O petróleo é nosso!

Somos 7 bilhões de seres humanos no mundo

Um bilhão de pessoas situadas no topo da pirâmide social consome 50% de toda a energia produzida no mundo.

Os três bilhões de pessoas situadas no nível intermediário da pirâmide consome 45% da energia.

Os três bilhões de pessoas da base da pirâmide consome os 5% restantes.

O consumo de energia elétrica em aparelhos para condicionamento de ar nos EUA é maior do que o consumo de energia elétrica em toda a África.

Fonte: Eduardo Gianetti

Há um ano eu publiquei esta informação no Facebook.

A desigualdade de riqueza, renda e consumo entre nações – e não só na comparação entre os países ricos e a África – e entre as pessoas de um determinado país, como o Brasil, por exemplo, é brutal.

Estes dados são uma pequena amostra. Quando os norte-americanos falam em manter seu padrão de vida – o “American way of life” – o que eles estão querendo dizer é que não aceitam ceder um milímetro para diminuir estas desigualdades.

A forma predatória dos norte-americanos se relacionarem com os outros países e com o meio ambiente reflete somente a leitura que eles, os norte-americanos, têm do mundo: estamos todos aqui para servi-los e não deixar que lhes falte nada, nem energia, nem drogas. Eles necessitam ser os maiores consumidores de tudo, mesmo que sejam os maiores poluidores globais.

Há abundância de dados estatísticos mostrando com indiscutível clareza a grande desigualdade de riqueza e renda que o funcionamento da máquina capitalista global turbinada pelo neoliberalismo trouxe para o mundo nos últimos 30 anos.

Mesmo dentro dos Estados Unidos, a desigualdade de riqueza e renda entre as pessoas aumentou a ponto de tornar o sistema econômico norte-americano uma máquina defeituosa, que gera riqueza para poucos com subtração de renda da grande maioria dos seus próprios cidadãos.

A drenagem de recursos das outras nações, especialmente o petróleo barato, para sustentar o desenvolvimento dos Estados Unidos, foi um fenômeno comum no passado. A novidade é que o fenômeno da absurda concentração de riqueza e renda passou a ser um fenômeno interno, nacional, que afeta os próprios cidadãos norte-americanos.

O resultado disso é o crescente egoísmo, individualismo, xenofobia, descaso com o meio ambiente. Em resumo: Trump.

Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro.

O fascismo está no ar (revisado)

Eu ouvi um discurso dos anos 30 e 40, com nítido ranço da Alemanha hitlerista, que apenas adota um velho disfarce ao substituir a supremacia da raça pura alemã pela supremacia da nação norte-americana e por apelos ao nacionalismo e engrandecimento dos EUA em detrimento do resto do mundo.

Trump inverteu completamente a realidade e atribuiu a decadência da classe média norte-americana à exploração dos outros países. Falou do sucateamento da indústria norte-americana atribuindo a culpa ao Estado, à tributação e à falta de patriotismo do empresário norte-americano. Jogou Adam Smith e David Ricardo na lata do lixo. Talvez seja um lugar merecido no século XXI. Esqueceu-se, convenientemente, do desmantelamento da economia norte-americana causado pelo neoliberalismo e pela desregulação, especialmente do mercado financeiro, iniciados na era Ronald Reagan.

Os editores do Jornal Nacional, “inocentes”, coitados, escolheram ver um discurso forte. Alguns chamariam a expressão “forte”, que nada define, de mero eufemismo de conveniência; outros, de mistificação corriqueira, norma já tradicional na Organização.

Comentarista da GNT, empresa da mesma Organização, definiu o discurso de Trump  como Nacional Populista. Outro eufemismo.Um pouco mais próximo da realidade mas, mesmo assim, eufemismo. Todos sabemos qual a correta classificação do lamentável discurso de Donald Trump.

