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Que o Brasil supere, de vez, a passagem pelo inferno

MIA COUTO

Aconteceu a mim o oposto do que sucedeu com Pedro Alvares Cabral: encontrei você, Brasil, pensando que era a minha própria terra. Não tive nem barco, nem mar. Quem viajou foram vozes brasileiras que entraram na minha casa como se não houvesse porta. Essas vozes falavam de uma nação distante que guardava África nas suas raízes e misturava África nas suas sementes.

Na minha varanda, desembarcou o mar de Dorival Caymmi, desembarcaram os versos de João Cabral, de Bandeira, desembarcou a prosa de Drummond, Amado, Machado, Rosa e Graciliano. Havia um idioma que era o de Moçambique, mas que já era um outro. E havia um lugar que me abraçava com os meus próprios braços. Esse parentesco era motivo de orgulho dos moçambicanos que, enchendo o peito, avisavam o mundo: olha que temos um irmão que se chama Brasil!

Em 1975, já Moçambique livre e independente, chegaram dezenas de brasileiros que fugiam do regime militar que se tinha instalado à força em Brasília. Esse país que eu idealizara como um lugar de afeto e harmonia era, desde 1964, governado pelo ódio, pelo medo e pela violência. Os brasileiros que buscavam refúgio político em Moçambique eram pessoas tão generosas, solidárias e afáveis e era difícil aceitar que a maior parte deles tivessem sido perseguidos, presos e torturados.

Finalmente, em 1987, viajei para o Brasil, dois anos depois da democracia ter sido reinstalada. Foi como encontrar finalmente um pretendente com quem, durante anos, namorou por carta. Neste caso, não houve desilusão. Pelo contrário, a paixão pela gente e pela terra brasileira não me deixou ver a ruga e a mácula. Encontrei um Brasil que eu tinha romantizado.

Sob essa capa de doçura e afabilidade havia uma outra dimensão de violência que era filha e neta da brutalidade colonial. Eu tinha visitado você, Brasil, como aqueles sujeitos que clamam serem cegos para raças e, desse modo, não são capazes de ver o racismo.

Essa cegueira seletiva fez com que, décadas depois, me surpreendesse o fato de os brasileiros terem elegido para presidente um homem que declara sentir saudades da ditadura e que celebra como referência moral um torturador no regime militar. Um presidente que substitui o diálogo pela ameaça das armas e que manifesta a maior indiferença perante a morte e o sofrimento dos seus compatriotas. Houve, admito, um Brasil que foi mais sonho do que realidade. Mas este você de hoje é um pesadelo bem real.

O meu maior desejo é que os brasileiros superem de vez e para sempre esta sua passagem pelo inferno. O Brasil que ganhou o respeito do mundo não pode ser representado senão por alguém que celebra a vida e que defende o tesouro maior da nação brasileira: a infinita diversidade do seu passado e pluralidade do seu futuro.

Não é apenas um desejo pessoal. E uma certeza: você vai se levantar, vai sacudir a poeira e vai dar a volta por cima.

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Como fabricar idiotas úteis

Do filósofo alemão Günther Anders, 1956.
′′Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento coletivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento limitando suas habilidades biológicas inatas…
Em seguida, o acondicionamento continuará reduzindo drasticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar. É necessário que o acesso ao conhecimento se torne cada vez mais difícil e elitista… que o fosso se cave entre o povo e a ciência, que a informação dirigida ao público em geral seja anestesiada de conteúdo subversivo.
Especialmente sem filosofia. Mais uma vez, há que usar persuasão e não violência direta: transmitir-se-á maciçamente, através da televisão, entretenimento imbecil, bajulando sempre o emocional, o instintivo. Vamos ocupar as mentes com o que é fútil e lúdico. É bom com conversa fiada e música incessante, evitar que a mente se interrogue, pense, reflita.
Vamos colocar a sexualidade na primeira fila dos interesses humanos. Como anestesia social, não há nada melhor. Geralmente, vamos banir a seriedade da existência, virar escárnio tudo o que tem um valor elevado, manter uma constante apologia à leveza; de modo que a euforia da publicidade, do consumo se tornem o padrão da felicidade humana e o modelo da liberdade.
Assim, o condicionamento produzirá tal integração, que o único medo (que será necessário manter) será o de ser excluído do sistema e, portanto, de não poder mais acessar as condições materiais necessárias para a felicidade. O homem em massa, assim produzido, deve ser tratado como o que é: um produto, um bezerro, e deve ser vigiado como deve ser um rebanho. Tudo o que permite adormecer sua lucidez, sua mente crítica é socialmente boa, o que arriscaria despertá-la deve ser combatido, ridicularizado, sufocado…
Qualquer doutrina que ponha em causa o sistema deve ser designada como subversiva e terrorista e, em seguida, aqueles que a apoiam devem ser tratados como tal.′′

  • Günther Anders, “A obsolescência do homem′′, 1956
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Atacar Sérgio Moro é uma boa estratégia?

Carol Proner

As últimas pesquisas mostram que Sérgio Moro não convence. Mesmo com padrinhos influentes na mídia, que o sustentam há anos, como se vê agora na sua enésima capa da Veja, o ex-juiz não decola e frustra os planos da terceira via. Como tal, opinam alguns, mereceria ser ignorado. No campo jurídico esse impasse do cômputo político também aparece, de que críticas podem evidenciá-lo e, ao fim, beneficiá-lo de forma inversa.
O dilema se instalou no meio jurídico após Moro, via twitter, recusar um convite do grupo Prerrogativas para um debate a respeito da Lava Jato. A recusa reavivou uma enxurrada de mensagens e artigos do grupo lembrando da conduta do ex-juiz na chefia da operação farsesca que abalou o curso natural da democracia brasileira.
É difícil esperar que juristas moderem suas críticas porque levamos anos dizendo a mesma coisa e é exasperante que o ex-juiz que feriu gravemente os interesses brasileiros tenha o descaramento de se candidatar. Aliás, essas mesmas críticas foram as que, muito antes da Vaza Jato, sempre identificaram no juiz a intencionalidade de condenar Lula sem provas e de capitanear um novo processo penal no Brasil, imediatamente compreendido pelos especialistas como um processo penal de exceção.
Faço um testemunho do dia em que a sentença condenatória do Triplex do Guarujá foi publicada, um dia trágico para o direito brasileiro. Era uma quarta-feira, 12 de julho de 2017, quando o professor Juarez Tavares me telefonou dizendo que deveríamos nos reunir imediatamente para avaliar a longa sentença, pois à primeira vista lhe parecia grave. Fomos para o escritório e ali, acompanhados dos professores Gisele Cittadino, Gisele Ricobom e João Ricardo Dornelles, decidimos organizar um livro-denúncia contra as aberrações jurídicas prolatadas por Sérgio Moro numa decisão de 217 páginas que é um documento ímpar do arbítrio judicial no Brasil.
Após extenuante trabalho de revisão e diagramação, o livro foi publicado menos de um mês depois da sentença e o resultado foi inesperado. Recebemos 103 artigos de 122 juristas que esmiuçaram o procedimento esclarecendo as regras efetivamente em vigor e concluindo, em uníssono, que se tratava de uma decisão injusta e ilegal.
Portanto, um mês após a decisão, já havia um livro com farto matéria técnico e acadêmico de uma centena de articulistas que fundamentavam a intencionalidade condenatória de Moro contra Lula.
Importante notar que muitos dos autores jamais votariam em Lula ou teriam qualquer relação com a esquerda partidária. O que convocou a todos foi a percepção de perigo iminente, de que poderia ser firmado grave precedente de atribuir a um réu a condenação por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro a partir de fatos indeterminados com a justificativa de que era necessário combater a corrupção a qualquer preço. Em síntese, era o power point do Dallagnol tornado sentença.
Logo na apresentação da coletânea, o jurista Geraldo Prado destacou que o juiz recorreu a critérios de avaliação que convertem o ordinário em exceção: “O raciocínio condenatório que se apoia na exceção, recorre retoricamente a modelos jurídicos estrangeiros e traduz indevidamente conceitos penais – como salta aos olhos na condenação do ex-presidente por corrupção – fazendo letra morta da advertência da impossibilidade de transplantes do gênero, haveria de provocar vívida reação entre estudiosos do direito”.
O livro foi traduzido ao inglês e ao espanhol e motivou lançamentos em mais de 40 cidades no Brasil e no exterior, eventos levados pela Frente Brasil de Juristas pela Democracia, que depois viria a se institucionalizar na forma de Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD). Ali também se consolidava o papel do grupo Prerrogativas que, naquele momento, ainda confiava que os tribunais fariam justiça revertendo a aberrante decisão.
Poucos meses depois, e mesmo com todos os apelos e recursos impetrados pela ciosa defesa técnica, o acórdão do TRF4 confirmou a sentença contra Lula e deu razão às insinuações de que a Lava Jato fazia parte de uma estratégia maior de desestabilização política em curso no Brasil.
As escutas de Walter Delgatti ainda nem eram conhecidas quando lançamos, em maio de 2018, outro livro-denúncia, “Comentários a um acórdão anunciado”, organizado pelo mesmo grupo. Lembro-me que, às vésperas da decisão que possibilitaria a aplicação da pena antecipada de prisão a Lula, vivemos, Gisele Cittadino e eu, uma experiência incomum para professores de direito. A palestra que deveríamos proferir em Porto Alegre tinha como palco o carro de som da CUT estacionado em frente ao TRF4 e lá fomos nós, bastante surpreendidas e tímidas a princípio, mas logo entendendo que a luta pela presunção de inocência não estava nas academias de direito, mas nas ruas, e então soltamos a voz no megafone em direção às paredes moucas do Tribunal.
Essas são apenas algumas memórias entre tantas que vivemos, entre outros livros que lançamos depois e que fazem recordar a necessidade de denunciar a farsa jurídica que estava em curso e que prosperou graças à conivência dos tribunais superiores e da imprensa que hoje apoia o candidato Moro.
Cada um de nós do campo jurídico é capaz de lembrar onde estava no momento em que o habeas corpus a favor de Lula foi negado, abrindo alas para a espetaculosa prisão efetivada no Sindicado dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo. Ali, assim como nas decisões anteriores, nós fomos abatidos como juristas na defesa da Constituição e da democracia.
Com as revelações da Vaza Jato, os detalhes sórdidos da farsa jurídica tornaram-se finalmente conhecidos, embora só tardiamente reconhecidos pelo STF. Descobrimos que o MPF de Curitiba, liderado por Dallagnol, operava uma espécie de organização criminosa em conluio com Moro e integrantes da Polícia Federal, praticando ilegalidades no esquema de cooperação internacional com autoridades americanas. Com o passar do tempo e as revelações divulgadas, também percebemos que os integrantes do conluio tinham pretensões políticas, de formar o partido da Lava Jato, o que agora se confirma com a pré-candidatura de Moro. A mera candidatura de Moro, acompanhada por um livro autobiográfico que é pleno de cinismos e mentiras, é a demonstração de que a farsa ainda não acabou.
Os meandros da operação não são totalmente conhecidos e as consequências da Lava Jato ainda precisam ser mensuradas, mas o que está cada vez mais evidente é que a intencionalidade do ex-juiz que condenou Lula e o tirou da corrida eleitoral de 2018 vai além da saga contra o Partido dos Trabalhadores. Seja estagiando como Ministro de Jair Bolsonaro ou atuando como advogado em firma estadunidense, as conexões de Sérgio Moro com órgãos de inteligência daquele país sempre foram prioridade.
Nesse sentido, nem que seja por estratégia pedagógica, acredito que os integrantes do grupo Prerrogativas, do qual faço parte, e também da ABJD, do MP Transforma, da AJD e de tantas outras entidades que reúnem defensores das garantias jurídicas, devem sim seguir denunciando as atitudes perversas de um ex-servidor público que tem como traço de personalidade a perfídia.
Sérgio Moro desmereceu a toga para perseguir adversários políticos beneficiando interesses próprios quando não obscuros. Como Ministro, defendeu o excludente de ilicitude e outras teses punitivistas. Como advogado, traiu a profissão atuando, num evidente conflito de interesses, em processo de recuperação judicial no qual foi o juiz.
Acertam também os que o criticam em nome da memória histórica e do direito à reparação. Se é verdade que fomos vítimas de um golpe de novo tipo, menos ostensivo, híbrido, também é verdade que precisamos de algum tipo de justiça de transição para seguir adiante, pois são inúmeras suas vítimas diretas e indiretas.
E se Moro pretende se candidatar à Presidência depois de tudo o que fez, deve ser exposto por inteiro à luz dos holofotes.”

