A roda que não rodou e o polo que desandou

A roda que não rodou & o polo que desandou

(bastidores do processo eleitoral)

Por Cláudio Guedes

No início do ano, um movimento articulado por intelectuais e políticos muito próximos ao PSDB e ao PPS, intuindo o provável fracasso dos tucanos no processo eleitoral, buscou a constituição de um polo centrista (sic) reformista e democrático. Fizeram articulações, lançaram documentos e alguns atos que juntaram FHC, Roberto Freire, Paulo Hartung, Rose de Freitas e outros. Entre os intelectuais ligados ao movimento estão Marco Aurélio Nogueira, Alberto Aggio e Hubert Álqueres.

O objetivo era, mais uma vez, com a desculpa de evitar soluções extremadas para o país, enfiar goela abaixo de incautos e ingênuos a candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin, o tucano da vez, agora em novo figurino, não mais de social-democrata mas de centrista equilibrado.

Os intelectuais em torno do movimento são os mesmos que nas eleições passadas, nas quatro últimas, se moveram e lançaram manifestos de apoio ao tucano escalado para a disputa. Em 2014, foi um manifesto patético de apoio ao corrupto e moleque Aécio Neves, então presidenciável do PSDB.

Este ano, remaram, remaram, e acabaram na praia desolada onde jaz a quase carcaça de um suntuoso veleiro, com o casco perfurado, onde hipocrisia, empulhação e oportunismo tremulam como bandeiras amareladas nos mastros apodrecidos.

Ontem, 22/09, no Estadão, uma das lideranças intelectuais do movimento, o professor titular de ciência política da UNESP/SP, Marco Aurélio Nogueira, escreve um necrológico da política nacional e brada: incompetência geral!

Sim, sobrou para todo mundo. O fracasso do polo/roda democrática, e da sua estratégia malsucedida para hegemonizar o processo eleitoral, virou incompetência geral.

Algumas verdades, muitas inverdades e muita imaginação, uma sopa farta de palavras, para não enfrentar as questões realmente crucias da atual conjuntura política.

Para o PT sobraram as palavras de ordem de sempre, com pelo menos uma inovação: o ressurgimento do partido seria obra do “imperialismo religioso do lulismo” que se junta à velha catilinária da “mitificação popular de Lula”.

Hehehe!

Já vi de tudo contra o PT – partido do qual não faço parte, nem nunca fiz – mas essa de “imperialismo religioso” é novidade. Bom, ganha uma viagem à Bahia, com passagens pagas e direito a uma casquinha de sorvete de coco na Ribeira, quem me explicar o que significa.
Quanto à “mitificação popular de Lula”, não seria mais fácil e honesto simplesmente reconhecer que Lula possui uma identificação enorme junto à população mais pobre e às regiões mais carentes do país por causa dos programas de inclusão social concebidos e efetivados nos seus governos? Qual a dificuldade de um mestre em ciência política reconhecer este fato objetivo da realidade?

Na crítica dura ao PT, diz Marco Aurélio que o partido se perdeu “inebriado pelo desejo de vingança” e “pela pretensão de comandar com mão-de-ferro o campo progressista”? Essa coisa de desejo de vingança parece mais eco de novela mexicana, o que talvez esteja no radar das tardes solitárias do professor. E onde viu Marco Aurélio a pretensão do PT em comandar o campo progressista? Não vi, de real, nada que denunciasse tal desejo, muito pelo contrário. O PT, de forma apropriada, apenas usou o seu direito democrático de indicar um candidato próprio às eleições presidenciais. Direito respaldado no fato provado de que é o partido de preferência de 25% do eleitorado brasileiro, sendo de longe o maior partido nacional em termos de filiados ativos e um dos maiores – é a maior bancada na Câmara dos Deputados – em número de parlamentares. Não imagino porque este conjunto de fatos, tão objetivo, possa passar despercebido de um professor de ciência política. Então um partido com tal envergadura não possui o direito de disputar as eleições com representante próprio? Por que não?

Mais adiante, ao tratar a questão Bolsonaro, lemos a seguinte afirmação “candidatura pouco qualificada e alinhada com a autocracia regressiva”. Que beleza. Então o ex-capitão, um misógino, truculento, autoritário, defensor da tortura e de torturadores é generosamente tratado como uma “candidatura pouco qualificada”? Sei. Que padrão.

