Destaque

Brasil: seguindo a matriz

Não tem a mínima chance de dar certo com Guedes e Bolsonaro, se o certo for um futuro para as pessoas no Brasil com acesso à Saúde, Educação, emprego digno, paz social, equilíbrio econômico e meio ambiente limpo, ou seja, vida digna para todos, sem distinção de cor, sexo e classe social.

Eles estão implementando uma política econômica contracionista, austericida, que desvia recursos da maioria da população e os transfere para o Estado e para um grupo pequeno de empresários oligopolistas.

Na ditadura, que começou em 1964 e desabou podre em 1985, cheia de cupins, gafanhotos, tortura, assassinatos e corrupção, um daqueles generais que eram nomeados presidentes pelos seus amigos de farda declarou, perplexo, que: “a Economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Esse general nunca aprendeu uma regra básica, simples: se o povo vai mal, o Estado e o mercado (que é o que eles chamam de Economia) não podem ir bem. Guedes e Bolsonaro repetem exatamente o mesmo erro dos generais da ditadura: estão alheios à realidade que os cerca. Fingem não ouvir os apelos e insistem em ideias ultrapassadas que levaram outros países ao caos social e econômico.

Alguns generais ainda hoje, em pleno ano de 2020, demonstram um descolamento da realidade e dos fatos que assustam qualquer cidadão minimamente preocupado com o futuro do Brasil. Um desconhecia o que era o SUS, mesmo tendo sido nomeado ministro da Saúde e outro, que exerce a função de vice-presidente, elogiou o mais produtivo e sanguinário dos torturadores da ditadura de 1964 no Brasil.

Vai demorar um pouco para as pessoas sentirem na pele que suas vidas prioraram.

Quando acordarem, corremos o risco de parte desse povo, contaminada pelas notícias falsas e tomada pelo ódio, se torne ainda mais radical e comece a assassinar, à luz do dia, aqueles que ela considera seus inimigos, pois está armada e organizada em falanges e milícias.

Nos Estados Unidos foram descobertos pelo FBI, e presos, treze integrantes de uma milícia paramilitar neonazista que planejava sequestrar a governadora democrata de Michigan Gretchen Whitmer e outras autoridades do estado antes das eleições presidenciais de novembro próximo. O plano envolvia, ainda, um “julgamento por traição” contra a governadora democrata, nos moldes do grupo Estado Islâmico.

Eles não estão brincando. Nós não podemos fingir não ver.

Fontes da notícia: G1, nbcnews, CNN, BBC.

Destaque

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM
Adhemar Bahadian
Informo o passamento do século XX, os cem anos mais amargos da modernidade. Como ainda está estrebuchando, seria mais certo dizer cento e vinte anos, porque até hoje chegam as pragas que periodicamente o infestaram.
Em 1914, nossos avós viveram a primeira guerra mundial. Em 1944, nossos pais morreram nas terras da Europa. Em 1964, sobrevivemos a uma ditadura militar. A partir dos anos 70, nos intoxicamos com o alucinógeno do neoliberalismo e em 1991 nos embebedamos em homenagem ao fim da história pela fantasia de uma globalidade dividida por profunda desigualdade social.
Agora, quando a história parece repetir-se e desaba sobre nós uma variante ainda mais malévola que a gripe espanhola, carro fúnebre do morticínio da primeira guerra, teremos a oportunidade de nos recriarmos? A história não se repete, os erros humanos é que se multiplicam, quase sempre em torno de nossa incapacidade de construirmos um mundo melhor.
Este coronavirus, queiramos ou não, nos transformará. Não há economia que dele sairá imune. Não há ideologia política que depois dele nos fará reconstruir um mundo carcomido por falácias e desfigurado por uma profunda injustiça entre países e, dentro deles, entre irmãos de sangue. Só o mais obtuso dos seres deixará de perceber que esta virulência do coronavirus nada mais é do que a metáfora de nossa vida dita humana, em que nos entre-devoramos tangidos pelas piores pulsões de nossos instintos e que, por isto mesmo, chamamos pulsão de morte.
Se hoje nos assusta o ataque sub-reptício de um vírus, nos deveriam apavorar as barbaridades dos poderosos deste mundo e suas máquinas de guerra ou de empobrecimento.
Tanto na primeira guerra quanto na segunda tivemos estadistas que nos propuseram mundo mais solidário. Mas tanto as ideias de Wilson e a Liga das Nações quanto o projeto de Roosevelt e as Nações Unidas já nasceram, a primeira, debaixo da insensatez da Paz de Versailles- berço sangrento de Hitler- e a segunda no rastro de fogo e horror de Nagasaqui e Hiroshima.
Terminada a guerra e desmantelados os sistemas coloniais, iniciamos uma corrida armamentista que abarrotou de ouro cofres públicos e privados e o imperialismo econômico substituiu com honras o pacto colonial.
Tivemos o desplante de culpar os escravos por sua condição abjeta. Fomos intolerantes a cor de pele, a religiões que não adoravam os nossos deuses e bestialmente erigimos altares em que se exibem os ricos e se ajoelham os pobres. Criamos a sociedade da intolerância e demos a ela o simpático disfarce de sociedade da abundância. Inscrevemos em moeda falsária, a sacrílega admoestação de que “in God we trust”.
A partir dos anos 60, abatemos a tiros líderes e mergulhamos em guerras que muito antes de nos vencerem talharam em nossos cânticos “de um mundo livre” a marca de ferro em brasa da hipocrisia.
E em 2008 desnudamos nossas mais deslavadas mentiras e apropriamos hipotecas de gente honrada em nome da cobiça e do canibalismo financeiro. Enterramos poupanças em areia movediça e transformamos sonhos em ilusões amargas antes de perdidas. E de tudo fizemos um caldo de cultura cozinhado no ódio e na mais absoluta indiferença à sorte de milhões de irmãos espalhados pelos quatro continentes e, pelos quatro, rejeitados ou expulsos. Jogamos literalmente milhares de irmãos aos ventos e às marés.
Fizemos da cena política um picadeiro. Elegemos, por ignorância ou míseras ideologias, estadistas de papelão, mágicos de oz das terras do faz de conta e nos alegramos com os coliseus modernos em que a violência se confunde com o entretenimento e desta espúria combinação surgem os grandes líderes que nos apontam os caminhos das guerras, da cobiça e do desrespeito.
Nossas cidades se tornaram armadilhas ardilosas e imensos covis. Andamos por elas como se atravessássemos zonas desmilitarizadas ou campos minados em que a cada movimento suspeito pode surgir o aço da lâmina ou o fogo da bala. Perdida ou não.
Voltamos às cavernas e nos olhamos uns aos outros com o olhar da suspeita e da desconfiança. Passiva e bovinamente acatamos os conselhos desavisados de nossos líderes a nos sugerirem comprar armas de grosso calibre e andarmos armados de destemida arrogância.
Somos vítimas de uma combinação canhestra em que a ignorância se associa à ideologia e aprofunda a pobreza e o desnível social, sempre a nos enganar com um canto de sereia marcial.
Nesta hora em que nosso eleito desrespeita cotidianamente a vida e o futuro de nosso povo, agarrado como craca nos cascos de um navio a pique, mais do que revolta, surge nos homens de bem uma profunda vergonha de termos compactuado com a mentira e a ideologia.
Hoje, parte da sociedade brasileira é vítima de sua própria cegueira. De mãos dadas com seu carrasco-redentor caminha impotente para sua hora final. Docilmente, apesar de alertada pelo próprio carrasco de que sua salvação depende apenas de sua determinação em salvar-se.
Talvez nossa efetiva sobrevivência comece no dia em que levarmos a sério esta frase que lhe escapou das pequenas e ainda não cerradas frestas de sanidade.
Tomemos o destino em nossas mãos. E enfrentemos o século XXI com a humildade que ele nos impõe e com a coragem que a vida nos exige.

Destaque

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu.
12/03/202
Os economistas têm suficientes interesses específicos para contribuir decisivamente para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Apartados do mundo econômico e social efetivo, participam e colaboram para o desmantelamento das instituições e dos coletivos, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror

Por Pierre Bourdieu*

Seria o mundo econômico, verdadeiramente, tal como insiste o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, dispondo implacavelmente a lógica de suas consequências previsíveis e prestes a reprimir todos os seus desvios com sanções que inflige, seja de maneira automática, seja – com maior exceção – pelo intermédio de seus braços armados, o FMI ou a OCDE, e das políticas que eles impõem: diminuição do custo da força de trabalho, redução das despesas públicas e flexibilização do trabalho? E se, na verdade, não se tratasse apenas da colocação em prática de uma utopia, o neoliberalismo, assim convertido em “programa político”, mas uma utopia que, com a ajuda de sua teoria econômica, passa a pensar a si mesma como a descrição científica do real?

Esta teoria tutelar é uma obra de pura ficção matemática, fundada, desde o princípio, numa formidável abstração: essa que, em nome de uma concepção tão estreita como estrita da racionalidade identificada à racionalidade individual, consiste em pôr entre parêntesis as condições econômicas e sociais das disposições racionais e das estruturas econômicas e sociais que são a condição de seu exercício.

Para compreender o tamanho desta omissão, basta pensar no sistema de ensino, que nunca é considerado enquanto tal num momento em que possui um papel determinante na produção de bens e serviços, assim como na produção dos produtores. Deste pecado original, inscrito no mito walrasiano[i] da “teoria pura”, brotam todas as falhas e deficiências da disciplina econômica, e a fatal obstinação com a qual ela se apega à oposição arbitrária, que ela mesma faz existir, por sua própria existência, entre a lógica propriamente econômica, fundada na concorrência e portadora da eficiência, e a lógica social, submetida à regra da igualdade.

