Haja Parola!

Sabe aquele puxão de orelhas que o ilegítimo e seu fiel escudeiro, Sarney Pança, receberam da ministra do Clima e Meio Ambiente da Noruega devido ao aumento no desmatamento da Amazônia ?

Pois é.

Leia, a seguir, qual foi a notícia publicada no site da Presidência da República do Brasil na versão para inglês ler:

PRESIDENCY OF THE REPUBLIC OF BRAZIL

Norway highlights Brazil’s commitment: “Proud partner”

Amazon Fund

Vidar Helgesen, Norway’s Climate and Environment Minister , praised the efforts of his Brazilian counterpart, José Sarney Filho, to reduce deforestation rates in Brazil

Published: Jun 23, 2017 12:00 AM

Last modified: Jun 23, 2017 01:58 PM

Traduzo:

“Noruega destaca o compromisso do Brasil: “parceiro que dá orgulho”

Fundo Amazônia

Vidar Hekgesen, ministra do Clima e Meio Ambiente da Noruega, elogiou os esforços do ministro do Meio Ambiente do Brasil, José Sarney Filho, para reduzir as taxas de desmatamento no Brasil.”

Acho que entendi: como o Brasil está tendo um enorme sucesso neste último ano em reduzir as taxas de desmatamento da Amazônia, a ministra sueca, digo norueguesa, resolveu premiar o Brasil pelo excelente resultado cortando pela metade a doação de recursos para a preservação da floresta amazônica.

Deve ser isso.

Parece até que a versão que todos ouvimos e lemos nos noticiários nacionais e internacionais e vimos nas TVs é uma versão falsa.

A verdade verdadeira seria esta versão publicada no site da presidência da República do Brasil.

Não basta ser ilegítimo e não basta mentir em português.

A mentira tem que circular para o mundo todo, em inglês.

Haja cara de pau. Ou nariz de Pinóquio. Perderam, de vez, a compostura.

Foto:
Amazonia Real
Floresta incendiada no entorno da BR-319, em Autazes (Foto: Chico Batata

Deserto verde e Defaunação

“A floresta precede os povos e o deserto os segue”

(Chateaubriand)

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[EcoDebate] O Brasil já destruiu 93% da Mata Atlântica, mais de 50% do Cerrado e mais de 20% da Amazônia. A degradação não poupou outros biomas, tais como a Mata de Cocais, os Mangues, a Caatinga, a Mata de Araucária, os Pampas e o Pantanal. Assim, o Brasil que não pensa em restaurar a sua rica biodiversidade original, tem muita terra, roubada das florestas, à disposição da agricultura, do reflorestamento e da pecuária.

Ao invés do replantio de espécies nativas, a “indústria” do reflorestamento buscou espécies florestais exóticas, como o Pinus e o Eucalyptus, que se adaptaram bem no Brasil, possibilitando produtividade, no mínimo, dez vezes maior que as de muitos países de clima temperado. O rápido crescimento das plantações de Pinus e Eucalipto ocorre devido às condições favoráveis de clima, solo, extensão territorial, mão de obra, infraestrutura e capacidade gerencial produtiva das empresas que focam o lucro e não a recuperação dos ecossistemas.

As monoculturas voltadas para o lucro não contribuem para a recuperação da biodiversidade. A expressão “deserto verde” surgiu para denominar as plantações de só um tipo de árvores, como nas grandes extensões de terra destinadas para a produção de celulose, madeira ou carvão vegetal. As consequências deste tipo de plantação para o meio ambiente são: desertificação, erosão e redução de biodiversidade.

Deserto verde, por exemplo, é quando uma floresta tem cheiro de sauna e nenhuma fauna. Em geral, as grandes plantações de Pinus e Eucalipto envenenam o solo, eliminam a biodiversidade animal, a flora do local, secam as nascentes, sugam o lençol freático e reforçam a concentração fundiária.

A desastrosa combinação entre eucalipto, monocultura e agrotóxicos afeta também a saúde das pessoas que produzem alimentos em regiões próximas, pois suas terras são invadidas por animais silvestres, sem alternativa, na busca de alimentos. Os animais selvagens são vítimas da falta do habitat, da falta de corredores ecológicos e da falta de compaixão dos produtores que não admitem a “invasão” de suas terras privadas e a perda de alguns de seus animais domesticados.

Para a produção de Etanol e biocombustíveis, avança a monocultura de cana-de-açúcar, que expulsa animais, destrói ambientais e literalmente calcina os que não conseguem escapar das línguas de fogo em locais onde o corte da produção ainda é feito com fogo, como nos primeiros tempos da escravidão.

