uma relação estável com o Congresso, ao contrário de sua antecessora. A aprovação de Moraes no Senado passou facilmente, assim como a PEC 241 e a reforma do ensino médio.

No entanto, a aprovação das reformas da Previdência e trabalhista deve ser mais árdua. Setores que apoiam o presidente já demonstraram que não vão respaldar os pontos mais controversos dos projetos.

Os dados provam: desigualdade é a lógica do sistema e não uma disfunção ocasional

Contrário ao que as matérias jornalísticas tentam fazer crer, a desigualdade não é uma simples disfunção da máquina econômica global. Sem controle, esta máquina produz, de um lado, extrema concentração de riqueza e, de outro, pobreza e “desposse”. O funcionamento normal dessa máquina gera bolhas e desequilíbrios, excluindo os derrotados no perverso jogo da competição e da ganância.

O capitalismo necessita de crescimento composto infinito, concentração de renda e riqueza entre poucos e exclusão dos demais.Esta é a lógica de funcionamento do modelo.  O mercado é incapaz de criar mecanismos que permitam, em prazo razoável, em nível local ou global, obter crescimento equilibrado e estável. De uma máquina que gera, em seu funcionamento regular, desequilíbrios e crises, não se pode esperar estabilidade.

Todos os bilionários citados beneficiaram-se de extrema concentração nos mercados em que atuam. Eliminaram concorrentes, sonegaram tributos, manipularam informação, formataram a opinião pública, pagaram propinas, fizeram lobby, compraram leis, isenções, benefícios e empréstimos com juros subsidiados, concentraram renda, diminuíram salários apesar de aumentos extraordinários de produtividade e foram capazes, mediante expedientes anti-livre competição, de assumirem domínio monopolista ou oligopolista nos mercados globais.

Entra ano, sai ano, jornalistas, economistas e autoridades reunem-se no Fórum Econômico Global para tentar consertar a máquina econômica global. Ora, os mecânicos que construíram a máquina que funciona tão mal não serão capazes de renegar seu invento e declarar que a tal máquina tem defeitos básicos de concepção e que não é possível repará-la.

Não é necessária nenhuma genialidade para verificar que a máquina econômica global tal qual concebida não funciona para a grande maioria. E que não há conserto capaz de fazê-la funcionar. É o que os números mostram e os míopes fingem não enxergar.

É necessário substituí-la. Não sei quantas linhas serão escritas, quantas palavras serão jogadas ao vento, quantos fóruns e conferências globais serão necessários até que se conclua que o desarranjo da máquina econômica  global é fatal. A paciência não será infinita.

Se o aumento na desigualdade não é “uma lei de ferro do capitalismo” como afirma a instituição que organiza o Fórum Econômico Mundial e que tudo é apenas uma questão de escolha de políticas corretas, tendo em vista a caótica situação das pessoas resultante do mal funcionamento da economia, podemos concluir que os formuladores de políticas ou não querem ou não sabem quais seriam as tais escolhas políticas corretas. Fazem escolhas erradas, não admitem o erro e, quando questionado, dobram a aposta. Quando surgem os resultados catastróficos que provam o funcionamento perverso da máquina econômica, fingem surpresa alguns e perplexidade outros. Leia, abaixo, a tradução do texto da The Guardian que eu fiz. Veja os noticiários e observe que eles, todos eles, evitam tocar na raiz do problema.

Paulo Martins

Larry Elliott, Editor de Economia,The Guardian

Segunda-feira 16 janeiro 2017

Os oito bilionários mais ricos do mundo controlam entre eles a mesma riqueza que a metade mais pobre da população global, de acordo com uma organização dedicada à caridade que emitiu o alerta sobre a crescente e perigosa concentração de riqueza.

Em um relatório publicado para coincidir com o início da semana de Fórum Econômico Mundial, em Davos,  Oxfam declarou que ser “além do grotesco” que um punhado de homens ricos liderados pelo fundador da Microsoft, Bill Gates valem US$ 426 bilhões (£ 350 bilhões), equivalente à riqueza de 3.6 bilhões de pessoas.

A associação de caridade para o desenvolvimento pediu um novo modelo econômico para reverter a tendência à desigualdade que ela considera que ajuda a explicar a vitória do Brexit e de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos.

Robótica, Trump e Brexit aqueceram a temperatura na neve de Davos

Oxfam culpou o aumento da desigualdade em razão da agressiva restrição nos salários, da sonegação de tributos e da exploração de produtores por empresas, acrescentando que empresas também focaram em entregar para os proprietários e top executivos  retornos cada mais mais altos.

O Fórum Econômico Mundial declarou na semana passada que o aumento na desigualdade e polarização social são os dois maiores riscos para a economia global em 2017 e que poderia resultar em volta atrás da globalização.

