Deixem falar o assessor de Pinochet!, por Paulo Klias

Publicado em outrapalavras.net

Paulo Guedes, guru de Bolsonaro quer privatizações em massa, corte de gasto social e favores fiscais aos ricos. Mídia esconde estas posições — e campanha de Haddad não as denuncia

Por Paulo Kliass

Passada a longa agonia da marcha das apurações de 7 de outubro, agora as forças democráticas devem voltar suas energias unitárias e agregadoras para evitar o desastre maior em nosso país. O caminho da civilização (ainda que meio capenga em sua versão tupiniquim) contra a barbárie declarada passa, sem sombra de dúvida, pela derrota eleitoral de Jair Bolsonaro no segundo turno.

A votação recebida pelo ex-capitão do Exército e deputado federal há 7 legislaturas surpreendeu até os profissionais mais experientes do marketing eleitoral. Um sentimento generalizado de descrédito com a política e com os políticos somou-se a uma onda conservadora e moralizadora na área social e cultural. A sensação de impotência frente aos problemas graves de segurança pública e o aumento dos índices de violência entram como caldo de cultura para o desastre do desemprego e da crise social e econômica. A descrença desalentadora nas instituições políticas vem acrescentada de uma frustração coletiva com as denúncias intermináveis com os casos de corrupção.

Esses ingredientes todos passam a ser articulados com uma meticulosa manipulação das redes sociais vinculadas a igrejas e outras formas de agregação dos setores que os analistas sociais passam a chamar de precariado e ralé. Enfim, mais do que uma expressão de desejos fascistizantes de massa, o fenômeno do voto 17 simboliza o recurso desesperado do desalento em busca de alguma boia nesse mar turbulento provocado pelo desastre do austericídio. E aí surge a figura do salvador da pátria, em quem deveríamos depositar toda nossa esperança. O candidato que conseguiu a vitória ao construir sua narrativa de se apresentar “contra os poderosos” e contra tudo o que está agora aí também no dia 28. Justo quem!

Mas a pior reação que se deve ter contra esse tipo de movimento é a sua subestimação. Hitler, Mussolini e Franco, por exemplo, também foram ridicularizados em seus momentos iniciais de ascensão política. O caráter inusitado de suas proposições e de sua forma caricatural de operar na política não deve nos iludir, provocando respostas apenas no nível da chacota. Não, jamais! A situação é muito grave e os riscos de uma legitimação do autoritarismo por meio do voto estão logo ali, na virada da esquina.

E nessas três semanas de campanha é fundamental a tarefa de desconstruir a candidatura de Bolsonaro. A irresponsabilidade política de parcela expressiva de nossas elites levou à criação e ao fortalecimento desse monstrengo. Ele se caracteriza “apenas” pela apologia da tortura, pela defesa da ditadura militar, pelo chamamento à pena de morte e ao armamento da população civil, pela homofobia e pelo racismo, pela intolerância e linchamento. Ocorre que a falência da operação de conquista definitiva do aparelho de Estado no período posterior ao golpeachment está apresentando agora a sua fatura. A derrota dos partidos mais tradicionais da direita fez surgir o neo-conservadorismo com toda a sua força.

A estratégia para vencer as eleições fez com que as forças em torno de Bolsonaro fossem convencidas a tornar o candidato mais “palatável” pelos representantes do sistema financeiro e do capital de forma generalizada. Como Meirelles e Alckmin foram fracassos retumbantes, agora essas forças se agarram ao capitão. Ocorre que as propostas de seu mentor em termos de política econômica são bastante contraditórias com a história de vida do candidato. Por outro lado, as ideias do candidato a vice, general Mourão, são muito perturbadoras para uma campanha que se pretende apresentar como institucional na ordem democrática.

