Destaque

Brasil: seguindo a matriz

Não tem a mínima chance de dar certo com Guedes e Bolsonaro, se o certo for um futuro para as pessoas no Brasil com acesso à Saúde, Educação, emprego digno, paz social, equilíbrio econômico e meio ambiente limpo, ou seja, vida digna para todos, sem distinção de cor, sexo e classe social.

Eles estão implementando uma política econômica contracionista, austericida, que desvia recursos da maioria da população e os transfere para o Estado e para um grupo pequeno de empresários oligopolistas.

Na ditadura, que começou em 1964 e desabou podre em 1985, cheia de cupins, gafanhotos, tortura, assassinatos e corrupção, um daqueles generais que eram nomeados presidentes pelos seus amigos de farda declarou, perplexo, que: “a Economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Esse general nunca aprendeu uma regra básica, simples: se o povo vai mal, o Estado e o mercado (que é o que eles chamam de Economia) não podem ir bem. Guedes e Bolsonaro repetem exatamente o mesmo erro dos generais da ditadura: estão alheios à realidade que os cerca. Fingem não ouvir os apelos e insistem em ideias ultrapassadas que levaram outros países ao caos social e econômico.

Alguns generais ainda hoje, em pleno ano de 2020, demonstram um descolamento da realidade e dos fatos que assustam qualquer cidadão minimamente preocupado com o futuro do Brasil. Um desconhecia o que era o SUS, mesmo tendo sido nomeado ministro da Saúde e outro, que exerce a função de vice-presidente, elogiou o mais produtivo e sanguinário dos torturadores da ditadura de 1964 no Brasil. Espero. Que m

Vai demorar um pouco para as pessoas sentirem na pele que suas vidas prioraram.

Quando acordarem, corremos o risco de parte desse povo, contaminada pelas notícias falsas e tomada pelo ódio, se torne ainda mais radical e comece a assassinar, à luz do dia, aqueles que ela considera seus inimigos, pois está armada e organizada em falanges e milícias.

Nos Estados Unidos foram descobertos pelo FBI e presos treze integrantes de uma milícia paramilitar neonazista que planejava sequestrar a governadora democrata de Michigan Gretchen Whitmer e outras autoridades do estado antes das eleições presidenciais de novembro próximo. O plano envolvia, ainda, um “julgamento por traição” contra a governadora democrata, nos moldes do grupo Estado Islâmico.

Eles não estão brincando. Nós não podemos fingir não ver.

Fontes da notícia: G1, nbcnews, CNN, BBC.

Destaque

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM
Adhemar Bahadian
Informo o passamento do século XX, os cem anos mais amargos da modernidade. Como ainda está estrebuchando, seria mais certo dizer cento e vinte anos, porque até hoje chegam as pragas que periodicamente o infestaram.
Em 1914, nossos avós viveram a primeira guerra mundial. Em 1944, nossos pais morreram nas terras da Europa. Em 1964, sobrevivemos a uma ditadura militar. A partir dos anos 70, nos intoxicamos com o alucinógeno do neoliberalismo e em 1991 nos embebedamos em homenagem ao fim da história pela fantasia de uma globalidade dividida por profunda desigualdade social.
Agora, quando a história parece repetir-se e desaba sobre nós uma variante ainda mais malévola que a gripe espanhola, carro fúnebre do morticínio da primeira guerra, teremos a oportunidade de nos recriarmos? A história não se repete, os erros humanos é que se multiplicam, quase sempre em torno de nossa incapacidade de construirmos um mundo melhor.
Este coronavirus, queiramos ou não, nos transformará. Não há economia que dele sairá imune. Não há ideologia política que depois dele nos fará reconstruir um mundo carcomido por falácias e desfigurado por uma profunda injustiça entre países e, dentro deles, entre irmãos de sangue. Só o mais obtuso dos seres deixará de perceber que esta virulência do coronavirus nada mais é do que a metáfora de nossa vida dita humana, em que nos entre-devoramos tangidos pelas piores pulsões de nossos instintos e que, por isto mesmo, chamamos pulsão de morte.
Se hoje nos assusta o ataque sub-reptício de um vírus, nos deveriam apavorar as barbaridades dos poderosos deste mundo e suas máquinas de guerra ou de empobrecimento.
Tanto na primeira guerra quanto na segunda tivemos estadistas que nos propuseram mundo mais solidário. Mas tanto as ideias de Wilson e a Liga das Nações quanto o projeto de Roosevelt e as Nações Unidas já nasceram, a primeira, debaixo da insensatez da Paz de Versailles- berço sangrento de Hitler- e a segunda no rastro de fogo e horror de Nagasaqui e Hiroshima.
Terminada a guerra e desmantelados os sistemas coloniais, iniciamos uma corrida armamentista que abarrotou de ouro cofres públicos e privados e o imperialismo econômico substituiu com honras o pacto colonial.
Tivemos o desplante de culpar os escravos por sua condição abjeta. Fomos intolerantes a cor de pele, a religiões que não adoravam os nossos deuses e bestialmente erigimos altares em que se exibem os ricos e se ajoelham os pobres. Criamos a sociedade da intolerância e demos a ela o simpático disfarce de sociedade da abundância. Inscrevemos em moeda falsária, a sacrílega admoestação de que “in God we trust”.
A partir dos anos 60, abatemos a tiros líderes e mergulhamos em guerras que muito antes de nos vencerem talharam em nossos cânticos “de um mundo livre” a marca de ferro em brasa da hipocrisia.
E em 2008 desnudamos nossas mais deslavadas mentiras e apropriamos hipotecas de gente honrada em nome da cobiça e do canibalismo financeiro. Enterramos poupanças em areia movediça e transformamos sonhos em ilusões amargas antes de perdidas. E de tudo fizemos um caldo de cultura cozinhado no ódio e na mais absoluta indiferença à sorte de milhões de irmãos espalhados pelos quatro continentes e, pelos quatro, rejeitados ou expulsos. Jogamos literalmente milhares de irmãos aos ventos e às marés.
Fizemos da cena política um picadeiro. Elegemos, por ignorância ou míseras ideologias, estadistas de papelão, mágicos de oz das terras do faz de conta e nos alegramos com os coliseus modernos em que a violência se confunde com o entretenimento e desta espúria combinação surgem os grandes líderes que nos apontam os caminhos das guerras, da cobiça e do desrespeito.
Nossas cidades se tornaram armadilhas ardilosas e imensos covis. Andamos por elas como se atravessássemos zonas desmilitarizadas ou campos minados em que a cada movimento suspeito pode surgir o aço da lâmina ou o fogo da bala. Perdida ou não.
Voltamos às cavernas e nos olhamos uns aos outros com o olhar da suspeita e da desconfiança. Passiva e bovinamente acatamos os conselhos desavisados de nossos líderes a nos sugerirem comprar armas de grosso calibre e andarmos armados de destemida arrogância.
Somos vítimas de uma combinação canhestra em que a ignorância se associa à ideologia e aprofunda a pobreza e o desnível social, sempre a nos enganar com um canto de sereia marcial.
Nesta hora em que nosso eleito desrespeita cotidianamente a vida e o futuro de nosso povo, agarrado como craca nos cascos de um navio a pique, mais do que revolta, surge nos homens de bem uma profunda vergonha de termos compactuado com a mentira e a ideologia.
Hoje, parte da sociedade brasileira é vítima de sua própria cegueira. De mãos dadas com seu carrasco-redentor caminha impotente para sua hora final. Docilmente, apesar de alertada pelo próprio carrasco de que sua salvação depende apenas de sua determinação em salvar-se.
Talvez nossa efetiva sobrevivência comece no dia em que levarmos a sério esta frase que lhe escapou das pequenas e ainda não cerradas frestas de sanidade.
Tomemos o destino em nossas mãos. E enfrentemos o século XXI com a humildade que ele nos impõe e com a coragem que a vida nos exige.

Destaque

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu.
12/03/202
Os economistas têm suficientes interesses específicos para contribuir decisivamente para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Apartados do mundo econômico e social efetivo, participam e colaboram para o desmantelamento das instituições e dos coletivos, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror

Por Pierre Bourdieu*

Seria o mundo econômico, verdadeiramente, tal como insiste o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, dispondo implacavelmente a lógica de suas consequências previsíveis e prestes a reprimir todos os seus desvios com sanções que inflige, seja de maneira automática, seja – com maior exceção – pelo intermédio de seus braços armados, o FMI ou a OCDE, e das políticas que eles impõem: diminuição do custo da força de trabalho, redução das despesas públicas e flexibilização do trabalho? E se, na verdade, não se tratasse apenas da colocação em prática de uma utopia, o neoliberalismo, assim convertido em “programa político”, mas uma utopia que, com a ajuda de sua teoria econômica, passa a pensar a si mesma como a descrição científica do real?

