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Menino23 – Infâncias perdidas no Brasil (filme)

Sinopse
“Em 1998, o historiador Sydney Aguilar ensinava sobre nazismo alemão para uma turma de ensino médio quando uma aluna mencionou que havia centenas de tijolos na fazenda de sua família estampados com a suástica, o símbolo nazista. Esta informação despertou a curiosidade de Sidney e desencadeou sua pesquisa. Pouco a pouco, o filme mostra como o historiador avançou com a sua investigação, revelando que, além de fatos, ele também descobriu vítimas. Sidney mostrou que empresários ligados ao pensamento eugenista ( integralistas e nazistas) removeram 50 meninos órfãos do Rio de Janeiro para Campina do Monte Alegre/SP para dez anos de escravidão e isolamento na Fazenda Santa Albertina de Osvaldo Rocha Miranda. O trabalho de Sidney vai reconstituir laços estreitos entre as elites brasileiras e crenças nazistas, refletidos em um projeto eugênico implementado no Brasil. Aloísio Silva, um dos sobreviventes, lembra a terrível experiência que escravizou os meninos ao ponto de privá-los do uso de seus nomes, transformando-o no “23”. Sidney e outros historiadores e especialistas irão delinear os contextos históricos, políticos e sociais do Brasil durante os anos 20 e 30, explicando como um caldeirão étnico como o Brasil absorveu e aceitou as teorias de eugenia e pureza racial, a ponto de incluí-los em sua Constituição de 1934. A investigação culmina com a descoberta de Argemiro, outro sobrevivente do projeto nazista da Cruzeiro do Sul. Sua trajetória reforça ainda mais como os conceitos de “supremacia branca” e as tentativas de “branqueamento da população” marcaram nossa sociedade deixando sequelas devastadoras até os dias de hoje. Sendo o racismo e – mais ainda – a negação do mesmo, as mais permanentes.” Equipe Técnica:
Direção: Belisario Franca Roteiro: Bianca Lenti e Belisario Franca Produção: Maria Carneiro da Cunha Produção Executiva: Cláudia Lima Edição: Yan Motta Musica: Armand Amar Fotografia: Thiago Lima, Mário Franca e Lula Cerri. Site do filme: menino23.com.br A seguir, compartilho o filme completo. Muito bom. Paulo Martins
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Escolha o título …

“Ele parecia um jovem universitário recebendo um diploma”.

Se faltava alguma imagem que pudesse traduzir fielmente o protagonismo submisso que vem seduzindo celebridades do Judiciário no apego à popularidade, as palavras do presidente eleito sobre o momento em que Sérgio Moro recebeu o convite ao Ministério da Justiça cumpriram eficazmente esse papel.

Contra uma plêiade de prognósticos de quem supôs que a lisonja já bastasse por si só como um cartaz emoldurado na sala de troféus, o juiz acabou por aceitar o encargo.

Pouco importou se sobraram acusações de utilização de caixa 2 na campanha do eleito, especificamente para o disparo de fake news em grupos de Whatsapp –balas de prata de uma eleição digital. Meses antes, o próprio Moro havia retrucado de forma severa àqueles que empunhavam a tese para reduzir a gravidade da corrupção: “Caixa 2 no contexto de uma eleição é trapaça”.

Pouco importou, também, se no último e mais contundente discurso de campanha, o candidato propôs-se a banir os opositores e deixar um preso apodrecer na cadeia –injúrias indecorosas à Constituição que o juiz, como todos os seus demais colegas, prometeu cumprir ao ser empossado.

Pouco importou, por fim, a generalizada ideia de parcialidade que, retrospectivamente, passou a planar sobre o processo do ex-presidente. Afinal, Moro não foi apenas o juiz que condenou Lula, mas o que divulgou conversa dele que, por disposição expressa de lei, deveria ter sido mantida em sigilo; como ainda aquele que autorizou, durante o processo eleitoral, a publicidade de delações aptas a influenciá-lo. Foi ainda o que interrompeu suas próprias férias para evitar que o ex-presidente gozasse da liberdade que lhe fora concedida por instância superior.

Para muitos analistas, inclusive da imprensa internacional, tornou-se cada vez mais difícil negar as aparências. “Bolsonaro promete cargo para o juiz que prendeu seu rival”, foi a manchete do jornal londrino The Times, que viralizou nas redes sociais.

Não há mais vergonhas ou constrangimentos.

Sem meias-palavras, aliás, o candidato fez da nostalgia da tortura uma questão de ordem; a ditadura militar, nas suas mais sórdidas facetas, a morte e o desaparecimento de centenas de corpos, um exemplo a ser não apenas seguido, mas fortemente ampliado.

Quanto a Moro, não se trata de vaidade ou merecimento. Dos atributos privados, cada um cuida dos seus. O que está em jogo é mais do que isso. É um projeto de autoritarismo, ainda que não necessariamente na versão mais crua ou sanguinária, como talvez encantasse o presidente eleito.

A democracia da forma que conhecemos não existirá mais, mas isso não implica que o poder precise se valer, como antes, de fuzis e baionetas para dar suporte às suas censuras, sustentar os seus arbítrios. Certamente não teremos, como no período nazista, policiais que passavam por cima de juízes; mas quem há de negar que já não vimos produzindo a cultura de juízes que incorporam funções policiais?

A ditadura, como sofremos por duas décadas, pode até não se repetir; a prepotência das maiorias também é uma forma hábil de se construir um regime autoritário. Até por incluir aqueles que mal tenham consciência dos limites que acabarão por ultrapassar.

Alguns podem entrar no autoritarismo pela via da desesperança ou da frustração; outros de boa-fé aderem em nome de um inimigo supostamente mais poderoso, o maior de todos, o monstro da corrupção – sem perceber que o autoritarismo é, em si mesmo, a corrupção de todo o sistema. E que não há autoritarismo sem as mais diversas corrupções embutidas.

Não são poucos, é verdade, os que vêm aplaudindo entusiasticamente as normas rigorosas que, já de um tempo, ajudam a pavimentar o caminho para a implantação deste projeto, que hoje se acelera de forma brutal. De ideologias ou siglas diversas. Que fique claro, a denúncia do autoritarismo não é uma manifestação político-partidária – e não deve ser assim compreendida.

Alguns a ele aderem ainda, por mais paradoxal que possa parecer, porque se arrogam liberais.

Mas novos liberais que nada têm a ver com os antigos, que, mesmo pensando na melhor acomodação do capital, acabaram por construir espaços democráticos, justamente pela contração de um poder absoluto e ilimitado. Os neoliberais não querem destruir o poder que sufoca, mas sim desarmar o Estado que ampara.

Na nova governamentalidade, ensinam Christian Laval e Pierre Dardot, a forma de empresa de que se revestem os Estados, e até mesmo as pessoas, implode qualquer possibilidade de cidadania. Arguto observador do nascimento do neoliberalismo na Inglaterra, Stuart Hall já descrevia, no final dos anos 1970, a pulsão do governo Thatcher como a combinação de um mercado livre e de um Estado forte. Nada menos do que se viu, de forma grosseiramente caricatural, no Chile de Pinochet.

A atualidade vem nos mostrando isso: para que os mercados fiquem cada vez mais livres; os Estados vão ficando cada vez mais fortes. Especialmente no direito penal, como é prova a guinada punitiva norte-americana.

Aliás, foi de lá mesmo, dos Estados Unidos, que vieram as ideias estampadas no projeto politicamente bancado pelos homens da Lava Jato (e financeiramente suportado pelo Ministério Público Federal), equivocadamente intitulado Dez Medidas Contra a Corrupção (pois nem eram dez medidas, nem eram propriamente contra a corrupção). Tratava-se, na verdade, de uma espécie de Código de Processo da Acusação. Empoderando irrestritamente o Ministério Público, tal qual uma tropa de elite, e colocando a lei como um obstáculo a ser ultrapassado na luta contra a corrupção. A defesa, uma instituição em extinção, cuja principal tarefa, na onda de tornar eficiente o processo, é a de secundar a acusação com confissões e delações premiadas.

O resultado do sistema prisional norte-americano e seus mais de dois milhões de presos, jovens negros sobre-representados dentro das celas, mostra bem o resultado deste tipo de projeto draconiano que agora, enfim, volta repleto de chances.

Mas o maior problema à vista, e aquele que se vincula diretamente com o convite ao juiz, é a fissura na visão contramajoritária do papel do Judiciário.

É o sentido contramajoritário que permite ao Judiciário assegurar os direitos fundamentais, mesmo à revelia da população, por exemplo, estimulada por um processo penal de espetáculo. É ele que permite absolver réus detestáveis, porque as provas juntadas aos autos não foram capazes de demonstrar suas culpas; que autoriza a concessão de liberdade a quem quer que esteja respondendo a um processo criminal, antes de ser considerado culpado, desde que não exista nenhum fundamento de perigo ao processo ou ao cumprimento da pena.

O sentido contramajoritário não mostra desprezo pela sociedade; ao revés, é uma cápsula de proteção ao indivíduo. Só no fascismo o sentimento da sociedade não tem freios e, a pretexto de sua tutela, os indivíduos são simplesmente destroçados.

Os processos que se legitimam pelo apoio popular tornam seus juízes celebridades instantâneas –mas produzirão sempre um protagonismo submisso, pois sua legitimidade depende do apelo do público e assim está vinculada a uma condenação, que o garante. O juiz condenado a condenar não julga –é réu de si mesmo.

Em uma democracia constitucional como a nossa, juízes são garantidores de direitos. A Constituição lhes outorga esse poder; as maiorias os tornam reféns da política. O protagonismo não é apenas submisso, é também suicida.

A partir de janeiro, os dilemas do STF serão drásticos: a ameaça desengonçada e nada sutil de um cabo e soldado de um lado; a pressão popular de um juiz das maiorias de outro. E ao que tudo indica, só o Supremo estará em condições de impedir as barbaridades com que se pretende desfigurar o sistema legal. Da redução inconstitucional da maioridade penal à macarthista proposta da Escola Sem Partido, sem esquecer de uma inusitada e ampla licença para matar aos policiais.

Pelo retrospecto da Corte nos últimos anos, da forma como vem flexibilizando as garantias constitucionais no âmbito penal, notadamente como implodiu a presunção de inocência, não há como ficar tranquilo. A proibição unânime de censura política no ambiente universitário na semana passada, todavia, pode ter dado a mostra de que os ministros enfim estão atentos quanto aos riscos que nos cercam.

O timing da decisão foi, aliás, muito importante – especialmente em uma Corte que já estava se acostumando a postergar as questões mais sensíveis.

Verdade seja dita, não é só a justiça que tarda.

Muitas pessoas ainda não atinaram que a supressão indevida da liberdade de um réu é sempre um esvaziamento da liberdade de todos. E até aplaudiram ao ver seus inimigos no cadafalso. Outros tantos demoraram a entender que quando os fins justificam meios, todos serão ilegítimos.

Aqueles que estimularam o esvaziamento da política, que criaram ondas seletivas de indignação e que, enfim, acabaram por acrescer os sentimentos de aversão que contribuíram para esse enredo, somente agora estão despertando. É o caso da imprensa, que começa a experimentar a amarga intimidação da censura se formando.

Para muitos, é preciso sentir na pele a força do poder até percebê-lo como uma ameaça. Infelizmente, há corpos frágeis demais que não podem pagar para ver. Cabe a todos os democratas cuidarem de protegê-los.”

MARCELO SEMER é juiz de Direito e escritor. Mestre em Direito Penal pela USP, é também membro e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia.

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Ninguém poderá dizer que não sabia

Coragem

“Ninguém poderá dizer que não sabia. É ditadura, é tortura, é eliminação física de qualquer oposição, é entrega do país, é domínio estrangeiro, é reino do grande capital, é esmagamento do povo. É censura, é fim de direitos, é licença para sair matando.

As palavras são ditas de forma crua, sem tergiversação –com brutalidade, com boçalidade, com uma agressividade do tempo das cavernas. Não há um mísero traço de civilidade. É tacape, é esgoto, é fuzil.”

O artigo na página 3, da Folha de S.Paulo, 25/10, é da jornalista Eleonora de Lucena. Tudo dito!

Eis a íntegra:

Não adianta pedir desculpas 50 anos depois

Ninguém poderá dizer que não sabia. É ditadura, é tortura, é eliminação física de qualquer oposição, é entrega do país, é domínio estrangeiro, é reino do grande capital, é esmagamento do povo. É censura, é fim de direitos, é licença para sair matando.

As palavras são ditas de forma crua, sem tergiversação –com brutalidade, com boçalidade, com uma agressividade do tempo das cavernas. Não há um mísero traço de civilidade. É tacape, é esgoto, é fuzil.

Para o candidato-nojo, é preciso extinguir qualquer legado do iluminismo, da Revolução Francesa, da abolição da escravatura, da Constituição de 1988.