Assim, o silêncio de Bolsonaro ao longo de todo o primeiro turno lhe foi bastante providencial. Com a desculpa da recuperação do atentado, ele pode ficar à margem das polêmicas com os demais candidatos e deu um cala-boca nessas duas figuras que estavam incomodando o clima da candidatura com suas declarações desastradas. E dá-lhe metralhadora giratória de “fake news” no subterrâneo incontrolável das redes sociais. Ao que tudo indica, tem sido muito eficiente a assessoria que está sendo prestada por figuras como Steve Bannon, que foi responsável pela campanha de Trump e se tornou uma espécie de líder da extrema direta mundial.

O fato pouco mencionado até agora é que a pauta econômica de Paulo Guedes é muito conservadora. A contradição vem dessa necessidade que Bolsonaro sentiu de ser mais bem aceito pela elite, em uma tentativa de deixar para trás a sua eterna imagem de alguém tosco e nojento. Afinal, ele defendeu inúmeras vezes o estupro de forma criminosa e debochada, além de propor literalmente o assassinato do ex-presidente FHC. Mas, enfim, nada que uma boa dose de “educação refinada” não resolva! Essa é a visão de alguns que aceitaram o desafio e partiram para a tarefa de dar uma demão de civilização naquele que, em sua essência, nada mais é senão um defensor da barbárie.

Paulo Guedes está muito bem ambientado na condição de guru de economia de Bolsonaro. Afinal, formou-se em uma das escolas mais clássicas do monetarismo e da ortodoxia, na Universidade de Chicago nos Estados Unidos. Fez um estágio na implementação das políticas públicas desses aprendizes do liberalismo na ditadura de Pinochet, logo depois da derrubada do governo democrático de Salvador Allende e do início da noite de terror naquele país. Em seguida volta ao Brasil e vai fazer sua carreira como agente no sistema financeiro.

Por isso é tão importante que a campanha de Haddad ofereça voz às propostas do senhor do Posto Ipiranga, como tão bem o apresentou o próprio candidato. Paulo Guedes é um radical defensor da privatização completa das empresas estatais brasileiras. Paulo Guedes é um entusiasta do ajuste imposto pela austeridade burra, tal como estabelecida pela Emenda Constitucional 95, que congela os gastos não financeiros por 20 anos. Paulo Guedes considera fundamental manter os desastres provocados pela “reforma” trabalhista aprovada pelo governo Temer. Paulo Guedes é contra medidas de promoção do desenvolvimento, uma vez que mantém sua crença obstinada na capacidade das forças de oferta e demanda resolverem nossos problemas.

Assim como as falas destrambelhadas do General Mourão a respeito da necessidade de extinguir o 13º salário, quando Paulo Guedes se manifesta, a oposição só tem a ganhar. Quando ele decide expor suas convicções mais profundas a respeito da economia, do Brasil e do mundo, o economista apresenta pérolas como a seguinte:

(…) “Estou vendendo o peixe da aliança de centro-direita em torno de um programa liberal democrata na economia. É o que os Chicago Boys fizeram lá no Chile. Conversei com ministro do Planejamento, da Fazenda, presidentes do Banco Central e do BNDES… Estou mapeando o território, examinando os números e simulando.” (…)

Esse é o desastre anunciado que não está sendo repercutido como deveria pelos grotões afora. Já foi esgotada a tática das denúncias apenas da pauta conservadora no campo da moral e dos costumes. Agora é urgente que seja desmascarada a agenda de retrocesso para o campo da economia. Se Bolsonaro prefere optar pelo silêncio que lhe é mais confortável, cabe às forças democráticas apontar a gravidade e os riscos embutidos na estratégia da liberalização radical do economista de Chicago.

As propostas da radicalização do retrocesso na seara da economia já foram apresentadas por todos os lados. Não tem mais como esconder. A população merece conhecer as ideias do todo-poderoso assessor.

Fala, Paulo Guedes!

#elenão.

A indigência do “fascismo tropical”


A indigência do “fascismo tropical”

POR RAFAEL ZACCA
– ON 11/10/2018

Publicado em outraspalavras.net


Em vez de História, esquecimento. No lugar de glórias externas, combate aos pretos, nordestinos e gays. Um “nacionalismo” entreguista. Como Jair Bolsonaro produziu um movimento que até Marine Le Pen rejeita.


Por Rafael Zacca | Imagem: cena de A Resistível ascensão de Arturo Ui (de Bertolt Brecht), encenada em Londres, 2013

Em todo o mundo a extrema direita surfa a onda conservadora da última década. Sempre que nos deparamos com um fenômeno confuso, vasculhamos a memória atrás de algum ponto de apoio para distinguir as coisas. É assim que por toda a parte o nazi-fascismo volta a ser sussurrado de ouvido em ouvido, como o marulho dessas águas. Chamar as coisas por seu nome é uma tarefa importante – mas distinguir os nomes corretamente é a tarefa justa. No caso brasileiro, o retorno do recalcado de nossa época ditatorial militar nos impele, a um só tempo, a lhe dar o nome de fascismo, e a acrescentar-lhe um broche, provavelmente maior que a roupa. Um broche tropical. Pois é difícil de acreditar que se possa sobrepor diretamente a imagem de Hitler ou de Mussolini à de Jair Bolsonaro, e nada nos parecerá mais absurdo do que a ideia de um povo ariano brasileiro.
Não obstante, a morte do capoeirista Moa do Katendê, na madrugada de 8 de outubro, é a mais recente evidência da existência de um fascismo à brasileira que diferentes discursos negacionistas tentam abafar. O capoeirista foi morto pela peixeira de um bolsonarista muito mais jovem (Moa tinha 63, o assassino tem 36), que cometeu o crime por “discordância política”. Outra evidência se dá no contexto dos acontecimentos que se seguiram ao assassinato da vereadora do PSOL, Marielle Franco. Sete meses depois da execução, motivada pela atuação de Marielle no combate às milícias e na defesa da população negra e pobre das favelas do Rio de Janeiro, os então candidatos (e agora eleitos) a duas vagas na Assembleia do Rio, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira, quebraram uma placa feita em homenagem à vereadora na rua em que ocorreu o assassinato, no bairro do Estácio. Tratava-se de um evento político, e ao lado dos dois estava, no mesmo palanque, o atual candidato ao governo do Rio, Wilson Witzel – todos do partido da oligarquia Bolsonaro.
Nas eleições para o primeiro turno, fotos da urna eletrônica indicando voto em Jair Bolsonaro e pistolas repousando sobre os números expõem, com uma clareza freudiana, a vontade de entregar poderes excessivos ao candidato. A poucas semanas do processo eleitoral, em Copacabana, uma corrida de militares, destinada a homenagear um sargento morto durante operação em uma favela carioca, tornou-se prontamente uma carreata de apoio ao presidenciável, em uma espécie terrível de anúncio de uma possível “versão tropical dos Freikorps”, como afirmou Gilberto Maringoni, professor da UFABC. O professor referia-se aos grupos paramilitares que encabeçaram a escalada de violência nazista no século passado. Bolsonaro parece aceitar de bom grado o trono que lhe querem entregar: já afirmou, ao longo de sua história, que é a favor da tortura, que fechará o congresso na primeira oportunidade, e, recentemente, que irá “por um ponto final em todos os ativismos do Brasil”.
Quando teve fim o seu exílio, Leonel Brizola regressou ao Brasil com a ideia de realizar um “socialismo moreno”: mais libertário, mais afeito aos trópicos. Em uma espécie de piada histórica de mau gosto, o que parece ter vingado no país é um “fascismo moreno”, com as cores de nossa bandeira. Torquato Neto escreveu em 1968: “não faça esforço para ser tropicalista: continue moralista e será. O trópico é fatal.” Um nome mais adequado para essa ideologia talvez seja “fascismo tropical”.
Para compreender esse fenômeno, é preciso partir da premissa de que o que encontramos aqui não é exatamente igual àquela ideologia que nasceu das fasci di combattimento italianas. É preciso repetir o gesto daqueles que enfrentaram a meia-noite do século XX: na década de 1930, os que resistiam ao autoritarismo e à morte criaram institutos de estudo e combate ao nazi-fascismo. Tais institutos viriam a calhar hoje no Brasil. A história não se repete – conhecer o que se passa aqui, dessa vez, é tarefa prioritária, para que possamos traçar estratégias de resistência e combate mais bem definidas. O que se segue é um ensaio de distinções.
Lembrar ou esquecer
