Ocupação das escolas

Quase sempre presto atenção às opiniões do meu amigo de Facebook Luiz Carlos de Oliveira e Silva. Algumas de suas opiniões são polêmicas e causam debate e saudáveis discussões.

Não é este o caso no texto que compartilho a seguir. Embora o assunto possa, na superfície, parecer polêmico, na sua essência não é. Luiz Carlos retira as arestas e entrega uma opinião redonda, clara e incontestável.

É impressionante como o debate em curso hoje, no país, sobre quase tudo, está poluído. As pessoas misturam assuntos, não têm visão clara do que estão discutindo, quase nunca vão ao cerne das questões e nunca passam da repetição rasa das ideias simplistas jogadas no ar por jornalistas sem tempo e sem preparo, sempre pressionados pela necessidade de agradar os donos de jornais, revistas e TVs, seus patrões.

Quando a ideologia do jornalista, constatada por suas opiniões nas redes sociais, casa com a ideologia dos seus poderosos empregadores, temos a união do inútil com o desagradável. Entregam pizza de muçarela fria para um telespectador ou ouvinte distraído que já foi acostumado a engolir qualquer gororoba sem reclamar.

Hoje mesmo assisti uma matéria das Organizações (êta definição adequada para o que este grupo empresarial representa!) Globo com viés totalmente de acordo com o “padrão Globo” de manipulação da informação para formatar consciências e administrar as opiniões. Repórter escolhida: Gioconda Brasil. Na matéria jornalística o ministro da Educação, este sim um invasor despreparado para o cargo que ocupa, ameaça os alunos com processos de “ressarcimento” de eventuais custos declarando, fiz questão de anotar, que esta é uma “obrigação legal e moral” do ministério.

Ora, o douto ministro, que recebeu em seu gabinete o pedagogo Alexandre, guardião da moral e dos bons costumes, como primeira autoridade da área de educação a opinar sobre os futuros projetos educacionais do governo golpista, não tem a menor habilidade política para negociar, nem formação acadêmica ou intelectual para estar à frente de um ministério que deveria ser um dos mais importantes em um país em desenvolvimento como o Brasil.

A reforma do ensino médio por medida provisória sem discutir com ninguém além do sábio pedagogo escolhido, é uma prova de incompetência política e falta de inteligência do ministro. Ou arrogância típica dos regimes autoritários.

A imposição representada pela PEC 241/PEC 55 vai pelo mesmo caminho. Embora inconstitucional, com sérias ameaças para o futuro da educação no país, a famigerada PEC que congela os gastos reais com a educação por 20 anos não foi discutida com ninguém do meio educacional.

Segue o post do Luiz Carlos.

Paulo Martins

OCUPAÇÃO DAS ESCOLAS, por Luiz Carlos de Oliveira e Silva

Dois grupos de jovens:
1. Os jovens que ocupam escolas fazem uma luta de caráter coletivo. Querem que o preceito legal, que diz que educação é um direito do cidadão e um dever do estado, seja cumprido.
2. Os jovens que vão às escolas ocupadas exigir o fim das ocupações fazem uma luta de caráter individualista. Querem assegurar o direito de cada um deles de terem aulas já.
3. O primeiro grupo de jovens pensa coletivamente. Pensam nos seus direitos e nos dos jovens que virão. Eles não separam uma coisa da outra. Eles são de esquerda.
4. Os jovens do segundo grupo pensam individualmente. Pensam apenas nos seus interesses individuais imediatos. Eles querem os seus diplomas, e apenas isto. Eles são de direita.
5. Melhor dizendo: eles não querem apenas os seus diplomas… Eles querem o estado fora da educação! Acham que, assim, eles terão melhores chances na vida, com menos concorrência.
6. E pensar que há pessoas que dizem que a distinção entre esquerda e direita não faz mais sentido.
7. São de direita os que pensam assim, já reparou?

É pavoroso ver armas dentro da escola, apontadas para crianças e adolescentes

É pavoroso ver armas dentro da escola, apontadas para crianças e adolescentes
Roberto Tardelli
Advogado

Quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Publicado em justificando.com

Vê se entende meu grito de alerta. Era assim que começava uma linda canção de Gonzaguinha, que nos animava naqueles tempos em que o máximo que conseguíamos pagar era uma linguiça fritada na pinga.