(Carol Proner é advogada, doutora em direito, membro do Grupo Prerrogativas e da ABJD)

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Brasil: seguindo a matriz

Não tem a mínima chance de dar certo com Guedes e Bolsonaro, se o certo for um futuro para as pessoas no Brasil com acesso à Saúde, Educação, emprego digno, paz social, equilíbrio econômico e meio ambiente limpo, ou seja, vida digna para todos, sem distinção de cor, sexo e classe social.

Eles estão implementando uma política econômica contracionista, austericida, que desvia recursos da maioria da população e os transfere para o Estado e para um grupo pequeno de empresários oligopolistas.

Na ditadura, que começou em 1964 e desabou podre em 1985, cheia de cupins, gafanhotos, tortura, assassinatos e corrupção, um daqueles generais que eram nomeados presidentes pelos seus amigos de farda declarou, perplexo, que: “a Economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Esse general nunca aprendeu uma regra básica, simples: se o povo vai mal, o Estado e o mercado (que é o que eles chamam de Economia) não podem ir bem. Guedes e Bolsonaro repetem exatamente o mesmo erro dos generais da ditadura: estão alheios à realidade que os cerca. Fingem não ouvir os apelos e insistem em ideias ultrapassadas que levaram outros países ao caos social e econômico.

Alguns generais ainda hoje, em pleno ano de 2020, demonstram um descolamento da realidade e dos fatos que assustam qualquer cidadão minimamente preocupado com o futuro do Brasil. Um desconhecia o que era o SUS, mesmo tendo sido nomeado ministro da Saúde e outro, que exerce a função de vice-presidente, elogiou o mais produtivo e sanguinário dos torturadores da ditadura de 1964 no Brasil.

Vai demorar um pouco para as pessoas sentirem na pele que suas vidas prioraram.

Quando acordarem, corremos o risco de parte desse povo, contaminada pelas notícias falsas e tomada pelo ódio, se torne ainda mais radical e comece a assassinar, à luz do dia, aqueles que ela considera seus inimigos, pois está armada e organizada em falanges e milícias.

Nos Estados Unidos foram descobertos pelo FBI, e presos, treze integrantes de uma milícia paramilitar neonazista que planejava sequestrar a governadora democrata de Michigan Gretchen Whitmer e outras autoridades do estado antes das eleições presidenciais de novembro próximo. O plano envolvia, ainda, um “julgamento por traição” contra a governadora democrata, nos moldes do grupo Estado Islâmico.

Eles não estão brincando. Nós não podemos fingir não ver.

Fontes da notícia: G1, nbcnews, CNN, BBC.

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O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM

O SÉCULO XXI PEDE PASSAGEM
Adhemar Bahadian
Informo o passamento do século XX, os cem anos mais amargos da modernidade. Como ainda está estrebuchando, seria mais certo dizer cento e vinte anos, porque até hoje chegam as pragas que periodicamente o infestaram.
Em 1914, nossos avós viveram a primeira guerra mundial. Em 1944, nossos pais morreram nas terras da Europa. Em 1964, sobrevivemos a uma ditadura militar. A partir dos anos 70, nos intoxicamos com o alucinógeno do neoliberalismo e em 1991 nos embebedamos em homenagem ao fim da história pela fantasia de uma globalidade dividida por profunda desigualdade social.
Agora, quando a história parece repetir-se e desaba sobre nós uma variante ainda mais malévola que a gripe espanhola, carro fúnebre do morticínio da primeira guerra, teremos a oportunidade de nos recriarmos? A história não se repete, os erros humanos é que se multiplicam, quase sempre em torno de nossa incapacidade de construirmos um mundo melhor.
Este coronavirus, queiramos ou não, nos transformará. Não há economia que dele sairá imune. Não há ideologia política que depois dele nos fará reconstruir um mundo carcomido por falácias e desfigurado por uma profunda injustiça entre países e, dentro deles, entre irmãos de sangue. Só o mais obtuso dos seres deixará de perceber que esta virulência do coronavirus nada mais é do que a metáfora de nossa vida dita humana, em que nos entre-devoramos tangidos pelas piores pulsões de nossos instintos e que, por isto mesmo, chamamos pulsão de morte.
Se hoje nos assusta o ataque sub-reptício de um vírus, nos deveriam apavorar as barbaridades dos poderosos deste mundo e suas máquinas de guerra ou de empobrecimento.
Tanto na primeira guerra quanto na segunda tivemos estadistas que nos propuseram mundo mais solidário. Mas tanto as ideias de Wilson e a Liga das Nações quanto o projeto de Roosevelt e as Nações Unidas já nasceram, a primeira, debaixo da insensatez da Paz de Versailles- berço sangrento de Hitler- e a segunda no rastro de fogo e horror de Nagasaqui e Hiroshima.
Terminada a guerra e desmantelados os sistemas coloniais, iniciamos uma corrida armamentista que abarrotou de ouro cofres públicos e privados e o imperialismo econômico substituiu com honras o pacto colonial.
Tivemos o desplante de culpar os escravos por sua condição abjeta. Fomos intolerantes a cor de pele, a religiões que não adoravam os nossos deuses e bestialmente erigimos altares em que se exibem os ricos e se ajoelham os pobres. Criamos a sociedade da intolerância e demos a ela o simpático disfarce de sociedade da abundância. Inscrevemos em moeda falsária, a sacrílega admoestação de que “in God we trust”.
A partir dos anos 60, abatemos a tiros líderes e mergulhamos em guerras que muito antes de nos vencerem talharam em nossos cânticos “de um mundo livre” a marca de ferro em brasa da hipocrisia.
E em 2008 desnudamos nossas mais deslavadas mentiras e apropriamos hipotecas de gente honrada em nome da cobiça e do canibalismo financeiro. Enterramos poupanças em areia movediça e transformamos sonhos em ilusões amargas antes de perdidas. E de tudo fizemos um caldo de cultura cozinhado no ódio e na mais absoluta indiferença à sorte de milhões de irmãos espalhados pelos quatro continentes e, pelos quatro, rejeitados ou expulsos. Jogamos literalmente milhares de irmãos aos ventos e às marés.
Fizemos da cena política um picadeiro. Elegemos, por ignorância ou míseras ideologias, estadistas de papelão, mágicos de oz das terras do faz de conta e nos alegramos com os coliseus modernos em que a violência se confunde com o entretenimento e desta espúria combinação surgem os grandes líderes que nos apontam os caminhos das guerras, da cobiça e do desrespeito.
Nossas cidades se tornaram armadilhas ardilosas e imensos covis. Andamos por elas como se atravessássemos zonas desmilitarizadas ou campos minados em que a cada movimento suspeito pode surgir o aço da lâmina ou o fogo da bala. Perdida ou não.
Voltamos às cavernas e nos olhamos uns aos outros com o olhar da suspeita e da desconfiança. Passiva e bovinamente acatamos os conselhos desavisados de nossos líderes a nos sugerirem comprar armas de grosso calibre e andarmos armados de destemida arrogância.
Somos vítimas de uma combinação canhestra em que a ignorância se associa à ideologia e aprofunda a pobreza e o desnível social, sempre a nos enganar com um canto de sereia marcial.
Nesta hora em que nosso eleito desrespeita cotidianamente a vida e o futuro de nosso povo, agarrado como craca nos cascos de um navio a pique, mais do que revolta, surge nos homens de bem uma profunda vergonha de termos compactuado com a mentira e a ideologia.
Hoje, parte da sociedade brasileira é vítima de sua própria cegueira. De mãos dadas com seu carrasco-redentor caminha impotente para sua hora final. Docilmente, apesar de alertada pelo próprio carrasco de que sua salvação depende apenas de sua determinação em salvar-se.
Talvez nossa efetiva sobrevivência comece no dia em que levarmos a sério esta frase que lhe escapou das pequenas e ainda não cerradas frestas de sanidade.
Tomemos o destino em nossas mãos. E enfrentemos o século XXI com a humildade que ele nos impõe e com a coragem que a vida nos exige.

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A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu

A essência do neoliberalismo, por Pierre Bourdieu.
12/03/202
Os economistas têm suficientes interesses específicos para contribuir decisivamente para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Apartados do mundo econômico e social efetivo, participam e colaboram para o desmantelamento das instituições e dos coletivos, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror

Por Pierre Bourdieu*

Seria o mundo econômico, verdadeiramente, tal como insiste o discurso dominante, uma ordem pura e perfeita, dispondo implacavelmente a lógica de suas consequências previsíveis e prestes a reprimir todos os seus desvios com sanções que inflige, seja de maneira automática, seja – com maior exceção – pelo intermédio de seus braços armados, o FMI ou a OCDE, e das políticas que eles impõem: diminuição do custo da força de trabalho, redução das despesas públicas e flexibilização do trabalho? E se, na verdade, não se tratasse apenas da colocação em prática de uma utopia, o neoliberalismo, assim convertido em “programa político”, mas uma utopia que, com a ajuda de sua teoria econômica, passa a pensar a si mesma como a descrição científica do real?

Esta teoria tutelar é uma obra de pura ficção matemática, fundada, desde o princípio, numa formidável abstração: essa que, em nome de uma concepção tão estreita como estrita da racionalidade identificada à racionalidade individual, consiste em pôr entre parêntesis as condições econômicas e sociais das disposições racionais e das estruturas econômicas e sociais que são a condição de seu exercício.

Para compreender o tamanho desta omissão, basta pensar no sistema de ensino, que nunca é considerado enquanto tal num momento em que possui um papel determinante na produção de bens e serviços, assim como na produção dos produtores. Deste pecado original, inscrito no mito walrasiano[i] da “teoria pura”, brotam todas as falhas e deficiências da disciplina econômica, e a fatal obstinação com a qual ela se apega à oposição arbitrária, que ela mesma faz existir, por sua própria existência, entre a lógica propriamente econômica, fundada na concorrência e portadora da eficiência, e a lógica social, submetida à regra da igualdade.

