Servidores do IPEA solidarizam-se com autores censurados no INEP

Em 2014, durante a campanha eleitoral para a presidência da República, criou-se uma polêmica artificial sobre censura inexistente a pesquisador do IPEA que pretendia publicar um trabalho com claro intuito de influenciar no resultado da eleição. Como a legislação exigia, as regras do jogo, ou seja, os critérios a serem adotados pelo IPEA em relação às eleições, haviam sido definidas com razoável antecedência, ainda no primeiro semestre de 2014, e amplamente divulgadas em encontro público interno no IPEA – Brasília, com videoconferência para o IPEA – Rio de Janeiro. Como servidor concursado do IPEA, ainda em atividade naquela ocasião, sou testemunha dos cuidados adotados, com a devida antecedência, pela alta administração desta instituição de alto prestígio e credibilidade. Quando o assunto voltou, requentado, para as páginas dos jornais engajados no golpe contra o governo Dilma Rousseff tive a oportunidade de escrever um post sobre este assunto. Para acessá-lo, basta digitar em seu buscador o endereço deste blog: dialogosessenciais.com e pesquisar a palavra chave IPEA.

Não fiquei surpreso quando, instalado o governo golpista de Temer e colocado na presidência do IPEA um dos seus (de Temer) diletos amigos, aconteceu em 2016 um episódio, este sim, de censura explícita, e nenhum dos “jornalistas-ativistas libertários indignados” que haviam criticado o IPEA em 2014, compareceu para defender os pesquisadores e a liberdade de pesquisar e publicar do IPEA. Escrevi um post na ocasião criticando este silêncio conveniente.

Agora, censura e silêncio cúmplice se repetem. Desta vez em outro órgão público federal: INEP. O blog do Freitas – avaliacaoeducacional.com publicou uma carta de solidariedade dos servidores do IPEA aos servidores censurados do INEP. Leia no link abaixo.

PauloM

https://avaliacaoeducacional.com/2017/11/23/servidores-do-ipea-solidarizam-se-com-autores-censurados/

Intervenção no IPEA e o silêncio cúmplice da mídia lobista

Na campanha presidencial de 2014 a “grande imprensa”, coerente, lobista dos interesses da plutocracia, criou um bafafá sobre uma suposta interferência do presidente do IPEA em referência à publicação de um trabalho de um Técnico de Pesquisa da casa às vésperas da eleição.

Como servidor público do IPEA testemunhei que, ainda no primeiro semestre de 2014, o presidente do IPEA, servidor de carreira, em seu discurso de posse deixou claro quais seriam os critérios para publicação de trabalhos e quais os cuidados que a legislação em vigor impunham ao IPEA observar para não configurar intromissão indevida no processo eleitoral. As regras estavam claras e óbvias e, assim, não foram contestadas na ocasião.

Com o acirramento do processo eleitoral, no entanto, os ânimos se exaltaram e observamos a participação, direta e indireta, de Técnicos servidores do Instituto no processo eleitoral. Em alguns casos clara e abertamente e, em outros, de forma escamoteada. Tive a oportunidade de escrever sobre isso em artigo neste blog tal a dimensão que o caso assumiu na grande mídia lobista.

O governo dos denunciados na Lava-Jato, liderados por Temer, nomeou para o IPEA um presidente sem as qualificações necessárias para o cargo, com a nítida intenção de direcionar as pesquisas do Instituto e impedir a publicação de trabalhos com conteúdo contrário aos interesses do “governo”. O novo presidente do IPEA foi escolhido a dedo. Um profissional qualificado, com uma carreira técnica e acadêmica notável, não aceitaria fazer este tipo de trabalho.

A grande imprensa lobista, antes tão preocupada com a liberdade de pesquisa no IPEA, parou de se preocupar com o assunto. Leia, abaixo, a nota da Associação de Funcionários do IPEA e entenda o que está ocorrendo no Instituto sob a presidência do amigo do Temer.

