A Areia Traída – Pablo Neruda


Talvez o olvido sobre a terra como uma capa
possa desenvolver o crescimento e alimentar a vida
(pode ser) como o húmus sombrio no bosque.

 Talvez, talvez o homem como um ferreiro acuda
à brasa, aos golpes de ferro sobre o ferro,
sem entrar nas cegas cidades do carvão,
sem fechar os olhos, precipitar-se abaixo
em fundições, as águas minerais, catástrofes.

 Talvez, porém meu prato é outro,
meu alimento é diverso:
meus olhos não vieram para morder olvido;
meu lábios se abrem sobre todo o tempo, e todo o tempo
não só uma parte do tempo
gastou as minhas mãos.

 Por isso te falarei destas dores que quisera afastar,
te obrigarei a viver uma vez
mais entre suas queimaduras,
não para nos determos como numa
estação, ao partir,
nem tampouco para golpear com o rosto a terra,
nem para enchermos o coração de água salgada,
mas para caminhar conhecendo,
para tocar a retidão com decisões infinitamente carregadas de sentido,
para que a severidade seja uma condição da alegria,
para que assim sejamos invencíveis.

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