Envolta em ódios e mentiras, a eleição encontra o país à beira do abismo. Estratégico para o poder dos Estados Unidos, o Brasil está sendo golpeado. As primeiras evidências apareceram com a descoberta do pré-sal e a espionagem escancarada dos EUA. Veio a Quarta Frota, 2013. O impeachment, o processo contra Lula e sua prisão são fases do mesmo processo demolidor das instituições nacionais.

Agora que removeram das urnas a maior liderança popular da história do país, emporcalham o processo democrático com ameaças, violências, assassinatos, lixo internético. Estratégias já usadas à larga em outros países. O objetivo é fraturar a sociedade, criar fantasmas, espalhar medo, criar caos, abrir espaço para uma ditadura subserviente aos mercados pirados, às forças antipovo, antinação, anticivilização.

O momento dramático não permite omissão, neutralidade. O muro é do candidato da ditadura, da opressão, da violência, da destruição, do nojo.

É urgente que todos os democratas estejam na trincheira contra Jair Bolsonaro. Todos. No passado, o país conseguiu fazer o comício das Diretas. Precisamos de um novo comício das Diretas.

O antipetismo não pode servir de biombo para mergulhar o país nas trevas.

Por isso, vejo com assombro intelectuais e empresários se aliarem à extrema direita, ao que há de mais abjeto. Perderam a razão? Pensam que a vida seguirá da mesma forma no dia 29 de outubro caso o pior aconteça? Esperam estar livres da onda destrutiva que tomará conta do país? Imaginam que essa vaga será contida pelas ditas instituições –que estão esfarrapadas?

Os arrivistas do mercado financeiro festejam uma futura orgia com os fundos públicos. Para eles, pouco importam o país e seu povo. Têm a ilusão de que seus lucros estarão assegurados com Bolsonaro. Eles e ele são a verdadeira escória de nossos dias.

A eles se submete a mídia brasileira, infelizmente. Aturdida pelo terremoto que os grandes cartéis norte-americanos promovem no seu mercado, embarcou numa cruzada antibrasileira e antipopular. Perdeu mercado, credibilidade, relevância. Neste momento, acovardada, alega isenção para esconder seu apoio envergonhado ao terror que se avizinha.

Este jornal escreveu história na campanha das Diretas. Depois, colocou-se claramente contra os descalabros de Collor. Agora, titubeia –para dizer o mínimo. A defesa da democracia, dos direitos humanos, da liberdade está no cerne do jornalismo.

Não adianta pedir desculpas 50 anos depois.

Eleonora de Lucena
Jornalista, ex-editora-executiva da Folha (2000-2010) e copresidente do serviço jornalístico TUTAMÉIA (tutameia.jor.br)

David Harvey: o capitalismo da servidão por dívida

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David Harvey: o capitalismo da servidão por dívida

Publicado no Blog da Boitempo

“Uma das formas de exercer controle social é afundar as pessoas em dívidas a tal ponto que elas não possam sequer imaginar um futuro que não seja viver para poder pagar sua dívida. Esse é um dos maiores limites ao radicalismo, por exemplo, da geração dos ‘millennials’.”

Publicado em 29/08/2018

Entrevista especial com David Harvey. Para a Boitempo

David Harvey é um dos marxistas mais influentes da atualidade. Geógrafo de formação, ele desenvolveu uma leitura bastante original da obra de Marx informada por uma sensibilidade às dinâmicas de urbanização que acompanham a história do capitalismo e suas crises. Seu mais novo livro, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI, é um esforço culminante desse projeto intelectual e político. Nele, Harvey se propõe a atualizar o pensamento de Karl Marx à luz das novas transformações da globalização capitalista contemporânea. Disparando contra a “loucura da razão econômica”, ele revela a total impotência da dita “ciência econômica” imperante para lidar com os problemas postos pela crise atual do capitalismo. Trata-se de uma obra de amplo alcance temático – abordando fenômenos diversos como bitcoin, inteligência artificial, a ascensão do fascismo, os megaprojetos chineses e a crise da Zona Euro – que procura fornecer um instrumental teórico à altura das complexidades e armadilhas da lógica do capital para que os diversos movimentos e organizações sociais possam calibrar melhor suas estratégias políticas diante do inimigo comum.

Um dos temas centrais abordados pelo livro novo é a economia do endividamento generalizado e o surgimento de uma situação marcada por um regime de servidão por dívida cada vez mais com traços feudais. É sobre esse tema que David Harvey falou a Jeremy Scahill em entrevista para o The Intercept. A tradução é de Deborah Leão para o The Intercept Brasil.

Boa leitura!


Ao longo do último ano, experimentamos todos uma sensação de vertigem política. Parte disso, claro, decorre do fato de o atual presidente dos Estados Unidos ser Donald Trump — e de ele estar constantemente encadeando um absurdo no outro, normalmente quando a gente mal começa a debater sobre o primeiro.

Estamos correndo o tempo todo, e fica difícil tomar pé de onde estamos e onde estivemos. Poder parar e olhar para as coisas de uma perspectiva mais ampla se torna um luxo quase inacessível. Isso terá sérias consequências. Estamos sofrendo alterações em nossos cérebros, na forma como processamos as notícias e as informações, nos nossos conceitos de resistência e tirania. Já vivemos em uma sociedade que não estuda sua própria história — a história nua e crua –, e muitas vezes os acontecimentos em curso são analisados num vácuo que raramente inclui o contexto histórico necessário para compreender o que é novidade, o que é antigo e como chegamos até aqui.

Nós nos alienamos da nossa realidade e do nosso trabalho.

No momento em que Trump comemora seu primeiro ano de mandato em meio a manifestações contrárias a seu governo em várias partes dos EUA, o acadêmico marxista David Harvey aceitou o convite para uma entrevista para o podcast Intercepted, de The Intercept. Harvey é um dos principais pensadores marxistas da atualidade, uma autoridade na principal obra de Marx, O capital, que completou 150 anos no fim de 2017. Ele é professor benemérito de Antropologia e Geografia na City University de Nova York e um pioneiro da geografia moderna. Acaba de lançar o livro A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI.

Abaixo, o áudio completo em inglês e uma versão traduzida e editada da conversa.


Jeremy Scahill: Professor, bem-vindo ao Intercept.

David Harvey: Obrigado.

JS: Para começar, fiquei curioso depois de ler seu livro: como chegamos a Trump? Quais fatores levaram à ascensão de Trump à Casa Branca?

DH: Eu resumiria em uma palavra: alienação. Uma população cada vez mais alienada. Alienada do processo de trabalho, porque não há muitos trabalhos com propósito e significado por aí. Prometeram a esses trabalhadores uma espécie de cornucópia do consumo, um espaço no qual encontram muitos produtos, mas que não funcionam bem, e acabam tendo que comprar um telefone novo a cada dois anos. Um estilo de vida é imposto e, sabe, essas pessoas estão desiludidas. E claro que também estão desiludidas com o processo político; eles percebem que quem tem o dinheiro compra o que quiser.

Populações alienadas não necessariamente se comportam de uma forma que faça sentido para alguém como eu. Eles não se voltam para a esquerda, por exemplo. Dizem simplesmente: “Quero uma coisa que pareça diferente”. E acho que quando Trump veio e disse “eu vou ser a voz de vocês”, foi aí que ele levou a melhor sobre Hillary Clinton. E acho que é a mesma coisa que você encontra na votação do Brexit na Grã-Bretanha, onde as áreas metropolitanas estão indo bem, mas você encontra populações alienadas nas cidadezinhas onde a base econômica da vida simplesmente desapareceu.

E aí você vê irromper um pessoal neofascista, populista e de direita que chega e diz: “Ouça o que eu digo, ouça o que eu digo, eu tenho uma resposta diferente para todas essas perguntas”. E acho que esse tipo de coisa está acontecendo não só nos Estados Unidos, mas em vários outros lugares.

JS: Baseado nos atos de Trump enquanto presidente e nas ideias que apresenta em seus discursos ou no Twitter, você considera que ele tem alguma ideologia?

DH: Acho que ele tem algumas ideias, estejam ou não reunidas em uma ideologia. Uma das suas ideias, por exemplo, é desmanchar tudo que Obama fez. Isso é quase instintivo para ele: fazer tudo na direção exatamente oposta. Então dá pra dizer que ele tem ideias.

Agora, uma ideologia? Não acho que ele tenha uma ideologia clara. Mas ele com certeza constrói um personagem: tudo gira em torno de mim, mim, mim. O narcisismo é óbvio, o que me parece um traço clássico de líderes populistas.

JS: É o que muitos observadores chamam de populismo à la Trump. Tem muitos mantras que ele repete, e seu favorito para falar de seu sucesso à frente da presidência é que a bolsa de valores continua batendo recordes, e os investimentos dos planos de previdência privada estão estourando. O que ele não diz é que a maior parte dos trabalhadores do país não tem aposentadoria e não participa dos planos de previdência. Como você explica que está acontecendo agora com Wall Street e o mercado de ações? A bolsa está mesmo batendo recordes.

DH: O que me parece é que, desde os problemas de 2007 e 2008, temos visto bancos centrais colocando mais dinheiro no mercado. Esse dinheiro precisa ir para algum lugar, e vai principalmente para o mercado de ações, e, claro, para o bolso do 1% mais rico. Então, se você olhar para os índices de desigualdade desde 2007-2008, vai ver que eles aumentaram vertiginosamente, não apenas nos EUA mas em todo o mundo.

De certa forma, o que acontece é que nos deparamos com dificuldades em 2007-2008, e a resposta foi injetar mais dinheiro, o que foi ótimo para o mercado de ações e o resto do mercado financeiro. Mas, como sabemos, a renda das pessoas comuns não melhorou em nada, a situação delas não melhorou. Os benefícios das pequenas recuperações desde 2007-2008 não atingiram ninguém além do 1%. É a solução dos investidores para o problema econômico. E os últimos benefícios tributários foram sob medida para os investidores.

O que acontece nos Estados Unidos é que os investidores estão criando uma economia boa para eles mesmos.

JS: Se alguém de outro universo chegasse aqui e perguntasse a você: “De onde vem o dinheiro que paga os salários dos trabalhadores, ou que existe no mercado de ações, ou que sai das mãos do ‘povo’ para empresas como a Amazon?”

DH: Bem, o dólar deveria valer o que pode comprar, que são os bens de consumo que a gente quer. E o que a gente quer são bens de consumo úteis. O problema disso é que o capitalismo é muito bom em fabricar bens de consumo que não funcionam, ou que estragam, ou que só duram dois anos. Eu costumo usar esse exemplo: ainda estou usando os garfos e as facas que foram da minha avó. Se o capital produzisse coisas que duram cem anos, o que aconteceria? Em vez disso, se produz computadores que não funcionam se tiverem mais de três ou quatro anos de uso.

Gostaríamos de pensar que o capitalismo é um sistema racional, mas não é. É irracional, ele insere essas irracionalidades porque é a única forma de continuar se reproduzindo. E acho que as pessoas estão começando a ver que essa não é exatamente a vida boa que elas achavam que teriam em algum momento, em especial para a massa da população que hoje está endividada e precisa pagar essa dívida, seja ela de cartão de crédito, de hipoteca, de crediário. É nesse mundo que estamos vivendo.

Vivemos no mundo da servidão por dívida, em que o futuro da maior parte da população está tomado pela maneira como estão atadas ao capitalismo. Sabe como é aquele papo para ter uma vida confortável: tome dinheiro emprestado e tudo ficará bem.

JS: E o papel da Amazon, do Google, do Facebook em nossas vidas? Isso é novidade na evolução ou na degeneração do capitalismo?

DH: Não acho que seja novo. Vamos considerar de uma perspectiva histórica: estamos vivendo isso desde os anos 1970, com o que chamamos de desindustrialização, a perda dos trabalhos industriais, do setor manufatureiro. O resultado foi que os sindicatos, que eram muito fortes… Tudo se perdeu.

Então, a desindustrialização do setor manufatureiro foi um fator importante. Agora estamos vendo a mesma coisa acontecer no varejo e no marketing. Vemos isso com o Wal-Mart, com a Amazon, com as compras online. E vamos ver acontecer no setor de varejo a mesma coisa que aconteceu no setor manufatureiro, e acho que isso vai ter um grande impacto sobre a economia norte-americana.

JS: Qual é a sua crítica ou o seu problema com a ideia de que a concorrência possibilita não só aos consumidores, mas também aos Estados, um produto de maior qualidade?

DH: Em primeiro lugar, gostaria de perguntar: que concorrência? Temos monopólios demais. Vejo isso na área de energia, na área farmacêutica, vejo isso em toda parte, um monte de monopólio em tudo quanto é lugar. Então, a concorrência é, na verdade, uma espécie de falsa concorrência.

E internacionalmente, claro, sempre há algum nível de concorrência entre diferentes Estados — mas veja o que ela faz. Basicamente, o que se espera é que você crie um bom ambiente de negócios. É isso que se espera do estado. E quanto melhor o ambiente de negócios, mais capital será atraído para ele. Isso significa menos tributos. Então, na verdade, você tem que dar dinheiro para as empresas. E é impressionante, o capital corporativo não parece capaz de sobreviver atualmente sem subsídios do setor público.