Dito isso, essa “teoria” originalmente dessocializada e deshistoricizada tem, hoje mais do que nunca, os meios de se fazer verdadeira, empiricamente verificável. Na verdade, o discurso neoliberal não é um discurso como os outros. À maneira do discurso psiquiátrico nos asilos, segundo Erving Goffman[ii], trata-se de um “discurso forte”, que só é tão forte e difícil de combater justamente porque tem a seu favor todas as forças de um mundo de relações de força que ele mesmo contribui para produzir enquanto tal, especialmente ao orientar as decisões econômicas daqueles que dominam as relações econômicas e, assim, somar sua força própria, propriamente simbólica, a estas relações de força. Em nome deste programa científico de conhecimento, convertido em programa político de ação, produz-se um imenso “trabalho político”(denegado, posto que, em aparência, é puramente negativo) que visa a criar as condições de realização e de funcionamento da “teoria”; um programa de destruição metódica dos coletivos.

O movimento, possibilitado pela política de desregulamentação financeira, em direção à utopia neoliberal de um mercado puro e perfeito, realiza-se através da ação transformadora e, é preciso dizer, destrutiva de todas as medidas políticas (das quais a mais recente é o Acordo Multilateral sobre o Investimento, destinado a proteger as empresas estrangeiras e seus investidores contra os Estados Nacionais), visando pôr em questão todas as estruturas coletivas capazes de se antepor à lógica do puro mercado: nação, cuja margem de manobra não para de diminuir; grupos de trabalho, por exemplo, pela individualização dos assalariados e das carreiras em função das competências individuais e a atomização dos trabalhadores que resulta disso, sindicatos, associações, cooperativas; até mesmo a família, que, através da constituição dos mercados por agrupamentos etários, perde uma parcela de seu controle sobre o consumo.

O programa neoliberal, que obtém sua força social da força político-econômica daqueles cujos interesses exprime – acionistas, operadores financeiros, industriais, homens políticos conservadores ou socialdemocratas convertidos às reconfortantes renúncias do laisser-faire, altos funcionários das finanças (ainda mais árduos na imposição de uma política preconizando seu próprio declínio pois, diferentemente dos grandes empresários, não correm qualquer risco de ter de pagar pelas consequências) –, tende globalmente a favorecer a cisão entre a economia e as realidades sociais, e assim a construir, na realidade, um sistema econômico conformado à descrição teórica, isto é, uma espécie de máquina lógica que se apresenta como uma cadeia de restrições conduzindo os agentes econômicos.

A globalização dos mercados financeiros, acompanhada pelo progresso das técnicas de informação, garante uma mobilidade de capital sem precedentes e oferece aos investidores, preocupados com a rentabilidade de curto prazo de seus investimentos, a possibilidade de comparar de maneira permanente a rentabilidade das maiores empresas e de punir, por consequência, os fracassos relativos. As próprias empresas, colocadas sob tal ameaça permanente, devem se ajustar de maneira cada vez mais rápida às exigências dos mercados; isso sob a pena, como se costuma dizer, de “perder a confiança dos mercados”, e, de uma vez só, o apoio dos acionistas que, preocupados com obter uma rentabilidade de curto prazo, são cada vez mais capazes de impor sua vontade aos managers, de lhes fixar normas, por meio de diretrizes financeiras, e de orientar suas políticas em matéria de contratação, de emprego e de salário.

Assim se instauram o reino absoluto da flexibilidade, com os recrutamentos sob contratos de duração determinada ou os trabalhos temporários e os “planos sociais” reiterados, e, no interior mesmo da empresa, a concorrência entre filiais autônomas, entre equipes coagidas à polivalência e, enfim, entre indivíduos, por meio da “individualização” da relação salarial: fixação de objetivos individuais; entrevistas individuais de avaliação, avaliação permanente; altas individualizadas de salários ou concessão de bônus em função da competência e do mérito individuais; carreiras individualizadas; estratégias de “responsabilização” tendendo a assegurar a autoexploração de certos empresários que, simples assalariados sob forte dependência hierárquica, são ao mesmo tempo tidos como responsáveis por suas vendas, seus produtos, sua agência, sua loja, etc., sob a forma de “independentes”; exigência de “autocontrole” que estende a “implicação” dos assalariados, segundo as técnicas do “gerenciamento participativo”, para bem além do trabalho dos executivos. Estas são algumas das técnicas de assujeitamento racional que, ao impor o sobreinvestimento no trabalho, e não apenas naquele dos cargos de responsabilidade, e o trabalho na urgência, acabam por enfraquecer ou abolir as referências e as solidariedades coletivas[iii].

A instituição prática de um mundo darwiniano da luta de todos contra todos, em todos os níveis da hierarquia, que encontra a adesão ao trabalho e à empresa na insegurança, no sofrimento e no estresse, não poderia, sem dúvidas, ser completamente bem-sucedida se ela não encontrasse a cumplicidade das disposições precarizadas produzidas pela insegurança e pela existência, em todos os níveis da hierarquia, e mesmo nos níveis mais elevados, entre os empresários principalmente, de um exército de reserva de mão de obra docilizada pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego. O fundamento último de toda esta ordem econômica posta sob o signo da liberdade é, com efeito, a violência estrutural do desemprego, da precaridade e da ameaça de demissão que ela implica: a condição do funcionamento “harmonioso” do modelo microeconômico individualista é um fenômeno de massa, a existência do exército de reserva de desempregados.

Esta violência estrutural influi também no que chamamos de contrato de trabalho (reconhecidamente racionalizado e desrealizado na “teoria dos contratos”). O discurso empresarial nunca falou tanto de confiança, de cooperação, de lealdade e de cultura empresarial quanto em uma época em que se obtém a adesão a cada instante fazendo desaparecer todas as garantias temporais (três quartos dos contratos são de duração determinada, a parcela dos empregos precários não para de crescer, o licenciamento individual tende a não ser mais submetido a qualquer restrição).

Vemos, assim, como a utopia neoliberal tende a se incarnar na realidade de uma espécie de máquina infernal, cuja necessidade se impõe até mesmo aos dominantes. Como o marxismo de outros tempos, com o qual, neste sentido, ela tem vários pontos comuns, essa utopia suscita uma crença formidável, a free trade faith (a fé no livre comércio), não apenas naqueles que dela tiram suas justificações de existência, como os altos funcionários e os políticos, que sacralizam o poder dos mercados em nome da eficiência econômica, que exigem o levante das barreiras administrativas ou políticas capazes de incomodar os detentores de capital na procura puramente individual pela maximização do lucro individual, instituída em um modelo de racionalidade, que querem os bancos centrais independentes, que pregam a subordinação dos Estados nacionais às exigências da liberdade econômica pelos mestres da economia, com a supressão de todas as regulamentações em todos os mercados, a começar pelo mercado de trabalho, a interdição de déficits e de inflação, a privatização generalizada dos serviços públicos, a redução das despesas públicas e sociais.

Sem necessariamente compartilhar os interesses econômicos e sociais dos verdadeiros crentes, os economistas têm suficientes interesses específicos no campo da ciência econômica para contribuir decisivamente, quaisquer que sejam seus estados de espírito a propósito dos efeitos econômicos e sociais da utopia que vestem de razão matemática, para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Separados por toda sua existência e, sobretudo, por toda sua formação intelectual, na maioria das vezes puramente abstrata, livresca e teoricista, do mundo econômico e social tal como ele é, eles são particularmente propensos a confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas.

Confiantes nos modelos que não têm quase nunca a chance de submeter à prova da verificação experimental, tidos a olhar por cima as conquistas das outras ciências históricas, nas quais eles não reconhecem a pureza e a transparência cristalina dos seus jogos matemáticos, e das quais eles são frequentemente incapazes de compreender a verdadeira necessidade e a profunda complexidade, eles participam e colaboram para uma formidável mudança econômica e social que, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror (eles podem contribuir com o Partido socialista e dar sábios conselhos aos seus representantes nas instâncias de poder), não pode desagradá-los pois, sob o risco de algumas falhas, imputáveis particularmente ao que eles às vezes chamam de “bolhas especulativas”, ela tende a dar realidade à utopia ultraconsequente (como certas formas de loucura) à qual eles consagram suas vidas.

O mundo está aí, porém, com os efeitos imediatamente visíveis da colocação em prática da grande utopia neoliberal: não apenas a miséria de uma fração cada vez maior das sociedades mais avançadas economicamente, o crescimento extraordinário das diferenças entre os rendimentos, a desaparição progressiva dos universos autônomos de produção cultural, cinema, edição etc., pela imposição intrusiva de valores comerciais, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias coletivas capazes de se opor aos efeitos da máquina infernal, das quais em primeiro lugar está o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, por toda parte, nas altas esferas da economia e do Estado, ou no seio das empresas, desta sorte de darwinismo moral que, com a cultura do winner, feita para os matemáticos superiores e para o salto a elástico, instaura como norma de todas as práticas a luta de todos contra todos e o cinismo.

Podemos esperar que a massa extraordinária de sofrimento que um tal regime político-econômico produz esteja, um dia, na base de um movimento capaz de interromper esta corrida em direção ao abismo? Na verdade, estamos aqui face a um extraordinário paradoxo: enquanto os obstáculos encontrados no caminho da realização da “nova ordem” – esta do indivíduo solitário, mas livre – são hoje tidos como imputáveis à rigidez e arcaísmos, e toda intervenção direta e consciente, ao menos desde que vinda do Estado, e por qualquer parcialidade que o seja, é de cara descreditada, portanto intimada a desaparecer em prol de um mecanismo puro e autônomo, o mercado (sobre o qual esquecemos que é também o lugar de exercício dos interesses); na realidade, é a permanência ou a sobrevivência das instituições e dos agentes da antiga ordem em vias de desmantelamento, e todo o trabalho de todas as categorias de trabalhadores sociais, e também todas as solidariedades sociais, familiares ou outras, que fazem com que a ordem social não se afunde no caos, apesar do volume crescente de população precarizada.

A passagem ao “liberalismo” se dá de maneira insensível, logo imperceptível, como a deriva dos continentes, escondendo assim seus efeitos, os mais terríveis no longo prazo. Efeitos que se encontram também dissimulados, paradoxalmente, pelas resistências que ela suscita, desde já, da parte daqueles que defendem a antiga ordem extraindo dos recursos que ela encobria, nas solidariedades antigas, nas reservas de capital social que protegem toda uma parte da ordem social presente da queda na anomia (capital que, se não é renovado, reproduz, é destinado ao enfraquecimento, mas cujo esgotamento não será para amanhã).