A Oxfam declarou que os 50% mais pobres do mundo eram proprietários do mesmo valor em ativos  dos US$ 426 bilhões possuídos por um grupo encabeçado por Gates,  Amancio Ortega, espanhol fundador da cadeia de moda Zara e Warren Buffett, o famoso investidor e chefe executivo de Berkshire Hathaway.

Os outros são Carlos Slim Helú: o magnata mexicano das telecomunicações e proprietário do conglomerado Grupo Carso; Jeff bezos: o fundador da Amazon; Mark Zuckerberg: o fundador de Facebook; Larry Ellison, chefe executivo da empresa norte-americana de tecnologia Oracle; e Michael Bloomberg; um ex-prefeito de Nova Iorque e fundador e proprietário do serviço de notícias e informações financeiras Bloomberg.

Ano passado, a Oxfam havia declarado que os 62 bilionários mais ricos do mundo eram tão ricos quanto a metade da população global. Contudo, este número tem caiu para oito em 2017 porque nova informação mostra que a pobreza na China e na Índia está pior do que anteriormente pensado, piorando a situação dos 50% faixa de renda mais baixa e aumentando a distância entre ricos e pobres.

Com os membros de o Fórum sendo esperados para esta  segunda-feira na Suí ça, onde os hóspedes variarão do presidente chinês Xi Jinping, a estrela pop Shakira, o WEF – World Economic Forum lançou seu próprio relatório sobre crescimento e desenvolvimento inclusivo em que ele declara que o rendimento mediano tinha caído por um média de 2,4% entre 2008 e 2013 em 26 nações desenvolvidas.

Noruega, Luxemburgo, Suíça, Islândia e Dinamarca ocuparam o cinco primeiros lugares no índice de desenvolvimento econômico  inclusivo do WEF, com a Grã-Bretanha em vigésimo- primeiro e os Estados Unidos em vigésimo-terceiro. A instituição que organiza o evento em Davos disse que o aumento da desigualdade não é uma “lei de ferro do capitalismo”, mas uma matéria de fazer as escolhas políticas corretas.

O relatório do WEF encontrou que 51% dos 103 países para os quais os dados estavam disponíveis viram suas pontuações no índice de desenvolvimento inclusivo declinar nos período dos últimos cinco anos, “atestando para o legitimidade da preocupação pública e o desafio a ser enfrentado pelos formuladores de políticas quanto à dificuldade de traduzir crescimento econômico em amplo progresso social”.

Baseando sua pesquisa na lista de ricos da Forbes e em dados fornecidos pelo banco de investimento Credit Suisse, Oxfam disse que a vasta maioria das pessoas sitiadas na metade inferior da faixa de riqueza da população do mundo defrontaram com uma luta diária para sobreviver , com 70% deles vivendo em países de baixa-renda.

Faz quatro anos que o WEF primeiro identificou a desigualdade como uma ameaça à  estabilidade social, mas a distância entre ricos e pobres continuou a aumentar, acrescentou a Oxfam.

“Do Brexit ao sucesso da campanha presidencial de Donald Trump, o aumento preocupante do racismo e a desilusão geral com a política tradicional, existem crescentes sinais de que mais e mais pessoas em países ricos não estão mais desejando tolerar esse estado de coisas”, o relatório afirmou.

A instituição de caridade declarou que novas infrmações mostraram que pessoas pobres na China e na Índia eram proprietárias de menos ativos do que se havia pensado anteriormente, tornando a desigualdade de riqueza ainda mais pronunciada do que pensado um ano atrás, quando foi anunciado que 62 bilionários eram proprietários da mesma riqueza que a metade mais pobre da população global.

Mark Goldring, chefe executivo da Oxfam GB, declarou: “a fotografia da desigualdade deste ano está mais clara, mais exata e mais chocante do que antes. É além de grotesco que um grupo de homens que poderia facilmente encaixar um único carrinho de golfe tenha mais do que a metade mais pobre da humanidade.

“Enquanto uma em cada nove pessoas no planeta irá para a cama com fome hoje à noite, um pequeno punhado de bilionários tem tanta riqueza que eles precisariam de vários vidas para gastar tudo. O fato que uma elite super-rica seja capaz para prosperar às custas do resto nós em casa e no exterior mostra quão deformada nossa economia tornou-se.

Mark Littlewood, diretor geral do “think tank” Instituto de Assuntos Econômicos, declarou: “uma vez mais Oxfam publicou um relatório que demoniza o capitalismo, esquecendo-se convenientemente  do fato de que o mercados ajudou 100 milhão pessoas a sair da pobreza no ano passado”.