Esta teoria tutelar é uma obra de pura ficção matemática, fundada, desde o princípio, numa formidável abstração: essa que, em nome de uma concepção tão estreita como estrita da racionalidade identificada à racionalidade individual, consiste em pôr entre parêntesis as condições econômicas e sociais das disposições racionais e das estruturas econômicas e sociais que são a condição de seu exercício.

Para compreender o tamanho desta omissão, basta pensar no sistema de ensino, que nunca é considerado enquanto tal num momento em que possui um papel determinante na produção de bens e serviços, assim como na produção dos produtores. Deste pecado original, inscrito no mito walrasiano[i] da “teoria pura”, brotam todas as falhas e deficiências da disciplina econômica, e a fatal obstinação com a qual ela se apega à oposição arbitrária, que ela mesma faz existir, por sua própria existência, entre a lógica propriamente econômica, fundada na concorrência e portadora da eficiência, e a lógica social, submetida à regra da igualdade.

Dito isso, essa “teoria” originalmente dessocializada e deshistoricizada tem, hoje mais do que nunca, os meios de se fazer verdadeira, empiricamente verificável. Na verdade, o discurso neoliberal não é um discurso como os outros. À maneira do discurso psiquiátrico nos asilos, segundo Erving Goffman[ii], trata-se de um “discurso forte”, que só é tão forte e difícil de combater justamente porque tem a seu favor todas as forças de um mundo de relações de força que ele mesmo contribui para produzir enquanto tal, especialmente ao orientar as decisões econômicas daqueles que dominam as relações econômicas e, assim, somar sua força própria, propriamente simbólica, a estas relações de força. Em nome deste programa científico de conhecimento, convertido em programa político de ação, produz-se um imenso “trabalho político”(denegado, posto que, em aparência, é puramente negativo) que visa a criar as condições de realização e de funcionamento da “teoria”; um programa de destruição metódica dos coletivos.

O movimento, possibilitado pela política de desregulamentação financeira, em direção à utopia neoliberal de um mercado puro e perfeito, realiza-se através da ação transformadora e, é preciso dizer, destrutiva de todas as medidas políticas (das quais a mais recente é o Acordo Multilateral sobre o Investimento, destinado a proteger as empresas estrangeiras e seus investidores contra os Estados Nacionais), visando pôr em questão todas as estruturas coletivas capazes de se antepor à lógica do puro mercado: nação, cuja margem de manobra não para de diminuir; grupos de trabalho, por exemplo, pela individualização dos assalariados e das carreiras em função das competências individuais e a atomização dos trabalhadores que resulta disso, sindicatos, associações, cooperativas; até mesmo a família, que, através da constituição dos mercados por agrupamentos etários, perde uma parcela de seu controle sobre o consumo.

O programa neoliberal, que obtém sua força social da força político-econômica daqueles cujos interesses exprime – acionistas, operadores financeiros, industriais, homens políticos conservadores ou socialdemocratas convertidos às reconfortantes renúncias do laisser-faire, altos funcionários das finanças (ainda mais árduos na imposição de uma política preconizando seu próprio declínio pois, diferentemente dos grandes empresários, não correm qualquer risco de ter de pagar pelas consequências) –, tende globalmente a favorecer a cisão entre a economia e as realidades sociais, e assim a construir, na realidade, um sistema econômico conformado à descrição teórica, isto é, uma espécie de máquina lógica que se apresenta como uma cadeia de restrições conduzindo os agentes econômicos.

A globalização dos mercados financeiros, acompanhada pelo progresso das técnicas de informação, garante uma mobilidade de capital sem precedentes e oferece aos investidores, preocupados com a rentabilidade de curto prazo de seus investimentos, a possibilidade de comparar de maneira permanente a rentabilidade das maiores empresas e de punir, por consequência, os fracassos relativos. As próprias empresas, colocadas sob tal ameaça permanente, devem se ajustar de maneira cada vez mais rápida às exigências dos mercados; isso sob a pena, como se costuma dizer, de “perder a confiança dos mercados”, e, de uma vez só, o apoio dos acionistas que, preocupados com obter uma rentabilidade de curto prazo, são cada vez mais capazes de impor sua vontade aos managers, de lhes fixar normas, por meio de diretrizes financeiras, e de orientar suas políticas em matéria de contratação, de emprego e de salário.

Assim se instauram o reino absoluto da flexibilidade, com os recrutamentos sob contratos de duração determinada ou os trabalhos temporários e os “planos sociais” reiterados, e, no interior mesmo da empresa, a concorrência entre filiais autônomas, entre equipes coagidas à polivalência e, enfim, entre indivíduos, por meio da “individualização” da relação salarial: fixação de objetivos individuais; entrevistas individuais de avaliação, avaliação permanente; altas individualizadas de salários ou concessão de bônus em função da competência e do mérito individuais; carreiras individualizadas; estratégias de “responsabilização” tendendo a assegurar a autoexploração de certos empresários que, simples assalariados sob forte dependência hierárquica, são ao mesmo tempo tidos como responsáveis por suas vendas, seus produtos, sua agência, sua loja, etc., sob a forma de “independentes”; exigência de “autocontrole” que estende a “implicação” dos assalariados, segundo as técnicas do “gerenciamento participativo”, para bem além do trabalho dos executivos. Estas são algumas das técnicas de assujeitamento racional que, ao impor o sobreinvestimento no trabalho, e não apenas naquele dos cargos de responsabilidade, e o trabalho na urgência, acabam por enfraquecer ou abolir as referências e as solidariedades coletivas[iii].

A instituição prática de um mundo darwiniano da luta de todos contra todos, em todos os níveis da hierarquia, que encontra a adesão ao trabalho e à empresa na insegurança, no sofrimento e no estresse, não poderia, sem dúvidas, ser completamente bem-sucedida se ela não encontrasse a cumplicidade das disposições precarizadas produzidas pela insegurança e pela existência, em todos os níveis da hierarquia, e mesmo nos níveis mais elevados, entre os empresários principalmente, de um exército de reserva de mão de obra docilizada pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego. O fundamento último de toda esta ordem econômica posta sob o signo da liberdade é, com efeito, a violência estrutural do desemprego, da precaridade e da ameaça de demissão que ela implica: a condição do funcionamento “harmonioso” do modelo microeconômico individualista é um fenômeno de massa, a existência do exército de reserva de desempregados.

Esta violência estrutural influi também no que chamamos de contrato de trabalho (reconhecidamente racionalizado e desrealizado na “teoria dos contratos”). O discurso empresarial nunca falou tanto de confiança, de cooperação, de lealdade e de cultura empresarial quanto em uma época em que se obtém a adesão a cada instante fazendo desaparecer todas as garantias temporais (três quartos dos contratos são de duração determinada, a parcela dos empregos precários não para de crescer, o licenciamento individual tende a não ser mais submetido a qualquer restrição).

Vemos, assim, como a utopia neoliberal tende a se incarnar na realidade de uma espécie de máquina infernal, cuja necessidade se impõe até mesmo aos dominantes. Como o marxismo de outros tempos, com o qual, neste sentido, ela tem vários pontos comuns, essa utopia suscita uma crença formidável, a free trade faith (a fé no livre comércio), não apenas naqueles que dela tiram suas justificações de existência, como os altos funcionários e os políticos, que sacralizam o poder dos mercados em nome da eficiência econômica, que exigem o levante das barreiras administrativas ou políticas capazes de incomodar os detentores de capital na procura puramente individual pela maximização do lucro individual, instituída em um modelo de racionalidade, que querem os bancos centrais independentes, que pregam a subordinação dos Estados nacionais às exigências da liberdade econômica pelos mestres da economia, com a supressão de todas as regulamentações em todos os mercados, a começar pelo mercado de trabalho, a interdição de déficits e de inflação, a privatização generalizada dos serviços públicos, a redução das despesas públicas e sociais.

Sem necessariamente compartilhar os interesses econômicos e sociais dos verdadeiros crentes, os economistas têm suficientes interesses específicos no campo da ciência econômica para contribuir decisivamente, quaisquer que sejam seus estados de espírito a propósito dos efeitos econômicos e sociais da utopia que vestem de razão matemática, para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Separados por toda sua existência e, sobretudo, por toda sua formação intelectual, na maioria das vezes puramente abstrata, livresca e teoricista, do mundo econômico e social tal como ele é, eles são particularmente propensos a confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas.

