Os ditadores de espírito nunca morrem …

Texto emocionante do desembargador Lédio Rosa de Andrade, amigo de infância, sobre a morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, professor Luiz Carlos Cancellier.

Compartilho, do Facebook de João Lopes.

Paulo Martins

“Eu hoje, como professor da UFSC, sou uma pessoa que tem orgulho e alegria. Como desembargador, tenho vergonha. Porcos e homens se confundem.”
“Fascistas e democratas usam as mesmas togas.”
O desembargador Lédio Rosa de Andrade, amigo de infância do reitor, seu colega no Centro de Ciências Jurídicas, sobe ao palco. Ele manca de uma perna e segura na mão de uma jovem, talvez aluna.
Um gigante na tribuna. Ele chama o reitor pelo apelido de infância, Cal. Transcrevo toda a fala, pela força da mensagem: “Tentarei, num esforço muito grande, manter o mínimo de racionalidade, porque, confesso, que, neste momento, o sentimento, a emoção me toma. Uma tristeza profunda me corrói por dentro. Uma raiva forte. Uma indignação maior ainda diz que nós temos que ir adiante, que não podemos parar, porque o momento por que o nosso país passa é grave, é perigoso e precisa de ação.
Acioly, Julinho, que saudade da rua Santos Dumont, onde morávamos como crianças, onde passamos nossa juventude, onde jogávamos bola na rua e xadrez dentro de casa, tênis de mesa nos dias de chuva, onde cometemos nossos primeiros crimes, temos que confessar, pois ali furtamos umas goiabas, também rosas para nossas namoradas. Todos nós juntos, você era pequeno, Julinho, Acioly um pouco mais adulto, eu e o Cal da mesma idade.
Frequentamos o Colégio Deon (grafia pode não estar correta), brincamos, brigamos, estudamos, porque éramos de famílias humildes. Só tínhamos a nós e a nossa capacidade. E assim seguimos adiante.
Chegamos a esta universidade como alunos. Alunos de direito. E enfrentamos a ditadura militar, a arma no governo. O reitor Ernani, que há pouco falou, administrava tendo que aturar, na marra, um sala para os agentes da polícia que fotografavam, que nos espionavam, que poderiam nos prender se escutássemos o Chico Buarque ou o Vandré.
E que ironia da história e do destino, porque foi naquele hall da reitoria que eu, o Cal e tantos outros líderes estudantis, como o Adolfo, já falecido, o Jailson Lima, que jantamos juntos, e o Julinho, esta semana lá em casa com o Cal. Ali, naquele hall, nós fizemos as maiores assembleia do tempo da ditadura. Milhares e milhares de alunos sentamos no chão e nós usávamos a escada como palanque para denunciar a prepotência e para defender a autonomia e a liberdade da universidade pública e gratuita.
Nós sabíamos que nós não estávamos no estado democrático de direito.
Nós sabíamos que poderíamos ser presos. Nós sabíamos que tivemos colegas e amigos presos, torturados e alguns assassinados, porque aquele era o regime que nos administrava.
Mas não esmorecemos, fizemos a nossa luta. E ganhamos, porque acabamos com a ditadura. Ela terminou. A vida seguiu.
O Cal foi para Brasília acompanhar o combatente senador Wedekin. Voltou e terminou seu curso de direito.
Fez metrado, fez doutorado, e eu tive a honra de estar nas duas bancas dele. Discutíamos, conversávamos, estudávamos, pesquisávamos, porque sempre fomos contra o fundamentalismo, sempre fomos contra os argumentos fáceis, néscios, cheios de verdade, mas ocos, vazios, fórmulas vazias.
Trocamos de lado.
De estudantes passamos a professores desta casa. E como Cal se orgulhava disso. Como ele gostava disso. Como ele tinha nisso a sua vida. E da vida humilde da rua Santos Dumont, do nosso querido Tubarão, construiu outra vida, típica de professor aqui em Florianópolis. Apartamento de professor. Nem carro tinha. Vida de professor, prática de professor.
E foi nestas condições que chegou a seu maior sonho, a reitoria desta universidade.
Claro que todos nós temos vaidade, todos nós temos um ego e precisamos dele para viver o dia a dia. É claro que chegar a reitor tem um pouco de ambição, de todos que lá chegaram. Mas, acima de tudo, Cal tinha vocação, tinha o desejo pelo ensino, tinha a vontade de fazer da UFSC o que estava fazendo, com sua equipe, uma das maiores universidades deste país.