Se Trump realmente gosta de um palavreado xenófobo, misógino e racista,  que a Globo escolheu chamar de “forte”, nós também temos o direito de usar linguajar apropriado, expresso em “trumpês”, para classificar seu discurso de posse. Nesse novo  idioma, que causa calafrios na China e na Alemanha, a correta definição do discurso de Trump, é “fascismo”. Reciclado, revisado, semi-novo, transgênico, gourmetizado, mas o mesmo fascismo de sempre.

Hitler reencarnou-se em Trump. Só faltou escolher “Ordem e Progresso” como o lema deste novo tempo. A expressão já havia sido exportada para um determinado país sul-americano, igualmente carente de ideias e inspiração.

Preparem-se. Os novos tempos são de cuidados e de mediocridade. Stephen Bannon reina. God save us.

Leia, a seguir, texto complementar de Luiz Carlos Oliveira e Silva:

TRUMP E HITLER
1. O discurso de “inauguração” do mandato de Donald Trump, em diversos pontos, lembrou o de Hitler antes da guerra.
2. A ideia de que o povo retomou o poder, na figura do presidente, contra os políticos e as instituições, é um deles.
3. Há outros… Por exemplo:
4. Unir a nação contra os inimigos internos e externos é uma das ideias-força de Hitler que Trump está tomando como sua.
5. Os “judeus” de Trump são os assim chamados “imigrantes ilegais” e os “comunistas” da vez são os “radicais islâmicos terroristas”.
6. Outra ideia-força de Hitler que Trump estás abraçando denodadamente é a de atribuir as dificuldades econômicas à traição antinacional dos políticos.
7. O “Tratado de Versalhes” de Trump é a globalização.
8. Onde se ouvia “Alemanha para os alemães”, ouça-se agora “Buy American, hire American”.
9. Onde se ouvia “Deutschland über alles”, ouça-se agora “America First”.
10. O discurso de “inauguração” foi a reiteração do que ele disse na campanha. Diferentemente do que muitos esperavam.
11. Trump não amarelou. Hitler não amarelava… E deu no que deu…

Os dados provam: desigualdade é a lógica do sistema e não uma disfunção ocasional

Contrário ao que as matérias jornalísticas tentam fazer crer, a desigualdade não é uma simples disfunção da máquina econômica global. Sem controle, esta máquina produz, de um lado, extrema concentração de riqueza e, de outro, pobreza e “desposse”. O funcionamento normal dessa máquina gera bolhas e desequilíbrios, excluindo os derrotados no perverso jogo da competição e da ganância.

O capitalismo necessita de crescimento composto infinito, concentração de renda e riqueza entre poucos e exclusão dos demais.Esta é a lógica de funcionamento do modelo.  O mercado é incapaz de criar mecanismos que permitam, em prazo razoável, em nível local ou global, obter crescimento equilibrado e estável. De uma máquina que gera, em seu funcionamento regular, desequilíbrios e crises, não se pode esperar estabilidade.

Todos os bilionários citados beneficiaram-se de extrema concentração nos mercados em que atuam. Eliminaram concorrentes, sonegaram tributos, manipularam informação, formataram a opinião pública, pagaram propinas, fizeram lobby, compraram leis, isenções, benefícios e empréstimos com juros subsidiados, concentraram renda, diminuíram salários apesar de aumentos extraordinários de produtividade e foram capazes, mediante expedientes anti-livre competição, de assumirem domínio monopolista ou oligopolista nos mercados globais.

Entra ano, sai ano, jornalistas, economistas e autoridades reunem-se no Fórum Econômico Global para tentar consertar a máquina econômica global. Ora, os mecânicos que construíram a máquina que funciona tão mal não serão capazes de renegar seu invento e declarar que a tal máquina tem defeitos básicos de concepção e que não é possível repará-la.

Não é necessária nenhuma genialidade para verificar que a máquina econômica global tal qual concebida não funciona para a grande maioria. E que não há conserto capaz de fazê-la funcionar. É o que os números mostram e os míopes fingem não enxergar.

É necessário substituí-la. Não sei quantas linhas serão escritas, quantas palavras serão jogadas ao vento, quantos fóruns e conferências globais serão necessários até que se conclua que o desarranjo da máquina econômica  global é fatal. A paciência não será infinita.

Se o aumento na desigualdade não é “uma lei de ferro do capitalismo” como afirma a instituição que organiza o Fórum Econômico Mundial e que tudo é apenas uma questão de escolha de políticas corretas, tendo em vista a caótica situação das pessoas resultante do mal funcionamento da economia, podemos concluir que os formuladores de políticas ou não querem ou não sabem quais seriam as tais escolhas políticas corretas. Fazem escolhas erradas, não admitem o erro e, quando questionado, dobram a aposta. Quando surgem os resultados catastróficos que provam o funcionamento perverso da máquina econômica, fingem surpresa alguns e perplexidade outros. Leia, abaixo, a tradução do texto da The Guardian que eu fiz. Veja os noticiários e observe que eles, todos eles, evitam tocar na raiz do problema.

Paulo Martins

Larry Elliott, Editor de Economia,The Guardian

Segunda-feira 16 janeiro 2017

Os oito bilionários mais ricos do mundo controlam entre eles a mesma riqueza que a metade mais pobre da população global, de acordo com uma organização dedicada à caridade que emitiu o alerta sobre a crescente e perigosa concentração de riqueza.

Em um relatório publicado para coincidir com o início da semana de Fórum Econômico Mundial, em Davos,  Oxfam declarou que ser “além do grotesco” que um punhado de homens ricos liderados pelo fundador da Microsoft, Bill Gates valem US$ 426 bilhões (£ 350 bilhões), equivalente à riqueza de 3.6 bilhões de pessoas.

A associação de caridade para o desenvolvimento pediu um novo modelo econômico para reverter a tendência à desigualdade que ela considera que ajuda a explicar a vitória do Brexit e de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos.

Robótica, Trump e Brexit aqueceram a temperatura na neve de Davos

Oxfam culpou o aumento da desigualdade em razão da agressiva restrição nos salários, da sonegação de tributos e da exploração de produtores por empresas, acrescentando que empresas também focaram em entregar para os proprietários e top executivos  retornos cada mais mais altos.

O Fórum Econômico Mundial declarou na semana passada que o aumento na desigualdade e polarização social são os dois maiores riscos para a economia global em 2017 e que poderia resultar em volta atrás da globalização.

A Oxfam declarou que os 50% mais pobres do mundo eram proprietários do mesmo valor em ativos  dos US$ 426 bilhões possuídos por um grupo encabeçado por Gates,  Amancio Ortega, espanhol fundador da cadeia de moda Zara e Warren Buffett, o famoso investidor e chefe executivo de Berkshire Hathaway.

Os outros são Carlos Slim Helú: o magnata mexicano das telecomunicações e proprietário do conglomerado Grupo Carso; Jeff bezos: o fundador da Amazon; Mark Zuckerberg: o fundador de Facebook; Larry Ellison, chefe executivo da empresa norte-americana de tecnologia Oracle; e Michael Bloomberg; um ex-prefeito de Nova Iorque e fundador e proprietário do serviço de notícias e informações financeiras Bloomberg.

Ano passado, a Oxfam havia declarado que os 62 bilionários mais ricos do mundo eram tão ricos quanto a metade da população global. Contudo, este número tem caiu para oito em 2017 porque nova informação mostra que a pobreza na China e na Índia está pior do que anteriormente pensado, piorando a situação dos 50% faixa de renda mais baixa e aumentando a distância entre ricos e pobres.

Com os membros de o Fórum sendo esperados para esta  segunda-feira na Suí ça, onde os hóspedes variarão do presidente chinês Xi Jinping, a estrela pop Shakira, o WEF – World Economic Forum lançou seu próprio relatório sobre crescimento e desenvolvimento inclusivo em que ele declara que o rendimento mediano tinha caído por um média de 2,4% entre 2008 e 2013 em 26 nações desenvolvidas.

Noruega, Luxemburgo, Suíça, Islândia e Dinamarca ocuparam o cinco primeiros lugares no índice de desenvolvimento econômico  inclusivo do WEF, com a Grã-Bretanha em vigésimo- primeiro e os Estados Unidos em vigésimo-terceiro. A instituição que organiza o evento em Davos disse que o aumento da desigualdade não é uma “lei de ferro do capitalismo”, mas uma matéria de fazer as escolhas políticas corretas.

O relatório do WEF encontrou que 51% dos 103 países para os quais os dados estavam disponíveis viram suas pontuações no índice de desenvolvimento inclusivo declinar nos período dos últimos cinco anos, “atestando para o legitimidade da preocupação pública e o desafio a ser enfrentado pelos formuladores de políticas quanto à dificuldade de traduzir crescimento econômico em amplo progresso social”.

Baseando sua pesquisa na lista de ricos da Forbes e em dados fornecidos pelo banco de investimento Credit Suisse, Oxfam disse que a vasta maioria das pessoas sitiadas na metade inferior da faixa de riqueza da população do mundo defrontaram com uma luta diária para sobreviver , com 70% deles vivendo em países de baixa-renda.

Faz quatro anos que o WEF primeiro identificou a desigualdade como uma ameaça à  estabilidade social, mas a distância entre ricos e pobres continuou a aumentar, acrescentou a Oxfam.

“Do Brexit ao sucesso da campanha presidencial de Donald Trump, o aumento preocupante do racismo e a desilusão geral com a política tradicional, existem crescentes sinais de que mais e mais pessoas em países ricos não estão mais desejando tolerar esse estado de coisas”, o relatório afirmou.

A instituição de caridade declarou que novas infrmações mostraram que pessoas pobres na China e na Índia eram proprietárias de menos ativos do que se havia pensado anteriormente, tornando a desigualdade de riqueza ainda mais pronunciada do que pensado um ano atrás, quando foi anunciado que 62 bilionários eram proprietários da mesma riqueza que a metade mais pobre da população global.

Mark Goldring, chefe executivo da Oxfam GB, declarou: “a fotografia da desigualdade deste ano está mais clara, mais exata e mais chocante do que antes. É além de grotesco que um grupo de homens que poderia facilmente encaixar um único carrinho de golfe tenha mais do que a metade mais pobre da humanidade.

“Enquanto uma em cada nove pessoas no planeta irá para a cama com fome hoje à noite, um pequeno punhado de bilionários tem tanta riqueza que eles precisariam de vários vidas para gastar tudo. O fato que uma elite super-rica seja capaz para prosperar às custas do resto nós em casa e no exterior mostra quão deformada nossa economia tornou-se.

Mark Littlewood, diretor geral do “think tank” Instituto de Assuntos Econômicos, declarou: “uma vez mais Oxfam publicou um relatório que demoniza o capitalismo, esquecendo-se convenientemente  do fato de que o mercados ajudou 100 milhão pessoas a sair da pobreza no ano passado”.

“O relatório da Oxfam acrescentou que desde 2015 o 1% mais rico é proprietário de mais riqueza do que o resto o planeta. Ele afirma que nos próximos 20 anos, 500 pessoas vão repassar 2.1 trilhões de dólares para seus herdeiros – um soma maior do que o PIB da Índia, um país com 1.3 bilhão de pessoas. Entre 1988 e 2011 os rendimentos dos 10% mais pobres aumentou por apenas 65 dólares, enquanto o rendimentos do 1% mais ricos cresceu 11.800 dólares- 182 vezes mais.

Oxfam exortou para uma mudança fundamental alterar para assegurar que economias trabalhem para todos, não apenas para “uma minoria privilegiada”.

5 motivos pelos quais Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos, por Michael Moore

Em julho passado compartilhei preocupado, no Facebook, esta análise do cineasta Michael Moore, publicada no Huffington’s Post.

O site brasilpost.com.br publicou uma tradução, que compartilho agora. Vão chover análises e tentativas de explicar. Para mim a análise de Michael Moore é suficiente.