Aliás padrão que se repete ao comparar Bolsonaro com Haddad: para o mestre, “não são equivalentes”, um é autoritário o outro não é, mas ambos “estão atados por um mesmo tipo de cegueira e fanatismo”. Haddad cego e fanático? O professor pode odiar o PT, Lula e petistas, mas deveria ser um pouco mais rigoroso ao avaliar um colega, um professor, um doutor pela USP, qualificado, que foi um dos grandes ministros da educação do país e um bom prefeito de São Paulo. Onde, nos altos cargos públicos que ocupou, durante onze (11) anos – sete (7) como ministro da educação e quatro (4) dirigindo a maior cidade do país, uma das maiores do mundo -, Haddad demonstrou fanatismo e cegueira? O professor não cita um único exemplo. Fica na acusação leviana. Qual a aderência à realidade da avaliação de Marco Aurélio sobre Fernando Haddad? Nenhuma.

O professor afirma ainda, em bom som – como gostam os donos do jornal para o qual escreve – que Haddad não critica os “esquemas de corrupção associados ao modo lulista de governar”. Afirmação vulgar. Os esquemas de financiamento de partidos e eleições, que vigoraram no período petista, eram os mesmos que levaram o PSDB ao governo central alguns anos antes e que mantiveram a longa hegemonia, de mais de 20 anos, dos tucanos no Estado de São Paulo – recursos repassados por empreiteiros e fornecedores do estado. Os mesmos que financiaram as campanhas de todos os grandes partidos que, nos últimos 30 anos pelo menos, disputaram o poder no país. O “modo” lulista de governar, como hoje é reconhecido até por adversários duros do PT, reforçou e deu liberdade à atuação dos orgãos de fiscalização do Estado, além de autonomia à Policia Federal e ao Ministério Público para investigarem denúncias de corrupção de agentes públicos.

Para Marco Aurélio chegamos ao esgotamento de uma época democrática. Todos são culpados por esta situação. As vítimas e os algozes. Nenhuma palavra sobre a liberdade política e os avanços enormes nos costumes e na defesa das minorias conquistadas nos governos petistas. Nada. Nenhuma palavra sobre a violência do impeachment farsesco de uma presidente da República eleita pelo voto popular. Nenhuma palavra sobre o processo judicial contra o ex-presidente Lula, marcado por controvérsias, ações do juízo e do MP em flagrante desrespeito ao CPP & às leis e com tramitação com prazos singulares e destoantes, a indicar um tratamento “especial” ao então réu. Nada.

Todos são culpados. Os perseguidos, os linchados pela mídia conservadora, os que sofrem o peso draconiano de uma justiça parcial e politizada e os que se beneficiaram dessa situação. Todos igualmente culpados.

Por fim, como não poderia ser, vaticina o emérito professor, na sua peroração: “a sociedade abandonou os políticos à própria sorte e os políticos, sem apoio social e sem partidos dignos do nome, perderam as referências”. Talvez o professor é que tenha abandonado a ciência e tenha virado as costas para o mundo real. O líder petista preso, enjaulado, em decorrência de um processo onde farsa e parcialidade se juntaram, não parece ter sido abandonado pela sociedade. Esta demonstrou, em inúmeras pesquisas, que o elegeria para comandar o país no próximo quadriênio se solto estivesse. E o Partido dos Trabalhadores (PT), hoje com mais de 2 milhões de filiados e com a preferência explícita de 1/4 do eleitorado brasileiro, não é um partido digno de nome? O que é um partido digno de nome para o ilustre docente?

Marco Aurélio Nogueira, do alto de sua cátedra de ciência política, não se permite enxergar essa realidade. E o cego é Fernando Haddad.

Programa tucano expõe falta de rumo e divisão partidária, por Kennedy Alencar

18-08-2017, 8h12
Programa tucano expõe falta de rumo e divisão partidária
Com erros factuais, propaganda do PSDB é incoerente e oportunista

KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

Depois da exibição ontem do programa partidário do PSDB, houve críticas duras de ministros e deputados ao conteúdo, considerado uma agressão ao presidente Michel Temer e à ala governista do partido.

De fato, o programa é incoerente e contém erros factuais. A principal incoerência se deve às críticas duras ao governo Temer enquanto o partido mantém quatro ministérios. Se considera que Temer adota um presidencialismo de cooptação, no qual deputados e senadores se vendem por cifrões, o PSDB deveria entregar os cargos. É uma crítica oportunista.

O partido ataca o presidente Michel Temer porque a popularidade do governo é baixa, mas mantém as benesses oficiais que disse rejeitar ao relembrar o manifesto de fundação. É contraditório porque os tucanos adotaram o presidencialismo de cooptação quando governaram o país.

O PSDB deu aval ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff, contribuindo para que uma governante eleita não concluísse o mandato. Sem o apoio do PSDB não teria havido impeachment.

Temer e o PMDB chegaram ao poder depois que os principais dirigentes tucanos, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Geraldo Alckmin e os senadores José Serra e Aécio Neves, apoiaram a rebelião na base parlamentar de Dilma. O PSDB é responsável e sócio do governo Temer.