“O relatório da Oxfam acrescentou que desde 2015 o 1% mais rico é proprietário de mais riqueza do que o resto o planeta. Ele afirma que nos próximos 20 anos, 500 pessoas vão repassar 2.1 trilhões de dólares para seus herdeiros – um soma maior do que o PIB da Índia, um país com 1.3 bilhão de pessoas. Entre 1988 e 2011 os rendimentos dos 10% mais pobres aumentou por apenas 65 dólares, enquanto o rendimentos do 1% mais ricos cresceu 11.800 dólares- 182 vezes mais.

Oxfam exortou para uma mudança fundamental alterar para assegurar que economias trabalhem para todos, não apenas para “uma minoria privilegiada”.

Economia, dinâmica de classes e Golpe de Estado no Brasil (anatomia da crise brasileira)

Compartilho texto para discussão publicado na Plataforma Política Social:

Economia, dinâmica de classes e Golpe de Estado no Brasil (anatomia da crise brasileira)
MAIO 26, 2016 /
Alexis Dantas e Elias Jabbour

RESUMO: O objetivo deste artigo é demonstrar que a crise política brasileira, que culminou no impeachment da presidente da república Dilma Roussef, antes de ser fruto de uma profunda crise econômica tem causação na formação de um amplo condomínio empresarial, partidário e midiático com tentáculos no seio do aparelho do Estado. A formação deste condomínio político de caráter conservador foi parte de um processo de acúmulo de forças diante do crescente papel do Estado na economia e os consequentes reflexos positivos sobre o emprego, a renda do trabalho e o padrão de vida dos trabalhadores brasileiros. A crise econômica, assim, é um epifenômeno da crise política, sob a forma de lockout produtivo com efeitos sob forma de curva ascendente na relação dívida x PIB, o aumento da inflação, do nível de desemprego e, principalmente, no crescimento negativo do PIB.

Para acessar o artigo, clique abaixo:

Clique para acessar o Artigo-Brasil-Alexis-e-Elias1.pdf

Manipulações, rebanhos e antídotos, por Eduardo Hoornaert

Publicado originalmente no blog do Leonardo Boff.

.Os explicadores do Brasil.
15/08/2015
Eduardo Hoornaert é um conhecido historiador da Igreja e da história do Brasil na perspectiva das vítimas. É belga e vive no Brasil praticamente toda a sua vida, trabalhando e pesquisando no Nordeste. Interessa-se especialmente pela cultura popular e por sua sabedoria. Publicamos aqui este texto que nos ajuda a refletir e nos tornar críticos face às pressões político-ideológicas dominantes no atual momento. LBoff


No momento pipocam por toda parte explicações da situação atual no Brasil, principalmente na Internet, mas também na rádio, na TV e nos jornais. Enumero algumas:

– O Brasil está em crise. Nos grandes meios de comunicação, essa afirmação é hoje um postulado. Mas não se explica o que se entende por ‘crise’. Em 1939, quando eu tinha 9 anos, o país em que nasci estava em ‘crise’: as pessoas estocavam alimentos e todos sentiam que a guerra se aproximava. Isso era crise. Neste momento, no Brasil, os preços aumentam, o consumo diminui, mas será que isso é crise? O fato de alguns deixarem de viajar a Orlando com a família porque o dólar está alto é sinal de crise? É o que se diz na TV. Minha impressão é que os grandes meios de comunicação têm interesse em falar em ‘crise’.

– Vivemos numa democracia. O termo ‘democracia’ virou uma palavra sagrada, intocável. Mas o que dizer de um país de 200 milhões de habitantes, em cima dos quais os porta-vozes de uma só família, os filhos de um bem-sucedido jornalista do Rio de Janeiro que criou uma rede de meios de comunicação, pronunciam a cada dia oráculos que passam por verdades eternas, praticamente nunca contestadas? Isso é democracia? Há muitos outros exemplos que mostram que a palavra ‘democracia’ não corresponde ao que está efetivamente acontecendo.

– A economia é uma ciência. A indicação, pela presidenta Dilma, de Joaquim Levy como ministro da Economia, é interpretada por muitos como escolha de alguém formado em ‘ciência econômica’. Dá se a impressão que Levy domina uma ciência que o comum dos mortais não consegue entender, mas que deve ter seus segredos. Faz aproximadamente 250 anos, desde Adam Smith (1776), que os economistas procuram erguer suas ‘artes’ ao patamar de ciência. A história desmente essa pretensão e apresenta muitos casos em que a economia provou ser, não uma ciência, mas uma ‘arte de fazer’.