Paulo Martins

“Boa tarde prezado associado,

A Associação de Funcionários do Ipea (Afipea/Afipea-Sindical) sempre se pautou pela defesa da pluralidade, contra qualquer tipo de controle da produção e dos resultados de pesquisa por critérios políticos alheios à garantia da consistência metodológica e da qualidade da informação gerada. Precisamente por essa razão, entendemos que a produção editorial do Ipea não pode ser utilizada para elogiar ou desqualificar qualquer ator ou movimento político e social. Assim, a Afipea/Afipea-Sindical vêm a público manifestar-se contra o uso político do Instituto, seja ele executado por qualquer de seus servidores, inclusive os dirigentes.
Dessa forma, a Afipea considera inadequada a publicação eletrônica pelo Ipea, ocorrida na última semana, do livro Agricultura e Indústria no Brasil: Inovação e Competitividade, autoria de José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho (Ipea) e Albert Fishlow (Columbia University), por conter imagens e comentários (páginas 148 e 149) que servem unicamente para expressar opiniões político-partidárias. A publicação teve ampla repercussão, sendo objeto de comentários pejorativos para a imagem institucional.
Quando duas notas técnicas, publicadas em setembro de 2016, apontaram os problemas de financiamento impostos às políticas de saúde e assistência social em decorrência do “Teto de Gastos” (que na época tramitava na Câmara dos Deputados como PEC 241), o Presidente do Ipea divulgou comunicado à imprensa negando que estas refletissem a posição do Instituto, apontando equivocadamente a existência de erros metodológicos e contrapondo-se ao resultado do rigoroso processo de debate e validação técnica aos quais esses trabalhos haviam sido submetidos.
Já no que se refere ao livro ora publicado, chama a atenção que a Presidência e a diretoria colegiada do Ipea adotem posição radicalmente diferente, diante do fato de que as imagens citadas e seus respectivos comentários não apresentam fundamento técnico, desqualificando a produção consolidada do próprio Instituto em diferentes temas. É possível enxergar nessas atitudes contrastantes uma tentativa de “filtrar” a produção do Ipea com base em critérios políticos.
Ressaltamos que tal direcionamento é contrário à proposta de uma instituição voltada a proporcionar, ao governo federal, ao conjunto dos poderes públicos e à sociedade, informação e debate qualificados, contribuindo assim para a deliberação e gestão democráticas. O respeito a todas as posições políticas, a autonomia em relação à orientação política do governo, assim como o compromisso com o exame amplo e sem preconceitos de soluções alternativas para os problemas vocalizados pelo governo e pela sociedade brasileira são condições necessárias para que desempenhemos nossa missão.
Vale ressaltar que o Ipea publica anualmente mais de 250 títulos, totalizando mais de 27 mil páginas de livros, revistas, boletins, notas técnicas, relatórios e textos para discussão, em sua imensa maioria com afirmações e conclusões baseadas em dados e análises robustas.
Repudiamos, agora e sempre, práticas que visam submeter a capacidade técnica e de comunicação do Ipea a preferências de ordem político-partidária, sejam elas quais forem.

Conselho Deliberativo e Diretoria Executiva”

O interventor de Temer e as pesquisas no IPEA

Trabalhei no IPEA por 10 anos, até recentemente. Em função do meu trabalho tive acesso a muitas informações sensíveis. Logo, por motivos éticos, evito tratar neste blog dos assuntos internos deste importante órgão da administração pública federal.

Publico no blog, quando avalio que interessam, estudos do IPEA, sempre de alta qualidade técnica.

Só me manifestei nos assuntos do IPEA poucas vezes quando percebi que a mídia, quase sempre equivocadamente crítica quando se tratava do IPEA nos governos Lula e Dilma, publicava informações distorcidas ou erradas.

A mídia, quando se tratava do IPEA, escolhia sempre um lado. Técnicos atuando no IPEA, hoje trabalhando em outros órgãos, sempre consultados pela Gobo e convidados para participar de seus programas de TV, chegaram ao cúmulo de publicar livros técnicos com indicação de Miriam Leitão em uma contracapa e de Merval Pereira na outra. Nenhum dos dois entendiam o suficiente do assunto tratado para recomendar o livro. Deve ter sido sugestão da editora, para facilitar a venda. No mínimo, promiscuidade. Na imprensa, nem um pio.

Assim se manifestou a mídia de conveniência no passado, sobre determinados trabalhos do IPEA que iam contra a linha editorial do jornal ou da revista:

“O problema desse trabalho é que ele parece mais guiado por ideologia do que pela ciência. E é muito perigoso quando um instituto de pesquisa permite ser mais guiado por interesses políticos e ideológicos do que pela pura pesquisa” — Marcos Fernandes.

“Índice de confiabilidade do Ipea cai 74%, diz Ipea” — Revista Veja, em coletânea de frases sobre o caso.

Palavras premonitórias. Explicam com exatidão o que ocorre com o IPEA hoje, sob interdição de um interventor amigo de Temer. Onde foi parar a liberdade para se fazer a “pura pesquisa”. Onde está a mídia tão ciosa da liberdade de pesquisa no passado que não faz qualquer crítica ao que ocorre hoje? Com o IPEA amordaçado, perderam o interesse pe

Esta semana este interventor indicado por Temer para presidir, enquadrar e alinhar os trabalhos do IPEA com os desejos do governo Temer escrachou o trabalho de um grupo de técnicos do órgão, apontados erros e falhas metodológicas e apresentou outras conclusões em linha com o que o governo Temer encomendou. Tudo escancarado. Humilhantemente escancarado.

