O chilique da madame paneleira no Festival de Teatro de Curitiba

O chilique da madame paneleira no Festival de Teatro de Curitiba
Por Diario do Centro do Mundo – 30 de março de 2018

Cena da peça “Manual de Autodefesa Intelectual” (foto: Bob Sousa)
Publicado no Facebook de José Carlos Portella Jr.

Ontem no Festival de Teatro, na abertura da peça “Manual de autodefesa intelectual”, presenciei uma cena digna da República de Curitiba.

Enquanto a atriz Fernanda Azevedo fazia um discurso em prol das minorias violentadas na nossa democracia de fantoche, uma senhora curitiboca (pela arrogância devia ser moradora do Batel Soho) gritou da plateia que não tinha pago pelo ingresso para ouvir discurso político.

Aquilo parecia ter sido arranjado pela direção da peça, de tão escrota que foi a intervenção da senhora classe média-curitiboca-batedora de panela. Não podia acreditar que alguém pudesse ser tão arrogante a ponto de interromper uma artista no palco para vomitar sua indigência intelectual.

Depois de receber uma vaia da plateia, que gritava “fora” para a dileta madame arrogante, a atriz deu uma resposta à altura de quem já antecipava a hostilidade às artes e à política que viriam da cidade modelo de fascismo.

O que a madame não esperava é que a peça era toda, adivinha, política! O tema principal da peça era a manipulação das massas pela religião, pela publicidade, pela política institucional burguesa, pela imprensa e pelas redes sociais.

A coitada da madame levou uma sova de 2 horas de peça que tratava de POLÍTICA. O discurso vazio, arrogante e violento da madame (que “pagou pelo ingresso e logo teria que receber das ARTES aquilo que ela pagou”) é sintomático: a direita brasileira se transformou numa massa de gente odiosa, que apenas grita, que não reflete e que tem aversão à crítica (bom, basta ver a coluna da Gazeta do Povo que está circulando por aí chamando as universidades públicas de “hospícios de esquerdopatas”), que acha que o mundo circula entorno de seus umbigos sujos.

Tente debater qualquer tema com a direita brasileira. Fica claro seu raquitismo de argumentos, sua pobreza até mesmo de vocabulário e sua fixação por um passado idílico de ORDEM que nunca existiu.

A peça tratou justamente disto: como a direita usa de paralogismos e pensamentos circulares para estruturar um discurso de pura falácia e justificar todo tipo de violência real e simbólica contra quem eles entendem que merece desaparecer ou perecer.

Quem nunca se deparou com as seguintes pérolas da direita: “Freixo critica a violência policial, mas pediu escolta da polícia. Logo, Freixo é um hipócrita”. “Se a opinião pública não lamenta a morte de policiais, por qual razão lamentar a morte da Marielle?” “Você critica a lava jato, logo você apoia a corrupção”. “Você critica o auxílio moradia dos juízes, logo você é invejoso”.

Não precisa estudar tratados de lógica para perceber como as conclusões da direita são de uma indigência sem par.

Não à toa a “elite” curitibana irá votar no Bolsonaro, mesmo sendo mulher e LGBT. Ontem tive a exata dimensão do que a ignorância é capaz: fez uma madame do Batel Soho sair de casa para assistir a uma peça sobre manipulação de massas e atacar a atriz que justamente mostrava pela linguagem artística como a manipulação gera o ódio às minorias.

A decadência da República de Curitiba ali, ao vivo e em cores.

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Tristes trópicos

Destaque

1 – Temer não vai cair nem renunciar. Se renunciar, perde o foro privilegiado e a proteção de uma Câmara de Deputados com maioria corrupta, que está no mesmo barco.

2 – Temer não vai renunciar para concorrer a um mandato de deputado federal que lhe garanta foro privilegiado. Correria um risco muito grande.

3 – Temer vai tentar negociar a nomeação  para algum ministério no novo governo eleito em 2018 para manter o foro privilegiado. Como sempre fez.

4 – No segundo turno, se houver, a direita montará um acordão, com PSDB, com PMDB, com Lava Jato, com Supremo, com tudo.

5 – A aparente oposição de parte da grande mídia venal a Temer é tática, de curto prazo e tem fôlego curto. É um simples jogo de mercado.

6 – Parcela relevante da grande mídia venal continuará apoiando Temer até ele entregar tudo que prometeu: a reforma da Previdência, as privatizações, o pré-sal  e o Estado mínimo. É só observar as valorizações das ações patrocinadas pelos urubus da Bolsa de Valores.

7 – A grande maioria dos deputados e senadores sequestrou o voto e vai utilizá-lo para se defender dos ataques da “Lava Jato”, para enriquecer ou para ambos. A opinião dos eleitores não conta. Esses políticos têm pressa.

8 – Esqueça esta ficção de que existem Paneleiros, Patos ou Coxinhas envergonhados. Não conheço nenhum.

9 – Paneleiros, Patos e Coxinhas aceitam, em sua esmagadora maioria, as consequências nefastas do golpe, se este for o preço a ser pago para banir a esquerda para sempre. Eles não sabem que a esquerda adoece, mas não morre.