Mas estas mesmas forças de “conservação”, que são facilmente tratadas como forças conservadoras, são também, em outra relação, forças de resistência à instauração da nova ordem, que podem tornar-se forças subversivas. E se podemos, então, conservar qualquer esperança razoável, o que ainda existe, nas instituições estatais e também nas disposições dos agentes (especialmente os mais ligados a estas instituições, como a pequena nobreza de Estado), de tais forças que, sob a aparência de simplesmente defender, como criticaremos logo em seguida, uma ordem desaparecida e os “privilégios” correspondentes, devem, de fato, para resistir à prova, trabalhar na invenção e na construção de uma ordem social que não teria como lei única a procura do interesse egoísta e a paixão individual pelo lucro, e que daria lugar a coletividades orientadas à busca racional pelos fins coletivamente elaborados e aprovados.

Dentre os coletivos, associações, sindicatos, partidos, como não dar um lugar especial ao Estado, Estado nacional ou, melhor ainda, supranacional, isto é, europeu (etapa na direção de um Estado mundial), capaz de controlar e de impor eficazmente os lucros realizados nos mercados financeiros e, sobretudo, de combater a ação destrutiva que estes últimos exercem sobre o mercado de trabalho, organizando, com a ajuda dos sindicatos, a elaboração e a defesa do interesse público que, queira-se ou não, jamais sairá, mesmo ao custo de algum erro de escrita matemática, da visão de contador (em outro temos, diríamos de lojista) que a nova crença apresenta como a forma suprema da realização humana.

*Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo e sociólogo, foi professor na École de Sociologie du Collège de France

Tradução: Daniel Souza Pavan

Notas

[i] NDLR: em referência a Auguste Walras (1800-1866), economista francês, autor de De la nature de la richesse et de l’origine de la valeur (1848); ele foi um dos primeiros a tentar aplicar a matemática ao estudo econômico

[ii] Erving Goffman, Asiles. Etudes sur la condition sociale des malades mentaux, Editions de Minuit, Paris, 1968.

[iii] Podemos nos remeter, sobre tudo isso, aos dois números da Actes de la recherche em sciences sociales consagrados às “Nouvelles formes de domination dans le travail” (1 e 2), nº114, setembro de 1996 e nº115, dezembro de 1996, e, especialmente à introdução de Gabrielle Balazas e Michel Pialoux, “Crise du travail et crise du politique”, nº114, p.3-4.

TANTERIOR
Fellini, 100 anos

Morte, de Cândido Portinari

Destaque

Na ditadura iniciada com o golpe de 1964 o jornal O Pasquim esteve durante um longo período submetido a censura prévia. O objetivo era amordaçá-lo. Ao final do regime ditatorial, foi retirado da censura prévia. A expectativa dos órgãos de repressão era que o jornal fizesse uma espécie de auto-censura. O Pasquim passou a trazer um selo informando que o jornal estava, naquele momento, sem censura prévia. Servia como um sinal de que, se o selo desaparecesse, seria porque o jornal voltou a ser previamente censurado.

Estou criando, hoje, um post para indicar que a democracia no Brasil morreu em 31/08/2016, quando o Senado Federal resolveu golpeá-la colocando um presidente ilegítimo no lugar da presidente eleita. Trata-se do quadro Morte, de Cândido Portinari, grande artista nacional. Pretendo deixar este post fixado na página principal deste blog, até que tenhamos eleições diretas legítimas e seus resultados sejam respeitados.

Obrigado, Fernando Almeida, pela foto e pela ideia original.

Paulo Martins

image

Os militares se aprontam para as eleições

Sábado, 17 de julho de 2021
Braço forte, e-mail amigo

Os militares se aprontam para a eleição do ano que vem.

Um alto oficial do Exército mandou que fosse distribuído esta semana um questionário elaborado por três instituições privadas e que servirá para “criar condições objetivas para o Brasil proporcionar um futuro de justiça e felicidade ao povo brasileiro”. O e-mail, enviado por um coronel a pedido do general Valério Stumpf Trindade, comandante militar do Sul,  encaminha uma pesquisa de algo chamado de “Projeto Nação”. 

Sim, é exatamente o que você pensou: uma espécie de plano de governo para o país, elaborado com a colaboração de militares da ativa por institutos privados que pertencem, também, a militares. Ele nasceu das mentes de um militar de extrema direita chamado Luiz Eduardo Rocha Paiva e de uma figura da várzea política chamada Thomas Korontai.

Korontai vive em Curitiba,  já tentou ser candidato a presidente da República em 2018 (mesmo sem ter um partido legalmente registrado) prometendo extinguir o MEC, encabeça um tal Instituto Federalista e espalha fake news sobre o voto eletrônico no Brasil e a fraude inventada eleitoral por Donald Trump nos EUA aos poucos seguidores que possui nas redes sociais.

Mas o nonsense se revestiu de alguma seriedade quando foi abraçado pelo Instituto Villas Bôas, criado pelo general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante geral do Exército, autor do tweet que ameaçou o Supremo Tribunal Federal na véspera do julgamento de um habeas corpus de Lula, em 2016. Jair Bolsonaro já disse que foi Villas Bôas quem o elegeu presidente em 2018. 

O site do Instituto Federalista dá uma pista da entrada de Villas Bôas na jogada: “Através do Instituto Sagres, tivemos conhecimento [de] que o general Villas Boas, ex-comandante do Exército, sentia a necessidade e trabalhava no sentido de criar um instituto [e] que entre suas finalidades estava a elaboração do referido projeto. Assim, as três entidades uniram-se com o objetivo de elaborar um projeto de nação para o Brasil”.

 

Os militares e seus negócios

O Instituto Sagres é uma empresa fundada por militares da reserva para ganhar dinheiro em Brasília. Uma entre várias, como, por exemplo, o Instituto Força Brasil, investigado no inquérito das fake news e, desde a quinta passada, suspeito de participar de negociatas na compra de vacinas pelo governo Bolsonaro. 

O Sagres diz fazer “pesquisas em política e gestão estratégica” e formalmente é uma organização da sociedade civil de interesse público, o que lhe garante inúmeras benesses tributárias. Na prática, faz lobby – produziu publicações patrocinadas pela Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais – e vende enigmáticos serviços de consultoria a órgãos públicos, majoritariamente. Também já andou enroscado na operação Satiagraha, que prendeu o banqueiro Daniel Dantas.

Tem também ligações partidárias com a extrema direita: um ex-presidente (e atualmente membro do conselho consultivo) coordenou a bancada legislativa do PSL no Rio Grande do Sul e aventou uma candidatura a prefeito no interior do estado. Mas quem interessa para nossa história é o “diretor de geopolítica e conflitos”: o general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva.

Fã do torturador Brilhante Ustra, Rocha Paiva é dado a chiliques golpistas. No mais recente, de 8 de março passado, afirmou em texto reproduzido pelo Clube Militar que “aproxima-se o ponto de ruptura” após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin que retirou da Justiça Federal de Curitiba os processos contra Lula, “uma criatura deplorável”.

É justamente Rocha Paiva o responsável pela “Concepção do Projeto Nação”, expressa num PowerPoint de causar inveja a Deltan Dallagnol e disponível no site do Sagres. O documento de 11 páginas é um amontado de platitudes que não se aprofunda em coisa nenhuma, mas deixa entrever temas caros à extrema direita. Na projeção otimista, produzirá uma conclusão em fins de 2021, a tempo, portanto, de alimentar uma candidatura presidencial – ou ser vendida a algum incauto (como o governo). 

É para municiar tal conclusão que servirá a pesquisa distribuída por ordem do general Stumpf. E tão ou mais importante que ela é o uso de um canal oficial e do prestígio do Exército para dar propulsão a um negócio que deveria ser privado e correr fora do ambiente da caserna.

Eu telefonei ao coronel Brisolla, o autor do e-mail, para lhe perguntar a respeito. Ele se mostrou contrariado ao saber que o e-mail havia vazado. “Só mandamos para aqueles que são da nossa rede de colaboradores”. Mas acabou falando – talvez até demais.

“[A pesquisa] É para formação de um cenário prospectivo, que vai dar condições para ajudar o público privado e a área pública. Trabalhamos no Exército com planejamento estratégico. Esse instituto [Sagres] quem compôs são militares. E [também o instituto] do general Villas Bôas. A gente tem ligação com esses institutos que trabalham com gestão política e administração”.

Brisolla foi adiante: “Planejamento é para a nação, não para partido político. Somos totalmente contra a política, políticos. Não temos viés ideológico”, garantiu-me, deixando claro qual o viés ideológico e o futuro – nada democrático – que imagina para a nação.

Valério Stumpf Trindade é um general de quatro estrelas que nasceu e fez boa parte da carreira no Sul do país – ou no Terceiro Reich, jargão interno usado para se referir a militares do Terceiro Exército, atual Comando Militar do Sul. É tido como sujeito extremamente conservador. E, como veremos, leal a suas raízes.

O Rio Grande do Sul é um estado onde o Exército sempre teve presença marcante, em tamanho e influência, por causa da fronteira porosa com Uruguai e Argentina. Não à toa, é terra natal dos ditadores Emílio Garrastazu Médici, Artur da Costa e Silva e Ernesto Geisel. Também são gaúchos Eduardo Villas Bôas e outro personagem importante nesse quebra-cabeças, Sérgio Etchegoyen.

Etchegoyen é amigo de infância de Villas Bôas (ambos nasceram em Cruz Alta), de quem se tornou uma espécie de guarda-costas após vê-lo acometido pela triste doença degenerativa que hoje o faz dependente de um respirador artificial. Foi também responsável por revisar e sugerir alterações no livro-entrevista em que Villas Bôas narrou suas memórias.