Assim, no fim das contas, esse setor público está permanentemente sustentando as grandes empresas, e elas não estão realmente concorrendo. Estão simplesmente usando o poder de seu monopólio para reunir uma grande quantidade de riqueza em poucas mãos.

JS: No que se refere à política eleitoral nos EUA, houve um debate bem feroz dentro da esquerda norte-americana sobre as eleições de 2016. E acho que uma porção significativa, mesmo da esquerda, no fim das contas, tapou o nariz e votou na Hillary Clinton como forma de votar contra Donald Trump. Onde você se coloca em relação a essas questões?

DH: Bem, acho que eu me coloco dizendo: “É, temos que organizar algo que seja muito diferente e alternativo à esquerda, em vez de ter o que eu chamo de partido de Wall Street à frente de ambas as legendas”.

O tipo de coisa que me preocupa em relação ao Trump é o que ele está fazendo com o meio ambiente, e o que ele pode fazer com a guerra nuclear. Ele é completamente irracional com esses assuntos. Então, sim, eu preferiria que fosse a Hillary, mas eu não quero estar numa situação em que eu precise dizer que a única alternativa a alguém como Trump é a Hillary, porque isso me parece um retorno aos mesmos problemas que tivemos no primeiro governo Clinton, que foi o começo do processo de venda do governo dos EUA para os investidores e para Wall Street. Então, temos que buscar algo que seja uma espécie de partido não-Wall Street.

E acho que a liderança na estrutura de poder dentro do Partido Democrata é, em certa medida, antagônica a um verdadeiro impulso socialista.

Precisamos de um bom movimento de esquerda real, sólido, nos moldes do que começamos a ver se cristalizar em torno de Bernie Sanders, algo assim. Mas penso que precisamos ir mais longe que isso.

JS: Bernie Sanders se identifica como socialista democrático, mas no seu registro de votos, podemos ver que ele apoiou a mudança do regime no Iraque, e ele disse que daria continuidade ao programa de assassinatos por drones que existia no governo Obama. Como você descreveria Bernie Sanders? Ele é marxista, na sua opinião?

DH: Não, não, ele não é marxista de jeito nenhum. Ele é, como você disse, uma espécia de social-democrata. Mas sociais-democratas têm um longo histórico de serem bastante bélicos, acreditarem em coisas como humanismo militar, esse tipo de coisa. A história da social-democracia é um pouco maculada por isso. Então, eu considero que é preciso haver um verdadeiro movimento socialista de esquerda.

E eu acho que Sanders, à medida que começou a falar mais com os “millennials”, começou a mudar seu discurso para uma linha mais socialista. Começou a falar sobre um sistema de saúde público e sobre acesso gratuito ao ensino superior.

JS: O termo neoliberal é muito usado atualmente por pessoas que parecem não ter a menor ideia do que seja a política econômica neoliberal ou o neoliberalismo. Dê uma definição para essas pessoas: o que significa neoliberalismo?

DH: Eu considero que é um projeto político, que começou em 1970 com a Mesa de Negócios [Business Roundtable, associação dos presidentes das maiores empresas dos EUA], os Rockfellers, e todos os demais, para reorganizar a economia de forma a restaurar o poder de uma classe capitalista em declínio. Eles estavam em dificuldades no final dos anos 1960, começo dos anos 1970, porque o movimento dos trabalhadores estava muito forte, e havia vários ativistas comunitários, o movimento ambientalista, todas essas forças de reforma surgindo, a criação da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, todo esse tipo de coisa. Eles então decidiram, por meio da Mesa de Negócios, que iriam realmente tentar recuperar e acumular o máximo de poder econômico que pudessem.

E havia vários elementos nisso. Por exemplo, se você se visse diante de uma situação de ter que escolher entre resgatar pessoas ou resgatar os bancos, você resgataria os bancos e deixaria as pessoas em apuros. Sempre que você encontrasse um conflito entre o capital e o bem-estar das pessoas, você escolheria o capital. Essa era a forma resumida do projeto.

Tem também algumas pessoas que dizem que é só uma ideia sobre livre mercado. É, realmente, livre mercado para alguns, responsabilidade individual, sim. Uma redefinição de cidadania tal que um bom cidadão é um cidadão sem necessidades. Então, qualquer cidadão com necessidades é uma pessoa ruim. Os serviços sociais são organizados para punir as pessoas, não para realmente dar assistência e ajudá-las.

JS: E o que eu costumo considerar um dos aspectos mais visíveis da política econômica neoliberal é a ideia de medidas de austeridade que são impostas às economias dos países do Sul, mas também no caso da Grécia, por exemplo. A primeira coisa que os credores exigem para conceder empréstimos é o fim de programas sociais, e o dinheiro que você gastaria neles passa a ser destinado a pagar o principal ou os juros do empréstimo que está sendo “generosamente” concedido.

DH: É a servidão por dívida, mais uma vez. Você organiza a servidão por dívida de forma a aprisionar as pessoas para que elas precisem pagar. Mas você não tira dinheiro dos investidores. Quer dizer, no caso da Grécia, por exemplo, não é como se alguém tivesse ido atrás dos bancos franceses e alemães que emprestaram o dinheiro à Grécia. Eles basicamente socializaram a dívida, entregaram ao FMI, ao Fundo Europeu de Estabilidade e a todo o resto, e então obrigaram os gregos a pagar.

A bem da verdade, se os bancos cometeram um erro de avaliação, eles deveriam pagar. Mas não pagaram, e esse é o princípio neoliberal em funcionamento. Eu tendo a não gostar do termo austeridade, porque é usado para políticas que são aplicadas à população. Austeridade não é para o capital. E não é para as instituições financeiras em absoluto, não é para o 1% do topo. A austeridade diz respeito aos programas sociais. E, de fato, o estado está profundamente envolvido em subsidiar o capital. Os bancos nunca se ferem. É isso que constitui a ordem neoliberal.

JS: Quando vemos políticos fazendo campanha com base na ideia de que vão reduzir ou eliminar a dívida do governo federal dos EUA, do que eles estão realmente falando?

DH: Bem, é uma espécie de taco de baseball que é periodicamente levado à política. Você se lembra do [ex vice-presidente] Dick Cheney dizendo que “Ronald Reagan nos ensinou que a dívida não importa”. Porque o Reagan fez dívida feito doido, principalmente pelo lado militar, e o Bush, também, fez muitas dívidas.

Então, quando o Obama chegou, os Republicanos viraram e disseram: “Temos que fazer alguma coisa a respeito da dívida”. E isso se tornou a desculpa para impedir que qualquer programa fosse aprovado. Agora que os Republicanos voltaram ao poder, o que eles fazem? Aumentam a dívida em meio trilhão de dólares, ou algo assim.

Não me parece que haja uma questão real nisso, é simplesmente uma desculpa política para inflamar o discurso sobre o endividamento e termos que lidar com a dívida para os nossos filhos, mas aí, claro, tudo é virado do avesso. Como essa última legislação tributária, ninguém se importa com isso, sendo que, na verdade, eles passaram uma eternidade berrando para chamar a atenção para a dívida. É uma ferramenta política que você usa de um jeito bem específico, em um momento histórico específico.

JS: Como seria se a sociedade norte-americana fosse radicalmente reorganizada à luz de uma filosofia ou uma ideologia de base marxista? Ou se o bem-estar social fosse realmente uma prioridade nesse país, em vez de ser cada um por si? O que isso representaria num país grande e populoso como os EUA?

DH: Dizendo de forma direta: eu acho que o futuro dos EUA, caso haja um futuro radical, está mais próximo do que eu chamaria de anarquismo não ideológico. Eu não acho que o país esteja pronto para o tipo de empreitada coletiva que seria realmente necessária para confrontar o poder do Federal Reserve [o sistema de bancos centrais dos Estados Unidos] e encontrar uma alternativa. Não acho que esteja pronto para pensar em um movimento de massa do tipo que realmente começaria a redefinir como a economia funciona.

Penso que se vai haver algum tipo de esquerda real, vai ser um tipo de política de esquerda socialista-anarquista, e que tem muitas características favoráveis. Vindo de uma tradição de marxismo histórico, eu deveria ser bem hostil ao anarquismo, mas na verdade tenho grande apreço por essa tradição. E acho que há uma área ideológica de intersecção que traz algo de diferente para a história e a cultura dos EUA, e precisamos reconhecer a importância dessa história.

JS: Não há caminho possível para um completo colapso do estado capitalista nos EUA. Estou certo?

DH: Não, eu acho que uma das coisas que está acontecendo na esquerda em alguma medida é a tentativa de redefinir as formas de poder governamental, por assim dizer, que representem alternativas às estruturas estatais existentes. E vejo o ativismo em curso no nível municipal como um caminho interessante para começar a explorar essas alternativas. Podemos criar formas democráticas de governança municipal, por exemplo?

[…]

O que me chamou a atenção [nos protestos em] Ferguson [no estado do Missouri, em 2014] foi a imagem da polícia militarizada — a meu ver, não há como um movimento político imaginar que possa tomar as ruas e estourar as barricadas e chegar a algum lugar. Eles seriam simplesmente massacrados. Então é preciso começar a pensar num tipo de transformação progressiva na política que não envolva confrontos e violência desse tipo, porque, francamente, me parece que qualquer movimento desse tipo seria derrotado. E assim, temos que pensar em um tipo de movimento alternativo.

O problema é que os movimentos que estão tentando construir alguma alternativa acabam sendo criminalizados. Vemos a criminalização dos ambientalistas, por exemplo. Quando se crimanaliza, você passa a ter o direito de ir lá e matar essas pessoas.

É esse, basicamente, o problema da esquerda. A esquerda precisa pensar em uma estratégia alternativa em vez de ficar sonhando com a Revolução Russa ou a Revolução Americana ou algo desse tipo.

JS: Eu costumo discutir com pessoas que dizem coisas do tipo: “Ah, sabe, vai acabar tendo um golpe nos Estados Unidos e os militares vão tomar o poder. Ou vão construir campos de concentração da FEMA [Agência Federal de Gestão de Emergência], etc.” E eu já discuti com essas pessoas, inclusive algumas do meu próprio mundo na esquerda, e o que digo a elas é: “O estado não precisa fazer nada disso. Eles não precisam construir um campo de concentração e te colocar lá. Eles já estão vencendo.”

Esse é o capitalismo deste país: a ideia que as pessoas têm de que é preciso um grupo restrito de homens brancos gordos, fumando charutos e imaginando formas de prender todo mundo que se oponha a elas — não é assim que esse tipo de força opera. Está muito mais entranhado em todos os aspectos das nossas vidas.

DH: Sim, e é por isso que eu volto à ideia da servidão por dívida. Uma das formas de exercer controle social é afundar as pessoas em dívidas a tal ponto que elas não possam sequer imaginar um futuro que não seja viver para poder pagar sua dívida.

Se você pensar, um dos maiores limites ao radicalismo, por exemplo, da geração dos “millennials”, é o imenso volume de dívida estudantil que eles têm. Cientes isso, eles não vão se arriscar tanto. Servidão por dívida é o que tem para hoje.

JS: Professor David Harvey, muito obrigado por se juntar a nós no Intercepted.

DH: Bem, obrigado por esta oportunidade. Foi ótimo. Obrigado.


“David Harvey provocou uma revolução em sua área de conhecimento e inspirou uma geração de intelectuais radicais.” – Naomi Klein

“Neste livro surpreendente, David Harvey tece delicadamente o movimento do valor a partir da obra de Karl Marx, em busca de uma maneira compreensível de representar seus achados fundamentais diante dos impasses econômicos e políticos da atualidade. Imerso no contexto do século XXI, Harvey questiona a pertinência e a atualidade do pensador alemão. Vai adiante dele, com ele.” – Amélia Luisa Damiani

“Ler esta devastadora denúncia de Harvey sobre como vivemos hoje é duvidar, como nunca, da convicção de que o livre mercado é a melhor maneira de aumentar o padrão de vida das pessoas.” – Stuart Jeffries, The Guardian

“David Harvey não dá o menor sinal de que vá diminuir o ritmo; sua fecunda produção garantiu seu estatuto como um dos acadêmicos mais citados do mundo. Este seu mais recente livro oferece um panorama simples, sem ser simplista, do sistema de pensamento de Marx e aplica esse sistema ao atual clima de incerteza política e econômica, jogando luz, ao longo do processo, em problemas novos e antigos. Uma obra informativa para os iniciados mas também para os leigos.” – Fred Melnyczuk, Financial Times
Trecho do livro

“Minha intenção aqui não é sugerir que o capital às vezes cede a um instinto primordial de destruir o que quer que ele tenha construído, como algumas crianças que parecem adorar pisotear os castelos de areia cuidadosamente construídos por outras crianças. Pois, para Marx, o que interessava era mostrar que aquilo que na história do capitalismo parecia (ou era apresentado como) um ato do destino ou dos deuses era de fato produto do próprio capital. Mas, para tanto, ele precisava de um aparato conceitual alternativo. Por exemplo, o modo de produção capitalista precisa reconhecer, escreveu Marx, que uma “desvalorização do dinheiro creditício […] faria estremecer todas as relações existentes”. Os bancos, como sabemos bem, precisam ser socorridos custe o que custar. “Sacrifica-se, portanto, o valor das mercadorias para assegurar a existência imaginária e autônoma desse valor no dinheiro. Como valor monetário, ele só fica assegurado enquanto estiver assegurado o dinheiro.” A inflação, como também sabemos muito bem, precisa ser controlada a todo custo. “Por uns poucos milhões em dinheiro, é preciso sacrificar, portanto, muitos milhões de mercadorias, o que é inevitável na produção capitalista e constitui uma de suas belezas.” Valores de uso são sacrificados e destruídos independentemente da necessidade social. Quão insano é isso

A terceira escravidão no Brasil, entrevista com José de Souza Martins

Destaque

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, sociólogo José de Souza Martins analisa desmandos do governo Temer no combate ao trabalho escravo no Brasil.

“A Portaria é filosofante, o que não tem o menor cabimento em lugar nenhum do mundo”. É assim que José de Souza Martins avalia a Portaria 1.129 do Ministério do Trabalho, publicada no dia 16 de outubro e que altera o modelo de fiscalização e combate ao trabalho escravo no Brasil. Professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Martins de Souza é especializado no estudo de conflitos fundiários. Liderou o GERTRAF (Grupo Executivo de Repressão ao Trabalho Forçado), criado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2003, no combate à escravidão, e foi membro do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, entre 1998 e 2007.

A portaria em questão criou novos conceitos de trabalho forçado, jornada exaustiva e condição degradante. De acordo com o novo documento, serão consideradas situações análogas à escravidão a “retenção de documentação pessoal com o fim de reter o trabalhador no local de trabalho”, a “submissão do trabalhador a trabalho exigido sob ameaça de punição, com uso de coação, realizado de maneira involuntária” a “manutenção de segurança armada com o fim de reter o trabalhador no local de trabalho em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto”, entre outros tópicos.

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Rosa Weber, concedeu liminar no último dia 24 revogando a portaria, alegando que o texto “teria como efeito provável a ampliação do lapso temporal durante o qual ainda persistirá aberta no Brasil a chaga do trabalho escravo”. A medida foi acatada pelo Ministério do Trabalho e o texto deverá ser analisado pelo plenário do STF nos próximos dias.

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, José de Souza Martins explica o fenômeno por ele caracterizado como a “Terceira Escravidão” brasileira, analisa o distanciamento da sociedade em relação ao tema, reflete sobre a necessidade de uma Reforma Agrária real e questiona a lógica do capital variável na relação entre empresários e trabalhadores. “Quem sabe pagar pouco para ganhar muito, quem não considera o trabalhador um legítimo agente de capitalismo, quem transforma o outro em mercadoria barata, não é um empresário, é um criminoso, um ladrão de direitos alheios. Esse ainda primitivo ganhador de dinheiro sabe que a tendência da estrutura do investimento deve privilegiar o dispêndio com capital constante, que já é produto histórico e expropriado de trabalho, em face do dispêndio com trabalho, cuja remuneração é o capital variável. Esse explorador do trabalho é apenas ideologicamente “moderno”. Sabe gastar consigo mesmo, mas não tem a menor noção de sua responsabilidade social”, comenta.

Le Monde Diplomatique Brasil: De que maneira as mudanças promovidas pelo Governo Temer, agora revogadas pela ministra Rosa Weber, diminuem as ações no combate ao trabalho escravo?

José de Souza Martins: A Portaria do Ministro do Trabalho, que pretende reconceituar “trabalho escravo” no Brasil, tem o objetivo de definir práticas que as convenções internacionais, de que o País é signatário, definem como escravidão como se escravidão não fosse. Imputa à consciência da vítima a definição do que é o cativeiro e retira dos fiscais do trabalho a iniciativa do diagnóstico com base na lei. Com isso, exacerba a ideologia neoliberal e individualista na caracterização do problema e retira do Estado a função de mediador legítimo da consciência coletiva na caracterização e vigilância daquilo que fere princípios e valores de sustentação da sociedade. A Portaria é “filosofante”, o que não tem o menor cabimento em lugar nenhum do mundo.

Em alguns eventos e entrevistas o senhor disse que a sociedade brasileira não sabe o que foi a escravidão antiga e também desconhece a escravidão contemporânea. Essa análise faz parte do que podemos chamar de escravidão indígena, escravidão negra e a terceira escravidão?

Sim e mais do que isso. O desconhecimento do que é escravidão e do que dela subsiste entre nós decorre da profunda e manipulada alienação do povo brasileiro. Remanescentes de escravidão estão em todos os âmbitos desta sociedade, tanto entre os ricos quanto entre os pobres. Ricos e pobres adotam na vida doméstica técnicas de imposição de subserviência nas relações sociais, do homem em relação à mulher, dos pais em relação aos filhos, de patrões em relação a empregados. No interior da família, as relações sociais ainda são mais de cerceamento do que de libertação e emancipação. A falsa liberdade que aí há é liberticida porque mero privilégio tolo em vez de ser uma liberdade emancipadora e socialmente responsável, baseada no reconhecimento dos direitos do outro e no direito à diferença dos que até aqui carregaram nos ombros o peso das benesses dos que podem e mandam.

Há um distanciamento entre parte da sociedade e a presença do trabalho escravo no Brasil? Em caso positivo, por que isso ocorre?

Não temos no Brasil uma parte propriamente emancipada da sociedade e outra não. Ainda nestes dias vimos um ministro da Suprema Corte fazendo ironia sobre a escravidão. Escravidão para ele é trabalhar muito, quando na verdade é trabalhar indevidamente mais do que o necessário à sobrevivência. Ele pressupõe que cada qual pode renunciar livremente à própria liberdade e que ser vítima de cativeiro é uma questão de opção. Mesmo pressuposto da Portaria do ministro. Na verdade, ninguém tem o direito de renunciar a um direito que é um bem coletivo, um valor do que a sociedade deve ser. Excesso de descabido poder tem sido no Brasil fator de que um indivíduo, no poder, se julgue no direito de fazer o que bem entender e de impor aos outros seu próprio entendimento de como a sociedade deve ser.

Como a lógica do capital variável, ou seja, disponibilizada para a mão de obra na estrutura atual, ajuda a compor o cenário de escravidão contemporânea?

Um sujeito eventualmente ignorante que saiba como fundar e manejar uma fazenda pode ter uma mentalidade levemente capitalista e pseudo empresarial, como aconteceu muito na região amazônica nos anos 1970 e 1980. Isso não faz dele um verdadeiro empresário nem o torna um baluarte da sociedade capitalista. Sociedade capitalista não é nem pode ser a sociedade baseada no lucro fácil e farto, egoísta e sem responsabilidade social. Quem sabe pagar pouco para ganhar muito, quem não considera o trabalhador um legítimo agente de capitalismo, com direito ao justo reconhecimento do que vale o seu trabalho, quem transforma o outro em mercadoria barata, não é um empresário, é um criminoso, um ladrão de direitos alheios. Não sou eu quem diz. Isso está nas teorias, nas leis e nas convenções, nos sentimentos de quem trabalha para outrem. Está nos próprios valores éticos, de fundo religioso, que sustentaram o nascimento do capitalismo.

Esse ainda primitivo ganhador de dinheiro sabe que a tendência da estrutura do investimento deve privilegiar o dispêndio com capital constante, que já é produto histórico e expropriado de trabalho, em face do dispêndio com trabalho, cuja remuneração é o capital variável. Esse explorador do trabalho é apenas ideologicamente “moderno”. Sabe gastar consigo mesmo, mas não tem a menor noção de sua responsabilidade social. É apenas um personagem da modernidade, o moderno como teatro, fingimento e ignorância. Acontece que, de vários modos, o trabalhador de hoje é também “moderno” de algum modo. Isto é, o próprio mercado de trabalho o informou do que é a “normalidade” das relações laborais. No caso da Amazônia, mas não só, para ter o trabalho desse trabalhador por menos do que ele vale é preciso enganá-lo e subjugá-lo. Isso é possível porque o saber do trabalhador é parcial e deformado. Ele sabe, mas não sabe tudo. Educado numa cultura de subserviência, como ocorria no cativeiro da agricultura de exportação, ele tende a acreditar no direito de mandar do patrão e na sua própria inferioridade social. Tudo que o outro faz lhe parece lícito. É a cruz que lhe cabe carregar. Na escravidão contemporânea, isso facilita a subjugação do trabalhador na fase do aliciamento, completada com jagunços e pistoleiros na fase do trabalho, quando as carências cotidianas e a violência física e psicológica lhe mostram que ele já não é gente porque tratado como animal de trabalho.

Você também utiliza o conceito de economia de acumulação primitiva para explicar a manutenção do trabalho escravo. Como essa tese se aplica nas relações de trabalho análogas à escravidão?

A concepção de acumulação primitiva em sido reduzida ao momento da separação histórica entre o trabalhador e seus próprios meios de produção, na agricultura e no artesanato. É quando começa a formação do proletariado para o que é propriamente o capital, isto é, a riqueza como coisa em si. No caso da escravidão contemporânea, o trabalho já está separado das condições de trabalho. No entanto, há nela um desdobramento da acumulação primitiva no fato de que o trabalho passa a ser, também, separado da sobrevivência do trabalhador e de sua família, numa busca perversa do trabalho puro, os ganhos do trabalho aquém das necessidades de inclusão social e de sobrevivência material de quem trabalha.

Em 2007, o relatório da Organização Internacional do Trabalho, denominado Trabalho escravo no Brasil no Século XXI, apontava a Reforma Agrária como instrumento para a diminuição do trabalho escravo no Brasil. Se avançamos pouco na Reforma Agrária, significa que avançamos menos ainda no combate à escravidão contemporânea?

Em princípio, sim. A reforma agrária poderia ter criado condições para o desenvolvimento de uma economia próspera baseada no trabalho familiar, paralela à economia do agronegócio, que criou uma variante do trabalho degradado, que foi o trabalho precário, provisório, temporário e mal-pago do “bóia-fria”, no Sudeste, e do “clandestino”, no Nordeste. Mas teria que ser uma reforma agrária concebida como instrumento de reinserção social produtiva e criativa da família agrícola nas brechas que a economia dominante vem criando, brechas que são o espaço da chamada “exclusão social”.

Assim como ocorreu no combate à escravidão do negro, a luta contemporânea está baseada na libertação das pessoas, mas não na emancipação dessa massa da população?

Os que se inquietam com iniquidades como essa tem uma visão tosca e simplória do que é o capitalismo. Portanto, não conseguem desenvolver senão concepções toscas e simplórias do que são os problemas sociais que decorrem do processo de reprodução ampliada do capital. Os militantes das causas sociais se contentam com interpretações panfletárias desses problemas, interpretações que não levam nem levarão a uma resistência ativa e construtiva às injustiças sociais. Mesmo as igrejas que tem se preocupado com o assunto acabam num questionamento moral do capital, que é necessário mas não é suficiente. Sobretudo porque são elas epidermicamente contra sem saber substantivamente porquê. E, mais ainda, sem ter a menor ideia do que a favor são. Há uma militância contra as injustiças, mas não há práxis, historicamente transformadora e emancipadora. A militância se transformou em refém de um partido ou de uma ideologia e de uma solução mesquinhamente eleitoral dos problemas do país. Basicamente, refém do poder. Ignorou e ignora a historicidade da situação, das mudanças sociais e dos acontecimentos. Não entendeu que para libertar o outro é preciso libertar-se a si mesma das limitações interpretativas, da alienação. Isto é, para transformar-se em agente de emancipação do outro para emancipar a todos. Uma reacionária resistência ideológica ao pensamento sociologicamente crítico privou esses militantes da principal ferramenta de que poderiam dispor para verem-se como agentes do processo histórico e assim poderem ver em perspectiva histórica o outro e sua servidão. Único meio de compreenderem o que é a liberdade como instrumento de emancipação da pessoa não só da pobreza, mas também de suas carências sociais, aí incluída a carência de esperança.

Publicado no Le Monde Diplomatique Brasil

diplomatique.org.br

*Guilherme Henrique é jornalista

Divulgado na linha de tempo de João Lopes no Facebook.

Tristes trópicos

Destaque

1 – Temer não vai cair nem renunciar. Se renunciar, perde o foro privilegiado e a proteção de uma Câmara de Deputados com maioria corrupta, que está no mesmo barco.

2 – Temer não vai renunciar para concorrer a um mandato de deputado federal que lhe garanta foro privilegiado. Correria um risco muito grande.

3 – Temer vai tentar negociar a nomeação  para algum ministério no novo governo eleito em 2018 para manter o foro privilegiado. Como sempre fez.

4 – No segundo turno, se houver, a direita montará um acordão, com PSDB, com PMDB, com Lava Jato, com Supremo, com tudo.

5 – A aparente oposição de parte da grande mídia venal a Temer é tática, de curto prazo e tem fôlego curto. É um simples jogo de mercado.

6 – Parcela relevante da grande mídia venal continuará apoiando Temer até ele entregar tudo que prometeu: a reforma da Previdência, as privatizações, o pré-sal  e o Estado mínimo. É só observar as valorizações das ações patrocinadas pelos urubus da Bolsa de Valores.

7 – A grande maioria dos deputados e senadores sequestrou o voto e vai utilizá-lo para se defender dos ataques da “Lava Jato”, para enriquecer ou para ambos. A opinião dos eleitores não conta. Esses políticos têm pressa.

8 – Esqueça esta ficção de que existem Paneleiros, Patos ou Coxinhas envergonhados. Não conheço nenhum.

9 – Paneleiros, Patos e Coxinhas aceitam, em sua esmagadora maioria, as consequências nefastas do golpe, se este for o preço a ser pago para banir a esquerda para sempre. Eles não sabem que a esquerda adoece, mas não morre.

10 – Paneleiros, Patos ou Coxinhas não acham que as consequências do golpe sejam nefastas.

11- Enquanto houver Lady Gaga, Universal, CBF, carnaval, N.Y., Miami e mídia venal, doze vezes no cartão ou no cheque especial, os bois não sairão do curral.

12 – Medo, este é o ethos da nossa Nação partida.

13 – Para a maioria, medo do desemprego, de perder a aposentadoria, da inflação, do nome sujo no Serasa ou no SPC, das dívidas no consignado ou no cartão. Medo da milícia, da PM, dos bancos, do patrão. Medo da inanição.

14 – Para os rentistas, cercados, blindados e viajados, medo de perder os privilégios, adquiridos ou herdados.

15 – O medo gera o ódio ou a apatia, respectivamente, pai e mãe da covardia.

16 – Para os golpistas o golpe  se completa com a condenação de Lula a tempo de impedir sua participação, se houver eleição. Torça para um surto de bom senso e organização, se houver oposição.

17 – Lá fora, no Rio de Janeiro, um sol de rachar. Obrigado, Mara, pela ideia. Desculpe, Chico, pelo plágio.

“Um dia de real grandeza, tudo azul

um mar turquesa à la Istambul …

E um sol de torrar os miolos …

A gente ordeira, virtuosa, do lar, que apela,

pra polícia e pra panela

O sol, a culpa deve ser do sol

Que bate na moleira, o sol …”

18 – Tristes trópicos.

 

 

 

Morte, de Cândido Portinari

Destaque

Na ditadura iniciada com o golpe de 1964 o jornal O Pasquim esteve durante um longo período submetido a censura prévia. O objetivo era amordaçá-lo. Ao final do regime ditatorial, foi retirado da censura prévia. A expectativa dos órgãos de repressão era que o jornal fizesse uma espécie de auto-censura. O Pasquim passou a trazer um selo informando que o jornal estava, naquele momento, sem censura prévia. Servia como um sinal de que, se o selo desaparecesse, seria porque o jornal voltou a ser previamente censurado.

Estou criando, hoje, um post para indicar que a democracia no Brasil morreu em 31/08/2016, quando o Senado Federal resolveu golpeá-la colocando um presidente ilegítimo no lugar da presidente eleita. Trata-se do quadro Morte, de Cândido Portinari, grande artista nacional. Pretendo deixar este post fixado na página principal deste blog, até que tenhamos eleições diretas legítimas e seus resultados sejam respeitados.

Obrigado, Fernando Almeida, pela foto e pela ideia original.

Paulo Martins

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Infiltrado na Klan, crítica de Fábio Gomes, no Omelete

Compartilho crítica de Fábio de Souza Gomes publicada no site de crítica cinematográfica Omelete. O que ocorreu no final do filme comprova tratar-se de uma obra necessária, ainda mais no mundo atual. Três ou quatro mulheres começaram a se manifestar gritando “ele não”. Pareceu espontâneo, pois vinha de diferentes pontos e eram gritos que mostravam certa timidez. Um número maior de pessoas aplaudiu. Um homem, de pé, gritou “ele sim”, mais de uma vez. Muita gente reagiu. Ele foi chamado de racista. Ele se deu conta que não estava em uma rede social, usando uma identidade falsa. 

Assista o filme e observe a triste e gritante semelhança com os tempos sombrios que estamos enfrentando no Brasil. Favor observar, em determinado ponto desta crítica o autor da avisa sobre um spoiler (spoiler = expõe uma pequena parte do que acontece no filme)

Abraço a todos, 

Paulo Martins

Infiltrado na Klan
Spike Lee cria um dos melhores filmes de sua carreira em uma obra necessária nos dias atuais
FÁBIO DE SOUZA GOMES
21.11.2018
23H37
ATUALIZADA EM
22.11.2018
00H47
Infiltrado na Klan seria absurdo se não fosse real. O longa mostra a história verdadeira de Ron Stallworth (John David Washington), o primeiro policial negro a conseguir se infiltrar na Ku Klux Klan. Por ser negro, obviamente, ele não pode participar das reuniões pessoalmente e, por isso, enquanto marca tudo por telefone seu parceiro Flip Zimmerman (Adam Driver) assume sua identidade junto aos membros da KKK. Os dois chegam aos níveis mais altos da organização em um dos filmes mais importantes do ano.
Como a história se passa nos anos 70, Spike Lee consegue fazer uma grande homenagem a Blacksploitation – um movimento cinematográfico dos EUA que surgiu durante esse período onde diretores e atores negros começaram a produzir uma série de filmes. A fotografia, o estilo e o humor são referências diretas ao gênero, que ganha homenagens inclusive no cartaz da produção. Tudo isso deixa o longa com um tom mais leve e, com isso, as críticas sociais do cineasta tem um efeito único: são capazes de fazer o espectador rir ao mesmo tempo que o deixa reflexivo e desconfortável. A obra está recheada de cenas onde o preconceito é representado de uma maneira caricata, mas o que parece loucura é um retrato cada vez mais próximo e fiel da nossa realidade atual.
Apesar de se passar nos anos 70, os membros da “organização” (como ela é chamada no filme) tocam em temas recentes como o que ficou conhecido hoje como as fake News. Durante uma conversa com Flip, um dos membros da KKK fala que o Holocausto foi uma grande mentira e que a mídia tradicional está escondendo a verdade. Esse é apenas um dos vários exemplos de como Lee cria uma ponte para o presente ao mostrar que o preconceito sempre contou com a desinformação para se disseminar. Além disso, essa conversa é um dos vários fatores que ajudam na jornada do personagem de Adam Driver.
Flip é um homem branco que nunca se preocupou com o preconceito pois nunca o sofreu. Porém, ao se infiltrar na Klan, ele começa a refletir sobre sua origem judia, sobre o racismo e passa a enxergar o mundo por uma nova perspectiva. Lee, com isso, toca na ferida e mostra que grande parte da sociedade não se interessa por direitos civis e igualdade de raça e gênero pois simplesmente não consegue enxergar um problema – que só fica claro quando sentem na própria pele.
Essa jornada só funciona tão bem por conta do ótimo trabalho de Driver, cuja a principal relação é com John David Washington, que vive o verdadeiro Ron por telefone. O personagem é o fio condutor do filme e sofre com conflitos próprios, pois ao mesmo tempo em que está dedicado a derrubar a Klan é considerado por seu principal interesse romântico, a ativista vivida por Laura Harrier, um traidor da própria raça por ser policial. O personagem tenta equilibrar os dois mundos, sentindo-se por muitas vezes isolado, e Washington consegue brilha em cena nesses momentos.
A dupla faz com que essa história absurda – e, sempre importante reforçar, real – pareça crível e o público embarca nessa jornada que chega até ao grão-mestre da KKK, David Duke (Topher Grace), que é o grande vilão do filme.
Duke é mais um dos grandes trunfos de Lee, que mostra um homem que disfarça seu discurso racista em ideias de falso nacionalismo. O diretor não demoniza o personagem e o mostra como um homem carismático consegue conquistar os outros pela desinformação e o medo. Esse discurso explode na tela nas cenas finais, que transformam o tom do filme.
(CUIDADO COM SPOILER, O PARÁGRAFO EM ITÁLICO PODE ESTRAGAR A SUA EXPERIÊNCIA).
O diretor decide mostrar cenas reais do conflito de Charlottesville em 2017 – onde neo-nazista tomaram as ruas para protestar contra negros, judeus e imigrantes. Com uma edição hábil, Lee mostra como um presidente como Donald Trump deu espaço para que o preconceito tomasse as ruas e, mais tarde, foi incapaz de rechaçar as marchas ao dizer que “nem todas as pessoas do protesto eram ruins” ao mesmo tempo em que pessoas eram atropeladas, feridas e David Duke voltava para as ruas para apoiar o mandatário americano.
O uso do silêncio ao final das cenas caóticas leva o espectador a reflexão do atual momento não só dos EUA, mas de todo o planeta onde movimentos como esse estão crescendo cada vez mais e discursos de ódio estão ganhando espaço. Um final que contrasta diretamente com o bom humor do filme e, por conta disso, fica ainda mais forte e pesado.
(FIM DO SPOILER)
Spike Lee volta a sua melhor forma e cria um dos melhores trabalhos de sua carreira. O filme é muito mais do que um bom divertimento. Infiltrado da Klan é uma produção necessária nos dias atuais e pode gerar reflexões para o futuro.

Sobre parvos e pascácios, a mentira retroalimentada

O capitão da  Bolsa (a outra, a que comprou seu mandato de presidente) sempre que pode declara, para justificar previamente seu fracasso, que vai pegar uma economia destroçada pelos governos do PT. Não sei como ele chegou a essa conclusão pois, como ele mesmo confessou – e nem precisava ter confessado, de tão evidente -, “Não entende nada de Economia”. Suas declarações absurdas sobre as metodologias do IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística deixaram claro que ele também não entende nada de estatística.

Ele, o capitão da Bala, do Boi, da Bíblia evangélica, da Bolsa e do Patrão, fala as asneiras que fala porque tem seguidores tão ou mais ignorantes que ele: terraplanistas, kitgaysistas, mamadeirasdebicopiroquistas, os escolasempartidistas, os anticomunistas, os fakeistas, os olavetistas … A aprovação destas plateias ignaras  tem efeito devastador pois retroalimenta e impulsiona o redemoinho da ignorância e da bajulação: todos os parvos e pascácios, parentes em primeiro grau ou não, scolaris, boechatis, lorenzonis, moros, vélezis e ernestos, invejosos, danam a falar besteiras para ver se ultrapassam o chefe e conseguem seus 15 minutos de fama. Podem desistir: o chefe é imbatível porque sua ignorância e “toscicidade” é autêntica. O bicho é esse poço transparente de ignorância mesmo, curto e grosso. E os seus semelhantes enxergam nele um espelho que lhes reflete a alma.

Esta introdução é para apresentar dados que contestam as afirmações do capitão bárbaro. Já publiquei neste blog estatísticas completas de 20 anos da economia brasileira, comprovando a boa gestão dos governos do PT no período indicado. Apresento, a seguir, um resumo. Não sei quem foi o autor do resumo, que compartilho do mural de Márcia Simões.

Acho que para quem mais interessa a leitura destes dados não vai adiantar nada, seja por déficit cognitivo ou pura má-fé mesmo. De qualquer forma os dados estão aí, nus e crus, para desmentir presidente-fake que não desce do palanque e assume postura de estadista, porque não adianta tentar forçar a natureza.