A maior parte dos ecossistemas brasileiros foi destruída e não existem corredores verdes para unir o pouco que restou dos diversos biomas. A fauna também foi destruída ou ficou ilhada em pequenas porções. A perda da fauna é definida como “defaunação”, o que está levando a uma extinção em massa de animais de pequeno, médio e todos os portes.

Este processo é global como fica claro nos estudos publicados em julho de 2014 na Revista Science que mostram taxas alarmantes de ecocídio. Segundo a Revista, o ser humano está provocando, em um curto espaço de tempo, a sexta extinção em massa no planeta. Isto acontece em função dos impactos da perda de vida devido ao empobrecimento da cobertura vegetal, à falta de polinizadores, ao aumento de doenças, à erosão do solo, aos impactos na qualidade da água, etc. Ou seja, os efeitos são sistêmicos e um dos artigos da revista Science chama este processo de “Defaunação no Antropoceno”, que ocorre devido ao aprofundamento da discriminação contra as espécies não humanas.

O crime do especismo está longe de ser objeto de uma discussão mais profunda, como já ocorreu com o racismo, o sexismo, o classismo, o homofobismo, escravismo, etc. Recentemente foi criado um site para incentivar a mobilização contra a discriminação das espécies, definindo o dia 22 de agosto de 2015, como o “Dia mundial contra o Especismo”.

O deserto verde e a defaunação afetam a vida humana e não-humana. Por exemplo, insetos, incluindo as abelhas, que polinizaram 75% da produção agrícola mundial, sofrem ameaça em escala global, com o uso generalizado de agrotóxicos. Da mesma forma, estão ameaçados morcegos e aves que controlam pragas agrícolas que, de outra forma, seriam devastadoras.

O declínio da população de anfíbios – como sapos e pererecas – aumenta a concentração de algas e outros detritos, o que compromete a qualidade dos recursos hídricos. Animais vertebrados e invertebrados desempenham papel estratégico na decomposição orgânica e ciclagem de nutrientes no ambiente. Desta forma, a defaunação afeta a saúde humana de diferentes maneiras, desde a desnutrição ao controle de doenças.

Em dezembro de 2014, o Ministério do Meio Ambiente apresentou estudo que mostra que o número de animais ameaçados de extinção no Brasil aumentou 75% entre 2003 e 2014. A nova lista nacional de espécies ameaçadas tem 395 novas espécies, a maior parte de invertebrados terrestres. Além disto existem inúmeras espécies ameaçadas que, por serem desconhecidas dos registros humanos, simplesmente não entraram nas listas de extinção.

O crescimento das atividades antrópicas no Brasil tem prejudicado de forma danosa todas as formas de vida ecossistêmicas dos biomas nacionais. Os brasileiros estão reincidindo cotidianamente nos crimes do especismo e do ecocídio. Se a dinâmica demográfica e econômica continuar sufocando a dinâmica biológica e ecológica, o Brasil destruirá a maior área de biocapacidade do Planeta a contribuir de maneira decisiva para o abismo civilizacional e ecológico, gerando um suicídio global.

Campanhas/redes:

Dia mundial contra o Especismo: http://end-of-speciesism.org/

End Ecodide on Earth https://www.endecocide.org/en/

End Ecocide: A Global Citizens’ Initiative to Protect Ecosystems

Clique para acessar o EEE_booklet.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 18/03/2015

Desmatamento na Amazônia já afeta o clima

Trata-se de artigo copiado do “site” ecodebate e publicado originalmente no “site” Clima e Floresta.

Paulo Martins – dialogosessenciais.com

Antonio Donato Nobre: Desmatamento na Amazônia já afeta o clima
Maura Campanili

Embora não se possa provar que a seca na região Sudeste do país já seja uma consequência das mudanças climáticas causadas pelo desmatamento na Amazônia, sabemos que ele afeta o fornecimento de vapor para a atmosfera e prejudica o transporte deste para regiões a jusante dos rios aéreos. E sabemos que o Sudeste é receptor e dependente da umidade exportada como serviço ambiental pela floresta amazônica. A afirmação é do pesquisador Antonio Donato Nobre, cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), autor do relatório O Futuro Climático da Amazônia, lançado no final do ano passado. Segundo Nobre, é certo que o desmatamento da Amazônia levará a um clima inóspito naquela região e que deverá afetar outras. O estudo, realizado a pedido da organização Articulación Regional Amazónica (ARA), mostrou como o efeito de bombeamento atmosférico realizado pela floresta propele rios aéreos de umidade que transportam água, alimentando chuvas em regiões distantes do oceano. “A procrastinação para acabar com o desmatamento é injustificável”, alerta.

Antonio Donato Nobre – Em seu relatório, o senhor alerta que o desmatamento da Amazônia já está influenciando o clima. Onde o clima já mudou?