Além disso, Etchegoyen era chefe do estado-maior do Exército (espécie de número dois da força) quando foi um dos fiadores da derrubada de Dilma Rousseff – por quem passou a nutrir profundo rancor após a inclusão do nome do pai dele no relatório da Comissão Nacional da Verdade – e do governo tampão de Michel Temer. Deixou o posto para assumir o Gabinete de Segurança Institucional, o GSI, recriado por Temer. E em dado momento chamou, para ser seu secretário-executivo, o general Stumpf.

Etchegoyen e Villas Bôas são dois dos pontas de lança do movimento que abraçou o capitão reformado Jair Bolsonaro, dono de uma lamentável ficha funcional na força, para recolocar o Exército na política brasileira. Outro é Augusto Heleno, atual titular do GSI, onde Villas Bôas tem cargo de assessor especial. Tudo em casa.

O governo dos militares deu no que estamos vendo: 540 mil mortes por covid-19, boa parte delas evitável, graças à combinação de burrice, teorias da conspiração, negação da ciência, defesa de tratamentos sem eficácia nenhuma e suspeitas em série de corrupção na compra de vacinas, com uma penca de coronéis – e talvez um general – envolvidos. Mas o e-mail descabido e desavergonhado do general Stumpf indica que o buraco em que atiraram o país aparentemente não fez os militares recuarem de seu projeto político ou os tornou mais zelosos da separação desejável entre negócios públicos e privados. Muito pelo contrário.

Enviei perguntas ao comando-geral do Exército sobre o uso da ascendência e do prestígio da corporação para um projeto político dos institutos privados. Não houve resposta até a hora de enviarmos essa newsletter.

Rafael Moro Martins

Editor Contribuinte Sênior

Quem é o patrão de um brigadeiro?

O brigadeiro da aeronáutica falou. Respondeu à altura. Disse que as autoridades não vão tolerar mais desafio. Quem são as autoridades? Ele. Ele próprio. E disse mais. Disse que tem armas não ameaça. Que quer isto dizer? Vai direto às falas? Usa as armas? Dá tiro?

Ora, brigadeiro. Que história é essa? Quem te deu armas foi o povo brasileiro. Para defender a nação. Não para atacá-la E que diabo é isso de falar em autoridade?

O senhor é mais bonito que os outros? Não aguenta crítica? Não se pode mais falar na sua frente, em público, que tem banda podre nas forças armadas? Por acaso elas são diferentes? São todas puras, limpas, inocentes. Só querem o bem? E também picanha, camarão, leite condensado de sobremesa? Ou fazer como o seu chefe, Jair, que faz um furinho na lata e chupa?

O senhor pode gostar. Tem todo o direito. Mas não com o dinheiro do povo. Prá isso tem salário, todo mês. Grana preta. Acho que se for realmente macho, como quer aparentar, devia por, ao lado de sua declaração decidida, uma foto do recibo que assina, com o seu rendimento mensal.

E esclarecer quem paga a sua moradia, a gasolina que gasta com seu carro e o da sua mulher. Seria bom também esclarecer se Vossa Excelência anda no seu próprio veículo ou também é da Força Aérea. Inclui também soldadinho, vai ver que até cabo, sargento, para dirigi-lo por aí. Prá não gastar as mãos. Ah, agora lembro, vai ver que, como é da Força Aérea, anda de helicoptero e jatinho. Pagos por quem?

Sabemos que é muito ocupado. Tem que bater papo diariamente com os colegas, outros brigadeiros do ar. Refletir sobre a corrupção dos políticos. Principalmente os que acham que Vossas Excelências não passam de um bando de inúteis. A conspirar, a vida inteira, contra a democracia. A passear de graça pelo país. Fora dele também. Nas missões oficiais. Em que conversa com os demais brigadeiros, comandantes das marinhas do continente e do exército, esses últimos sim, são os que mandam mais.

Sei que adoram falar inglês, o seu é macarrônico, mas faz visage para os indígenas aqui deste lado, quando se encontra com os chefes lá de cima. Dos quais tem muita inveja. Eta equipamento bom tem eles. Dá inveja, eu sei.

Brigadeiro, quero informar. Que admiro muito os seus uniformes vistosos. Os cordões dourados. Os botões de ouro (ou será que são de lata pintada?) do seu fino casaco. Aquelas plaquinhas coloridas, que representam os seus cargos, as promoções, as posições que ocupou sem fazer nada. Tudo para impressionar quem? Quanto tempo gasta o senhor para pregar esses botões, as plaquinhas, os cordões? Uma curiosidade, brigadeiro. Não fique zangado, apenas responda. Debaixo do uniforme também tem distintivo. A cueca é colorida ou de listinhas? Sempre quis saber esses detalhes, vamos dizer, íntimos, das grandes autoridades.

E a lista as suas atribuições, brigadeiro? Tem lá uma linha que inclui rosnar, bancar o macho, virar o cano da sua arma para o povo, e atirar? Ou é so fazer cara feia e ameaçar?

Ah, brigadeiro, gostaria tanto de passar uma hora ou duas com o senhor. Numa mesa, talvez até com um chazinho, de erva cidreira, coisa simples. E fazer essas perguntas, num clima de paz. Conseguir as respostas, gravar e publicar. Prá mostrar o que é que o senhor realmente pensa da vida, e saber o que e que a sua mulher pensa do senhor.

Incluiria até perguntar o que o senhor, fez no banheiro, quando se isola, portas fechadas prá dejetar. Ia perguntar se é da mesma cor que o que expele o trabalhador, a dona de casa que sofre prá pagar o gás. O cheiro é o mesmo? Ou é perfumado?

Já que é estudado, queria também aprender. O que acontece com brigadeiro quando morre? É embalsamado, colocado em sarcófago, com muitas resinas. Depois vai prá uma pirâmide? Prá ser estudado daqui a cinco mil anos? Ou vai direto para o céu?

Queria saber o detalhe, a diferença entre o homem do povo e a autoridade. Será que tem?

Não vou fazer como o Felipe Neto, aquele rapaz das redes, bem sucedido. Acho que até melhor que o senhor. Que o mandou para aquele lugar. Sou educado, respeitoso, velhinho. Só sou curioso. Diga ai, brigadeiro. Pode falar. Sem ameaçar.

Do Facebook de Roberto Garcia

Corrupção e o Estado capitalista

Do professor Luis Felipe Miguel

Tem um negócio curioso na forma como o Brasil lida com a questão da corrupção.

A corrupção é aceita como o grande mal do país. É a única mácula indelével para uma pessoa pública.

Taí o caso do Bolsonaro. Pode ser miliciano, genocida, defensor da tortura, nostálgico da ditadura. Pode ser burro e despreparado. Pode liquidar os direitos, destruir o serviço público, afundar a economia, entregar o país. Pode fazer o povo passar fome. Pode ser racista, misógino e homofóbico.

Mas a chapa esquenta mesmo quando aparece a roubalheira.

Ao mesmo tempo, o combate a corrupção se torna uma espécie de Negresco da política: justifica tudo. Justifica o punitivismo. Justifica o desmonte do Estado. Justifica o apoio à Lava Jato, o apoio a Bolsonaro.

No entanto, o mesmo discurso que tanta ênfase dá ao combate à corrupção evita cuidadosamente chegar às suas causas estruturais, que incluem, centralmente, a relação entre o poder público e os capitalistas e a divisão do trabalho político, que condena a maioria da população à posição de clientes do Estado.

Assim como evita, de forma igualmente cuidadosa, associá-la à sua irmã gêmea, a sonegação.

O fato é que a corrupção aparece como o problema número 1, mas só se cogitam soluções parciais e insuficientes: a punição do culpado, como se fossem maçãs podres que estivessem contaminando a cesta. E o surgimento do líder impoluto que por mágica regeneraria o sistema.

Em suma: o discurso do combate à corrupção contribui para piorar, e muito, o debate político. Em vez de buscar as questões estruturais, ele desvia a atenção para as falhas morais.

O caso Covaxin é mesmo muitíssimo grave – e tem a peculiaridade de fundir a corrupção com o descaso pela vida dos brasileiros.

Se ele fragiliza o atual governo, se torna mais difícil a manutenção de seus apoios, se alcança a consciência daquele ser mítico (o bolsonarista “estúpido porém sincero”), em suma, se permite vislumbrar a antecipação do fim deste pesadelo – então, ótimo. Temos mesmo que fazer bastante barulho sobre ele.

Mas é importante não esquecer que o trabalho de educação política – que terá que ser feito, se quisermos um dia edificar uma democracia menos frágil e menos limitada – exige reduzir esta centralidade e colocar a questão da corrupção dentro do cenário mais amplo do funcionamento do Estado capitalista.

Teto de gastos, tripé macroeconômico e baratas

Essa semana, Tabata Amaral, Kim Kataguiri, Marcel van Ratten e outras jovens promessas da política brasileira, além das decepções de sempre, assinaram uma carta, endereçada à equipe econômica do governo, manifestando preocupação com uma questão que, hoje, é, de fato, rigorosamente vital: a manutenção do teto dos gastos. O receio dessa trinca de bons alunos é que o aumento das despesas públicas exigidas pela pandemia, incluindo aí o pagamento do auxílio emergencial, acabe salvando tantas vidas que o teto de gastos pode desabar sobre nossas cabeças.

Em editoriais dos jornalões e nas colunas dos seus escribas de aluguel, não passa um dia sem que se esconjure a possibilidade nefasta de o Estado “intervir” na economia para, de algum modo, atenuar os impactos decorrentes da pandemia. A conta, eles dizem, vai chegar. O remédio, eles dizem, será amargo. Imagino que eles já tenham precificado em dólar o valor de 310 mil vidas perdidas e que eles estejam considerando o fuzilamento em massa como remédio amargo. Ou, para fazer menos barulho, deixar que as pessoas, sem acesso a benefícios monetários assistenciais, morram de fome.

Não há nada mais alucinatório e alienante que o discurso de “salvar economia”. É como se os parâmetros capitalistas que regem o funcionamento da economia fossem as condições naturais de existência das quais a vida humana dependesse. A vida precisa estar a serviço da economia, e, se quiser seguir gozando as extraordinárias bênçãos que ela nos oferece, deve fazer sacrifícios ao deus-mercado. O mercado descontente pode ser tão implacável quanto Jeová no Antigo Testamento.