– O Brasil está dividido entre inteligentes e ignorantes. Essa é uma análise extremamente grosseira, mas hoje vejo que ela é adotada por quem se autoproclama ‘filósofo’, ‘analista político’, ‘jornalista qualificado’. No final do ano passado, os ignorantes colocaram Dilma no poder, mas ‘depois de ver como ela governa’, compreendem que os inteligentes têm razão. Daí os números extremamente baixos da popularidade da presidenta. Mas, como se sabe de que modo Dilma governa? Isso passa necessariamente pela mediação dos grandes meios de comunicação, e assim voltamos ao acima exposto acerca da concentração da comunicação pública no Brasil nas mãos de um número extremamente reduzido de pessoas.

– O ciclo PT passou. Alguém disse isso e muitos o repetem. A explicação tem uma aura de verdade inconteste que dispensa análise empírica. Como foi dito por uma pessoa inteligente, deve ser verdade. Se você duvidar, é petista ignorante.

– Lula é populista. Essa frase também tem ares de inteligência. Mas o que se entende por ‘populista’? Assisti recentemente a um programa na televisão, em que se disse que populista é quem simpatiza os governos ‘populistas’ de Venezuela, Bolívia e Ecuador (as repúblicas bolivarianas). Isso, disse o interlocutor, não tem futuro, pois esses governos não têm dinheiro. Melhor aliar-se aos Estados Unidos e à Europa, onde há dinheiro. Então entendi o que é populista: é o contrário de dinheirista.

– Temos de combater o terrorismo. Divulgado aos quatro ventos pelo presidente americano Bush na manhã do dia 11 de novembro de 2001 (data do ataque às torres gêmeas em Nova Iorque) depois de receber um telefonema de seu conselheiro Kissinger que falou em ‘war on terror’ (guerra contra o terror), o terrorismo é um dos termos que caracterizam as sociedades em que vivemos. A civilização está sendo ameaçada por terroristas, assim como no passado esteve ameaçada por comunistas. Mas, se um drone americano mata pessoas inocentes no Afeganistão, isso é terrorismo? Não, ninguém diz isso. Matar inocentes no Afeganistão é combater o terrorismo, assim como apoiar golpes militares na América Latina, nos anos 1960-70, era combater o comunismo. Dias passados, a Câmara Federal aprovou uma lei que de certa forma aplica ao Brasil o pacote antiterrorista fabricado nos Estados Unidos. Essa lei parte da ideia que o terrorismo pode estender seus tentáculos sobre o país, o que deve ser evitado a qualquer custo. Temos de ficar de sobreaviso, pois a conspiração terrorista pode eclodir onde menos se espera. Quem não concordar com ideias divulgadas pelos grandes meios de comunicação, por exemplo, é potencialmente ‘terrorista’.

A lista de frases que hoje pretendem explicar o Brasil não se esgota com esses poucos exemplos. Mas as que apresentei brevemente acima bastam para que enxerguemos a saída diante do poder avassalador dessas e de outras frases que costumamos ouvir diariamente nos grandes meios de comunicação. Penso que, mais que nunca, é preciso usar o cérebro. A coisa mais preciosa que a natureza pode nos oferecer é um cérebro que funcione bem, ou seja, que nos faça pensar de forma independente. O cultivo de uma inteligência independente constitui a tarefa mais importante da vida.

Como o cérebro está diretamente ligado aos órgãos de observação (visão, audição) e trabalha os dados provenientes desses órgãos, tudo depende da capacidade de elaborar corretamente o que nos vem por meio da observação. Quando assistimos à TV, por exemplo, o cérebro não fica totalmente passivo mas interage com as imagens e as palavras.

Diante do bombardeio diário de imagens e mensagens, um cérebro sadio se posiciona de forma independente. Isso se chama reflexão. Esse cérebro forma um ‘critério’, ou seja, um pensamento crítico acerca do que ouvimos e vimos na tela. O critério correto é resultado de uma luta permanente pelo domínio sobre nossa própria mente. Arriscamos ‘perder a cabeça’ quando não reagimos diante da maré montante de palavras e imagens diariamente despejadas sobre nós. Pois se trata realmente de uma maré, que ameaça inundar tudo, se não construímos um dique seguro para conter seu avanço. Esse dique é nossa inteligência. Se não preservamos nossa inteligência independente, corremos o perigo de virar um rebanho empurrado por um louco.

A marcha do dia 16 de agosto. Para terminar, umas palavras acerca da marcha do dia 16 de agosto, em grande parte preparada pelo movimento ‘Vem Pra Rua’ (VPR), que se articula de forma bem organizada por meio da Internet. Há quem pensa que essa marcha apresenta uma alternativa para o Brasil. Mas é preciso saber que o movimento VPR se articula em torno de um núcleo duro de apenas cinco pessoas, um verdadeiro ‘comando’ muito bem organizado, com disciplina e sem crítica interna (como acaba de revelar o Jornal ‘Valor’). Se alguma mensagem corre pela Internet que não esteja de acordo com o que esse núcleo decide, ela é eliminada do circuito organizado pela VPR.