Dito isso, essa “teoria” originalmente dessocializada e deshistoricizada tem, hoje mais do que nunca, os meios de se fazer verdadeira, empiricamente verificável. Na verdade, o discurso neoliberal não é um discurso como os outros. À maneira do discurso psiquiátrico nos asilos, segundo Erving Goffman[ii], trata-se de um “discurso forte”, que só é tão forte e difícil de combater justamente porque tem a seu favor todas as forças de um mundo de relações de força que ele mesmo contribui para produzir enquanto tal, especialmente ao orientar as decisões econômicas daqueles que dominam as relações econômicas e, assim, somar sua força própria, propriamente simbólica, a estas relações de força. Em nome deste programa científico de conhecimento, convertido em programa político de ação, produz-se um imenso “trabalho político”(denegado, posto que, em aparência, é puramente negativo) que visa a criar as condições de realização e de funcionamento da “teoria”; um programa de destruição metódica dos coletivos.

O movimento, possibilitado pela política de desregulamentação financeira, em direção à utopia neoliberal de um mercado puro e perfeito, realiza-se através da ação transformadora e, é preciso dizer, destrutiva de todas as medidas políticas (das quais a mais recente é o Acordo Multilateral sobre o Investimento, destinado a proteger as empresas estrangeiras e seus investidores contra os Estados Nacionais), visando pôr em questão todas as estruturas coletivas capazes de se antepor à lógica do puro mercado: nação, cuja margem de manobra não para de diminuir; grupos de trabalho, por exemplo, pela individualização dos assalariados e das carreiras em função das competências individuais e a atomização dos trabalhadores que resulta disso, sindicatos, associações, cooperativas; até mesmo a família, que, através da constituição dos mercados por agrupamentos etários, perde uma parcela de seu controle sobre o consumo.

O programa neoliberal, que obtém sua força social da força político-econômica daqueles cujos interesses exprime – acionistas, operadores financeiros, industriais, homens políticos conservadores ou socialdemocratas convertidos às reconfortantes renúncias do laisser-faire, altos funcionários das finanças (ainda mais árduos na imposição de uma política preconizando seu próprio declínio pois, diferentemente dos grandes empresários, não correm qualquer risco de ter de pagar pelas consequências) –, tende globalmente a favorecer a cisão entre a economia e as realidades sociais, e assim a construir, na realidade, um sistema econômico conformado à descrição teórica, isto é, uma espécie de máquina lógica que se apresenta como uma cadeia de restrições conduzindo os agentes econômicos.

A globalização dos mercados financeiros, acompanhada pelo progresso das técnicas de informação, garante uma mobilidade de capital sem precedentes e oferece aos investidores, preocupados com a rentabilidade de curto prazo de seus investimentos, a possibilidade de comparar de maneira permanente a rentabilidade das maiores empresas e de punir, por consequência, os fracassos relativos. As próprias empresas, colocadas sob tal ameaça permanente, devem se ajustar de maneira cada vez mais rápida às exigências dos mercados; isso sob a pena, como se costuma dizer, de “perder a confiança dos mercados”, e, de uma vez só, o apoio dos acionistas que, preocupados com obter uma rentabilidade de curto prazo, são cada vez mais capazes de impor sua vontade aos managers, de lhes fixar normas, por meio de diretrizes financeiras, e de orientar suas políticas em matéria de contratação, de emprego e de salário.

Assim se instauram o reino absoluto da flexibilidade, com os recrutamentos sob contratos de duração determinada ou os trabalhos temporários e os “planos sociais” reiterados, e, no interior mesmo da empresa, a concorrência entre filiais autônomas, entre equipes coagidas à polivalência e, enfim, entre indivíduos, por meio da “individualização” da relação salarial: fixação de objetivos individuais; entrevistas individuais de avaliação, avaliação permanente; altas individualizadas de salários ou concessão de bônus em função da competência e do mérito individuais; carreiras individualizadas; estratégias de “responsabilização” tendendo a assegurar a autoexploração de certos empresários que, simples assalariados sob forte dependência hierárquica, são ao mesmo tempo tidos como responsáveis por suas vendas, seus produtos, sua agência, sua loja, etc., sob a forma de “independentes”; exigência de “autocontrole” que estende a “implicação” dos assalariados, segundo as técnicas do “gerenciamento participativo”, para bem além do trabalho dos executivos. Estas são algumas das técnicas de assujeitamento racional que, ao impor o sobreinvestimento no trabalho, e não apenas naquele dos cargos de responsabilidade, e o trabalho na urgência, acabam por enfraquecer ou abolir as referências e as solidariedades coletivas[iii].

A instituição prática de um mundo darwiniano da luta de todos contra todos, em todos os níveis da hierarquia, que encontra a adesão ao trabalho e à empresa na insegurança, no sofrimento e no estresse, não poderia, sem dúvidas, ser completamente bem-sucedida se ela não encontrasse a cumplicidade das disposições precarizadas produzidas pela insegurança e pela existência, em todos os níveis da hierarquia, e mesmo nos níveis mais elevados, entre os empresários principalmente, de um exército de reserva de mão de obra docilizada pela precarização e pela ameaça permanente do desemprego. O fundamento último de toda esta ordem econômica posta sob o signo da liberdade é, com efeito, a violência estrutural do desemprego, da precaridade e da ameaça de demissão que ela implica: a condição do funcionamento “harmonioso” do modelo microeconômico individualista é um fenômeno de massa, a existência do exército de reserva de desempregados.

Esta violência estrutural influi também no que chamamos de contrato de trabalho (reconhecidamente racionalizado e desrealizado na “teoria dos contratos”). O discurso empresarial nunca falou tanto de confiança, de cooperação, de lealdade e de cultura empresarial quanto em uma época em que se obtém a adesão a cada instante fazendo desaparecer todas as garantias temporais (três quartos dos contratos são de duração determinada, a parcela dos empregos precários não para de crescer, o licenciamento individual tende a não ser mais submetido a qualquer restrição).

Vemos, assim, como a utopia neoliberal tende a se incarnar na realidade de uma espécie de máquina infernal, cuja necessidade se impõe até mesmo aos dominantes. Como o marxismo de outros tempos, com o qual, neste sentido, ela tem vários pontos comuns, essa utopia suscita uma crença formidável, a free trade faith (a fé no livre comércio), não apenas naqueles que dela tiram suas justificações de existência, como os altos funcionários e os políticos, que sacralizam o poder dos mercados em nome da eficiência econômica, que exigem o levante das barreiras administrativas ou políticas capazes de incomodar os detentores de capital na procura puramente individual pela maximização do lucro individual, instituída em um modelo de racionalidade, que querem os bancos centrais independentes, que pregam a subordinação dos Estados nacionais às exigências da liberdade econômica pelos mestres da economia, com a supressão de todas as regulamentações em todos os mercados, a começar pelo mercado de trabalho, a interdição de déficits e de inflação, a privatização generalizada dos serviços públicos, a redução das despesas públicas e sociais.

Sem necessariamente compartilhar os interesses econômicos e sociais dos verdadeiros crentes, os economistas têm suficientes interesses específicos no campo da ciência econômica para contribuir decisivamente, quaisquer que sejam seus estados de espírito a propósito dos efeitos econômicos e sociais da utopia que vestem de razão matemática, para a produção e reprodução da crença na utopia neoliberal. Separados por toda sua existência e, sobretudo, por toda sua formação intelectual, na maioria das vezes puramente abstrata, livresca e teoricista, do mundo econômico e social tal como ele é, eles são particularmente propensos a confundir as coisas da lógica com a lógica das coisas.

Confiantes nos modelos que não têm quase nunca a chance de submeter à prova da verificação experimental, tidos a olhar por cima as conquistas das outras ciências históricas, nas quais eles não reconhecem a pureza e a transparência cristalina dos seus jogos matemáticos, e das quais eles são frequentemente incapazes de compreender a verdadeira necessidade e a profunda complexidade, eles participam e colaboram para uma formidável mudança econômica e social que, mesmo se algumas de suas consequências lhes causem horror (eles podem contribuir com o Partido socialista e dar sábios conselhos aos seus representantes nas instâncias de poder), não pode desagradá-los pois, sob o risco de algumas falhas, imputáveis particularmente ao que eles às vezes chamam de “bolhas especulativas”, ela tende a dar realidade à utopia ultraconsequente (como certas formas de loucura) à qual eles consagram suas vidas.

O mundo está aí, porém, com os efeitos imediatamente visíveis da colocação em prática da grande utopia neoliberal: não apenas a miséria de uma fração cada vez maior das sociedades mais avançadas economicamente, o crescimento extraordinário das diferenças entre os rendimentos, a desaparição progressiva dos universos autônomos de produção cultural, cinema, edição etc., pela imposição intrusiva de valores comerciais, mas também e sobretudo a destruição de todas as instâncias coletivas capazes de se opor aos efeitos da máquina infernal, das quais em primeiro lugar está o Estado, depositário de todos os valores universais associados à ideia de público, e a imposição, por toda parte, nas altas esferas da economia e do Estado, ou no seio das empresas, desta sorte de darwinismo moral que, com a cultura do winner, feita para os matemáticos superiores e para o salto a elástico, instaura como norma de todas as práticas a luta de todos contra todos e o cinismo.

Podemos esperar que a massa extraordinária de sofrimento que um tal regime político-econômico produz esteja, um dia, na base de um movimento capaz de interromper esta corrida em direção ao abismo? Na verdade, estamos aqui face a um extraordinário paradoxo: enquanto os obstáculos encontrados no caminho da realização da “nova ordem” – esta do indivíduo solitário, mas livre – são hoje tidos como imputáveis à rigidez e arcaísmos, e toda intervenção direta e consciente, ao menos desde que vinda do Estado, e por qualquer parcialidade que o seja, é de cara descreditada, portanto intimada a desaparecer em prol de um mecanismo puro e autônomo, o mercado (sobre o qual esquecemos que é também o lugar de exercício dos interesses); na realidade, é a permanência ou a sobrevivência das instituições e dos agentes da antiga ordem em vias de desmantelamento, e todo o trabalho de todas as categorias de trabalhadores sociais, e também todas as solidariedades sociais, familiares ou outras, que fazem com que a ordem social não se afunde no caos, apesar do volume crescente de população precarizada.

A passagem ao “liberalismo” se dá de maneira insensível, logo imperceptível, como a deriva dos continentes, escondendo assim seus efeitos, os mais terríveis no longo prazo. Efeitos que se encontram também dissimulados, paradoxalmente, pelas resistências que ela suscita, desde já, da parte daqueles que defendem a antiga ordem extraindo dos recursos que ela encobria, nas solidariedades antigas, nas reservas de capital social que protegem toda uma parte da ordem social presente da queda na anomia (capital que, se não é renovado, reproduz, é destinado ao enfraquecimento, mas cujo esgotamento não será para amanhã).

Mas estas mesmas forças de “conservação”, que são facilmente tratadas como forças conservadoras, são também, em outra relação, forças de resistência à instauração da nova ordem, que podem tornar-se forças subversivas. E se podemos, então, conservar qualquer esperança razoável, o que ainda existe, nas instituições estatais e também nas disposições dos agentes (especialmente os mais ligados a estas instituições, como a pequena nobreza de Estado), de tais forças que, sob a aparência de simplesmente defender, como criticaremos logo em seguida, uma ordem desaparecida e os “privilégios” correspondentes, devem, de fato, para resistir à prova, trabalhar na invenção e na construção de uma ordem social que não teria como lei única a procura do interesse egoísta e a paixão individual pelo lucro, e que daria lugar a coletividades orientadas à busca racional pelos fins coletivamente elaborados e aprovados.