Confiantes nos modelos que não têm quase nunca a chance de submeter à prova da verificação experimental, tidos a olhar por cima as conquistas das outras ciências históricas, nas quais eles não reconhecem a pureza e a transparência cristalina dos seus jogos matemáticos, e das quais eles são frequentemente incapazes de compreender a verdadeira necessidade e a profunda complexidade, eles participam e colaboram para uma formidável mudança econômica e social que, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror (eles podem contribuir com o Partido socialista e dar sábios conselhos aos seus representantes nas instâncias de poder), não pode desagradá-los pois, sob o risco de algumas falhas, imputáveis particularmente ao que eles às vezes chamam de “bolhas especulativas”, ela tende a dar realidade à utopia ultraconsequente (como certas formas de loucura) à qual eles consagram suas vidas.

O mundo está aí, porém, com os efeitos imediatamente visíveis da colocação em prática da grande utopia neoliberal: não apenas a miséria de uma fração cada vez maior das sociedades mais avançadas economicamente, o crescimento extraordinário das diferenças entre os rendimentos, a desaparição progressiva dos universos autônomos de produção cultural, cinema, edição etc., pela imposição intrusiva de valores comerciais, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias coletivas capazes de se opor aos efeitos da máquina infernal, das quais em primeiro lugar está o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, por toda parte, nas altas esferas da economia e do Estado, ou no seio das empresas, desta sorte de darwinismo moral que, com a cultura do winner, feita para os matemáticos superiores e para o salto a elástico, instaura como norma de todas as práticas a luta de todos contra todos e o cinismo.

Podemos esperar que a massa extraordinária de sofrimento que um tal regime político-econômico produz esteja, um dia, na base de um movimento capaz de interromper esta corrida em direção ao abismo? Na verdade, estamos aqui face a um extraordinário paradoxo: enquanto os obstáculos encontrados no caminho da realização da “nova ordem” – esta do indivíduo solitário, mas livre – são hoje tidos como imputáveis à rigidez e arcaísmos, e toda intervenção direta e consciente, ao menos desde que vinda do Estado, e por qualquer parcialidade que o seja, é de cara descreditada, portanto intimada a desaparecer em prol de um mecanismo puro e autônomo, o mercado (sobre o qual esquecemos que é também o lugar de exercício dos interesses); na realidade, é a permanência ou a sobrevivência das instituições e dos agentes da antiga ordem em vias de desmantelamento, e todo o trabalho de todas as categorias de trabalhadores sociais, e também todas as solidariedades sociais, familiares ou outras, que fazem com que a ordem social não se afunde no caos, apesar do volume crescente de população precarizada.

A passagem ao “liberalismo” se dá de maneira insensível, logo imperceptível, como a deriva dos continentes, escondendo assim seus efeitos, os mais terríveis no longo prazo. Efeitos que se encontram também dissimulados, paradoxalmente, pelas resistências que ela suscita, desde já, da parte daqueles que defendem a antiga ordem extraindo dos recursos que ela encobria, nas solidariedades antigas, nas reservas de capital social que protegem toda uma parte da ordem social presente da queda na anomia (capital que, se não é renovado, reproduz, é destinado ao enfraquecimento, mas cujo esgotamento não será para amanhã).

Mas estas mesmas forças de “conservação”, que são facilmente tratadas como forças conservadoras, são também, em outra relação, forças de resistência à instauração da nova ordem, que podem tornar-se forças subversivas. E se podemos, então, conservar qualquer esperança razoável, o que ainda existe, nas instituições estatais e também nas disposições dos agentes (especialmente os mais ligados a estas instituições, como a pequena nobreza de Estado), de tais forças que, sob a aparência de simplesmente defender, como criticaremos logo em seguida, uma ordem desaparecida e os “privilégios” correspondentes, devem, de fato, para resistir à prova, trabalhar na invenção e na construção de uma ordem social que não teria como lei única a procura do interesse egoísta e a paixão individual pelo lucro, e que daria lugar a coletividades orientadas à busca racional pelos fins coletivamente elaborados e aprovados.

Dentre os coletivos, associações, sindicatos, partidos, como não dar um lugar especial ao Estado, Estado nacional ou, melhor ainda, supranacional, isto é, europeu (etapa na direção de um Estado mundial), capaz de controlar e de impor eficazmente os lucros realizados nos mercados financeiros e, sobretudo, de combater a ação destrutiva que estes últimos exercem sobre o mercado de trabalho, organizando, com a ajuda dos sindicatos, a elaboração e a defesa do interesse público que, queira-se ou não, jamais sairá, mesmo ao custo de algum erro de escrita matemática, da visão de contador (em outro temos, diríamos de lojista) que a nova crença apresenta como a forma suprema da realização humana.

*Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo e sociólogo, foi professor na École de Sociologie du Collège de France

Tradução: Daniel Souza Pavan

Notas

[i] NDLR: em referência a Auguste Walras (1800-1866), economista francês, autor de De la nature de la richesse et de l’origine de la valeur (1848); ele foi um dos primeiros a tentar aplicar a matemática ao estudo econômico

[ii] Erving Goffman, Asiles. Etudes sur la condition sociale des malades mentaux, Editions de Minuit, Paris, 1968.

[iii] Podemos nos remeter, sobre tudo isso, aos dois números da Actes de la recherche em sciences sociales consagrados às “Nouvelles formes de domination dans le travail” (1 e 2), nº114, setembro de 1996 e nº115, dezembro de 1996, e, especialmente à introdução de Gabrielle Balazas e Michel Pialoux, “Crise du travail et crise du politique”, nº114, p.3-4.

TANTERIOR
Fellini, 100 anos

Morte, de Cândido Portinari

Destaque

Na ditadura iniciada com o golpe de 1964 o jornal O Pasquim esteve durante um longo período submetido a censura prévia. O objetivo era amordaçá-lo. Ao final do regime ditatorial, foi retirado da censura prévia. A expectativa dos órgãos de repressão era que o jornal fizesse uma espécie de auto-censura. O Pasquim passou a trazer um selo informando que o jornal estava, naquele momento, sem censura prévia. Servia como um sinal de que, se o selo desaparecesse, seria porque o jornal voltou a ser previamente censurado.

Estou criando, hoje, um post para indicar que a democracia no Brasil morreu em 31/08/2016, quando o Senado Federal resolveu golpeá-la colocando um presidente ilegítimo no lugar da presidente eleita. Trata-se do quadro Morte, de Cândido Portinari, grande artista nacional. Pretendo deixar este post fixado na página principal deste blog, até que tenhamos eleições diretas legítimas e seus resultados sejam respeitados.

Obrigado, Fernando Almeida, pela foto e pela ideia original.

Paulo Martins

image

Idoso da Havan e o lixão ideológico

Leio, em rede social de um partido alinhado com as causas sociais e direitos humanos, críticas políticas ao dono da loja de departamentos Havan, apelidado Véio da Havan.

Robôs e seguidores de Bolsonaro ampliaram sua atuação nas redes sociais e adotaram a estratégia de invadir páginas e sites progressistas e espalhar fake news ou postar comentários absurdos, disfarçados de preocupação com a democracia ou com a liberdade de culto ou de expressão. Nada mais falso.

Este é o caso de um comentário que, a pretexto de defender o Véio da Havan das justas críticas políticas, compara este senhor a Marielle, alegando que ele está sendo vítima do que ele chama de ódio do bem. Ele dá a entender que esse tal ódio do bem é tão pernicioso quanto o ódio do mal, que eles praticam.

Ora, tornou-se normal no Brasil inverter os termos da equação para confundir a sociedade e obter dividendos políticos. O que era consenso, fruto da luta do ser humano pela sobrevivência em uma sociedade de competição e exclusão, o que foi convencionado como civilizatoriamente correto para evitarmos que os mais fortes e poderosos eliminassem os mais fracos transformou-se, na visão dos mais fortes, em conhecimento e sentimento descartáveis.

A civilização, necessária à convivência em equilíbrio dos seres humanos em uma sociedade cada vez mais integrada e interdependente, foi jogada no lixão ideológico dessa extrema direita bárbara.

Seria a crítica política fundamentada em valores éticos e civilizatórios comparável ao ódio – não precisamos qualificá-lo. Ódio é ódio – que a extrema direita dedica a tudo que é humano?

Claro que não. Por isso, fiz questão de responder ao comentarista que comparou o Véio da Havan a Marielle, como se fossem iguais. Leia abaixo:

Senhor comentarista, se você não vê diferença entre Marielle, uma pessoa que dedicou e perdeu sua vida na luta pelos direitos humanos, sem interesses financeiros e/ou escusos e o Idoso da Havan, uma pessoa que só pensa nos seus interesses financeiros e/ou escusos, financia a divulgação de mentiras contra adversários políticos e financiou ilegalmente campanhas políticas baseadas em fake news (o que é crime aqui e em qualquer país sério), entre outras atrocidades que ele fala e pratica,
deve ser porque o senhor o apoia ou é igual a ele.