O programa comete erros factuais, como reivindicar a paternidade do Plano Real, que foi feito durante o governo Itamar Franco. A criação dos medicamentos genéricos no Brasil também é da administração Itamar, quando o médico Jamil Haddad foi ministro da Saúde.

No mínimo, o PSDB, que teve papel importante na implantação do Real e dos genéricos, deveria ter sido honesto em relação à gênese dessas iniciativas. Para usar um bordão do partido, o PSDB errou.

*

Falsa autocrítica

Aliás, o PSDB repete inúmeras vezes que errou, mas não aponta especificamente nenhum equívoco. Faz menção rápida a ter se rendido ao fisiologismo, como outros partidos.

A reação da ala governista tucana indica que crescerá um movimento que já existe para tentar derrubar o senador Tasso Jereissati do comando partidário, mas o PSDB sempre tende a uma acomodação, muito parecida com a que havia no PMDB, do qual a sigla é uma costela.

As ações de Tasso na presidência do PSDB vêm sendo fortemente criticadas pela ala governista do partido. Ele se manteve no posto porque o senador Aécio Neves, que preside a legenda, não tem condição política de comandar o PSDB porque sofreu graves acusações de corrupção na Lava Jato.

A admissão de erros foi genérica. Há ministros, senadores, deputados e governadores tucanos suspeitos de corrupção de acordo com o que foi investigado pela Lava Jato. Não houve citações a casos concretos. Isso transmite uma imagem de falsa autocrítica e renderá desgaste político a Tasso, porque ele endossou uma generalização contra os tucanos.

*

Oportunismo golpista

Aparentemente, o único consenso na propaganda partidária foi a defesa do parlamentarismo. O PSDB lembra que defendeu a mudança do sistema de governo na sua fundação, em 1988, e justifica assim porque está empunhando novamente essa bandeira.

No entanto, quando esteve no poder, entre 1995 e 2002, o PSDB tinha uma base de apoio suficiente para tentar emplacar novamente a ideia e propor uma consulta popular, apesar de o parlamentarismo ter sido rejeitado em plebiscitos em 1963 e 1993.

Mas o partido preferiu usar o capital político para aprovar a regra da reeleição em benefício próprio e no meio do jogo, em 1997, permitindo que FHC concorresse a um novo mandato. A aprovação da reeleição foi um episódio nebuloso na história do PSDB, com uma acusação de compra de votos que nunca foi investigada.

Os candidatos tucanos a presidente aparecem mal nas atuais pesquisas sobre a sucessão de 2018. O partido perdeu as últimas quatro eleições presidenciais e acha que seria mais fácil voltar ao poder mudando o sistema de governo do país.

No atual contexto, é uma proposta com viés golpista, sobretudo se levarmos em conta a qualidade do atual Congresso Nacional. Parlamentarismo com partidos fracos é o pior dos mundos. E, no mínimo, seria preciso um plebiscito ou referendo para ouvir a população.

O programa do PSDB é um resumo da falta de rumo e da divisão política que impera no partido hoje.

Chora doutor, chora …

Neste último último fim de semana tive, em uma reunião familiar, um exemplo, por um lado do grau de alienação de nossa elite – se é que se pode chamar pessoas com bom nível de renda de elite – e por outro, do ódio e do desprezo que essa elite dedica aos perdedores do jogo do mercado, aos servidores públicos e aos porta-vozes destes segmentos, personalizados por Lula e pelo PT.

Em qualquer pequena discussão estes autointitulados vencedores, na verdade integrantes de uma pequena e média burguesia nacional tentam impor, arrogantemente, aos gritos, seus pontos de vista.

Pensando bem, não se pode chamar de ponto de vista um balaio de chavões surrados, que ofendem e desqualificam a todos aqueles que foram selecionados como seus objetos preferidos de ódio irracional. O discurso vazio, sem argumentação e conteúdo, gira sempre em torno das palavras-chaves batidas: PT, bolivariano, Venezuela, Lula, ladrão, roubo, rombo, BNDES, corrupção, funcionários públicos parasitas, Bolsonaro ou Dória presidente …

Os presentes nesta reunião eram, ou pequeno empresário, ou aposentados e rentistas, com renda extra suficiente para viagens rotineiras ao exterior, principal assunto das conversas. São, quase todos, pessoas com visão de vida conectadas com a direita, sem nenhum conhecimento formal ou um pouco mais elaborado de economia, sociologia, história e política e, é óbvio, apoiadores do golpe. Faz tempo que leram o último livro sobre estes assuntos, se é que leram algum livro sério sobre estes temas em suas vidas, já longas.