Dentre os coletivos, associações, sindicatos, partidos, como não dar um lugar especial ao Estado, Estado nacional ou, melhor ainda, supranacional, isto é, europeu (etapa na direção de um Estado mundial), capaz de controlar e de impor eficazmente os lucros realizados nos mercados financeiros e, sobretudo, de combater a ação destrutiva que estes últimos exercem sobre o mercado de trabalho, organizando, com a ajuda dos sindicatos, a elaboração e a defesa do interesse público que, queira-se ou não, jamais sairá, mesmo ao custo de algum erro de escrita matemática, da visão de contador (em outro temos, diríamos de lojista) que a nova crença apresenta como a forma suprema da realização humana.

*Pierre Bourdieu (1930-2002), filósofo e sociólogo, foi professor na École de Sociologie du Collège de France

Tradução: Daniel Souza Pavan

Notas

[i] NDLR: em referência a Auguste Walras (1800-1866), economista francês, autor de De la nature de la richesse et de l’origine de la valeur (1848); ele foi um dos primeiros a tentar aplicar a matemática ao estudo econômico

[ii] Erving Goffman, Asiles. Etudes sur la condition sociale des malades mentaux, Editions de Minuit, Paris, 1968.

[iii] Podemos nos remeter, sobre tudo isso, aos dois números da Actes de la recherche em sciences sociales consagrados às “Nouvelles formes de domination dans le travail” (1 e 2), nº114, setembro de 1996 e nº115, dezembro de 1996, e, especialmente à introdução de Gabrielle Balazas e Michel Pialoux, “Crise du travail et crise du politique”, nº114, p.3-4.

TANTERIOR
Fellini, 100 anos

Morte, de Cândido Portinari

Destaque

Na ditadura iniciada com o golpe de 1964 o jornal O Pasquim esteve durante um longo período submetido a censura prévia. O objetivo era amordaçá-lo. Ao final do regime ditatorial, foi retirado da censura prévia. A expectativa dos órgãos de repressão era que o jornal fizesse uma espécie de auto-censura. O Pasquim passou a trazer um selo informando que o jornal estava, naquele momento, sem censura prévia. Servia como um sinal de que, se o selo desaparecesse, seria porque o jornal voltou a ser previamente censurado.

Estou criando, hoje, um post para indicar que a democracia no Brasil morreu em 31/08/2016, quando o Senado Federal resolveu golpeá-la colocando um presidente ilegítimo no lugar da presidente eleita. Trata-se do quadro Morte, de Cândido Portinari, grande artista nacional. Pretendo deixar este post fixado na página principal deste blog, até que tenhamos eleições diretas legítimas e seus resultados sejam respeitados.

Obrigado, Fernando Almeida, pela foto e pela ideia original.

Paulo Martins

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É inútil argumentar com psicóticos

Não tente argumentar com bolsominions, eles funcionam como os psicóticos

por Vera Lúcia do Amaral

Um dos sintomas mais caros da psicopatologia, quando se estuda as psicoses, é o delírio. Esse é o sintoma mais importante dessas enfermidades mentais.

Popularmente, quando dizemos que uma pessoa “está delirando”, geralmente nos referimos àquelas pessoas que estão falando coisas sem sentido ou absurdas.

O delírio é um pouco isso mesmo, mas é mais que isso. O delírio define a psicose porque é a interpretação que o psicótico faz sobre o seu entorno. No entanto, essa interpretação não condiz em nada com a realidade do mundo onde ele vive. Ou seja, o delirante fala de fato coisas absurdas ou “loucas”, acha que o mundo o persegue ou acha que uma pessoa específica é a causa de todos os problemas do mundo.

Quem já conviveu com psicótico sabe que não adianta argumentar e contrariar o que ele está dizendo. Uma das características fundamentais do delírio é a sua irredutibilidade à argumentação lógica. O pensamento delirante é forte, é definitivo, é irremovível. E é assim porque o delirante construiu o seu mundo dentro dessa realidade paralela. Esse é o seu mundo, os outros é que estão interpretando tudo errado.

Assim, em psiquiatria aprendemos que não adianta em nada tentar “tirar” dos psicóticos aquelas “ideias malucas”. Aquele é o mundo dele! Ele não pode abrir mão daquelas idéeias sob pena de não saber mais explicar o seu mundo, nada mais fazer sentido na sua realidade.

Bem, talvez aqui vocês já estejam compreendendo onde quero chegar: o pensamento da extrema direita bolsonarista é em tudo semelhante ao pensamento delirante. Através do discurso do seu chefe foi se construindo, desde 2018, uma realidade paralela em que o grande perseguidor é Lula, o PT e os “comunistas”. Essas ideias são de tal modo arraigadas e tão fortemente compartilhadas que são – tal qual o delírio – irremovíveis. Não adianta argumentar, não adianta mostrar a falta de lógica do pensamento deles. Não há diálogo com delirantes.

Se o pensamento delirante de um indivíduo é forte, imagine se, hipoteticamente, ele encontra eco e aceitação em um grupo. Isso não acontecem bem com psicóticos, já que cada um tem seu mundo próprio. O grupo passa a se retro-alimentar do delírio, um do outro, e se cria todo um sistema delirante.

É isso que estamos vivendo com bolsominions que insistem em negar a cagada que fizeram.

Por isso, para sua própria saúde mental, não tente argumentar com um bolsominion. Não vai adiantar de nada.

VERA LÚCIA DO AMARAL é psiquiatra, professora universitária e doutora em educação pela UFRN

Primavera política

Por Elton Luiz Leite de Souza

Segundo a mitologia, Hades é a divindade que habita a região trevosa muito abaixo da superfície da terra. Nesse lugar nenhuma luz entra.
Certa vez, porém, Hades ouviu risos vindo da superfície. Ele subiu e viu Perséfone… Ela estava com sua mãe , a deusa Ceres. De “ceres” vem “cereal”, pois Ceres é a divindade do plantio e colheita dos cereais.
Ceres , por sua vez, é filha de Cibele, a divindade da fertilidade. Cibele é o Feminino Ancestral ( os povos originários da América a chamam de Pachamama).
E foi em sua neta Perséfone que a fertilidade de Cibele se tornou uma força criativa semelhante àquela que vemos no artista, pois Perséfone é a divindade cuja arte é fazer nascer flores: múltiplas e heterogêneas, flores de todas as cores.
Perséfone mata outra fome diferente daquela que Ceres mata: Perséfone mata a fome de arte, de poesia e de criatividade.
Hades se apaixonou pelas flores e quis levá-las para enfeitar sua noite eterna. Foi uma imensa surpresa, ninguém imaginava que pudesse nascer no taciturno Hades um desejo por cores.
Num ato condenável, Hades raptou então Perséfone para fazê-la morar lá embaixo . Porém, naquele mundo carente de luz , de Perséfone nasciam rosas só com espinhos , sem as pétalas, flores da dor que elas eram.
Enquanto isso, sentindo a falta de Perséfone, Ceres ficou deserta : o grão não mais germinava nela. Havia agora fome de pão e de beleza, de pão e de poesia, e ninguém sabia qual das duas fomes doía mais: a primeira esvaziava o estômago, a segunda ao coração secava .
A pedido de Ceres, Zeus interveio e foi feito então um acordo. Durante parte do ano Perséfone viveria lá embaixo com Hades : sua ausência entre nós recebeu o nome de inverno.
Até que vem o ansiado tempo em que Perséfone sobe de volta e enche de vida a terra : tudo recomeça , renovado.
Hoje, as sombras não reinam somente lá embaixo, mentalidades sombrias piores nos ameaçam aqui em cima . Apesar disso, nada detém Perséfone , ela já está de nós próxima: nesta semana começa a primavera, tempo em que Perséfone chega para florir de vida a terra.
Que uma primavera política possamos em outubro também criar , vencendo nas urnas as trevas.

“O céu da teoria é cinza;
mas sempre verdejante é a árvore da vida.” (Goethe)

“Eram os passarinhos que colocavam
primaveras nas palavras.” (Manoel de Barros)

O Mocorongo golpista

Por Vinicius Carvalho

Eu sempre detestei good vibes.

Quando chega com esse papo de energia pra cá, boas vibrações pra lá, cheio de afetação e lição de moral, eu já tenho certeza: é filho da puta!

E aquele vazamento do WhatsApp de alguns empresários emergentes e “nouveau riche” tentando fomentar um golpe de estado no Brasil, divulgado pelo Portal Metrópoles aumentou essa razão.

O mais escroto de todos no grupo é disparado proprietário da Mormaii.

Na sua vida de mentira, ele se vende como o empreendedor amante da natureza, do equilíbrio, da liberdade, do Yin Yang, da bondade e do Namastê, como demonstra o jornal Diário Catarinense:

“Hippie de alma e adepto do taoísmo, o surfista gaúcho empresta seu desejado lifestyle à empresa (…)”

“(…) Yin-yang e outras vibrações. As forças opostas e ao mesmo tempo complementares servem de manual para a Mormaii estabelecer uma relação de amor e dedicação com os colaboradores.

(…) Se você fizer uma análise, vai ver que nosso mundo tem um desvio yang, masculino. Esse desequilíbrio é agressivo, competitivo e expansivo. Nosso mundo não está assim? É uma característica machista. Em contraponto, há um mundo yin, que é cooperativo, pacifista e conservador, no sentido de conservacionista. Depois de muita guerra, muita pancadaria, lá pelos anos 1960 surgiu um movimento muito doido, do qual eu fiz parte, que são os hippies, que é o yin, paz e amor. É uma resposta ao mundo yang, uma alternativa.”

Tudo muito bonito. Mas de acordo com as mensagens vazadas pelo Metrópoles ontem: “Morongo é um dos empresários com visões mais extremistas no grupo e defende que o Brasil está em guerra contra os adversários de Bolsonaro. (…) No dia 17 de maio, Morongo, da Mormaii, propôs ações extremas para defender Bolsonaro, citando casos como a Revolução Francesa e a Guerra Civil dos EUA.”

Com a palavra, Mocorongo:

“Se for vencedor o lado que defendemos, o sangue das vítimas se tornam [sic] sangue de heróis! A espécie humana SEMPRE foi muito violenta. Os ‘bonzinhos’ sempre foram dominados… É uma utopia pensar que sempre as coisas se resolvem ‘na boa’.

“Golpe foi soltar o presidiário!!!

Golpe é o ‘supremo’ agir fora da constituição!

Golpe é a velha mídia só falar merda!!

(…) O 7 de setembro está sendo programado para unir o povo e o Exército e ao mesmo tempo deixar claro de que lado o Exército está. Estratégia top e o palco será o Rio. A cidade ícone brasileira no exterior. Vai deixar muito claro”

Ahhhh a liberdade, a paz e toda essa coisa toda de vibe. Que delícia! Vamos todos nos dar as mãos, comer mamão e ouvir Jack Johnson!

Porém confesso que o que mais me irritou em todas essas suas mensagens foi o uso da palavra “top”.

A ÉTICA NEOPENTECOSTAL E O ESPÍRITO DO NEOLIBERALISMO

Por Fábio Metzger
Interessante como vejo tantos neopentecostais usando a religião sem qualquer base racional ou filosófica mais consistente.
A facilidade com que evocam o demônio à fé dos outros, colocando a imagem do “demo” como o mal absoluto é a perfeita construção do maniqueísmo mais irracional que há. Como se a própria criação do diabo não fosse a de um anjo rebelde, criado por Deus, justamente para que os humanos pudessem conviver com uma porção de si mais contestadora.
De repente, nada mais faz parte da iniciativa da pessoa, é Deus que fez, Deus que agiu assim, assado, etc. É uma espécie de magia desse ente absoluto perfeito, inatingível, que tudo pode, mas que ninguém vê.
Católicos e protestantes tradicionais tinham uma base teológica para sustentar a sua visão de Deus. Assim como Kardec e seus discípulos. Igualmente o judaísmo ou o Islã.
Os praticantes das religiões orientais, indígenas, de matrizes africanas e hinduístas desenvolveram todo um aparato lógico e sincrético para explicar os fenômenos da natureza e a harmonia dela com o ser humano.
Já os praticantes do neopentecostalismo são reféns das lideranças pessoais de seus pastores, que simplesmente “reescrevem” a história, dando a si mesmo titulações como “bispos”, “apóstolos”, “ministros”, etc., e permitem a si mesmos reinventar todo tipo de tradição religiosa conforme a sua conveniência e a demanda mercadológica.
O praticante da religião neopentecostal é, muitas vezes, um ingênuo, outras tantas, um cúmplice, e em outros momentos, realmente tão responsável quanto o seu principal mentor.
Há os que estão no vazio espiritual. Mas também existem os que sabem muito bem o que fazem, ao pactuarem com essas lideranças.
Acabar com neopentecostalismo? Claro que não. Esta é uma religião que é o espelho dos tempos atuais. É o retrato da crise do Iluminismo. Foi na transição entre o Renascimento e o Iluminismo que nasceu o Protestantismo.
Não coincidentemente, quando o Liberalismo e o Capitalismo se desenvolveram enquanto teoria filosófica e prática econômica.
Foi na transição da manufatura e do comércio se tornando atividades cada vez mais importantes, perante a agricultura de subsistência. A sociedade da Terra estava, aos poucos, sendo substituída pela sociedade do Trabalho.
E é justamente na crise do Iluminismo, que o Neopentecostalismo ganha corpo. Não coincidentemente, quando o Neoliberalismo e o Anarcocapitalismo se articulam enquanto teoria filosófica e prática econômica.
Justamente hoje, em que o mundo vive a realidade virtual, em que a manufatura e a agricultura foram totalmente financeirizadas, assim como todo e qualquer setor das sociedades mundiais, que estão informatizadas e interconectadas.
A sociedade do Trabalho vai sendo desmontada, e sendo substituída pela sociedade do Lucro.
O neopentecostalismo é, antes de tudo, uma religião da crise. Uma manifestação organizada do desespero.
Um formato socializado de indivíduos esvaziados e atomizados, enfileirados com bíblias em suas mãos, diante de lideranças carismáticas, mais preocupadas com a prática de desenvolver correntes de negócios do que propriamente desenvolver uma ética cristã.
No antigo protestantismo, era possível desenvolver-se muitos negócios entre fiéis. No entanto, a socialização primeira dizia respeito à ideia de solidariedade coletiva.
Qualquer negócio posterior seria uma consequência não forçada de muito tempo depois, justamente porque a ética do trabalho era o elemento comum dos fieis presentes.
Hoje em dia, diante do tempo acelerado que se vive, parece mais presente a ideia da ética do lucro, e esta interferindo no desejo de realizar uma leitura particular desta ou daquela linha religiosa. E o neopentecostalismo ocupa um espaço maior neste contexto.” Por Fabio Metzger

“Velhez”

Por Elton Luiz Leite de Souza

Caetano, Gil, Chico…chegaram aos 80 anos. Esse acontecimento me lembrou uma história envolvendo o poeta Manoel de Barros.
Quando fez 80 anos, Manoel de Barros recebeu pedido de um editor para que escrevesse três memórias: da infância, da vida adulta e, sobretudo, da velhice. Com sua avançada idade, o editor supunha que o poeta teria muito a dizer sobre si e aconselhar aos outros, principalmente aos jovens.
Passado algum tempo, o poeta enviou ao editor o primeiro livro: Memórias da primeira infância. Em todos os sentidos, o livro foi um sucesso. Tempos depois, Manoel enviou novo livro ao editor: Memórias da segunda infância. Como diz Manoel, poesia é saber que “não vem em tomos” . Assim, a segunda infância não era uma sequência da primeira , não era uma infância posterior . A segunda infância era uma segunda ida do poeta à infância sempre primeira.
Manoel reservava ainda fôlego para uma nova ida à infância, e assim enviou ao editor um terceiro livro: Memórias da terceira infância.
O tempo passou, o poeta nada mais enviou ao editor, que tomou coragem e indagou: “Poeta, suas três memórias da infância são extraordinárias, porém onde estão as memórias da vida adulta e, sobretudo, da velhice?”
Manoel respondeu : “Só tive infância”. E completou: “Nunca tive velhez. Só narro meus nascimentos”.
Essa infância, enquanto antídoto à “velhez”, não é uma determinada idade. Pois ela também é a infância da linguagem, o seu fazer-se novidade para dizer o que ainda não foi dito: “As crianças sabem dizer palavras que ainda não têm idioma”.
“Velhez” também é quando os dias vividos se tornam um peso curvando as costas, não importando a idade que se tenha. “Velhez” é a vida prostrada, de joelhos, sem forças para caminhar e avançar. Às vezes, é a própria sociedade que sofre de “velhez” : quando seu futuro , ainda nem chegado, já parece extinto…
“A única coisa que carrego é meu chapéu: moro debaixo dele”, explica-se o andarilho-poeta. “Chapéu” é como Manoel nomeia as ideias que protegem os pensamentos que dão caminho às pernas : “O poeta-andarilho abastece de pernas as distâncias”. Sobre o chapéu do poeta um casal de pardais fez ninho: há nele ovos sendo chocados, assim como , dentro do poeta, auroras .
Manoel , Chico, Caetano, Gil…nos ensinam que a velhice nada tem a ver com a velhez. E que criatividade e potência de vida não dependem da idade, desde que se descubra o que na criatividade há de absoluto. “Ab-soluto”: “o que não é soluto, o que não se dissolve”.
Fascismo , ignorância e idiotia são reatividades da velhez que a tudo quer dissolver com seu negacionismo. Mas arte, criatividade, educação….são potências críticas e criativas que tornam a vida absoluta nas ideias que aprendemos e ensinamos, nos versos que lemos ou escrevemos, enfim, nas canções que, juntos ou sozinhos, cantamos.

Método

MÉTODO

O assassinato de Genivaldo não foi erro; foi método. Nazista.

Por Marcos Nogueira, colunista da Folha de São Paulo.

Erro é queimar o feijão; câmara de gás é método nazista Ouvidos pela Folha, especialistas em segurança pública apontaram "uma série de erros" na abordagem da Polícia Rodoviária Federal ao motociclista Genivaldo de Jesus Santos. Parado por pilotar sem capacete numa estrada de Sergipe, Genivaldo foi fechado no porta-malas da viatura com uma bomba de gás lacrimogêneo. Morreu. Do alto da minha falta de especialização, afirmo sem med. de errar que os especialistas estão errados. Erro é esquecer a panela no fogo e deixar o feijão queimar. Erro é quebrar o espaguete ao meio antes de jogar na água. Erro é cozinhar o macarrão até ficar mole. Erro é jogar queijo ralado em massas com frutos do mar. Erro é remover a gordura da picanha para fazer churrasco. Erro é quando você pede a carne malpassada e a recebe estorricada. Erro é comer sushi com garfo e faca. É harmonizar temaki de salmão com malbec argentino. Erro é fazer supermercado com fome e comprar mais comida do que precisa com o dinheiro que não tem. Erro é fazer compras distraído e levar para casa café sem cafeína, leite sem lactose, cerveja sem álcool e atum vegano. Erro é chamar o drinque margarita de "marguerita". É aquecer a pizza marguerita no micro-ondas. Erro é pedir bife no restaurante de peixe e lasanha na churrascaria. Erro é comprar hambúrguer de picanha achando que tem picanha. Erro é acreditar que qualquer gororoba fica boa com azeite trufado ou requeijão. Erro é colocar sal no café e adoçante na batata frita. O que a PRF fez com Edivaldo é homicídio qualificado. É tortura que resultou em morte. É execução. É dolo, não é imperícia. Um dos especialistas afirma que "a abordagem foi atabalhoada". Fui até checar o significado do adjetivo: "atabalhoado" quer dizer apressado, confuso, sem cuidado. Não sei se o especialista viu o mesmo vídeo que eu vi. Nas imagens que eu vi, os policiais agem sem pressa, com calma e método, enquanto as pernas de Genivaldo se debatem para fora da viatura. A violência policial tem muito método. O método nazista de exterminar indivíduos indesejados na câmara de gás. O método ensinado em cursinhos para concurseiros da PRF –ontem emergiu o vídeo de um professor que, às gargalhadas, ensina a "acalmar" com spray de pimenta pessoas trancadas no carro da patrulha. Como mostra reportagem da BBC Brasil, publicada também na Folha, a PRF eliminou uma disciplina sobre direitos humanos do currículo do treinamento dos agentes. Está tudo ajeitado para ser assim mesmo. A morte de Genivaldo é resultado de uma série de erros –erros nossos, não dos carrascos rodoviários. Foi um erro enorme ter permitido o empoderamento do guardinha da esquina, do fiscal de fiofó alheio e da viúva da ditadura. Foi um erro gigantesco tocar a vida normalmente enquanto as milícias armadas, fardadas ou não, só faziam crescer. Foi um erro inadmissível entregar o país a uma corja de desqualificados que celebram a morte. Não podemos nos dar ao luxo de seguir errando assim.

Oito afirmações marxistas que podem te surpreender 

Estátuas de Marx em Trier, Alemanha. | Foto por Hannelore Foerster/Getty Images

POR 

MITCHELL ABOULAFIA

TRADUÇÃO
RAPHA KLASS

Compartilhado de jacobin.com.br

Críticos de Marx não costumam entender o grande pensador socialista. Estamos aqui para acertar as contas.

Há muitas formas de se interpretar Marx, várias delas legítimas. Porém, outras buscam reduzi-lo, invocando uma retórica anticomunista. Zombam dele como se fosse um determinista econômico estéril ou detonam suas análises e previsões como se horripilantemente errôneas.

Marx nem sempre esteve certo (e quem está?). Entretanto, ele esteve certo ou afirmou coisas defensáveis com mais frequência do que a maioria das pessoas percebe. Vale a pena prestar mais atenção. 

Portanto, com o objetivo de refutar algumas das representações mais superficiais do grande pensador socialista, aqui estão oito afirmações que deveriam estar inclusas em qualquer interpretação respeitável de Marx ou do Marxismo.


1.

Marx não dispensava simplesmente o capitalismo, estava impressionado por ele. Ele argumentou que é o sistema mais produtivo que o mundo jamais viu.

“A burguesia, em seu reino de apenas cem anos, criou forças produtivas mais massivas e mais colossais do que todas as gerações passadas juntas. Sujeição das forças da Natureza ao homem e ao maquinário; aplicação de química à indústria e à agricultura; navegação à vapor; ferrovias; telégrafos elétricos; desobstrução de continentes inteiros para o cultivo; canalização de rios; populações inteiras invocadas do chão – que século anterior tinha sequer um pressentimento de que tais forças produtivas dormiam sobre o colo do trabalho social?”

2.

Marx previu com precisão que o capitalismo criaria o que hoje se entende por globalização. Ele viu o capitalismo criando um mercado global onde as nações se tornariam cada vez mais interdependentes. 

