Tristes trópicos

Destaque

1 – Temer não vai cair nem renunciar. Se renunciar, perde o foro privilegiado e a proteção de uma Câmara de Deputados com maioria corrupta, que está no mesmo barco.

2 – Temer não vai renunciar para concorrer a um mandato de deputado federal que lhe garanta foro privilegiado. Correria um risco muito grande.

3 – Temer vai tentar negociar a nomeação  para algum ministério no novo governo eleito em 2018 para manter o foro privilegiado. Como sempre fez.

4 – No segundo turno, se houver, a direita montará um acordão, com PSDB, com PMDB, com Lava Jato, com Supremo, com tudo.

5 – A aparente oposição de parte da grande mídia venal a Temer é tática, de curto prazo e tem fôlego curto. É um simples jogo de mercado.

6 – Parcela relevante da grande mídia venal continuará apoiando Temer até ele entregar tudo que prometeu: a reforma da Previdência, as privatizações, o pré-sal  e o Estado mínimo. É só observar as valorizações das ações patrocinadas pelos urubus da Bolsa de Valores.

7 – A grande maioria dos deputados e senadores sequestrou o voto e vai utilizá-lo para se defender dos ataques da “Lava Jato”, para enriquecer ou para ambos. A opinião dos eleitores não conta. Esses políticos têm pressa.

8 – Esqueça esta ficção de que existem Paneleiros, Patos ou Coxinhas envergonhados. Não conheço nenhum.

9 – Paneleiros, Patos e Coxinhas aceitam, em sua esmagadora maioria, as consequências nefastas do golpe, se este for o preço a ser pago para banir a esquerda para sempre. Eles não sabem que a esquerda adoece, mas não morre.

10 – Paneleiros, Patos ou Coxinhas não acham que as consequências do golpe sejam nefastas.

11- Enquanto houver Lady Gaga, Universal, CBF, carnaval, N.Y., Miami e mídia venal, doze vezes no cartão ou no cheque especial, os bois não sairão do curral.

12 – Medo, este é o ethos da nossa Nação partida.

13 – Para a maioria, medo do desemprego, de perder a aposentadoria, da inflação, do nome sujo no Serasa ou no SPC, das dívidas no consignado ou no cartão. Medo da milícia, da PM, dos bancos, do patrão. Medo da inanição.

14 – Para os rentistas, cercados, blindados e viajados, medo de perder os privilégios, adquiridos ou herdados.

15 – O medo gera o ódio ou a apatia, respectivamente, pai e mãe da covardia.

16 – Para os golpistas o golpe  se completa com a condenação de Lula a tempo de impedir sua participação, se houver eleição. Torça para um surto de bom senso e organização, se houver oposição.

17 – Lá fora, no Rio de Janeiro, um sol de rachar. Obrigado, Mara, pela ideia. Desculpe, Chico, pelo plágio.

“Um dia de real grandeza, tudo azul

um mar turquesa à la Istambul …

E um sol de torrar os miolos …

A gente ordeira, virtuosa, do lar, que apela,

pra polícia e pra panela

O sol, a culpa deve ser do sol

Que bate na moleira, o sol …”

18 – Tristes trópicos.

 

 

 

Ricardo e Piauí, presentes

Compartilho emocionante relato de Paula Sacchetta sobre o assassinato de Ricardo e a morte do seu amigo, Piauí. Ficam o registro e a indignação.