Consumidores da mídia e de redes sociais que estiveram perfiladas no golpe midiático-parlamentar, não me surpreende que não tenham externado nenhuma crítica ao vice-presidente golpista, aos seus ministros citados, denunciados ou encrencados e aos seus sócios do  PSDB.

O que é notória é a impossibilidade de diálogo sensato e fundamentado sobre qualquer assunto. O raciocínio baseado no bem-comum esbarra na limitação trazida pelo ódio que cega e pelo raciocínio individual-extrativista.

O que transparece é que os odiadores estão em uma espécie de transe frotista-jananístico, que os deixa transtornados, necessitando de um exorcista para expulsar o demônio que lhes tomou o corpo.

Perdi a paciência. Não estou mais deixando tudo passar em branco, como se nada estivesse acontecendo. Dane-se a paz dos velórios e as trocas de salamaleques e sorrisos falsos. Omitir-se, neste momento, é o mesmo que apoiar pelo silêncio a escalada fascista. Estou combatendo todos estes seres abduzidos com argumentos, muitas vezes em seu próprio campo, mas sempre com fundamentação e equilíbrio. E se, no final, nada dá certo, o que tem sido a realidade, resta-me esta trincheira, este blog. Escrevo ou compartilho um artigo, público minha insatisfação, divulgo meu grito de alerta. Antes que seja muito tarde, se é que já não é …

Enquanto isso, no toca-discos, Chora, doutor, com Germano Mathias:

Paulo Martins

O Diabo e o poder

Compartilho artigo de Kennedy Alencar sobre o vergonhoso e repetido papel de golpista do PSDB.

Publiquei neste blog diversos artigos para alertar que o golpismo, reintroduzido no Brasil com a irregular destituição da presidente Dilma Rousseff, voltaria para ficar.

Vaticinei na ocasião – sem nenhum mérito, por ser óbvio – que o PSDB descartaria Temer tão logo o pacote de maldades fosse aprovado. Mas o PSDB, parceiro de Temer no golpe, nas medidas de destruição do Estado brasileiro e nas políticas de retrocesso eonômico e social, não contava com as dificuldades de Temer em aprovar a reforma trabalhista e, em especial, a reforma previdenciária. O PSDB não contava, também, com o posicionamento da Rede Globo que manobra para derrubar Temer e colocar na presidência um capacho novo no lugar do capacho velho e sujo.

Basta assistir os telejornais da família Globo – o que faço por dever de ofício – e você, caro leitor, observará que a estratégia da família é derrubar Temer e preservar a equipe econômica, elogiando as reformas trabalhista e previdenciária, para completar o pacote de maldades, um dos motivos do golpe contra Dilma Roussef.

Contrário ao que Kennedy Alencar afirma no artigo que compartilho a seguir, o PSDB não deu aval à substituição da presidente Dilma. O PSDB, tão logo foi confirmada sua derrota na eleição presidencial de 2014, iniciou e liderou, por diversos caminhos, o processo para alterar o legítimo resultado das urnas: tentou impugnar o resultado da eleição e contratou por R$ 45.000,00 – valor declarado, mas inverossímil – um parecer pseudo-jurídico para montar, em conluio com Cunha e com parte significativa do PMDB, a farsa do impeachment. Iniciado o processo, o PSDB golpista convenceu o restante do seu partido e do PMDB. Juntos, PSDB e PMDB cooptaram – por meios anunciados pela mídia como ilícitos – os partidos de aluguel que complementam a base de apoio do governo Temer.

Dizer, como fez o autor, que há semelhanças entre o calvário da Dilma e o de Temer é, no mínimo, miopia ou interesse em não enxergar o óbvio. No caso de Temer, há uma denúncia do Procurador Geral da República relativa ao cometimento pelo presidente ilegítimo de crime comum, com princípio, meio e mala.

Este, o golpismo, parece ser o  novo normal deste pobre país: quem com golpe fere, com golpe será ferido.

O PSDB e a Rede Globo, em dobradinha, aparecem como protagonistas de todos os golpes pós-constituição de 1988.

A democracia sangra. Está tudo como os (estes) diabos gostam.

Paulo Martins

KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

O PSDB tem discutido o rompimento com o governo Temer como se o Brasil fosse parlamentarista e um presidente pudesse ser trocado pelo Congresso por falta de condições para continuar governando. Hoje, haverá nova reunião de tucanos em São Paulo a fim de debater se o partido rompe ou não com o presidente Michel Temer.

Na semana passada, o presidente interino do partido, o senador Tasso Jereissati (CE), disse que a administração Temer se aproximava da ingovernabilidade e que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), poderia assumir o Palácio do Planalto para dar mais estabilidade ao país a fim de aplicar uma agenda econômica que é contestada pela maioria da população.