10 – Paneleiros, Patos ou Coxinhas não acham que as consequências do golpe sejam nefastas.

11- Enquanto houver Lady Gaga, Universal, CBF, carnaval, N.Y., Miami e mídia venal, doze vezes no cartão ou no cheque especial, os bois não sairão do curral.

12 – Medo, este é o ethos da nossa Nação partida.

13 – Para a maioria, medo do desemprego, de perder a aposentadoria, da inflação, do nome sujo no Serasa ou no SPC, das dívidas no consignado ou no cartão. Medo da milícia, da PM, dos bancos, do patrão. Medo da inanição.

14 – Para os rentistas, cercados, blindados e viajados, medo de perder os privilégios, adquiridos ou herdados.

15 – O medo gera o ódio ou a apatia, respectivamente, pai e mãe da covardia.

16 – Para os golpistas o golpe  se completa com a condenação de Lula a tempo de impedir sua participação, se houver eleição. Torça para um surto de bom senso e organização, se houver oposição.

17 – Lá fora, no Rio de Janeiro, um sol de rachar. Obrigado, Mara, pela ideia. Desculpe, Chico, pelo plágio.

“Um dia de real grandeza, tudo azul

um mar turquesa à la Istambul …

E um sol de torrar os miolos …

A gente ordeira, virtuosa, do lar, que apela,

pra polícia e pra panela

O sol, a culpa deve ser do sol

Que bate na moleira, o sol …”

18 – Tristes trópicos.

 

 

 

Piketty: como colocar a extrema direita no poder

Piketty: como colocar a extrema direita no poder
– 23 DE JANEIRO DE 2017
Publicado em Outraspalavras.net

Economista adverte: na França, tachar Marine Le Pen de “populista”, tentando deslegitimar suas críticas a uma globalização devastadora, só irá jogá-la nos braços dos eleitores

Por Thomas Piketty, com tradução do IHU

Em menos de quatro meses, a França terá um novo presidente. Ou uma presidente: depois de Trump e do Brexit, não se pode excluir que as pesquisas, mais uma vez, estejam erradas, e que a direita nacionalista de Marine Le Pen esteja se aproximando da vitória. E, mesmo que se conseguisse evitar o cataclisma, existe um risco real. Le Pen é capaz de se posicionar como a única oposição credível para a direita liberal no segundo turno.

No lado da esquerda radical, espera-se, naturalmente, no sucesso de Jean-Luc Mélenchon, mas, infelizmente, não é o cenário mais provável.

Essas duas candidaturas têm um ponto em comum: põem novamente em discussão os tratados europeus e o regime atual de concorrência exacerbada entre países e territórios. Isso atrai muitos daqueles que a globalização deixou para trás. Há também diferenças substanciais: apesar de uma retórica destrutiva e de um imaginário geopolítico às vezes inquietante, Mélenchon conserva, apesar de tudo, uma certa inspiração internacionalista e progressista.

O risco desta eleição presidencial é que todas as outras forças políticas – e a grande mídia – se contentem em fustigar essas duas candidaturas e em colocar ambas no mesmo saco, definindo-as como “populistas”. Esse novo insulto supremo da política, já utilizado nos Estados Unidos com Sanders, com o resultado que sabemos, corre o risco, mais uma vez, de ocultar a questão de fundo.

O populismo nada mais é do que uma resposta, confusa mas legítima, ao sentimento de abandono das classes populares dos países desenvolvidos diante da globalização e do aumento da desigualdade. É preciso confiar nos elementos populistas mais internacionalistas (e, portanto, na esquerda radical, encarnada nos diversos países pelo Podemos, pelo Syriza, por Sanders ou por Mélenchon, independentemente dos seus limites) para construir respostas precisas a esses desafios. Caso contrário, a tendência nacionalista e xenófoba acabará por abalar tudo.

Infelizmente, é a estratégia da negação que os candidatos da direita liberal (Fillon) e do centro (Macron), estão se preparando para seguir, determinados, ambos, a defender o status quo integral sobre o fiscal compact, o pacto de orçamento europeu assinado em 2012. Não que isso chame a atenção, já que um o negociou, e o outro o aplicou. Todas as pesquisas confirmam isto: esses dois candidatos seduzem, acima de tudo, os vencedores da globalização com nuances interessantes (os católicos com o primeiro, e os burgueses radical-chic com o segundo). Mas, em última análise, são pontos secundários em relação à questão social. Os candidatos citados pretendem encarnar o perímetro da razão: quando a França tiver reconquistado a confiança da Alemanha, de Bruxelas e dos mercados, desregulando o mercado de trabalho, reduzindo os gastos públicos e os déficits, eliminando o imposto sobre o patrimônio e aumentando o imposto sobre o consumo (IVA), então finalmente será possível pedir que os nossos parceiros venham ao nosso encontro a respeito da austeridade e da dívida.

