O golpe “deu ruim”. Agora não adianta tirar o corpo fora …

Por Pedro Breier, colunista do Cafezinho

Um amigo que apoiou o impeachment me disse, resignado, alguns dias atrás: “foi golpe mesmo”.

Um conhecido pediu desculpas públicas hoje, em sua página do Facebook, às pessoas com quem ele discutiu defendendo o impeachment. “Eu preciso admitir que a palavra golpe é a melhor definição para a queda da Dilma”, escreveu.

As provas contra os bandidos que assaltaram o poder, especialmente contra Temer, que aparentemente vai morrer abraçado à cadeira onde nunca deveria ter sentado, estão fazendo as pessoas acordarem do torpor a que foram induzidas pelo massacre midiático liderado pela Globo.

O retumbante fracasso do golpe é um fato consumado.

Vai ficando cada vez mais claro que a mídia hegemônica e a dupla PSDB/PMDB tinham dois objetivos para o pós-golpe.

O primeiro era aplicar sua agenda de desmonte do Estado e ataque à direitos, visando rebaixar a renda dos trabalhadores e manter a margem de lucro dos grandes empresários e especuladores. O neoliberalismo prega que a economia deve chegar ao rés do chão o mais rápido possível para que o ciclo de recessão acabe e a expansão da economia seja retomada.

Ninguém admite isso publicamente, mas a ideia das medidas de austeridade é justamente aprofundar a recessão para que a economia volte a crescer o mais rápido possível. Afinal, quando se chega ao fundo do poço, só se pode subir mesmo.

Os milhões de desempregados e miseráveis que resultam desta teoria econômica são mero detalhe para os cabeças de planilha. Gente sofrendo são apenas números para essa gente.

O problema é que o fundo do poço está demorando para ser vislumbrado. Além disso, o desemprego, o rebaixamento dos salários e a piora brutal nas condições de vida estão irritando profundamente os brasileiros. Temer é o presidente mais mal avaliado da história e a população quer eleger o novo mandatário do país o mais rápido possível.

O segundo objetivo da ala midiática/partidária do golpe era controlar o MP e a Justiça para que tudo voltasse à “normalidade” dos anos 90, onde a dilapidação do patrimônio público e as grandes negociatas eram tranquilamente engavetadas e abafadas.

Deu ruim também.

O endeusamento de Moro, Janot, Dallagnol e companhia criou um monstro que passa por cima do que estiver pela frente, inclusive da lei e da economia nacional, em nome de sua heroica luta contra a corrupção (É claro que no caso de Temer e de seus bandidos de estimação há provas abundantes de crimes, e não apenas delações obtidas por meio de tortura).

As reformas tão sonhadas pelos donos do dinheiro neste país subiram no telhado de um arranha-céu. O presidente colocado no poder justamente para transformá-las em realidade apenas luta pateticamente pela própria sobrevivência.

Paulo Skaf agora diz que a Fiesp “não se mete em política”. A Globo grita “Fora Temer”. O PSDB continua abraçado ao zumbi putrefato que, incrivelmente, ainda é presidente do Brasil.

São todos uns grandes brincalhões.

Mas agora não adianta tentar tirar o corpo fora. A ruína do golpe ficará marcada na testa de cada um dos conspiradores por muito tempo.

Pedro Breier, colunista do blog O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

Patos, paneleiros e corruptos, apatia seletiva em tempos de cólera (revisado em 27.06.2017, 9:13)

Observo os comentaristas políticos da Globo incomodados com a apatia dos patos e paneleiros.

Por mais que a Globo se  esforce para criar uma onda para derrubar Temer e colocar um escolhido dela no seu lugar, não consegue movimentar a patolândia.

O discurso é que os patos e paneleiros estão cansados. Ora … ora … cansados … Eles estão mesmo é … satisfeitos !

A verdade é que os patos e paneleiros, apesar dos esforços da Globo, não baterão suas panelas e não irão para as ruas derrubar o primeiro presidente da república denunciado por corrupção com provas materiais.

Embora o ilegítimo não seja propriamente um presidente com P maiúsculo, não se pode esquecer que é a primeira vez no país que um presidente é denunciado em um processo criminal, que poderia dar em cassação e cadeia.

É a desonra máxima, inédita, do cargo de presidente da república.

Falta compostura ao envolvido e falta compostura à parte da nação que assiste conformada toda esta situação como se fosse novela das oito.