Segundo o Datafolha, a maioria dos entrevistados é contrária às reformas trabalhista e previdenciária. Está acontecendo com o presidente Michel Temer o que ocorreu com a então presidente Dilma Rousseff. A petista caiu por diversos fatores. Um fator determinante foi a decisão política do PSDB e de seus principais caciques, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Geraldo Alckmin (SP) e o senador Aécio Neves (MG), de dar aval à troca de governo.

Dali em diante, o Congresso acelerou o processo de queda da presidente. O PSDB, que perdeu as quatro últimas eleições presidenciais, bancou o governo Temer e uma agenda econômica que agora quer transferir para Rodrigo Maia.

*

Não é mera coinciência

Há muitas semelhanças entre os calvários de Dilma e Temer. Quando Tasso diz que Rodrigo Maia traria estabilidade política, essa declaração lembra a fala de Temer em agosto de 2015 afirmando que o Brasil precisava de um nome para unir o país. Com Temer, o PSDB invoca mais uma vez o conjunto da obra e não uma acusação de corrupção para justificar a troca de presidente.

Ou seja, Temer estaria incapacitado para governar assim como se passou com Dilma. As acusações objetivas, assim como ocorreu com Dilma, ficam em segundo plano. Essa atitude tucana é ruim para as instituições do Brasil. O país é presidencialista.

Não dá para usar o impeachment ou autorização da Câmara dos Deputados para o Supremo Tribunal Federal analisar uma denúncia por crime comum como se fossem um voto de desconfiança do sistema de governo parlamentarista.

Isso é golpismo, algo frequente na história do país pré-64. Após a redemocratização em 1985, recomeçou quando Aécio não aceitou a derrota eleitoral de 2014. Ocorreu com Dilma. Está acontecendo com Temer. Está aberto um precedente que pode vitimar futuros presidentes, caso Rodrigo Maia seja alçado ao Planalto ou na hipótese de um tucano ganhar a eleição presidencial de 2018.

O PSDB está, na prática, reforçando o poder do Congresso para derrubar presidentes que percam a governabilidade. Se Temer cair, será o terceiro entre sete presidentes da República desde a redemocratização em 1985 que não terminará o mandato. É uma taxa de mortalidade muito alta para o sistema de governo presidencialista.

Continuar nessa toada lançará a ameaça da instabilidade sobre futuros presidentes que fiquem em minoria no Congresso ou atravessem períodos de baixa popularidade. Já houve um plebiscito em 1993, e a maioria dos brasileiros optou pelo presidencialismo e não pelo parlamentarismo.

*

Questão de coerência

O discurso ético do PSDB para romper com Temer só faria sentido se a legenda estivesse disposta a afastar Aécio Neves da presidência do partido e analisar sua eventual expulsão. No entanto, o PSDB finge que Aécio não está denunciado no Supremo Tribunal Federal por motivos bem parecidos com os que sustentam as acusações contra Temer.

*

Jogando pra frente

Ao dizer que o PSDB deve continuar com Temer até a votação das reformas trabalhista e previdenciária, o governador Geraldo Alckmin encontra uma forma de tentar adiar o rompimento.

A trabalhista será votada nesta semana. Mas a reforma da Previdência, se for analisada, só terá chance de sair do papel no segundo semestre. Isso dá tempo a Temer. E dá tempo ao PSDB para aguardar novas denúncias de Janot e novas delações que possam dar mais conforto aos tucanos para abandonar o governo.

A eventual ascensão de Rodrigo Maia à Presidência contraria os planos de Alckmin de concorrer ao Palácio do Planalto no ano que vem, porque quem se sentar na cadeira poderá querer ser candidato à reeleição. Maia poderia ser uma pedra no caminho de Alckmin ou do prefeito de São Paulo, João Doria, se um deles for candidato à Presidência.

Na atual situação, se Temer permanecer, estará fora da cédula eleitoral no ano que vem. Esse cenário interessa mais a Alckmin.

KENNEDY ALENCAR
BRASÍLIA

O PSDB tem discutido o rompimento com o governo Temer como se o Brasil fosse parlamentarista e um presidente pudesse ser trocado pelo Congresso por falta de condições para continuar governando. Hoje, haverá nova reunião de tucanos em São Paulo a fim de debater se o partido rompe ou não com o presidente Michel Temer.

Na semana passada, o presidente interino do partido, o senador Tasso Jereissati (CE), disse que a administração Temer se aproximava da ingovernabilidade e que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), poderia assumir o Palácio do Planalto para dar mais estabilidade ao país a fim de aplicar uma agenda econômica que é contestada pela maioria da população.