E vejam que coisa: a ditadura não nos prendeu. E nós achávamos que tínhamos derrubado. Cometemos um erro porque os ditadores de espírito nunca morrem. Estão sempre aí, estão aqui, neste momento, alguns deles, esperando a hora de voltar. Sempre.
Esta luta não acaba. Nunca acaba esta luta. E se nós descansarmos, eles voltam. Eles voltam. Quando se fala em estado democrático de direito, nós estamos falando de muito sangue, de muita guerra, de conquistas feitas com suor e com esforço de nosso antepassados.
Quando se fala em ampla defesa, estado democrático de direito, contraditório, isso não é brincadeira.
Esse néscios que estão por aí dizendo bobagem não sabem o que é uma ditadura. Não sabem que eles serão os primeiros a clamar por estado democrático de direito daqui a pouco.
E foi dentro dessas condições que o Cal se deparou com a mais perfeita ditadura, que é a ditadura feita em nome da moral, a ditadura feita em nome da justiça, a ditadura feita em nome da democracia.
É claro que estado democrático de direito precisa de imprensa livre, é claro que estado democrático de direito precisa de independência do Judiciário, para que o Judiciários e os juízes julguem livremente, sem pressão.
Só que também é claro que essas instituições, absolutamente importantes para a democracia, a cada dia, a cada momento, são deturpadas.
Em nome da liberdade de imprensa, se exerce a liberdade de empresa, privada, para impor desejos privados à coletividade.
Em nome da liberdade de julgar, neofascistas humilham, destroem, matam.
Como professor de criminologia, eu levei meus alunos para a penitenciária. E me levaram no setor de segurança máxima, onde o Cal passou uma noite. Eu tive uma crise de pânico pela opressão arquitetônica. Não entrei. Saí correndo lá de dentro.
E fique a imaginar — eu estava por livre e espontânea vontade, com meus alunos —: e se tivessem tirado minha roupa? E se tivessem me feito uma revista íntima? E se tivessem me acorrentado nos pés e nas mãos? Eu morreria lá naquela noite. Eu não sairia de lá vivo. E o Cal saiu.
O Cal, que sempre lutou com flores na mão contra canhões, que sempre usou a palavra contra a insensatez, que sempre conversou e que nunca causou mal a ninguém, acabou encontrando a pior das ditaduras e oprimido. Acabou encontrando aquilo por que nenhum de nós quer passar.
E eu termino falando: o Cal sempre foi um professor e morreu como professor, nos dando a última lição.
A última lição do nosso mestre foi de que contra a mais absoluta injustiça, que contra o terrorismo de estado, só a tragédia pode chamar a atenção de uma população que vive uma histeria coletiva. Só a tragédia… só a tragédia…
Esta noite, com dificuldade de dormir, eu fiquei a pensar: quando a humanidade errou e não parou Hitler no momento certo? Quando a humanidade errou e não parou Mussolini no tempo certo? E fiquei pensando: eles estão de volta. Será que nós vamos errar de novo e deixá-los tomar o poder, para nós termos que trocar as flores e pegar de novo em armas para fazer outra guerra e derrubá-los?
Será que já não basta? Será que não é hora de nos unirmos e exigirmos consequências, se a família assim quiser? De irmos até as últimas consequências pedindo que sejam apurados esses atos de arbitrariedade?
Já não é hora?
Bertold Brecht já nos disse. Já prenderam não só nossos vizinhos. Já estão levando nossos amigos próximos e vão nos levar.
A vida é isso, companheiros. É luta permanente. E a democracia não permite descanso. Não permite descanso.
Eu hoje, como professor da UFSC, sou uma pessoa que tem orgulho e alegria. Como desembargador, tenho vergonha.
Porcos e homens se confundem. Fascistas e democratas usam as mesmas togas. Eles estão de volta. Temos que pará-los. Vamos derrubá-los novamente.”
Outra imagem me vem à mente. O homem alto Marcelo Bretas com a mulher, ao lado de Sergio Moro com a mulher, andando sobre o tapete vermelho da estréia do filme sobre a Lava Jato.
Eles estão de volta.
Usam toga e são incensados pelas empresas de jornalismo e de entretenimento, numa aliança que destrói reputações e mói ossos, com gritos de dor e desespero que começam a se tornar audíveis.
A imagem que agora me vem à mente é de outra natureza. Elis Regina cantando:
“Uma dor assim pungente não há de ser inutilmente.”
Desembargador Lédio Rosa de Andrade