Forçou a insituição a mudar sua opinião original sobre os prejuízos da PEC 241 para a área de saúde.

Todos sabem que o presidente interventor não tem os requisitos técnicos e acadêmicos para presidir uma instituição de excelência do porte do IPEA. Ganhou este cargo como prêmio de consolação por ter perdido a presidência do BNDES, que almejava. Se não está dando conta do seu trabalho no IPEA, Imagine esta sumidade como presidente do BNDES.

Trabalhei em diversas empresas privadas de grande porte e em órgãos públicos durante minha vida profissional. Nunca vi um comportamento tão degradante e humilhante a um grupo de profissionais quanto este praticado pelo despreparado interventor.

Os acontecimentos não me surpreendem, no entanto. Quem foi capaz de trair e golpear como Temer, não iria admitir a liberdade de pesquisa em uma instituição pública. Tanto que nomeou um interventor capataz para realizar o serviço. Um profissional de prestígio, com reconhecimento no mundo acadêmico, certamente se recusaria a fazer papel tão abjeto.

 

Um pouco de compostura, senhores (4)

O post do colunista Helio Gurovitz, no G1, desta quinta-feira, intitulado “A caça às bruxas que sufocou o IPEA” desinforma no título e no texto, preconceituosos, ralos e superficiais.

E o rapaz é humilde: acha que o seu blog é necessário para os leitores entenderem melhor o Brasil e o Mundo. Menos, professor, menos …

O que é escandaloso, na verdade, é o G1, como é rotina em parcela importante da mídia-empresa, mostrar somente uma versão da história, omitindo informações relevantes.

Trabalho no IPEA e tenho, por escrúpulo, evitado tratar neste blog de assuntos relativos à instituição.

Todavia, posso fazer algumas afirmativas sobre este assunto, pois os fatos são amplamente conhecidos.

Diversos técnicos do IPEA participaram da campanha eleitoral. Uns mais ativamente,  outros menos.

Alguns – como é o caso de Mansueto Almeida – atuaram às claras. Mansueto, não só deixou claro que compunha a equipe econômica do candidato Aécio, como licenciou-se do IPEA no período eleitoral. Pelo menos esta foi a informação divulgada à época. Outros agiram em diversas instâncias sem a recomendável neutralidade ou transparência.

Sou testemunha de que o cuidado em relação ao que devia ser publicado e divulgado foi recomendado pela alta administração em reunião aberta, no auditório do IPEA/Brasília com transmissão em videoconferência para o IPEA/Rio, no dia 27/05/2014, na posse do novo presidente do IPEA, Sergei Soares.

Pareceu-me recomendação óbvia. Como um instituto de pesquisa com  credibilidade conquistada em 50 anos de existência, o IPEA não poderia participar do processo eleitoral, de um lado ou de outro. A Casa estava razoavelmente pacificada após um período de turbulência iniciado em 2011 e não queria voltar a ser o centro das atenções negativas, especialmente em plena campanha eleitoral. Esta foi a minha leitura na ocasião. Achei bem razoável e prudente.

Na minha opinião, o acirramento da disputa política na eleição presidencial de 2014 e a manipulação midiática tão descarada à época da eleição,  deram magnitude exagerada ao assunto.

O ator principal do folhetim omitiu-se e, em vez de jogar água na fervura, abandonou a panela ao fogo.

Agora, em pleno terceiro turno, o assunto volta requentado.

Na ocasião da polêmica, pouco antes da eleição, o IPEA emitiu uma nota explicando o ocorrido.  O descuidado blogueiro do G1, ou desconhece os fatos e, portanto, deveria ter a prudência de não meter a  colher de pau no angu de caroço que não conhece, ou os escamoteou.

Nos tempos que vivemos, de valores democráticos e éticos jogados na lata do lixo e de jornalismo ralo e seletivo, eu não me assustaria se a omissão tiver sido proposital.

Este é o novo normal no jornalismo nacional.

Como pedir compostura a estes senhores da nossa mídia ? Eles podem responder que já a praticam, na acepção do item 3, abaixo.

Obs: escrevo em meu nome, como cidadão atento, em caráter particular. Não tenho procuração de ninguém para emitir esta ou aquela opinião, mas não posso deixar passar preconceitos e intrigas como se fossem informação relevante “para entender melhor o Brasil e o mundo”.

Paulo Martins

Compostura. (do lat. compostura). S.f.

  1. Composição
  2. Concerto, arranjo
  3. Falsificação, imitação
  4. Seriedade ou correção de maneiras; comedimento, circunspeção, modéstia

em Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa