Um ponto de partida para 2015 – José Graziano da Silva

Compartilho artigo publicado no Jornal Valor Econômico, de hoje, escrito por José Graziano da Silva. O texto trata da distribuição de renda, erradicação da fome e redução da miséria. O autor é diretor-geral da FAO/Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação e seu currículo pode ser encontrado ao final do texto. Entendo que o principal ponto do texto é a afirmação, exaustivamente repetida nos últimos anos, de que “o mundo produz alimentos suficientes para abastecer toda a humanidade. O elemento escasso é o acesso à distribuição equitativamente da oferta disponível”. Mesmo assim, 800 milhões de pessoas passam fome no mundo.

Paulo Martins

26/12/2014

Um ponto de partida para 2015

Por José Graziano da Silva
O lema da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – tem guiado sociedades mundo afora nos últimos dois séculos. Seus atributos, no entanto, adquiriram peso e significado distintos ao longo das últimas décadas.

Os mercados tornaram-se cada vez mais livres, por exemplo. Mas, sem igualdade e fraternidade, nem por isso mais capazes de compartilhar a riqueza produzida com a grande massa excluída dos frutos da civilização.

Ainda assim, há novidades, e são promissoras.

Criar condições para a inclusão daqueles que hoje orbitam à margem da sociedade requer um amplo leque de políticas públicas que promovam a dignidade com proteção social, capacitação, educação, acesso a serviços de saúde, saneamento e infraestrutura básica.

Do economista francês Thomas Piketty à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), acumula-se argumentos a evidenciar como a desigualdade afeta toda a economia e não apenas seus integrantes mais pobres. Sobretudo, ela afetaria a própria reprodução da riqueza ao reduzir o ritmo do crescimento no longo prazo estreitando, desse modo, o horizonte do investimento.

Ensaia-se um novo consenso no século XXI: ao contrário do que nos fizeram crer, que era preciso crescer para ter o que distribuir, hoje, mais que nunca, é preciso distribuir para poder crescer mais depressa!

E não é só uma questão de intensidade. A desigualdade, a exclusão, a falta de direitos mínimos semeiam violência, conflito e guerra.

Não há exagero em dizer que sem segurança alimentar e nutricional, por exemplo, não há segurança no sentido integral da palavra. A angustiante circularidade entre conflito e fome será justamente o tema de intervenção que farei no encerramento da presidência brasileira da Comissão de Construção da Paz das Nações Unidas, no próximo mês, em Nova York.

Nas últimas décadas a humanidade chegou à lua; levou um robô a Marte. A globalização estreitou os espaços entre pessoas e países; a economia mundial cresceu a passos rápidos. Convive-se, no entanto, com um contingente de mais de 800 milhões de pessoas com fome; um número ainda maior sobrevive em situação de miséria; bilhões não têm acesso à educação, saúde, saneamento básico e outros serviços que demarcam, por exemplo, o divisor entre a criança pobre e o potencial da infância saudável e digna.

É forçoso insistir: o que separa um do outro não é a escassez, mas o paradoxo da abundância.

O mundo produz alimentos suficientes para abastecer toda a humanidade. O elemento escasso é o acesso à distribuição equitativa da oferta disponível.

Avanços inegáveis ocorreram nas últimas décadas. O número de pessoas com fome caiu em 200 milhões desde 1990; a proporção de pessoas com fome recuou cerca de 40%. O saldo é claro: é possível avançar, mas é preciso reordenar o caminho.

Insistir no mesmo percurso não é mais suficiente. Ademais de universalizar experiências que estão dando certo é preciso construir outras novas para velhos problemas redesenhados por contornos inéditos.

Se a história recente ensina algo é que o enfrentamento desse acervo de velhos e novos desafios só ocorrerá com a rapidez e a intensidade requeridas se não for deixado simplesmente ao sabor de automatismos de mercado. Promover a inclusão social é dever do Estado. Há inúmeras evidencias dessa aptidão histórica que o Brasil ilustra com clareza.

Quando a luta contra a fome tornou-se prioridade do governo brasileiro, em 2003, os avanços aconteceram aos saltos. As estatísticas da Organização das Nações unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) o comprovam.

No período de 1990-92 a 2000-2002 a proporção de pessoas com subnutrição no Brasil caiu em quase um-terço, de 15% para 11%. Desde então, esse indicador caiu mais de cinco vezes para menos de 2%.

A recém divulgada Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2013 confirma essa trajetória na percepção cotidiana das próprias famílias brasileiras. Segundo os dados da Pnad, a proporção dos que se sentem vivendo em insegurança alimentar grave caiu para 3% concentrada, principalmente, nas regiões Norte e Nordeste, onde o mercado informal empurra a dieta dos mais pobres para o balcão do fiado no final do mês.

A contrapartida da ação pública no plano internacional responde pelo nome cooperação. Mais que nunca ela deve ordenar as relações entre países para equacionar a dimensão global desses problemas. Há poucas semanas vimos como isso pode ser eficaz. Diante do risco de um corte na assistência alimentar à Síria, a comunidade internacional agiu tempestivamente. Foi uma ação articulada, rápida, eficaz. Cooperação significa aplicar essa mesma prontidão a serviço do desenvolvimento, não apenas do socorro pontual.

“Os miseráveis não nos pedem esmolas, mas dignidade”, disse muito apropriadamente o papa Francisco, há poucas semanas, falando à Segunda Conferência Internacional de Nutrição na FAO.

Criar condições para a inclusão daqueles que hoje orbitam à margem da sociedade requer um amplo leque de políticas públicas que promovam a dignidade com proteção social, capacitação, educação, acesso a serviços de saúde, saneamento e infraestrutura básica. Há recursos para fazê-lo, assim como há alimentos para combater a fome.

O desafio é direcioná-los às políticas e agendas que restituam ao trinômio liberdade, igualdade e fraternidade a condição de bússola do nosso tempo.

Um bom ponto de partida consiste em refletir sem preconceitos sobre o sentido ecumênico do que disse o papa na FAO. Mais do que uma anomalia econômica, ele disse que os paradoxos do nosso tempo refletem a omissão de uma sociedade que se rendeu à condição de apêndice dos automatismos econômicos. E condensa a sua alternativa em uma frase: “A solidariedade, desde que entendida no seu sentido mais profundo, é uma forma de fazer história”.

José Graziano da Silva é diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)

José Graziano da Silva
José Graziano da Silva trabalha em segurança alimentar, desenvolvimento rural e questões agrícolas há mais de 30 anos e é o atual diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, sigla em inglês). À frente da FAO, tem enfocado o trabalho da organização em torno da erradicação da fome, produção sustentável, redução da pobreza rural, fortalecimento de sistemas alimentares eficientes e inclusivos, e aumento da resiliência de comunidades rurais. No Brasil, coordenou a equipe que elaborou o Programa Fome Zero e foi responsável por sua implementação como ministro Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome no governo Lula. É licenciado em Agronomia e Mestre em Economia e Sociologia Rural pela USP, doutor em Ciências Econômicas pela UNICAMP e tem pós-doutorados no University College of London e University of California, Santa Cruz. Foi professor titular e coordenador do programa de mestrado e doutorado em Desenvolvimento Econômico, Espaço e Meio Ambiente do Instituto de Economia da Unicamp. É autor de várias publicações vinculadas ao tema de desenvolvimento rural, segurança alimentar e economia agrícola, entre eles O que é a questão agrária e De boias-frias a empregados rurais.
Siga José Graziano da Silva no twitter: @grazianodasilva

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