Paulo Martins

Quarta-feira passada, saí de casa perto das 18h pra comprar massa na esquina pra jantar. Chegando perto do Pão de Açúcar da Mourato Coelho ouvi muitos, muitos gritos e muita gente acuada/encurralada no muro do supermercado gritando “assassinos!”. Quando cheguei mais perto, vi um monte de carro de polícia e eles colocando alguma coisa (eu não consegui ver o que era – uma pessoa!) no porta-malas de uma viatura. Vi a mesma viatura saindo rápido, cantando pneu e outras tantas estacionadas ali. Cheguei perto dos policiais e perguntei o que tinha acontecido. Um deles me respondeu: “uma abordagem com resistência”. Engoli seco, ouvindo os gritos de “assassinos”, pensei nos tantos “autos de resistência” usados pra justificar qualquer assassinato pela PM e em segundos cheguei à conclusão: eles estavam colocando um corpo já morto no porta-malas da viatura. Eles haviam matado alguém. E se livraram rapidinho da cena do crime: levaram o corpo embora, sem esperar a perícia e sem chamar SAMU. E ainda recolheram as cápsulas das balas no chão. Tudo direitinho, bem ao contrário do que manda o protocolo. Vários moradores da região assistiram à cena: um policial matou com três tiros – TRÊS – um catador de material reciclável que morava e trabalhava na região. Depois do primeiro tiro, no peito, com ele já caído no chão, o policial deu outros dois na cabeça. Execução mesmo. Não tem outro nome, não tem resistência. No chão da rua. Na frente de tanta gente. Ricardo ele chamava. E eu dava bom dia pra ele, boa tarde e boa noite. Cruzava com ele quase todo dia. Ele estacionava as três carroças dele ali perto do colégio Fernão Dias e dormia por ali, na rua.

Depois do primeiro tiro ele começou a gritar para um morador de rua que morava por ali também: “Piauí, me ajuda, irmão, me machucaram”. O Piauí ouviu, todo mundo ouviu. O Piauí se aproximou, os policiais pediram pra ele colocar a mão na sarjeta e pisaram nos dedos dele. Ele ficou a noite toda chorando de dor na mão pela morte do “irmão”. Ele ficava me falando “tem um coraçãozinho batendo na minha mão”. Os dedos estavam roxos, inchados e latejando. Quando lateja, parece mesmo um coraçãozinho. Eu conhecia o Piauí melhor do que o Ricardo. Eu tinha que atravessar a rua quando ele estava e eu passeava com meu cachorro. Nossos cachorros não se bicavam. Eu atravessava e dava um salve, um bom dia, um boa tarde, um boa noite.

No dia seguinte, foi bonito de ver, que apesar da merda toda, conseguimos organizar do dia pra noite um ato em homenagem ao Ricardo. Com tanta gente, tão cheio e forte. Bonito, tão bonito que doeu. Nos organizamos, nos reunimos pessoalmente e em grupos de WhatsApp, muita gente se indignou e se mobilizou.

Nesse mesmo dia, ainda pela manhã, levei o Piauí pro hospital. Os dedos dele estavam muito machucados mesmo e ele achava que tinha quebrado. Deixamos o Barbicha – cachorro dele e companheiro inseparável – na minha casa, porque ficamos com medo que fizessem algum mal pra ele, amarrado ali sozinho no muro do Pão de Açúcar. A Sherazade ia ser orgulhar de mim: literalmente levei pra casa.

Na noite anterior, a da morte do Ricardo, ele dizia que seria o próximo já que tinha visto tudo de perto. Na quinta-feira, no hospital, cada vez que chamavam seu nome, Gilvan Artur Leal, pra triagem, pra consulta com o ortopedista, pro raio-x, pra injeção, ele respondia, gritando: “morreu”. Ele sabia que mesmo vivo, já tinha morrido um pouquinho. Ele tirou raio-x e o médico disse que não tinha nenhum osso quebrado, mas que a “porrada” tinha sido “muito forte”. Tomou injeção pra dor, pegou uma caixinha de anti-inflamatório, voltamos pra pegar o Barbicha que estava na minha casa, ele agradeceu e voltou pra rua. Eu voltei pra casa e ele, pra rua.

Na noite da quarta ele não quis ir dormir num abrigo. Insistimos com medo que a polícia fizesse algo com ele. Na quinta, depois do ato, ele que veio pedindo ajuda pra vaga no abrigo. Estava com medo de dormir na rua e que a polícia fizesse algo com ele. Ele foi prum abrigo que aceitavam cachorro, pra poder levar o Barbicha.