Ricardo e Piauí, presentes

Compartilho emocionante relato de Paula Sacchetta sobre o assassinato de Ricardo e a morte do seu amigo, Piauí. Ficam o registro e a indignação.

Paulo Martins

Quarta-feira passada, saí de casa perto das 18h pra comprar massa na esquina pra jantar. Chegando perto do Pão de Açúcar da Mourato Coelho ouvi muitos, muitos gritos e muita gente acuada/encurralada no muro do supermercado gritando “assassinos!”. Quando cheguei mais perto, vi um monte de carro de polícia e eles colocando alguma coisa (eu não consegui ver o que era – uma pessoa!) no porta-malas de uma viatura. Vi a mesma viatura saindo rápido, cantando pneu e outras tantas estacionadas ali. Cheguei perto dos policiais e perguntei o que tinha acontecido. Um deles me respondeu: “uma abordagem com resistência”. Engoli seco, ouvindo os gritos de “assassinos”, pensei nos tantos “autos de resistência” usados pra justificar qualquer assassinato pela PM e em segundos cheguei à conclusão: eles estavam colocando um corpo já morto no porta-malas da viatura. Eles haviam matado alguém. E se livraram rapidinho da cena do crime: levaram o corpo embora, sem esperar a perícia e sem chamar SAMU. E ainda recolheram as cápsulas das balas no chão. Tudo direitinho, bem ao contrário do que manda o protocolo. Vários moradores da região assistiram à cena: um policial matou com três tiros – TRÊS – um catador de material reciclável que morava e trabalhava na região. Depois do primeiro tiro, no peito, com ele já caído no chão, o policial deu outros dois na cabeça. Execução mesmo. Não tem outro nome, não tem resistência. No chão da rua. Na frente de tanta gente. Ricardo ele chamava. E eu dava bom dia pra ele, boa tarde e boa noite. Cruzava com ele quase todo dia. Ele estacionava as três carroças dele ali perto do colégio Fernão Dias e dormia por ali, na rua.

Depois do primeiro tiro ele começou a gritar para um morador de rua que morava por ali também: “Piauí, me ajuda, irmão, me machucaram”. O Piauí ouviu, todo mundo ouviu. O Piauí se aproximou, os policiais pediram pra ele colocar a mão na sarjeta e pisaram nos dedos dele. Ele ficou a noite toda chorando de dor na mão pela morte do “irmão”. Ele ficava me falando “tem um coraçãozinho batendo na minha mão”. Os dedos estavam roxos, inchados e latejando. Quando lateja, parece mesmo um coraçãozinho. Eu conhecia o Piauí melhor do que o Ricardo. Eu tinha que atravessar a rua quando ele estava e eu passeava com meu cachorro. Nossos cachorros não se bicavam. Eu atravessava e dava um salve, um bom dia, um boa tarde, um boa noite.

No dia seguinte, foi bonito de ver, que apesar da merda toda, conseguimos organizar do dia pra noite um ato em homenagem ao Ricardo. Com tanta gente, tão cheio e forte. Bonito, tão bonito que doeu. Nos organizamos, nos reunimos pessoalmente e em grupos de WhatsApp, muita gente se indignou e se mobilizou.

Nesse mesmo dia, ainda pela manhã, levei o Piauí pro hospital. Os dedos dele estavam muito machucados mesmo e ele achava que tinha quebrado. Deixamos o Barbicha – cachorro dele e companheiro inseparável – na minha casa, porque ficamos com medo que fizessem algum mal pra ele, amarrado ali sozinho no muro do Pão de Açúcar. A Sherazade ia ser orgulhar de mim: literalmente levei pra casa.

Na noite anterior, a da morte do Ricardo, ele dizia que seria o próximo já que tinha visto tudo de perto. Na quinta-feira, no hospital, cada vez que chamavam seu nome, Gilvan Artur Leal, pra triagem, pra consulta com o ortopedista, pro raio-x, pra injeção, ele respondia, gritando: “morreu”. Ele sabia que mesmo vivo, já tinha morrido um pouquinho. Ele tirou raio-x e o médico disse que não tinha nenhum osso quebrado, mas que a “porrada” tinha sido “muito forte”. Tomou injeção pra dor, pegou uma caixinha de anti-inflamatório, voltamos pra pegar o Barbicha que estava na minha casa, ele agradeceu e voltou pra rua. Eu voltei pra casa e ele, pra rua.

Na noite da quarta ele não quis ir dormir num abrigo. Insistimos com medo que a polícia fizesse algo com ele. Na quinta, depois do ato, ele que veio pedindo ajuda pra vaga no abrigo. Estava com medo de dormir na rua e que a polícia fizesse algo com ele. Ele foi prum abrigo que aceitavam cachorro, pra poder levar o Barbicha.

Na quarta agora, ontem, no dia da missa de sétimo dia do Ricardo, a assistente social do abrigo achou melhor ele não ir. Disse que ele estava muito abalado, mas um pouco mais calmo. Então que era melhor se preservar. Ontem ele acordou bem, só não foi à missa porque acharam melhor não. Mas à tarde começou a ter convulsões e teve que ir pra Santa Casa. Hoje viram que as convulsões tinham sido por causa de um AVC, causado por hipertensão. E agora no fim do dia o Piauí morreu.

O Piauí foi mais uma vítima da PM. Ele foi torturado na frente de um monte de gente, “porrada forte” e estava sob ameaça “eu vou ser o próximo”. Com problemas de pressão, não aguentou.