Acompanhei as experiências do “warmonger” Reagan e da sua “voodooeconomics”. A formação do eixo EUA/Grã Bretanha (Reagan/Tatcher) e os estragos que fez no mundo. Já estou vacinado. Prepare o seu coração para o novo eixo GREAT AMERICA/GREAT BRITAIN e para os estragos que esta nova (requentada) razão espalhará no mundo.

Se um vizinho do tamanho dos Estados Unidos resolve proibir acesso ao play ground, expulsar todas as crianças e roubar todos os brinquedos, o mundo deixou de ser um lugar para crianças e inocentes. Prepare o seu coração ….

Paulo Martins

5 motivos pelos quais Donald Trump será o próximo presidente dos Estados Unidos
Publicado: 27/07/2016 11:23 BRT Atualizado: 27/07/2016 11:34 BRT

Amigo:

Sinto muito por ser o portador de más notícias, mas fui direto com vocês no ano passado quando disse que Donald Trump seria o candidato republicano à Presidência. E agora trago notícias ainda mais terríveis e deprimentes: Donald J. Trump vai ganhar a eleição de novembro.

Esse palhaço desprezível, ignorante e perigoso, esse sociopata será o próximo presidente dos Estados Unidos. Presidente Trump. Pode começar a treinar, porque você vai dizer essas palavras pelos próximos quatro anos: “Presidente Trump”. Nunca na minha vida quis estar tão errado como agora.

Vejo o que você está fazendo agora. Está sacudindo a cabeça loucamente – “Não, Mike, isso não vai acontecer!”. Infelizmente, você está vivendo numa bolha anexa a uma câmara de eco, onde você e seus amigos vivem convencidos de que o povo americano não vai eleger um idiota como presidente.

Você alterna entre o choque e a risada por causa dos últimos comentários malucos que ele fez, ou então por causa do narcisismo vergonhoso de Trump em relação a tudo, afinal de contas tudo tem a ver com ele. E aí você ouve Hillary e enxerga a primeira mulher presidente, respeitada pelo mundo, inteligente, preocupada com as crianças, alguém que vai continuar o legado de Obama porque isso é obviamente o que o povo americano quer! Sim! Outros quatro anos disso!

Você tem de sair dessa bolha imediatamente. Precisa parar de viver em negação e encarar a verdade que sabe que é muito, muito real. Tentar se acalmar com fatos – “77% do eleitorado é composto por mulheres, negros, jovens adultos de menos de 35 anos; Trump não tem como ganhar a maioria dos votos de nenhum desses grupos!” – ou com a lógica – “as pessoas não vão votar num bufão, ou contra seus próprios interesses!” – é a maneira que seu cérebro encontra para te proteger do trauma. Como quando você ouve um estampido na rua e pensa “foi um pneu que estourou” ou “quem está soltando fogos?”, porque não quer pensar que acabou de ouvir alguém sendo baleado. É a mesma razão pela qual todas as primeiras notícias e relatos de testemunhas sobre o 11 de setembro diziam que “um avião pequeno se chocou acidentalmente contra o World Trade Center”.

Queremos – precisamos – esperar pelo melhor porque, honestamente, a vida já é uma merda, e é difícil sobreviver mês a mês. Não temos como aguentar mais notícias ruins. Então nosso estado mental entra no automático quando alguma coisa assustadora está realmente acontecendo. As primeiras pessoas atingidas pelo caminhão em Nice passaram seus últimos momentos na Terra acenando para o motorista; elas acreditavam que ele tinha simplesmente perdido o controle e subido na calçada. “Cuidado!”, elas gritaram. “Tem gente na calçada!”

Bem, pessoal, não se trata de um acidente. Está acontecendo. E, se você acredita que Hillary Clinton vai derrotar Trump com fatos e inteligência e lógica, obviamente passou batido pelo último ano e pelas primárias, em que 16 candidatos republicanos tentaram de tudo, mas nada foi capaz de parar essa força irresistível. Hoje, do jeito que as coisas estão, acho que vai acontecer – e, para lidar com isso, primeiro preciso que você aceite a realidade e depois talvez, só talvez, a gente encontre uma saída para essa encrenca.