É curiosa a franca oposição em que se encontram a mentalidade histórica nazi-fascista e a do fascismo tropical. Enquanto para o primeiro a história (ainda que inventada e travestida de ciência) é importante na fundamentação dos símbolos nacionais a serem adorados pela população, para o segundo, o esquecimento é o cimento sobre o qual o autoritarismo pode se firmar. Não à toa a Comissão Nacional da Verdade tenha sido, desde a sua fundação, duramente atacada, simbólica e materialmente, por partidários, civis e militares, da ditadura. Ligada a um projeto de revisão da lei da anistia, que admitiu o retorno dos exilados políticos e perdoou os crimes dos agentes do Estado brasileiro, a Comissão trabalhou no sentido de revisar a dívida histórica com o passado recente nacional, quando o regime militar sequestrou, torturou, matou e desapareceu com inúmeros cidadãos, muitos dos quais sem paradeiro certo até hoje. O projeto de esquecimento envolvido nesse processo conhece agentes armados, e não apenas ideologicamente eloquentes. Em 2014, por exemplo, o coronel Paulo Magalhães confessou crimes de tortura e sequestro à Comissão; um mês depois, sua casa foi invadida, o coronel assassinado, e seus computadores roubados.
Enquanto no fascismo tradicional o passado é glorioso e os ancestrais exaltados, no fascismo tropical o passado é motivo de vergonha e deve ser esquecido. O fascismo tropical é um projeto de futuro que quer purgar, com fogo mesmo, o território nacional de seus males. Apenas o patriarca é respeitável, o que explica, por sua vez, que a centralização de poder em nossa história seja tão mais facilmente alcançável. Essa ideologia funda em nós uma atração desproporcional, mesmo se comparada a outros contextos patriarcais, pelas figuras do super-herói incorruptível, do avô amoroso provedor ou do coronel que apazigua os conflitos locais. E não importa que sejam essas as figuras nacionais que mais rapidamente se mostrem corruptas, avarentas e violentas, quando não as três coisas: o fascismo tropical tem mais amor pela violência do chefe que pela instauração de uma ordem, pois identifica ordem com o cano de um revólver.
Sob gritos de “mito”, Jair Bolsonaro é eleito deputado, ano após ano, como o grande patriarca do fascismo tropical. Quanto mais os seus adversários relembram de seu flerte com os crimes de guerra do regime militar, mais o candidato se apoia na amnésia social promovida pela lei da anistia como escudo ideológico. Esse grande patriarca sofre hoje, não por mera coincidência, a maior rejeição por parte das mulheres, sob a bandeira do movimento do #elenão.
O inimigo externo ou interno
A tipificação do alvo nacional, do inimigo número um, também difere nos dois casos. Na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler, esse elemento sempre foi exterior. Fora do território, esse inimigo movia a guerra de conquista. Marinetti chegou a afirmar em manifesto futurista, em apoio à Itália na guerra colonial na Etiópia, que “a guerra é bela”. O nazismo, por seu turno, cresceu na sombra do argumento da humilhação por seus vizinhos: o discurso revanchista, pelas consequências da derrota na Primeira Guerra Mundial, pavimentou a marcha da SS. E mesmo o grande alvo interno dos arianos, os judeus, eram tidos como inimigos externos, que teriam saqueado e destruído a nação. De um modo ou de outro, o nacionalismo se constrói por oposição ao internacional.
No fascismo tropical, o alvo é nacional. Esse efeito é possível graças à produção de esquecimento – assim, o alvo pode ser aquilo que é nacional, mesmo sob justificativa nacionalista. O ódio aos afrodescendentes e aos índios, e a todas as políticas de reparação histórica e de inclusão social desses grupos na sociedade, é a mais estranha contradição de um fascismo tropical. E é vestindo a camisa da seleção nacional de futebol, que teve historicamente a maior parte de seus melhores jogadores pessoas negras, que os novos verde-amarelos exigem políticas de extermínio nas favelas, fim de cotas nas Universidades e em concursos públicos, etc. Também o nordestino pode ser odiado desse ponto de vista, como inimigo interno que desorganiza o país, bem como o pobre. Todos esses alvos acusados de imoralidade – pois o fascismo, lá como aqui, é antes de tudo um ato de conservação dos costumes do patriarcado.
Exatamente por isso, tanto em um caso como no outro, um alvo continua o mesmo: o corpo estranho. O desejo de morte aos corpos que fogem da norma reprodutiva heterossexual se traduz, hoje, sob gritos de “fim do kit gay nas escolas” ou na exigência de que os não-heterossexuais não se mostrem de tal forma em espaços públicos. De qualquer maneira, a pressão para que esses modos de vida permaneçam na esfera privada significa – mesmo antes dos espancamentos e das violências verbais, que ocorrem todos os dias – a morte social desses corpos.
Nacionalismo e entreguismo