Na quarta agora, ontem, no dia da missa de sétimo dia do Ricardo, a assistente social do abrigo achou melhor ele não ir. Disse que ele estava muito abalado, mas um pouco mais calmo. Então que era melhor se preservar. Ontem ele acordou bem, só não foi à missa porque acharam melhor não. Mas à tarde começou a ter convulsões e teve que ir pra Santa Casa. Hoje viram que as convulsões tinham sido por causa de um AVC, causado por hipertensão. E agora no fim do dia o Piauí morreu.

O Piauí foi mais uma vítima da PM. Ele foi torturado na frente de um monte de gente, “porrada forte” e estava sob ameaça “eu vou ser o próximo”. Com problemas de pressão, não aguentou.

Mais uma vez, um monte de gente se mobilizou, se indignou e ajudou. Arranjamos a vaga no abrigo, levamos no hospital pra ver os dedos, e ele recebeu visita hoje na Santa Casa, quando já estava inconsciente.

Tudo isso que eu escrevo, morrendo de dor, é pra dizer algumas coisas:

Que o Ricardo foi executado.
Que não é despreparo, que a polícia mata os matáveis porque tem a certeza da impunidade. Preto, pobre, carroceiro, catador de material reciclável, morador de rua? Pode matar.
Que o Piauí foi morto também pela PM. Ainda que indiretamente.
Pra dizer que o Piauí e o Ricardo são mais matáveis e torturáveis, pra PM, do que um morador de Pinheiros branco.
Pra dizer que pra gente, Piauí e Ricardo eram gente. Que catador é gente. Que morador de rua é gente. E que a vida deles não vale menos que a de outros. Que eles têm que viver.

E pra dizer que, cara, no meio de taaaanta barbárie, foi bonito de ver a mobilização. E uma missa de sétimo dia lotada na Catedral da Sé prum homem negro, catador de material reciclável e morador de rua. E que tá sendo bonito ver agora que o Piauí não vai ser enterrado como indigente, que a gente vai se mobilizar e fazer o que for pra ele ser enterrado como Gilvan, mesmo que a gente não encontre a família dele.

Escrevo tudo isso pra repetir e repetir a frase do Neruda:

“Se nada nos salva da morte, que ao menos o amor nos salve da vida”.

E ouso parafrasear o escritor e poeta, pra completar:

Se nada nos salva da morte, da bárbarie e das trevas, que a solidariedade nos salve da vida.

A solidariedade, essa coisa tão fora de moda nos dias de hoje.

Que possamos nos indignar com mortes tão cruéis de gente como a gente, assassinados por quem deveria “proteger” o cidadão.

Nesses tempos, que nunca percamos a solidariedade e o sentimento de humanidade de vista.

Obrigada a todas e todos que se mobilizaram e estão se mobilizando para não deixar que as mortes do Ricardo e do Piauí sejam em vão.

Ricardo Nascimento, presente!
Gilvan Artur Leal (Piauí), presente!
Fora PM do mundo.
Pelo fim da polícia militar.


A foto linda é da Julia Dias. E no nome dela, da Nina Capello, da Carla Borges, do Mundano e do Audálio Dantas eu mando um salve pra todo mundo que se mobilizou e se desdobrou pro ato, pra missa e pra todos os corres tão essenciais.

É pavoroso ver armas dentro da escola, apontadas para crianças e adolescentes

É pavoroso ver armas dentro da escola, apontadas para crianças e adolescentes
Roberto Tardelli
Advogado

Quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Publicado em justificando.com

Vê se entende meu grito de alerta. Era assim que começava uma linda canção de Gonzaguinha, que nos animava naqueles tempos em que o máximo que conseguíamos pagar era uma linguiça fritada na pinga.