O problema desse discurso que parece ser razoável é que ele não o é de todo. O tratado de 2012 é um erro monumental, que aprisiona a zona do euro em uma armadilha mortífera, impedindo-a de investir no futuro. A experiência histórica mostra que é impossível reduzir uma dívida pública desse nível sem recorrer a medidas excepcionais. A menos que os países se condenem a registrar superávits primários durante décadas, compremetendo no longo prazo qualquer capacidade de investimento.

De 1815 a 1914, o Reino Unido passou um século registrando excedentes orçamentários enormes para reembolsar os seus rentistas e reduzir a dívida exorbitante produzida pelas guerras napoleônicas. Essa escolha nefasta produziu investimentos em formação inadequados e um novo impasse do país. Entre 1945 e 1955, ao contrário, Alemanha e França conseguiram se desembaraçar rapidamente de uma dívida de proporções semelhantes com uma combinação de medidas de cancelamento da dívida, inflação e impostos excepcionais sobre o capital privado, colocando-se em condições de investir no crescimento.

Seria preciso fazer o mesmo hoje, impondo à Alemanha um Parlamento da zona do euro para aliviar as dívidas com toda a legitimidade democrática necessária. Se não for assim, o atraso nos investimentos e a estagnação da produtividade já observados na Itália acabarão por se estender para a França e para toda a zona do euro (já há sinais nesse sentido).

É mergulhando novamente na história que conseguiremos sair do impasse atual, como acabaram de recordar os autores da magnífica Histoire mondiale de la France, ótimo antídoto às tendências identitárias do país. De maneira mais prosaica e menos divertida, é preciso também mergulhar nas primárias organizadas pela esquerda de “governo” (chamamo-la assim por não ter conseguiu organizar primárias com a esquerda radical, algo que pode afastá-la do governo).

É essencial que essas primárias designem um candidato decidido a colocar drasticamente em discussão novamente as regras europeias. Hamon e Montebourg parecem mais próximos dessa linha do que Valls ou Peillon, mas com a condição de que superem as suas posições sobre a renda universal e o made in France e, finalmente, formulem propostas específicas para substituir o pacto fiscal de 2012 (mencionado apenas de passagem no primeiro debate da televisão, talvez porque, há cinco anos, todos votaram nele: mas é precisamente por isso que é ainda mais urgente esclarecer as coisas, apresentando uma alternativa detalhada) [Benoit Hamon, o candidato mais à esquerda do Partido Socialista, venceu o primeiro turno das “primárias cidadãs”, em 22/1. Ele enfrentará o candidato neoliberal Manuel Valls no segundo turno destas primárias (Nota de “Outras Palavras”)].

Nem tudo está perdido, mas é preciso agir com pressa, se se quiser evitar colocar a Frente Nacional em uma posição de força.

Marina, a direita e a melancia

Há pouco um amigo de direita definiu Marina, candidata a presidente, como uma melancia. Não entendi o comentário. Criativo, imaginei que meu interlocutor estava fazendo uma comparação com Melania, a mulher do candidato norte-americano Donald Trump, em função da “clareza” com que ambas expõem suas ideias. Tiro fora do alvo. Segundo este amigo Marina seria uma melancia por ser verde por fora e vermelha por dentro. Nada mais incorreto. Marina, diga-se a verdade, tornou-se incolor. Convenientemente incolor. Ou, talvez, furta-cor. Adapta sua cor à sua conveniência. É um camaleão ideológico.

Marina só pensa em um assunto: sua candidatura à presidência da república. Suas opiniões, sobre qualquer assunto, convergem para esse tema único.

Marina acusou a campanha de Dilma e o PT pelo seu fracasso em 2014. Finge esquecer que Aécio e sua campanha também lhe aplicaram alguns golpes certeiros. O  problema real é que o balão de gás de Marina esvaziou-se, não tanto pelas críticas feitas pelas campanhas de Dilma e Aécio mas devido, principalmente, à sua própria falta de substância e coerência.

Na minha opinião, Marina afundou quando começou a falar e a deixar transparente seu despreparo, sua falta de conteúdo e incapacidade para enfrentar Dilma no segundo turno. Seu apoio à candidatura de Aécio Neves em 2014 reforçou essa impressão de incoerência e serviu para arrancar a máscara que cobria sua face neoliberal.

Esta semana, em visita à Fortaleza (1), Marina elogiou o direcionamento econômico do governo golpista de Temer, apesar do, em suas próprias palavras, envolvimento dele com escândalos de corrupção. Segundo Marina, o governo golpista “tem uma equipe econômica competente que pelos menos está ziguezagueando para tentar se livrar da crise”.

Marina acha que ziguezaguear em política econômica é aceitável e indício de competência.

Ziguezaguear … Parece conversa de bêbado.

A candidata encerrou a entrevista defendendo a cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE e a convocação de novas eleições presidenciais.

Marina, sempre ziguezagueando nas suas opiniões. Marina sendo ela mesma.

(1) Jornal de Hoje, em opovo.com.br, de 01/08/2016.