É curiosa a posição dos fascistas tropicais: são nacionalistas e entreguistas ao mesmo tempo. Essa foi a postura social e econômica da Ditadura Militar, e parece continuar a ser o projeto do militar Jair Bolsonaro. A aceitação de sua candidatura, por parte de grandes contingentes da população, coincidiu, inclusive, com uma mudança de posição do candidato: de passado protecionista, Bolsonaro se move cada vez mais para o campo neoliberal. Nesse sentido, o fascismo tropical é bastante diferente de seu irmão europeu – lá, o protecionismo é a palavra de ordem. Aqui, o economista liberal, formado por Chicago, Paulo Guedes, é a arma do convencimento de fecundidade do projeto de Bolsonaro. Privatização e entrega das riquezas nacionais podem conviver em seu discurso porque o nacionalismo, no fundo, não é sequer a exaltação de tais ou quais aspectos nacionais. Nacionalismo no fascismo tropical é pura e simplesmente a defesa da família tradicional e a repressão da sexualidade.
Esse fenômeno ficou conhecido entre os historiadores como “modernização conservadora”. Modernização com a livre-circulação do capital e dos capitalistas internacionais, e conservação nos costumes. Se no nazi-fascismo a modernidade é imoral e destrói o passado glorioso das nações superiores, no fascismo tropical a modernização é o que pode fazer com que a nação concorra a um papel de destaque no arranjo internacional de disputa de riquezas. E como sempre cabe mais um ingrediente no prato brasileiro, soma-se a esses aspectos um reacionarismo no campo social, com a retirada progressiva de direitos. Ataques à legislação trabalhista são justificáveis em prol de uma “estabilização financeira” e “reequilíbrio das contas públicas”, delegando, no fundo, ao trabalhador, a tarefa de fechar as contas do cofre nacional.
O fenômeno não se desenvolve sem contradições, é claro. Um dos principais aliados de Bolsonaro, por exemplo, Alexandre Frota, é um dos defensores da moralidade e dos bons costumes, além de guardião discursivo da família tradicional brasileira, e parece não causar espanto o fato de que Frota tenha sido ator pornô e tenha contracenado tendo relações sexuais com diferentes moças e rapazes, performando hetero, bi e homossexualidade em seus filmes. Também não parece contradizer a família tradicional o fato de que Frota tenha feito apologia ao estupro em rede de televisão aberta. Nada disso impediu que o ator tivesse sido eleito deputado federal com 152 mil votos pelo partido de Bolsonaro, o PSL.
Antipartidarismo como guarda-chuva ideológico
O fascismo não se fundamenta sem um guarda-chuva ideológico. É preciso canalizar uma grande variedade de medos e inseguranças da população sob um mesmo signo para arregimentá-la em seu projeto. Largos contingentes de seres humanos, formados até mesmo pelos corpos ameaçados por essa ideologia, não são fascistas por natureza. São boas pessoas, incapazes de ferir o semelhante. É preciso um elemento que filtre as diferentes demandas sob um só signo odiento e que, nesse mesmo movimento, impulsione a violência em ondas cada vez mais fortes. Somente com essa canalização aquilo que Hannah Arendt chamou de banalização do mal é possível. Como o fascismo floresce em épocas de crise das relações sociais, esse filtro se liga a um elemento que possa a qualquer custo conservar essas relações. Em 1964, o filtro era o anticomunismo. Hoje, é o antipartidarismo, principalmente o antipetismo. Sob o argumento da corrupção, esconde-se um ódio às transformações sociais exigidas por pobres, negros, mulheres, LGBTQ+ e índios.
De outro modo, não se explica o apoio dado a Jair Bolsonaro e àqueles que coligam com ele. Sua história partidária está ligada aos mesmos escândalos que sustentam a retórica do PT como o partido mais corrupto de todos. Bolsonaro era deputado pelo PTB na mesma época em que o partido protagonizou o mensalão; foi deputado pelo PP na mesma época em que o partido teve o maior número de indiciados no petrolão; além de ter participado da base ampla do PT por muitos anos. Mas nada disso adiantará nos ouvidos tropicais desse fascismo à brasileira. Atacar a sustentação do filtro ideológico é gastar energia sem produzir efeitos; aqueles que se comprometem com o combate ao fascismo devem estar dispostos a refazer as perguntas fundamentais que movimentam o medo daqueles que coligam com este projeto. Apenas na reformulação dos problemas sociais que servem de fundamentação real ao fascismo, a esquerda conseguirá apontar uma direção mais adequada. Isto é: não é a questão partidária que está em jogo. No limite, a questão partidária é apenas o conteúdo manifesto de um conteúdo latente que precisa ser trazido novamente para os debates públicos. Já o combate aberto, deve ser reservado aos ideólogos do fascismo tropical, tais como toda a oligarquia Bolsonaro, Kim Katagury, Olavo de Carvalho, Rodrigo Gurgel, Alexandre Frota, e outros pseudo-pensadores semeadores dos campos da morte.