Paulo Martins

  1. Produto Interno Bruto:
    2002 – R$ 1,48 trilhões
    2013 – R$ 4,84 trilhões
  2. PIB per capita:
    2002 – R$ 7,6 mil
    2013 – R$ 24,1 mil

  3. Dívida líquida do setor público:
    2002 – 60% do PIB
    2013 – 34% do PIB

  4. Lucro do BNDES:
    2002 – R$ 550 milhões
    2013 – R$ 8,15 bilhões

  5. Lucro do Banco do Brasil:
    2002 – R$ 2 bilhões
    2013 – R$ 15,8 bilhões

  6. Lucro da Caixa Econômica Federal:
    2002 – R$ 1,1 bilhões
    2013 – R$ 6,7 bilhões

  7. Produção de veículos:
    2002 – 1,8 milhões
    2013 – 3,7 milhões

  8. Safra Agrícola:
    2002 – 97 milhões de toneladas
    2013 – 188 milhões de toneladas

  9. Investimento Estrangeiro Direto:
    2002 – 16,6 bilhões de dólares
    2013 – 64 bilhões de dólares

  10. Reservas Internacionais:
    2002 – 37 bilhões de dólares
    2013 – 375,8 bilhões de dólares

  11. Índice Bovespa:
    2002 – 11.268 pontos
    2013 – 51.507 pontos

  12. Empregos Gerados:
    Governo FHC – 627 mil/ano
    Governo Lula – 1,79 milhões/ano

  13. Taxa de Desemprego:
    2002 – 12,2%
    2013 – 5,4%

  14. Valor de Mercado da Petrobras:
    2002 – R$ 15,5 bilhões
    2014 – R$ 104,9 bilhões

  15. Lucro médio da Petrobras:
    Governo FHC – R$ 4,2 bilhões/ano
    Governo Lula – R$ 25,6 bilhões/ano

  16. Falências Requeridas em Média/ano:
    Governo FHC – 25.587
    Governo Lula – 5.795

  17. Salário Mínimo:
    2002 – R$ 200 (1,42 cestas básicas)
    2014 – R$ 724 (2,24 cestas básicas)

  18. Dívida Externa em Relação às Reservas:
    2002 – 557%
    2014 – 81%

  19. Posição entre as Economias do Mundo:
    2002 – 13ª
    2014 – 7ª

  20. PROUNI – 1,2 milhões de bolsas

  21. Salário Mínimo Convertido em Dólares:
    2002 – 86,21
    2014 – 305,00

  22. Passagens Aéreas Vendidas:
    2002 – 33 milhões
    2013 – 100 milhões

  23. Exportações:
    2002 – 60,3 bilhões de dólares
    2013 – 242 bilhões de dólares

  24. Inflação Anual Média:
    Governo FHC – 9,1%
    Governo Lula – 5,8%

  25. PRONATEC – 6 Milhões de pessoas

  26. Taxa Selic:
    2002 – 18,9%
    2012 – 8,5%

  27. FIES – 1,3 milhões de pessoas com financiamento universitário

  28. Minha Casa Minha Vida – 1,5 milhões de famílias beneficiadas

  29. Luz Para Todos – 9,5 milhões de pessoas beneficiadas

  30. Capacidade Energética:
    2001 – 74.800 MW
    2013 – 122.900 MW

  31. Criação de 6.427 creches

  32. Ciência Sem Fronteiras – 100 mil beneficiados

  33. Mais Médicos (Aproximadamente 14 mil novos profissionais): 50 milhões de beneficiados

  34. Brasil Sem Miséria – Retirou 22 milhões da extrema pobreza

  35. Criação de Universidades Federais:
    Governo Lula – 18
    Governo FHC – ZERO!!!

  36. Criação de Escolas Técnicas:
    Governo Lula- 214
    Governo FHC – 11
    De 1500 até 1994 – 140

  37. Desigualdade Social:
    Governo FHC – Queda de 2,2%
    Governo Lula – Queda de 11,4%

  38. Produtividade:
    Governo FHC – Aumento de 0,3%
    Governo Lula – Aumento de 13,2%

  39. Taxa de Pobreza:
    2002 – 34%
    2012 – 15%

  40. Taxa de Extrema Pobreza:
    2003 – 15%
    2012 – 5,2%

  41. Índice de Desenvolvimento Humano:
    2000 – 0,669
    2005 – 0,699
    2012 – 0,730

  42. Mortalidade Infantil:
    2002 – 25,3 em 1000 nascidos vivos
    2012 – 12,9 em 1000 nascidos vivos

  43. Gastos Públicos em Saúde:
    2002 – R$ 28 bilhões
    2013 – R$ 106 bilhões

  44. Gastos Públicos em Educação:
    2002 – R$ 17 bilhões
    2013 – R$ 94 bilhões

  45. Estudantes no Ensino Superior:
    2003 – 583.800
    2012 – 1.087.400

  46. Risco Brasil (IPEA):
    2002 – 1.446
    2013 – 224

  47. Operações da Polícia Federal:
    Governo FHC – 48
    Governo Lula- 1.273 (15 mil presos)

  48. Varas da Justiça Federal:
    2003 – 100
    2010 – 513

  49. 38 milhões de pessoas ascenderam à Nova Classe Média (Classe C)

  50. 42 milhões de pessoas saíram da MISÉRIA!

FONTES:
47/48 – http://www.dpf.gov.br/agencia/estatisticas
39/40 – http://www.washingtonpost.com
42 – OMS, Unicef, Banco Mundial e ONU
37 – índice de GINI: http://www.ipeadata.gov.br
45 – Ministério da Educação
13 – IBGE
26 – Banco Mundial

Sátira Alemã: A QUEIMA DE LIVROS, Bertolt Brecht

Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente

Os livros que continham saber pernicioso, e em toda parte

Fizeram bois arrastarem carros de livros

Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido

Um dos melhores, estudando a lista de livros queimados

Descobriu, horrorizado, que os seus

Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr

Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.

Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!

Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não

Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me

Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:

Queimem-me!

Bertolt Brecht

Poemas 1913-1956

Seleção e tradução de Paulo César de Souza

editora 34

Discurso de diplomação de Jair Messias Bolsonaro

Brasília, 10 de dezembro de 2018

Nesta cerimônia de minha diplomação como presidente da República, eu não poderia deixar de reverenciar a memória do coronel do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI do II Exército, torturador e horror de Dilma Vana Rousseff Linhares.

Que o coronel, a quem eu agora reverencio possa, desde sua morada no infinito, também conhecido entre os cristãos como o inferno, possa guiar meus passos no cumprimento da importante e difícil missão para a qual vocês, meus 57 milhões de eleitores, em pleito democrático onde prevaleceu a verdade divina, me arregimentaram.

Um bom recruta, recrutado para a nobre missão de comandar a vida de 209 milhões de pessoas, nunca poderia fugir à luta. Nem mesmo um mau (seria mal, estou na dúvida?) capitão reformado, condenado por suas ideias em defesa do combate radical ao que é humano, civilizado e fraco, poderia fugir.

Prometo governar com a Bíblia do lado direito do peito e o livro do coronel Ustra, como inspiração maior, também lado direito do peito, pois um capitão que traz Deus acima de tudo e a Pátria em cima de todos não tem, e jamais terá, lado esquerdo.

Permito-me encerrar esta cerimônia com as palavras em latim – ou grego … que seja – que li em um filme sobre a segunda grande guerra mundial e que orientarão as minhas ações destinadas a todos os brasileiros, principalmente aos que não votaram em mim: “Arbeit macht frei”. Heil! Ou melhor, God Save the Queen. Táoquei?.

O QUE CORROMPE, Bertolt Brecht

Nos primeiros meses do domínio nacional-socialista

Um trabalhador de uma pequena localidade na fronteira tcheca

Foi condenado à prisão por distribuir panfletos comunistas.

Como um dos seus cinco filhos havia já morrido de fome

Não agradava ao juiz enviá-lo para a cadeia por muito tempo.

Perguntou-lhe então se ele não estava talvez

Apenas corrompido pela propaganda comunista.

Não sei o que o senhor quer dizer, disse ele, mas meu filho

Foi corrompido pela fome.

Bertolt Brecht

Poemas 1913-1956

Seleção e tradução de Paulo César de Souza

editora 34

Pequena memória para um tempo sem memória, Gonzaguinha

https://g.co/kgs/h1r6MZ

A gente retorna ao velho lugar

se abraça e fala da vida que foi por ai

e conta os amigos nas pontas dos dedos

pra ver quantos vivem e quem já morreu

amanhã ou depois

Ê ê ê ô

Quem me dirá onde está

Aquele moço fulano de tal

filho, marido, irmão, namorado que não voltou mais

insiste um anúncio nas folhas dos nossos jornais

achados perdidos morridos saudades demais

mas eu pergunto e a resposta é que ninguém sabe

ninguém nunca viu

só sei que não sei quão sumido ele foi

sei é que ele sumiu

e quem souber algo acerca do seu paradeiro,  beco das liberdades estreita e esquecida

uma pequena marginal dessa imensa avenida Brasil.

Memória de um tempo onde lutar por seu direito

É um defeito     que mata

São tantas lutas inglórias

São histórias que a história

Qualquer dia contará

De obscuros personagens

As passagens, as coragens

São sementes espalhadas nesse chão

De Juvenais e de Raimundos

Tantos Júlios de Santana

Dessa crença num enorme coração

Dos humilhados e ofendidos

Explorados e oprimidos

Que tentaram encontrar a solução

São cruzes, sem nomes, sem corpos, sem datas,

Memória de um tempo onde lutar por seu direito

É um defeito, que mata.

E tantos são os homens por debaixo das manchetes

São braços esquecidos que fizeram os heróis

São forças, são suores que levantam as vedetes

Do teatro de revistas, que é o país de todos nós

São vozes que negaram liberdade concedida

Pois ela é bem mais sangue

Ela é bem mais vida

São vidas que alimentam nosso fogo da esperança

O grito da batalha

Quem espera nunca alcança

Ê ê, quando o Sol nascer

É que eu quero ver quem se lembrará

Ê ê, quando amanhecer

É que eu quero não quero esquecer

Essa legião que se entregou por um novo dia

Ê eu quero é cantar essa mão tão calejada

Que nos deu tanta alegria.

E vamos à luta.

“Patismo”, manipulação e poder: a ideologia mundial

Diálogos Essenciais

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante.

A classe que tem à sua disposição os meios da produção material dispõe também dos meios da produção espiritual, de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual.

As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante, são as ideias de sua dominação.

Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica…

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O retrocesso discursivo

Artigo compartilhado. Créditos ao final do texto.

Entre os animais, o humano é o único capaz de distinguir (pelo discurso, que os gregos chamavam de “lógos”) o justo do injusto, o bem e o mal (e não apenas o prazer e a dor, como fazem os animais através disso que podemos chamar “voz”).
É graças a esse poder que, para Aristóteles (na Política), emerge a condição para a constituição das famílias e, na comunidade entre estas, das cidades (pólis).
O que aconteceu no Brasil com o golpe de 16, no conluio entre judiciário (lawfare), legislativo (“impeachment”) e mídia (antipetismo), foi a emergência do retrocesso discursivo: quebraram-se quase todos os critérios pelos quais distinguia-se o justo do injusto, restaram a sedução (dos marqueteiros) e a força (através desse inusitado urutu encarnado e de toga, obscuro, etéreo quase como uma nuvem negra pairando sobre as cabeças).
Abandonamos o lógos (pensamento expresso em discurso), e adotamos algo como a “narrativa”, uma espécie de perspectivismo delirante, feito pela mistura alucinada de memes, notícias falsas, ficções, mentiras, cinismo, que não manifestam ideia alguma, código algum, discurso nenhum, mas funcionam como a voz, o grito, a algazarra dos bichos, que os fazem capazes de indicar sensações de prazer (como o da vingança de classe com a prisão ilegal de Lula) e, em especial, de “dor”, como o medo (medo do kitgay, mas medo tb das proscrições por vir), e jamais manifestar o útil e o nocivo.
Pq a voz é apenas indicativa, jamais manifesta pensamento algum.
A partir daí, toda uma inversão de valores embaralhou socialmente maldade e bondade num amalgama perverso guiado pelas vozes grotescas do prazer e do medo.
Nesse caldeirão de inversões e balbúrdia, entregamos o país a bandidos toscos, a loucos e psicopatas, achando que estávamos lutando contra a corrupção, a carestia e o desemprego.
Como se fosse a corrupção a culpada de todos os males (jamais foi). Como se fossem esses os salvadores da pátria (são o contrário). Aqueles que usaram e usam, com sinceridade, a “defesa da família” por argumento para justificar o seu voto em um racista confesso, inadvertidamente fizeram o seu oposto. Não há família que sobreviva incólume no embaralhamento do justo e do injusto, do bem e do mal.
Disso sabem bem os que vivem pelas periferias, no limiar da civilização com a barbárie. Disso saberá em pouco tempo essa classe média subletrada e raivosa que abraçou o antipetismo como a inquisição o herege ou apóstata, mas que logo se verá a si mesma caminhando no seu próprio auto de fé e extermínio. Por enquanto as perseguições são focadas em políticos petistas. Lula é hoje a própria encarnação da injustiça imposta pelos juizes golpistas e seu sistema invertido.
A promessa é de que em mto pouco tempo as proscrições se espalhem pelas escolas e universidades, pelos campos, pelas repartições públicas, sindicatos, pelas redes sociais.
Se não houver uma oposição decidida e feroz, não restará nada que possa elevar a simples voz para a forma discursiva, dialógica, capaz de refutar a animalidade da barbárie econômica, política e social.
Parece exagero?
Hoje, enquanto o biltre que chefiará a república anuncia os disparatados que chefiarão as pastas da saúde, das relações exteriores, da economia, da “justiça” (sim, com aspas terríveis), não acho que se possa ter esperança a não ser na mera sobrevivência biológica do homem que retorna ao mundo animal e que apenas grita ou berra, feito lobo ou cordeiro, sem saber o que falar, sem poder nada dizer.
Do professor de filosofia Sergio Alarcon

Mujica? Que horror!