E está minha manifestação não é ódio do bem nem elogio ao senhor.

Este meu comentário é uma manifestação política em resposta a um comentário absurdo, disfarçado de preocupação honesta. Ele é, na verdade, uma espécie de lamento, um sentimento que todos temos ao ver que a empatia com as pessoas – e no caso da Marielle e do Anderson, com pessoas que foram brutalmente fuziladas – e o que restava de humano, a humanidade, foram parar em um lixão ideológico que está destruindo o Brasil.

ELEGIA 1938

ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

In: ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Resposta a um terraplanista econômico, social e político

Fulano, mesmas respostas e mesmos argumentos do PT. Se valem aqui, deviam valer lá. A grande diferença é um PGR que advoga pró-Queiroz, para livrar a famiglia.

Vocês foram abduzidos e só o tempo irá esfregar a realidade na cara do brasileiro. Muitos sofrerão. Do modo mais cruel: desempregado e passando fome. Alguns continuarão devotos e fiéis, como os seguidores da Pastora Flor de Lis, que estão fazendo um movimento para perdoá-la. Qual religioso que não faz suruba familiar e suingue, não é mesmo? Qual religioso que, para não separar e ofender a Deus, prefere matar o cônjuge?

O empoderamento do anti-civilizatório, a crise de civilização, a falta de empatia com a dor do próximo e o endeusamento do incorreto – política e socialmente – são as pragas do Século XXI.

O Brasil embarcou em uma mentira coletiva, em uma canoa furada. As pessoas recebem sua ração diária de fake news e saem babando ódio e acham que têm solução fácil para os problemas do país.

Acham que basta acabar com a corrupissão e a economia vai deslanchar. Acham que basta acabar com a participação do Estado na economia que a fada madrinha vai bater sua varinha mágica trazer a confiança e os empresários sangue-sugas e sonegadores (política, social e economicamente incorretos) vão ver Deus e, como uma benção, vão investir, “dar” empregos intermitentes ou por conta própria ou sem direitos trabalhistas e o Brasil vai crescer com a velocidade dos delírios do Paulo Guedes.

Ouviram falar, nas aulas de Macroeconomia capitalista, no multiplicador dos gastos públicos, na receita de Lord Keynes e no New Deal norte-americano mas, desonestamente, chamam isso tudo de “Comunismo”. Com o seu terraplanismo macroeconômico pretendem alcançar o crescimento econômico do capitalismo matando os dois principais motores da demanda agregada: Consumo (público e privado) e Investimento público.
Na área política, o governo Bolsonaro está “combatendo” a corrupissão aliando-se aos corrupitos:

  1. já detonou a Lava-Jato e já podou as garras de Dallagnol. Aras, estrategicamente nomeado, fez o trabalho.
  2. Aliou-se ao Centrão de Roberto Jeferson, Waldemar Costa Neto e todos os bichos mais escrotos do Congresso estão na mesma Arca da famiglia Bolsonaro. Até o Temer. Todos cooptados com presidência de órgãos públicos, comissões do Congresso ou com verbas públicas orçamentárias e extra-orçamentárias. Essa corrupissão pode, é para o bem do país. Só não dizem qual país: o país em que nasceram ou o país o qual realmente amam.

Obrigado por deixar a bola quicando. Obrigado pelo espaço.

Desrespeito e genocídio: resposta ao Fulano de Tal

Fulano de Tal, deixar o Ministério da Saúde sem ministro é muito mais mórbido e letal e vocês passam o pano. Fingem que não tem nenhuma consequência. Alguns parvos até elogiam a atuação do ministro da Saúde inexistente. Isto é elogiar a omissão, a incompetência e o genocídio.

Eu, cidadão deste país, que cumpre seus deveres de cidadania, tenho o direito de sentir-me indignado e expor a política genocida implantada pelo governo federal na área da Saúde.

Divulgar o número de recuperados como se fosse mérito do Ministério da Saúde e esconder o número de mortos (seu verdadeiro “mérito”) é a prova cabal do fracasso.

Não é você quem vai cassar meu direito inalienável a expor minha indignação.

Meu objetivo é colocar o dedo na ferida e expor a omissão e a incompetência do governo federal no trato com as vidas humanas. Quem está faltando o respeito com as pessoas mortas é o governo federal que, em vez de ter um Ministério da Saúde a favor do combate ao vírus, dá prioridade ao fim do distanciamento social e desencoraja o uso de máscara (ação deletéria do presidente e de vários dos seus ministros).

Um governo federal que incentiva a normalidade das atividades econômicas em detrimento da vida e faz apologia de um medicamento não aprovado pela Anvisa e pelas autoridades científicas do mundo todo, além de vender ilusão de cura para o povo mais humilde, coloca-se como co-autor das contaminações e mortes. Isto, sim, é mórbido. Isto, sim, é falta de respeito. Isto, sim, é política genocida. Ou, o que vem a dar no mesmo: genocídio pela política.

Quando viu o ministro Mandetta crescer politicamente Bolsonaro, que está em campanha pela reeleição desde a posse, o demitiu no meio da pandemia. O ministro Teich, que participou da equipe de Bolsonaro na campanha, e é médico, foi impedido por Bolsonaro de cumprir as funções esperadas de um ministro da Saúde em meio a uma guerra (pandemia). Colocar no ministério um general que só sabe obedecer e uma equipe gerencial sem qualquer experiência na área de Saúde significou, na prática, colocar Bolsonaro como o verdadeiro ministro da Saúde. Foi o caos. Está comprovado. O mundo assiste estupefato. Estamos destruindo o Brasil e matando as pessoas. A História julgará, como julgou Hittler.

Não chegaremos à Índia queimando caravelas e sua tripulação

Resposta a um comentarista de duas frases prontas que, sem parar para pensar, acha que é possível alcançar a prosperidade econômica de um país arruinando a vida das pessoas e concentrando a renda nas mãos de meia-dúzia de sócios.

Ele não percebe que a Economia é a soma da prosperidade das pessoas e não, somente, de uns poucos agentes econômicos com capacidade para comprar 8/10 horas de tempo de vida de uma pessoa e colocá-la para multiplicar sua (dele) riqueza.

O comentarista tem, obviamente, um nome. Mas, infelizmente, são tantos com a mesma visão estreita e distorcida, que vamos chamá-los de Bozo Neto, representando esse fanático médio, que invadiu as redes sociais, armado com um teclado e a cabeça colonizada por meia-dúzia de chavões e frases vazias.

Leia a seguir.

Paulo Martins

Bozo Neto, você precisa entender que é impossível chegar à prosperidade dos 212 milhões de brasileiros quando se desenvolve uma política econômica que direciona as rendas e os lucros para os 12 milhões do topo da pirâmide econômica/social, concentrando ainda mais a renda e o capital social, negligenciando os 200 milhões de pessoas restantes.

Nenhum capitalismo resiste a uma distribuição de renda tão perversa e desestimulante aos novos negócios. Isto já é consenso no mundo desenvolvido e civilizado.

Um sistema econômico que coloca de um lado uma minoria que é incentivada a produzir bens e serviços e, do outro, consumidores maltrapilhos sem renda para consumir, não pode funcionar.

Em um país uberizado, de pessoas com fonte de renda precarizada, lutando para sobreviver, os fabricantes não conseguem escala de produção para reduzir seus custos de produção pelos ganhos de escala e pela otimização dos seus processos e, portanto, não conseguem entregar produtos com qualidade a custo competitivo.

Sem investimento nas universidades públicas e nos centros de pesquisa e inovação, não teremos tecnologia para enfrentar os concorrentes nem dos países de economia emergente.

Sem um forte investimento em educação (e saúde), teremos u’a mão de obra de baixíssima produtividade.

Na ditadura de 1964 um desses generais que tiraram o serviço militar na presidência da República declarou, se achando o cara mais inteligente do mundo:

“A economia vai bem, mas o povo vai mal”.

É a mesma visão míope de Paulo Guedes e seus cúmplices. Como explicar para esses economistas de porta de cadeia que é impossível a economia ou as finança públicas irem bem se o povo – o verdadeiro destinatário do funcionamento benéfico de um sistema econômico – vai mal?

Como explicar para os fanáticos do Bolsonarismo, com sua visão robotizada baseada em tudo que é incorreto – política/econômica/socialmente – que destruindo as caravelas e os tripulantes não vamos descobrir o caminho marítimo para as Índias?

Eu já sei. A experiência adquirida com as diversas tentativas frustadas nos dizem que é impossível conseguir sucesso nessa empreitada.

Acho que vou deixar que cada um bata com a caravela da sua vida nas pedras ou se choque com um iceberg para que ele entenda, sozinho, pelo exemplo, que não se entrega a direção de um Titanic nas mãos de um capitão que nunca pilotou nem uma piroga.