Rafael Zacca


Poeta e crítico literário. É doutorando em Filosofia pela PUC-RJ. Integra o Núcleo de Estudos da Cultura no Capitalismo Contemporâneo (UFF). Articula com outros poetas a Oficina Experimental de Poesia (OEP). Autor do livro de poemas Rafael Zacca | Coleção Kraft (2015). Vive no Rio de Janeiro (RJ).


Os dias eram assim, sim, por Alex Solnik

Para os que eram jovens demais e, portanto, não podem lembrar, para os que eram alienados demais para lembrar e para os que, por conveniência ou conivência, preferem esquecer, compartilho texto de Alex Solnik.

Foto escolhida por mim.

Paulo Martins

Por Alex Solnik

“Os dias eram assim, sim

Às 6 da manhã do dia 4 de setembro de 1973 eu fui acordado pela minha mãe, que estava de penhoir (ainda existe penhoir?) para atender um senhor que estava na porta dizendo ser pai de um amigo meu.
Desci as escadas de pijama reforçado (fazia frio) e chinelos de palha japoneses.
Nunca tinha visto aquele sujeito antes. Uns 40 anos, cabelos grisalhos, um elegante cachecol. “Meu filho saiu ontem com você e ainda não voltou” disse ele.
Eu não estava entendendo muito bem, mas resolvi ajudar.
“Quer que eu saia ou o senhor prefere entrar”? perguntei.
“Prefiro que você saia”, disse ele.
Logo no primeiro passo que eu dei pra fora da porta fui surpreendido por dois homens que saltaram na minha frente, um deles empunhando uma metralhadora.
“É você mesmo, seu filho da puta” disse o outro, enquanto me aplicava um soco no estômago. Eu não ofereci resistência, é claro. Não gritei, não falei, não perguntei.
Dois deles invadiram a casa dos meus pais – eu ainda morava com eles, aos 24 anos – e um terceiro me conduziu para a viatura C-14 marrom sem placas estacionada na esquina.
Em alguns minutos, os que invadiram a casa embarcaram na viatura mostrando para mim três publicações que justificariam minha prisão: “Maravilhas do conto russo”, uma coletânea de autores clássicos do se. 19; um exemplar da Revista da Civilização Brasileira com a matéria de capa “A Igreja e o regime militar” e uma edição do jornal do DCE-USP, então proscrito.
Antes de partirmos – eu de pijama e chinelos – colocaram um capuz sem furos na minha cabeça e mandaram que eu deitasse no vão entre os bancos dianteiro e traseiro.
No trajeto, um deles pronunciou uma frase que não esqueço até hoje:
“Hitler não completou o serviço que começou com vocês”.
Passei o primeiro dia sentado num banco do que parecia ser um saguão, de pijama e encapuçado. De vez em quando, sem mais nem menos, dois caras sentavam ao meu lado e me aplicavam socos onde lhes aprouvesse, inclusive na minha cabeça, além de puxar os pelos do meu peito.
Esperavam que eu reagisse para então me infligir sofrimentos piores, mas eu não abria a boca para reclamar.
Depois me levaram para o primeiro interrogatório. Meu interrogador estava à paisana. Logo avisou que se eu mentisse ia me aplicar os primeiros choques, nos dedos.
