Desespero político: o verdadeiro motivo das execuções na Indonésia

Joko Widodo é o presidente da Indonésia responsável pelo assassinato por fuzilamento de seres humanos.

Elizabeth Pisani, do The New Yorker, publicou um artigo em 1o. de maio passado intitulado “Widodo’s Desperate Executions”. Sua tese é que a decisão de Widodo vem de uma posição de extrema fraqueza política. Pisani explica o pano de fundo político da Indonésia e analisa a carreira política de Widodo. Segundo ela, Widodo é um fala mansa,  modesto ex-vendedor de móveis, com uma carreira política de sucesso desenvolvida fora do centro principal de poder e escolhido por 53% dos eleitores. Estes eleitores aparentemente sinalizaram que eles queriam se verem livres da velha elite que controlou a política e o poder na Indonésia desde a sua independência.

A Indonésia não é um país simples de ser governado. Tem 250 milhões de habitantes, cerca de 300 grupos étnicos e fala cerca de 600 línguas. A confusão política também não é simples de ser administrada.

Widodo lidera uma coalizão minoritária no parlamento nacional. Sendo um político de fora de Jakarta e não pertencente à elite política, não tem vida fácil com a oposição.

Widodo é considerado um marionete nas mãos da ex-presidente Megawati Sukarnoputri, a filha do primeiro presidente da Indonésia,  Sukarno. Ela sempre coloca o presidente Widodo em dificuldades, em verdadeiras saias-justas.

Para recuperar sua credibilidade, Widodo escolheu caminhos fáceis, que dependem somente de decisões do Poder Executivo. A execução de traficantes internacionais de drogas é um destes.

Nos últimos 15 anos antes da posse de Widodo, 7 estrangeiros foram executados. No governo de Widodo, em menos de 2 anos, 20, sendo 18 estrangeiros. Os assassinatos gozam de surpreendente apoio popular: 86% da população apoia as execuções.

A verdade é que o uso de drogas não chega a ser um problema na Indonésia e o número de pessoas que experimentaram drogas é muitíssimo menor do que o apresentado em outros países.

Existem diversas formas de enfrentar a catástrofe das drogas. Assassinar traficantes internacionais que já estavam presos há mais de 10 anos, além de não ser eficaz para reduzir o consumo de drogas, é desumano.

Segundo o artigo, condenados à pena de morte relataram casos de solicitação de propinas por autoridades na Indonésia para aplicação de sentenças mais suaves. O brasileiro Rodrigo Gularte, executado pelo governo da Indonésia na semana passada e enterrado hoje no Paraná, foi diagnosticado sofrer de esquizofrenia. Ninguém demandou que Rodrigo fosse solto. Todos solicitaram clemência e tratamento psiquiátrico. Não custava nada adiar a execução e enviar o doente para tratamento. Conheço animais mais bem tratados.

O governo da Austrália chamou as execuções de crueis e desnecessárias pois os dois prisioneiros australianos já estavam regenerados após 10 anos de prisão. O embaixador australiano foi chamado à Austrália para consultas com o seu governo. Trata-se, infelizmente, de mero gesto simbólico.

Widodo nem se abala. Ele é fraco politicamente e precisa desesperadamente mostrar-se forte a seus eleitores. O método escolhido, insisto, é cruel e desumano, digno de um Hitler disfarçado.

Hitler também teve apoio popular e colaboração para seus crimes em determinado período. Deu no que deu.

Acho que é desnecessário argumentar que a pena de 10 anos de prisão mais execução por fuzilamento foi desproporcional ao crime praticado – tentativa de entrar na Indonésia com 6 kg de cocaína. Como foi preso, não consumou seu crime nem causou mal a ninguém. Não estou defendendo traficantes, estou registrando a crueldade da sentença. Repito o argumento de Norberto Bobbio em artigo publicado neste blog sob o título de “Contra a pena de morte”:

“O Estado não pode colocar-se no mesmo plano do indivíduo singular. O indivíduo age por raiva, por paixão, por interesse, em defesa própria. O Estado responde de modo mediato, reflexivo, racional. Também ele tem o dever de se defender. Mas é muito mais forte do que o indivíduo singular e, por isso, não tem necessidade de tirar a vida desse indivíduo para se defender. O Estado tem o privilégio e o benefício do monopólio da força. Deve sentir toda a responsabilidade desse privilégio e desse beneficio”.

Resta continuarmos protestando e apoiar o trabalho contra as penas de morte que Angelita Muxfeldt, prima do Rodrigo, pretende desenvolver.

Nesta noite está fazendo uma bela lua cheia. Fotografei e colei  a imagem neste post para lembrar que nos resta um pouco de humanidade. Para alguns,  infelizmente, o assassinato de pessoas por motivos fúteis, é apenas mais uma notícia. Fato que se torna corriqueiro, como a mudança da lua lá fora. O fundo preto significa o luto pela morte do humanismo. Força, Angelita.

 

 

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