Nunca pratiquei caça. Nem com atiradeira, na infância. Acho uma covardia. Ainda maior que as touradas. Nas touradas o toureiro enfrenta o touro sozinho e o touro tem a oportunidade de, pelo menos uma vez ou outra, jogar o seu torturador para o alto. A caçada é traiçoeira. É feita em grupos armados. Uma tremenda covardia dada a total falta de paridade de armas. Todo caçador é, em essência, lá no fundo de sua alma, desde a infância quando atira em passarinhos com espingarda de chumbinho, um ser covarde e cruel.Você não está entendendo esta introdução? Trata-se, de certa forma, de uma tentativa de me livrar das imagens que foram compartilhadas esta semana, por amigos, referentes a um urso preto e a uma girafa abatidos por caçadores sem escrúpulos. Mas é mais do que isso. Trata-se de uma analogia que tenho feito ao ler nas redes sociais ou ao conversar com conhecidos sobre quais seriam as motivações que os teria levado a votarem no despreparado e destemperado capitão paraquedista para comandar os destinos de um país com 209 milhões de pessoas. Analisando as respostas, minha conclusão é a de que seus argumentos não batem com as verdadeiras intenções, escondidas bem no fundo de suas almas. Soam como os argumentos dos matadores de ursos e girafas.Há duas semanas cheguei para a aula de alemão e presenciei a discussão entre um experiente executivo da área jurídica internacional de uma empresa, que criticava com veemência, porém com educação e argumentos, a declaração do perdido capitão paraquedista de que pretendia transferir para Jerusalém a embaixada do Brasil em Israel, e uma aluna, também com idade de pessoa experiente, defendendo com afirmações peremptórias, sem embasamento, tal decisão, pois acreditava que fortaleceria os laços econômicos do Brasil com os Estados Unidos, como se isso fosse bom por definição, sem precisar de qualquer análise. Como ex-profissional de comércio internacional com passagem pelo Itamarati, achei por bem ajudar o colega preocupado com o impacto da decisão estapafúrdia do capitão paraquedista. Rapidamente o assunto descambou para a auto-justificativa de voto para “acabar com essa corrupção toda aí do PT”.Na aula de hoje surgiu o assunto de férias e viagens de fim de ano. Comentei, sério e, de certa forma, provocativo, que vamos passar o Ano Novo em Montevideu para dar um abraço em Pepe Mujica. A colega eleitora do capitão paraquedista reagiu: “Mujica? Que horror!Fiz de conta que não ouvi. Continuei a conversa com os demais colegas, antes que a indignada começasse a matar passarinhos com espingarda de chumbinho, ou seja, começasse a cuspir fogo contra o guerrilheiro uruguaio comunista que liberou o consumo de drogas naquele país comunista.- “Paulo, não entendi o que a espingarda de chumbinho tem a ver com a manifestações de sua colega”.Explico: na minha infância aprendi que a tal espingarda ao ser acionada cuspia uma quantidade enorme de chumbinhos letais em direção ao passarinho-alvo. Exatamente como discutem os propagadores da ideologia bolsal e os seus crentes seguidores. Espalham chumbinho em todas as direções, para ver se acertam algum passarinho. Ora é a corrupção, ora o kit gay, ora o comunismo, ora a doutrinação nas escolas, ora a moral e os bons costumes, ora a legalização das drogas …Observação: as passagens já estão compradas. Imagino a reação dela se soubesse o real motivo pelo qual não queremos estar no Brasil no dia primeiro de janeiro próximo.Paulo Martins

O futuro ministro da Saúde disse não acreditar na efetividade de campanhas de prevenção contra o HIV

O futuro ministro da Saúde disse não acreditar na efetividade de campanhas de prevenção contra o HIV

Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS) é deputado federal e futuro ministro da Saúde. (Foto: Divulgação)
25 de novembro de 2018 Brasil, CAD1, Capa – Caderno 1, Notícias, Política
Ortopedista de formação, o futuro ministro da Saúde, o deputado federal Luiz Henrique Mandetta, disse que tem ressalvas quanto à condução que o Brasil faz de ações contra o HIV. As ideias provocaram reações em especialistas em saúde pública e organizações ligadas ao combate à Aids no País.

O futuro ministro afirmou não acreditar na efetividade das campanhas de prevenção e educação continuada em escolas ou unidades básicas de saúde. Na opinião de ativistas e infectologistas, as posições do novo ministro podem antecipar uma guinada conservadora no programa de HIV e Aids do ministério e prejudicar o alcance de campanhas de prevenção.

Para o futuro ministro, conversas sobre sexualidade, como aquelas envolvendo métodos de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis, devem ser abordadas pelas famílias, e não pelo governo. “Sexualidade é uma questão para tratar dentro de casa”, afirmou ao jornal O Globo, ao ser perguntado sobre campanhas de prevenção em escolas e unidades de saúde.

“Há pessoas que não querem usar preservativo. Mudar esse comportamento exige diálogo entre gerações, dentro das famílias”, disse Mandetta.

O combate à Aids será um dos principais desafios que o novo governo enfrentará no campo da saúde. Números recentes do Brasil mostram que, contrariando a tendência mundial de queda, cresceram os casos de HIV no país, sobretudo em meio a jovens entre 20 e 24 anos e homens que fazem sexo com homens. Na avaliação de Mandetta, trata-se de uma espécie de efeito colateral das políticas adotadas no Brasil para enfrentar a epidemia:

“O país começou a trabalhar muito a questão do medicamento. E a Aids passou a ser, na cabeça dessa geração, uma doença com a qual é possível conviver. Houve uma banalização da doença. E aceitamos isso como se fosse uma coisa natural. ‘Ah, deixa, vamos comprar remédios para todo mundo’. Precisa dosar melhor.”

Para ele, evitar que essa escalada continue exigirá alterações de comportamento individuais. E o melhor motor dessas mudanças, diz, são as próprias famílias: “O que precisamos fazer é instrumentalizar as famílias. Você não pode esperar que o Estado diga que esse ou aquele comportamento é sexualmente correto.”

As afirmações de Mandetta se unem a declarações antigas de Bolsonaro — feitas anos antes da corrida ao Planalto, mas ressuscitadas nas redes sociais às vésperas do pleito — , quando o então deputado dizia que não cabe ao Estado se responsabilizar pelos cuidados médicos de pessoas que vivem com o HIV: “O pessoal vive na vida mundana e depois vem querer cobrar do poder público um tratamento que é caro”, disse ao programa CQC, em 2010.

Segundo o presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Ronald Ferreira, as opiniões do novo ministro soam um alerta:

“Elas podem indicar mudanças na política de distribuição de medicamentos e na realização de campanhas de prevenção, duas áreas nas quais a atuação do ministério é fundamental.”

R$ 1,1 bilhão

Segundo Alexandre Grangeiro, pesquisador da USP e conselheiro da Associação Brasileira de Interdisciplinaridade de Aids (Abia), há outro problema. Bolsonaro já declarou à imprensa que o novo ministro da Saúde terá de “tapar os ralos e economizar recursos”. Existe o temor de que essa ambição provoque mudanças na política de assistência farmacêutica do ministério.

Desde 1996, o governo disponibiliza, na rede pública, tratamento com antirretrovirais a todas as pessoas que vivem com o vírus HIV. A estratégia, elogiada internacionalmente, tem também função preventiva.

“A pessoa que se trata e tem carga viral indetectável não transmite o vírus”, explicou Grangeiro. A política tem custos relevantes para os cofres públicos. Em 2017, a compra dessas medicações custou ao Ministério da Saúde cerca de R$ 1,1 bilhão.

Como é que chegamos nesta situação, Manuel?

Compartilho texto de Reginaldo Moraes, copiado do mural de João Lopes, que não dorme. Paulo Martins “Como é que chegamos nesta situação, Manuel? O cara vive no sufoco. Já dormiu mal, deram-lhe uma pisada no trem, chegou cansado no trabalho, problema, cobrança, boato de demissões. Um inferno, à beira de um ataque de nervos. Está no meio de uma correria quando alguém grita: “Manuel, vai prá Madureira que sua mulher sobreu um acidente.” Meu Deus! Sequestra um taxi e berra: toca prá Madureira! Cinco minutos depois baixa o santo na porta-bandeira: “não me chamo Manuel, não moro em Madureira e não sou casado, o que é que eu estou fazendo aqui?” A estória é apenas um pretexto para lembrar a desgraça que produzem as situações de extrema tensão. A insegurança, a precarização da vida, a sensação de que existe um impasse permanente, sem luz no fim do túnel. Daí, a percepção da realidade se descontrola, a identidade se dilui: quem sou eu? Onde é que eu quero chegar? Esta é a situação ideal que um torturador deseja para seu prisioneiro: que ele esteja tão confuso que não apenas responda às perguntas, mas se disponha a cooperar completamente. E esta situação de interrogatório virou ciência aplicável a grupos humanos, a coletivos inteiros, como estratégia de controle social. Certa vez, um guru neoliberal disse, quando ainda estavam por baixo: nosso trabalho é preparar nossas ferramentas, nossas ideias e programas, treinar nosso pessoal. A crise vai aparecer e nós vamos aproveitá-la. E disse a frase chave: uma grande crise é um transtorno tal que aquilo que parecia inviável e inaceitável aparece para as pessoas como inevitável e desejável. Faltou acrescentar: você pode não apenas se preparar para a crise, mas preparar a crise, isto é, criar condições para que ela estoure. Agora se lembre do que vivemos nos últimos cinco anos, desde a segunda metade de 2013. No começo daquele ano, a oposição conservadora estava em desespero. Temia perder a eleição seguinte ainda em um primeiro turno. Afinal, o país enfrentara com sucesso a crise mundial e seguia com emprego, renda, oportunidades educacionais em expansão… Mas a direita tirou das manifestações de junho as lições que nenhuma esquerda tirou. Ela percebeu que podia domesticar e conduzir as ruas – como de fato conseguiu fazer, na segunda parte daquelas manifestações, expulsando a esquerda do controle. E começou a organizar seus ‘grupos de base”. Ao mesmo tempo, a inteligência norte-americana (NSA) ampliava a espionagem sobre pontos importantes (o governo federal, a Petrobrás). Em fevereiro de 2014 se lançou a campanha jurídica-midiativa-political chamada Lava-jato. Seu conômetro era preciso: ir em um crescendo até outubro, para virar as eleições. E quase deu certo. Por um triz, precisaram redesenhar o roteiro e adicionar novas fases ao golpe. Desde aquele momento, o país vive em um impasse permanente, o governo não governa, o judiciário e o congresso cercam o executivo federal, com a ajuda dos “governadores de oposição”. A sabotagem política tem consequências dramáticas para a economia e a sociedade. A mídia constrói o ambiente de ideias e sentimentos necessário para a percepção de uma realidade que ‘não pode continuar assim’. Isto não parou com o golpe, o impeachment. Seguiu adiante. Pessoas “equilibradas”, com vida menos instável e mais informadas podem ter paciência para suportar tal clima. O nosso falso Manuel da anedota não pode. Uma hora ou outra ele vai perder a coordenação de suas idéias e vontades, vai pular no taxi para Madureira, sem nem sequer saber o que está fazendo, no fim das contas. Basta um gatilho, como uma sequência de mensagens malucas e alarmistas. Ele vai entrar na cabine eleitoral e apertar o botão do “Dane-se”. É preciso tirar lições desse passado recente para enfrentar o futuro imediato. Uma dessas lições é perceber como se modelam as percepções e como se constroem as identidades e comportamentos das pessoas. Para isso colaboram pelo menos três tipos de fatores:
  1. As condições da vida material – principalmente a situação de precariedade criada ou ampliada pelas agruras de ganhar a vida.
  2. As práticas de socialização que nos restam – o modo como convivemos com os mais próximos
  3. Os aparatos ideológicos, que educam, informam, confortam e “distraem”: as igrejas, grito de espirito em um mundo sem espírito, e o aparelho da mídia, o reino do info-entretenimento, que modela nossa sensibilidade.
Se não compreendermos como esses fatores produziram o “terremoto” que vivenciamos agora, como ele foi produzido pacientemente, vamos nos desesperar e pensar que tudo é fruto de alguma loucura coletiva irremediável. Mas a loucura tem método, a loucura se produz. Quanto dura e como se altera depende de compreendermos suas raízes. Desesperar, jamais.”

O tempo e seus contratempos, por Fernando Brito

O tempo e seus contratempos
POR FERNANDO BRITO · 25/11/2018

Líderes políticos, como as andorinhas, não fazem seus verões voando sozinhos.

Sempre é arriscado dizer, daqui de nossa toca tropical, mas são cada vez maiores os sinais de que há uma espécie de “Primavera dos Imbecis” grassando no mundo e é tão claro que até são poucos os “otários” que acham que os as “revoluções coloridas” do Leste europeu, os levantes árabes, a eleição de Trump, a do nosso impensável presidente e, agora, os “coletes amarelos” da França são mesmo “uma rejeição à política tradicional” ou mesmo a sistemas arcaicos de poder que já não expressam as massas empoderadas pela internet e suas redes sociais.