Apanhou a agenda de telefones apreendida no meu quarto e passou a exigir que eu explicasse quem eram as pessoas por trás dos nomes.
À noite, o que parecia ser o chefe mandou acompanhá-lo. No caminho falei pela primeira vez:
“Vocês se enganaram comigo. Eu não sou de grupo nenhum, não tenho nada a ver com isso”.
“Tem, sim” reabteu ele, sem levantar o tom de voz. “Você é o Hippie da A.P.”.
Eu até poderia ser confundido com um hippie, usava cabelos até os ombros, vasta barba, mas nunca tive esse apelido nem nunca fui da A.P., Ação Popular.
Ele me acompanhou até a cela X-5. No meio do cômodo de 9 metros quadrados um homem dormia em cima do colchão de capim.
O homem que me trouxe o acordou:
“Conhece esse cara”? perguntou ao preso.
Este apenas sacudiu o rosto para os lados.
Dormi a primeira noite no mesmo colchão, meus pés na altura da cabeça do encarcerado.
O que eu vi nos dias seguintes foram cenas de filme de terror.
Meu companheiro de cela, que estava preso há sete dias e se recusava a sequer dialogar com os torturadores era torturado dia sim, dia não.
Ele voltava severamente machucado sempre que era conduzido ao segundo andar, de onde vinham gritos lancinantes.
Enquanto as vítimas gritavam de dor, o volume do rádio era aumentado até o limite.
As seis celas – três de um lado do pátio e três do outro – estavam lotadas. Uma delas era a cela das mulheres.
Certo dia, um dos torturadores desceu à carceragem num estado de excitação tal que parecia que um exu tinha baixado nele. Vestindo uma toga ele se perfilou diante da cela feminina e começou a berrar para uma das presas frases chulas tais como:
“É hoje que nós vamos fritar os ovos do teu marido! Quer assistir”?
Quando me mandaram para a cela X-3, que ficava em frente à minha eu pensei que iam dedetizar a X-5, alguma coisa assim. Só quando voltei, no dia seguinte, meu companheiro de cela me contou que me mudaram de cela para eu não testemunhar a sua possível morte.
Ele tinha sido colocado, naquele dia, na Cadeira do Dragão. Nu, molhado, amarrado ao objeto de metal enfrentou, nas nove horas seguintes sessões de socos, pontapés, cusparadas e choques elétricos nas partes mais sensíveis do corpo, como na ponta do pênis, no saco escrotal, nos mamilos.
Só não morreu porque, quando sentiu que estava a ponto de romper os laços com a vida resolveu dizer o seu nome, rompendo o silêncio.
Tal como os nazistas que tentam até hoje falsificar a história, negando o Holocausto, os bolsonaristas, a versão tupiniquim dos integralistas de Plinio Salgado, todos fascistas, no fundo, tentam debochar da minissérie da Globo que retrata a barbárie da ditadura militar chamada “Os dias eram assim”.
Sem nenhuma acusação, sem que ninguém me tivesse delatado, sem nenhum indício de que eu pertencesse a grupos de luta armada ou desarmada ou tivesse participado de alguma ação classificada como “subversiva”, fiquei preso durante 45 dias nas dependências do II Exército que é onde ficava o DOI-Codi, na Rua Tutóia.
Os dias eram assim, sim. “