Essa economia que parece girar por si mesma e à qual devemos servir é, entretanto, operada por grandes agentes econômicos, financeiros, empresariais bem visíveis, aliás onipresentes. A principal estratégia ideológica através da qual esses agentes impõem seus interesses econômicos à sociedade, convencendo-a de que os interesses deles coincidem com os interesses de todos, é justamente esta: representar a economia como uma entidade autónoma, regida por leis próprias, que não podem ser contestadas e às quais devemos nos submeter como se disso dependesse nossa própria vida.

Não é nada tão difícil de fazer, quando se tem toda a grande imprensa reiterando diuturnamente esse discurso e advertindo para o caos devastador que nos assolaria, caso não aceitássemos a palavra da salvação. O teto de gastos, por exemplo, aprovado anteontem, já é tratado, pelos jornais, como uma fatalidade natural.

Zizek disse uma vez que as pessoas acreditam mais na possibilidade do fim do mundo que no fim do capitalismo. De fato, quando o próximo meteoro vier, só restarão de pé o teto de gastos e o tripé macroeconômico. E as barata.

Por Alexandre Arbex

Marinaleda

As paredes brancas cobertas de murais

Perguntando a sua citação de Cristo entre os seus heróis, ele nos explica que vê Cristo como o primeiro comunista. “Cristo era um revolucionário, e assim eles se livraram dele. Cristo o pacifista, Cristo o agitador, o reformador que declarou que o reino de Deus está dentro do homem, não em outro lugar, e certamente não dentro de um papa”.

É esta tradição social cristã, a mesma desenvolvida pela Teologia da Libertação na América Latina, que Gordillo reivindica. Ele insiste que “o cristianismo e o marxismo, o cristianismo e o comunismo são perfeitamente compatíveis”, e reconhece o papel de um elemento mais profundo — pessoal ou espiritual — no humanismo político, demonstrando que, em contraposição aos projetos neofascistas ou da “supremacia teológica”, pode-se reconstruir uma tradição cristã progressista. 

Marinaleda e a Solução Cooperativa

Os sucessos sócio-econômicos da aldeia, como o pleno emprego, salários igualitários de 1200 euros por mês (aproximadamente 4450 reais) em jornadas de 6 horas de trabalho ou a inexistência de polícia fazem-nos pensar sobre como o modelo cooperativo de Marinaleda seria transferível para outras regiões. O modelo cooperativo tem sido acompanhado por um sistema participativo no qual todas as decisões estratégicas do município são tomadas em uma Assembléia Popular, bem como as políticas de gestão de terras e habitação, oferecendo habitação a partir de 15 euros por mês (aproximadamente 66 reais)

O modelo cooperativista não apresenta inviabilidade estratégica. Em vez de canalizar lucros para executivos e acionistas que agregam pouco valor produtivo, uma cooperativa reinveste no capital da empresa, permitindo-lhe prosperar em tempos bons e sobreviver em tempos difíceis. É um modelo que salvaguarda aspirações sociais, econômicas, políticas e culturais conjuntas por meio de empresas de propriedade coletiva e controladas democraticamente.

O conflito entre a gestão e os trabalhadores é minimizado graças à representação democrática e à tomada de decisões, e o exemplo de cooperativas bem sucedidas como El Humoso de Marinaleda pode ser visto em outros lugares – como no caso representativo da cooperativa de Mondragon, a maior do mundo. Localizada no País Basco, norte da Península Ibérica, ela emprega atualmente cerca de 81 mil trabalhadores e realiza um volume de negócio anual de mais de 11 bilhões de euros (aproximadamente 50 bilhões de reais).

No atual declínio da social-democracia, substituída por um neoliberalismo social no contexto espanhol, as cooperativas são um mecanismo capaz de iniciar modelos transformadores de gestão de recursos. O caso de Marinaleda revela o potencial de sucesso destes mecanismos intersetoriais, capazes de enfrentar as desigualdades estruturais resultantes do sistema atual. Num contexto de crise sistêmica, econômica, ambiental, social e política, materializada no ascenso das extremas direitas, estas práticas oferecem formas eficazes de ação coletiva.

No entanto, somente através desta ação coletiva, mobilizada pelas diversas organizações pró-cooperativistas, bem como pelos sindicatos, será possível promover uma consciência social efetiva, capaz de exigir políticas que promovam a cooperativização da economia através de uma série de incentivos fiscais e creditícios

Marinaleda demonstra que uma comunidade dominada pela agricultura familiar terá uma estrutura social mais igualitária e uma vida institucional mais rica, colaborando não só em relações sócio-econômicas bem-sucedidas, como também na geração de vínculos emocionais e psico-afetivos, permitindo que essa gestão seja, como diz Gordillo, “uma forma de educação política e de aquisição de consciência de classe”. 

Gabriel Bayarri é um escritor e antropólogo espanhol

Timothy Ginty é um escritor australiano. Escreve em seu blog, Lives and Times: Writing on the World Around Us.

Scott Arthurson é um escritor australiano.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OUTROSQUINHENTOS

TAGS

AJUSTES FISCAIS, ANDALUZIA, ATAQUE AO ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL, AUSTERIDADE, BEM ESTAR SOCIAL, COMUNISMO, DESAPROPRIAÇÃO, ELEIÇÕES, ESPANHA, PARA SUPERAR UM CAPITALISMO INSUPORTÁVEL, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, REFORMA A

Partido Republicano norte-americano, muito partido, nada Republicano

O Partido Republicano está rachado. Trump implodiu o Partido Republicano. Mas ele não fez isso sozinho.

Existe o Republicano tradicional, conservador, sério nos seus propósitos embora às vezes questionáveis, mas sério, e existe, sob o mesmo guarda-chuva, um saco de gatos ideológico que abriga a ultra direita de Stephen “Steve” Bannon, de Trump, do Klu Klux Klan, da NRA, da QAnon e outras de ideologias similares, que deviam ter sido rejeitadas pelos Republicanos sérios. Essa turma radical se infiltrou e está destruindo o partido.

No Brasil, por exemplo, o PSDB está entregue nas mãos de Dória de um lado e de apoiadores de Jair Bolsonaro do outro. Perdeu sua identidade. O mesmo ocorre nos EUA onde Trump e as seitas do extremismo de direita tomaram parte importante do Partido Republicano. Sarah Palin, do Tea Party, virou uma senhora romântica se comparada às novas estrelas radicais como Banon, QAnon e outras seitas exdrúxulas, que estão tomando o Partido Republicano de assalto. Abrigados no Partido Republicano que finge não enxergá-los, embora antes de serem alçados aos cargos eletivos em nível nacional, tenham feito fama em nível local com suas ideias exdrúxulas como, por exemplo, Marjorie Taylor Greene, simpatizante do QAnon, eleita pelo Estado da Geórgia para a Câmara em 2020.

Os legítimos Republicanos, hoje minoria, correm o risco de desaparecer na esteira da radicalização política norte-americana e da invasão do seu partido pelos bárbaros.

É esse puxadão do Partido Republicano, falso, esse grupo dos invasores, que se recusa a aceitar uma derrota tão cristalina e acachapante nas urnas nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020.

Esses grupos sequestraram o Partido Republicano tradicional e os Republicanos legítimos têm medo das milícias digitais – lá como aqui – da extrema direita neonazista de Bannon e afins. Esses Republicanos legítimos só criticam Trump em off e evitam admitir em público a derrota nas eleições.

Ora, 306 x 232 é um resultado indiscutível. Biden deve alcançar, quando a contagem dos votos for totalmente encerrada em todos os Estados, uma vantagem de 5.5 milhões de votos. Em condições normais, o Partido Republicano já teria admitido a derrota e o presidente derrotado já teria aberto as portas da Casa Branca para o vencedor, especialmente para permitir uma transição planejada e o necessário enfrentamento imediato da nova escalada da pandemia do Corona vírus.

O jogo jogado por Trump e seus seguidores vai deixar um rastro de doentes e infectados, que pode levar ao total de mais de 300.000 pessoas que perderam a luta para a Covid no dia da posse de Biden, em 20 de janeiro de 2021.

Trump parece olhar apenas para seu próprio umbigo. Não inova, não surpreende. Trump sendo Trump, por cima dos mortos empilhados

O que seria um fascista-comunista?

O Brasil pirou na batatinha. Essa era uma gíria antiga, do tempo do saudoso Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto. Stanislaw publicou, entre 1966 e 1968, três livros com o título de FEBEAPÁ – Festival de Besteira que Assola o País, uma coletânea de crônicas baseadas em fatos, nas quais debochava das besteiras praticadas pelas autoridades civis e militares da ditadura. Era tanto material que foi possível publicar três livros em um período de dois anos. Não pode publicar mais, pois faleceu em 1968. Se fosse vivo hoje, poderia publicar uma enciclopédia por trimestre.

Hoje assisti a um vídeo onde manifestantantes bolsonaristas de São Paulo queimavam suas máscaras e gritavam slogans raivosos. Não satisfeitos, tiravam selfies, fotos e gravavam vídeos.

Um prato feito.

Enquanto jogavam suas máscaras no fogo, gritavam slogans contra a vacina, contra as máscaras e contra João Dória (que eles elegeram como prefeito e governador).
Chamavam as máscaras de focinheiras, talvez por experiência. Gritavam fora fascistas, fora fascista-comunista, fora comunistas e abaixo a focinheira.
Fascistas chamando os outros de fascistas eu nunca tinha visto. Xingar uma pessoa de fascista-comunista, também não. O que seria um fascista-comunista? Deve ser um tipo de fascista de esquerda, diferente deles que são fascistas-raíz, de extrema direita, uma espécie de fascista-fascista ou nazi-fascista, sei lá. Li, no Facebook, um bolsonarista chamar empresários da mídia de negócios de comunistas e de extremistas de esquerda. Ora, chamar empresários da imprensa que vivem do lucro, da sonegação de tributos e da exploração da mão de obra de comunistas ou de extremistas de esquerda é tão engraçado quanto aquele bando de malucos reunidos para queimar máscaras e chamar seus inimigos de fascistas-comunistas.
Stanislaw Ponte Petra revira-se no túmulo, às gargalhadas.