Segundo o Datafolha, a maioria dos entrevistados é contrária às reformas trabalhista e previdenciária. Está acontecendo com o presidente Michel Temer o que ocorreu com a então presidente Dilma Rousseff. A petista caiu por diversos fatores. Um fator determinante foi a decisão política do PSDB e de seus principais caciques, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador Geraldo Alckmin (SP) e o senador Aécio Neves (MG), de dar aval à troca de governo.

Dali em diante, o Congresso acelerou o processo de queda da presidente. O PSDB, que perdeu as quatro últimas eleições presidenciais, bancou o governo Temer e uma agenda econômica que agora quer transferir para Rodrigo Maia.

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Não é mera coinciência

Há muitas semelhanças entre os calvários de Dilma e Temer. Quando Tasso diz que Rodrigo Maia traria estabilidade política, essa declaração lembra a fala de Temer em agosto de 2015 afirmando que o Brasil precisava de um nome para unir o país. Com Temer, o PSDB invoca mais uma vez o conjunto da obra e não uma acusação de corrupção para justificar a troca de presidente.

Ou seja, Temer estaria incapacitado para governar assim como se passou com Dilma. As acusações objetivas, assim como ocorreu com Dilma, ficam em segundo plano. Essa atitude tucana é ruim para as instituições do Brasil. O país é presidencialista.

Não dá para usar o impeachment ou autorização da Câmara dos Deputados para o Supremo Tribunal Federal analisar uma denúncia por crime comum como se fossem um voto de desconfiança do sistema de governo parlamentarista.

Isso é golpismo, algo frequente na história do país pré-64. Após a redemocratização em 1985, recomeçou quando Aécio não aceitou a derrota eleitoral de 2014. Ocorreu com Dilma. Está acontecendo com Temer. Está aberto um precedente que pode vitimar futuros presidentes, caso Rodrigo Maia seja alçado ao Planalto ou na hipótese de um tucano ganhar a eleição presidencial de 2018.

O PSDB está, na prática, reforçando o poder do Congresso para derrubar presidentes que percam a governabilidade. Se Temer cair, será o terceiro entre sete presidentes da República desde a redemocratização em 1985 que não terminará o mandato. É uma taxa de mortalidade muito alta para o sistema de governo presidencialista.

Continuar nessa toada lançará a ameaça da instabilidade sobre futuros presidentes que fiquem em minoria no Congresso ou atravessem períodos de baixa popularidade. Já houve um plebiscito em 1993, e a maioria dos brasileiros optou pelo presidencialismo e não pelo parlamentarismo.

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Questão de coerência

O discurso ético do PSDB para romper com Temer só faria sentido se a legenda estivesse disposta a afastar Aécio Neves da presidência do partido e analisar sua eventual expulsão. No entanto, o PSDB finge que Aécio não está denunciado no Supremo Tribunal Federal por motivos bem parecidos com os que sustentam as acusações contra Temer.

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Jogando pra frente

Ao dizer que o PSDB deve continuar com Temer até a votação das reformas trabalhista e previdenciária, o governador Geraldo Alckmin encontra uma forma de tentar adiar o rompimento.

A trabalhista será votada nesta semana. Mas a reforma da Previdência, se for analisada, só terá chance de sair do papel no segundo semestre. Isso dá tempo a Temer. E dá tempo ao PSDB para aguardar novas denúncias de Janot e novas delações que possam dar mais conforto aos tucanos para abandonar o governo.

A eventual ascensão de Rodrigo Maia à Presidência contraria os planos de Alckmin de concorrer ao Palácio do Planalto no ano que vem, porque quem se sentar na cadeira poderá querer ser candidato à reeleição. Maia poderia ser uma pedra no caminho de Alckmin ou do prefeito de São Paulo, João Doria, se um deles for candidato à Presidência.

Na atual situação, se Temer permanecer, estará fora da cédula eleitoral no ano que vem. Esse cenário interessa mais a Alckmin.


 

O golpe “deu ruim”. Agora não adianta tirar o corpo fora …

Por Pedro Breier, colunista do Cafezinho

Um amigo que apoiou o impeachment me disse, resignado, alguns dias atrás: “foi golpe mesmo”.

Um conhecido pediu desculpas públicas hoje, em sua página do Facebook, às pessoas com quem ele discutiu defendendo o impeachment. “Eu preciso admitir que a palavra golpe é a melhor definição para a queda da Dilma”, escreveu.

As provas contra os bandidos que assaltaram o poder, especialmente contra Temer, que aparentemente vai morrer abraçado à cadeira onde nunca deveria ter sentado, estão fazendo as pessoas acordarem do torpor a que foram induzidas pelo massacre midiático liderado pela Globo.

O retumbante fracasso do golpe é um fato consumado.