Encontro furtivo com criminoso confesso, em próprio federal, fora da agenda oficial, em horário noturno; gravação com conteúdo comprovadamente suspeito; recebimento de mala com dinheiro, devidamente filmado, nada disso levará os patos às ruas. Não lhes interessa a queda de Temer. Temem que o processo saia de controle e o povo eleja, novamente, um candidato popular.

Para mim tudo isto comprova que o principal motivo dos paneleiros e patos era o ódio ao povo, ao popular e às esquerdas e não, como diziam, o ódio à corrupção.

As corrupções, tanto as grandes quanto aquelas pequenas do dia-a-dia, eles sempre as toleraram e, vários deles, até mesmo as praticaram e praticam.

Seus discursos contra a corrupção não são sinceros. Não tem mazela maior que a miséria, o desemprego e a segregação social e isto os insinceros toleram e, mesmo involuntariamente, incentivam.

O que eles odeiam mesmo é o fim dos seus privilégios espúrios, a desconcentração da riqueza e da renda, as políticas de proteção social.

O que eles odeiam mesmo é um governo da maioria, eleito em eleições diretas e honestas.

O que eles odeiam mesmo é a democracia digna, do povo, pelo povo, para o povo.

O que eles odeiam mesmo é que seu voto elitista valha exatamente igual ao voto do ser desprezível que habita os guetos, as favelas e os nordestes da vida.

Se esta carapuça que eu lanço não lhe cabe na cabeça , por que você continua aí calado, engolindo com prazer tudo isso que lhe servem no dia-a-dia, concordando com tudo bem lá no fundo de sua alma e fingindo asco quando em público?

Ocupação das escolas

Quase sempre presto atenção às opiniões do meu amigo de Facebook Luiz Carlos de Oliveira e Silva. Algumas de suas opiniões são polêmicas e causam debate e saudáveis discussões.

Não é este o caso no texto que compartilho a seguir. Embora o assunto possa, na superfície, parecer polêmico, na sua essência não é. Luiz Carlos retira as arestas e entrega uma opinião redonda, clara e incontestável.

É impressionante como o debate em curso hoje, no país, sobre quase tudo, está poluído. As pessoas misturam assuntos, não têm visão clara do que estão discutindo, quase nunca vão ao cerne das questões e nunca passam da repetição rasa das ideias simplistas jogadas no ar por jornalistas sem tempo e sem preparo, sempre pressionados pela necessidade de agradar os donos de jornais, revistas e TVs, seus patrões.

Quando a ideologia do jornalista, constatada por suas opiniões nas redes sociais, casa com a ideologia dos seus poderosos empregadores, temos a união do inútil com o desagradável. Entregam pizza de muçarela fria para um telespectador ou ouvinte distraído que já foi acostumado a engolir qualquer gororoba sem reclamar.

Hoje mesmo assisti uma matéria das Organizações (êta definição adequada para o que este grupo empresarial representa!) Globo com viés totalmente de acordo com o “padrão Globo” de manipulação da informação para formatar consciências e administrar as opiniões. Repórter escolhida: Gioconda Brasil. Na matéria jornalística o ministro da Educação, este sim um invasor despreparado para o cargo que ocupa, ameaça os alunos com processos de “ressarcimento” de eventuais custos declarando, fiz questão de anotar, que esta é uma “obrigação legal e moral” do ministério.

Ora, o douto ministro, que recebeu em seu gabinete o pedagogo Alexandre, guardião da moral e dos bons costumes, como primeira autoridade da área de educação a opinar sobre os futuros projetos educacionais do governo golpista, não tem a menor habilidade política para negociar, nem formação acadêmica ou intelectual para estar à frente de um ministério que deveria ser um dos mais importantes em um país em desenvolvimento como o Brasil.

A reforma do ensino médio por medida provisória sem discutir com ninguém além do sábio pedagogo escolhido, é uma prova de incompetência política e falta de inteligência do ministro. Ou arrogância típica dos regimes autoritários.

A imposição representada pela PEC 241/PEC 55 vai pelo mesmo caminho. Embora inconstitucional, com sérias ameaças para o futuro da educação no país, a famigerada PEC que congela os gastos reais com a educação por 20 anos não foi discutida com ninguém do meio educacional.

Segue o post do Luiz Carlos.