Idoso da Havan e o lixão ideológico

Leio, em rede social de um partido alinhado com as causas sociais e direitos humanos, críticas políticas ao dono da loja de departamentos Havan, apelidado Véio da Havan.

Robôs e seguidores de Bolsonaro ampliaram sua atuação nas redes sociais e adotaram a estratégia de invadir páginas e sites progressistas e espalhar fake news ou postar comentários absurdos, disfarçados de preocupação com a democracia ou com a liberdade de culto ou de expressão. Nada mais falso.

Este é o caso de um comentário que, a pretexto de defender o Véio da Havan das justas críticas políticas, compara este senhor a Marielle, alegando que ele está sendo vítima do que ele chama de ódio do bem. Ele dá a entender que esse tal ódio do bem é tão pernicioso quanto o ódio do mal, que eles praticam.

Ora, tornou-se normal no Brasil inverter os termos da equação para confundir a sociedade e obter dividendos políticos. O que era consenso, fruto da luta do ser humano pela sobrevivência em uma sociedade de competição e exclusão, o que foi convencionado como civilizatoriamente correto para evitarmos que os mais fortes e poderosos eliminassem os mais fracos transformou-se, na visão dos mais fortes, em conhecimento e sentimento descartáveis.

A civilização, necessária à convivência em equilíbrio dos seres humanos em uma sociedade cada vez mais integrada e interdependente, foi jogada no lixão ideológico dessa extrema direita bárbara.

Seria a crítica política fundamentada em valores éticos e civilizatórios comparável ao ódio – não precisamos qualificá-lo. Ódio é ódio – que a extrema direita dedica a tudo que é humano?

Claro que não. Por isso, fiz questão de responder ao comentarista que comparou o Véio da Havan a Marielle, como se fossem iguais. Leia abaixo:

Senhor comentarista, se você não vê diferença entre Marielle, uma pessoa que dedicou e perdeu sua vida na luta pelos direitos humanos, sem interesses financeiros e/ou escusos e o Idoso da Havan, uma pessoa que só pensa nos seus interesses financeiros e/ou escusos, financia a divulgação de mentiras contra adversários políticos e financiou ilegalmente campanhas políticas baseadas em fake news (o que é crime aqui e em qualquer país sério), entre outras atrocidades que ele fala e pratica,
deve ser porque o senhor o apoia ou é igual a ele.

E está minha manifestação não é ódio do bem nem elogio ao senhor.

Este meu comentário é uma manifestação política em resposta a um comentário absurdo, disfarçado de preocupação honesta. Ele é, na verdade, uma espécie de lamento, um sentimento que todos temos ao ver que a empatia com as pessoas – e no caso da Marielle e do Anderson, com pessoas que foram brutalmente fuziladas – e o que restava de humano, a humanidade, foram parar em um lixão ideológico que está destruindo o Brasil.

ELEGIA 1938

ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

In: ANDRADE, C. D. Sentimento do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

Resposta a um terraplanista econômico, social e político

Fulano, mesmas respostas e mesmos argumentos do PT. Se valem aqui, deviam valer lá. A grande diferença é um PGR que advoga pró-Queiroz, para livrar a famiglia.

Vocês foram abduzidos e só o tempo irá esfregar a realidade na cara do brasileiro. Muitos sofrerão. Do modo mais cruel: desempregado e passando fome. Alguns continuarão devotos e fiéis, como os seguidores da Pastora Flor de Lis, que estão fazendo um movimento para perdoá-la. Qual religioso que não faz suruba familiar e suingue, não é mesmo? Qual religioso que, para não separar e ofender a Deus, prefere matar o cônjuge?

O empoderamento do anti-civilizatório, a crise de civilização, a falta de empatia com a dor do próximo e o endeusamento do incorreto – política e socialmente – são as pragas do Século XXI.

O Brasil embarcou em uma mentira coletiva, em uma canoa furada. As pessoas recebem sua ração diária de fake news e saem babando ódio e acham que têm solução fácil para os problemas do país.

Acham que basta acabar com a corrupissão e a economia vai deslanchar. Acham que basta acabar com a participação do Estado na economia que a fada madrinha vai bater sua varinha mágica trazer a confiança e os empresários sangue-sugas e sonegadores (política, social e economicamente incorretos) vão ver Deus e, como uma benção, vão investir, “dar” empregos intermitentes ou por conta própria ou sem direitos trabalhistas e o Brasil vai crescer com a velocidade dos delírios do Paulo Guedes.

Ouviram falar, nas aulas de Macroeconomia capitalista, no multiplicador dos gastos públicos, na receita de Lord Keynes e no New Deal norte-americano mas, desonestamente, chamam isso tudo de “Comunismo”. Com o seu terraplanismo macroeconômico pretendem alcançar o crescimento econômico do capitalismo matando os dois principais motores da demanda agregada: Consumo (público e privado) e Investimento público.
Na área política, o governo Bolsonaro está “combatendo” a corrupissão aliando-se aos corrupitos:

  1. já detonou a Lava-Jato e já podou as garras de Dallagnol. Aras, estrategicamente nomeado, fez o trabalho.
  2. Aliou-se ao Centrão de Roberto Jeferson, Waldemar Costa Neto e todos os bichos mais escrotos do Congresso estão na mesma Arca da famiglia Bolsonaro. Até o Temer. Todos cooptados com presidência de órgãos públicos, comissões do Congresso ou com verbas públicas orçamentárias e extra-orçamentárias. Essa corrupissão pode, é para o bem do país. Só não dizem qual país: o país em que nasceram ou o país o qual realmente amam.

Obrigado por deixar a bola quicando. Obrigado pelo espaço.

Desrespeito e genocídio: resposta ao Fulano de Tal

Fulano de Tal, deixar o Ministério da Saúde sem ministro é muito mais mórbido e letal e vocês passam o pano. Fingem que não tem nenhuma consequência. Alguns parvos até elogiam a atuação do ministro da Saúde inexistente. Isto é elogiar a omissão, a incompetência e o genocídio.

Eu, cidadão deste país, que cumpre seus deveres de cidadania, tenho o direito de sentir-me indignado e expor a política genocida implantada pelo governo federal na área da Saúde.

Divulgar o número de recuperados como se fosse mérito do Ministério da Saúde e esconder o número de mortos (seu verdadeiro “mérito”) é a prova cabal do fracasso.

Não é você quem vai cassar meu direito inalienável a expor minha indignação.

Meu objetivo é colocar o dedo na ferida e expor a omissão e a incompetência do governo federal no trato com as vidas humanas. Quem está faltando o respeito com as pessoas mortas é o governo federal que, em vez de ter um Ministério da Saúde a favor do combate ao vírus, dá prioridade ao fim do distanciamento social e desencoraja o uso de máscara (ação deletéria do presidente e de vários dos seus ministros).

Um governo federal que incentiva a normalidade das atividades econômicas em detrimento da vida e faz apologia de um medicamento não aprovado pela Anvisa e pelas autoridades científicas do mundo todo, além de vender ilusão de cura para o povo mais humilde, coloca-se como co-autor das contaminações e mortes. Isto, sim, é mórbido. Isto, sim, é falta de respeito. Isto, sim, é política genocida. Ou, o que vem a dar no mesmo: genocídio pela política.

Quando viu o ministro Mandetta crescer politicamente Bolsonaro, que está em campanha pela reeleição desde a posse, o demitiu no meio da pandemia. O ministro Teich, que participou da equipe de Bolsonaro na campanha, e é médico, foi impedido por Bolsonaro de cumprir as funções esperadas de um ministro da Saúde em meio a uma guerra (pandemia). Colocar no ministério um general que só sabe obedecer e uma equipe gerencial sem qualquer experiência na área de Saúde significou, na prática, colocar Bolsonaro como o verdadeiro ministro da Saúde. Foi o caos. Está comprovado. O mundo assiste estupefato. Estamos destruindo o Brasil e matando as pessoas. A História julgará, como julgou Hittler.

Não chegaremos à Índia queimando caravelas e sua tripulação

Resposta a um comentarista de duas frases prontas que, sem parar para pensar, acha que é possível alcançar a prosperidade econômica de um país arruinando a vida das pessoas e concentrando a renda nas mãos de meia-dúzia de sócios.

Ele não percebe que a Economia é a soma da prosperidade das pessoas e não, somente, de uns poucos agentes econômicos com capacidade para comprar 8/10 horas de tempo de vida de uma pessoa e colocá-la para multiplicar sua (dele) riqueza.

O comentarista tem, obviamente, um nome. Mas, infelizmente, são tantos com a mesma visão estreita e distorcida, que vamos chamá-los de Bozo Neto, representando esse fanático médio, que invadiu as redes sociais, armado com um teclado e a cabeça colonizada por meia-dúzia de chavões e frases vazias.

Leia a seguir.

Paulo Martins

Bozo Neto, você precisa entender que é impossível chegar à prosperidade dos 212 milhões de brasileiros quando se desenvolve uma política econômica que direciona as rendas e os lucros para os 12 milhões do topo da pirâmide econômica/social, concentrando ainda mais a renda e o capital social, negligenciando os 200 milhões de pessoas restantes.

Nenhum capitalismo resiste a uma distribuição de renda tão perversa e desestimulante aos novos negócios. Isto já é consenso no mundo desenvolvido e civilizado.

Um sistema econômico que coloca de um lado uma minoria que é incentivada a produzir bens e serviços e, do outro, consumidores maltrapilhos sem renda para consumir, não pode funcionar.

Em um país uberizado, de pessoas com fonte de renda precarizada, lutando para sobreviver, os fabricantes não conseguem escala de produção para reduzir seus custos de produção pelos ganhos de escala e pela otimização dos seus processos e, portanto, não conseguem entregar produtos com qualidade a custo competitivo.