Um grito de socorro, lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado. Um grito que vem das escolas ocupadas. Durante décadas, educadores e pedagogos queimaram seus neurônios na busca de uma verdade encoberta: como manter os alunos na escola? Como fazer de um prédio público, sem cores nas paredes, cheios de regras e horários, chefetes por todos os lados, chamadas, provas, matérias imbecis sendo vomitadas por professores alienados e exaustos, um lugar acolhedor?

Eu tinha dezesseis anos e a Tabela Periódica. Um horror, por que raios eu tinha que decorar uma coisa chamada valência de outra coisa chamada astatínio, nunca me foi dito. Apenas eu tinha que decorar e por não ter decorado, perdi minhas férias de verão, na segunda época, nome que se dava à recuperação, nos idos daquela pré-história de minha vida. Aos quinze, tive que ler A Moreninha, chatíssimo, bocó. Se não houvesse lido, teria sido reprovado em literatura, sem que ninguém se desse conta do absurdo que é alguém ser reprovado em literatura, levar nota baixa por ter odiado A Moreninha.

Quarenta anos se passaram e ainda hoje os alunos são submetidos à maldita tabela de Linus Pauling que o diabo o carregue para as aulas de doutoramento em Química e ainda os vestibulares da vida se interessam pela A Moreninha . Nos anos de chumbo, as aulas de História eram sequências meio amalucadas de datas, que misturavam invasão da Criméia e a fundação de uma cidade do outro lado do planeta.

Em comum: a data. Inesquecível, determinar o sujeito de Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante. Odeio o Hino Nacional, demorei meses para entender que nada mais era que As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico ou o brado heroico de um povo retumbante, dane-se, tirei, dois na prova. Dois. Maldito hino, único lugar do idioma onde ele existe, lábaro.

O mundo mudou seu desenho centenas de vezes nesses anos todos e a maldita tabela periódica ainda paira sobre os alunos. Inacreditável. Com tantos autores maravilhosos, A Moreninha ainda tem seu público entre os professores de português.

Quarenta anos! Nunca perguntaram aos alunos que raios de escola eles esperam ter. Burocratas mal humoradas e mal humorados, canetadores de plantão.

Conseguiram os governantes e seus áulicos promotores e juízes e delegados e policiais e o raio que os partam fazer algo incrível: expulsar os alunos das escolas! Os alunos, destinatários da educação, foram considerados invasores das próprias escolas onde estudam, invasores de suas próprias casas. Expulsar os alunos da escola equivale a expulsar os doentes que estão na fila do hospital.

À maior demonstração de amor pela escola, que deram ao ocupa-las, deveria corresponder um gesto de amor pelo ensino; jamais armas, polícias, promotores, mas apenas educados educadores, que se sentassem nos pátios das escolas e conversassem e, principalmente, ouvissem, de ouvidos abertos, o que essa geração tem a dizer e a reivindicar.

É pavoroso ver armas dentro da escola, apontadas para crianças e adolescentes desarmados, sentados no cimento duro. É uma cena chocante, tão chocante que parece ser natural. É pavoroso ver promotor engravatado algemando a molecada. É pavoroso ver um juiz de direito, medíocre e tolo, alienado e estúpido, autorizar a utilização de métodos degradantes para desocupação. É pavoroso ver gente aplaudindo essa brutalidade obscurantista nas redes sociais.

Os meninos e meninas do Brasil amam nossas escolas muito mais que seus professores, que, em boa parte deles, as odeiam, porque ganham pouco, porque as salas são lotadas, porque os alunos são respondões, porque estão cagando para os professores, porque a vida é uma merda.

A deles, não. É uma festa. Que invadam mais prédios, fóruns, repartições, bancos, estatais, escritórios, estádios, invadam, tragam a nós o que nós perdemos.

Mas, que eles têm de sobra.

Roberto Tardelli é advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

Foto: Alicia Esteves/Revista Vaidapé