Não me entenda mal. Tenho grandes esperanças em relação ao meu país. As coisas estão melhores. A esquerda ganhou a guerra cultural. Gays e lésbicas podem se casar. A maioria dos americanos têm uma posição liberal em relação a quase todas as questões: salários iguais para as mulheres; aborto legalizado; leis mais duras em defesa do meio ambiente; mais controle de armas; legalização da maconha. Uma enorme mudança aconteceu – basta perguntar ao socialista que ganhou as primárias em 22 Estados. E não tenho dúvidas de que, se as pessoas pudessem votar do sofá de casa pelo Xbox ou Playstation, Hillary ganharia de lavada.

Mas as coisas não funcionam assim nos Estados Unidos. As pessoas têm de sair de casa e pegar fila para votar. E, se moram em bairros pobres, negros ou hispânicos, não só enfrentam filas maiores como têm de superar todo tipo de obstáculo para votar. Então, na maioria das eleições é difícil conseguir que pelo menos metade dos eleitores compareça às urnas.

E aí está o problema de novembro — quem vai ter os eleitores mais motivados e mais inspirados? Você sabe a resposta. Quem é o candidato com os apoiadores mais ferozes? Cujos fãs vão estar na rua das 5h até a hora do fechamento da última urna, garantindo que todo Tom, Dick e Harry (e Bob e Joe e Billy Joe e Billy Bob Joe) tenham votado? Isso mesmo. Este é o perigo que estamos correndo. E não se iluda. Não importa quantos anúncios de TV Hillary fizer, quão melhor ela se portar nos debates, quantos votos os libertários roubarem de Trump — nada disso vai ser capaz de detê-lo.

Você precisa parar de viver em negação e encarar a verdade que sabe que é muito, muito real. Eis as 5 razões pelas quais Trump vai ganhar:

  1. A matemática do Meio-Oeste, ou bem-vindo ao Brexit do Cinturão Industrial. Acredito que Trump vá concentrar muito da sua atenção em quatro Estados tradicionalmente democratas do cinturão industrial dos Grandes Lagos — Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. Estes quatro Estados elegeram governadores republicano desde 2010 (só a Pensilvânia finalmente elegeu um democrata). Nas primárias de Michigan, em março, mais eleitores votaram nos republicanos (1,32 milhão) que nos democratas (1,19 milhão). Trump está na frente de Hillary nas últimas pesquisas na Pensilvânia e empatado com ela em Ohio. Empatado? Como a disputa pode estar tão apertada depois de tudo o que Trump tem dito? Bem, talvez porque ele tenha dito (corretamente) que o apoio de Clinton ao Nafta (acordo de livre comércio da América do Norte) ajudou a destruir os Estados industriais do Meio-Oeste.

Trump vai bater em Clinton neste tema, e também no tema da Parceria Trans-Pacífica (TPP) e outras políticas comerciais que ferraram as populações desses quatro Estados. Quando Trump falou à sombra de uma fábrica da Ford durante as primárias de Michigan, ele ameaçou a empresa: se eles realmente fossem adiante com o plano de fechar aquela fábrica e mandá-la para o México, ele imporia uma tarifa de 35% sobre qualquer carro produzido no México e exportado de volta para os Estados Unidos. Foi música para os ouvidos dos trabalhadores de Michigan. Quando ele ameaçou a Apple da mesma maneira, dizendo que vai forçar a empresa a parar de produzir seus iPhones na China e trazer as fábricas para solo americano, os corações se derreteram, e Trump saiu de cena com uma vitória que deveria ser de John Kasich, governador do vizinho Estado de Ohio.

De Green Bay a Pittsburgh, isso, meus amigos, é o meio da Inglaterra: quebrado, deprimido, lutando. As chaminés são a carcaça do que costumávamos chamar de classe média. Trabalhadores nervosos e amargurados, que ouviram mentiras de Ronald Reagan e foram abandonados pelos democratas. Estes últimos ainda tentam falar as coisas certas, mas na verdade estão mais interessados em ouvir os lobistas do Goldman Sachs, que na saída vão deixar um cheque de gordas contribuições.