Um grito de socorro, lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado. Um grito que vem das escolas ocupadas. Durante décadas, educadores e pedagogos queimaram seus neurônios na busca de uma verdade encoberta: como manter os alunos na escola? Como fazer de um prédio público, sem cores nas paredes, cheios de regras e horários, chefetes por todos os lados, chamadas, provas, matérias imbecis sendo vomitadas por professores alienados e exaustos, um lugar acolhedor?

Eu tinha dezesseis anos e a Tabela Periódica. Um horror, por que raios eu tinha que decorar uma coisa chamada valência de outra coisa chamada astatínio, nunca me foi dito. Apenas eu tinha que decorar e por não ter decorado, perdi minhas férias de verão, na segunda época, nome que se dava à recuperação, nos idos daquela pré-história de minha vida. Aos quinze, tive que ler A Moreninha, chatíssimo, bocó. Se não houvesse lido, teria sido reprovado em literatura, sem que ninguém se desse conta do absurdo que é alguém ser reprovado em literatura, levar nota baixa por ter odiado A Moreninha.

Quarenta anos se passaram e ainda hoje os alunos são submetidos à maldita tabela de Linus Pauling que o diabo o carregue para as aulas de doutoramento em Química e ainda os vestibulares da vida se interessam pela A Moreninha . Nos anos de chumbo, as aulas de História eram sequências meio amalucadas de datas, que misturavam invasão da Criméia e a fundação de uma cidade do outro lado do planeta.

Em comum: a data. Inesquecível, determinar o sujeito de Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante. Odeio o Hino Nacional, demorei meses para entender que nada mais era que As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico ou o brado heroico de um povo retumbante, dane-se, tirei, dois na prova. Dois. Maldito hino, único lugar do idioma onde ele existe, lábaro.

O mundo mudou seu desenho centenas de vezes nesses anos todos e a maldita tabela periódica ainda paira sobre os alunos. Inacreditável. Com tantos autores maravilhosos, A Moreninha ainda tem seu público entre os professores de português.

Quarenta anos! Nunca perguntaram aos alunos que raios de escola eles esperam ter. Burocratas mal humoradas e mal humorados, canetadores de plantão.

Conseguiram os governantes e seus áulicos promotores e juízes e delegados e policiais e o raio que os partam fazer algo incrível: expulsar os alunos das escolas! Os alunos, destinatários da educação, foram considerados invasores das próprias escolas onde estudam, invasores de suas próprias casas. Expulsar os alunos da escola equivale a expulsar os doentes que estão na fila do hospital.

À maior demonstração de amor pela escola, que deram ao ocupa-las, deveria corresponder um gesto de amor pelo ensino; jamais armas, polícias, promotores, mas apenas educados educadores, que se sentassem nos pátios das escolas e conversassem e, principalmente, ouvissem, de ouvidos abertos, o que essa geração tem a dizer e a reivindicar.

É pavoroso ver armas dentro da escola, apontadas para crianças e adolescentes desarmados, sentados no cimento duro. É uma cena chocante, tão chocante que parece ser natural. É pavoroso ver promotor engravatado algemando a molecada. É pavoroso ver um juiz de direito, medíocre e tolo, alienado e estúpido, autorizar a utilização de métodos degradantes para desocupação. É pavoroso ver gente aplaudindo essa brutalidade obscurantista nas redes sociais.

Os meninos e meninas do Brasil amam nossas escolas muito mais que seus professores, que, em boa parte deles, as odeiam, porque ganham pouco, porque as salas são lotadas, porque os alunos são respondões, porque estão cagando para os professores, porque a vida é uma merda.

A deles, não. É uma festa. Que invadam mais prédios, fóruns, repartições, bancos, estatais, escritórios, estádios, invadam, tragam a nós o que nós perdemos.

Mas, que eles têm de sobra.

Roberto Tardelli é advogado Sócio da Banca Tardelli, Giacon e Conway. Procurador de Justiça do MPSP Aposentado.

Foto: Alicia Esteves/Revista Vaidapé