Sim, é certo que a esquerda, ao deixar-se levar pelo engano de colocar as “pautas modernas” – identitárias, ecológicas, sexistas, todas importantes, sem dúvida – à frente das econômico-sociais, criou certa orfandade naquelas massas, absorvidas pela cooptação que transformou em “malditas” as ideias do século 20 sobre justiça social (impostos, salários, direitos trabalhistas, redes de proteção social) e sobre a prevalência do interesse social com algum grau de regulação dos capitais, o que vem de antes, até, da famosa Lei Anti-Trust norte-americana.

Mas a essência deste movimento está na financeirização completa do sistema econômico, que já bem pouca ligação tem com as estruturas produtivas – quem é o dono de que, na produção? – e que se rege apenas por um jogo que envolve especulação e controle da tecnologia. Não há mais a ideia do “lebensraun” – o espaço vital das nações, expresso pelos nazistas, mas desde antes praticado, notadamente com a expansão dos EUA, no século 19, com o nome de Doutrina do Destino Manifesto, que guiou a triplicação do território norte-americano.

O território, hoje, é o capital volátil.

Olhado de per si, o governo Bolsonaro seria algo incapaz de se sustentar até antes de sua posse. Mas é deste aparentemente “Verão da Estupidez” que a “Primavera dos Imbecis” prenuncia que ele obtém ambiente para, mesmo com toda a inorganicidade que revela, alcançar algum grau de viabilidade, ao menos por algum tempo.

Veremos retrocessos por toda a parte e que ninguém se iluda com a “resistência” que lhes poderemos opor. Não há argumento que possa se confrontar com o núcleo de boçalidade que se despertou na sociedade com a transformação da Justiça em órgão impugnador do pensamento de matriz humanista e de justiça social. E não serão – como não foram na eleição – as pautas “identitárias” que nos darão força capaz de enfrentá-los.

Ou alguém pretende travar uma discussão séria com gente que, hoje, lota os comentários dos grandes portais a dizer que o caso dos “coletes amarelos” da frança é uma reação ao “comunista” Emanoel Macron, que meses atrás era apontado como modelo mundial por gente – se me perdoam a força de expressão – como João Dória?

Os obstáculos são outros.

Em primeiro lugar, a impossibilidade de qualquer progresso harmônico, no Brasil e no mundo, que não passe pelo distributivismo e pela inclusão. A população do mundo desenvolvido, mesmo desconsiderando as populações marginalizadas dentro deles, não chega a 20% do total do planeta. Em segundo lugar, a dificuldade de se sustentar a unipolaridade da hegemonia dos EUA, esta que o energúmeno elevado a chanceler brasileiro professa como fé, contra as resistências, de maior ou menor grau, da velha Europa, da China, da Rússia e da Índia.

Em nosso “front” interno, não se sabe se o governo Bolsonaro conseguirá os frutos de alguma parca recuperação superficial da economia, que não é impossível diante da longa recessão que vivemos. Talvez nem isso, dado o nível de improviso e selvageria que nos virá. Mas, se chegarmos ao médio prazo, é do agravamento maior da concentração de renda que virá a erosão deste pavor que se vai erguendo no horizonte do país.

É impossível governar o país sem algum projeto de construção de justiça social, exceto pela força. E força, hoje, não basta para legitimar governos, até porque a própria direita acabou com a sacralidade de respeitá-los.

A história dá voltas, está longe de ser uma linha reta. Mas, como um rio, ainda que com seus meandros, desloca-se na direção do progresso humano.

É de estarrecer, por Luís Filipe Miguel

“O futuro ministro da Educação falou as bobagens de sempre sobre “ideologização” nas escolas. Embananou-se ao defender que a família é a responsável integral pela educação dos filhos, dizendo que ela é a “patria mater” – imagino que tenha querido dizer “cellula mater”. Mas vamos dar um desconto, porque, sendo colombiano, talvez ele não domine perfeitamente o latim do Brasil.

Emendou afirmando que a escola não tem responsabilidade nenhuma com a orientação de crianças que tenham problemas em casa: “Amor de pai e mãe ninguém substitui”. Parece só uma besteira, mas não é nada inocente. A equivalência automática entre família e amor é central para que se ignorem os abusos que com frequência ocorrem na esfera doméstica e impedir o reconhecimento dos mais novos como sujeitos de direitos.

Adiante, reclamou que um aluno de universidade pública custaria mais caro do que o de uma privada: “Alguém paga por isso. E no modelo tributário do Brasil é o trabalhador que está sustentando a classe média na universidade pública”. Temos aí a reprodução do mix de mentiras e omissões que sustenta a campanha contra a educação superior pública e gratuita no Brasil.

Primeiro, ele ignora o fato de que a educação superior não é um investimento social que visa a distribuição de bens privados (os diplomas), mas sim a produção de conhecimentos e competências úteis à coletividade. Segundo, a ideia de que o filho do trabalhador não chega à universidade pública desconsidera as políticas de democratização do acesso, que mudaram o perfil do estudantado. Se ele considera insuficiente o resultado alcançado, podia pensar em expandir e aprofundar essas políticas. Terceiro, se é o trabalhador que sustenta, então o ponto é mudar nossa estrutura tributária e fazer os ricos pagarem mais imposto. Ele podia apresentar essa proposta ao Paulo Guedes.

Por fim, para não me alongar muito, não dá para comparar o custo médio por estudante das universidades públicas e privadas sem colocar na conta: (a) a formação média dos professores; (b) os serviços prestados à comunidade, como hospitais universitários e trabalhos de extensão; (c) o investimento em pesquisa. Afinal, como o futuro ministro deveria saber, a universidade não é só a sala de aula. E, no Brasil, arredondando os números, a universidade pública responde por 100% da pesquisa, contra 0% das privadas”. (Observação: o autor arredondou os números, tendo em vista que existe pesquisa em uma ou outra universidade privada com maior tradição).

. O título é responsabilidade minha.

BNDES

Dyogo Oliveira afirma que não há evidências de corrupção no BNDES

Atual presidente do banco de fomento, Dyogo Oliveira voltou a rebater afirmações de que a instituição seria uma ‘caixa preta’, segundo acusações do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo
22 Novembro 2018 | 14h49
BRASÍLIA- O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Dyogo Oliveira, voltou a rebater nesta quinta-feira, 22, as acusações de que a instituição seria uma “caixa preta”, como disse o presidente eleito Jair Bolsonaro.

“O BNDES é hoje o banco mais transparente do mundo. Nenhum banco publica 100% de suas operações no site”, afirmou Oliveira, numa referência à seção BNDES Transparente, que disponibiliza, na internet, uma série de informações detalhadas sobre os contratos de financiamento, como taxas, prazos e garantias.

Dyogo Oliveira
O presidente do BNDES, Dyogo Oliveira, classificou a instituição como o ‘banco mais transparente do mundo’.
Oliveira também defendeu o corpo técnico do banco. “Não há nenhum empregado do BNDES sequer delatado”, afirmou o presidente do BNDES, em palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ). “O BNDES foi objeto de auditoria e investigação. Não há até o momento nenhuma evidência de que tenha havido ato de corrupção dentro do BNDES”, completou.

O presidente do BNDES reconheceu que há operações passíveis de crítica, mas defendeu inclusive o financiamento às exportações. “Tudo o que foi financiado pelo BNDES gera emprego, renda e atividade econômica no Brasil. Nenhum país decente deixa de apoiar suas exportações”, afirmou Oliveira, lembrando que países como Estados Unidos, Canadá e Alemanha têm instituições de financiamento ao comércio exterior.

‘BNDES não pode deixar vazio’
Dyogo Oliveira também afirmou nesta quinta-feira, 22, que a instituição de fomento seguirá como a principal responsável pelo financiamento de longo prazo na economia brasileira nos próximos anos, mesmo com uma mudança em seu papel, diante de um cenário de juros mais baixos.

Oliveira se disse “convicto de que o mercado de capitais está pronto para desabrochar”, mas ressaltou que esse processo levará tempo. “O BNDES vai continuar como principal financiador de longo prazo porque vai levar um certo tempo até que o mercado de capitais seja o financiador de longo prazo”, afirmou o presidente do BNDES, em palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ).

O executivo alertou que, nesse processo de substituição, o BNDES não pode “deixar um vazio”. “À medida que o BNDES vai saindo, o mercado vai entrando”, afirmou Oliveira.

O presidente reafirmou ainda a perspectiva de desembolsos na casa de R$ 70 bilhões neste ano. Segundo Oliveira, embora os desembolsos amarguem queda de 13% no acumulado de janeiro a outubro, as aprovações de novos empréstimos já registram alta de 10% no mesmo período. A aposta é que a demanda maior no fim do ano impulsione as liberações em novembro e dezembro.

Transição
Segundo Oliveira, as equipes da instituição de fomento já passaram informações para a transição ao governo de Jair Bolsonaro. Ainda não houve, contudo, reunião com o futuro presidente do banco, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy.

“Vamos começar uma interação mais amiúde nos próximos dias”, afirmou Oliveira, que classificou o processo de transição como “tranquilo”.

BNDES – LIVRO VERDE: NOSSA HISTÓRIA TAL COMO ELA É

Este artigo visa divulgar informações para orientar o debate acerca do importante papel do BNDES no fomento do desenvolvimento nacional nos 65 anos de existência do banco.

Em sua curta passagem como presidente do BNDES, Paulo Rabelo de Castro orientou a publicação de um livro, de 340 páginas, mostrando o papel fundamental exercido pelo BNDES na formação da base econômica do Brasil. Este livro está disponível, em arquivo PDF, no site do BNDES. Apresento, abaixo, o link para que as pessoas sérias e bem-intencionadas possam ter acesso a informações fidedignas sobre o papel do banco no financiamento da indústria nacional e, em especial, no financiamento da nossa expoertação de produtos e serviços.

O bolivariano (c.i.) Paulo Rabelo de Castro, neoliberal de diploma e carteirinha, mestre e doutor pela Universidade de Chicago, com atuação em instituições profissionais e de economia da direita brasileira, tais como: LIDE, FIESP, FECOMERCIO/SP e FGV, assina o prefácio.

Antes de sair ostentando seu desconhecimento e ignorância, antes de denegrir a imagem dos experientes e/ou jovens técnicos e profissionais do banco leia, por favor, com atenção e sem ranço ideológico superficial e retrógrado, este Livro Verde. A sociedade brasileira levou anos e investiu  grande soma de recursos públicos e privados escassos para criar esta importante instituição de fomento do desenvolvimento nacional e corremos o risco de, com uma canelada (canetada) inconsequente e vingativa do fascismo neoliberal que a partir de agora irá comandar os destinos do país, destruir o BNDES sem ter nada para colocar em seu lugar e ocupar seu importante institucional.

Paulo Martins

Observação: c.i. (Contém ironia)

web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/12697/2/LIVRO VERDE_2017_final.pdf


Título: Livro verde: nossa história tal como ela é
Título(s) alternativo(s): 65 anos: nossa história tal como ela é
Autor(es): Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Brasil)
Palavras-chave: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Brasil)
Brazilian Development Bank
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Brasil) – Financiamento
Brazilian Development Bank – Financing
Planejamento político – Brasil – 2001-2016
Political planning – Brazil – 2001-2016
Planejamento empresarial – Brasil – 2001-2016
Business planning – Brazil – 2001-2016
Alocação de recursos – Brasil – 2011-2016
Resource allocation – Brazil – 2001-2016
Financiamento do desenvolvimento – Brasil – 2001-2016
Development finance – Brazil – 2001-2016
Inovação – Financiamento – Brasil – 2001-2016
Inovation Finance – Brazil – 2001-2016
Captação de recursos – Brasil – 2001-2016
Fund-raising – Brazil – 2001-2016
Bancos de desenvolvimento
Development banks
Data do documento: 2017
Local: Rio de Janeiro
Descrição: Parte 1. Revisitando o período 2001-2016 — Capítulo 1. Relevância e desempenho do BNDES Capítulo 2. Fontes de financiamento utilizadas pelo BNDES — Capítulo 3. Prudência: crédito, risco e conformidade — Parte 2. Os avanços na atuação do BNDES — Capítulo 4. Atuação inovadora do BNDES nas políticas públicas — Capítulo 5. Presença territorial do BNDES — Apêndice 1. O apoio do BNDES: uma visão histórica — Apêndice 2. Os maiores clientes do BNDES – Referências – Glossário –Ficha técnica
Bibliografia: p. 322-329
Inclui glossário.
Citação: LIVRO verde: nossa história tal como ela é. Rio de Janeiro: BNDES, 2017. 333 p.
Tipo: Livro
Gênero: Textual
URI: http://web.bndes.gov.br/bib/jspui/handle/1408/12697
Data Acesso: 2017-07-17T21:13:39Z
2018-03-19T19:23:48Z
Data Disponibilização: 2017-07-17T21:13:39Z
2018-03-19T19:23:48Z
Editor: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
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