Estamos diante de um movimento que não tem nada de novo, a não ser a técnica de comunicação e o charme de pessoas bem-sucedidas na vida, que têm entre 40 e 50 anos e participam do dito núcleo central u colaboram com ele. Esse núcleo duro decide atacar Dilma e Lula (talvez Renan Calheiros), mas não Eduardo Cunha. Você participa da marcha, grita palavras de ordem e pensa agir com liberdade, mas na realidade está enquadrado dentro de um movimento que ‘outros’ (Globo, Veja, etc.) já começaram a interpretar antes mesmo que aconteça a marcha do dia 16 de agosto. É essa interpretação ‘pré-fabricada’ que constitui a ração a ser digerida pelo grande público a partir do dia 16 de agosto.

Negociação da dívida grega: duelo desigual

Autor: Michael Roberts

Publicado originalmente no blog de Michael Roberts em 16/06/2015

Tradução: Paulo Martins

No meu último post sobre a Grécia
(https://thenextrecession.wordpress.com/2015/06/06/ten-minutes-past-midnight/),

eu disse que faltavam 10 minutos antes da meia-noite para o governo grego e para as instituições de crédito do Eurogrupo obterem um acordo para liberação de recursos pendentes para que os gregos possam cumprir as suas obrigações para pagar ao FMI e os empréstimos do BCE ao longo dos próximos meses. Lembre-se que todas estas tortuosas negociações não são para ‘socorrer’ o povo grego, mas simplesmente para evitar que o governo grego dê calote em suas dívidas com a ‘Troika’ (da UE, do BCE e do FMI). Nenhuma parte deste dinheiro será usada para melhorar ou manter os rendimentos reais, serviços públicos e as pensões dos gregos.

Enquanto escrevo, com menos de duas semanas data de vencimento da próxima parcela de pagamento dos gregos ao FMI, há um impasse total; cada lado está esperando o outro piscar e ceder. E ninguém está piscando.

Alexis Tsipras, o primeiro-ministro grego, já prometeu não ceder às exigências feitas pela Troika, acusando-os de “pilhagem” da Grécia nos últimos cinco anos e insistiu que agora os credores é que terão que se mover. “Só se pode suspeitar de motivos políticos por trás do fato de que [os negociadores da dívida] insistem em novos cortes de pensões, apesar de cinco anos de pilhagem “, disse Tsipras. “Estamos levando a dignidade de nosso povo, bem como as aspirações de todos os europeus. Não podemos ignorar essa responsabilidade. Não é uma questão de teimosia ideológica. Tem a ver com a democracia. ”

Por outro lado, os negociadores do FMI foram para casa em Washington, o que implica que nenhum acordo foi possível com os gregos intransigentes, quando o Eurogrupo rejeitou em 45 minutos, no último fim de semana, o último conjunto de concessões do governo do Syriza.

A realidade é que o Syriza já cedeu em muitas de suas “red lines”, que supostamente eram para não ser ultrapassadas, desde a eleição do novo governo em janeiro (ver o meu post, https://thenextrecession.wordpress.com/2015/04/28 /greece-crossing-the-red-lines/).

O documento de 47 páginas enviado pelos gregos para a Troika na semana passada agora inclui aumento do IVA, eliminação gradual da aposentadoria antecipada, juntamente com uma nova reforma das pensões, medidas para desregulamentar ainda mais o mercado de produtos, atingindo meta de superávit primário de 3,5% do PIB a partir de 2018, um aumento do “imposto de solidariedade” sobre a renda, a continuação das privatizações e a  “liberalização” do mercado de energia.

Mas agora parece que os líderes Syriza vão mais longe e teriam se recusado a aceitar duas outras exigências da Troika; ou seja, novos cortes nas pensões que afetariam muitos dos gregos mais pobres e um aumento de 10% do IVA sobre a electricidade com resultados semelhantes. Isso é demais. Afinal, Syriza aprovou medidas de austeridade de mais de € 2,5 bilhões, mais do que o Conservador governo anterior estava negociando. Mas medidas adicionais estão sendo exigidas pois as longas negociações prejudicaram a economia e as receitas do governo ainda mais.