Vai ficando cada vez mais claro que a mídia hegemônica e a dupla PSDB/PMDB tinham dois objetivos para o pós-golpe.

O primeiro era aplicar sua agenda de desmonte do Estado e ataque à direitos, visando rebaixar a renda dos trabalhadores e manter a margem de lucro dos grandes empresários e especuladores. O neoliberalismo prega que a economia deve chegar ao rés do chão o mais rápido possível para que o ciclo de recessão acabe e a expansão da economia seja retomada.

Ninguém admite isso publicamente, mas a ideia das medidas de austeridade é justamente aprofundar a recessão para que a economia volte a crescer o mais rápido possível. Afinal, quando se chega ao fundo do poço, só se pode subir mesmo.

Os milhões de desempregados e miseráveis que resultam desta teoria econômica são mero detalhe para os cabeças de planilha. Gente sofrendo são apenas números para essa gente.

O problema é que o fundo do poço está demorando para ser vislumbrado. Além disso, o desemprego, o rebaixamento dos salários e a piora brutal nas condições de vida estão irritando profundamente os brasileiros. Temer é o presidente mais mal avaliado da história e a população quer eleger o novo mandatário do país o mais rápido possível.

O segundo objetivo da ala midiática/partidária do golpe era controlar o MP e a Justiça para que tudo voltasse à “normalidade” dos anos 90, onde a dilapidação do patrimônio público e as grandes negociatas eram tranquilamente engavetadas e abafadas.

Deu ruim também.

O endeusamento de Moro, Janot, Dallagnol e companhia criou um monstro que passa por cima do que estiver pela frente, inclusive da lei e da economia nacional, em nome de sua heroica luta contra a corrupção (É claro que no caso de Temer e de seus bandidos de estimação há provas abundantes de crimes, e não apenas delações obtidas por meio de tortura).

As reformas tão sonhadas pelos donos do dinheiro neste país subiram no telhado de um arranha-céu. O presidente colocado no poder justamente para transformá-las em realidade apenas luta pateticamente pela própria sobrevivência.

Paulo Skaf agora diz que a Fiesp “não se mete em política”. A Globo grita “Fora Temer”. O PSDB continua abraçado ao zumbi putrefato que, incrivelmente, ainda é presidente do Brasil.

São todos uns grandes brincalhões.

Mas agora não adianta tentar tirar o corpo fora. A ruína do golpe ficará marcada na testa de cada um dos conspiradores por muito tempo.

Pedro Breier, colunista do blog O Cafezinho, é formado em direito mas gosta mesmo é de jornalismo. Nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo.

O príncipe, as Bacharias e o palhaço

Em entrevista ao “É Notícia”, na RedeTV,  o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a atual fórmula do salário mínimo “tem que ser revista”. “Chegou um momento que você tem que olhar a produtividade. Quando o salário está muito acima da produtividade, cria problema”, declarou. Ele disse ainda que o candidato tucano nas eleições de 2014, Aécio Neves, foi contra (a revisão da fórmula) “porque estava na eleição … “.

Na minha humilde visão de economista mal preparado a produtividade da economia depende, não só dos assalariados (mão de obra) mas, também, das máquinas e equipamentos, dos sistemas informatizados de gerenciamento e controle dos processos de produção e das condições gerais de produção (condições ambientais de trabalho, etc…). Mão de obra que se alimenta mal, gasta de 3 a 5 horas por dia (sacolejando num trem da Central) para ir e voltar do trabalho, sem a educação e o treinamento adequados não vai mesmo apresentar produtividade compatível com a produtividade das economias mais avançadas. Dê à mão de obra nacional as mesmas condições gerais de trabalho de um nórdico e teremos funcionários com produtividade nórdica e, quem sabe, com um pouco mais de “jogo de cintura” e criatividade.

O sr. FHC pensa torto. Não é reduzindo o salário mínimo que o Brasil vai criar o excedente necessário para alavancar o desenvolvimento econômico. A redução do salário mínimo pode até vir a estimular um crescimento econômico, mas este crescimento será excludente, concentrador de renda, de curto prazo e gerador de ainda maior disparidade na já lamentável desigualdade de renda do Brasil.

O ex-presidente FHC é contra a ascensão social da pequena parcela do assalariado brasileiro que recebe salário mínimo – esta é, aliás, posição conhecida de FHC e coerente com a sua história como político e presidente.

Além de ser contra a recuperação do poder de compra do salário mínimo, FHC, em ataque de sincericídio, confessou que Aécio Neves adotou posição falsa sobre o salário mínimo na sua campanha a presidente em 2014. Eu não tenho nenhuma dúvida que, tão logo assumisse a presidência, uma das primeiras medidas do Aécio seria mexer na fórmula de reajuste do salário mínimo.