Quem sabe não acordarão nas águas geladas da Antártida, pelo choque de temperatura?

Compra e venda de monografias, dissertações e teses


Há mais ou menos quinze anos, em uma festa de aniversário, fui apresentado a uma pessoa e, ao mencionar que trabalhava no IPEA, fui questionado se eu conhecia determinado pesquisador. Não lembro o nome deste pesquisador, mas era um pesquisador importante, experiente, com diversos trabalhos publicados no site do IPEA e na internet em geral.

Curioso, perguntei onde essa pessoa trabalhava e como conhecia tal pesquisador. Ela me informou que não o conhecia pessoalmente mas, como era historiadora e trabalhava – seus olhos brilhavam de orgulho – como profissional da área de TCCs e teses, costumava acessar com freqüência a plataforma eletrônica do IPEA. Então, fiquei ainda mais curioso e perguntei no que consistia esse tal “trabalho”. Seria minha interlocutora orientadora de dissertações, teses e TCCs de alguma universidade?

Quanta inocência! Ora, o tal “trabalho” consistia em fazer TCCs, dissertações e teses para alunos sem tempo e/ou sem capacidade intelectual para tal. À medida que a pessoa descrevia o seu “trabalho” nas áreas de história e economia, cresciam minha admiração e minhas dúvidas: como poderia alguém ser capaz de desenvolver uma dissertação de mestrado tendo somente frequentado uma universidade em nível de graduação? Como orientadores e bancas aprovam as dissertações e TCCs desses alunos? Alguém lê?

Resposta da pessoa interlocutora: minhas dissertações e TCCs têm 100% de aprovação. Parecia uma pessoa “normal”, dessas que hoje vestem camisa da CBF, bradam nas ruas contra a corrupção e pedem intervenção militar “constitucional”.

Passados quase 15 anos observo, perplexo, que a prática de comprar e vender TCCs, dissertações e teses se espalhou de tal forma, que nem parece crime.

Tem grupos empresariais estruturados para esta prática nefasta, com publicidade na internet.

Quem compra uma dissertação ou uma tese não é nenhum morto de fome, pois esta “indústria” cobra caro pelo seu produto.

Cocaína é cara porque é muito arriscado atuar neste “mercado” como fornecedor. Igualmente, esse mercado de títulos e diplomas obtidos de forma criminosa é arriscado. Mas, pelo visto, nem tanto quanto a cocaína, pois têm a coragem de publicar anúncios.

Abaixo, apresentamos alguns exemplos de anúncios disponíveis na internet. Tirem as suas conclusões:

“Desenvolva sua Dissertação de Mestrado sem stress. Entre em contato agora! Conforto E Tranquilidade. Atendimento Personalizado. Destaques: Atendimento Personalizado De Alto Nível, Conforto E Tranquilidade”.

“Correções gratuitas e rápidas – Enviamos sua monografia pronta.
Equipe de escritores experientes e profissionais. Solicite agora seu orçamento gratuito. Enviamos monografias inéditas 100% anti-plágio. Pagamento parcelado e seguro. Entrega rápida. Online agora. 100% anti-plágio”.

“Tese de Doutorado e Dissertação de Mestrado: Benefícios ao Comprar – Monografias Prontas ::: A Sua Monografia Aprovada!!! –
3 de set. de 2017 · Um dos benefícios que a pessoa tem ao optar em comprar a sua tese de mestrado pronta, é que ela não correrá o risco de ser reprovada, pois profissionais que desenvolvem esse tipo de trabalho, …”.

“Dissertação de mestrado e tese de doutorado custam R$ 2 mil – 07/11/2005 – UOL Educação – UOL Notícias
7 de nov. de 2005 · Profissionais e estudantes entrevistados pela Folha afirmam que a compra e a venda dos trabalhos são estimuladas por falta de tempo, insegurança e pouco interesse por pesquisa. O advogado …”

“PLÁGIO É CRIME DENUNCIE!
Saiba mais
Não incentivamos ou praticamos o plágio em nossos serviços, por considerá-lo como uma prática indevida e que deve ser sempre repudiada”.

O mais interessante é que os fornecedores dizem abominar o plágio, mas acham perfeitamente normal preparar dissertações e teses sobre qualquer assunto e vendê-las para quem pagar. Mesmo achando normal, prometem sigilo absoluto. Por que seria?

Não demora muito e ainda vai aparecer um analista econômico, desses de porta de cadeia, para argumentar que regulações são prejudiciais porque distorcem o mercado e aumentam o preço dos bens ao tornar sua oferta escassa. Melhor não interferir neste “mercado”.

O Brasil é um país onde são vendidos e comprados TCCs, dissertações e teses e onde agiotas são venerados como donos de bancos.

O Brasil é um país onde um empresário, com dívidas tributárias vencidas e não pagas – conforme denuncia imprensa – veste-se de papagaio e senta-se à mesa com as autoridades máximas da Nação.

No Brasil de hoje, a pessoa nomeada pelo presidente da República para exercer o importantíssimo cargo de ministro da Educação perdeu o respeito da comunidade que lida com educação e não tem mais moral para combater as práticas aqui mencionadas.

No Brasil de hoje, vende-se de tudo. Teses, voto, Amazônia, direitos sobre a água, mãe. Até o próprio país.

Paulo Martins


De Jean Wyllys para Miriam Leitão

De Jean Wyllys para Miriam Leitão:

1) Sou jornalista. Trabalhei quase dez anos em mídia comercial. E uma coisa que sei dos medalhões do jornalismo no Brasil é que são corporativistas e não gostam de ser criticados.

2) Quase toda imprensa comercial no Brasil é historicamente antipetista e muitos dos seus medalhões trabalharam no limite da fake news contra o PT e seus governos.

3) Boa parte da imprensa comercial no Brasil e seus jornalistas medalhões participaram do golpe mascarado de impeachment contra Dilma Rousseff e insuflaram o antipetismo.

4) Boa parte da imprensa comercial brasileira passou pano sobre às violações de direitos perpetradas pela Lava Jato e transformou os medíocres Sergio Moro e Dallagnol em heróis.

5) A Globo News, por exemplo, raríssimas vezes deu espaço a uma perspectiva diferente do problema da corrupção tratado pela Lava Jato com seu justiçamento e desrespeito à prerrogativa de inocência.

6) A maior parte da imprensa comercial empoderou e deu voz a gente do quilate de Joyce Hasselmann e Kinta Katiguria, par ficar só em dois nomes, além de insuflar as manifestações verde-e-amarelas de tom fascista.

7) A maior parte da imprensa comercial praticamente IGNOROU DELIBERADAMENTE a escalada de violência política contra o PT e as esquerdas durante o ano de 2018.
😎 Boa parte da imprensa comercial construiu uma narrativa que equiparava @Haddad_Fernando a Jair Bolsonaro, como se se tratasse de candidatos do mesmo nível. Enquanto amaciava a abordagem sobre Bolsonaro, endurecia o discurso contra Haddad.

9) William Bonner ouviu Bolsonaro mentir sobre o “kit gay” (seu delírio) em cadeia nacional e não lhe desmentiu, tomou a mentira como verdade; e lhe foi bastante ameno.

10) @MiriamLeitaoCom foi obrigada a ler um ponto diante dos ataques de Bolsonaro à Globo, por esta ter apoiado à ditadura, numa das cenas mais constrangedoras já vistas na tevê. Não houve reação espontânea ao elogio do fascista ao torturador!

11) Diante de tudo isso, @MiriamLeitaoCom ainda vem se fazer de “indignada” por eu ter criticado, com respeito, sua tardia conclusão de que Bolsonaro é incompetente e ter dito que ela pavimentou seu caminho até a presidência.

12) Ora, @MiriamLeitaoCom , você pode ser esquecida, mas burra não é: e você sabe que quando disse “você” estava me referindo à imprensa comercial da qual você faz parte, que, sim, pavimentou o caminho de Bolsonaro à presidência.

13) É compreensível que medalhões do jornalismo comercial – uns com talento, outros não – ajam de maneira corporativista e venham me atacar. Não tenho medo de nenhum de vocês: nem dos jornalistas de fato nem dos ratos de redação.

14) O que não vou deixar, @MiriamLeitaoCom , é que pessoas como você na imprensa comercial e os milhões de eleitores que votaram nesse escroque posem de ingênuos ou desavisados em relação ao que ele é sempre mostrou que é. Não vou deixar.

15) Quem chocou o ovo da serpente foram vocês. Assumam seu monstro agora. É mais digno. Nós avisamos. Eu sigo com a minha arma em mente: e a minha arma, @MiriamLeitaoCom e demais colegas da imprensa comercial, é o que a memória guarda.

Fonte: twitter do Jean Willys

Não se iludam: nem os passageiros da primeira classe vão se salvar

Um tresloucado tenente reformado como capitão, indigno de vestir a farda, humilhou os generais lambe-carpete de palácio.

Na essência, nada me surpreendeu. Já vimos este filme antes, com outros atores nos papéis principais: Hitler, Mussolini, Pinochet, Franco, Salazar, Marcos, Massera, Videla, Garrastazu … Todos do mesmo nível de Bolsonaro. Mas, na comparação geral, acho que o time do Brasil como um todo supera os times formados por estes carniceiros.

O único que tem o emprego garantido, Mourão, não falou nada, porque é cúmplice. Mourão estava curtindo o esporro que Bolsonaro estava dando nos outros.

Eu já sabia que eles eram toscos, que eles estavam montando falanges armadas e que eles não estavam nem aí para as mortes que já registramos e para as que vamos registrar.

Eu já sabia.

Mas, mesmo assim, acordei envergonhado de dividir cidadania brasileira com esses monstros morais.

Eles pensam que são os donos do Brasil. Misturam público e privado e falam como se tivessem recebido, por meio do voto de 27% (menos que um terço) da população do país, um mandato para aniquilar os demais 73%.

Na infame reunião ministerial, um grupo de meia-dúzia de genocidas, cada um na sua especialidade criminal – Weintraub, Guedes, Damares, Salles, Pedro Guimarães, Ernesto Araújo – , tendo Bolsonaro como chefe detalhou, em meio a palavrões e ofensas, o plano de extermínio dos demais brasileiros, que eles consideram seus inimigos e indignos de viver.

Expuseram seus planos de destruição e aniquilação dos seus inimigos, a devastação do meio ambiente e a criação de uma falange armada para uma guerra que pretendem fomentar.

Babaram sua gosma odiosa nas gravatas, esbugalharam os olhos e deixaram evidentes aos olhos da Nação e do mundo que o poder no Brasil está nas mãos de um grupo de desequilibrados e de despreparados intelectual e emocionalmente.

Não tem chance dessa zorra levar o Brasil para um porto que seja seguro. Este titanic está destinado a bater no iceberg e nem os passageiros da primeira classe vão se salvar.

Nem os passageiros da primeira classe vão se salvar.

Gerações marcadas, Brecht

Bem antes de sobre nós aparecerem os bombardeiros

Eram já inabitáveis

Nossas cidades. Canalização nenhuma

Nos livrava da imundície.

Bem antes de cairmos em batalhas sem sentido

Ainda andando por cidades ainda intactas

Nossas mulheres

Eram já viúvas

E nossos filhos órfãos.

Bem antes de nos lançarem em covas aqueles também marcados

Éramos sem alegria. Aquilo que a cal

Nos corroeu

Já não eram rostos.

A marcha dos camisas pardas

Editorial de O Estado de São Paulo. A Marcha dos Camisas Pardas. 09/05/20

A marcha dos camisas pardas
Um grupo de brucutus apoiadores de Jair Bolsonaro armou acampamento para organizar invasão ao Congresso e ao STF
Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 03h00

Um grupo de brucutus apoiadores do presidente Jair Bolsonaro – chamados “300 do Brasil” – armou acampamento no entorno da Praça dos Três Poderes para organizar uma invasão ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os camisas pardas do bolsonarismo, que agora vestem verde e amarelo e roupas camufladas, programam uma marcha sobre Brasília neste fim de semana. “Nós temos um comboio organizado para chegar a Brasília até o final desta semana. Pelo menos uns 300 caminhões, muitos militares da reserva, muitos civis, homens e mulheres, talvez até crianças, para virem para cá e darmos cabo dessa patifaria”, ameaçou Paulo Felipe, um dos líderes da milícia acampada, em vídeo divulgado em uma rede social.

A palavra “patifaria” não foi escolhida ao acaso. Resulta de uma irresponsável incitação. No dia 19 de abril, dirigindo-se a apoiares reunidos em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro exortou a súcia que pedia o fechamento das instituições democráticas a “lutar” com ele. “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. Acabou a patifaria!”, bradou Bolsonaro, como se estivesse prestes a descer da Sierra Maestra, e não de uma caminhonete transformada em palanque.

Segundo o portal Congresso em Foco, outro que está por trás da gravíssima ameaça de assalto ao Congresso e à Corte Suprema é Marcelo Stachin, um dos líderes da campanha de formação da Aliança pelo Brasil, partido que o presidente Jair Bolsonaro pretende criar para chamar de seu. Ainda não se sabe quando, e se, a Aliança pelo Brasil cumprirá os requisitos legais e será autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Fato é que a agremiação está muito mais próxima de um movimento golpista do que de um partido político.

Nos regimes democráticos, em especial em democracias representativas como é o caso do Brasil, os partidos políticos são as organizações por meio das quais os cidadãos participam da vida pública para contribuir na construção daquilo que em ciência política se convencionou chamar de “vontade do Estado”. Como se afigura, a Aliança pelo Brasil pretende o exato oposto, qual seja, eliminar qualquer possibilidade de diálogo para a formação daquela vontade. Assumindo a ação direta, como a criminosa intentona em Brasília, assemelha-se à tropa de segurança do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, criada em 1920 e precursora da temida Sturmabteilung (SA), a Seção de Assalto de triste memória. Quem duvida que veja as imagens das agressões dos camisas pardas a enfermeiras e jornalistas.

Na essência do movimento de formação da Aliança pelo Brasil, defendido e liderado por alguns dos que estão acampados em Brasília a ameaçar o Congresso e o STF, estão todos os elementos que identificam um movimento golpista, e não um partido político: a evocação a um passado mítico e glorioso; a propaganda (não raro disseminando informações falsas ou distorcendo fatos); o anti-intelectualismo; a vitimização de Jair Bolsonaro, tratado como um bom homem cercado de “patifes” por todos os lados, o “sistema”; o apelo a uma noção de “pátria” por meio da apropriação dos símbolos nacionais; e, por fim, a ação pela desarticulação da União e da sociedade. O que pode ser mais desagregador do que um movimento que ameaça partir para a ação violenta com o objetivo de fechar a Casa de representação do povo e a mais alta instância do Poder Judiciário? Não por acaso, o STF tem despertado especial revolta entre os camisas pardas do bolsonarismo. Classificada pelo tal Paulo Felipe como uma “casa maldita, composta por onze gângsteres”, a Corte Suprema tem se erguido em defesa da Constituição contra os avanços autoritários do presidente Jair Bolsonaro.

Um ato golpista desse jaez, cujos desdobramentos são imprevisíveis, é repugnante por si só e merece imediata condenação por todas as forças amantes da lei e da liberdade no País, em especial as Forças Armadas, citadas nominalmente tanto pelo presidente como por alguns dos líderes da ação golpista. É ainda mais acintoso porque toma justamente o local que representa a essência desta República para urdir um ataque aos Poderes Legislativo e Judiciário. Terá esse episódio mais uma vez o apoio explícito do chefe do Poder Executivo?

Aldir Blanc

ALDIR BLANC “Peço desculpas aos que têm me procurado hoje. Não tenho condições de falar. Aldir foi mais do que um amigo pra mim. Ele se confunde com a minha própria vida. A cada show, cada canção, em cada cidade, era ele que falava em mim. Mesmo quando estivemos afastados, ele esteve comigo. E quando nos reaproximamos foi como se tivéssemos apenas nos despedido na madrugada anterior. Desde então, voltamos a nos falar ininterruptamente. Ele com aquele humor divino. Sempre apaixonado pelos netos. Ele médico, eu hipocondríaco. Fomos amigos novos e antigos. Mas sobretudo eternos. Não existe João sem Aldir. Felizmente nossas canções estão aí para nos sobreviver. E como sempre ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las. Hoje é um dos dias mais difíceis da minha vida. Meu coração está com Mari, companheira de Aldir, com seus filhos e netos. Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mvar de tristeza, uma razão pra viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui pra fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio.”

João Bosco – 04/05/2020

Neoliberalismo e pandemia

Texto do professor André Coelho

O Covid-19 não é fabricado, mas a pandemia resulta, em parte, de escolhas humanas. Sem os cortes, no mundo em geral e no Brasil em particular, de investimento na saúde pública, na pesquisa científica pública e nas redes de previdência, seguridade, alimentação e assistência, teríamos mais leitos, mais respiradores, mais medicamentos, mais profissionais de saúde, mais aparatos de proteção, pesquisas mais avançadas de vacinas e remédios, uma população com imunidade mais forte e uma banda mais larga de isolamento e quarentena, com menos trabalhadores precarizados tendo que arriscar-se à doença e à morte para sustentar sua miséria e desproteção.