Clima e Floresta – Segundo observações publicadas, amplas regiões na porção oriental da Amazônia, justamente a região mais afetada por desmatamento e degradação florestal, já sofrem com a expansão na duração do período seco, redução das chuvas totais no ano e mesmo extinção de chuvas no período seco, o que torna áreas ainda preservadas de floresta suscetíveis à degradação pela invasão de fogo a partir de áreas ocupadas. A extensão na duração e intensidade da estação seca tem consequências diretas sobre a agricultura, já que diminui a água disponível no solo, prejudicando a produção. O pior é que essa parece ser uma tendência de progressão do clima, um cenário com potencial de danificar até a safra principal em regiões produtoras de grãos como no norte do Mato Grosso.

Nobre – Como a floresta influencia o clima?

Clima e Floresta – As florestas nativas influenciam o clima de diversas e poderosas formas. Descrevo detalhadamente no relatório O Futuro Climático da Amazônia cinco efeitos conhecidos, a saber: a intensa transpiração das árvores condiciona e mantém a alta umidade atmosférica; os compostos orgânicos voláteis emitidos pelas folhas – os cheiros da floresta -, participam de forma determinante como sementes no processo de nucleação das nuvens e geração de chuvas abundantes; a condensação atmosférica do vapor transpirado pelas plantas rebaixa a pressão sobre a floresta, que, menor que aquela sobre o oceano, succiona o ar úmido para dentro do continente; o efeito de bombeamento atmosférico realizado pela floresta propele rios aéreos de umidade que transportam água, alimentando chuvas em regiões distantes do oceano; e o dossel rugoso da floresta freia a energia dos ventos, atenuando a violência de eventos atmosféricos.

Nobre – A seca no Sudeste já é uma consequência dessa mudança climática? O que podemos esperar para os próximos anos?

Clima e Floresta – Existem nas observações do clima registros de secas fortes para o Sudeste. O que surpreendeu e assustou em 2014, além da intensidade e duração sem precedentes, foi o virtual desaparecimento da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS). Essa condição deixou incapazes os modelos numéricos, até para previsões de curto prazo. Por essas características inusitadas do fenômeno climático, vários colegas cogitam tratar-se já das primeiras manifestações de mudanças climáticas associadas ao aquecimento global. Porém, não sabemos ainda como os vários fatores interagiram para produzir a seca, quanto dela é resultado de uma forçante de mudanças climáticas globais, quanto tem a ver com o desmatamento e a degradação florestal na porção oriental da Amazônia. Mas sabemos que parte importante da seca foi por conta da ausência do aporte de matéria-prima para chuvas, e também que a umidade amazônica não propagou para o Sudeste. Embora não possamos consultar uma bola de cristal para saber o que esperar do futuro, sabemos já que o desmatamento afeta o fornecimento de vapor para a atmosfera e prejudica o transporte deste para regiões a jusante dos rios aéreos. E sabemos que o Sudeste é receptor e dependente da umidade exportada como serviço ambiental pela floresta amazônica. Então, pode-se afirmar que se não recuperarmos a floresta, ou pior, se ainda por cima continuarmos com o desmatamento, estaremos serrando o próprio galho onde sentamos.

Nobre – As metas brasileiras de redução do desmatamento são suficientes para mitigar os efeitos no clima? O que falta ser feito?

Clima e Floresta – Absolutamente não. Todas as evidências científicas apontam para o fato de que o gigantesco desmatamento acumulado já afeta o clima. Isso significa que o desmatamento acumulado já passou da área máxima tolerável antes do clima ser alterado de forma permanente. Em outras palavras, é imperioso o desmatamento zero, e para ontem. As metas brasileiras de desmatamento não somente ignoram a ciência, como postergam para décadas no futuro uma necessidade urgente de ação que deveria haver sido feita décadas atrás. Assim como a inação irresponsável de governadores e outras autoridades levou muitas cidades no Sudeste à beira do colapso no fornecimento de água, as minguadas e débeis metas brasileiras de redução do desmatamento têm chance zero de mitigar os efeitos no clima, e mais, garantem o agravamento da situação. O que é o pior é que tal injustificável procrastinação pode levar todo o sistema Amazônico a uma situação de colapso climático, na qual se ultrapassa um ponto de não retorno levando toda a região para a savanização ou mesmo para a desertificação. Falta aos formuladores de politicas públicas, governantes, elites influentes e formadores de opinião caírem na real, absorverem diligentemente a informação qualificada disponível e agirem de acordo, o que significa colocar o Brasil na liderança de um enorme e sem precedentes esforço de guerra contra a ignorância, contra o desmatamento, contra o fogo, a fumaça e a fuligem, e a favor da restauração das florestas nativas.