O que aconteceu no Reino Unido com a Brexit vai acontecer aqui. Elmer Gantry é o nosso Boris Johnson e diz a merda que for necessária para convencer a massa de que essa é a sua chance! Vamos mostrar para TODOS eles, todos os que destruíram o Sonho Americano! E agora o Forasteiro, Donald Trump, chegou para dar um jeito em tudo! Você não precisa concordar com ele! Você nem precisa gostar dele! Ele é seu coquetel molotov pessoal para ser arremessado na cara dos filhos da mãe que fizeram isso com você! DÊ O RECADO! TRUMP É SEU MENSAGEIRO!

E aqui entra a matemática. Em 2012, Mitt Romney perdeu por 64 votos no colégio eleitoral. Some os votos de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. A conta dá 64. Tudo o que Trump precisa para vencer é levar os Estados tradicionalmente republicanos de Idaho à Geórgia (Estados que jamais votarão em Hillary Clinton) e esses quatro do cinturão industrial. Ele não precisa do Colorado ou da Virgínia. Só de Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin. E isso será suficiente. É isso o que vai acontecer em novembro.

  1. O último bastião do homem branco e nervoso. Nosso domínio masculino de 240 anos sobre os Estados Unidos está chegando ao fim. Uma mulher está prestes a assumir o poder! Como isso aconteceu?! Diante da nosso nariz! Havia sinais, mas os ignoramos. Nixon, o traidor do gênero, nos impôs a regra que disse que as meninas da escola têm de ter chances igual de jogar esportes. Depois deixaram que elas pilotassem aviões de carreira. Quando mal percebemos, Beyoncé invadiu o campo no Super Bowl deste ano (nosso jogo!) com um exército de Mulheres Negras, punhos erguidos, declarando que nossa dominação estava terminada. Meu Deus!

Este é apenas um olhar de relance no que se passa na cabeça do Homem Branco Ameaçado. A sensação é que o poder se lhes escapou por entre as mãos, que sua maneira de fazer as coisas ficou antiquada. Esse monstro, a “feminazi”, que, como diz Trump, “sangra pelos olhos ou por onde quer que sangre”, nos conquistou — e agora, depois de aturar oito anos de um negro nos dizendo o que fazer, temos de ficar quietos e aguentar oito anos ouvindo ordens de uma mulher? Depois disso serão oito anos dos gays na Casa Branca! E aí os transgêneros! Você já entendeu onde isso vai parar. Os animais vão ter direitos humanos e uma porra de um hamster vai governar o país. Isso tem de acabar!

  1. O problema Hillary. Podemos falar sinceramente, só entre nós? E, antes disso, permita-me dizer que gosto de Hillary — muito — e acho que ela tem uma reputação que não merece. Mas ela apoiou a guerra no Iraque, e depois disso prometi que jamais votaria nela de novo. Mantive essa promessa até hoje. Para evitar que um protofascista se torne nosso comandante-chefe, vou quebrar essa promessa. Infelizmente acredito que Hillary vá dar um jeito de nos enfiar em algum tipo de ação militar. Ela está à direita de Obama. Mas o dedo do psicopata Trump vai estar No Botão, e isso é o suficiente. Voto em Hillary.

Vamos admitir: nosso maior problema aqui não é Trump — é Hillary. Ela é extremamente impopular — quase 70% dos eleitores a consideram pouco confiável e desonesta. Ela representa a política de antigamente: faz de tudo para ser eleita. É por isso que ela é contra o casamento gay num momento e no outro está celebrando o matrimônio de dois homens. As mulheres jovens são suas maiores detratoras, o que deve magoar, considerando os sacrifícios e batalhas que Hillary e outras mulheres da sua geração tiveram de enfrentar para que a geração atual não tivesse de ouvir as Barbara Bushes do mundo dizendo que elas têm de ficar quietas e bater um bolo.