Documentário Em Busca da Verdade – torturas na ditadura militar

Para quem não tinha nascido no período negro da nossa história, uma aula. Para quem já havia nascido e já se esqueceu, é bom recordar … Se pensam que ditadura é piquenique …
Documentário com 58 minutos, publicado originalmente no blog da Cynara Menezes – http://www.socialistamorena.com.br, com relatos do ponto de vista dos torturados pela ditadura militar.

A seguir, leia o texto da Cynara, abaixo e, logo após, clique no link para ver o filme de 58 minutos.

Uma das mentiras mais repetidas pelos defensores da ditadura militar no Brasil é a de que as torturas durante o período foram dirigidas apenas a quem participou da luta armada. Tentam esconder dos incautos que índios, camponeses, estudantes, advogados, trabalhadores e pessoas comuns também foram vítimas do aparato repressivo. O documentário Em Busca da Verdade, produzido pela TV Senado, dá visibilidade a estas histórias a partir dos mais de 1 mil depoimentos colhidos pela Comissão da Verdade entre 2011 e 2014.

É o primeiro filme a abordar o resultado das comissões estaduais e nacional da Verdade, cujo relatório foi divulgado em novembro do ano passado, após três anos de trabalhos. Os diretores Lorena Maria e Deraldo Goulart vasculharam dezenas de horas de depoimentos de agentes da repressão e torturados e entrevistaram os membros da comissão para construir a narrativa e para falar sobre o legado que a investigação deixou.

“A imprensa divulgou muita coisa na época, mas deu prioridade aos depoimentos dos agentes. Nós priorizamos os torturados”, diz Lorena. O filme, de 58 minutos, destaca os casos emblemáticos dos desaparecidos políticos Rubens Paiva, Stuart Angel e Epaminondas Oliveira, líder comunista maranhense, o único que a CNV conseguiu localizar as ossadas. Em agosto de 2014, 43 anos após seu desaparecimento, finalmente Epaminondas foi sepultado pela família.

Foram resgatadas imagens raras descobertas pelo pesquisador Marcelo Zelic no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, que trazem a infame cena dos índios carregando outro índio no pau-de-arara em um desfile militar. “Os índios e camponeses eram alvo da repressão por uma questão de disputa por terra”, afirma a diretora. “Como diz no filme a psicanalista Maria Rita Kehl, que integrou a Comissão da Verdade, eles viraram um obstáculo que tinha de ser eliminado a bala.”

O documentário também retrata o envolvimento do empresariado, financiando a ditadura militar e a própria tortura. Segundo Lorena Maria, o mais importante é que o filme consegue deixar claro como a política de repressão resultou em problemas para toda a sociedade, não só para quem atuou na luta armada, com efeitos que sentimos até hoje. “A PM ainda continua exercendo práticas de tortura e desaparecimento de cadáveres. A transição negociada para a democracia, sem punição aos mandantes e torturadores, permitiu que isso continuasse. Trouxe uma sensação de impunidade que persiste”, opina.

Em Busca da Verdade será transmitido pela TV Senado a partir de sábado 27, às 21h30. Em agosto, Deraldo Goulart dirige a segunda parte do documentário, enfocando as implicações da ditadura brasileira com os imigrantes e com outros países da região, como a Operação Condor. Assista o primeiro episódio aqui, na íntegra.

Para informações mais detalhadas, clique no link abaixo:

http://www.cnv.gov.br/relatórios.html