Sem investimento nas universidades públicas e nos centros de pesquisa e inovação, não teremos tecnologia para enfrentar os concorrentes nem dos países de economia emergente.

Sem um forte investimento em educação (e saúde), teremos u’a mão de obra de baixíssima produtividade.

Na ditadura de 1964 um desses generais que tiraram o serviço militar na presidência da República declarou, se achando o cara mais inteligente do mundo:

“A economia vai bem, mas o povo vai mal”.

É a mesma visão míope de Paulo Guedes e seus cúmplices. Como explicar para esses economistas de porta de cadeia que é impossível a economia ou as finança públicas irem bem se o povo – o verdadeiro destinatário do funcionamento benéfico de um sistema econômico – vai mal?

Como explicar para os fanáticos do Bolsonarismo, com sua visão robotizada baseada em tudo que é incorreto – política/econômica/socialmente – que destruindo as caravelas e os tripulantes não vamos descobrir o caminho marítimo para as Índias?

Eu já sei. A experiência adquirida com as diversas tentativas frustadas nos dizem que é impossível conseguir sucesso nessa empreitada.

Acho que vou deixar que cada um bata com a caravela da sua vida nas pedras ou se choque com um iceberg para que ele entenda, sozinho, pelo exemplo, que não se entrega a direção de um Titanic nas mãos de um capitão que nunca pilotou nem uma piroga.

Quem sabe não acordarão nas águas geladas da Antártida, pelo choque de temperatura?

Compra e venda de monografias, dissertações e teses


Há mais ou menos quinze anos, em uma festa de aniversário, fui apresentado a uma pessoa e, ao mencionar que trabalhava no IPEA, fui questionado se eu conhecia determinado pesquisador. Não lembro o nome deste pesquisador, mas era um pesquisador importante, experiente, com diversos trabalhos publicados no site do IPEA e na internet em geral.

Curioso, perguntei onde essa pessoa trabalhava e como conhecia tal pesquisador. Ela me informou que não o conhecia pessoalmente mas, como era historiadora e trabalhava – seus olhos brilhavam de orgulho – como profissional da área de TCCs e teses, costumava acessar com freqüência a plataforma eletrônica do IPEA. Então, fiquei ainda mais curioso e perguntei no que consistia esse tal “trabalho”. Seria minha interlocutora orientadora de dissertações, teses e TCCs de alguma universidade?

Quanta inocência! Ora, o tal “trabalho” consistia em fazer TCCs, dissertações e teses para alunos sem tempo e/ou sem capacidade intelectual para tal. À medida que a pessoa descrevia o seu “trabalho” nas áreas de história e economia, cresciam minha admiração e minhas dúvidas: como poderia alguém ser capaz de desenvolver uma dissertação de mestrado tendo somente frequentado uma universidade em nível de graduação? Como orientadores e bancas aprovam as dissertações e TCCs desses alunos? Alguém lê?

Resposta da pessoa interlocutora: minhas dissertações e TCCs têm 100% de aprovação. Parecia uma pessoa “normal”, dessas que hoje vestem camisa da CBF, bradam nas ruas contra a corrupção e pedem intervenção militar “constitucional”.

Passados quase 15 anos observo, perplexo, que a prática de comprar e vender TCCs, dissertações e teses se espalhou de tal forma, que nem parece crime.

Tem grupos empresariais estruturados para esta prática nefasta, com publicidade na internet.

Quem compra uma dissertação ou uma tese não é nenhum morto de fome, pois esta “indústria” cobra caro pelo seu produto.

Cocaína é cara porque é muito arriscado atuar neste “mercado” como fornecedor. Igualmente, esse mercado de títulos e diplomas obtidos de forma criminosa é arriscado. Mas, pelo visto, nem tanto quanto a cocaína, pois têm a coragem de publicar anúncios.

Abaixo, apresentamos alguns exemplos de anúncios disponíveis na internet. Tirem as suas conclusões:

“Desenvolva sua Dissertação de Mestrado sem stress. Entre em contato agora! Conforto E Tranquilidade. Atendimento Personalizado. Destaques: Atendimento Personalizado De Alto Nível, Conforto E Tranquilidade”.

“Correções gratuitas e rápidas – Enviamos sua monografia pronta.
Equipe de escritores experientes e profissionais. Solicite agora seu orçamento gratuito. Enviamos monografias inéditas 100% anti-plágio. Pagamento parcelado e seguro. Entrega rápida. Online agora. 100% anti-plágio”.

“Tese de Doutorado e Dissertação de Mestrado: Benefícios ao Comprar – Monografias Prontas ::: A Sua Monografia Aprovada!!! –
3 de set. de 2017 · Um dos benefícios que a pessoa tem ao optar em comprar a sua tese de mestrado pronta, é que ela não correrá o risco de ser reprovada, pois profissionais que desenvolvem esse tipo de trabalho, …”.

“Dissertação de mestrado e tese de doutorado custam R$ 2 mil – 07/11/2005 – UOL Educação – UOL Notícias
7 de nov. de 2005 · Profissionais e estudantes entrevistados pela Folha afirmam que a compra e a venda dos trabalhos são estimuladas por falta de tempo, insegurança e pouco interesse por pesquisa. O advogado …”

“PLÁGIO É CRIME DENUNCIE!
Saiba mais
Não incentivamos ou praticamos o plágio em nossos serviços, por considerá-lo como uma prática indevida e que deve ser sempre repudiada”.

O mais interessante é que os fornecedores dizem abominar o plágio, mas acham perfeitamente normal preparar dissertações e teses sobre qualquer assunto e vendê-las para quem pagar. Mesmo achando normal, prometem sigilo absoluto. Por que seria?

Não demora muito e ainda vai aparecer um analista econômico, desses de porta de cadeia, para argumentar que regulações são prejudiciais porque distorcem o mercado e aumentam o preço dos bens ao tornar sua oferta escassa. Melhor não interferir neste “mercado”.

O Brasil é um país onde são vendidos e comprados TCCs, dissertações e teses e onde agiotas são venerados como donos de bancos.

O Brasil é um país onde um empresário, com dívidas tributárias vencidas e não pagas – conforme denuncia imprensa – veste-se de papagaio e senta-se à mesa com as autoridades máximas da Nação.

No Brasil de hoje, a pessoa nomeada pelo presidente da República para exercer o importantíssimo cargo de ministro da Educação perdeu o respeito da comunidade que lida com educação e não tem mais moral para combater as práticas aqui mencionadas.

No Brasil de hoje, vende-se de tudo. Teses, voto, Amazônia, direitos sobre a água, mãe. Até o próprio país.

Paulo Martins


De Jean Wyllys para Miriam Leitão

De Jean Wyllys para Miriam Leitão:

1) Sou jornalista. Trabalhei quase dez anos em mídia comercial. E uma coisa que sei dos medalhões do jornalismo no Brasil é que são corporativistas e não gostam de ser criticados.

2) Quase toda imprensa comercial no Brasil é historicamente antipetista e muitos dos seus medalhões trabalharam no limite da fake news contra o PT e seus governos.

3) Boa parte da imprensa comercial no Brasil e seus jornalistas medalhões participaram do golpe mascarado de impeachment contra Dilma Rousseff e insuflaram o antipetismo.

4) Boa parte da imprensa comercial brasileira passou pano sobre às violações de direitos perpetradas pela Lava Jato e transformou os medíocres Sergio Moro e Dallagnol em heróis.

5) A Globo News, por exemplo, raríssimas vezes deu espaço a uma perspectiva diferente do problema da corrupção tratado pela Lava Jato com seu justiçamento e desrespeito à prerrogativa de inocência.

6) A maior parte da imprensa comercial empoderou e deu voz a gente do quilate de Joyce Hasselmann e Kinta Katiguria, par ficar só em dois nomes, além de insuflar as manifestações verde-e-amarelas de tom fascista.

7) A maior parte da imprensa comercial praticamente IGNOROU DELIBERADAMENTE a escalada de violência política contra o PT e as esquerdas durante o ano de 2018.
😎 Boa parte da imprensa comercial construiu uma narrativa que equiparava @Haddad_Fernando a Jair Bolsonaro, como se se tratasse de candidatos do mesmo nível. Enquanto amaciava a abordagem sobre Bolsonaro, endurecia o discurso contra Haddad.

9) William Bonner ouviu Bolsonaro mentir sobre o “kit gay” (seu delírio) em cadeia nacional e não lhe desmentiu, tomou a mentira como verdade; e lhe foi bastante ameno.

10) @MiriamLeitaoCom foi obrigada a ler um ponto diante dos ataques de Bolsonaro à Globo, por esta ter apoiado à ditadura, numa das cenas mais constrangedoras já vistas na tevê. Não houve reação espontânea ao elogio do fascista ao torturador!

11) Diante de tudo isso, @MiriamLeitaoCom ainda vem se fazer de “indignada” por eu ter criticado, com respeito, sua tardia conclusão de que Bolsonaro é incompetente e ter dito que ela pavimentou seu caminho até a presidência.

12) Ora, @MiriamLeitaoCom , você pode ser esquecida, mas burra não é: e você sabe que quando disse “você” estava me referindo à imprensa comercial da qual você faz parte, que, sim, pavimentou o caminho de Bolsonaro à presidência.

13) É compreensível que medalhões do jornalismo comercial – uns com talento, outros não – ajam de maneira corporativista e venham me atacar. Não tenho medo de nenhum de vocês: nem dos jornalistas de fato nem dos ratos de redação.

14) O que não vou deixar, @MiriamLeitaoCom , é que pessoas como você na imprensa comercial e os milhões de eleitores que votaram nesse escroque posem de ingênuos ou desavisados em relação ao que ele é sempre mostrou que é. Não vou deixar.

15) Quem chocou o ovo da serpente foram vocês. Assumam seu monstro agora. É mais digno. Nós avisamos. Eu sigo com a minha arma em mente: e a minha arma, @MiriamLeitaoCom e demais colegas da imprensa comercial, é o que a memória guarda.