A Troika concordou em reduzir a meta de superávit do governo para este ano, para 1% do PNB, de 2% para o próximo ano, mas, em seguida, voltar para 3,5% em 2018. Mas mesmo essa pequena ‘concessão’ vai ser demais para a economia grega suportar. Isto significa, ainda,  € 3 bilhões de medidas de austeridade somente este ano e os cortes nas pensões de até € 900 milhões (0,5% do PNB) este ano e € 1,8 mil milhões (1% t do PNB) no próximo ano. Tsipras e Varoufakis teriam de enfrentar uma revolta massiva dentro das fileiras da Syriza se fizerem concessões adicionais.

O insensível desprezo pela pobreza dos gregos, especialmente dos velhos, é demonstrado pelo economista-chefe do FMI Olivier Blanchard em um post no seu blog (http://blog-imfdirect.imf.org/2015/06/14/greece-a-credible-deal-wil-require-difficult-decisions-by-all-sides/) . Blanchar frívolamente pontifica “acreditamos que mesmo a nova meta mais baixa não pode ser atingida de forma crível sem uma reforma abrangente do imposto de valor agregado (IVA) – envolvendo um alargamento da sua base – e um novo ajustamento das pensões. Por que insistir em pensões? Pensões e salários representam cerca de 75% da despesa primária; os restantes 25% foram já cortados no osso. Despesas com pensões representam mais de 16% do PNB, e as transferências do orçamento para o sistema de pensões estão perto de 10% do PNB. Nós acreditamos que uma redução das despesas de pensão de 1% do PNB (de um total de 16%) é necessária, e que isso pode ser feito e ao mesmo tempo proteger os pensionistas mais pobres “.

Mas a demanda de Blanchard não irá proteger os pensionistas mais pobres ” uma vez que envolve um corte em EKAS, o fundo de pensão para aqueles com rendimentos mais baixos. Uma pesquisa recente revelou que 52% das famílias gregas alegaram que a sua principal fonte de renda são as pensões. Isto não é porque tantas pessoas estão “ludibriando’ (gaming) o sistema e drenando as pensões; é mais porque muitos gregos estão desempregados sem se qualificarem para ter acesso aos benefícios ou estão empregados, mas não estão sendo pagos. Se as pensões forem cortadas ainda mais, muitas famílias gregas realmente vão sofrer em um momento em que a economia provavelmente vai continuar a encolher. 10.000 gregos tiraram suas próprias vidas ao longo dos últimos cinco anos de crise, de acordo com Theodoros Giannaros, um governador hospital público, cujo filho próprio cometeu suicídio depois de perder o emprego.

O mito de que os gregos estão todos vivendo fora do Estado e tomando sol nas praias com as suas pensões de aposentadoria antecipada – algo vendido pela Troika e pelos políticos do norte da Europa para os seus eleitores – é apenas isso, um mito grego. Sim, pensões atingem 16% do PNB, fazendo a Grécia parecer ter o sistema de pensões mais caro da Europa. Mas isso é em parte porque o PNB grego caiu muito nos últimos cinco anos. Além disso, os altos gastos da Grécia é em grande parte resultado de má demografia: 20% dos gregos têm mais de 65 anos, uma das percentagens mais elevadas na zona do euro. Se você fizer um ajuste olhando para os gastos de pensão por pessoa acima de 65 anos, então, os dispêndios gregos com pensões estão abaixo da média europeia.

Na verdade, o “problema grego ‘não é um sistema de emprego no setor público e de pensão extravagantes, mas o fracasso do capitalismo grego em ter bons resultados. O capitalismo grego expandiu-se antes da Grande recessão, não através de investimento produtivo e de sucesso na exportação, mas através de enorme endividamento externo para investir em imóveis e construção (principalmente de forma corrupta), liderado por oligarcas gregos. Quando a bolha de crédito estourou, o capitalismo grego mergulhou no fundo do poço deixando o povo grego segurando um bebê doente. O PnB grego decolou na segunda metade da década de 90. No seu auge em 2008, ele havia crescido em 65%, cumulativamente. Mas em 2013, o PNB tinha caído, voltando ao seu nível de 2000 (ver http://www.voxeu.org/article/what-went-wrong-greece-and-how-fix-it .

O PNB real, ajustado para 100 em 1990

Greek real GDP

Durante anos de ‘euro-boom’, a taxa de crescimento média alcançou 4,1% ao ano e foi explicado principalmente pelo investimento (não TIC). A queda igualmente dramática desde 2008, -4,4% ao ano, em média, foi em grande parte devido ao declínio do mercado de trabalho. Os trabalhadores gregos pagaram pelo fracasso do capitalismo grego com seus empregos e rendimentos. Por culpa do capitalismo grego corrupto e débil focado na propriedade e na especulação, A Grécia acumulou, em relação à Alemanha, entre 1990 e 2008,  23% de ‘lacuna de produtividade “, que persistiu e aumentou no período de crise. A consequência foi uma enorme “diferença de competitividade” para a economia grega. Entre 1990 e 2009, a economia grega sofreu uma perda de 35% em termos de competitividade, o que significa que os custos salariais (e preços) aumentaram muito mais rapidamente do que nos seus parceiros comerciais no período que antecedeu a crise.