Paulo Martins

OCUPAÇÃO DAS ESCOLAS, por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Dois grupos de jovens:
1. Os jovens que ocupam escolas fazem uma luta de caráter coletivo. Querem que o preceito legal, que diz que educação é um direito do cidadão e um dever do estado, seja cumprido.
2. Os jovens que vão às escolas ocupadas exigir o fim das ocupações fazem uma luta de caráter individualista. Querem assegurar o direito de cada um deles de terem aulas já.
3. O primeiro grupo de jovens pensa coletivamente. Pensam nos seus direitos e nos dos jovens que virão. Eles não separam uma coisa da outra. Eles são de esquerda.
4. Os jovens do segundo grupo pensam individualmente. Pensam apenas nos seus interesses individuais imediatos. Eles querem os seus diplomas, e apenas isto. Eles são de direita.
5. Melhor dizendo: eles não querem apenas os seus diplomas… Eles querem o estado fora da educação! Acham que, assim, eles terão melhores chances na vida, com menos concorrência.
6. E pensar que há pessoas que dizem que a distinção entre esquerda e direita não faz mais sentido.
7. São de direita os que pensam assim, já reparou?

Mídias, golpes e azarões

Trabalhei e estudei nos EUA nos anos 70, durante quase quatro anos. Ao retornar ao Brasil trabalhei por muitos anos em comércio internacional, realizando negociações comerciais, tanto de exportação quanto de importação, sempre em contato com empresas norte-americanas.

Na época, nos anos 70, acompanhei com grande interesse a disputa presidencial entre Jimmy Carter e Ronald Reagan. Reagan, para surpresa de muitos, venceu as eleições com um discurso bélico, em relação ao posicionamento que os EUA queriam projetar para o mundo e neoliberal, nos assuntos econômicos e sociais.

Era tão evidente a estratégia belicista de Reagan que Carter o apelidou de “warmonger”, tentando dar um tom ainda mais pejorativo ao termo. Os dicionários ensinam que “warmonger” diz respeito àquele que advoga, provoca e incita guerras. Nada mais correto. Vimos, com o passar dos anos, que os EUA entraram na rota de resolver seus problemas internacionais com guerras e terrorismo (com drones) e o mundo tornou-se extremamente inseguro.

Voltando aos anos 70. O Irã havia realizado uma revolução que derrubou o Xá Reza Pahlevi, aliado dos norte-americanos. Os revolucionários, além de tomarem o poder, invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e mantiveram os diplomatas norte-americanos como reféns.

Parte considerável da população norte-americana, insuflada pela mídia, apoiava uma “solução” de força, em vez de negociação, para este conflito. O discurso de Reagan em favor de uma solução bélica para os problemas dos Estados Unidos estavam, então, em consonância com importante parcela do eleitorado. A mídia deu o empurrão final e fez de Reagan o presidente da “América neoliberal and great again”.

O discurso de Jimmy Carter, embora eticamente correto e essencialmente verdadeiro, como o tempo provou, não causou o impacto necessário para levá-lo à reeleição. Foi levado em consideração pelos seus eleitores, tinha méritos, mas o eleitorado direitista e republicano se uniu em torno dos principais lemas de campanha de Reagan.

Embora o pano de fundo, o momento histórico, seja diferente, o discurso de Trump, candidato republicano à presidência, lembra o discurso de Reagan. A exemplo de Reagan, Trump une uma maioria silenciosa que,  para além das fronteiras partidárias, é xenófoba. A diferença é que Trump parece ter conseguido unir contra si um espectro mais amplo de inimigos, em função de suas manifestas ideias preconceituosas.

Eleições compradas pelo dinheiro e pela mídia, tanto quanto golpes de republiquetas bananeiras, visam dar posse a azarões, como Trump, Collor e Michel Temer. Com as mesmas nefastas consequências para as verdadeiras democracias.

Michel Temer, azarão, nunca seria capaz de ganhar una eleição para presidente da república no voto.

Ocorre com a xenofobia nos EUA o mesmo que ocorre com o golpe político-midiático no Brasil que colocou um grupo de indiciados atuais e futuros no poder: Existe uma importante parcela da sociedade que quer o poder, mesmo estando consciente do retrocesso que suas respectivas posições representa. No caso do Brasil, todos sabem que é golpe, sabem tratar-se de uma farsa e não se importam com isso, desde que este golpe possa transformar, como uma mágica, seu voto derrotado nas urnas em tomada do poder. Esta parcela da população, à Maquiavel, acha que o certo é vencer, sem se importar com os meios para alcançar esta vitória. Os demais, que se posicionam contra o golpe, protestam nas ruas abafados pelo silêncio vergonhoso e conivente da mídia que está atolada até o pescoço no pântano da manipulação para o golpe.