Mas a garotada também não gosta dela, e não passa um dia sem que um millennial me diga que não vai votar em Hillary. Nenhum democrata, e seguramente nenhum independente, vai acordar em 8 de novembro para votar em Hillary com a mesma empolgação que votou em Obama ou em Bernie Sanders. Não vejo o mesmo entusiasmo. Como essa eleição vai ser decidida por um único fator — quem vai conseguir arrastar mais gente pra fora de casa e para as seções eleitorais –, Trump é o favorito.

  1. O eleitor deprimido de Sanders. Pare de reclamar que os apoiadores de Bernie não vão votar em Clinton — eles vão votar! As pesquisas já mostram que um número maior de eleitores de Sanders vai votar em Hillary este ano do que o de eleitores de Hillary que votaram em Obama em 2008. Não é esse o problema. O alarme de incêndio que deveria estar soando é que, embora o apoiador médio de Sanders vá se arrastar até as urnas para votar em Hillary, ele vai ser o chamado “eleitor deprimido” — ou seja, não vai trazer consigo outras cinco pessoas. Ele não vai trabalhar dez horas como voluntário no último mês da campanha.

Ele nunca vai se empolgar falando de Hillary. O eleitor deprimido. Porque, quando você é jovem, não tem tolerância nenhuma para enganadores ou embusteiros. Voltar à era Clinton/Bush para eles é como ter de pagar para ouvir música ou usar o MySpace ou andar por aí com um celular gigante. Eles não vão votar em Trump; alguns vão votar em candidatos independentes, mas muitos vão ficar em casa. Hillary Clinton vai ter de fazer alguma coisa para que eles tenham uma razão para apoiá-la — e escolher um velho branco sem sal como vice não é o tipo de decisão arriscada que diz para os millennials que seu voto é importante. Duas mulheres na chapa — isso era uma ideia boa. Mas aí Hillary ficou com medo e decidiu optar pelo caminho mais seguro. É só mais um exemplo de como ela está matando o voto jovem.

  1. O efeito Jesse Ventura. Finalmente, não desconte a capacidade do eleitorado de ser brincalhão nem subestime quantos milhões de pessoas se consideram anarquistas enrustidos. A cabine de votação é um dos últimos lugares remanescentes em que não há câmeras de segurança, escutas, mulheres, maridos, crianças, chefes, polícia. Não tem nem sequer limite de tempo. Você pode demorar o tempo que for para votar, e ninguém pode fazer nada. Você pode votar no partido, ou pode escrever Mickey Mouse e Pato Donald. Não há regras, E, por isso, a raiva que muitos sentem pelo sistema político falido vai se traduzir em votos em Trump. Não porque as pessoas concordem necessariamente com ele, não porque gostem de sua intolerância ou de seu ego, mas só porque podem.

Só porque um voto em Trump significa chutar o pau da barraca. Assim como você se pergunta por um instante como seria se jogar das cataratas do Niágara, muita gente vai gostar de estar no papel de titereiro, votando em Trump só para ver o que acontece. Lembra nos anos 1990, quando a população de Minnesota elegeu um lutador de luta livre para governador? Elas não o fizeram porque são burras ou porque Jesse Ventura é um estadista ou intelectual político. Elas o fizeram porque podiam. Minnesota é um dos Estados mais inteligentes do país. Também está cheio de gente com um senso de humor distorcido — e votar em Ventura foi sua versão de uma pegadinha no sistema político. Vai acontecer o mesmo com Trump.

Voltando para o hotel depois de participar de um programa da HBO sobre a convenção republicana, um homem me parou. “Mike”, ele disse, “temos de votar em Trump. TEMOS que dar uma chacoalhada as coisas”. Foi isso. Era o suficiente para ele. “Dar uma chacoalhada nas coisas”. O presidente Trump certamente faria isso, e uma boa parcela do eleitorado gostaria de sentar na plateia e assistir o show.

(Na semana que vem vou postar minhas ideias sobre os calcanhares de aquiles de Trump e como acho que ele pode ser derrotado.)