Mais uma vez, um monte de gente se mobilizou, se indignou e ajudou. Arranjamos a vaga no abrigo, levamos no hospital pra ver os dedos, e ele recebeu visita hoje na Santa Casa, quando já estava inconsciente.

Tudo isso que eu escrevo, morrendo de dor, é pra dizer algumas coisas:

Que o Ricardo foi executado.
Que não é despreparo, que a polícia mata os matáveis porque tem a certeza da impunidade. Preto, pobre, carroceiro, catador de material reciclável, morador de rua? Pode matar.
Que o Piauí foi morto também pela PM. Ainda que indiretamente.
Pra dizer que o Piauí e o Ricardo são mais matáveis e torturáveis, pra PM, do que um morador de Pinheiros branco.
Pra dizer que pra gente, Piauí e Ricardo eram gente. Que catador é gente. Que morador de rua é gente. E que a vida deles não vale menos que a de outros. Que eles têm que viver.

E pra dizer que, cara, no meio de taaaanta barbárie, foi bonito de ver a mobilização. E uma missa de sétimo dia lotada na Catedral da Sé prum homem negro, catador de material reciclável e morador de rua. E que tá sendo bonito ver agora que o Piauí não vai ser enterrado como indigente, que a gente vai se mobilizar e fazer o que for pra ele ser enterrado como Gilvan, mesmo que a gente não encontre a família dele.

Escrevo tudo isso pra repetir e repetir a frase do Neruda:

“Se nada nos salva da morte, que ao menos o amor nos salve da vida”.

E ouso parafrasear o escritor e poeta, pra completar:

Se nada nos salva da morte, da bárbarie e das trevas, que a solidariedade nos salve da vida.

A solidariedade, essa coisa tão fora de moda nos dias de hoje.

Que possamos nos indignar com mortes tão cruéis de gente como a gente, assassinados por quem deveria “proteger” o cidadão.

Nesses tempos, que nunca percamos a solidariedade e o sentimento de humanidade de vista.

Obrigada a todas e todos que se mobilizaram e estão se mobilizando para não deixar que as mortes do Ricardo e do Piauí sejam em vão.

Ricardo Nascimento, presente!
Gilvan Artur Leal (Piauí), presente!
Fora PM do mundo.
Pelo fim da polícia militar.


A foto linda é da Julia Dias. E no nome dela, da Nina Capello, da Carla Borges, do Mundano e do Audálio Dantas eu mando um salve pra todo mundo que se mobilizou e se desdobrou pro ato, pra missa e pra todos os corres tão essenciais.

Diante da morte impõe-se silêncio e respeito, por Leandro Karnal

Gosto de muitos comentários e textos do Leandro Karnal. Entretanto, devo reconhecer, às vezes fica evidente – por dever de ofício e interesse em agradar seu público-cliente – sua necessidade de caminhar em cima do muro, equilibrando-se nas palavras. No afã de agradar o maior número possível de leitores/ouvintes, Karnal transborda. Não é o caso do texto abaixo. Tirando uma ou outra frase que talvez mereça discussão, a manifestação de Karnal é necessária, oportuna e na medida certa. Não extrapola, não transborda. Pena que quem merece a carapuça rejeite os textos de Karnal sem os ler. A mensagem chegará aos convertidos, mas não abrirá corações e mentes dos empedernidos, cegos de ódio. Mesmo assim, compartilho. Sou um pessimista com defeito de fabricação.

Paulo Martins

Por Leandro Karnal

“Estive em são Bernardo do Campo para uma palestra no Instituto Mauá. A cidade já tinha alguma movimentação em função do velório de dona Marisa. A divergência política e o contraditório são excelentes para a democracia. Todo choque tem algumas barreiras. Uma é a ética: divergir não implica atacar. Outra, muito importante, é a morte. Nada existe além dela. Extinguem-se as animosidades. Termina o ódio no túmulo. Atacar ou ter felicidade pela morte de um ser humano é uma prova absoluta de que a dor e o ressentimento podem enlouquecer alguém. Se você sente felicidade pela morte de um inimigo, guarde para si. Trazer à tona torna pública sua fraqueza, sua desumanidade. Acima de tudo, mostra que este inimigo tinha razão ao dizer que você era desequilibrado. Contestem, debatam, critiquem: mas enderecem tudo isto a quem possa revidar. Por enquanto temos apenas um homem que perdeu sua companheira, filhos órfãos e netos sem a avó. Entre os vivos, surgem divergências e debates. Diante da morte, impõe-se silêncio e respeito. Nunca deixem de ser, ou ao menos, tentar parecer, um ser humano. Quando você não tiver uma palavra de conforto para quem perdeu a mãe ou a esposa, simplesmente, cale a boca. Sinto-me envergonhado por coisas que li na internet.”