Produtividade total dos fatores, ajustado para 100 em 1990

O setor público teve que ‘socorrer’ os bancos falidos e a economia em colapso tomando enormes empréstimos. Ele só poderia fazê-lo por meio de empréstimos do FMI e os governos da UE. Mas então ele estava nas garras do diabo. A Troika exige enormes cortes nos gastos públicos de modo a que os seus empréstimos possam ser reembolsados. O nível de austeridade imposto foi de cerca de 9 pontos percentuais do PNB – sem precedentes na quantidade e intensidade (e apenas em um período de três anos). Desde 2009, as receitas do governo aumentaram de 37% para 45% do PNB, enquanto os gastos públicos caíram de acima de 50% para 45%.

Funcionários públicos gregos (000)

Mas os enormes cortes nos salários e do emprego ainda não foram suficientes para a recuperação do capitalismo grego. As exportações de bens e, em especial, os serviços (turismo), aumentou muito menos em comparação com outros países europeus que passaram por ‘os ajustes ” mais bem-sucedidos (Irlanda, Espanha, Letônia, Portugal). Seguindo o colapso econômico em 2009 os salários cairam, mas os preços não. Em poucos anos, a maioria dos ganhos nos salários reais obtidos desde 1990 tinham desaparecido. A pobreza e a desigualdade dispararam. Então, trabalho grego está pagando para restabelecer a rentabilidade do capital grega – mas sem sucesso.

O problema é que o capitalismo grego é muito fraco para se recuperar por conta própria. A maioria das empresas gregas são muito pequenas (bem abaixo de 10 empregados) e seu tamanho torna-os incapazes de acessar mercados estrangeiros. Isso dá a mentira aos do Syriza que argumentam que o incentivo às pequenas empresas é o caminho para o capitalismo grego. O que é realmente necessário é o desenvolvimento de alta produtividade, setores inovadores – e isso somente será possível através do Estado. As exportações gregas estão concentradas em produtos de baixa e média tecnologia, tais como combustíveis, metais, produtos alimentares e produtos químicos. De acordo com o Atlas de Complexidade Econômica , desenvolvido na Universidade de Harvard, a diferença entre o rendimento de 2008 da Grécia e o conteúdo de conhecimento em suas exportações foi o maior em uma amostra de 128 países. Em 2013, a Grécia classificou 48 no índice de complexidade das exportações do Atlas – de longe, o mais baixo de qualquer país desenvolvido na Europa.

A Troika gastou seu tempo tentando espremer trabalho ainda mais através de “reformas do mercado de trabalho” (congelamento de salários mínimos, proibição de negociação coletiva, contratos a tempo parcial, facilitação de demissões etc) quando as reformas que são realmente necessárias estão nas próprias empresas gregas . O que deve ser feito é quebrar o nó corrupto dos oligarcas nos principais setores empresariais que monopolizam a economia e controlam investimento e preços. Esta concentração de poder nas mãos de poucos bloqueou a inovação e o crescimento. Na Grécia, o poder desses ‘insiders’, os oligarcas, impediram a adequada cobrança de impostos ou investimento.

A terrível ironia é que mais medidas de austeridade fiscal só irão resultar em uma depressão mais profunda e uma proporção ainda maior da dívida pública (provavelmente vai ultrapassar 200% do PNB). Syriza aceitou a meta de superávit primário de 1% para este ano. Isto irá, provavelmente, exigir medidas fiscais três vezes maiores para reduzir a relação dívida/PNB, uma vez que a economia poderia estar 5% menor como resultado das medidas de austeridade e a relação dívida/PNB saltaria 9 pontos percentuais ! É por isso que o FMI pode querer mais austeridade, mas reconhece que ele só vai funcionar se for acompanhada pela anulação de parte da dívida existente (contanto que elas sejam pagas em primeiro lugar!).

Como Blanchard diz: “os credores europeus teriam de concordar com um financiamento adicional significativo, e com um alívio da dívida suficiente para manter a sustentabilidade da dívida. Acreditamos que, ao abrigo da proposta existente, o alívio da dívida pode ser alcançado através de um longo reescalonamento dos pagamentos da dívida a taxas de juros baixas. Qualquer nova redução da meta de superávit primário, agora ou mais tarde, provavelmente exigiria, no entanto, cortes de cabelo. ” Mas o Eurogrupo não vai tolerar que, como seria “deixar os gregos escaparem’ quando outros, como a Irlanda ou Portugal não tiveram tal ajuda.