Fonte: twitter do Jean Willys

Não se iludam: nem os passageiros da primeira classe vão se salvar

Um tresloucado tenente reformado como capitão, indigno de vestir a farda, humilhou os generais lambe-carpete de palácio.

Na essência, nada me surpreendeu. Já vimos este filme antes, com outros atores nos papéis principais: Hitler, Mussolini, Pinochet, Franco, Salazar, Marcos, Massera, Videla, Garrastazu … Todos do mesmo nível de Bolsonaro. Mas, na comparação geral, acho que o time do Brasil como um todo supera os times formados por estes carniceiros.

O único que tem o emprego garantido, Mourão, não falou nada, porque é cúmplice. Mourão estava curtindo o esporro que Bolsonaro estava dando nos outros.

Eu já sabia que eles eram toscos, que eles estavam montando falanges armadas e que eles não estavam nem aí para as mortes que já registramos e para as que vamos registrar.

Eu já sabia.

Mas, mesmo assim, acordei envergonhado de dividir cidadania brasileira com esses monstros morais.

Eles pensam que são os donos do Brasil. Misturam público e privado e falam como se tivessem recebido, por meio do voto de 27% (menos que um terço) da população do país, um mandato para aniquilar os demais 73%.

Na infame reunião ministerial, um grupo de meia-dúzia de genocidas, cada um na sua especialidade criminal – Weintraub, Guedes, Damares, Salles, Pedro Guimarães, Ernesto Araújo – , tendo Bolsonaro como chefe detalhou, em meio a palavrões e ofensas, o plano de extermínio dos demais brasileiros, que eles consideram seus inimigos e indignos de viver.

Expuseram seus planos de destruição e aniquilação dos seus inimigos, a devastação do meio ambiente e a criação de uma falange armada para uma guerra que pretendem fomentar.

Babaram sua gosma odiosa nas gravatas, esbugalharam os olhos e deixaram evidentes aos olhos da Nação e do mundo que o poder no Brasil está nas mãos de um grupo de desequilibrados e de despreparados intelectual e emocionalmente.

Não tem chance dessa zorra levar o Brasil para um porto que seja seguro. Este titanic está destinado a bater no iceberg e nem os passageiros da primeira classe vão se salvar.

Nem os passageiros da primeira classe vão se salvar.

Gerações marcadas, Brecht

Bem antes de sobre nós aparecerem os bombardeiros

Eram já inabitáveis

Nossas cidades. Canalização nenhuma

Nos livrava da imundície.

Bem antes de cairmos em batalhas sem sentido

Ainda andando por cidades ainda intactas

Nossas mulheres

Eram já viúvas

E nossos filhos órfãos.

Bem antes de nos lançarem em covas aqueles também marcados

Éramos sem alegria. Aquilo que a cal

Nos corroeu

Já não eram rostos.

A marcha dos camisas pardas

Editorial de O Estado de São Paulo. A Marcha dos Camisas Pardas. 09/05/20

A marcha dos camisas pardas
Um grupo de brucutus apoiadores de Jair Bolsonaro armou acampamento para organizar invasão ao Congresso e ao STF
Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 03h00

Um grupo de brucutus apoiadores do presidente Jair Bolsonaro – chamados “300 do Brasil” – armou acampamento no entorno da Praça dos Três Poderes para organizar uma invasão ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Os camisas pardas do bolsonarismo, que agora vestem verde e amarelo e roupas camufladas, programam uma marcha sobre Brasília neste fim de semana. “Nós temos um comboio organizado para chegar a Brasília até o final desta semana. Pelo menos uns 300 caminhões, muitos militares da reserva, muitos civis, homens e mulheres, talvez até crianças, para virem para cá e darmos cabo dessa patifaria”, ameaçou Paulo Felipe, um dos líderes da milícia acampada, em vídeo divulgado em uma rede social.

A palavra “patifaria” não foi escolhida ao acaso. Resulta de uma irresponsável incitação. No dia 19 de abril, dirigindo-se a apoiares reunidos em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, o presidente Jair Bolsonaro exortou a súcia que pedia o fechamento das instituições democráticas a “lutar” com ele. “Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. Acabou a patifaria!”, bradou Bolsonaro, como se estivesse prestes a descer da Sierra Maestra, e não de uma caminhonete transformada em palanque.

Segundo o portal Congresso em Foco, outro que está por trás da gravíssima ameaça de assalto ao Congresso e à Corte Suprema é Marcelo Stachin, um dos líderes da campanha de formação da Aliança pelo Brasil, partido que o presidente Jair Bolsonaro pretende criar para chamar de seu. Ainda não se sabe quando, e se, a Aliança pelo Brasil cumprirá os requisitos legais e será autorizada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Fato é que a agremiação está muito mais próxima de um movimento golpista do que de um partido político.

Nos regimes democráticos, em especial em democracias representativas como é o caso do Brasil, os partidos políticos são as organizações por meio das quais os cidadãos participam da vida pública para contribuir na construção daquilo que em ciência política se convencionou chamar de “vontade do Estado”. Como se afigura, a Aliança pelo Brasil pretende o exato oposto, qual seja, eliminar qualquer possibilidade de diálogo para a formação daquela vontade. Assumindo a ação direta, como a criminosa intentona em Brasília, assemelha-se à tropa de segurança do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, criada em 1920 e precursora da temida Sturmabteilung (SA), a Seção de Assalto de triste memória. Quem duvida que veja as imagens das agressões dos camisas pardas a enfermeiras e jornalistas.

Na essência do movimento de formação da Aliança pelo Brasil, defendido e liderado por alguns dos que estão acampados em Brasília a ameaçar o Congresso e o STF, estão todos os elementos que identificam um movimento golpista, e não um partido político: a evocação a um passado mítico e glorioso; a propaganda (não raro disseminando informações falsas ou distorcendo fatos); o anti-intelectualismo; a vitimização de Jair Bolsonaro, tratado como um bom homem cercado de “patifes” por todos os lados, o “sistema”; o apelo a uma noção de “pátria” por meio da apropriação dos símbolos nacionais; e, por fim, a ação pela desarticulação da União e da sociedade. O que pode ser mais desagregador do que um movimento que ameaça partir para a ação violenta com o objetivo de fechar a Casa de representação do povo e a mais alta instância do Poder Judiciário? Não por acaso, o STF tem despertado especial revolta entre os camisas pardas do bolsonarismo. Classificada pelo tal Paulo Felipe como uma “casa maldita, composta por onze gângsteres”, a Corte Suprema tem se erguido em defesa da Constituição contra os avanços autoritários do presidente Jair Bolsonaro.

Um ato golpista desse jaez, cujos desdobramentos são imprevisíveis, é repugnante por si só e merece imediata condenação por todas as forças amantes da lei e da liberdade no País, em especial as Forças Armadas, citadas nominalmente tanto pelo presidente como por alguns dos líderes da ação golpista. É ainda mais acintoso porque toma justamente o local que representa a essência desta República para urdir um ataque aos Poderes Legislativo e Judiciário. Terá esse episódio mais uma vez o apoio explícito do chefe do Poder Executivo?

Aldir Blanc

ALDIR BLANC “Peço desculpas aos que têm me procurado hoje. Não tenho condições de falar. Aldir foi mais do que um amigo pra mim. Ele se confunde com a minha própria vida. A cada show, cada canção, em cada cidade, era ele que falava em mim. Mesmo quando estivemos afastados, ele esteve comigo. E quando nos reaproximamos foi como se tivéssemos apenas nos despedido na madrugada anterior. Desde então, voltamos a nos falar ininterruptamente. Ele com aquele humor divino. Sempre apaixonado pelos netos. Ele médico, eu hipocondríaco. Fomos amigos novos e antigos. Mas sobretudo eternos. Não existe João sem Aldir. Felizmente nossas canções estão aí para nos sobreviver. E como sempre ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las. Hoje é um dos dias mais difíceis da minha vida. Meu coração está com Mari, companheira de Aldir, com seus filhos e netos. Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mvar de tristeza, uma razão pra viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui pra fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio.”

João Bosco – 04/05/2020

Neoliberalismo e pandemia

Texto do professor André Coelho

O Covid-19 não é fabricado, mas a pandemia resulta, em parte, de escolhas humanas. Sem os cortes, no mundo em geral e no Brasil em particular, de investimento na saúde pública, na pesquisa científica pública e nas redes de previdência, seguridade, alimentação e assistência, teríamos mais leitos, mais respiradores, mais medicamentos, mais profissionais de saúde, mais aparatos de proteção, pesquisas mais avançadas de vacinas e remédios, uma população com imunidade mais forte e uma banda mais larga de isolamento e quarentena, com menos trabalhadores precarizados tendo que arriscar-se à doença e à morte para sustentar sua miséria e desproteção.

Sem a precarização do trabalho, o enfraquecimento dos sindicatos, a privatização do cuidado, a financeirização da sobrevivência e esvaziamento da lógica pública de cooperação e solidariedade, teríamos evitado muitas das mortes que já ocorreram e poderíamos evitar muitas mais das que ainda se seguirão.

A crise política é, sim, inegavelmente, uma componente central da crise sanitária. Mas a crise política não se resume à crueldade e à incompetência de quem está no poder agora (embora isso, claro, conte bastante).

Ela é a crise de um modelo social e de uma forma de vida com nome bem explícito: Neoliberalismo.

Desligar-se do fascista da vez para agarrar-se ao próximo neoliberal é só trocar o rosto e o sotaque do ceifador de vidas, sem salvar nenhuma dessas vidas. É ajustar a skin com que se prefere que avance o genocídio.

É preciso trocar não só a pessoa, mas o modelo. É preciso imaginar e desejar outra forma de vida em conjunto e mobilizar-se para realizá-la. Construir sobre a verdade desnudada de nossa interdependência a política que nos liberte de nossa solidão melancólica e nos cure da desigualdade perversa. Sonhar alto para nos recuperarmos de a quão baixo fomos lançados. Redescobrir a força da união que transforma.

É só nesse lugar, frágil e belo, do último fontanário de nossa humanidade, que se encontram a tragédia e a esperança.