Para confirmação, leia em outro post trechos da entrevista de Edmar Bacha, economista da equipe da campanha de Aécio em 2014, onde ele também confessa que estavam omitindo dos eleitores as reais intenções de Aécio e de sua equipe econômica. E, o que é pior, em atitude que eu denominei de “Bacharia”, Edmar Bacha defende essa atitude estelionatária como sendo legítima em campanhas eleitorais. É como se ele reconhecesse que o verdadeiro programa de governo do PSDB era inaceitável para a maior parte do eleitorado e que, expondo claramente seu programa neoliberal, seria impossível ganhar a eleição.

E, depois, temos que assistir estes mesmos políticos-atores condenando o que chamam de estelionato eleitoral da presidente eleita. Risos sardônicos …

Não troco estes políticos-atores pelo digno palhaço que alegrou minha infância em São Gonçalo: George Savalla Gomes (o Carequinha).  Onde escrevi “políticos-atores” quase escrevi “palhaços”. Não o fiz para não nivelar este blog ao nível atual da política nacional e para não desmerecer a classe dos palhaços.

Paulo Martins

Um pouco de compostura, senhores (4)

O post do colunista Helio Gurovitz, no G1, desta quinta-feira, intitulado “A caça às bruxas que sufocou o IPEA” desinforma no título e no texto, preconceituosos, ralos e superficiais.

E o rapaz é humilde: acha que o seu blog é necessário para os leitores entenderem melhor o Brasil e o Mundo. Menos, professor, menos …

O que é escandaloso, na verdade, é o G1, como é rotina em parcela importante da mídia-empresa, mostrar somente uma versão da história, omitindo informações relevantes.

Trabalho no IPEA e tenho, por escrúpulo, evitado tratar neste blog de assuntos relativos à instituição.

Todavia, posso fazer algumas afirmativas sobre este assunto, pois os fatos são amplamente conhecidos.

Diversos técnicos do IPEA participaram da campanha eleitoral. Uns mais ativamente,  outros menos.

Alguns – como é o caso de Mansueto Almeida – atuaram às claras. Mansueto, não só deixou claro que compunha a equipe econômica do candidato Aécio, como licenciou-se do IPEA no período eleitoral. Pelo menos esta foi a informação divulgada à época. Outros agiram em diversas instâncias sem a recomendável neutralidade ou transparência.

Sou testemunha de que o cuidado em relação ao que devia ser publicado e divulgado foi recomendado pela alta administração em reunião aberta, no auditório do IPEA/Brasília com transmissão em videoconferência para o IPEA/Rio, no dia 27/05/2014, na posse do novo presidente do IPEA, Sergei Soares.

Pareceu-me recomendação óbvia. Como um instituto de pesquisa com  credibilidade conquistada em 50 anos de existência, o IPEA não poderia participar do processo eleitoral, de um lado ou de outro. A Casa estava razoavelmente pacificada após um período de turbulência iniciado em 2011 e não queria voltar a ser o centro das atenções negativas, especialmente em plena campanha eleitoral. Esta foi a minha leitura na ocasião. Achei bem razoável e prudente.

Na minha opinião, o acirramento da disputa política na eleição presidencial de 2014 e a manipulação midiática tão descarada à época da eleição,  deram magnitude exagerada ao assunto.

O ator principal do folhetim omitiu-se e, em vez de jogar água na fervura, abandonou a panela ao fogo.

Agora, em pleno terceiro turno, o assunto volta requentado.

Na ocasião da polêmica, pouco antes da eleição, o IPEA emitiu uma nota explicando o ocorrido.  O descuidado blogueiro do G1, ou desconhece os fatos e, portanto, deveria ter a prudência de não meter a  colher de pau no angu de caroço que não conhece, ou os escamoteou.

Nos tempos que vivemos, de valores democráticos e éticos jogados na lata do lixo e de jornalismo ralo e seletivo, eu não me assustaria se a omissão tiver sido proposital.

Este é o novo normal no jornalismo nacional.

Como pedir compostura a estes senhores da nossa mídia ? Eles podem responder que já a praticam, na acepção do item 3, abaixo.

Obs: escrevo em meu nome, como cidadão atento, em caráter particular. Não tenho procuração de ninguém para emitir esta ou aquela opinião, mas não posso deixar passar preconceitos e intrigas como se fossem informação relevante “para entender melhor o Brasil e o mundo”.

Paulo Martins

Compostura. (do lat. compostura). S.f.

  1. Composição
  2. Concerto, arranjo
  3. Falsificação, imitação
  4. Seriedade ou correção de maneiras; comedimento, circunspeção, modéstia

em Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa