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“Ele parecia um jovem universitário recebendo um diploma”.

Se faltava alguma imagem que pudesse traduzir fielmente o protagonismo submisso que vem seduzindo celebridades do Judiciário no apego à popularidade, as palavras do presidente eleito sobre o momento em que Sérgio Moro recebeu o convite ao Ministério da Justiça cumpriram eficazmente esse papel.

Contra uma plêiade de prognósticos de quem supôs que a lisonja já bastasse por si só como um cartaz emoldurado na sala de troféus, o juiz acabou por aceitar o encargo.

Pouco importou se sobraram acusações de utilização de caixa 2 na campanha do eleito, especificamente para o disparo de fake news em grupos de Whatsapp –balas de prata de uma eleição digital. Meses antes, o próprio Moro havia retrucado de forma severa àqueles que empunhavam a tese para reduzir a gravidade da corrupção: “Caixa 2 no contexto de uma eleição é trapaça”.

Pouco importou, também, se no último e mais contundente discurso de campanha, o candidato propôs-se a banir os opositores e deixar um preso apodrecer na cadeia –injúrias indecorosas à Constituição que o juiz, como todos os seus demais colegas, prometeu cumprir ao ser empossado.

Pouco importou, por fim, a generalizada ideia de parcialidade que, retrospectivamente, passou a planar sobre o processo do ex-presidente. Afinal, Moro não foi apenas o juiz que condenou Lula, mas o que divulgou conversa dele que, por disposição expressa de lei, deveria ter sido mantida em sigilo; como ainda aquele que autorizou, durante o processo eleitoral, a publicidade de delações aptas a influenciá-lo. Foi ainda o que interrompeu suas próprias férias para evitar que o ex-presidente gozasse da liberdade que lhe fora concedida por instância superior.

Para muitos analistas, inclusive da imprensa internacional, tornou-se cada vez mais difícil negar as aparências. “Bolsonaro promete cargo para o juiz que prendeu seu rival”, foi a manchete do jornal londrino The Times, que viralizou nas redes sociais.

Não há mais vergonhas ou constrangimentos.

Sem meias-palavras, aliás, o candidato fez da nostalgia da tortura uma questão de ordem; a ditadura militar, nas suas mais sórdidas facetas, a morte e o desaparecimento de centenas de corpos, um exemplo a ser não apenas seguido, mas fortemente ampliado.

Quanto a Moro, não se trata de vaidade ou merecimento. Dos atributos privados, cada um cuida dos seus. O que está em jogo é mais do que isso. É um projeto de autoritarismo, ainda que não necessariamente na versão mais crua ou sanguinária, como talvez encantasse o presidente eleito.

A democracia da forma que conhecemos não existirá mais, mas isso não implica que o poder precise se valer, como antes, de fuzis e baionetas para dar suporte às suas censuras, sustentar os seus arbítrios. Certamente não teremos, como no período nazista, policiais que passavam por cima de juízes; mas quem há de negar que já não vimos produzindo a cultura de juízes que incorporam funções policiais?

A ditadura, como sofremos por duas décadas, pode até não se repetir; a prepotência das maiorias também é uma forma hábil de se construir um regime autoritário. Até por incluir aqueles que mal tenham consciência dos limites que acabarão por ultrapassar.

Alguns podem entrar no autoritarismo pela via da desesperança ou da frustração; outros de boa-fé aderem em nome de um inimigo supostamente mais poderoso, o maior de todos, o monstro da corrupção – sem perceber que o autoritarismo é, em si mesmo, a corrupção de todo o sistema. E que não há autoritarismo sem as mais diversas corrupções embutidas.

Não são poucos, é verdade, os que vêm aplaudindo entusiasticamente as normas rigorosas que, já de um tempo, ajudam a pavimentar o caminho para a implantação deste projeto, que hoje se acelera de forma brutal. De ideologias ou siglas diversas. Que fique claro, a denúncia do autoritarismo não é uma manifestação político-partidária – e não deve ser assim compreendida.

Alguns a ele aderem ainda, por mais paradoxal que possa parecer, porque se arrogam liberais.

Mas novos liberais que nada têm a ver com os antigos, que, mesmo pensando na melhor acomodação do capital, acabaram por construir espaços democráticos, justamente pela contração de um poder absoluto e ilimitado. Os neoliberais não querem destruir o poder que sufoca, mas sim desarmar o Estado que ampara.

Na nova governamentalidade, ensinam Christian Laval e Pierre Dardot, a forma de empresa de que se revestem os Estados, e até mesmo as pessoas, implode qualquer possibilidade de cidadania. Arguto observador do nascimento do neoliberalismo na Inglaterra, Stuart Hall já descrevia, no final dos anos 1970, a pulsão do governo Thatcher como a combinação de um mercado livre e de um Estado forte. Nada menos do que se viu, de forma grosseiramente caricatural, no Chile de Pinochet.

A atualidade vem nos mostrando isso: para que os mercados fiquem cada vez mais livres; os Estados vão ficando cada vez mais fortes. Especialmente no direito penal, como é prova a guinada punitiva norte-americana.

Aliás, foi de lá mesmo, dos Estados Unidos, que vieram as ideias estampadas no projeto politicamente bancado pelos homens da Lava Jato (e financeiramente suportado pelo Ministério Público Federal), equivocadamente intitulado Dez Medidas Contra a Corrupção (pois nem eram dez medidas, nem eram propriamente contra a corrupção). Tratava-se, na verdade, de uma espécie de Código de Processo da Acusação. Empoderando irrestritamente o Ministério Público, tal qual uma tropa de elite, e colocando a lei como um obstáculo a ser ultrapassado na luta contra a corrupção. A defesa, uma instituição em extinção, cuja principal tarefa, na onda de tornar eficiente o processo, é a de secundar a acusação com confissões e delações premiadas.

O resultado do sistema prisional norte-americano e seus mais de dois milhões de presos, jovens negros sobre-representados dentro das celas, mostra bem o resultado deste tipo de projeto draconiano que agora, enfim, volta repleto de chances.

Mas o maior problema à vista, e aquele que se vincula diretamente com o convite ao juiz, é a fissura na visão contramajoritária do papel do Judiciário.

É o sentido contramajoritário que permite ao Judiciário assegurar os direitos fundamentais, mesmo à revelia da população, por exemplo, estimulada por um processo penal de espetáculo. É ele que permite absolver réus detestáveis, porque as provas juntadas aos autos não foram capazes de demonstrar suas culpas; que autoriza a concessão de liberdade a quem quer que esteja respondendo a um processo criminal, antes de ser considerado culpado, desde que não exista nenhum fundamento de perigo ao processo ou ao cumprimento da pena.

O sentido contramajoritário não mostra desprezo pela sociedade; ao revés, é uma cápsula de proteção ao indivíduo. Só no fascismo o sentimento da sociedade não tem freios e, a pretexto de sua tutela, os indivíduos são simplesmente destroçados.

Os processos que se legitimam pelo apoio popular tornam seus juízes celebridades instantâneas –mas produzirão sempre um protagonismo submisso, pois sua legitimidade depende do apelo do público e assim está vinculada a uma condenação, que o garante. O juiz condenado a condenar não julga –é réu de si mesmo.

Em uma democracia constitucional como a nossa, juízes são garantidores de direitos. A Constituição lhes outorga esse poder; as maiorias os tornam reféns da política. O protagonismo não é apenas submisso, é também suicida.

A partir de janeiro, os dilemas do STF serão drásticos: a ameaça desengonçada e nada sutil de um cabo e soldado de um lado; a pressão popular de um juiz das maiorias de outro. E ao que tudo indica, só o Supremo estará em condições de impedir as barbaridades com que se pretende desfigurar o sistema legal. Da redução inconstitucional da maioridade penal à macarthista proposta da Escola Sem Partido, sem esquecer de uma inusitada e ampla licença para matar aos policiais.

Pelo retrospecto da Corte nos últimos anos, da forma como vem flexibilizando as garantias constitucionais no âmbito penal, notadamente como implodiu a presunção de inocência, não há como ficar tranquilo. A proibição unânime de censura política no ambiente universitário na semana passada, todavia, pode ter dado a mostra de que os ministros enfim estão atentos quanto aos riscos que nos cercam.

O timing da decisão foi, aliás, muito importante – especialmente em uma Corte que já estava se acostumando a postergar as questões mais sensíveis.

Verdade seja dita, não é só a justiça que tarda.

Muitas pessoas ainda não atinaram que a supressão indevida da liberdade de um réu é sempre um esvaziamento da liberdade de todos. E até aplaudiram ao ver seus inimigos no cadafalso. Outros tantos demoraram a entender que quando os fins justificam meios, todos serão ilegítimos.

Aqueles que estimularam o esvaziamento da política, que criaram ondas seletivas de indignação e que, enfim, acabaram por acrescer os sentimentos de aversão que contribuíram para esse enredo, somente agora estão despertando. É o caso da imprensa, que começa a experimentar a amarga intimidação da censura se formando.

Para muitos, é preciso sentir na pele a força do poder até percebê-lo como uma ameaça. Infelizmente, há corpos frágeis demais que não podem pagar para ver. Cabe a todos os democratas cuidarem de protegê-los.”

MARCELO SEMER é juiz de Direito e escritor. Mestre em Direito Penal pela USP, é também membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia.

Deixem falar o assessor de Pinochet!, por Paulo Klias

Publicado em outrapalavras.net

Paulo Guedes, guru de Bolsonaro quer privatizações em massa, corte de gasto social e favores fiscais aos ricos. Mídia esconde estas posições — e campanha de Haddad não as denuncia

Por Paulo Kliass

Passada a longa agonia da marcha das apurações de 7 de outubro, agora as forças democráticas devem voltar suas energias unitárias e agregadoras para evitar o desastre maior em nosso país. O caminho da civilização (ainda que meio capenga em sua versão tupiniquim) contra a barbárie declarada passa, sem sombra de dúvida, pela derrota eleitoral de Jair Bolsonaro no segundo turno.

A votação recebida pelo ex-capitão do Exército e deputado federal há 7 legislaturas surpreendeu até os profissionais mais experientes do marketing eleitoral. Um sentimento generalizado de descrédito com a política e com os políticos somou-se a uma onda conservadora e moralizadora na área social e cultural. A sensação de impotência frente aos problemas graves de segurança pública e o aumento dos índices de violência entram como caldo de cultura para o desastre do desemprego e da crise social e econômica. A descrença desalentadora nas instituições políticas vem acrescentada de uma frustração coletiva com as denúncias intermináveis com os casos de corrupção.

Esses ingredientes todos passam a ser articulados com uma meticulosa manipulação das redes sociais vinculadas a igrejas e outras formas de agregação dos setores que os analistas sociais passam a chamar de precariado e ralé. Enfim, mais do que uma expressão de desejos fascistizantes de massa, o fenômeno do voto 17 simboliza o recurso desesperado do desalento em busca de alguma boia nesse mar turbulento provocado pelo desastre do austericídio. E aí surge a figura do salvador da pátria, em quem deveríamos depositar toda nossa esperança. O candidato que conseguiu a vitória ao construir sua narrativa de se apresentar “contra os poderosos” e contra tudo o que está agora aí também no dia 28. Justo quem!

Mas a pior reação que se deve ter contra esse tipo de movimento é a sua subestimação. Hitler, Mussolini e Franco, por exemplo, também foram ridicularizados em seus momentos iniciais de ascensão política. O caráter inusitado de suas proposições e de sua forma caricatural de operar na política não deve nos iludir, provocando respostas apenas no nível da chacota. Não, jamais! A situação é muito grave e os riscos de uma legitimação do autoritarismo por meio do voto estão logo ali, na virada da esquina.

E nessas três semanas de campanha é fundamental a tarefa de desconstruir a candidatura de Bolsonaro. A irresponsabilidade política de parcela expressiva de nossas elites levou à criação e ao fortalecimento desse monstrengo. Ele se caracteriza “apenas” pela apologia da tortura, pela defesa da ditadura militar, pelo chamamento à pena de morte e ao armamento da população civil, pela homofobia e pelo racismo, pela intolerância e linchamento. Ocorre que a falência da operação de conquista definitiva do aparelho de Estado no período posterior ao golpeachment está apresentando agora a sua fatura. A derrota dos partidos mais tradicionais da direita fez surgir o neo-conservadorismo com toda a sua força.

A estratégia para vencer as eleições fez com que as forças em torno de Bolsonaro fossem convencidas a tornar o candidato mais “palatável” pelos representantes do sistema financeiro e do capital de forma generalizada. Como Meirelles e Alckmin foram fracassos retumbantes, agora essas forças se agarram ao capitão. Ocorre que as propostas de seu mentor em termos de política econômica são bastante contraditórias com a história de vida do candidato. Por outro lado, as ideias do candidato a vice, general Mourão, são muito perturbadoras para uma campanha que se pretende apresentar como institucional na ordem democrática.

Assim, o silêncio de Bolsonaro ao longo de todo o primeiro turno lhe foi bastante providencial. Com a desculpa da recuperação do atentado, ele pode ficar à margem das polêmicas com os demais candidatos e deu um cala-boca nessas duas figuras que estavam incomodando o clima da candidatura com suas declarações desastradas. E dá-lhe metralhadora giratória de “fake news” no subterrâneo incontrolável das redes sociais. Ao que tudo indica, tem sido muito eficiente a assessoria que está sendo prestada por figuras como Steve Bannon, que foi responsável pela campanha de Trump e se tornou uma espécie de líder da extrema direta mundial.

O fato pouco mencionado até agora é que a pauta econômica de Paulo Guedes é muito conservadora. A contradição vem dessa necessidade que Bolsonaro sentiu de ser mais bem aceito pela elite, em uma tentativa de deixar para trás a sua eterna imagem de alguém tosco e nojento. Afinal, ele defendeu inúmeras vezes o estupro de forma criminosa e debochada, além de propor literalmente o assassinato do ex-presidente FHC. Mas, enfim, nada que uma boa dose de “educação refinada” não resolva! Essa é a visão de alguns que aceitaram o desafio e partiram para a tarefa de dar uma demão de civilização naquele que, em sua essência, nada mais é senão um defensor da barbárie.

Paulo Guedes está muito bem ambientado na condição de guru de economia de Bolsonaro. Afinal, formou-se em uma das escolas mais clássicas do monetarismo e da ortodoxia, na Universidade de Chicago nos Estados Unidos. Fez um estágio na implementação das políticas públicas desses aprendizes do liberalismo na ditadura de Pinochet, logo depois da derrubada do governo democrático de Salvador Allende e do início da noite de terror naquele país. Em seguida volta ao Brasil e vai fazer sua carreira como agente no sistema financeiro.

Por isso é tão importante que a campanha de Haddad ofereça voz às propostas do senhor do Posto Ipiranga, como tão bem o apresentou o próprio candidato. Paulo Guedes é um radical defensor da privatização completa das empresas estatais brasileiras. Paulo Guedes é um entusiasta do ajuste imposto pela austeridade burra, tal como estabelecida pela Emenda Constitucional 95, que congela os gastos não financeiros por 20 anos. Paulo Guedes considera fundamental manter os desastres provocados pela “reforma” trabalhista aprovada pelo governo Temer. Paulo Guedes é contra medidas de promoção do desenvolvimento, uma vez que mantém sua crença obstinada na capacidade das forças de oferta e demanda resolverem nossos problemas.

Assim como as falas destrambelhadas do General Mourão a respeito da necessidade de extinguir o 13º salário, quando Paulo Guedes se manifesta, a oposição só tem a ganhar. Quando ele decide expor suas convicções mais profundas a respeito da economia, do Brasil e do mundo, o economista apresenta pérolas como a seguinte:

(…) “Estou vendendo o peixe da aliança de centro-direita em torno de um programa liberal democrata na economia. É o que os Chicago Boys fizeram lá no Chile. Conversei com ministro do Planejamento, da Fazenda, presidentes do Banco Central e do BNDES… Estou mapeando o território, examinando os números e simulando.” (…)

Esse é o desastre anunciado que não está sendo repercutido como deveria pelos grotões afora. Já foi esgotada a tática das denúncias apenas da pauta conservadora no campo da moral e dos costumes. Agora é urgente que seja desmascarada a agenda de retrocesso para o campo da economia. Se Bolsonaro prefere optar pelo silêncio que lhe é mais confortável, cabe às forças democráticas apontar a gravidade e os riscos embutidos na estratégia da liberalização radical do economista de Chicago.

As propostas da radicalização do retrocesso na seara da economia já foram apresentadas por todos os lados. Não tem mais como esconder. A população merece conhecer as ideias do todo-poderoso assessor.

Fala, Paulo Guedes!

#elenão.