Sem a precarização do trabalho, o enfraquecimento dos sindicatos, a privatização do cuidado, a financeirização da sobrevivência e esvaziamento da lógica pública de cooperação e solidariedade, teríamos evitado muitas das mortes que já ocorreram e poderíamos evitar muitas mais das que ainda se seguirão.

A crise política é, sim, inegavelmente, uma componente central da crise sanitária. Mas a crise política não se resume à crueldade e à incompetência de quem está no poder agora (embora isso, claro, conte bastante).

Ela é a crise de um modelo social e de uma forma de vida com nome bem explícito: Neoliberalismo.

Desligar-se do fascista da vez para agarrar-se ao próximo neoliberal é só trocar o rosto e o sotaque do ceifador de vidas, sem salvar nenhuma dessas vidas. É ajustar a skin com que se prefere que avance o genocídio.

É preciso trocar não só a pessoa, mas o modelo. É preciso imaginar e desejar outra forma de vida em conjunto e mobilizar-se para realizá-la. Construir sobre a verdade desnudada de nossa interdependência a política que nos liberte de nossa solidão melancólica e nos cure da desigualdade perversa. Sonhar alto para nos recuperarmos de a quão baixo fomos lançados. Redescobrir a força da união que transforma.

É só nesse lugar, frágil e belo, do último fontanário de nossa humanidade, que se encontram a tragédia e a esperança.

O Massacre de Manguinhos

Autor: Herman Lent

Reeditada em versão ampliada e disponível em versão digital, a obra O Massacre de Manguinhos faz parte da Coleção Memória Viva, projeto desenvolvido pelo Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict) da Fiocruz.

A nova edição foi lançada em maio de 2019, como parte das comemorações de 119 anos da Fiocruz. Com prefácio de Nísia Trindade Lima, O Massacre de Manguinhos é o primeiro título da coleção, que busca tornar acessíveis ao público obras de forte relevância acadêmica que estavam esgotadas.

O projeto de reedição do livro é uma parceria entre Editora Fiocruz, Icict/Fiocruz, Casa de Oswaldo Cruz (COC) e Instituto Oswaldo Cruz (IOC). A nova versão não é comercializada e está em acesso aberto no Repositório Institucional da Fiocruz, o Arca.

Sobre a obra original
Exatos seis anos após o golpe militar de 1964, 10 cientistas do então Instituto Oswaldo Cruz (IOC) – nome da Fiocruz na época – foram sumariamente cassados e tiveram seus direitos políticos suspensos, sendo impedidos de trabalhar no IOC e em outras instituições federais. O fato marcou o episódio que ficaria conhecido como Massacre de Manguinhos. Um dos cientistas cassados, Herman Lent registrou o episódio em um livro, publicado em 1978 pela Avenir Editora, com capa criada por Oscar Niemeyer.

Esgotada durante anos, a obra era uma referência para os estudos sobre o impacto da ditadura militar nas atividades científicas realizadas no Brasil. Nela, Lent abordava inquéritos, indagações, punições, restrições e pressões aos quais os cientistas foram submetidos, além de suas mobilizações e atos de resistência, insistindo na criação de um ministério exclusivo para a Ciência.

Não comercializado | 116 páginas

Acesse o livro no Arca: http://www.arca.fiocruz.br/handle/icict/33216

2ª edição: 2019 (1ª edição: 1978 | Avenir Editora Limitada)
ISBN: 978-85-7541-628-0

Fiocruz, seu destino histórico e a cloroquina, entrevista com Nísia Trindade


Chico Alves
Colunista do UOL
21/04/2020 04h00
Nascida em meio à luta contra epidemias como febre amarela, peste bubônica e varíola, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) completa 120 anos em maio, novamente na linha de frente para superação de um enorme desafio sanitário. A instituição foi designada pela Organização Mundial de Saúde como referência na América do Sul no combate à pandemia do coronavírus.

“Estamos cumprindo nosso destino histórico”, diz a doutora em Sociologia Nísia Trindade, presidente da Fiocruz.

As dificuldades para encontrar tratamentos, vacinas e estratégias contra a doença são conhecidas, mas um obstáculo surpreendente ao trabalho dos pesquisadores foi registrado na semana passada. Em meio a estudos sobre a eficácia do uso da cloroquina para o tratamento da covid-19, cientistas da fundação, em Manaus, e de outras instituições foram ameaçados nas redes sociais e fora delas, ao decidirem interromper os testes da substância em pacientes graves, por conta dos riscos.

“Não é um ataque à Fiocruz ou ao grupo de pesquisadores específico, mas uma ameaça ao trabalho científico”, define Nísia.

Nessa entrevista, a presidente da Fiocruz fala que ainda não há respostas imediatas para a pandemia em termos de medicamentos, e por isso o afastamento social continua sendo a estratégia mais indicada. Nísia comenta ainda o aumento da produção de testes para diagnóstico da doença, que chegará a 11 milhões de unidades, e a busca de formas seguras para sair do isolamento quando chegar a hora.
“Não se poderá sair da situação que temos preconizado hoje do isolamento para atividades com aglomeração. Isso terá que ser progressivo”, adianta.


UOL – Recentemente, cientistas que pesquisam a eficácia da cloroquina foram ameaçados nas redes sócias e fora delas. Ao que a sra. atribui esses ataques?

Nísia Trindade – Vejo como um ataque não só aos pesquisadores, mas um ataque a toda a ciência. Não por acaso, além do conselho da Fiocruz, também a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a Sociedade de Medicina Tropical, a Academia Nacional de Medicina e várias instituições científicas se posicionaram todas em favor do respeito à pesquisa científica, à preservação do trabalho dos pesquisadores.

Não se trata de ser a favor ou contra um medicamento. Isso não teria o menor sentido. Toda a orientação da ciência, a nível internacional, é para que as pesquisas com relação a tratamentos possíveis sejam feitas a partir de medicamentos já conhecidos. Então, eu vejo esse ataque não como uma ameaça à Fiocruz ou ao grupo de pesquisadores específico.

Todo esse trabalho passa por comitês de ética, comitês de segurança de cada pesquisa que envolve o estudo clínico, que envolve vidas, que envolve pacientes, todos esses trâmites estão sendo seguidos e nós estamos acompanhando. Foi dessa maneira que o nosso conselho se posicionou.

Houve uma resposta das autoridades? Já foram identificados autores das ameaças?

Tivemos contato com uma comissão externa do Congresso que está acompanhando o coronavírus e entrou em contato comigo, como presidente da Fiocruz. Passei todas as informações e temos feito isso em relação a todas as instâncias. Essa pesquisa, inclusive, tinha sido acompanhada pela diretoria de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Sempre temos esse cuidado, que é como procedemos com as nossas pesquisas.

Enquanto temos esses ataques vindo de um pequeno grupo aqui no Brasil, a OMS reconhece a Fiocruz como instituição de referência para o combate ao coronavírus na América Latina. O que isso representa?

Isso representa um reconhecimento muito importante, especificamente ao nosso Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo, vinculado ao Instituto Oswaldo Cruz, que é um de nossos institutos mais tradicionais na pesquisa biomédica. Também um laboratório do México foi reconhecido. Isso significa que o laboratório, além da análise de amostras do material coletado para identificação do vírus é uma referência não só para o Brasil agora, mas para toda a América Latina, no sentido de definir os melhores protocolos, a formação das equipes. É um componente de pesquisa que ajuda todo o acompanhamento da pandemia, que vai ser muito importante para o pós-pandemia também. Esse laboratório contribui para todo um conjunto de medidas que envolve o material onde se identifica o vírus.

Uma das frentes da Fiocruz é a produção de testes. Quanto se conseguiu aumentar na produção desse item?

Essa produção tem implicado um esforço imenso da nossa instituição, fruto de muito trabalho em ciência e tecnologia. A Fiocruz tem um laboratório de produção de vacinas, de biofármacos e também desses testes, que é a Biomanguinhos. Associado a esse esforço, também o Instituto de Brasileiro de Biologia Molecular do Paraná. Nesses institutos nós conseguimos otimizar a produção desses testes e nós vamos chegar agora, a partir de maio, à produção de 2 milhões de unidades por mês. Totalizando até o final de agosto, 11 milhões de testes acumulados.

Com isso, acho que daremos uma contribuição muito importante para esse processo de testagem. Produzimos o teste molecular, ou seja, o que tem eficácia comprovada e uma acuidade para identificar as infecções já desde o início de seus sintomas. Isso é um grande avanço.

Junto com isso, pretendemos também contribuir através do Ministério da Saúde para pensar as melhores estratégias para todo o sistema de vigilância, para os laboratórios dos estados, de maneira que não haja exames na fila, como se diz. Temos também trabalhado muito com os conselhos de secretários estaduais de saúde, com os laboratórios centrais nos estados.