“A burguesia, através da sua exploração do mercado global, deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para o imenso desgosto dos Reacionários, ela tirou de debaixo dos pés da indústria o solo nacional em que ela se encontrava. Todas as velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão sendo destruídas diariamente…

No lugar do antigo isolamento local e nacional e da autossuficiência, temos relações em todas as direções, interdependência universal das nações.”

3.

Ao contrário das sociedades passadas, que tinham a tendência de conservar tradições e seus modos de vida, o capitalismo prospera com a invenção de modos de produção novos e alternativos que afetam o nosso viver. As tecnologias mudam nossas vidas a uma velocidade ainda maior. Produtos velhos devem abrir caminho para produtos novos (e para aqueles que os produzem). 

Apesar dos capitalistas retratarem isso como se fosse puramente bom, pode ser algo profundamente inquietante, mesmo que certas mudanças sejam positivas. Pode levar as pessoas a sentirem que seus valores e modos de vida não têm mais lugar no mundo – que estão vivendo como madeira morta. Além disso, o emprego de novas tecnologias e métodos de produção na busca de lucro para poucos pode levar a consequências imprevistas. (Em nosso tempo, sem dúvida Marx indicaria a mudança climática como consequência do capitalismo desenfreado.)

“A burguesia não pode existir sem constantemente revolucionar os instrumentos de produção e, assim, as relações de produção, e com elas todas as relações da sociedade…Revolução constante da produção, perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, incerteza e agitação sem fim distinguem a época burguesa de todas as anteriores. Todas as relações fixas e ultracongeladas, com o seu leque de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas; todas as novas formadas tornam-se antiquadas antes de poderem ossificar. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e o homem é finalmente obrigado a encarar com sentidos sóbrios suas reais condições de vida e suas relações com sua espécie.”

4.

Empresas poderosas, concentrações de riqueza e novos métodos de produção tornam cada vez mais difícil que profissionais independentes e comerciantes de classe média consigam manter seu status. Eles acabam ficando com o conjunto de habilidades errado ou trabalhando para as empresas que acabaram com os seus tipos de negócio. Em outras palavras, Marx antecipou a Walmartificaçãodas sociedades capitalistas.

“Os estratos mais baixos da classe média – os pequenos comerciantes, lojistas e comerciantes aposentados em geral, os artesãos e camponeses – afundam-se gradualmente no proletariado, em parte porque seu capital diminuto é insuficiente para a escala na qual a Indústria Moderna progride, e são inundados na competição com os grandes capitalistas, e em parte porque sua habilidade especializada é inutilizada por novos meios de produção.”

5.

Marx não defendia a abolição de todas as propriedades. Ele não queria que a grande maioria das pessoas tivesse menos bens materiais. Ele não era um utopista anti-materialista. O que ele se opunha era à propriedade privada – as vastas quantidades de riqueza concentrada pertencentes aos capitalistas, à burguesia. Inclusive, no final da passagem abaixo, ele e Engels ironicamente acusam o capitalismo de privar as pessoas de sua “propriedade auto-conquistada”.

“A característica distintiva do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa.  Mas a propriedade privada burguesa moderna é a expressão final e mais completa do sistema de produção e apropriação de produtos, que é baseado em antagonismos de classe, na exploração dos muitos pelos poucos. 

Nesse sentido, a teoria dos comunistas pode ser resumida numa única frase: Abolição da propriedade privada. 

Nós comunistas temos sido acusados de desejar abolir o direito de adquirir pessoalmente a propriedade como fruto do trabalho de um homem, cuja propriedade é supostamente a base de toda a liberdade pessoal, atividade e independência.

Propriedade duramente conquistada, adquirida por si, auto-conquistada! Você quer dizer a propriedade do pequeno artesão e do pequeno camponês, uma forma de propriedade que precedeu a forma burguesa? Não há necessidade de abolir isso; o desenvolvimento da indústria já o destruiu em grande parte e segue o destruindo diariamente.”

6.

Marx achava que os seres humanos têm uma inclinação natural a se sentirem conectados aos objetos que eles criaram. Ele chamava isso de “objetificação” do trabalho, com o que ele queria dizer que colocamos algo de nós mesmos em nosso trabalho. Quando um indivíduo não consegue se conectar com a própria criação, quando se sente “externo” a ela, isso resulta em alienação. É como se você esculpisse uma estátua e alguém a tirasse de você, e você nunca mais tivesse permissão para vê-la ou tocá-la novamente. Marx argumentou que os trabalhadores estavam em uma posição parecida nas fábricas capitalistas do século XIX.

“O que, então, constitui a alienação do trabalho?

Primeiro, o fato de que o trabalho é externo ao trabalhador, ou seja, não pertence à sua natureza intrínseca; que em sua obra, portanto, ele não afirma a si mesmo, mas nega a si mesmo; não se sente contente, mas infeliz; não desenvolve livremente sua energia física e mental mas mortifica seu corpo e arruína sua mente. O trabalhador, portanto, apenas se sente ele mesmo fora de seu trabalho, e em seu trabalho se sente fora de si mesmo. Ele se sente em casa quando não está trabalhando e, quando está trabalhando, não se sente em casa. Seu trabalho, portanto, não é voluntário, mas coagido; é trabalho forçado.”

7.

Marx queria que nos libertássemos da tirania da divisão do trabalho e das longas jornadas de trabalho, que impedem os indivíduos de desenvolver diferentes tipos de capacidades e talentos. Nos tornamos servos de um único tipo de atividade e outras de nossas dimensões são subdesenvolvidas. 

“Pois assim que a distribuição do trabalho ocorre, cada homem tem uma esfera de atividade particular e exclusiva, que é imposta a ele e da qual ele não pode escapar. Ele é um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico, e deve permanecer assim se não quiser perder seus meios de subsistência; enquanto na sociedade comunista, onde ninguém tem uma esfera de atividade exclusiva, mas cada uma pode se realizar em qualquer ramo que desejar, a sociedade regula a produção geral e, assim, possibilita que eu faça uma coisa hoje e outra amanhã – caçar pela manhã , pescar à tarde, criar gado à noite, escrever críticas após o jantar, como eu tiver em mente, sem nunca me tornar um caçador, um pescador, um pastor ou um crítico.”

8.

Marx não era um determinista econômico bruto. A forma com que as pessoas pensam e agem importa. Em uma carta escrita por Engels, ele enfatizou a importância da economia, mas tentou deixar claro que ele e Marx foram mal interpretados (por culpa deles mesmos, parcialmente).

“Marx e eu somos ​​parcialmente culpados pelo fato de que as pessoas mais jovens às vezes colocam mais ênfase no lado econômico do que é devido a ele. Tivemos que enfatizar o ponto principal em relação aos nossos adversários, que o negavam, e nem sempre tivemos tempo, local ou oportunidade de dar a atenção devida aos outros elementos envolvidos na interação. Mas quando se tratava de apresentar uma seção da história, ou seja, fazer uma aplicação prática, era uma questão diferente e não havia permissão para erros. Infelizmente, porém, acontece com muita frequência que as pessoas pensam que entenderam completamente uma nova teoria e podem aplicá-la sem mais delongas a partir do momento em que assimilaram seus aspectos principais, e mesmo estes nem sempre corretamente. E não posso isentar muitos dos “marxistas” mais recentes dessa censura, pois as besteiras mais surpreendentes também foram produzidas neste último trimestre…”

Sobre os autores

MITCHELL ABOULAFIA 

é professor de filosofia na Manhattan College

No que estou pensando?

Do Carlos Paiva: “No que estou pensando?
NA IN-GUINORÂNCIA ECONÔMICA DE TANTOS “ESPECIALISTAS EM RÚSSIA”
E compus um poemeto:
Alguns dizem besteira por poucos dias.
Esses são ignorantes, mas aprendem.
Outros dizem besteira muitos dias.
Esses são os lerdos; insista que dá.
Outros dizem besteira a vida toda,
Esses não têm salvação.

Com a Guerra na Ucrânia é quase impositivo ouvir jornalistas e especialistas falando sobre a Rússia todos os dias. Já me acostumei com várias bobagens ditas por aí. Na linha: si o estRupo é inevitáveR, relax and cum. Mas tem umas que, a nível de pessoa economista, não dá prá aguentar.

A mais enervante e repetitiva diz respeito à expressão econômica da Rússia. Nove entre cada dez comentaristas afirmam que a Rússia é uma economia exportadora de commodities, periférica e pouco expressiva na ordem mundial. Mas, contraditoriamente apresenta um poder bélico desproporcional à sua inserção “periférica”.

Xente, pliss! NENHUMA ECONOMIA PERIFÉRICA EXPORTADORA DE MATÉRIAS-PRIMAS PODERIA DISPUTAR A HEGEMONIA MILITAR COM OS EUA.

Esta disputa pressupõe um padrão e um nível de desenvolvimento tecnológico excepcionalmente elevado. Pressupõe uma indústria mecatrônicaspacial (metal-mecânica, eletro-eletrônica e aero-espacial) com elevado grau de autonomia e internalização (produção interna; por oposição a importações). E tudo isto pressupõe que a economia seja relativamente diversificada e capaz de gerar um excedente suficientemente grande para financiar os investimentos públicos no complexo industrial-militar.

NA VERDADE, DE ACORDO COM O FMI, A RÚSSIA É A SEXTA MAIOR ECONOMIA DO MUNDO, QUANDO AVALIAMOS SEU PIB POR PARIDADE DE PODER DE COMPRA.

Sua participação no PIB mundial em 2020 (3,11%) só era superada pela participação da China (18,33%), EUA (15,83%), India (6,8%), Japão (4,03%) e Alemanha (3,44%). Ao contrário do que 9 entre 10 “especialistas” dizem, o PIB da Rússia é maior do que o da França, do Reino-Unido, da Itália, da Coreia, e do Canadá.

Qual a fonte do erro? Simples: o PIB pode ser analisado-mensurado-comparado de duas formas. Na primeira, mais simples (e mais simplista), calcula-se o PIB na moeda nacional (interna) e, depois, converte-se o valor para a moeda mundial (dólar) pelo câmbio do ano ou o câmbio médio ao longo de um determinado período de tempo. QUANDO SE CALCULA O PIB DA RÚSSIA DESSA FORMA, SEU PIB ABSOLUTO E RELATIVO CAEM, POIS O RUBLO ESTÁ DESVALORIZADO EM FUNÇÃO (dentre outros fatores) DAS SANÇÕES APLICADAS À RÚSSIA DESDE 2014. Ainda por câmbio nominal, os EUA são a maior economia do mundo. E a China fica em segundo lugar.

Mas se avaliamos por PPP – vale dizer, pela taxa de câmbio que equilibra o poder de compra INTERNO das distintas moedas – o PIB russo mostra-se muito maior. E o Chinês já ultrapassou o PIB norte-americano.

Por que não usamos esta medida – mais correta e calculada pelo próprio FMI – para avaliar os países?

Porque se ela fosse utilizada, ficaria claro – dentreo outras coisas – que A ECONOMIA DOS BRICS, SOMADA, É MAIOR DO QUE A ECONOMIA DO G-7. (clica na tabela abaixo e visualize!)

E isto é uma coisa que os “líderes” (que se pensam donos) do mundo não querem ver e não querem que seja visto. A grande mídia, seja a do centro do mundo, seja a da periferia faz o papel de sempre: não questiona, repete o que Biden, Boris Johnson e Ursula van der Leyen declaram e “conclui” que a Rússia e os BRICS são pequenos e o G-7 é enorme.