O que está claro agora é que se nenhum acordo for negociado até 30 de junho, a Grécia irá descumprir (default) os (compromissos de) pagamentos ao FMI. Isto já foi anunciado por alguns ministros Syriza. E seria seguido por um descumprimento (default) nos pagamentos ao BCE em julho. As negociações sobre o pacote de “resgate” seriam encerradas pois o período de extensão de quatro meses seria ultrapassado. Com “default’, mesmo se apenas “técnico” pois o FMI permitiria ’30 dias adicionais ” para pagar, o BCE poderia considerar os bancos gregos em situação de insolvência e assim encerrar seu programa de assistência de liquidez de emergência. Com depósitos desaparecendo dos bancos, o governo teria de introduzir controles de capital para interromper o fluxo. Dentro de algumas semanas, o governo não seria capaz de pagar aos seus trabalhadores os seus salários ou cumprir os pagamentos de pensões. Isso forçaria o governo a introduzir uma moeda ‘paralela’, ou seja, IOUs (I Owe You/ eu devo a você) a pagar, que em breve valeria menos do que um euro por alguma margem. O triângulo impossível irá provar-se  impossível: a Grécia no euro; uma reversão da austeridade e o Syriza unido no governo. Um ou mais desses cantos irá dobrar.

A esquerda dentro do Syriza considerara esta a oportunidade de assumir o controle dos bancos, reverter as privatizações acordadas e para sair imediatamente do euro. Isto pode muito bem acontecer. Mas 80% dos gregos querem ficar no euro e eles vão precisar de um grande poder de persuasão de que Grexit é o caminho certo a seguir. Se Grexit apenas significa uma desvalorização da moeda, sem movimentos para acabar com o controle da economia pelos oligarcas e multinacionais estrangeiras, então isso só pode significar a falência de muitas pequenas empresas, enorme inflação e depressão mais profunda por algum tempo.

O caminho de inadimplência e desvalorização por parte da Islândia não terminou a austeridade. Pelo contrário (e contra a impressão dada pelo keynesiano Paul Krugman), a Islândia só fica atrás da Grécia no mundo no tamanho de suas medidas de austeridade fiscal desde 2009. Na Islândia, as despesas primárias reais caíram 12,7% entre 2009 e 2012 pelo corte das despesas correntes, transferências, manutenção e investimento, e pelo congelamento dos salários do setor público e benefícios por um período de quatro anos, durante um período em que a inflação disparou devido à desvalorização de 50% da Króna. O IVA foi aumentado para 25,5%, o que na época era o mais alto do mundo!

Será que a Grécia fora do euro iria, eventualmente, se recuperar? Depende do que acontece com a economia dentro Grécia: ele ficar nas mãos dos capitalistas gregos ou os trabalhadores assumem o controle; e também depende se o resto dos trabalhadores europeus poderem montar uma campanha bem sucedida para um plano pan-europeu para o crescimento. Sob o capitalismo, a nuvem escura de uma nova recessão está no horizonte. Se isso se concretizar, a própria existência da zona do euro está ameaçada.

Lapso de Razão da Europa – Joseph Stiglitz

Finalmente, a economia dos Estados Unidos está mostrando sinais de recuperação de uma crise que irrompeu no fim da administração do Presidente George W. Bush, quando uma semi-explosão do seu sistema financeiro enviou um choque em ondas ao redor do mundo. Mas não é uma recuperação forte; na melhor das hipóteses, a distância entre onde poderia ter estado e onde ela está hoje não está aumentando. Se está diminuindo, isto está sendo feito muito lentamente; o prejuízo causado pela crise parece ser duradouro.

Então, novamente, poderia ter sido pior. Do outro lado do Atlântico, existem poucos sinais de uma modesta recuperação ao estilo dos Estados Unidos: A distância onde a Europa está e onde ela poderia ter estado na ausência das contínuas crises de crescimento. Na maioria dos países da União Européia, o Produto Nacional Bruto per capita é inferior àquele anterior à crise. Meia-década perdida está se tornando, rapidamente, em uma década completa. Por trás das estatísticas frias, vidas estão sendo arruinadas, sonhos estão sendo frustrados e famílias estão sendo desfeitas (ou não estão sendo formadas) uma vez que a estagnação – recessão em alguns países – continua ano após ano.

A União Européia tem uma população altamente educada e talentosa. Seus países-membro têm um arcabouço legal forte e as sociedades funcionam bem.

Tradução: Paulo Martins

Para ler mais, texto em inglês, clique em: http://www.project-syndicate.org