É essa rede que forma a grande vigilância n Brasil e a pandemia coloca um desafio maior porque não bastam as ações regulares. É de fato um esforço imenso, temos que ser mais rápidos que o vírus. É um desafio e tanto.

Quais as pesquisas prioritárias sobre covid-19 em desenvolvimento na Fiocruz?

Nós temos realizado um conjunto de estudos que vão desde pesquisas ligadas ao vírus, respostas imunológicas, passando também por modelagem epidemiológica, modelagem matemática para entendermos como o vírus poderá vir a se comportar no Brasil, estudos de cenários.

Eu diria que todos os conhecimentos precisam se reunir nesse momento: a imunologia, a virologia, a epidemiologia e a saúde pública, porque essa pandemia, com sua velocidade de transmissão, coloca em xeque os sistemas de saúde de todo mundo. Nesse momento nós estamos lançando um edital de pesquisa, dentro do nosso programa Inova Fiocruz, que se volta para responder perguntas que não foram respondidas e são fundamentais sobre a doença, o comportamento do vírus e também o comportamento do sistema de saúde.
Ao mesmo tempo também temos produtos imediatos: intensificação de estudos clínicos, novos protocolos de tratamento, uma série de ações importantes para que possamos contribuir como instituição de ciência nessa pandemia.

Nas testagens dos possíveis remédios que já existem, houve algum resultado animador?

Não. Resultado, infelizmente ainda não temos. Além do estudo que você fez referência, sobre a cloroquina, em Manaus, nós participamos de um grande estudo clínico, o estudo Solidariedade, coordenado pela OMS, que vai avaliar a possibilidade terapêutica da cloroquina, da hidroxicloroquina, de alguns antivirais. A Fiocruz é a coordenadora desse estudo no Brasil e envolve 18 hospitais em 12 estados.

É um esforço muito intenso, uma rede de estudo clínico. Não há respostas imediatas, infelizmente. Nós gostaríamos de já dizer à população: esse medicamento é o melhor ou essa vacina é a melhor. Por ora, as medidas são de prevenção não-farmacológicas: o isolamento, a distância social, os cuidados de higiene. Que não são simples, sabemos, mas são as medidas recomendadas pela comunidade internacional.

E quanto a vacinas? Empresas americanas informam que no início do ano que vem podem chegar a algum resultado. E por aqui, como andam as pesquisas?

Nós temos feito discussões e aberto possibilidades de trabalho conjunto com laboratórios de todo mundo também, tanto do setor público quanto do setor privado. Sempre com uma preocupação muito grande, já que nossa instituição é signatária de uma rede de pesquisas que tem como objetivo o acesso. Não adianta produzir uma vacina ou chegarmos a um novo medicamento sem que haja garantia de acesso principalmente nos países em desenvolvimento ou de baixa e média renda da América Latina e da África.

Vacinas baratas a que todos tenham acesso, que chegue à sociedade, esse é um ponto muito importante. Um segundo ponto é que nós temos uma tradição de transferências tecnológicas a vacina de febre amarela, que hoje nós somos o principal responsável por essa produção no mundo. Isso é fruto de uma transferência tecnológica da Fundação Rockfeller para a Biomanguinhos. A

A pandemia mostra a importância do país ter uma autonomia na produção de vacinas, de insumos e mesmo de equipamentos, já que estamos vendo essa carência em todo mundo, essa concentração em um único país. Tudo isso faz com que a Fiocruz seja uma instituição que poderá dar respostas para o futuro. Para isso, temos um importante projeto que é o complexo biotecnológico, em Santa Cruz, aumentando a nossa capacidade de vacinas.

Nós temos a resposta imediata à pandemia, mas temos que pensar nos passos seguintes. Para a epidemia da covid-19 e também para outras doenças com que o mundo infelizmente passará a conviver.

Depois do coronavírus outras viroses semelhantes vão surgir?

Isso é algo que já vem acontecendo no mundo. Esperamos que não com essa violência, no sentido da velocidade de transmissão e dos casos graves com complicações que levam tantas pessoas ao mesmo tempo para as unidades de tratamento intensivo. Mas temos que nos proteger.

Além disso, até termos a imunidade, a vacina será necessária e o acompanhamento epidemiológico dessa pandemia. Ou seja, a pandemia não termina no curto prazo. Temos que pensar que até termos uma vacina estaremos expostos a ciclos de doenças, coisas que não sabemos, Também não quero fazer aqui nenhuma previsão. São coisas que estão sendo estudadas e caberá à pesquisa científica nas diferentes áreas nos apontar esses cenários.

Nos últimos dias se registrou um aumento de circulação de pessoas nas ruas de várias cidades do país. O que fazer para aumentar a adesão ao isolamento social?

Em primeiro lugar, não é fácil lidar com essa situação, que é nova. Pela primeira vez eu vivo um momento como esse, assim como grande parte da população. Uma experiência semelhante em nosso país em termos de quarentena, mas em momento muito diferente na história, só ocorreu com a gripe espanhola, que teve mortalidade intensa e foi um gravíssimo problema logo após à Primeira Guerra. Acho que há uma dificuldade desse entendimento.

Mas creio que com toda essa dificuldade, boa parte da população está entendendo a gravidade e é propensa ao isolamento sanitário. O que precisamos são de medidas que não só reforcem a comunicação, mas que tornem viável esse isolamento em alguns grupos vulneráveis que têm mais dificuldades. Os trabalhadores informais têm muita dificuldade. Para isso, teríamos que ter reforço das medidas de proteção social.

Temos agora a destinação de R$ 600 para permitir aos trabalhadores que fiquem em casa, mas creio que precisemos de mais medidas em relação a pequenas e médias empresas para dar esse suporte. Além disso, muitos grupos vulneráveis vivem em localidades de altíssima densidade demográfica, com altíssima aglomeração. As próprias casas muitas vezes com sete pessoas no mesmo cômodo. São questões de um país marcado por profunda desigualdade social.

Ao chegar ao país, o vírus tem essa realidade no seu processo de expansão. É diferente se olharmos para a Europa e mesmo diferente de outras realidades na Ásia, onde a pandemia teve seu início. É um país continental, com grande diversidade regional, com grande desigualdade social. Tudo isso se reflete. Temos que trabalhar medidas específicas. Na Fiocruz nós construímos um fórum conjunto com os comunicadores populares, para dessa forma termos realmente mensagens que cheguem às pessoas. Há uma grande rede de solidariedade em relação a essas populações vulneráveis e locais de mais baixa renda e muita aglomeração, como favelas e periferias.

Temos pensar junto com essas populações e suas lideranças as melhores medidas. É preciso que as pessoas tenham meios para fazer esse isolamento. Creio que essa é uma das tarefas mais urgentes.

Já se sabe qual a forma mais segura de flexibilizar o isolamento social?

Não, isso ainda está em discussão. Eu mesmo participo do fórum de líderes globais de saúde da OMS, onde esse debate está se realizando nesse momento. O que está muito claro é que essa saída será gradual, vai ser muito importante o controle dos casos, o controle também da oferta de leitos, para que se possa encaminhar os pacientes graves.

Mas não é o bastante ter os leitos disponíveis. É muito importante o controle através de testes, através de uma visão de como a doença vai se disseminando. Ou seja, é uma fase de muita cautela e da qual não se poderá sair do isolamento para o retorno pleno a atividades com aglomeração. Isso terá que ser progressivo. Isso é muito claro em todas as orientações dos estudos, até porque nós teremos pessoas ainda sujeitas a infecção e podemos ter novos ciclos da doença o que seria bastante perigoso. Teremos sair com muita cautela e com base em evidências científicas, articuladas ao reforço do sistema de saúde. Será um trabalho que exigirá muita coordenação. Tenho certeza que a comunidade científica fará um grande esforço para que seja bem-sucedida a saída dessas medidas atuais.

Aos que virão depois de nós, por Bertolt Brecht

Eu vivo em tempos sombrios.
Uma linguagem sem malícia é sinal de
estupidez,
uma testa sem rugas é sinal de indiferença.
Aquele que ainda ri é porque ainda não
recebeu a terrível notícia.

Que tempos são esses, quando
falar sobre flores é quase um crime.
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?
Aquele que cruza tranqüilamente a rua
já está então inacessível aos amigos
que se encontram necessitados?

É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.
Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.
Por acaso estou sendo poupado.
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)

Dizem-me: come e bebe!
Fica feliz por teres o que tens!
Mas como é que posso comer e beber,
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?
se o copo de água que eu bebo, faz falta a
quem tem sede?
Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
Bertolt Brecht

Os Ombros Suportam o Mundo, Carlos Drummond de Andrade

Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.