A mídia não vai mudar. Faz parte do terceiro grupo do poemeto: não tem salvação. Mas, pliss, especialistas: vamu fazê um up grade prá cima na cormpreensà da realidade real? Plissssssss!”

Colunistas por encomenda

Do professor Luis Felipe Miguel

Os colunistas da Folha se mobilizam para defender o aumento no preço dos combustíveis.

Hélio Schwartsman pontifica que é necessário deixar a mão invisível agir. Afinal, “os preços refletem informações relevantes sobre a disponibilidade de produtos e as distribuem para milhões de agentes, que têm liberdade para se posicionar de modo a satisfazer suas necessidades da melhor forma possível”.

Não existe informação assimétrica, manipulação, ação especulativa. A “liberdade” está dada, por igual, para todos os agentes. No mercado, afinal, somos todos livres e iguais, não é mesmo?

De quebra, diz o filósofo oficial da Folha, “o petróleo caro funciona também como estímulo ao desenvolvimento de fontes alternativas de energia, do que o mundo depende para mitigar o desastre climático”.

Putin, quem diria, é o salvador do meio ambiente.

É bonito o mundo em que se move Schwartsman – o mundo dos almanaques da economia liberal. Pena que só existe na cabeça de quem cria e dissemina essas fábulas.

Já Vinicius Torres Freire opta pelo populismo. Por que as pessoas se revoltam com o aumento dos combustíveis, que não interessa aos pobres, mas não com o aumento do óleo de soja?

Todo mundo que usa carro é rico, claro. Por isso mesmo, você, que tem aquele Gol 1.0 ano 2011, precisa se precaver contra essa ideia de imposto sobre grandes fortunas.

Mas nem precisa chegar a tanto. O pobre de Torres Freire não pega ônibus para se movimentar, não compra no mercado produtos que são sensíveis ao aumento do frete, não usa gás de cozinha para preparar sua comida. O pobre de Torres Freire passa o dia pescando no riacho atrás de sua casa e se alimenta exclusivamente de sashimi.

Se o preço dos combustíveis não aumentar, acrescenta ele, a Petrobrás “teria menos dinheiro para investir e produzir”. Curiosamente, porém, a implementação da política “parental” de dolarização foi acompanhada de uma ampliação da dependência do refino externo, não o contrário.

Também curiosamente, o jornalista não acha necessário mencionar que a Petrobrás acabou de pagar mais de R$ 37 bilhões de dividendos complementares aos acionistas, que se somam aos mais de R$ 62 bilhões pagos no final do ano passado. Uai, o dinheiro não era para “investir e produzir”?

Um incauto poderia dizer que a pobreza dos argumentos dos colunistas da Folha mostra sua incompetência.

Não acho que seja assim. É um esforço deliberado para anular qualquer possibilidade de debate efetivo sobre política econômica, substituído pelo repisar sem fim de dogmas superficiais e desconectados da realidade.

Humanidade

Por Elton Luiz Leite de Souza

A palavra “estoico” vem de “stöa”: “porta” ou “portal”. Isso porque os estoicos escolhiam abrir suas escolas de filosofia bem no portal das cidades, perto de sua abertura.
Àquela época, as cidades eram muradas. No centro delas ficavam a praça e o mercado. Platão , fundador da Academia, e Aristóteles, criador do Liceu, estabeleceram suas escolas próximo ao mercado e guardadas por muros.
Mas os estoicos preferiam dizer que sua filosofia estava a serviço daquilo que não podia ser cercado e murado. Os estoicos queriam ir além não só dos muros físicos, mas sobretudo dos muros que cercam a alma e a põem prisioneira de si mesma.
A razão em Aristóteles é identificada ao homem . Mas os estoicos diziam que o pensar é abertura à Terra, aquela que nenhum muro , nem os muros da falocrática razão, separa do cosmos, esse horizonte infinito.
Em vez de glorificar o “Homem”, os estoicos introduzem uma nova ideia: a “humanitá”, palavra feminina. A humanitá não pertence a uma pólis isolada, a humanitá habita a Terra.
Falar no “Homem” como ideia universal é escamotear os seres diferentes dos homens, seres esses que o homem reprime e explora, colocando-se como “Modelo” e “Padrão”. Por isso, a humanitá não é um Modelo ou Padrão.
O Homem é definido por Aristóteles como “Animal Racional”, embora tanta irracionalidade vemos na conduta do Homem, na guerra contra outros homens e na predação da natureza. A humanitá não é o “Homem”, ela é comunidade planetária vital.
A humanitá não é uma ideia abstrata , pois ela é também uma prática ética e política de defender a humanidade em nós, protegendo-nos dos homens que querem destruí-la. A humanidade não é um “Padrão”, ele é uma comunidade aberta e heterogênea.
O Homem tem um rosto: o do homem hétero, branco, proprietário, conservador . Esse rosto muitas vezes se coloca atrás da religião para esconder sua desumanidade contra as mulheres, contra os que não têm a cor de sua pele , contra os que vivem outras formas de amor, contra os explorados pelo Capital, enfim, contra os que são e pensam diferente.
Mas qual o rosto da humanidade? Em quem podemos ver sua face? O rosto da humanidade somente se expressa em quem se faz singularidade. Singularidade não é a mesma coisa que indivíduo. Uma singularidade é sempre parte de uma multiplicidade. E nenhuma multiplicidade pode ser contida pelos muros excludentes de um Padrão.
Toda singularidade se torna mais potente quanto mais sua diferença se amplia em múltiplas e variadas conexões e agenciamentos. Singularidade não é apenas razão, singularidade também é desejo, criatividade, sensibilidade, corpo e ação.
Sobretudo, singularidade não é o eu ou o ego, ela é o que em nós se coloca à porta de nós mesmos, abertos à natureza, ao mundo, ao outro, à diferença, no seio aberto da Terra.
A “humanitá” estoico-latina corresponde à “paideia” grega, ambas expressando a prática de uma educação não apenas teórica, mas libertária.

Voltaire, Deus e as religiões

“ESMAGAI O INFAME

Voltaire, já no século 18, foi um ácido crítico dos desvios da religião e da ideia de uma divindade suprema, e ao mesmo tempo, recompensador (no sentido do suborno) e vingativo (a ideia do inferno).

O intelectual e enciclopedista francês ficava muito à vontade para fazer suas duras críticas às instituições religiosas e sobretudo à Igreja, uma vez que ele mesmo era um deísta, acreditava em um ser superior, mas desacreditava das religiões organizadas e instituídas, com as suas corrupções e desvios mundanos (o papa Francisco que o diga, nos dias de hoje).

Voltaire entendeu que a religião funcionava como elemento disciplinador, ético-moral e pacificador dos instintos mais primitivos somente para “la canaille” (a gente comum do povo).

O poder se nutria da força moral da Igreja para produzir medo (inventou o Deus vingativo e a constante ameaça do Inferno) e sugerir suborno (o Deus bondoso e recompensador, em troca de obediência cega e resignação desmobilizadora).

Deus funcionava como um instrumento manipulatório em favor dos interesses e ambições do poder e do mandonismo.

“O primitivo divino foi o primeiro bandido que encontrou o primeiro bobo” – Voltaire expelia fogo e enxofre intelectual da sua pena. Ao mesmo tempo, o filósofo exalta Cristo na teologia do Sermão da Montanha e as andanças do jovem nazareno em meio aos sábios, alertando e lastimando os crimes que eram cometidos “em nome do Pai”.

A atualidade de Voltaire é extraordinária, em especial na atual conjuntura delinquencial do Brasil, onde os limites entre Justiça e bandidagem são plásticos e elásticos, conforme a conveniência de cada fator de uma terrível e trágica equação.

O grande filósofo do Iluminismo foi um dos primeiros que intuiu e denunciou a calculada (e politizada) confusão entre a manifestação autêntica da fé e o mero ato supersticioso rebaixado e egoísta, sempre interessado na vantagem negocial entre o divino e o próprio indivíduo.

Precisamente o que ocorre nos nossos dias. Tanto nos campos de futebol, quanto no círculo de poder planaltino, vêem-se cenas de rezadores contritos e fervorosos empenhados em conquistas fúteis e terrenas.

Aos 83 anos, o velho filósofo começou a conciliar-se com a morte. Quando sua filha vinha beijá-lo, dizia: “A vida beijando a morte”. No final, certo dia apareceu um abade em sua casa, para ouví-lo em confissão.

“Quem vos mandou, senhor abade?”, disse o velho.

“O próprio Deus”, foi a resposta. “Muito bem, senhor, onde estão vossas credenciais?”

O abade foi embora sem conseguir o seu intento.

O agoniante plano inclinado para o fim da vida já estava inexoravelmente traçado. Semanas antes de morrer, o que acaba acontecendo em 30 de maio de 1778, Voltaire chama o seu secretário e dita-lhe uma declaração final: “Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição”.

Encerro com a palavra de ordem de Voltaire, gravada em cada artigo e cada carta que escrevia:

“Esmagai o infame”. Do Cristóvão Feil

José Luís Fiori: A guerra na Ucrânia e os seus efeitos na Europa, Rússia, EUA e China 


Publicado em viomundo.com.br


Notas sobre a guerra na Ucrânia

Por José Luís Fiori, em A Terra é Redonda

Considerações sobre os efeitos do conflito na Europa, na Rússia, nos EUA e na China.

1.

A história da Rússia começa em Kiev por volta de 800 d.C. e nestes longos séculos o território atual da Ucrânia pertenceu à Rússia, e depois à Polônia, à Lituânia, à Áustria e finalmente, de novo à Rússia e à URSS no século XX.

A Ucrânia só se transforma numa República por obra da Revolução Bolchevique de 1917, e vira um estado nacional autônomo em 1991, como parte da “punição” imposta à Rússia depois da derrota soviética na Guerra Fria.

Neste momento os russos estão questionando a expansão da OTAN sobre a Ucrânia, mas sobretudo estão se propondo a modificar os termos deste “acordo de paz” que lhe foi imposto na década de 1990.

Deste ponto de vista, da história de larga duração dos povos se poderia até dizer que o território ucraniano tem uma relação mais longa e mais estreita com a Rússia de Ivan III e IV, e com o Império dos Romanoff, do que a relação de Taiwan com a China continental que só se estreitou depois do Século XVII.

Mesmo assim, não creio que o objetivo atual da Rússia seja anexar a Ucrânia, nem muito menos expandir-se para além do seu território atual.

Não há dúvida, porém, que a Rússia está se propondo agora, pela via das armas, fazer o que havia proposto pela via diplomática: neutralizar militarmente a Ucrânia, e reverter parte de suas perdas impostas pela derrota do final do século passado.

Vladimir Putin,

2.

Depois que uma guerra começa é muito difícil prever até onde irá e quando terminará a menos que exista um perdedor claro. Neste caso dependerá muito do objetivo imediato e da velocidade da operação militar russa.

No momento parece pouco provável uma guerra mundial envolvendo as grandes potências do sistema, uma espécie de terceira guerra mundial.

Os países europeus e a própria Otan não têm capacidade militar suficiente para enfrentar a Rússia.



Os EUA saíram muito divididos e fragilizados – interna e externamente – de sua recente humilhação militar no Afeganistão, e da política de suas “intervenções militares” com o objetivo de mudar os governos ou regimes da Líbia, do Iraque, da Síria, do Iêmen, e do próprio Afeganistão. Para não falar da “insuficiência” de suas sanções econômicas contra o Irã, a China e a própria Rússia.

3.

Os europeus temem a superioridade militar dos russos com relação a todos seus exércitos nacionais.

De um ponto de vista estritamente realista os europeus sabem que são hoje um protetorado atômico dos Estados Unidos. No caso da Alemanha, trata-se de um país ainda literalmente ocupado por tropas e armamentos americanos.

Além disso, os europeus têm uma dependência energética muito grande do petróleo e do gás da Rússia, que é a fonte de mais de 40% do gás consumido na Europa. Apesar das declarações ribombantes de alguns líderes europeus, em particular os alemães, a Europa não tem como substituir a energia russa no curto nem no médio prazo.

Se os europeus forem obrigados pelos norte-americanos a cortar seus “laços energéticos” com a Rússia, terão que enfrentar de imediato racionamento, inflação, perda de competitividade e muito provavelmente revoltas sociais de uma população que já foi atingida pesadamente pelos efeitos da pandemia do coronavírus.

A Rússia deverá responder às sanções das potências ocidentais e quem será atingido de forma mais imediata serão os europeus, caso a Rússia suspenda, por exemplo, exportação de alimentos ou de minérios atingindo a população e as empresas europeias.

Para não falar da capacidade muito superior dos russos fazerem ciberataques às empresas e instituições governamentais europeias, se por acaso a Rússia decidir responder às sanções econômicas e financeiras que estão sendo anunciadas sem levar em conta a resposta que receberão dos russos.

É um quadro muito complicado e indefinido para todos, mas com certeza o lado mais frágil é o dos europeus, no médio prazo.

4.

O historiador e filósofo alemão, Oswald Spengler (1880-1936) anunciou o “declínio do Ocidente” logo depois do fim da Primeira Guerra Mundial, e vários outros autores bateram nesta mesma tecla através do século XX, incluindo os autores que discutiram a “crise da hegemonia americana” nas décadas de 70 e 80 do século passado.

Estes processos históricos, entretanto, são lentos e passam por caminhos muito sinuosos. Às vezes avançam, às vezes recuam.

Neste caso houve uma aceleração do tempo histórico nas duas últimas décadas, e, em particular, desde o momento em que a Rússia voltou à condição de segunda maior potência militar do mundo, enquanto a China decidiu acelerar a modernização de sua marinha e de sua capacidade balística, além de dar início ao seu grande projeto de construção e incorporação de mais de 60 países ao redor do mundo, no programa Belt and Road.

Caso se queira simplificar este processo mais recente, poderíamos dizer que a grande inflexão aconteceu no momento em que a Rússia interveio na Guerra da Geórgia, em 2008, dando um “basta” à expansão da OTAN, e depois interveio na Guerra da Síria, em 2015, por sua própria conta e seguindo seu próprio comando.

Essas ações, de pleno sucesso militar, deixaram claro que surgia no mundo outra potência com capacidade de arbitrar, sancionar e punir por sua própria conta, mesmo que fosse – como neste caso – em nome de valores e objetivos buscados também pelas “potências ocidentais’, como era derrotar o chamado “Estado Islâmico”.

Esta inflexão acelerou ainda mais no momento em que a China de Xi Jinping colocou sobre a mesa seus objetivos estratégicos para as próximas décadas, e ao mesmo tempo chamou o Ocidente a respeitar o fato de que agora existem múltiplas culturas e civilizações dentro do mesmo sistema interestatal.

A “declaração” da Rússia e da China, de 7 de fevereiro de 2022, consagra esta convergência e anuncia o fim do poder e da ética mundial unipolar imposta pelo Ocidente nos últimos 300 anos da história do sistema mundial.

Uma coisa que chama a atenção nesta “carta aos povos do mundo” da Rússia e da China, é a defesa do que eles denominam de valores da liberdade, da igualdade, da paz e da democracia, respeitando-se a visão de cada povo com relação a cada uma destes “valores” que eles também apresentam como universais.

*José Luís Fiori é professor do Programa de pós-graduação em Economia Política Internacional da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O Poder global e a nova geopolítica das nações (Boitempo).

Texto estabelecido a partir de entrevista concedida a Rodrigo Martins e publicada no site da revista Carta Capital[https://www.cartacapital.com.br/entrevistas/os-europeus-temem-a-superioridade-militar-dos-russos-e-uma-crise-energetica/].

O nazismo está entre nós

Por Rogério Godinho

O nazismo entre nós.
Boa parte de meus colegas nesta rede tem uma definição bastante restrita do que seria um nazista.
Precisa ter um histórico consistente, preencher todos os requisitos e, no mundo ideal, fazer a saudação e usar a suástica.
Em alguns casos, vão dizer que mesmo o sujeito que faz tudo isso (exceto a suástica) não é um nazista.
Ele só está “brincando”.
Como se as táticas nazistas tivessem sido sempre honestas, explícitas, diretas.
Hitler ascendeu ao poder em um jogo de recuos e mentiras. Escreveu em detalhes tudo que faria, depois negou e negou e negou. Fanático pela guerra como solução, disse que era amante da paz.
Se o Hitler viajasse no tempo, como no romance de Timur Vermes, e viesse ao Brasil, diriam dele:
“Este homem de bigodinho? Não pode ser nazista. Ele é um pacifista!”
Nos lugares certos e nos momentos escolhidos, evitou falar de judeus.
“Este homem de bigodinho? Não pode ser nazista. Seu discurso não falou de judeus!”
No caso do homem de bigodinho, havia um histórico, um livro que dizia tudo que ele queria fazer.
O restante dos nazistas não eram tão consistentes. Uns se importavam mais com o antissemitismo, outros com a repressão aos comunistas, outros ainda só queriam aniquilar inimigos e obter poder. Exigir um histórico consistente poderia excluir até uma parte dos que serviam ao Reich de serem chamados de nazistas.
Hoje, é ainda mais difícil. O ambiente político e mesmo a legislação dificultam bastante que alguém seja explicitamente nazista. O levantamento de células nazistas no Brasil enfrenta essa dificuldade. Sabemos que são mais de 500 células no Brasil, mas seus membros negam que sejam nazistas. Óbvio, ser nazista é um crime.
Por isso, é bobagem esperar que uma personalidade pública se reconheça nazista. Ninguém vai fazer isso, por mais que algumas de suas ideias e táticas sejam semelhantes.
Agora, vale fazer algumas perguntas.
Em quem vocês acham que os membros das células nazistas votaram e que meios de (des)informação eles usam?
Por qual razão você acredita que elas escolheram essas pessoas?Será que é porque suas ideias são próximas?
Talvez porque seus atos e posições tornam mais próxima a existência de algo parecido ao nazimo no Brasil?
Responder essas perguntas não é simples. Hoje, as ideias nazistas encontraram outros caminhos, por meio dessa extrema-direita que avançou um grau no jogo, que usa o argumento do suposto humor, do comentário “sem consequências”, do tongue in cheek.
Assim, eles podem avançar o nazismo, mentir e distorcer de maneira semelhante ao que os jornais de extrema-direita faziam antes da ascensão de Hitler (a semelhança de tática é incomparável, nenhum outro modelo é tão parecido, nem a imprensa stalinista). Podem defender a existência de subclasses. Podem atacar minorias. Podem negar a ciência. Podem constantemente distorcer e mentir sem que seus leitores vejam problema nisso. Podem promover o uso da força como elemento organizador da sociedade e fazer com que a vida deixe de ser o valor máximo. Podem fazer tudo isso com um sorriso no rosto e não vamos poder chamá-los de nazistas.
Estão só promovendo o “debate”.
São “despreparados”.
São “libertários”.
São “ancap”.
Assim, mais do que nunca, se definir direitinho, ninguém é nazista. No sentido estrito, ninguém. Nem Monark, nem Olavo, nem Bolsonaro.
Acho que precisamos reconhecer isso e reagir à altura.
A dissimulação não pode salvar esses caras de serem chamados do que são. Se tocam no fruto, se querem relativizá-lo, trazê-lo de volta, enquanto simultaneamente usam as mesmas táticas e valores equivalentes, então temos uma palavra para eles.
Nazistas.

Monark, Kataguiri e o Nazismo

Do professor Luis Felipe Miguel

Até ontem, eu não sabia quem era Monark. (Certamente virá alguém dizer que sou elitista e alienado por causa disso, mas a vida é curta demais para que eu me imponha a obrigação de conhecer todos os influencers direitistas e mentecaptos do mundo.)

Não vi o podcast com Tabata Amaral e Kim Kataguiri, no qual ele, secundado pelo deputado do MBL, defendeu o direito de organização dos nazistas. Pelos resumos que li, tendo a concordar com a apreciação de Carlos Reiss, coordenador do Museu do Holocasto em Curitiba: “Eu não vejo, a partir da fala dele, explicitamente, uma apologia do nazismo. Acho que existe uma deturpação do que é a liberdade”.

É importante fazer esta distinção, porque o não enquadramento dele no crime de apologia não significa, de forma nenhuma, que sua fala não foi nociva.

Da forma como vejo, o centro do discurso seja de Monark, seja de Kataguiri, é a equiparação entre nazismo e comunismo. Uma tese que aparentemente é tão forte que até o PCO acredita nela.

Monark e Kataguiri fingem ir no caminho contrário, mas na verdade estão no mesmo diapasão daquele projeto do Eduardo Bananinha, de criminalização da defesa do comunismo.

Comunismo e nazismo são apresentados como simétricos. Se um é proibido, o outro deve ser. Ou: se um é permitido, também é preciso permitir o outro. Tudo isso em nome de um pretenso “fair play” na disputa ideológica, tal como explicitado pelo pseudo-bêbado no podcast.

Uma versão, para consumo do grande público, da velha tese ideológica do “totalitarismo”.

Já escrevi várias vezes sobre isso, então vou repetir mais uma vez: comunismo e nazismo são duas correntes antagônicas. Um liberal honesto deveria ser capaz de admitir isso.

A utopia comunista é uma sociedade de igualdade, de liberdade plena e de cooperação. Já o nazi-fascismo prega abertamente a hierarquia, a violência e a submissão ou mesmo o extermínio daqueles apresentados como inferiores.

São esses os valores básicos que orientam cada projeto político, os afetos que eles buscam mobilizar. Não poderiam ser mais diversos.

Não é preciso negar o caráter assassino do regime stalinista para chegar a esta conclusão.

Sim, a experiência histórica do regime que se afirmava comunista (ou ao menos voltado à construção do comunismo) foi marcada pela violência em larga escala – assim como, aliás, foi a experiência histórica das sociedades que se proclamam liberais, responsáveis, por exemplo, pelos crimes do colonialismo e pela pauperização da classe trabalhadora.

Mas o holocausto dos povos judeu e roma (“ciganos”) é uma consequência lógica, uma derivação do mito hitlerista da raça ariana. Poderia não ter ocorrido, pelo menos não da forma que ocorreu; mas estava contido, em semente, em toda a pregação nazista, desde antes da conquista do poder.

Já o gulag, ao contrário, não está incluído no marxismo, no discurso comunista ou na Revolução de 1917: é uma degeneração, uma aberração ou, quando muito, uma virtualidade não necessária.

Vetar a difusão de propaganda nazista é uma forma de garantir que os direitos de vastas parcelas da população não sejam ameaçados. Já criminalizar o comunismo é bloquear a discussão sobre que mundo queremos construir.